{"id":6357,"date":"2025-08-13T09:22:00","date_gmt":"2025-08-13T12:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-25T09:24:59","modified_gmt":"2025-10-25T12:24:59","slug":"capitulo-01","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/white-devil\/capitulo-01\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 01"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"right\"><strong>LONDRES \u2022 AGORA.<\/strong><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003O carro havia sido<\/span> deixado para tr\u00e1s \u00e0s pressas. Mal estacionado, parcialmente sobre a guia, com o pisca alerta ligado e as portas destravadas. Miguel Cortez havia sido descuidado, e <em>isso<\/em> era tudo o que ele precisava; um <em>deslize<\/em>.<br \/>\u2003\u2003Os olhos %azuisescuros% dele percorreram o restante da rua residencial, agora deserta. A falta de movimenta\u00e7\u00e3o era um convite para a conclus\u00e3o err\u00e1tica de que n\u00e3o haveria perigo, exceto que n\u00e3o era esse o caso, certo? <em>Sempre<\/em> havia algu\u00e9m nas sombras, se voc\u00ea tivesse paci\u00eancia o suficiente. \u00c9 claro que ele havia verificado aquela rua pelo menos duas vezes, suas ordens haviam sido precisas, econ\u00f4micas, ele n\u00e3o gostava de trabalhar <em>com muito<\/em>; Jean-Luc estava na entrada do quarteir\u00e3o, no in\u00edcio do <em>Hyde Park<\/em> a duas ruas de onde ele estava, enquanto Ren\u00e9 a dois pr\u00e9dios atr\u00e1s, em um apartamento alugado por ele por fachada, permanecia posicionado entre a segunda janela, com uma vis\u00e3o clara da rua, mas especialmente do carro de Cortez, <em>sniper<\/em> na m\u00e3o, aguardando qualquer ordem que %Darren% %Gauthier% pudesse lhe comandar. Ele era cuidadoso demais para deixar-se acreditar que somente aquilo funcionaria.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Darren% %Gauthier% <em>sempre<\/em> tinha um plano.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Para cada potencial falha que poderia vir a ocorrer, o dem\u00f4nio tinha um plano de conting\u00eancia e uma nova rota a ser percorrida. Se acaso o plano A falhasse, haveria o B e o C, e se estes tamb\u00e9m viessem a tornar-se um problema, ent\u00e3o ele simplesmente iria seguir para o D, e ent\u00e3o o E, posteriormente o F, o nomeado com a letra G, talvez at\u00e9 considerasse o H, e se acaso\u2026 bem, voc\u00ea j\u00e1 entendeu. Mas ele precisava admitir, mesmo para seus pr\u00f3prios m\u00e9todos, <em>aquele<\/em> plano havia sido minuciosamente calculado; sua meticulosidade se dera por delibera\u00e7\u00e3o, talvez at\u00e9 mesmo um desejo de retribui\u00e7\u00e3o. Se <em>ela<\/em> queria brincar de <em>morta<\/em>, ent\u00e3o %Darren% %Gauthier% lhe ofereceria <em>o melhor<\/em> enterro que poderia ter; faria quest\u00e3o de estar presente segurando a porra da p\u00e1.\u00a0<br \/>\u2003\u2003E ele come\u00e7aria por <em>Cortez<\/em>.<br \/>\u2003\u2003Deixou-se recostar contra o estofado macio de seu <em>Corvette Stingray C7<\/em><em>,<\/em> ouvindo o ru\u00eddo suave de sua jaqueta de couro misturar-se com o couro do assento, repousou seu cotovelo esquerdo sobre o apoio da porta, seus olhos %azuisescuros% se estreitando brevemente, tocou com a ponta de seu polegar o material liso de ouro que envolvia seu dedo anelar, girando-a, por h\u00e1bito, contra sua pele. A alian\u00e7a de casamento, uma faixa de ouro puro, era simples, apenas uma faixa grossa sobre o dedo dele, uma parte de seu corpo, \u00e0quela altura \u2014 ou talvez estivesse sendo apenas dram\u00e1tico. Carregava agora alguns arranh\u00f5es mais profundos onde seu descuido havia custado um pouco caro, mas permanecia ali, intacta. Assim como a <em>mem\u00f3ria dela<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003<em>Vadia maldita<\/em><em>\u2026\u00a0<\/em><br \/>\u2003\u2003O sorriso amargo <em>quase<\/em> pintou seu rosto neutro, sua unha fincando no veio mais fundo que se formava no ouro da alian\u00e7a, distra\u00eddo, antes de afastar o pensamento de sua mente. Desviou seu olhar da alian\u00e7a para a entrada do pr\u00e9dio residencial onde Cortez havia sumido h\u00e1 alguns minutos. Foi recompensado, no entanto, com uma vis\u00e3o interessante. Cortez, com todas suas tatuagens e marcas dos <em>Gigantes<\/em>, capuz sobre a cabe\u00e7a e express\u00e3o ansiosa, discutindo com uma bela morena, de cal\u00e7a jeans justa e cabelos longos lisos presos em um rabo de cavalo. Ela gritava alguma coisa em espanhol que %Darren% n\u00e3o se deu ao trabalho de tentar entender. Um nome destacou-se todavia, <em>Isabella<\/em>. %Darren% estreitou os olhos, inclinando sua cabe\u00e7a um pouco para tr\u00e1s deixando seu olhar vagar por um momento, buscando por qualquer coisa que pudesse encontrar que revelasse onde a mulher que discutia com Cortez provavelmente vivia, e algo que pudesse usar para sua vantagem.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o precisou de muito, com o rostinho mi\u00fado projetando-se precariamente por entre as persianas, olhinhos arregalados, tentando assistir a confus\u00e3o que seus pais estavam fazendo na rua. %Darren% parou momentaneamente de girar sua alian\u00e7a, observando o rosto da crian\u00e7a e considerando as informa\u00e7\u00f5es que ele tinha em suas m\u00e3os: pelo tamanho, tinha no m\u00e1ximo 3 anos, pela janela que tentava assistir, o apartamento deveria ficar no t\u00e9rreo, e pelo tom da mulher, Cortez n\u00e3o era bem-vindo ali. Bom, <em>muito<\/em> bom. %Darren% al\u00e7ou seus \u00f3culos escuros do porta luvas do carro de luxo, descendo com movimentos deliberados, calculadamente casuais, ao ajustar os \u00f3culos em seu rosto.\u00a0<br \/>\u2003\u2003O vento outonal atingiu seu rosto, afastando algumas mechas de seus cabelos lisos, alguns cent\u00edmetros maiores do que de fato ele apreciava, o corte <em>curtain<\/em> a essa altura perdido ainda que a franja repartida no centro pendesse por seus olhos %azuisescuros%. Carregava consigo o aroma de Londres, aquela mistura \u00fanica de gases t\u00f3xicos automotivos queimando a c\u00e9u aberto, terra molhada, lixo a c\u00e9u aberto e at\u00e9 mesmo notas do <em>T\u00e2misa<\/em> naquele emaranhado. O primeiro instinto que se tinha era de cuspir no ch\u00e3o, ou vomitar, dependendo da fragilidade de seu est\u00f4mago, mas %Darren% conteve uma careta ao caminhar vagarosamente na dire\u00e7\u00e3o do carro de Cortez. Franziu o cenho por um breve momento, fingindo ter um interesse maior do que de fato possu\u00eda para o c\u00e9u, observando as nuvens nubladas que se formavam no horizonte, ainda aquela noite choveria, teria dito sua tia como se aquela porra de informa\u00e7\u00e3o significasse algo <em>importante<\/em>. %Darren% afastou o pensamento com um quase sorriso ir\u00f4nico, ajeitando apenas por h\u00e1bito sua jaqueta de couro, verificando o rel\u00f3gio caro no pulso direito antes de convenientemente atravessar a rua no momento em que Cortez marchou furioso em dire\u00e7\u00e3o ao carro largado precariamente na rua.<br \/>\u2003\u2003%Darren% abriu a porta dos bancos traseiro sem a menor cerim\u00f4nia, adentrando no <em>lowrider<\/em> importado de Cortez, o cheiro de maconha, desinfetante e algo que lembrava vagamente a <em>jasmim<\/em>. \u00c9 claro, aromatizante para fingir que a porra do carro estava limpo, como se jogar uma s\u00e9rie de perfumes caros sobre um corpo ocultaria o estado de putrefa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ado, <em>genial<\/em>. %Darren% ajustou-se no banco, sentindo-o ceder ao peso de seu corpo, abrindo as pernas propositalmente para ocupar o espa\u00e7o do banco traseiro, apoiou o bra\u00e7o direito sobre o encosto do carro, com o olhar fixo em Cortez.\u00a0<br \/>\u2003\u2003De primeira, o mexicano soltou um palavr\u00e3o de alto e bom som, virando-se na dire\u00e7\u00e3o do banco traseiro do carro, tentando entender o que estava acontecendo, mas ent\u00e3o, seus olhos escuros pareceram registrar o semblante deliberado de %Gauthier%. Os \u00e2ngulos elegantes e afiados do rosto de %Darren% acentuados pela penumbra projetada pelo carro, acentuando as ma\u00e7\u00e3s do rosto altas e elegantes, al\u00e9m da curva perigosa de seus l\u00e1bios, revelando o sorriso afiado, torto. Um sorriso despreocupado, enviesado, mas com algo perigoso, uma linha invis\u00edvel. Um vago lembrete do <em>porqu\u00ea<\/em> ele havia ganhado a alcunha que tinha.<br \/>\u2003\u2003Cortez al\u00e7ou o rev\u00f3lver de 38mm com um movimento atrapalhado, a m\u00e3o que empunhava a arma tremendo enquanto apontava na dire\u00e7\u00e3o do peito de %Gauthier%. De onde estava, o tiro seria a queima roupa, uma morte instant\u00e2nea e indubit\u00e1vel. N\u00e3o tinha como sobreviver \u00e0quilo, e, no entanto, n\u00e3o havia nenhum <em>pingo<\/em> de medo no rosto de %Darren%, pelo contr\u00e1rio, o homem deixou-se relaxar um pouco mais no assento, escorando suas costas no encosto do carro, esperando, paciente, para a pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o de Miguel. Seu sorriso, todavia, se tornou mais afiado, perigoso, desprovido de quaisquer tra\u00e7os de humor. Era como observar o diabo \u00e0 sua frente, observando-o entreter-se com a pequenez de seus pecadores implorando por miseric\u00f3rdia.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Misturado com o perigo que emanava de %Gauthier%, havia igualmente aquela ponta s\u00e1dica de prazer ao observar seu alvo <em>exatamente<\/em> no lugar que ele desejava. Um prazer um pouco mais profundo e pessoal de observar as pe\u00e7as se moverem de acordo com o que ele havia previsto.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 V\u00e1 em frente \u2014 %Darren% pronunciou-se finalmente quebrando o sil\u00eancio tenso que havia se instalado dentro do <em>lowrider<\/em>, erguendo o queixo, desafiador, retirando os \u00f3culos escuros de seu rosto para que Miguel pudesse encar\u00e1-lo nos olhos. %Darren% <em>gostava<\/em> de encarar as pessoas no fundo de seus olhos; os olhos <em>nunca<\/em> mentiam. %Darren% ergueu uma sobrancelha, seu sorriso aumentando um pouco mais. \u2014 Atira.<br \/>\u2003\u2003Era um jogo com sorte. Est\u00fapido e inconsequente, at\u00e9 mesmo suicida de certa forma, mas ainda assim, calculado. N\u00e3o passava de uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder, um flerte com a morte, evidente, mas ainda assim, um desafio silencioso para qualquer um que se atrevia a colocar-se em seu caminho, um jogo justo: Miguel poderia mat\u00e1-lo ali mesmo, poderia atirar em seu peito e %Darren% morreria em menos de cinco minutos. Mas Cortez n\u00e3o faria isso, porque <em>sabia<\/em> o peso que tal a\u00e7\u00e3o carregaria. Se Miguel estivesse fora de si e apertasse o gatilho, o problema dele n\u00e3o acabaria com a morte de %Darren%, <em>se iniciaria<\/em>. Porque a morte de %Darren% n\u00e3o alterava as pe\u00e7as no tabuleiro, ele ainda seria o <em>Dem\u00f4nio Branco<\/em> na porra de um caix\u00e3o, as ordens ainda <em>valeriam<\/em>, e Miguel perderia <em>tudo<\/em> o que possu\u00eda. Porque o truque n\u00e3o estava na for\u00e7a f\u00edsica que um demonstrava, ou na monstruosidade e atrocidades que se era capaz de fazer, c\u00e9us, nem mesmo na <em>frieza<\/em> que alguns gostavam de mostrar como se isso significasse <em>algo<\/em>. O truque era encontrar o ponto fraco, a vulnerabilidade que se possu\u00edam, a <em>exce\u00e7\u00e3o<\/em> que eles estariam dispostos a salvar custasse o que custasse, e us\u00e1-la como bem lhe servia.\u00a0<br \/>\u2003\u2003E a de Cortez encontrava-se no apartamento t\u00e9rreo, \u00e0 esquerda, a alguns metros distantes de onde o carro dele estava estacionado. Miguel n\u00e3o arriscaria porque simplesmente <em>n\u00e3o podia<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Cortez xingou por baixo de sua respira\u00e7\u00e3o, mas as m\u00e3os dele tremeram. Os olhos %azuisescuros% de %Darren% brilharam, como os de um gato. Obscurecidos parcialmente pela penumbra do carro, as \u00edris %azuisescuros% pareciam ficar <em>ainda<\/em> mais intensas, a cor mais v\u00edvida. %Darren% inclinou a cabe\u00e7a um pouco para a direita, seu sorriso aumentando minimamente.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Quem \u00e9 vivo sempre aparece, huh? Miguel Cortez, <em>el Gigante<\/em>, em carne e osso \u2014 %Darren% se pronunciou, deliberado e com um divertimento sombrio, seu sotaque cajun escapando por entre suas palavras, envolvendo-as quase como um ronronar felino, pelo tom de voz baixo e \u00e1spero. Os olhos %azuisescuros% permaneceram fixos, vidrados nos de Miguel, observando-o com intensidade. A arma apontada para seu peito ainda com a mira travada apesar da m\u00e3o tr\u00eamula do outro homem. %Darren% estreitou os olhos, inclinando-se um pouco para frente, propositalmente colocando-se mais perto da arma apontada. \u2014 Sabe, eu ouvi <em>muitas<\/em> hist\u00f3rias sobre voc\u00ea. A fronteira? Oh, eu preciso admitir, eu gostava do seu estilo. Implac\u00e1vel, preciso, mandava o recado, huh? Mas ent\u00e3o, de uma hora para outra a grande lenda das ruas de <em>El Paso<\/em> simplesmente entrega o cargo para Javier, e ent\u00e3o desaparece. \u2014 %Darren% ajustou seus quadris no assento, deixando-se deslizar um pouco mais para frente, dando de ombros. Ergueu o queixo, mais de forma desafiadora do que qualquer outra coisa, usando a ponta de seu \u00f3culos escuros para co\u00e7ar a lateral de sua mand\u00edbula bem marcada e cortante como uma navalha. A barba por fazer ro\u00e7ando o material caro dos \u00f3culos. \u2014 Cria perguntas, <em>non?<\/em>\u00a0<br \/>\u2003\u2003O rosto de Miguel se crispou um pouco mais, o medo misturando-se com a raiva, enquanto a adrenalina da surpresa come\u00e7ava a diminuir e seu c\u00e9rebro come\u00e7ava a registrar o que estava acontecendo. %Darren% permaneceu imperturb\u00e1vel.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea\u2026 como\u2026 quando\u2026 \u2014 Miguel gaguejou, as palavras em ingl\u00eas misturando-se com o espanhol pesado, evidenciando seu nervosismo. %Darren% ergueu uma sobrancelha, indicando com a m\u00e3o para que Miguel tomasse o tempo que precisava para formular uma frase coerente. O ato deliberado de desprezo pareceu apenas inflamar mais a raiva de Cortez. %Darren% segurou-se para n\u00e3o rir. \u2014 <em>Ay que est\u00e1s muy lejos de casa, pendejo de mierda<\/em>\u2014 cuspiu Miguel. Os dedos do mexicano apertaram com mais for\u00e7a a coronha, o dedo se curvou um pouco mais no gatilho. \u2014 Cai fora do carro agora, c\u00ea n\u00e3o comanda <em>nada aqui<\/em>, ca\u00ed fora antes que eu\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 E arriscar <em>sua<\/em> <em>Isabella<\/em>? \u2014 %Darren% pronunciou o nome com \u00eanfase, desafiando Miguel a negar ou ignorar o aviso silencioso em suas palavras, a informa\u00e7\u00e3o compartilhada e o conhecimento de %Gauthier% sobre a crian\u00e7a. O sorriso de %Darren% desapareceu de seu rosto. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o ousado, \u00e9? \u2014 Inclinou-se mais para frente, sustentando o olhar do outro. Os olhos %azuisescuros%, vidrados nos de Miguel, pareceram adquirir uma sombra profunda. N\u00e3o era o olhar de uma amea\u00e7a, %Darren% %Gauthier% n\u00e3o amea\u00e7ava <em>ningu\u00e9m<\/em>. %Darren% %Gauthier% apenas <em>avisava<\/em> os outros do que iria fazer, cabia \u00e0 pessoa acreditar no aviso ou n\u00e3o, mas ele <em>sempre<\/em> fazia. \u2014 Quantos anos ela tem agora, Cortez? 3 anos? 4 anos? Menores que ela j\u00e1 desapareceram por muito menos \u2014 %Darren% sugeriu com o fantasma de um sorriso pairando por seus l\u00e1bios, mas era frio e desprovido de humor. Ele inclinou a cabe\u00e7a para o lado novamente apontando na dire\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio. \u2014 Quanto tempo at\u00e9 perceberem que ela se foi? Voc\u00ea sabe, querendo ou n\u00e3o, crian\u00e7as <em>s\u00e3o<\/em> um bom commodity hoje em dia. \u00c9 <em>bem<\/em> mais f\u00e1cil de domesticar.<br \/>\u2003\u2003Miguel viu vermelho, por um segundo tentou avan\u00e7ar no pesco\u00e7o de %Darren%, mordendo a isca que ele havia jogado. \u00c9 claro que o faria, se a garotinha fosse seu ponto fraco, ent\u00e3o Miguel estava disposto a fazer de <em>tudo<\/em> para mant\u00ea-la a salvo. E ent\u00e3o, foi quando ele percebeu. A <em>menina<\/em> foi a motiva\u00e7\u00e3o para sua sa\u00edda de El Paso, mas a pergunta principal era <em>como<\/em>, ou melhor, <em>quem<\/em> o ajudou. Naquele mundo n\u00e3o havia sa\u00eddas f\u00e1ceis, ou aposentadorias, havia apenas uma forma de sair e era dentro da porra de um caix\u00e3o. Miguel, evidentemente, n\u00e3o estava morto.<br \/>\u2003\u2003Se aquela n\u00e3o era a sorte de %Darren%, de repente, todos os mortos estavam voltando \u00e0 vida.<br \/>\u2003\u2003Trincou a mand\u00edbula com um estalo baixo, um m\u00fasculo saltando por suas bochechas com a tens\u00e3o e o movimento, acentuando mais ainda sua mand\u00edbula cortante. Os olhos se estreitaram observando em sil\u00eancio Miguel. Era como encarar a porra de um cachorro, podia ver a saliva escorrendo entre os xingamentos que eram latidos, a viol\u00eancia desesperada escrita em seus olhos enquanto calculava se valia mesmo a pena condenar tudo o que mais queria proteger por mero orgulho e ego.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Chega, Cortez \u2014 cortou %Darren%, sentindo uma ponta de impaci\u00eancia come\u00e7ar a tingir seu tom de voz baixo. Ele ajeitou sua jaqueta, oferecendo seu sorriso afiado mais charmoso para o mexicano, dando de ombros. \u2014 <em>Tsc<\/em><em>, <\/em><em>couillon<\/em>, eu n\u00e3o tenho interesse algum em tornar voc\u00ea meu inimigo \u2014 %Darren% chiou com falsa serenidade. Ergueu ent\u00e3o o indicador, silenciando Cortez antes que o outro pudesse dizer algo mais. Sustentando o olhar de Miguel, %Darren% enfiou sua m\u00e3o esquerda dentro do bolso de sua jaqueta de couro, e ent\u00e3o arremessou o saco de papel com o fundo molhado e obscurecido por sangue no assento do passageiro ao lado de Miguel. O rosto de %Darren% agora era p\u00e9treo, intenso. \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o me torne <em>o seu<\/em>. V\u00e1 em frente, abra seu presente. \u2014 %Darren% indicou com seu queixo na dire\u00e7\u00e3o do saco de papel, mas Miguel n\u00e3o fez men\u00e7\u00e3o alguma de al\u00e7\u00e1-lo.<br \/>\u2003\u2003%Darren% moveu sua mand\u00edbula, suas m\u00e3os tremendo com um espasmo inconsciente. Fechou-as em punhos firmes, tensos, controlando seu pr\u00f3prio temperamento.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Um longo sil\u00eancio recaiu sobre os dois homens que se encaravam como animais selvagens prontos para brigar. A diferen\u00e7a era n\u00edtida, todavia, a postura de Cortez evidenciava uma tens\u00e3o gritante pronta para fuga, o desespero e o medo permeando seus olhos, mesmo que estivesse tentando ocult\u00e1-las pelo v\u00e9u intenso da raiva, havia medo puro, o mesmo medo que animais selvagens sentiam quando se percebiam encurralados. E ent\u00e3o, havia %Darren% %Gauthier%, encarando-o como se pudesse enxergar o mais profundo de sua alma, e exatamente onde fraturou-se, como se j\u00e1 soubesse a resposta que buscava, mas estivesse deliberadamente brincando com seu alvo como um gato pregui\u00e7oso. A presa j\u00e1 estava capturada, um ataque fatal seria miseric\u00f3rdia.<br \/>\u2003\u2003Mas %Darren% %Gauthier% n\u00e3o <em>gostava<\/em> de miseric\u00f3rdia. Nem o dem\u00f4nio.<br \/>\u2003\u2003\u2014 H\u00e1 quanto tempo sabe? \u2014 %Darren% comandou, sua voz baixa, perigosa e contida, os olhos fixos no rosto de Miguel, cuidadosamente analisando cada uma das m\u00ednimas express\u00f5es que o mexicano poderia tentar conter, tentando identificar a verdade da mentira, n\u00e3o que fosse assim t\u00e3o dif\u00edcil. Miguel estava vulner\u00e1vel, mesmo que estivesse com um rev\u00f3lver apontado para o peito de %Darren%, o jogo de poder ali era expl\u00edcito e claro como o dia, n\u00e3o oferecia vaz\u00e3o e muito menos espa\u00e7o para manipula\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Miguel engoliu em seco, apertando com mais for\u00e7a a arma que empunhava, os n\u00f3s dos seus dedos ficando esbranqui\u00e7ados pela intensidade que a segurava.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Tempo suficiente.\u00a0<br \/>\u2003\u2003As palavras foram mais amargas para engolir do que ele esperava, ent\u00e3o %Darren% recusou-se. Os cantos de seus l\u00e1bios tremeram, o sorriso afiado pareceu tornar-se quase uma careta, os olhos cintilando com uma intensidade penetrante. Uma raiva fria, perigosa, espalhou-se pela corrente sangu\u00ednea do dem\u00f4nio. N\u00e3o era como fogo que o consumia e o cegava por vezes, que o alimentava com um prop\u00f3sito fixo e direto, que o satisfazia, n\u00e3o, esta era diferente, mais perigosa porque era <em>controlada<\/em>. Mais profunda do que ele esperava, autodestrutiva. E ele n\u00e3o tinha certeza se poderia control\u00e1-la; ele n\u00e3o tinha certeza se <em>queria<\/em>. Havia uma sensa\u00e7\u00e3o pl\u00e1cida de falsa calmaria, n\u00e3o consumia sua alma, mas envolvia seus m\u00fasculos, tencionando-os como se estivesse esperando as palavras certas para serem detonadas. O gosto de seu pr\u00f3prio sangue invadiu sua l\u00edngua, espalhando-se pungente e vagaroso por sua garganta, enquanto seus ombros se tencionaram para frente, em um gesto quase felino, como se a qualquer momento estivesse preparando-se para atac\u00e1-lo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, voc\u00ea quer dizer que <strong><em>minha esposa<\/em><\/strong> estava viva este tempo <em>todo<\/em>, e somente <em>agora<\/em> que eu descubro sobre? Ouch, Cortez, achei que \u00e9ramos amigos. \u2014 O sarcasmo escorria por entre as palavras perigosamente aveludadas dele. Os olhos %azuisescuros% se estreitaram, as m\u00e3os fechadas em punhos firmes tiveram mais um espasmo, como se estivessem desesperadas para enterrar-se em alguma coisa. Sangue, pedia seu corpo inteiro. E porra se ele n\u00e3o queria ceder \u00e0quela merda de pedido. Miguel pareceu perceber alguma coisa no tom de %Gauthier%, porque pareceu desviar os olhos e pressionar o ombro direito contra o banco estofado de sua <em>lowrider<\/em>, as m\u00e3os tr\u00eamulas empunhando o rev\u00f3lver, vacilando momentaneamente, antes de voltar a mant\u00ea-la mirada no peito dele.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea quer, %Gauthier%? \u2014 A voz baixa, os olhos queimando com frustra\u00e7\u00e3o, mas igualmente a percep\u00e7\u00e3o resignada que n\u00e3o havia como lutar, n\u00e3o contra %Gauthier%. Era em v\u00e3o e est\u00fapido resistir. A revela\u00e7\u00e3o j\u00e1 o havia condenado, e %Darren% percebeu com uma ponta de satisfa\u00e7\u00e3o sombria que Cortez estava lentamente percebendo isso, percebendo que ele estava condenado, agora era quest\u00e3o apenas de entender o que ele queria fazer: se iria condenar a filha e sua ex a morte tamb\u00e9m, ou se dar-se-ia, diante da morte, este momento nobre com a esperan\u00e7a de ganhar alguma reden\u00e7\u00e3o antes de morrer.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Os olhos de %Darren% desviaram-se momentaneamente do rosto do mexicano, e ent\u00e3o repousaram no pesco\u00e7o dele, observando a caracter\u00edstica corrente de ouro com um pingente de crucifixo ao centro. Se a f\u00e9 n\u00e3o criava os mais tolos naquele mundo, huh? Ou talvez ele apenas soubesse e gostasse da ideia de que ele iria para o inferno. Se era real ou n\u00e3o, n\u00e3o importava para %Gauthier% quando ele poderia usar o moralismo, a sensa\u00e7\u00e3o de direito de fariseus e especialmente o \u201caltru\u00edsmo\u201d que a religi\u00e3o oferecia. Eram como pequenas cordas esperando ansiosamente para envolverem-se em seus dedos; e voc\u00ea poderia <em>apostar<\/em> que ele n\u00e3o hesitaria em tom\u00e1-las para si.<br \/>\u2003\u2003Ele recostou-se novamente no banco da <em>lowrider<\/em> de Cortez, estalando com o polegar seus dedos por puro h\u00e1bito, antes de sua express\u00e3o cair novamente. O olhar afiado, estreitado, analisando cuidadosamente sua presa, o queixo erguido em um desafio silencioso, a respira\u00e7\u00e3o controlada e superficial.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Muitas coisas\u2026 voc\u00ea v\u00ea, o pagamento dos d\u00e9bitos dos filhos da puta que me devem, dinheiro, fama, sucesso, talvez expandir meu territ\u00f3rio para a Europa, matar a porra da minha esposa morta \u2014 %Darren% listou com um tom deliberado e pregui\u00e7oso. Abriu um sorriso torto, inclinando a cabe\u00e7a para a esquerda, fingindo uma falsa cumplicidade com Cortez que o assegurava de que estava seguro com %Gauthier%. As sombras criadas pela penumbra no carro repousaram novamente sobre o rosto dele, acentuando os \u00e2ngulos elegantes e bem marcados de seu rosto rudemente bonito. \u2014 Mas <em>voc\u00ea <\/em>pode come\u00e7ar me dando algumas respostas. Vamos l\u00e1, tome o seu tempo, eu espero.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o estava mentindo, estava determinado a esperar o dia inteiro se fosse preciso para ter as respostas que desejava. Cortez poderia tentar resistir por alguma falsa necessidade de afirma\u00e7\u00e3o de ego ou at\u00e9 mesmo por medo, mas %Darren% n\u00e3o iria sair dali at\u00e9 que tivesse as respostas que precisava e o quadro geral de suas a\u00e7\u00f5es clarificado. E se Cortez possu\u00eda as respostas, ent\u00e3o que se foda, ele as entregaria. Por bem ou por mal, o faria. As m\u00e3os de %Darren% nunca haviam sido limpas, era suficientemente divertido observar como algumas pessoas o menosprezavam com algum senso de humanidade que poderia restar ali; n\u00e3o havia nada, ele havia feito quest\u00e3o de extermin\u00e1-la h\u00e1 muito, <em>muito<\/em> tempo. Ele era o que haviam <em>criado<\/em> para ser, mas era ir\u00f4nico como se surpreendiam com isso.<br \/>\u2003\u2003Se fossem inteligentes, iriam entender exatamente <em>por que<\/em> o chamavam de <em>Dem\u00f4nio<\/em>.<br \/>\u2003\u2003Por um longo momento, o <em>lowrider<\/em> foi tomado por um sil\u00eancio gritante. Espalhava-se pela pele de ambos os homens como eletricidade, a antecipa\u00e7\u00e3o pela viol\u00eancia, uma promessa n\u00e3o dita, mas aguardada, pulsando a cada respira\u00e7\u00e3o exalada, a cada m\u00ednimo movimento. Cortez era como a porra de uma presa, encurralada, buscando, desesperada, por uma maneira de escapar dali, de fugir e conseguir sobreviver; %Gauthier% era a porra de um predador que gostava de brincar com sua comida.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Algu\u00e9m financiou sua escapada. Quero saber <em>quem<\/em> foi. \u2014 %Darren% desviou por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos seu olhar para a rua, observando-a com cuidado, verificando os rostos e as pessoas que transitavam, buscando algum padr\u00e3o familiar antes de voltar a encarar o outro homem. Tencionou a mand\u00edbula com um estalo, esperando pela resposta. \u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Karam \u2014 Miguel respondeu por fim. O peso de suas palavras reverberou por alguns minutos em meio ao sil\u00eancio crescente e tenso na <em>lowrider<\/em>. %Darren% bufou, sarc\u00e1stico para si. Ele <em>deveria<\/em> ter esperado por isso, \u00e9 claro que o lobo velho n\u00e3o teria deixado seus meios e maneiras no <em>segundo<\/em> que %Gauthier% havia conseguido o que queria. %Darren% havia considerado oferecer ao velho a d\u00e1diva da d\u00favida, mas bem, n\u00e3o dava para dizer que o merecia, certo? Uma vez um filho da puta, <em>sempre<\/em> um filho da puta. Era o que eles eram, era o que eles faziam. Ato e consequ\u00eancia.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Darren% moveu sua mand\u00edbula, impaciente, estalando o pesco\u00e7o tenso.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E quanto a minha esposa?\u00a0<br \/>\u2003\u2003Miguel lan\u00e7ou um olhar surpreso na dire\u00e7\u00e3o de %Darren%, como se ele tivesse acabado de dizer alguma coisa inesperada, ou que o pegou desprevenido. %Darren% permaneceu com uma express\u00e3o neutra, imposs\u00edvel de ler, observando o mexicano aos poucos descender para a completa histeria. Miguel soltou um riso alto, rico, mas n\u00e3o havia humor algum ali. Era o tipo de riso que %Darren% estava familiarizado a ouvir, quando homens come\u00e7avam a ceder \u00e0 histeria, a evidenciar pequenos ind\u00edcios de seu desespero, quando a emo\u00e7\u00e3o se tornava t\u00e3o sobrecarregada que os empurrava, mais e mais, para o precip\u00edcio da loucura. Tornavam-se vol\u00e1teis, perigosos, e <em>exatamente<\/em> o que %Darren% gostava de ver.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>No mames! No mames guero!<\/em> \u2014 Riu alto. %Darren% permaneceu encarando-o em um sil\u00eancio sufocante, inexpressivo. O olhar, todavia, tinham as sobrancelhas grossas unidas. \u2014 <em>\u00bfQu\u00e9 te pas\u00f3, guero?<\/em> Se apaixonou mesmo, foi? \u2014 Miguel negou com a cabe\u00e7a, em uma crise de riso. \u2014 <em>Esa perra<\/em> de merda \u00e9 s\u00f3 a porra de uma <em>viciada<\/em>, a porra de um peso morto, e se quer saber, <em>bem f\u00e1cil<\/em> de agradar\u2026 \u2014 A voz de Cortez metamorfoseou-se para uma mais segura, confiante, o sarcasmo e o duplo sentido escapando por sua entona\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Por um segundo, o rosto de %Darren% alterou-se, os olhos cintilando como os de um gato, pareceram se arregalar um pouco, e ele se permitiu rir com Miguel, como se estivesse achado o coment\u00e1rio a coisa mais engra\u00e7ada que j\u00e1 havia ouvido. Ent\u00e3o foi como se algo tivesse estalado. Um clic fora do lugar, e antes que Miguel pudesse fazer alguma coisa, pudesse sequer considerar disparar a porra do revolver no peito de %Gauthier%, %Gauthier% j\u00e1 estava em cima de Cortez. Um golpe preciso nas juntas de seu cotovelo projetou o antebra\u00e7o do mexicano para cima, dando espa\u00e7o o suficiente para que %Darren% agarrasse o pulso do homem, e ent\u00e3o enterrasse o revolver que Miguel ainda segurava, abaixo da mand\u00edbula do mexicano. O aperto das m\u00e3os de %Darren% no bra\u00e7o do mexicano era como a\u00e7o, as luvas g\u00e9lidas contra a pele do outro estalando pela maneira com que %Gauthier% havia flexionado seus dedos em garras.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Miguel se debateu, percebendo tardiamente, com horror, as luvas.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Os olhos se tornaram aterrorizados, mas, ao deparar-se com o semblante frio e inexpressivo de %Gauthier%, tudo o que encontrou foi aquela familiar raiva visceral controlada, fria como gelo, precisa como uma serpente, sustentando seu olhar silenciosamente, desafiando-o a dizer alguma coisa, a fazer alguma coisa que testasse o limite de sua paci\u00eancia esgotada. Os olhos %azuisescuros% do <em>Dem\u00f4nio Branco<\/em> estavam <em>vidrados<\/em> nos de Miguel.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea? Sem mais piadas, <em>chico?<\/em> \u2014 %Darren% provocou, sua voz baixa reverberando pela pele do outro como uma onda de arrepios aterrorizantes. T\u00e3o perto como estava, %Darren% podia ver <em>tudo<\/em>. O pavor estampado nos olhos de Cortez, a realiza\u00e7\u00e3o de que havia subestimado sua import\u00e2ncia para %Darren%, ou quaisquer que fossem as inten\u00e7\u00f5es do dem\u00f4nio ali. %Darren% sorriu novamente, mas n\u00e3o havia humor algum em seu sorriso, apenas uma satisfa\u00e7\u00e3o sombria que se espalhava pelas veias de %Gauthier%, pulsante como eletricidade. \u2014 V\u00e1 em frente, me conta como a minha esposa \u00e9 uma vadia.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Miguel, o <em>cholo<\/em> coberto em tatuagens e marcas das gangues de rua que havia comandado. Miguel, <em>el Gigante<\/em>, que sempre havia bragado sua invencibilidade, fedia a porra de urina deparando-se com a <em>morte<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Quem est\u00e1 fornecendo o dinheiro para Karam? \u2014 %Gauthier% questionou entre dentes, um tom de voz perigoso, calculado e baixo. Miguel tentou se soltar do aperto das m\u00e3os de %Darren%, mas %Gauthier% apenas projetou-se um pouco mais para frente, for\u00e7ando o pulso de Cortez para tr\u00e1s at\u00e9 a mand\u00edbula do mexicano. Era um beco sem sa\u00edda, %Darren% n\u00e3o poderia quebrar o pulso de Cortez se queria o resultado planejado, mas igualmente era tentador apenas quebrar a porra do pulso do filho da puta, ao menos pelo desencargo de seu pr\u00f3prio orgulho. Miguel tremeu, mas n\u00e3o respondeu.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Darren% tencionou a mand\u00edbula com mais for\u00e7a, erguendo o queixo, os olhos %azuisescuros% fixos, profundos, nos de Miguel, como se quisesse convir silenciosamente que Cortez havia trazido aquilo para si mesmo. N\u00e3o era que %Darren% tivesse algum conceito deturpado de justi\u00e7a, ele deixava bem claro a todos que entravam em seu caminho que ele n\u00e3o tinha um c\u00f3digo de honra, apenas o que ele queria, e o resultado final. Mas %Darren% tamb\u00e9m n\u00e3o era a porra de um sociopata, ele gostava de deixar bem <em>claro<\/em> que cada ato havia uma rea\u00e7\u00e3o. Miguel havia escolhido fugir, se esconder como a porra de um rato e reconstruir seu imp\u00e9rio na porra de outro continente? N\u00e3o. N\u00e3o quando se possu\u00eda a porra de um d\u00e9bito com %Darren% %Gauthier%, n\u00e3o quando havia escondido a porra da verdade.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ele desviou o olhar do rosto de Cortez, buscando pela jaqueta e bolsos das cal\u00e7as do outro por algo que o pudesse auxiliar mais tarde. Encontrou, por fim, ap\u00f3s alguns minutos, o aparelho celular do idiota no bolso interno de sua jaqueta. N\u00e3o se deixou acreditar, ele conhecia muito bem qual era a estrat\u00e9gia, e qualquer idiota com um n\u00famero aceit\u00e1vel de neur\u00f4nios sabia que era melhor apenas separar os <em>neg\u00f3cios<\/em> de sua vida <em>pessoal<\/em>, especialmente se voc\u00ea n\u00e3o queria criar provas contra si mesmo. Permitiu que sua m\u00e3o direita, firmemente fechada ao redor do pulso de Cortez, deslizasse um pouco mais para cima, o indicador repousando sobre o indicador de Cortez que se mantinha sobre o gatilho do rev\u00f3lver. A presen\u00e7a fantasmag\u00f3rica do indicador dele sobre o do mexicano, uma promessa silenciosa.<br \/>\u2003\u2003Os olhos dele demoraram um pouco mais no espa\u00e7o frontal da <em>lowrider<\/em>, seu olhar finalmente encontrando o <em>tapa sol<\/em>. Com um movimento r\u00e1pido, %Darren% puxou o compartimento para baixo com sua m\u00e3o esquerda, observando o segundo aparelho celular desabar nas pernas de Cortez. Al\u00e7ou o aparelho em sua m\u00e3o, girando-o brevemente ao analisar que tipo e marca eram, antes de voltar o aparelho na dire\u00e7\u00e3o do rosto do outro. Usou o reconhecimento facial para desbloquear o aparelho.<br \/>\u2003\u2003Ent\u00e3o %Darren% for\u00e7ou seu indicador sobre o de Cortez, disparando.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Um flash iluminou brevemente o banco do passageiro. O empuxo da arma reverberou pelo bra\u00e7o direito de %Darren%, obrigando-o a tencionar os m\u00fasculos de seu bra\u00e7o n\u00e3o dominante, tencionando a mand\u00edbula ao cont\u00ea-lo. A cabe\u00e7a de Cortez explodiu \u00e0 sua esquerda, o sangue explodiu, quente contra a lateral de seu rosto, peda\u00e7os de carne e c\u00e9rebro se chocaram, manchando de vermelho profundo a janela da <em>lowrider<\/em>. Mas a aten\u00e7\u00e3o de %Darren% n\u00e3o estava na maneira com que o corpo de Cortez amoleceu, projetando-se para o lado, sua aten\u00e7\u00e3o estava fixa no aparelho celular.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Soltando o pulso de Cortez, %Darren% arrastou-se para o banco ao lado, abrindo a porta e saindo pela porta contr\u00e1ria \u00e0 que havia entrado. Seus olhos %azuisescuros% buscando pelas c\u00e2meras de rua, para ter certeza de que estaria no ponto cego das mesmas, antes de colocar os \u00f3culos escuros de volta em seu rosto. Levou o indicador de sua m\u00e3o direita em dire\u00e7\u00e3o aos l\u00e1bios, os dentes fincando-se no couro, ao pux\u00e1-la, liberando sua m\u00e3o direita, e ent\u00e3o passou o celular da esquerda para a direita, <em>scrolling<\/em> e abrindo todos os aplicativos de comunica\u00e7\u00e3o, banco de Cortez.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Usando a luva, ele limpou os peda\u00e7os de c\u00e9rebro e sangue de Cortez que escorria por sua bochecha e mand\u00edbula, acumulando-se na gola de sua jaqueta, ignorando completamente o ru\u00eddo alto que o disparo pr\u00f3ximo a sua cabe\u00e7a havia deixado em seu ouvido esquerdo. Era comum, a essa altura, apenas um dos danos calculados colaterais que acabava lhe causando. %Darren% abriu a porta de seu <em>Corvette Stingray C7<\/em><em>,<\/em> adentrando com um movimento econ\u00f4mico. Transferiu parte do dinheiro de Cortez para a mulher que ele assumiu ser a m\u00e3e da pequena Isabelle. 500 mil libras deveria ser o suficiente para dar a ela uma chance de desaparecer dali, e se ela fosse esperta, o faria assim que descobrisse sobre o <em>\u201csuic\u00eddio\u201d<\/em> do ex, mas, ent\u00e3o, de novo, aquele n\u00e3o era mais o problema dele. O restante do dinheiro de Cortez, %Darren% enviou para Ziyad Karam, <em>Doc<\/em>, com o fantasma de um sorriso preso em seus l\u00e1bios.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ziyad Karam era um velho <em>old school<\/em>. Sabia que o montante em breve tornar-se-ia <em>n\u00e3o rastre\u00e1vel<\/em> e era <em>disso<\/em> que %Darren% precisava. Buscou ent\u00e3o pelos aplicativos de mensagem de Cortez, observando algumas conversas rid\u00edculas e embara\u00e7osas com algumas putas, ordens recentes com o endere\u00e7o em espec\u00edfico e familiar para alguns homens, quase <em>quinhentas<\/em> mensagens de um tal <em>Madoc<\/em> em completo desespero, e ent\u00e3o um <em>contato<\/em>. N\u00e3o possu\u00eda foto, mas ele conhecia <em>aquele<\/em> nome como uma parte de sua pr\u00f3pria alma. Sentiu novamente aquela descarga c\u00e1lida de f\u00faria que se infiltrou por sua corrente sangu\u00ednea sempre que seus pensamentos se desviavam para <em>ela<\/em>.<br \/>\u2003\u2003<strong><em>Butcher<\/em><\/strong>. <em>A\u00e7ougueira<\/em>.<br \/>\u2003\u2003Era assim que eles a chamavam. Era assim que onde quer que ela fosse, seria chamada. A a\u00e7ougueira. Ele tencionou a mand\u00edbula, sentindo os m\u00fasculos de seus ombros e bra\u00e7os se tencionarem, a necessidade de explodir, de avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m e deixar toda aquela raiva esvair-se de si gritante, mas %Darren% n\u00e3o era do tipo que se permitia perder o controle se n\u00e3o tivesse uma boa motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s. Ele tinha problemas com raiva, \u00e9 claro, isso qualquer um poderia perceber, mas sua raiva n\u00e3o era sua inimiga, era sua <em>arma<\/em> pessoal. Transform\u00e1-la em apenas um impulso era apenas rid\u00edculo. Ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de quebrar o aparelho, ele tocou na conversa, abrindo-a com uma ponta de curiosidade.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o se surpreendeu ao ver as tentativas falhas e rid\u00edculas de Cortez de lev\u00e1-la para cama. %Darren% conhecia bem o suficiente sua esposa para saber que ela n\u00e3o deixava <em>ningu\u00e9m<\/em> a tocar, mas ainda assim sentiu aquela familiar sensa\u00e7\u00e3o de posse incomod\u00e1-lo. Como a porra de uma coceira, espalhando-se por sua mente devagar e corrosiva. Encontrou algo interessante, no entanto, uma localiza\u00e7\u00e3o. %Darren% estreitou os olhos. <em>Orqu\u00eddea<\/em>. Huh, voc\u00ea poderia mudar de lugar, mas n\u00e3o de ess\u00eancia. \u00c9 claro que <em>Doc<\/em> teria a porra de um prost\u00edbulo por ali.\u00a0<br \/>\u2003\u2003<em>Orqu\u00eddea. 00:30<\/em><em>.<\/em>\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ele apertou o bot\u00e3o de envio, sem esperar por uma resposta. Ele sabia que ela viria.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Agatha% <em>sempre<\/em> aparecia quando havia vantagem para <em>si<\/em>. Mesmo que fosse a porra de uma armadilha.\u00a0<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p align=\"right\"><strong>NOVA ORLEANS \u2022 15 ANOS ANTES.<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Uma parte de si queria explodir, xing\u00e1-la at\u00e9 que sua voz estivesse rouca e falha, at\u00e9 que a press\u00e3o de sua raiva fosse aliviada de seu peito, j\u00e1 a outra parte, a que a conhecia como a porra da palma de sua m\u00e3o, sabia que era simplesmente <em>in\u00fatil<\/em>. Marcelle n\u00e3o fazia nada que n\u00e3o quisesse, e n\u00e3o tinha nada que %Darren% pudesse fazer sobre, por mais que seu instinto fosse proteg\u00ea-la. Sua irm\u00e3 g\u00eamea <em>sempre<\/em> havia sido a mais impulsiva entre eles; \u00e0s vezes o fazia querer esganar ela por isso. Todavia, ele fez a \u00fanica coisa que poderia fazer em uma situa\u00e7\u00e3o como aquela, ficou sentado ao seu lado, com a porra do pano ensanguentado em m\u00e3os, concentrado na tarefa em m\u00e3os.<br \/>\u2003\u2003Pressionou com um pouco mais de for\u00e7a do que deveria o pano molhado com \u00e1lcool isoprop\u00edlico contra o ferimento dela. Trincou os dentes, segurando-a por instinto, as unhas fincando-se na pele dela quando ela tentou se debater contra ele e livrar-se de seu toque. Os olhos de Marcelle cintilaram com um aviso silencioso, os l\u00e1bios retorcidos para cima de seus dentes, como se ela estivesse prestes a grunhir como a porra de um gato, enquanto %Darren% unia as sobrancelhas, fuzilando-a com o olhar. Um coment\u00e1rio silencioso pairando pela express\u00e3o irritada dele: <em>\u201cEra o que voc\u00ea queria, n\u00e3o era? Ent\u00e3o aguenta\u201d<\/em>. Mas de todos que ele conhecia, <em>Marcelle<\/em> era a <em>\u00faltima<\/em> pessoa que aceitava de bom grado o que quer que %Darren% comandasse.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o, sua irm\u00e3 g\u00eamea era vol\u00e1til, impulsiva e <em>teimosa como a porra de uma porta<\/em>. \u00c0s vezes o fazia se questionar por que diabos ainda tentava proteg\u00ea-la quando ela parecia estar em uma miss\u00e3o pessoal para se machucar. Mas ent\u00e3o ele rapidamente se culpava e censurava, se ele fazia o que fazia era para ter certeza que ela tivesse a porra de um <em>futuro<\/em>. Algo melhor do que aquilo. S\u00f3 porque ele estava condenado, n\u00e3o significava que ela <em>tamb\u00e9m<\/em> precisava estar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Para, porra! Se vai continuar fazendo isso, ent\u00e3o n\u00e3o precisa continuar tentando me ajudar com meus ferimentos, %Darren%! <\/strong>\u2014 rosnou Marcelle, sua voz rouca evidenciando o desgaste da luta perdida naquela noite, estava com raiva, estava querendo discutir, e como %Darren% era o que estava mais perto, ele sabia que ela explodiria com ele. N\u00e3o se importava, mas igualmente n\u00e3o era exatamente do tipo que <em>perdoava<\/em> f\u00e1cil. %Darren% n\u00e3o se moveu, apenas empurrou o bra\u00e7o de\u00a0Marcelle. \u2014 <strong>Me solta, %Darren%. <em>Agora!<\/em><\/strong><br \/>\u2003\u2003%Darren% a soltou, mas inclinou-se para frente, invadindo o espa\u00e7o pessoal dela e trincando os dentes, sustentando o olhar dela com uma f\u00faria g\u00e9lida crescente.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>O qu\u00ea? Eu achei que voc\u00ea gostasse de sentir dor, t\u00e1 reclamando <em>por que<\/em> agora?<\/strong> \u2014 cuspiu ele, entredentes. Marcelle fuzilou-o com o olhar, parecendo estar considerando acert\u00e1-lo. \u2014 <strong>Vai em frente, me acerta, porra. Quebra a minha cara, \u00e9 o que voc\u00ea quer fazer agora? Depois de apanhar como a porra de uma cadela de rua? Vai em frente ent\u00e3o, porra, t\u00f4 esperando. Banca a durona comigo.<\/strong><br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong><em>Voc\u00ea<\/em><\/strong><strong> quer falar alguma coisa sobre apanhar como a porra de um cachorro, %Darren%? Logo <em>voc\u00ea?<\/em><\/strong>\u2014 Marcelle soltou uma risada afiada, e %Darren% ignorou a maneira com que seu pr\u00f3prio temperamento estava come\u00e7ando a ceder. Marcelle costumava ser uma parte de si, uma parte de sua alma, e sempre seria. %Darren% n\u00e3o tinha d\u00favidas disso, eles eram g\u00eameos, n\u00e3o havia um mundo que ele conhecia em que ela n\u00e3o estivesse, e ele sabia que n\u00e3o haveria um mundo para ele se ela n\u00e3o estivesse mais ali. Mas igualmente, Marcelle era um constante teste para sua pr\u00f3pria paci\u00eancia: porque ele <em>sabia<\/em> que ela merecia melhor do que aquela vida, porque ele <em>sabia<\/em> que ela <em>conseguiria<\/em> ter uma vida melhor que aquela, e todavia, por algum motivo que ele n\u00e3o conseguia compreender, a desgra\u00e7ada parecia desesperada para parecer durona e no controle.\u00a0<br \/>\u2003\u2003As palavras dela doeram. Mais do que ele iria querer admitir. O gosto amargo em sua boca era pungente, e por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos ele a encarou com ressentimento. Mas %Darren%, como sempre, n\u00e3o respondeu. Deixou que as palavras dela afundassem no sil\u00eancio que agora se estendia entre os dois. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, ele <em>viu<\/em> a incerteza brilhar pelos olhos dela, a d\u00favida carregada pela certeza de que ela havia ultrapassado uma linha com ele, mas ent\u00e3o havia desaparecido. %Darren% n\u00e3o se deu ao trabalho de respond\u00ea-la, voltando a linha de seu olhar para o corte na nuca dela.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Sentiu a familiar emo\u00e7\u00e3o, espiralando por entre sua pr\u00f3pria raiva, perdida como um navio \u00e0 deriva, estava a <em>culpa<\/em>. A culpa por v\u00ea-la se tornar uma extens\u00e3o de uma parte de si que %Darren% <em>odiava<\/em>. A culpa por n\u00e3o ser capaz de oferecer uma vida tranquila e segura para ela. A culpa de v\u00ea-la tentar se autodestruir como se essa fosse a sa\u00edda. Era estranho, e at\u00e9 mesmo hip\u00f3crita de sua parte tentar censur\u00e1-la por suas escolhas, quando %Darren% era o filho da puta que tomava as <em>piores decis\u00f5es<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Se quer morrer, me poupe o trabalho de ter que assistir, Marcelle <\/strong>\u2014 foi tudo o que %Darren% disse, jogando o pano ensanguentado sobre a perna da irm\u00e3 e levantando-se da cadeira. Ele estalou o pesco\u00e7o, caminhando descal\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro \u00fanico do pardieiro que Doc havia permitido que eles vivessem. N\u00e3o era muito, sequer parecia limpo na maioria das vezes, e somente nas \u00faltimas semanas, %Darren% havia gastado uma nota consertando o vazamento de g\u00e1s e se livrando de um <em>rato<\/em>, ainda assim, era o \u00fanico lugar que eles tinham.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Marcelle e %Darren% eram ambos orgulhosos. O tra\u00e7o compartilhado talvez fosse a \u00fanica mem\u00f3ria de sua m\u00e3e, embora fosse <em>Marcelle<\/em> a ter os olhos dela. N\u00e3o que fosse uma boa mem\u00f3ria para se guardar, ou que %Darren% gostasse de pensar sobre.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o haveria desculpas ali; Marcelle n\u00e3o se desculpava, tinha aquela necessidade est\u00fapida de sentir-se certa sobre tudo, de achar que suas justificativas eram apenas as que importava, apesar dos ferimentos que causava, n\u00e3o reconhecia seus defeitos, e se o fazia, justificava-os com os dos outros. E %Darren% era rancoroso o suficiente para <em>n\u00e3o querer<\/em> perdoar, implac\u00e1vel demais para possuir o <em>sentimento<\/em> de esperan\u00e7a por qualquer coisa, para ser algo al\u00e9m da figura estoica que havia se tornado. Ele <em>n\u00e3o queria<\/em> ser. Funcionava de forma simpl\u00f3ria, at\u00e9 mesmo pr\u00e1tica: <em>ato<\/em> e <em>rea\u00e7\u00e3o<\/em>, nada mais.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Abriu a torneira, deixando a \u00e1gua escorrer por entre seus dedos, esfregando-os com as unhas, com irrita\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica ensaiada. Era normal %Darren% tentar esfregar sangue de suas m\u00e3os para ser sincero, tirando as tatuagens que as cobriam ocultando cicatrizes e expondo suas liga\u00e7\u00f5es com determinadas gangues ao redor de Nova Orleans, sangue era o que mais cobria e impregnava suas m\u00e3os. Manteve seus olhos fixos em suas m\u00e3os, sem arriscar erguer o olhar e encarar seu pr\u00f3prio reflexo. Da \u00faltima vez que o fizera havia quebrado com socos at\u00e9 que suas m\u00e3os estivessem em carne viva, tivera que conseguir um melhor e mais caro para Marcelle, e prometer que n\u00e3o o faria mais. A ideia, todavia, de erguer seu olhar e deparar-se com o que voltaria a encar\u00e1-lo era o suficiente para o colocar no limite de seu controle. N\u00e3o era nada relacionado a sua apar\u00eancia, na verdade ele sabia que era a porra de um <em>gostoso<\/em>, os olhares que recebia, os flertes que se permitia entreter-se deixava bem claro que era atraente e bonito, o problema era o formato de seu rosto, os cabelos, a cor de sua pele, mesmo os olhos.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Darren% <em>nunca<\/em> enxergava a si mesmo no reflexo de espelhos.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Mal havia conseguido limpar todo o sangue de Marcelle de suas m\u00e3os quando desligou a torneira, al\u00e7ando uma toalha de rosto qualquer que estava na bacia de roupas sujas e ent\u00e3o voltou para o \u00fanico outro c\u00f4modo que ele dividia com a irm\u00e3. A cama havia ficado para Marcelle, \u00e9 claro, %Darren% quase <em>nunca<\/em> estava em casa, e quando estava, preferia dormir no ch\u00e3o, perto da janela, sobre o velho tapete. \u00c0s vezes Marcelle tentava o arrastar para a cama, mas ele sempre acordava antes que ela sequer pudesse toc\u00e1-lo.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Russo ou Irland\u00eas?<\/strong> \u2014 foi tudo o que %Darren% questionou, seu tom baixo e terrivelmente calmo.<br \/>\u2003\u2003Marcelle tencionou-se no ato de pegar o band-aid para colocar sobre sua sobrancelha, as m\u00e3os ainda envoltas nas faixas de luta que ela usava para as lutas clandestinas que <em>Doc<\/em> incentivava em um dos <em>subsolos<\/em> da <em>Boca do Inferno<\/em>. %Darren% n\u00e3o ergueu seu olhar, permaneceu concentrado no trabalho de enxugar suas m\u00e3os, esfregando os calos que as revestiam, as palavras em latim <em>\u201cAverno Mori\u201d<\/em> estavam tatuadas, cada letra em um dedo respectivo, com uma tipografia <em>g\u00f3tica<\/em> e grossa. Eram um bom lembrete para ele; um lembrete de qual era <em>sua<\/em> meta pessoal. %Darren% esperou pacientemente pela resposta de Marcelle, tencionando sua mand\u00edbula com for\u00e7a. Ele n\u00e3o sairia dali sem uma resposta, e Marcelle sabia.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Javier, na verdade<\/strong> \u2014 Marcelle sussurrou, hesitante, parecendo tentar ler a express\u00e3o de %Darren%, e teria conseguido, se ele n\u00e3o tivesse <em>escolhido<\/em> empurr\u00e1-la para longe. As palavras dela ainda estavam frescas e pairando pelo espa\u00e7o do apartamento pequeno, martelando ao fundo da mente dele, %Darren% <em>n\u00e3o iria<\/em> mais trazer aquele t\u00f3pico para Marcelle. Talvez estivesse sendo duro demais com sua irm\u00e3 g\u00eamea, talvez estivesse sendo at\u00e9 mesmo cruel, mas se ela queria bancar a durona, a impenetr\u00e1vel, ent\u00e3o ele a trataria como desejava. \u2014 <strong>%Darren%\u2026 %Darren%, o que voc\u00ea vai fazer?<\/strong><br \/>\u2003\u2003%Darren% abriu um sorriso sarc\u00e1stico, encarando Marcelle. N\u00e3o disse nada, n\u00e3o precisou dizer, ele <em>sabia<\/em> que ela tinha consci\u00eancia do peso de seu sil\u00eancio, sabia que ela podia identificar nas entrelinhas o que diabos estava passando pela mente de %Darren% e <em>exatamente<\/em> o que ele iria fazer agora.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Ren\u00e9 chegar\u00e1 em 15. Voc\u00ea <em>vai<\/em> ficar aqui at\u00e9 eu voltar<\/strong><strong>.<\/strong> \u2014 %Darren% retirou dois cart\u00f5es de sua carteira jogando na dire\u00e7\u00e3o das m\u00e3os de Marcelle, dando de ombros, com indiferen\u00e7a. \u2014 <strong>Compra o que quiser<\/strong>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Ficou maluco? Eu n\u00e3o vou ficar\u2026<\/strong><br \/>\u2003\u2003\u2014 <strong>Eu n\u00e3o estou pedindo, Marcelle!<\/strong> \u2014 %Darren% a cortou, sentindo sua voz se elevar alguns tons acima, e uma parte de si teria se sentindo culpado por faz\u00ea-lo, especialmente pela maneira que ela havia se encolhido. Ele poderia querer esganar ela muitas vezes, ele podia n\u00e3o colaborar ou aceitar suas palavras, mas eles vinham do <em>mesmo<\/em> lugar, havia crescido e escapado do mesmo inferno, ela era, de certa forma, a outra parte de sua alma, ele a conhecia bem o suficiente para ter cuidado com seu tom de voz, para medir suas palavras e tentar ser mais pac\u00edfico do que de fato ele era, mas as palavras dela ainda estavam pulsando por seus ouvidos, ainda estavam frescas demais. Ent\u00e3o ele n\u00e3o se importou. Resolveria isso mais tarde, eventualmente <em>ele<\/em> sempre <em>pedia<\/em> desculpas mesmo que fosse apenas para manter uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de paz: nunca Marcelle. \u2014 <strong>Voc\u00ea <em>fica<\/em>, entendeu?! Quando eu voltar, quero encontrar voc\u00ea <em>aqui<\/em>, com Ren\u00e9. Se <em>pensar<\/em> em fazer alguma coisa, se <em>pensar<\/em> em fugir, seja para o <em>que for<\/em>, voc\u00ea <em>n\u00e3o vai<\/em> ligar para mim, entendeu, Marcelle? Vai resolver sua merda <em>sozinha<\/em>, de acordo?<\/strong><br \/>\u2003\u2003%Darren% a conhecia <em>bem<\/em> o suficiente para saber que Marcelle %Gauthier% <em>nunca <\/em>resolvia nada sozinha; %Darren% existia para isso, certo? Consertar e mediar as merdas que ela fazia.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Sem mais nenhuma palavra, marchou para fora do apartamento, parando apenas para pegar sua jaqueta e jog\u00e1-la por seus ombros, cobrindo seu rosto com o bon\u00e9 escuro e o gorro da jaqueta. N\u00e3o o fazia por paranoia, na verdade, boa parte do submundo criminoso de Nova Orleans sabia onde ele vivia, %Darren% n\u00e3o era o tipo de pessoa que se escondia, muito menos fugia, mas com Marcelle no apartamento, ele n\u00e3o arriscaria. N\u00e3o com ela <em>ferida<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o demorou muito para chegar a <em>Boca do Inferno<\/em>. Os letreiros vermelhos da boate piscavam, chamando a aten\u00e7\u00e3o de qualquer desesperado ou idiota o suficiente que desejasse ter uma noite regada a prazeres carnais, drogas e a completa oblitera\u00e7\u00e3o de suas morais e consci\u00eancia. %Darren% n\u00e3o podia culpar ningu\u00e9m que estava na fila de querer entrar no lugar, todo mundo possu\u00eda seus pr\u00f3prios dem\u00f4nios para lutar, se pudesse os fazer amortecido, que mal teria? %Darren% havia tido o cuidado de n\u00e3o trazer uma arma ali, ent\u00e3o, quando o seguran\u00e7a, Jack \u2014 ou era Jerry? \u2014, o revistou, tudo o que %Darren% fez foi abrir um sorriso sarc\u00e1stico e lan\u00e7ar uma piscadela, flertando com o seguran\u00e7a.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Jack \u2014 ou Jerry \u2014 n\u00e3o havia ficado feliz.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Darren% caminhou por entre os corpos movendo-se em sincronia ao ritmo de alguma m\u00fasica <em>trance eletr\u00f4nica<\/em> que parecia vibrar por seus ossos. As luzes estrobosc\u00f3picas giravam ao redor criando padr\u00f5es aleat\u00f3rios e abstratos pelos corpos e superf\u00edcies impec\u00e1veis de mogno que cobriam o espa\u00e7o. O assoalho de madeira escura abafaram as solas de suas botas de combate, esfor\u00e7adas e sujas permanentemente de sangue seco. %Darren% al\u00e7ou de uma mesa qualquer um copo pela metade com whisky, girando para a esquerda ao desviar de alguns b\u00eabados rindo e apostando sobre <em>quem<\/em> iria comprar o que aquela noite, passando por Ivy e Beatriz disfar\u00e7adas, com a mercadoria em suas bolsas a tiracolo para espalhar e vender para o m\u00e1ximo de compradores que conseguissem. Os pequenos pacotes com p\u00f3 ou balas coloridas, uma indica\u00e7\u00e3o da verdadeira <em>motiva\u00e7\u00e3o<\/em> de estar-se ali.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Darren% marchou na dire\u00e7\u00e3o de Chase, um dos seguran\u00e7as internos de Doc, fazendo quest\u00e3o de esbarrar no peito dele, derramando o copo pela metade de whisky em suas roupas e fazendo uma cena de arrependido, mantendo o olhar de Chase no copo e na m\u00e3o dele, tentando ajud\u00e1-lo a enxugar o estrago, ocultando sua m\u00e3o dominante, esquerda, que disparou para a arma no coldre do homem. Regra n\u00famero um do furto: sempre que for roubar a carteira, aponte para o rel\u00f3gio. %Darren% piscou para Chase, tentando provoc\u00e1-lo antes de voltar a caminhar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Com um gesto r\u00e1pido retirou o tambor da<em>Glock 12mm<\/em><em>,<\/em> contando-a mentalmente. 9 balas. %Darren% voltou a colocar o tambor no lugar, e ent\u00e3o destravou a arma, engatilhando-a com um movimento r\u00e1pido. Serviria. Mirou no teto e disparou: <em>uma<\/em><em>, <\/em><em>duas<\/em><em>, <\/em><em>tr\u00eas<\/em> vezes, propositalmente para criar um pandem\u00f4nio no lugar. %Darren% caminhou at\u00e9 o bar, escorando-se em um dos bancos, apoiando seus cotovelos sobre o mogno frio, enquanto assistia, desinteressado, as pessoas se empurrarem e gritarem umas com as outras, tentando escapar dali. %Darren% n\u00e3o precisou virar seu rosto para a esquerda para saber que <em>Chase<\/em> estava correndo em sua dire\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o %Darren%, igualmente, n\u00e3o hesitou. Estendeu o bra\u00e7o esquerdo na dire\u00e7\u00e3o de Chase e disparou.<br \/>\u2003\u2003O corpo desabou com um baque aud\u00edvel e molhado, acompanhado de gritos em p\u00e2nico dos b\u00eabados tentando escapar dali. Mas a confus\u00e3o toda havia tido o efeito que ele queria. De algum lugar do primeiro andar, Ziyad Karam, ou simplesmente <em>Doc<\/em>, estava descendo a passos vagarosos. Estava com seu terno impec\u00e1vel, de corte italiano e visivelmente caro, de um azul profundo quase preto. O rosto sim\u00e9trico e equilibrado revelava uma cicatriz sobre o olho direito, mas sua vis\u00e3o permanecia impec\u00e1vel, sombras se projetavam em sua face pelas, agora, luzes acesas do espa\u00e7o, acentuando as ma\u00e7\u00e3s do rosto altas e elegantes, o nariz reto e proporcional, os cabelos cortados bem curtos eram crespos, levemente grisalhos nas laterais, mas ainda escuros como a noite no topo. Carregava enrolado no pulso direito um ros\u00e1rio de contas de <em>olhos de tigre<\/em>, a cruz, de metal, era elaborada e possu\u00eda um belo rubi ao centro. Atr\u00e1s dele, mais dois seguran\u00e7as caminhavam, prontos para atirarem em %Darren%, se Ziyad n\u00e3o tivesse estendido a m\u00e3o para impedi-los.\u00a0<br \/>\u2003\u2003A express\u00e3o de %Darren% permaneceu vazia. Terrivelmente <em>calma<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Que bom que agora tenho sua aten\u00e7\u00e3o, <em>Doc<\/em> \u2014 %Darren% murmurou calmamente, sua voz escorrendo, aveludada, com falsa simpatia. Ele inclinou sua cabe\u00e7a para o lado, sustentando o olhar de <em>Doc<\/em>, seus olhos, insond\u00e1veis, cintilando como os de um gato. \u2014 Vamos conversar. \u2014 Ele n\u00e3o estava fazendo um pedido.\u00a0<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> n\u00e3o era para ter ficado assim t\u00e3o grande, eu juro!<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LONDRES \u2022 AGORA. \u00a0 \u2022\u2022\u2022 NOVA ORLEANS \u2022 15 ANOS ANTES. \u2003\u2003Nota da Autora: n\u00e3o era para ter ficado assim t\u00e3o grande, eu juro!<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2122],"class_list":["post-6357","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-white-devil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/6357","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=6357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}