{"id":6355,"date":"2024-10-12T09:16:00","date_gmt":"2024-10-12T12:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-25T09:22:24","modified_gmt":"2025-10-25T12:22:24","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/white-devil\/prologo\/","title":{"rendered":"PR\u00d3LOGO"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"right\"><strong>BIELORUSSIA \u2022 13 ANOS ANTES.<\/strong><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Tudo pareceu desacelerar ao<\/span> seu redor, como se ela estivesse presa em um pesadelo horr\u00edvel. Por mais que ela corresse o mais r\u00e1pido que conseguisse, n\u00e3o parecia o suficiente.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Os olhos %verdeschartreuses% da menina se arregalaram, e ela lan\u00e7ou seu tronco para frente, por puro instinto, o grito desaparecendo em sua garganta at\u00e9 ter ficado completamente mudo. Tentou olhar para tr\u00e1s, tentou <em>localiz\u00e1-lo<\/em> por entre as \u00e1rvores que compunham a floresta densa, mas n\u00e3o viu nada. Seu tronco se torceu um pouco, os l\u00e1bios ressecados pelo inverno e falta de \u00e1gua, entreabertos, deixavam escapar os arfares crescentes, o h\u00e1lito da menina condensando-se no ar ameno, espiralando ao redor de sua face como <em>fuma\u00e7a<\/em>. A roupa fina que usava, apenas uma blusa de manga longa suja com a lama g\u00e9lida do ch\u00e3o da floresta, e parcialmente molhada pela \u00e1gua do riacho que ela havia atravessado antes, grudava a seu corpo, pouco fazendo para proteg\u00ea-la do frio cortante que espalhava-se pela floresta. As cal\u00e7as de moletom, rasgadas e ensanguentadas, que outrora enroscavam-se ao redor de suas pernas, agora grudavam como uma segunda pele, os cortes mais profundos onde o tecido molhado e g\u00e9lido pelo riacho adornava latejavam, a dor aguda quase a cegando. Mas ela n\u00e3o parou de correr. Ela <em>n\u00e3o podia<\/em> parar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Se ela o fizesse <em>ele<\/em> ia <em>encontr\u00e1-la<\/em>. Ele ia alcan\u00e7\u00e1-la, e ent\u00e3o\u2026\u00a0<br \/>\u2003\u2003O disparo feito do <em>rifle de ca\u00e7a<\/em> rasgou o ar com viol\u00eancia, enterrando-se no tronco ao lado da cabe\u00e7a dela. %Agatha% gritou baixinho, sentindo a explos\u00e3o de estilha\u00e7os do tronco da \u00e1rvore chocar-se contra seu rosto, os peda\u00e7os afiados de madeira fincando-se superficialmente na lateral esquerda de seu rosto, a ard\u00eancia, como se fogo tivesse tocado superficialmente sua pele, de onde os fragmentos haviam se cravado sequer foram registrados por ela, tentando se obrigar a correr com mais for\u00e7a. O terror parecia esculpido, preciso e visceral pelo rosto ensanguentado e coberto de suor da menina, mesmo que as temperaturas estivessem abaixo de zero, e que a neve se acumulasse em bols\u00f5es no solo irregular da floresta, mandando-a para o ch\u00e3o, por vezes.\u00a0<br \/>\u2003\u2003O frio invernal era cruel e mordia a pele de %Agatha% com agressividade. O vento forte oferecia um pequeno pren\u00fancio da tempestade que estaria se aproximando, evidenciando que aquela noite seria mais uma das mais frias que ela j\u00e1 havia sentido em sua vida. Evidenciando que se ela falhasse nesse teste, acabaria largada outra vez no celeiro <em>dele<\/em>, e se fosse <em>este<\/em> o caso, ela n\u00e3o sobreviveria. Estava dormindo no celeiro fazia dois dias, ainda de madrugada, naquele dia, %Agatha% havia acordado chorando de dor, quando percebeu que os m\u00fasculos de seus p\u00e9s n\u00e3o apenas estavam atrofiados pelo frio, como sua pele estava come\u00e7ando a ficar arroxeada. Estava cobrindo-se com as peles das ovelhas que ela havia matado quando o frio se tornou enlouquecedor demais para aguentar, ainda assim, as peles sem tratamento estavam apodrecendo, o cheiro tornou-se comum, tal qual a sensa\u00e7\u00e3o do rastejar das larvas sobre sua pele, pouca diferen\u00e7a fazia para aquec\u00ea-la.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Na primeira noite, ela havia conseguido at\u00e9 mesmo dormir, mesmo que estivesse tremendo da cabe\u00e7a \u00e0s pontas de seus p\u00e9s. Ela havia desmaiado de cansa\u00e7o. Os olhos semicerrados, nem completamente fechados, nem completamente abertos, aproveitaram a escurid\u00e3o do celeiro para ceder \u00e0 exaust\u00e3o que se acumulava de semanas. A segunda noite, todavia, fora completa tortura. Ela tivera certeza que iria morrer se precisasse dormir l\u00e1 por mais uma noite. Sabia igualmente que tampouco <em>ele<\/em> iria se importar se ela estivesse viva ou n\u00e3o; n\u00e3o era <em>assim<\/em> que as coisas funcionavam ali. Precisava voltar para a cabana. Mesmo que n\u00e3o tivesse o luxo da solid\u00e3o reconfortante que havia no celeiro, longe da presen\u00e7a fantasmag\u00f3rica <em>dele<\/em> caminhando pela casa sem dizer uma palavra, murmurando apenas aquela maldita m\u00fasica baixinho, quase distraidamente: <em>\u201ceu n\u00e3o sou daqui, marinheiro s\u00f3, eu n\u00e3o tenho amor, marinheiro s\u00f3\u201d<\/em>. Houve uma \u00e9poca que %Agatha% teria cantado com alegria e excita\u00e7\u00e3o em conjunto a quem quer que estivesse recitando as palavras, em uma roda de <em>capoeira<\/em> enquanto provocava Beatriz, mas esta \u00e9poca, agora, era long\u00ednqua tal qual um sonho distorcido por febre.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ela precisava dormir. A priva\u00e7\u00e3o de sono a estava deixando err\u00e1tica, let\u00e1rgica, as alucina\u00e7\u00f5es estavam come\u00e7ando a se tornar mais intensas, <em>reais demais<\/em>. Come\u00e7avam a se misturar com a realidade, fazendo-a pegar-se resmungando com o vazio ou sem reagir a um som de animal selvagem na floresta perdida em um estado de transe. At\u00e9 mesmo seus olhos pareciam estar dispostos a tra\u00ed-la, em alguns momentos ficando completamente desfocados, n\u00e3o importava o quanto ela se esfor\u00e7asse para enxergar o que estava \u00e0 sua frente. <em>Precisava<\/em> passar neste teste, custasse o que custasse \u2014 n\u00e3o que n\u00e3o houvesse incentivo, <em>ele<\/em> s\u00f3 n\u00e3o acreditava em falhas, por isso os testes eram simples, para passar, ela deveria sobreviver e evidenciar a gra\u00e7a de um verdadeiro guerreiro, e se ela falhasse? Bem, estavam no meio da floresta, seu corpo seria digerido pelos animais que viviam ali.<br \/>\u2003\u2003O assobio da m\u00fasica come\u00e7ou a ficar mais alto, e a menina entrou em p\u00e2nico. O rosto aterrorizado permaneceu fixo no caminho \u00e0 sua frente, for\u00e7ando suas panturrilhas doloridas e latejantes a continuar o ritmo, tentando correr o mais r\u00e1pido que seu corpo permitia. O problema era que ela n\u00e3o tinha <em>ideia<\/em> de para onde ela estava indo. Outro disparo ecoou da carabina de Edgar, a bala atravessou o ar como um flash acertando de rasp\u00e3o a lateral da panturrilha direita de %Agatha%. Ela n\u00e3o gritou, sufocando o choro pela dor causada com um fungado alto, mas seu corpo ainda se projetou para frente, desabando com uma for\u00e7a que roubou o ar de seus pulm\u00f5es e fez seus ossos vibrarem por baixo de sua carne, rolando ladeira abaixo.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Tudo girou ao seu redor. Dedos feridos se curvaram em garras tentando desesperadamente agarrar-se ao que quer que encontrasse pelo caminho, tentando recuperar-se. Galhos secos, espinhos e ra\u00edzes fincaram-se em sua pele, retalhando-a, sua cabe\u00e7a acertou com um tronco de \u00e1rvore ca\u00eddo e por uma fra\u00e7\u00e3o de meros segundos, ela desmaiou. Seu corpo ficou completamente mole, e sua vis\u00e3o escureceu. O desespero gritava em sua mente quando %Agatha% recobrou sua consci\u00eancia arrastando-se pelo ch\u00e3o irregular da floresta, sentindo a neve molhar ainda mais suas roupas e seus dedos ficaram mais e mais amortecidos. O tremor violento da queda de seu corpo come\u00e7ava a transformar-se em espasmos fortes, dificultando para que a menina conseguisse se levantar e voltasse a correr.<br \/>\u2003\u2003Apenas correu. Obrigando-se a ir mais r\u00e1pido, mesmo que suas pernas estivessem come\u00e7ando a ceder ao peso de seu corpo e exaust\u00e3o, mesmo que seus pulm\u00f5es estivessem pegando fogo, e o ar g\u00e9lido queimasse suas vias respirat\u00f3rias, fazendo com que sangue come\u00e7asse a escorrer, deslizando pelo l\u00e1bio superior dela e pingando dentro de sua boca entreaberta. Um ru\u00eddo alto, <em>clic clac<\/em>, e ent\u00e3o mais um disparo.<br \/>\u2003\u2003Este acertou-a na altura do ombro, projetando-a para frente, mas ela n\u00e3o parou.\u00a0<br \/>\u2003\u2003E foi naquele momento que ela teve a completa certeza de que, <em>desta vez<\/em>, ela n\u00e3o escaparia da morte. Ele iria mat\u00e1-la, eventualmente ela iria falhar e ceder ao seu cansa\u00e7o, e sua corrida em zigue zague pela floresta daria a ele a posi\u00e7\u00e3o perfeita para que explodisse sua cabe\u00e7a. As l\u00e1grimas amea\u00e7avam escorrer por seu rosto, mas ela sabia que era melhor n\u00e3o chorar. <em>Tudo<\/em> era melhor do que chorar, ent\u00e3o ela apenas engasgou-se com o ar, fungando e arfando, tentando desesperadamente encher seus pulm\u00f5es de ar, e continuar correndo. N\u00e3o podia parar\u2026 n\u00e3o podia\u2026<br \/>\u2003\u2003Mais um disparo. Em desespero, ela se lan\u00e7ou para frente, deixando-se cair outra vez, o baque reverberou por seu corpo inteiro, uma dor aguda envolveu seu corpo e estrelas explodiram por tr\u00e1s de seus olhos, dan\u00e7ando em meio a escurid\u00e3o de suas p\u00e1lpebras, seu corpo rolou outra vez pelo terreno irregular da floresta, mais e mais r\u00e1pido, a n\u00e1usea do giro constante a desorientado, mas ela n\u00e3o fez men\u00e7\u00e3o alguma de parar dessa vez. Porque a menina tinha acabado de perceber que iria morrer. Se nos pr\u00f3ximos segundos ou nos pr\u00f3ximos minutos, qual diferen\u00e7a faria? A morte estendia seus bra\u00e7os \u00e0 sua frente, esperando-a como uma velha amiga, e %Agatha%?&#8230; %Agatha% pela primeira vez percebeu que n\u00e3o precisava lutar. Que seria melhor entregar-se de bom grado \u00e0 ceifadora que lhe aguardava, do que ficar. Se ela n\u00e3o morresse agora, ent\u00e3o morreria aquela noite, e ent\u00e3o na manh\u00e3 seguinte e por a\u00ed em diante. Era um jogo de trapa\u00e7a, n\u00e3o tinha como ela ganhar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ent\u00e3o quando seu corpo parou de rolar declive abaixo em meio a neve g\u00e9lida e cortante amortecendo seus m\u00fasculos, ela viu o precip\u00edcio que abria-se alguns metros \u00e0 frente, em dire\u00e7\u00e3o a um lago congelado, revolto e de gelo com apar\u00eancia fina. E foi ali, se tomada por sua teimosia ou pela v\u00e3 esperan\u00e7a de conseguir finalmente escapar do inferno que vivia \u2014 e especialmente de Edgar \u2014, %Agatha% se levantou cambaleante, parcialmente arrastando-se, tentando obrigar-se a mover-se, tentando obrigar-se a correr, uma \u00faltima vez, antes de saltar. Por um breve segundo, ela sentiu-se pairar no ar, e ela sentiu-se livre. Teve esperan\u00e7as que mesmo que a queda n\u00e3o a matasse, ela ainda tivesse algum resqu\u00edcio de for\u00e7a para continuar fugindo. L\u00e1 embaixo, Edgar n\u00e3o a alcan\u00e7aria. L\u00e1 embaixo nem mesmo sua carabina funcionava. E ela seria livre. <em>Finalmente<\/em> livre, depois de tanto temp\u2026<br \/>\u2003\u2003O disparo atravessou a parte superior do abd\u00f4men da menina. Sangue projetou-se \u00e0 frente da blusa fina e desgastada dela, espalhando-se rapidamente quando o corpo, inerte, chocou-se contra o gelo. Havia uma \u00fanica verdade naquela floresta e era simples.<br \/>\u2003\u2003Edgar %Pedroso% <em>nunca<\/em> errava.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\u2022\u2022\u2022<\/strong><\/p>\r\n<p align=\"right\"><strong>LONDRES \u2022 AGORA.<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ela acordou como sempre: vomitando, coberta de suor e vendo fantasmas.<br \/>\u2003\u2003Levou cerca de vinte minutos para que ela compreendesse onde estava e o que estava acontecendo. O grito emudecido para seus ouvidos, espalhava-se pelo apartamento modesto no centro da cidade alto e aterrorizado, o zumbido intenso em seus ouvidos, todavia, havia silenciado tudo. Sua pulsa\u00e7\u00e3o confundiu-se com a mem\u00f3ria traum\u00e1tica dos disparos, alta e colocando-se em <em>hiper alerta<\/em> novamente. O impulso de correr ou lan\u00e7ar-se em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o tornando-se <em>instintivo<\/em>, a fazendo trope\u00e7ar em seus pr\u00f3prios p\u00e9s e cambalear cegamente pela mesa de centro do apartamento. Seu cora\u00e7\u00e3o ainda estava acelerado, martelando com uma for\u00e7a quase dolorosa contra sua caixa tor\u00e1cica, o peito do\u00eda como se houvesse algum tipo de press\u00e3o invis\u00edvel, uma parede massiva de cimento sobre si, esmagando-a, parecia que iria <em>explodir<\/em>. Os instintos em alerta, sens\u00edveis, enviavam est\u00edmulos desesperados, a fazendo desviar e proteger sua cabe\u00e7a de meras sombras ou ru\u00eddos baixos. Vidro se quebrou abaixo de si, fazendo-a chocar-se contra o assoalho de madeira, sem perceber o caos que havia acabado de criar. De quatro, ofegante, %Agatha% levou cegamente suas m\u00e3os tr\u00eamulas em dire\u00e7\u00e3o a gola de sua blusa, as l\u00e1grimas que escorriam por seu rosto, pingando de seu queixo e misturando-se com os cacos de vidro abaixo de si, amortecidos, mal estavam l\u00e1. A respira\u00e7\u00e3o dela era pesada, irregular e rarefeita. Apenas piorou quando a tosse tomou conta de seu ser, mais nervosa do que qualquer outra coisa, sua mente s\u00f3 registrou meio a parte, a falta de ar.<br \/>\u2003\u2003Ent\u00e3o tudo come\u00e7ou a girar.<br \/>\u2003\u2003Ela tentou respirar, mas quanto mais for\u00e7a fazia, quanto mais tentava sugar o m\u00e1ximo de ar que podia, mais parecia que lhe faltava. %Agatha% rolou para o lado, sem perceber que havia acabado de enfiar sua m\u00e3o tr\u00eamula na po\u00e7a de seu pr\u00f3prio v\u00f4mito, tentando escorar-se contra a primeira coisa que encontrasse, a lateral do sof\u00e1 preto de couro que havia comprado da segunda m\u00e3e de Lorraine. Buscou, por puro instinto, por uma arma, qualquer coisa que ela pudesse usar para se defender, o nome de Beatriz escapando por seus l\u00e1bios quase como uma ora\u00e7\u00e3o, desesperada e n\u00e3o atendida. Os olhos emba\u00e7ados n\u00e3o identificavam de imediato o que estava \u00e0 sua frente, se era a televis\u00e3o parcialmente quebrada na ponta direita, ou se era a maldita floresta, se era o corpo de Beatriz, retorcido como o de uma <em>marionete<\/em>. Ela arfou, os solu\u00e7os mais altos e dolorosos, a cabe\u00e7a pendendo para tr\u00e1s, como se desta forma ela pudesse obstruir suas vias respirat\u00f3rias, mesmo que fosse somente sua garganta. Ela encarou diretamente o fantasma da televis\u00e3o ligada, observando-a sem <em>ver<\/em> o canal de segunda m\u00e3o, exibindo o primeiro jornal matinal.\u00a0<br \/>\u2003\u2003A est\u00e1tica da televis\u00e3o de tubo fazia n\u00e3o apenas com que a imagem ficasse inst\u00e1vel, como aumentava a sensa\u00e7\u00e3o de desconforto silencioso dos ouvidos emudecidos dela. Franziu o cenho, tremendo, hiperventilando, confusa por n\u00e3o estar conseguindo entender nada do que estava sendo pronunciado, sentindo como se algo estivesse completamente errado. A sensa\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o pareceu apenas aumentar, uma careta de pura dor espalhando-se por seu rosto, ao chacoalhar sua cabe\u00e7a tentando livrar-se daquela maldita sensa\u00e7\u00e3o. Foi ap\u00f3s longos minutos de pura confus\u00e3o e desespero \u2014 questionando-se para <em>onde<\/em> diabos havia sido levada dessa vez \u2014 que ela percebeu. <em>Ingl\u00eas<\/em><em>.<\/em> Era <em>ingl\u00eas<\/em>! Porra! %Agatha% fechou os olhos, deixando-se recostar contra o sof\u00e1 atr\u00e1s de si, sentindo o al\u00edvio ao menos oferecer-lhe um pequeno consolo para concentrar-se somente em sua respira\u00e7\u00e3o. Ela estava em Londres. N\u00e3o estava na Bielorr\u00fassia, nem no M\u00e9xico e muito menos no Brasil. Inglaterra. Certo, certo\u2026 ela havia se esquecido disso. Porra!<br \/>\u2003\u2003Inglaterra, merda, ela estava na Inglaterra, \u00f3timo, porra, <em>fant\u00e1stico<\/em>.<br \/>\u2003\u2003Suor empapava seus cabelos, a sensa\u00e7\u00e3o dos fios grudando ao redor de seu pesco\u00e7o e t\u00eamporas apenas aumentavam o inc\u00f4modo por ter algo <em>tocando<\/em> sua pele. Na maior parte do tempo, %Agatha% conseguia facilmente ignorar aquela parte de sua mente que <em>repudiava<\/em> at\u00e9 mesmo os m\u00ednimos toques. A ideia de um estranho tocando sua pele exposta era o suficiente para fazer com que seu est\u00f4mago se contra\u00edsse e ela entrasse em uma espiral desesperada para escapar do toque, mesmo que tivesse que <em>rasgar<\/em> seu caminho com unhas e dentes, mas \u00e0s vezes, em estranhos momentos como aquele, quando sentia-se uma espectadora dentro de seu pr\u00f3prio corpo, %Agatha% sentia avers\u00e3o de si mesma. Puta merda, %Agatha% apertou os olhos fechados com mais for\u00e7a, tentando ignorar o gosto amargo de bile em sua boca, espalhando-se e misturando-se contra sua saliva, fazendo-a crescer, como se estivesse \u00e0 beira do desespero para cuspi-la. Havia o gosto de <em>sangue<\/em> tamb\u00e9m, mais discreto, por\u00e9m presente, o que significava que ela deveria ter cortado alguma parte interna de sua boca <em>outra vez<\/em>. Deixou-se recostar pesadamente contra as pernas do sof\u00e1 de segunda m\u00e3o, sentindo-se zonza, e quase desabando para o lado ao calcular mal a distribui\u00e7\u00e3o de seu peso.\u00a0<br \/>\u2003\u2003A crise estava passando, e uma pequena dor de cabe\u00e7a come\u00e7ava a se instalar em suas t\u00eamporas, como todas as vezes. Ainda estava hiperventilando, e o desconforto come\u00e7ava a alterar-se ao dar os primeiros ind\u00edcios de dor: o peito dolorido, a garganta seca, raspando a cada arfar. %Agatha% levou sua m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao pesco\u00e7o, tentando massage\u00e1-la quando o cheiro f\u00e9tido de seu pr\u00f3prio v\u00f4mito \u2014 algo que misturava vinho, u\u00edsque barato e alguma coisa esquisita que ela havia comido na rua aquela noite \u2014 atingiu seu nariz e ela se impediu antes que pudesse sujar a si mesma. Ela praguejou entre dentes, as palavras em portugu\u00eas escapando como uma segunda natureza, instintivas. Ainda pareciam desconhecidas aos seus l\u00e1bios, tanto tempo longe de sua terra natal havia a feito perder o que ela supunha que deveria ser sua ess\u00eancia, mas se havia algo que %Agatha% %Pedroso% havia aprendido em sua vida era que n\u00e3o se dava para fugir do que se era. Voc\u00ea poderia <em>se cegar<\/em> para o que era, mas n\u00e3o <em>fugir<\/em>. Fez uma careta arrancando com seu bra\u00e7o esquerdo sua blusa e ent\u00e3o usando-a para limpar o estrago em sua pele. Quando terminou o trabalho, arremessou a blusa em dire\u00e7\u00e3o ao lixo e cuspiu no ch\u00e3o, sem conseguir evitar o movimento espasm\u00f3dico. Usando o antebra\u00e7o para afastar as mechas revoltas de seus cabelos para longe de seu rosto, olhos e pesco\u00e7o, ela piscou algumas vezes, tentando clarear sua vis\u00e3o emba\u00e7ada.<br \/>\u2003\u2003Estava encharcada de suor, e apesar de ter a sensa\u00e7\u00e3o de estar febril, o suor frio lhe dava a certeza de que n\u00e3o era uma intoxica\u00e7\u00e3o alimentar, tampouco algo provido <em>apenas<\/em> de uma rea\u00e7\u00e3o f\u00edsica externalizada por algum de seus in\u00fameros pesadelos. Ela <em>sabia<\/em> o que era, o que seu corpo estava demandando, e que ela ainda n\u00e3o havia se dado ao trabalho procurar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003O vento outonal londrino adentrou pela janela entreaberta do corredor, o aroma pungente de carbono queimado, terra molhada e polui\u00e7\u00e3o enviou uma sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio por sua mente, estabilizando a parte que ainda n\u00e3o conseguia reconhecer completamente o espa\u00e7o como <em>real<\/em>, mas o arrepio que percorreu por sua pele com o toque g\u00e9lido do vento, a incomodou. Ativou a mem\u00f3ria que estava tentando fugir naquela noite, e antes que ela pudesse se refrear, ela <em>lembrou-se<\/em> da sensa\u00e7\u00e3o. A queda violenta, a maneira como seu corpo havia se torcido e m\u00fasculos haviam se distendido, e ent\u00e3o, havia \u00e1gua, por todo lado, fria, cravando-se em sua pele como garras afiadas, dilacerando o que havia restado de si mesma enquanto a puxava mais e mais para dentro da escurid\u00e3o. Para dentro do vazio. %Agatha% quase morrera naquele dia, quando caiu dentro do lago congelado, mas tamb\u00e9m, %Agatha% j\u00e1 havia <em>quase morrido<\/em> in\u00fameras vezes, de in\u00fameras formas.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Agatha% tinha poucos medos, e a morte, estava longe de ser um deles, mas isso n\u00e3o significava que ela gostasse de sentir <em>desconforto<\/em>. N\u00e3o gostava de ser <em>lembrada<\/em> de seu desconforto.<br \/>\u2003\u2003Ela poderia ser maluca, mas n\u00e3o era <em>s\u00e1dica<\/em>. Bem, n\u00e3o com <em>ela mesma<\/em>, pelo menos.<br \/>\u2003\u2003Puxou os joelhos na dire\u00e7\u00e3o de seus seios, agora apenas envoltos pelo suti\u00e3 vermelho de renda que era uma das poucas pe\u00e7as que ela havia se dado ao trabalho de comprar em quase tr\u00eas anos vivendo em Londres. Apoiou os dois cotovelos sobre o topo de seus joelhos dobrados, e ent\u00e3o permitiu-se inclinar a cabe\u00e7a para tr\u00e1s, at\u00e9 que sua nuca estivesse repousada contra o estofado macio do sof\u00e1. Sua cabe\u00e7a estava explodindo, e ela ainda tinha aquela sensa\u00e7\u00e3o desorientadora de estar presa na n\u00e9voa causada pelo medo e instinto. Ela ainda tinha aquele sentimento esquisito de que a qualquer momento ela iria acordar e se depararia com Edgar \u00e0 sua frente, olhos desprovidos de alma ou consci\u00eancia, frios como gelo e afiados como navalha, presos em seu rosto, inexpressivos, esperando para que ela se movesse. Para que fizesse o que ele havia acabado de comandar. %Agatha% inspirou fundo e exalou por entre seus l\u00e1bios, antes de acertar alguns tapas fortes em seu pr\u00f3prio rosto, tentando despertar-se da letargia causada pelo sono e desorienta\u00e7\u00e3o, e o torpor que sempre se seguia com o ataque de p\u00e2nico.<br \/>\u2003\u2003A dor clareava sua mente com mais efic\u00e1cia do que qualquer exerc\u00edcio de respira\u00e7\u00e3o que Lorraine pudesse ter tentado ensin\u00e1-la, e sua colega de trabalho <em>havia<\/em> tentado convenc\u00ea-la a fazer esses exerc\u00edcios. Havia tentado <em>mesmo<\/em> at\u00e9 pag\u00e1-la. Por breves momentos, %Agatha% at\u00e9 mesmo havia se permitido entreter a ideia. Havia considerado, talvez por curiosidade, talvez por n\u00e3o ter mais nada a perder, fazer exatamente como Lorraine havia ensinado: respirar fundo, segurar, e ent\u00e3o exalar contando at\u00e9 cinco. Mas isso <em>nunca<\/em> a havia ajudado de fato. Era vol\u00e1til demais para conseguir conter-se apenas com uma mudan\u00e7a de respira\u00e7\u00e3o, era <em>treinada<\/em> demais para estar em alerta at\u00e9 mesmo em momentos de relaxamento, priorizando sempre <em>a resposta<\/em>. A dor era seu \u00fanico recurso. N\u00e3o era o <em>melhor<\/em>, ela sabia, mas funcionava, ent\u00e3o, ela n\u00e3o se importava.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Seus olhos dispararam de um lado para o outro, as pupilas contraindo-se, tentando fixar-se na televis\u00e3o ligada \u00e0 sua frente. Ela exalou por entre os dentes, o ru\u00eddo escapando mais alto do que pretendia e com um pequeno assobio rid\u00edculo, que ela tentou obrigar-se a ouvir.<br \/>\u2003\u2003Aquela era uma das piores partes. Para al\u00e9m das alucina\u00e7\u00f5es, em que %Agatha% n\u00e3o seria capaz de dizer o que era real e o que n\u00e3o era, mesmo que estivesse a um palmo de dist\u00e2ncia de si, era o ru\u00eddo em seu ouvido, abafando tudo ao seu redor, deixando-a vulner\u00e1vel e exposta. Edgar poderia ser muitas coisas, mas a viciou nos <em>mesmos<\/em> erros que ele possu\u00eda. %Agatha% era uma pessoa <em>auditiva<\/em> antes de mais nada, sua audi\u00e7\u00e3o era sua principal arma para se localizar. Era por isso que ela era <em>boa<\/em> no que fazia, porque seus instintos eram calibrados para rea\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e precisas, porque ela n\u00e3o se baseava somente em sua vis\u00e3o, mas em sua audi\u00e7\u00e3o. Isso com o reconhecimento de padr\u00f5es treinado por Edgar, havia tornado o que era. Ent\u00e3o quando a perdia, o medo tornava-se maior, porque, houve uma \u00e9poca, no passado, que ela igualmente n\u00e3o tinha nenhuma de suas habilidades, que ela era vulner\u00e1vel igual.<br \/>\u2003\u2003Nunca mais. <em>Nunca mais custasse o que custasse<\/em>.<br \/>\u2003\u2003Engoliu em seco, sua garganta ainda dolorida pela hiperventila\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7ando-se para encarar a televis\u00e3o, sentindo como se estivesse submersa. %Agatha% tencionou sua mand\u00edbula com for\u00e7a, o m\u00fasculo de sua bochecha se projetando suavemente pela pele intocada de seu rosto, focando nos sons que o aparelho decr\u00e9pito e inconvencional, estava fazendo. A distor\u00e7\u00e3o da voz por um segundo quase a fez rir, antes de seu olhar se estreitar com a imagem que via \u00e0 sua frente.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 &#8230; de acordo com o <em>Parlamento Canadense<\/em>, a a\u00e7\u00e3o foi necess\u00e1ria para manter a integridade do sistema de justi\u00e7a \u2014 a \u00e2ncora anunciava. %Agatha% inclinou sua cabe\u00e7a suavemente para o lado. N\u00e3o era particularmente f\u00e3 de pol\u00edtica; alguns anos como <em>sargento<\/em> na <em>SAS<\/em> havia lhe dado as respostas que precisava para saber para <em>o que<\/em> todo aquele sistema funcionava, e n\u00e3o era para pessoas como <em>ela<\/em>. \u2014 O Primeiro Ministro Canadense, David %Gauthier%\u2026 \u2014 Desta vez %Agatha% quase sorriu, uma ponta sard\u00f4nica de humor envolveu seus olhos. <em>%Gauthier%<\/em>, o sobrenome ecoou em sua mente, soava como um cuspe, vibrando por sua pele com uma familiaridade enfurecida, tensionando m\u00fasculos, causando espasmos em suas m\u00e3os e ombros, como se estivessem <em>prontos<\/em> para o ataque. \u2014 Declarou esta manh\u00e3 sobre as investiga\u00e7\u00f5es ao esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o e desvio de verbas na bancada republicana do Parlamento o qual o representa. Em seu discurso, durante a abertura de um dos novos hospitais para aux\u00edlio psiqui\u00e1tricos para crian\u00e7as que sofreram abusos, o Primeiro Ministro fez quest\u00e3o de frisar seu compromisso com a verdade, e que est\u00e1 disposto a oferecer todo o aux\u00edlio poss\u00edvel para as autoridades\u2026 \u2014 A imagem na televis\u00e3o mudou, da \u00e2ncora loira elegante envolta em roupas profissionais e s\u00e9rias, para o rosto igualmente s\u00e9rio, mas caloroso de um homem engravatado diante de um p\u00falpito.<br \/>\u2003\u2003David %Gauthier%. <em>%Gauthier%<\/em>.<br \/>\u2003\u2003%Agatha% moveu sua boca sem fazer um som, saboreando a pron\u00fancia do nome, carregando no sotaque <em>cajun<\/em> zombeteira, ela quase podia sentir o desprezo e o <em>prazer<\/em> escorrendo pelos cantos de seus l\u00e1bios. <em>Oh, ho-ho, algu\u00e9m n\u00e3o iria ficar nem um pouco feliz de ver essa not\u00edcia hoje<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003<strong><em>Bom<\/em><\/strong>. Muito bom. Era o que <em>ele<\/em> merecia.<br \/>\u2003\u2003Aquela fagulha familiar gerada por uma ira bem mais profunda do que ela havia come\u00e7ado a se dar conta aqueceu sua corrente sangu\u00ednea e criou um pequeno inc\u00eandio ao centro de seu peito. A adrenalina outrora usada em uma v\u00e3 tentativa de faz\u00ea-la focar, jorrou por suas veias, deixando-a desperta e ansiosa. Mas havia um brilho perigoso pairando por seus olhos. Um <em>prazer pessoal<\/em> que ela <em>nunca<\/em> se negaria a deleitar-se sempre quando pensava na mis\u00e9ria <em>dele<\/em>. %Agatha% fechou suas m\u00e3os em punhos firmes, suas unhas, maiores do que deveriam, fincando-se nas palmas de suas m\u00e3os, cravando fundo o suficiente para conseguir arrancar <em>sangue<\/em>, ao observar o mais velho. Um letreiro decorado com as cores do jornal surgiu abaixo, junto com a legenda da reportagem, acompanhado pela identifica\u00e7\u00e3o e profiss\u00e3o do homem na tela. David %Gauthier%, <em>Primeiro Ministro Canadense<\/em>. David %Gauthier% era um homem imponente, s\u00e9rio, e de apar\u00eancia capaz. Mas tirando o que era apenas encena\u00e7\u00e3o e teatro para as massas, havia uma gentileza em %Gauthier% que era capaz de fazer o est\u00f4mago dela revirar-se somente de <em>olhar<\/em>. Tinha os olhos %azuisescuros%, cabelos grisalhos nas laterais, penteados elegantemente em um <em>slideback<\/em> que pendia sobre suas t\u00eamporas de forma elegante, sempre perfeitamente alinhados. A colora\u00e7\u00e3o de seus cabelos se alterava minimamente para um platinado ao topo, dando a David o ar de um homem de idade bem conservado.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Havia nascido para ser a porra de um gal\u00e3 grisalho hollywoodiano, barba perfeitamente aparada, roupas impec\u00e1veis, sorriso encantador e olhos que brilhavam com aquele carisma que ela viera a conhecer <em>muito bem<\/em>, e bem <em>de perto<\/em>. Em uma dose maior e enlouquecedora. Se David %Gauthier% conseguia encantar o p\u00fablico apenas com uma <em>dose<\/em> do que era aquele maldito chame, dava para entender por que ela havia se deparado com o <em>monstro<\/em>. %Agatha% n\u00e3o conseguiu conter um sorriso de desgosto e nojo, seus pensamentos uma tempestade incoerente de ressentimento, raiva e o desejo por poder acertar as contas, por poder vingar aquilo que lhe foi roubado. %Agatha% conhecia aquele jogo com perfeita familiaridade: eram as pessoas que se apresentavam com maior perfei\u00e7\u00e3o e morais que costumavam a se provar as <em>mais<\/em> corruptas. Ou, ao menos, as mais f\u00e1ceis de <em>serem corrompidas<\/em>. Talvez ela estivesse sendo c\u00ednica demais, talvez fosse sua cria\u00e7\u00e3o que a havia tornado desse jeito. Que havia quebrado dessa forma, mas verdade seja dita, todo mundo tinha algo que repetia em alto e bom tom para se <em>convencer<\/em> disso.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Os olhos %verdeschartreuses% dela desviaram-se da televis\u00e3o, repousando nos familiares e fantasmag\u00f3ricos de <em>Beatriz<\/em>. Ela trincou os dentes com for\u00e7a. Os olhos de sua irm\u00e3 g\u00eamea sempre haviam sido mais castanhos, como mel, dos que os dela, eram puxados para uma tonalidade doce, ou fosse apenas a maneira com que ela encarava a todos. Expressivos, Beatriz sempre havia carregado seu cora\u00e7\u00e3o em suas m\u00e3os, era f\u00e1cil l\u00ea-la, era por isso que %Agatha% sempre conseguia levar a melhor durante suas brigas, Beatriz sempre havia sido <em>melhor<\/em> do que %Agatha% <em>jamais<\/em> poderia <em>imaginar<\/em> ser. Agora, aqueles olhos a encaravam fixamente, arregalados, os bra\u00e7os cruzados a frente de seu corpo, em zombaria, como se estivesse provocando %Agatha%, expondo o que ela <em>j\u00e1 sabia<\/em> sobre si mesma, mas faltava-lhe os pulsos e as m\u00e3os, os ossos expostos eram brancos como porcelana, quebradi\u00e7os e fr\u00e1geis como ela se lembrava vividamente de terem parecido sob seu toque. A cabe\u00e7a dela pendia para o lado, sobre o ombro esquerdo, mas n\u00e3o como ela costumava fazer quando estava com sono ou tentando convencer %Agatha%\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Agatha% piscou os olhos rapidamente, encarando as pr\u00f3prias m\u00e3os tr\u00eamulas, seu peito ardendo, dolorido, e sua respira\u00e7\u00e3o insuportavelmente <em>superficial<\/em>. Tentou alongar os m\u00fasculos de seus ombros e pesco\u00e7o com um espa\u00e7o, movendo a cabe\u00e7a em um c\u00edrculo, como se o gesto pudesse aliviar a press\u00e3o crescente em seu peito, ou o tremor em suas m\u00e3os, mas \u00e9 claro que n\u00e3o ajuda. A not\u00edcia com David %Gauthier% alterou-se para a pr\u00f3xima, exibindo o conflito no Oriente M\u00e9dio. N\u00e3o foi a explos\u00e3o no v\u00eddeo, ou a claridade do mesmo que a perturbou, <em>foi a porra do som<\/em>. Os gritos por ajuda das v\u00edtimas. Foi como receber um golpe em seu est\u00f4mago, ela ofegou, levantando-se com toda sua agilidade e agarrou a lateral da televis\u00e3o com as duas m\u00e3os, e com um grito sufocado, a empurrou em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o, cambaleando para tr\u00e1s. O estrondo do objeto estatelando-se no assoalho velho de seu apartamento modesto reverberou pelas paredes, o vidro misturou-se com o resto do que fora outrora sua mesa de centro, arranhando as solas de seus p\u00e9s e cortando-as sem que ela se <em>importasse<\/em> com a sensa\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003%Agatha% fincou suas unhas em seu pesco\u00e7o, sentindo-as mais afiadas do que deveriam ser, cortando a pele sens\u00edvel de seu pesco\u00e7o enquanto ela tentava arranhar um buraco aberto no local, um lugar pelo qual ela pudesse <em>respirar<\/em>. N\u00e3o conseguiu, \u00e9 claro, mas a dor novamente ajudou a clarear seus pensamentos. Trincou os dentes com for\u00e7a, irritada. Havia perdido a porra de 400 libras s\u00f3 naquela <em>merda <\/em>de manh\u00e3, e a menos que ela tivesse inten\u00e7\u00e3o de dar o cu na esquina \u2014 o que <em>jamais<\/em> funcionaria para ela, devido sua avers\u00e3o a toque \u2014, ela precisaria de <em>mais<\/em> dinheiro. Sua vida era simplesmente <em>incr\u00edvel<\/em>, n\u00e3o? %Agatha% fechou os olhos novamente, exalando frustrada ao apoiar as duas m\u00e3os ao redor de seu pesco\u00e7o, e deixar sua cabe\u00e7a pender para tr\u00e1s com uma careta.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ao menos havia <em>sil\u00eancio<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era que ela gostasse de sil\u00eancio, na verdade, sentia tanta repulsa quanto por algum toque estrangeiro. Havia algo na imprevisibilidade e na paranoia constante, a necessidade de sempre estar alerta que a configurava naquela dicotomia rid\u00edcula. Ao mesmo tempo que ansiava para que tudo estivesse em sil\u00eancio, entrava em um estado de hiper alerta pior e mais profundo, esperando de onde viria o pr\u00f3ximo ataque, ou <em>quem<\/em> iria agarrar seus cabelos <em>dessa<\/em> vez e arrast\u00e1-la para algum canto escuro. Igualmente, n\u00e3o era como se ela <em>quisesse<\/em> ouvir as batidas em sua porta, anunciando que, <em>mais uma vez<\/em>, teria a reclama\u00e7\u00e3o de algum dos desgra\u00e7ados de seus vizinhos pelos gritos e barulhos, mesmo que %Agatha% tivesse apresentado um diagn\u00f3stico de terror noturno.\u00a0 <br \/>\u2003\u2003Era falso, \u00e9 claro, ela havia conseguido com Madoc por baixo dos panos, mas havia servido para que a deixassem em paz por um tempo. %Agatha% fizera sempre quest\u00e3o de deixar claro que n\u00e3o se importava com o barulho, gravando e apresentando a seus vizinhos os barulhos de gemidos altos e o cont\u00ednuo assalto contra o <em>seu<\/em> lado da parede da cabeceira da cama batendo ritmadamente. Algo havia acontecido, porque at\u00e9 onde %Agatha% se lembrava, o rosto da mulher, Summer, era seu nome, havia empalidecido, e o cara, um idiota que ela n\u00e3o havia se importado em sequer reconhecer como ser humano, havia se tornado vermelha como um piment\u00e3o. %Agatha% havia feito pipoca de micro-ondas naquela noite, e se sentado abaixo do quarto deles, adorando ouvir os gritos e acusa\u00e7\u00f5es sobre a trai\u00e7\u00e3o de Summer. De qualquer forma, o recado havia sido preciso e efetivo. Mas <em>sempre<\/em> havia algu\u00e9m tentando ser her\u00f3i de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<br \/>\u2003\u2003%Agatha% odiava <em>esse<\/em> tipo de pessoa.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Chutou para fora de seu caminho uma das pernas de madeira da mesa de centro, ignorando o barulho do crack abaixo das solas de seus p\u00e9s, marchando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua porta com pregui\u00e7a. As batidas se tornaram mais insistentes, o que a fez parar a frente do objeto de madeira revestida de metal, com consider\u00e1veis trancas para tornar, <em>no m\u00ednimo<\/em> dif\u00edcil que algum idiota entrasse ali. %Agatha% apertou os cantos de seus l\u00e1bios, dando um passo instintivo para tr\u00e1s, os olhos fixos na tranca, sentindo seus m\u00fasculos tensos se moverem por baixo de sua pele, tencionando-se um pouco mais ao inclinar-se para frente. Sua respira\u00e7\u00e3o desacelerou, como havia sido treinada e ela buscou com o olhar alguma coisa que pudesse usar para defender-se.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Pisando com o p\u00e9 inteiro, come\u00e7ando pelos dedos, seguido da planta do p\u00e9, e ent\u00e3o o calcanhar, treinada para n\u00e3o fazer sequer um ru\u00eddo. O sangue que se acumula em suas solas dos p\u00e9s, os deixavam escorregadios, f\u00e1ceis de tornarem-se um problema para ela, mas %Agatha% tinha experi\u00eancia h\u00e1 tempo suficiente para <em>saber<\/em> como se adaptar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Era <em>nisso<\/em> que ela era boa, <em>adaptar-se<\/em>. Ela exalou por entre os dentes, retirando de um pequeno compartimento no arm\u00e1rio em que ela guardava seus sapatos, ela al\u00e7a a 9mm, destravando-a e engatilhando-a em poucos segundos, sem sequer precisar olhar para a arma, antes de erguer seus bra\u00e7os, firmes e im\u00f3veis como os de um cirurgi\u00e3o, precisa em sua arte sangrenta, inspirando fundo, concentrando-se.<br \/>\u2003\u2003Tudo ao seu redor pareceu desacelerar, o foco travado apenas na tarefa em suas m\u00e3os, em sobreviver. Mirou na porta, mas n\u00e3o disparou, ela esperou, controlando sua respira\u00e7\u00e3o, concentrando-se em manter sua posi\u00e7\u00e3o firme e em detectar quaisquer ru\u00eddos que encontrasse, por menores que fossem. Seus olhos %verdeschartreuses% cintilavam como os de um gato, movendo-se para acompanhar o que ouvia do outro lado. Mais duas batidas e ent\u00e3o houve apenas sil\u00eancio.<br \/>\u2003\u2003Ela quase sorriu, desgostosa.<br \/>\u2003\u2003Agora, <em>isso<\/em> era <em>amadorismo<\/em>. Se a inten\u00e7\u00e3o era distra\u00ed-la de suas janelas usando a porta, o \u00fanico lugar que ela possu\u00eda para escapar de seu apartamento, ent\u00e3o era estupidez tentar entrar pela janela. Se a inten\u00e7\u00e3o era esperar que ela abrisse a porta para verificar o que estava acontecendo do lado de fora como uma mulher inocente, atra\u00edda para fora de seu apartamento por n\u00e3o saber melhor, ent\u00e3o estavam duplamente enganados. %Agatha% quase sorriu consigo, seus dedos envolvendo com mais for\u00e7a a coronha da arma, o metal g\u00e9lido pressionado contra as palmas calejadas de suas m\u00e3os enviando uma sensa\u00e7\u00e3o de conforto e familiaridade como se fosse uma mera extens\u00e3o de seus bra\u00e7os. E de certa forma, <em>era<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Os olhos dela registraram quando a tranca de seu apartamento girou devagar, como se estivessem testando a firmeza do ferro e localizando os \u00faltimos pinos a serem erguidos. Deparar-se-iam \u00e9 claro com o restante das outras trancas, mas era quase <em>fofo<\/em> ver a dedica\u00e7\u00e3o em assumir que ela era uma completa idiota. Estreitou os olhos, esperando. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, %Agatha% podia ter jurado que algo atravessou seu campo de vis\u00e3o pelo lado direito, vindo de sua cozinha. Uma mancha escura que sua vis\u00e3o perif\u00e9rica havia feito pouco uso de registro. Poderia ser um invasor, \u00e9 claro, mas arriscar sair de sua posi\u00e7\u00e3o para verificar algo na cozinha era dar uma abertura, mesmo que pequena para quem quer que estivesse tentando entrar em seu apartamento, ou poderia ser somente sua mente trai\u00e7oeira, a traindo outra vez.<br \/>\u2003\u2003Concentrou-se nos sons. Ru\u00eddos baixos de troca de peso vindo do outro lado da porta, a respira\u00e7\u00e3o acelerada, provavelmente estavam mais tensos e ansiosos do que %Agatha%, ou era a porra de um novato, ou o infeliz a quem esse trabalho foi conferido <em>sabia<\/em> quem ela <em>realmente<\/em> era. Para ambos os efeitos n\u00e3o seria dif\u00edcil lidar <em>com ele<\/em>. O problema seria o barulho do disparo, e ocultar o cad\u00e1ver. Ela j\u00e1 tinha olhos demais em suas costas para <em>querer<\/em> atrair a aten\u00e7\u00e3o de seus vizinhos. N\u00e3o havia ru\u00eddo em sua cozinha, apenas um pequeno chiado debaixo de uma torneira esquecida aberta por ela na noite anterior. Fez uma anota\u00e7\u00e3o mental para parar de beber com tanta frequ\u00eancia \u2014 estava gastando suas pr\u00f3prias palavras consigo mesma, e sabia disso.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Tudo o que silenciasse a voz de Beatriz em sua mente era algo que %Agatha% aceitaria de bom grado. Mesmo uma tentativa de assassinato.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ela deu um passo silencioso para a frente, trocando seu peso de perna devagar, deliberadamente aproximando-se da porta. Ent\u00e3o algo aconteceu.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Havia sido r\u00e1pido o suficiente para que ela n\u00e3o tivesse compreendido direito o que ocorrera do outro lado da porta, mas ela havia registrado os barulhos como um gato. Um ru\u00eddo abafado, metal acertando o ch\u00e3o e ent\u00e3o algo pesado ao longe. %Agatha% estreitou os olhos. Agora <em>isso<\/em> era algo <em>estranho<\/em>. Repassou em sua mente quem diabos poderia ter enviado algu\u00e9m para tentar mat\u00e1-la.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Veja bem, ela tinha inimigos. <em>Muitos<\/em> inimigos. Para ser sincera, ela nunca tivera era um <em>amigo<\/em> digno de confian\u00e7a \u2014 e os que tivera, ela havia metido a porra de uma bala em seus cr\u00e2nios e encerrado o dia. Mas havia <em>poucas<\/em> pessoas em Londres que se dariam ao trabalho de tentar mat\u00e1-la. Ziyad Karam, ou simplesmente <em>Doc<\/em>, o chef\u00e3o dos gangsters ali, era um excelente nome para come\u00e7ar. Havia Cortez, e sua gangue de rua rid\u00edcula, <em>Los Gigantes<\/em> em <em>Bethel Greens<\/em>, no <em>East End<\/em>, provavelmente frustrado pela cont\u00ednua extors\u00e3o que %Agatha%, com prazer, fazia com Madoc. N\u00e3o seria a primeira vez que Cortez tentava convencer idiotas a entregar-lhe sua cabe\u00e7a em uma bandeja, mas era a primeira vez que esses idiotas haviam <em>encontrado<\/em> sua <em>verdadeira<\/em> localiza\u00e7\u00e3o. %Agatha% chiou entre dentes relaxando sua postura quando o sil\u00eancio se prolongou por mais trinta minutos inteiros, evidenciando para ela que o corredor do outro lado de sua porta, provavelmente estava limpo.\u00a0<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o hesitou em agir. Com um pux\u00e3o brusco e mais violento do que desejava, ela abriu a porta com for\u00e7a, empurrando-a com cuidado para tr\u00e1s, ainda empunhando sua arma. Os olhos %verdeschartreuses% de %Agatha% percorreram com cuidado toda a extens\u00e3o mal iluminada do corredor externo do pr\u00e9dio residencial. Com assoalhos de madeira, com corredores estreitos e portas tingidas de branco amarelado pela passagem de tempo, n\u00fameros irregulares e mal feitos identificavam quais apartamentos pertenciam a quem. Os tapetes de entradas revelavam um pequeno vislumbre das personalidades de cada morador ali, exceto <em>%Agatha%<\/em>. Ela detestava aquele tipo de coisa, e, se fosse ser honesta, tinha prioridades bem maiores do que a porra de um tapete com uma piadinha gen\u00e9rica convidando algu\u00e9m para entrar. Ela abaixou sua arma, apoiando-a em suas costas, sem importar-se por estar apenas com cal\u00e7as de moletom sujas e suti\u00e3 em meio \u00e0 local p\u00fablico, franzindo o cenho.<br \/>\u2003\u2003Embora as luzes do local oscilassem e tivessem duas l\u00e2mpadas queimadas entre o patamar das escadarias daquele andar e do \u00faltimo, %Agatha% podia ver com clareza de detalhes que n\u00e3o havia ningu\u00e9m. Isso, para muitos, acabaria servindo como conforto. Quem quer que estivesse tentando invadir seu apartamento, havia desaparecido e muito provavelmente n\u00e3o voltaria, mas para %Agatha%, soava como sua senten\u00e7a de <em>morte<\/em>. Porque s\u00f3 havia <em>uma<\/em> pessoa que se movia silenciosamente daquela forma, e %Agatha% n\u00e3o o via fazia <em>anos<\/em>, e, se tudo n\u00e3o havia passado de apenas uma alucina\u00e7\u00e3o de sua parte, ent\u00e3o estava piorando e r\u00e1pido. Precisava ir at\u00e9 Madoc novamente, conseguir mais da porra da <em>droga<\/em> que ele fornecia antes que perdesse completamente o controle sobre si.\u00a0<br \/>\u2003\u2003%Agatha% engoliu em seco, assentindo para si mesma quando virou para a esquerda, para voltar para dentro de seu apartamento e deparou-se com uma faca, ensanguentada, fincada na porta. O sangue ainda que m\u00ednimo havia deixado uma mancha escura na madeira com metal da porta de entrada de seu apartamento, obscurecendo a superf\u00edcie que tocava, como se ela tivesse derramado alguma coisa ali. Ao centro da ponta em que a faca se fincava havia apenas um cart\u00e3o de <em>feliz anivers\u00e1rio<\/em> embebido em sangue.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Por um breve momento, ela apenas encarou a faca e o cart\u00e3o cravados em sua porta, cobertos por um sangue que n\u00e3o lhe pertencia. Seu queixo se contraiu e os dedos que seguravam a coronha de sua arma apertaram-se com mais for\u00e7a, os m\u00fasculos tensionados come\u00e7ando a tremer. Os espasmos percorrendo seu corpo. Os olhos percorreram minuciosamente cada detalhe, da maldita faca para o cart\u00e3o cravado em sua porta. Faca de assalto, serrilhada, desgastada pelo uso se fosse levar em considera\u00e7\u00e3o os pequenos ind\u00edcios de ferrugem que tinha na conjuntura de sua empunhadura e nas serras. O cart\u00e3o de feliz anivers\u00e1rio era de uma loja de conveni\u00eancia, descuidado e havia uma rasura em uma das palavras, como se a pessoa tivesse tentado \u201cconsertar\u201d a frase rabiscando-a com for\u00e7a e ent\u00e3o adicionado um agressivo \u201c<em>n\u00f3s\u201d<\/em>. <em>Parab\u00e9ns para n\u00f3s<\/em>, ficava, e a respira\u00e7\u00e3o de %Agatha% se perdeu em algum lugar de sua garganta.<br \/>\u2003\u2003O mundo come\u00e7ou a mover-se novamente ao redor de %Agatha%, intenso e girando com uma velocidade nauseante. Seu \u00fanico ponto s\u00f3lido era aquela maldita <em>faca<\/em> e aquele maldito <em>cart\u00e3o<\/em>. O gelo de sua tens\u00e3o e alerta misturou-se com o fogo de sua ira e crescente frustra\u00e7\u00e3o, em ebuli\u00e7\u00e3o, sufocante, deixando-a \u00e0 beira de uma explos\u00e3o. O am\u00e1lgama de emo\u00e7\u00f5es, todavia, permaneceu sob controle, abaixo de sua m\u00e1scara de neutralidade, mas seus olhos <em>queimavam<\/em><em>.<\/em> Ela arrancou a faca com um movimento r\u00e1pido e preciso, arremessando-a no assoalho de seu apartamento, e ent\u00e3o al\u00e7ou o cart\u00e3o, seus dedos tr\u00eamulos envolveram o papel manchado de sangue, curvando-se como garras e o amassando.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Abriu a parte interna, sem saber ao certo o que deveria esperar encontrar ali, mas definitivamente n\u00e3o era a caligrafia elegante e vagarosamente familiar com os \u00fanicos dizeres:<br \/>\u2003\u2003<em>Vermelho \u00e9 sua cor. Use-a<\/em>.<br \/>\u2003\u2003%Agatha% sentiu seu rosto empalidecer, engolindo em seco, como se de repente sua garganta estivesse seca demais para que ela pudesse engolir apropriadamente, sua pulsa\u00e7\u00e3o dando um salto em seus ouvidos, fazendo-se perceber em seu pesco\u00e7o, sua respira\u00e7\u00e3o escapando por entre seus l\u00e1bios, mas sem nenhum resqu\u00edcio de oxig\u00eanio enchendo seus pulm\u00f5es. Ela amassou com for\u00e7a o cart\u00e3o, desejando que fosse a porra do desgra\u00e7ado que ela <em>sabia<\/em> que deveria ter enviado aquela <em>merda<\/em> de cart\u00e3o. Seu cora\u00e7\u00e3o martelava com intensidade contra sua caixa tor\u00e1cica, expandindo e contraindo de forma err\u00f4nea, suas pupilas se contra\u00edram, e o movimento de seu peito subindo e descendo era apenas mec\u00e2nico porque nada passava por sua garganta, apenas frustra\u00e7\u00e3o e f\u00faria.<br \/>\u2003\u2003Fechou a porta atr\u00e1s de si sem se importar com o barulho, antes de se permitir sentar-se no ch\u00e3o, arfando, mais uma vez, ainda segurando a arma como se sua vida dependesse disso \u2014 e de fato, dependia \u2014 ela pressionou o metal g\u00e9lido contra a boca de seu abd\u00f4men liso, o toque enviou um arrepio pelo corpo dela, mas o inc\u00f4modo serviu para mant\u00ea-la <em>ali<\/em>, <em>presente<\/em>. Quando ela ergueu seus olhos, deparou-se com Beatriz a poucos cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia de seu rosto, a cabe\u00e7a torta, oscilando para frente e para tr\u00e1s, mas era seu <em>sorriso<\/em> que era perturbador. Largo, deixando \u00e0 mostra quase todos seus dentes enquanto sangue escorria lentamente por entre os cantos de seus l\u00e1bios e dentes. Estava rindo, o som fantasmag\u00f3rico soando como vermes, infestando os bra\u00e7os de %Agatha% e corroendo-a de dentro para fora, ainda assim, ela ergueu o queixo, sustentando o olhar de sua irm\u00e3 g\u00eamea morta.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Sustentando a alucina\u00e7\u00e3o do fantasma que apenas ela carregava consigo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 %Agatha%, %Agatha%, %Agatha%\u2026 tsc, tsc, tsc, ah, %Agatha% \u2014 cantarolou sua irm\u00e3 g\u00eamea, divertida. A cabe\u00e7a torta se virou para a direita, ajustando-se no pesco\u00e7o quando Beatriz parou a um fio de cabelo de dist\u00e2ncia do rosto de uma %Agatha% im\u00f3vel. \u2014 Voc\u00ea realmente achou que conseguiria escapar dessa vez? \u2014 provocou Beatriz, e a frustra\u00e7\u00e3o queimou por tr\u00e1s dos olhos de %Agatha%, mesmo que nenhuma l\u00e1grima fosse escorrer por seu rosto petrificado e p\u00e1lido. Um arrepio g\u00e9lido, forasteiro para ela at\u00e9 ent\u00e3o, percorreu por sua espinha, espalhando-se rapidamente por suas veias. Um sentimento que ela n\u00e3o tinha fazia <em>anos<\/em>, talvez <em>d\u00e9cadas<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Medo. Puro e profundo <em>medo<\/em>.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> pe\u00e7o desculpas a todos que leem e acompanham essa hist\u00f3ria. Do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, sou eternamente grata pela oportunidade de te entreter ainda que por algumas breves horas. A verdade \u00e9 que embora a hist\u00f3ria n\u00e3o tenha mudado quase nada da original, a minha escrita sempre foi confusa, especialmente por causa do TDAH. S\u00e3o muitas ideias flutuando ao mesmo tempo, e pouca coer\u00eancia. \u00c9 por conta disso, e para desenvolver melhor os outros personagens, que estarei reescrevendo. A hist\u00f3ria continua a mesma, s\u00f3 com alguns acr\u00e9scimos. Agrade\u00e7o a compreens\u00e3o, e pe\u00e7o desculpas por isso. Te vejo em breve!<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BIELORUSSIA \u2022 13 ANOS ANTES. \u2022\u2022\u2022 LONDRES \u2022 AGORA. s e barulhos, mesmo que %Agatha% tivesse apresentado um diagn\u00f3stico de terror noturno.\u00a0 \u2003\u2003Nota da Autora: pe\u00e7o desculpas a todos que leem e acompanham essa hist\u00f3ria. Do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, sou eternamente grata pela oportunidade de te entreter ainda que por algumas breves horas. 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