{"id":6305,"date":"2024-12-11T17:24:00","date_gmt":"2024-12-11T20:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-24T17:26:49","modified_gmt":"2025-10-24T20:26:49","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/we-are-broken\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cEu estou do lado de fora e eu estive esperando pelo sol. Com meus olhos bem abertos, eu vi mundos que n\u00e3o faziam sentido\u201d.<\/em><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Gargalhadas altas. Conversas divertidas<\/span> entre os amigos e ela rindo de tudo e todos. Ela sorrindo para mim. Colocou o dedo indicador em um dos molhos da mesa, n\u00e3o me lembro de qual sabor, e sujou o meu nariz ainda sorrindo para mim. Eu abaixei o olhar, divertido, e limpei meu pr\u00f3prio nariz e a abracei. Sussurrei coisas bobas em seu ouvido, enquanto ela me olhava com aquela express\u00e3o atrevida e ao mesmo tempo inocente. Uma de nossas amigas a puxou pela m\u00e3o nos tirando daquele nosso momento e a levando para a pista de dan\u00e7a. Fiquei na mesa observando %J\u00falia% de longe, dan\u00e7ando, sorrindo, feliz. Coloquei a m\u00e3o no bolso de meu casaco puxando a caixinha aveludada. Os caras \u00e0 mesa perceberam e come\u00e7aram a me zoar e a sorrir. Pedi que disfar\u00e7assem e n\u00e3o contassem nada. Eu sorria como um tolo, um tolo que anda sobre chamas acesas em carv\u00e3o. Era aquilo: meu cora\u00e7\u00e3o era uma brasa.<br \/>\u2003\u2003Olhei novamente na dire\u00e7\u00e3o dela e n\u00e3o vi aonde %J\u00falia% estava. Percorri os olhos pelo lugar e novamente n\u00e3o a encontrei. Levantei-me preocupado e caminhei entre a multid\u00e3o de corpos dan\u00e7antes, alcoolizados e alegres. M\u00e3os delicadas puxaram o meu punho e abra\u00e7aram-me em um convite para dan\u00e7ar. Aquele n\u00e3o era o cheiro dela. Afastei aquela mulher, delicadamente a dispensando, mas ela insistia. Falava palavras confusas e b\u00eabadas ao meu ouvido, e eu segurei-a levemente a afastando de mim. Coloquei-me a caminhar mais apressado. %J\u00falia% subia as escadas em um canto daquele lugar. Antes que eu chegasse ao final, uma das meninas que estavam conosco me parou e pediu para eu voltar para a mesa e me acalmar, porque ela conversaria com a amiga. Eu estava confuso. O que a %J\u00falia% tinha visto?<br \/>\u2003\u2003Retornei \u00e0 mesa, e os caras continuavam tranquilos, distra\u00eddos, conversando e b\u00eabados. Perguntaram-me aonde eu fui e apenas balbuciei uma desculpa qualquer. Eu n\u00e3o conseguia n\u00e3o olhar para a dire\u00e7\u00e3o de onde eu vim. Levei as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a, parecia que uma enxaqueca iria come\u00e7ar. Suspirei pesadamente, e j\u00e1 n\u00e3o estava confort\u00e1vel ali. Peguei meu celular discando o n\u00famero dela, e enquanto aguardava-a atender, um par de bra\u00e7os me envolveu os ombros. Eu reconheci o cheiro dela. Desliguei a chamada e me levantei urgente a abra\u00e7ando.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Foi um engano, n\u00e3o foi? \u2014 Ela me perguntou.<br \/>\u2003\u2003\u2014 A mo\u00e7a na pista de dan\u00e7a? \u2014 perguntei e %J\u00falia% confirmou com olhos aflitos \u2014 Sim! Era uma garota qualquer desconhecida e que estava fora de si, apenas convidando um cara para dan\u00e7ar sem saber que ele procurava a mulher da sua vida. \u2014 respondi.<br \/>\u2003\u2003%J\u00falia% me beijou. Tudo estava mais calmo de novo, menos o meu cora\u00e7\u00e3o que depois do susto quis lev\u00e1-la para casa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Vamos embora?<br \/>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 vai amanhecer mesmo&#8230; \u2014 Ela me respondeu e deu de ombros.<br \/>\u2003\u2003\u2014 S\u00e9rio? N\u00e3o percebi&#8230; \u2014 peguei a m\u00e3o dela e levei ao meu peito \u2014 Tem um Sol que me aquece bem aqui.<br \/>\u2003\u2003Sorrimos, nos despedimos e sa\u00edmos.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cMinha boca est\u00e1 seca com palavras que n\u00e3o consigo verbalizar\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003%Dinho% havia me levado para a praia antes de ir para casa. Eu tinha meu bra\u00e7o entrela\u00e7ado ao dele e sentia o cheiro de maresia que eu tanto amava, misturado ao perfume dele, que eu tamb\u00e9m amava. Ele me transmitia paz. Meu est\u00f4mago doeu e, embora eu estivesse faminta, o motivo era a lembran\u00e7a daquela mulher o tocando e falando ao ouvido dele na boate. Antes que aquela lembran\u00e7a amarga me fizesse vomitar palavras falsas, eu senti o corpo dele se afastar do meu. Ele corria pela areia em dire\u00e7\u00e3o ao local onde as ondas haviam acabado de arrebentar. Parei o observando se abaixar e pegar algo. Olhou para mim sorrindo, com o conjunto de dentes mais brilhantes pelos quais eu j\u00e1 havia me apaixonado. Ajeitou os cabelos com uma das m\u00e3os, e na outra segurava uma estrela-do-mar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Pra voc\u00ea. \u2014 Ele me estendeu mordendo os l\u00e1bios.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 linda&#8230; Mas&#8230; Posso devolv\u00ea-la ao seu lugar? \u2014 perguntei sem gra\u00e7a.<br \/>\u2003\u2003Ele esbo\u00e7ou um sorriso convencido. %Dinho% sabia que eu a devolveria. Fez sinal positivo e juntos caminhamos at\u00e9 a borda do mar. Quando as ondas tocaram os meus joelhos, ele e eu nos seguramos firmes, gargalhando pelo medo do meu pr\u00f3prio desequil\u00edbrio. Lancei a estrela para as \u00e1guas, caminhamos para um local mais seguro, e n\u00e3o voltamos a andar. %Dinho% me segurou fazendo parar ali, onde eu poderia olhar em seus olhos e ainda sentir as geladas ondas em minhas canelas. Puxou uma caixinha aveludada de seu bolso e sorriu. Imediatamente, l\u00e1grimas emba\u00e7aram minha vis\u00e3o, e escorriam tamb\u00e9m pelo rosto dele. Ele a abriu tirou o anel, colocou-o em meu dedo, e disse a \u00fanica frase que era nosso \u201cc\u00f3digo secreto\u201d para perguntas e respostas ret\u00f3ricas:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 bom assim, agora?<br \/>\u2003\u2003Abracei-o e beijei. L\u00e1grimas estavam imersas desde nossos olhos, aos nossos p\u00e9s, misturadas nas ondas salgadas do mar.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cDiga-me por que n\u00f3s vivemos assim?\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Passos apressados at\u00e9 chegar ao escrit\u00f3rio dele. E um extenso sorriso em meu rosto demonstrava a urg\u00eancia em contar a ele as novidades. Antes de vislumbrar o elevador que me levaria ao andar de seu escrit\u00f3rio, eu percebi em uma vis\u00e3o paralela, os dentes brilhantes dentro do sorriso que eu era dona. Eu era capaz de reconhecer %Fernando% por seu sorriso, onde quer que eu estivesse. Desse para v\u00ea-lo ou n\u00e3o. Meu cora\u00e7\u00e3o pressentia tua presen\u00e7a, e eu estava certa. L\u00e1 estava ele, no restaurante do escrit\u00f3rio, dividindo a mesa com uma executiva t\u00e3o cheia de sorrisos quanto ele. Se aquilo era uma conversa de neg\u00f3cios, eu n\u00e3o sabia negociar. Subi assim que a porta do elevador se abriu. Eu rodopiava sentada na cadeira da mesa dele, quando a porta se abriu e o som de sua voz animada se fez ouvir.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Estela, voc\u00ea \u00e9 a mulher mais incr\u00edvel que eu j\u00e1 conheci nesta empresa! \u2014 Ele sorria largo dando passagem para a tal Estela entrar.<br \/>\u2003\u2003Ela colocou os cabelos para tr\u00e1s da orelha, sorrindo t\u00edmida. Ou c\u00ednica, aos meus olhos. Ele pegou a bolsa dela que estava no sof\u00e1 de sua sala, e a entregou. Vestiu-a o casaco dela, como um cavalheiro \u00e0 moda antiga. Ou um cafajeste \u00e0 moda atual, aos meus olhos. Ela agradeceu e sua m\u00e3o foi em dire\u00e7\u00e3o ao rosto dele. Minha boca estava seca com palavras que eu n\u00e3o consegui verbalizar. Eles deram \u201cdois beijinhos\u201d cordiais em suas faces e se despediram. Assim que ela saiu e ele fechou a porta, afrouxou a gravata suspirando desanimado e s\u00f3 ent\u00e3o me viu. Mas, eu n\u00e3o sorria mais.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Amor&#8230; O que faz aqui? \u2014 perguntou risonho caminhando animado at\u00e9 mim.<br \/>\u2003\u2003Puxou-me de sua cadeira e me colocou em seu abra\u00e7o. Seus bra\u00e7os eram como torres para mim.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vim&#8230; Ah&#8230; Nem sei mais&#8230; Com meus olhos abertos eu acabei de ver mundos que n\u00e3o fazem sentido.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Estela? \u2014 Ele perguntou ao perceber meu estado at\u00f4nito e fraco \u2014 N\u00e3o entenda errado, ela \u00e9 s\u00f3\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 A mulher mais incr\u00edvel que voc\u00ea j\u00e1 conheceu nesta empresa? \u2014 o interrompi.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Exatamente. Ela \u00e9 eficaz em seu trabalho, e tem sido muito bom para n\u00f3s trabalharmos com ela na equipe.<br \/>\u2003\u2003\u2014 %Fernando%&#8230; Voc\u00ea \u00e9 inacredit\u00e1vel! Vai continuar a rasgar seda para esta mulher na minha frente?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Qual o problema, se na frente dela, eu rasgo seda para voc\u00ea? \u2014 Ele respondeu quebrando as minhas pernas.<br \/>\u2003\u2003Eu me soltei confusa e envergonhada. Ele riu divertido e com sua express\u00e3o de deboche. Ele sempre debochava do meu ci\u00fame. Afastei-me bufando de raiva, peguei minha bolsa que estava em cima da mesa dele e antes de alcan\u00e7ar a porta do escrit\u00f3rio, senti a m\u00e3o de %Fernando% me segurar, risonho.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu estava t\u00e3o ansioso para saber o que lhe fazia caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao elevador, com aquele sorriso t\u00e3o lindo e grande antes de me ver no restaurante&#8230; N\u00e3o vai mesmo me contar? \u2014 falou olhando os meus olhos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me viu ent\u00e3o\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu te pressinto mesmo quando n\u00e3o est\u00e1 aqui.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Argh&#8230; Voc\u00ea \u00e9\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Inacredit\u00e1vel, eu sei. \u2014 Ele respondeu.<br \/>\u2003\u2003Come\u00e7amos a gargalhar de tudo aquilo, e ele me abra\u00e7ou e me beijou.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 bom assim agora? \u2014 perguntou e eu apenas o puxei para outro beijo ardente.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ela literalmente surtaria ao me ver chegando sem avis\u00e1-la. Depois de um voo de onze horas eu s\u00f3 queria estar com a minha noiva. Sentir a pele de %Ju% e o seu sabor. N\u00e3o houve um dia em que eu n\u00e3o pensasse nela enquanto viajava a neg\u00f3cios. Se eu bem a conhecia, ela estaria no cal\u00e7ad\u00e3o da praia bebendo \u00e1gua de coco ou caminhando. A praia era seu lugar favorito no mundo. Depois de mim.<br \/>\u2003\u2003Passei em casa, tomei banho, larguei as malas e me vesti rapidamente. Peguei as chaves do carro e dirigi at\u00e9 ela. Depois de estacionado o carro, eu caminhei at\u00e9 o posto onde geralmente ela ficava e sempre atento com olhares a procurar a silhueta de %J\u00falia%. Meu cora\u00e7\u00e3o batia forte a cada passo para perto de onde ela poderia estar. E ent\u00e3o, eu a vi. Sentada na areia em frente a um jogo de futev\u00f4lei. Ela acenava e gritava para algu\u00e9m que jogava ali.<br \/>\u2003\u2003O dono do quiosque que j\u00e1 me conhecia h\u00e1 tanto tempo, quando me viu, veio cumprimentar-me. Mas, eu n\u00e3o conseguia me concentrar em outra coisa que n\u00e3o fosse ela, e ele percebeu, sorriu dizendo um sonoro e aut\u00eantico: <em>\u201cvai l\u00e1, homem apaixonado!\u201d.<\/em> Desci o declive de areia com meus chinelos em m\u00e3os, e tirei a camisa pendurando-a no ombro. Quanto mais me aproximava dela, mais ela parecia distante. At\u00e9 que em um momento ela se levantou pulando, gritando e um dos jogadores veio em sua dire\u00e7\u00e3o correndo e a pegando no colo. Rodopiava ela no ar e pulavam alegres. A risada dela, a gargalhada que eu achei que s\u00f3 acontecia ao meu lado, ecoou gritante em meus ouvidos. Minha boca estava seca com palavras que eu n\u00e3o consegui verbalizar. Ele a jogou sobre os pr\u00f3prios ombros e correu em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Eu senti as pernas falharem e o sangue ferver. Andei a passos bruscos at\u00e9 eles. Vi quando ele a jogou na \u00e1gua, e ela afundava a cabe\u00e7a dele. Levantaram-se espirrando \u00e1gua um no outro e aos poucos sa\u00edam do mar. Ela ria, ria muito e ele continuava implicando com ela, tocando o corpo de %J\u00falia%, fazendo c\u00f3cegas, at\u00e9 que ela o empurrou e ele caiu no ch\u00e3o. Ela subiu risonha correndo e ent\u00e3o me viu.<br \/>\u2003\u2003Quando meus olhos encararam os dela, tudo girava em volta de mim. Mas, girava de medo. Medo do meu pr\u00f3prio desequil\u00edbrio. Ela sorria apreensiva e desacreditada. Correu em minha dire\u00e7\u00e3o com a velocidade do nosso amor e se jogou em meus bra\u00e7os me entrela\u00e7ando as pernas pela cintura. Fomos ao ch\u00e3o e ela me beijava toda a extens\u00e3o do rosto, desacreditada. Aquele cara que estava com ela ficou parado ao nosso lado sorrindo e nos observando.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Como voc\u00ea faz isso comigo, %Dinho%! Sabe que eu quase enfartei agora, n\u00e3o \u00e9!? \u2014 Ela perguntou enquanto nos levantamos enfarinhados de areia.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu quem enfartei aos poucos aqui. \u2014 falei s\u00e9rio, mas n\u00e3o rude encarando o outro homem.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 s\u00e9rio? \u2014 Ela ria debochada \u2014 Pois eu achei que voc\u00ea estava muito bem com a situa\u00e7\u00e3o enquanto o meu primo me levava em seus ombros at\u00e9 o mar.<br \/>\u2003\u2003Ela respondeu e eu arqueei as sobrancelhas. Sentia-me insultado, bobo e envergonhado.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabia ent\u00e3o&#8230;<br \/>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 bom assim, agora? \u2014 Ela me perguntou me puxando para um beijo quente de Sol.<br \/>\u2003\u2003Ouvi as risadas do rapaz ao lado, que subiu e nos deixou a s\u00f3s.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cMe mantenha salva dentro. Seus bra\u00e7os que s\u00e3o como torres. Torres sobre mim\u201d.<\/em><\/p>\r\n\u2003\u2003A chuva forte que ca\u00eda parecia ser o reflexo da dor que eu sentia em meu ventre. %Fernando% n\u00e3o entendia nada do que acontecia. Eu me retorcia de dor e chorava desesperada. Ele carregava-me em seu colo, assustado e desesperado. Quando me colocou na poltrona do carro, e entregou a minha bolsa, o meu choro era silencioso. Obscuro, era o meu olhar. E a express\u00e3o de desespero no rosto dele me deixava ainda mais culpada.\r\n<p>\u2003\u2003Quando o m\u00e9dico me chamou para entrar ao quarto de %J\u00falia%, em sil\u00eancio e sem me dizer mais nada, eu estava ainda mais assustado. Eu nunca vi %J\u00falia% sentir c\u00f3licas t\u00e3o fortes, e depois de sabermos a alguns meses que ela n\u00e3o poderia engravidar sem tratamento, eu j\u00e1 vinha me preocupando com o nosso casamento pr\u00f3ximo. N\u00e3o porque ela poderia n\u00e3o me dar filhos, mas porque o desejo de ter filhos poderia faz\u00ea-la sofrer com o processo. Eu teria que ser a sua \u00e2ncora. Quando vi tanto sangue em seu vestido, eu temi pelo pior: que tiv\u00e9ssemos chegado ao ponto em que ela n\u00e3o pudesse ao menos tentar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Gr\u00e1vida? \u2014 A minha cabe\u00e7a girava ao ouvir o que ela me disse.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Desculpe&#8230; Eu n\u00e3o queria dizer at\u00e9&#8230; Pelo menos at\u00e9 a barriga aparecer.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea&#8230; Estava gr\u00e1vida e n\u00e3o me falou nada? %J\u00falia%! %J\u00falia%, voc\u00ea n\u00e3o podia ter passado por tudo isso sozinha!<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu sei, eu sei&#8230; Me perdoa&#8230; Por favor.<br \/>\u2003\u2003O som das l\u00e1grimas desesperadas dela eram maiores do que o som da minha raiva interior. Eu n\u00e3o deveria culp\u00e1-la ou cobrar qualquer coisa. Eu tinha que ser a \u00e2ncora. A torre que a manteria segura, ainda que estivesse sem estruturas para tal. E assim eu a abracei.<\/p>\r\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o deveria ter escondido do %Fernando% tudo aquilo, mas eu temia que cont\u00e1-lo o faria sofrer se n\u00e3o desse certo. E se eu o perdesse longe dele, n\u00e3o teriam dois magoados, mas apenas um. Por\u00e9m, maldito o dia em que eu perdi o nosso primeiro filho enquanto assist\u00edamos a um filme. Nos bra\u00e7os dele que eram como torres, e naquele pior momento, eram novamente torres sobre mim.\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cPois n\u00f3s estamos quebrados. O que n\u00f3s devemos fazer para restaurar nossa inoc\u00eancia e toda a promessa que ador\u00e1vamos? Nos d\u00ea a vida novamente, pois n\u00f3s s\u00f3 queremos ser completos\u201d.<\/em><\/p>\r\n\u2003\u2003J\u00e1 est\u00e1vamos casados h\u00e1 um ano. Tentamos ter outro filho. Mas, as tentativas sempre t\u00e3o dolorosas para ambos s\u00f3 nos desgastava dia ap\u00f3s dia. Eu n\u00e3o queria que ela passasse por tudo aquilo para ter um beb\u00ea, mesmo que eu quisesse tanto quanto ela, um beb\u00ea.\r\n\u2003\u2003J\u00e1 est\u00e1vamos casados h\u00e1 um ano. Tentamos ter outro filho. Mas, eu me sentia cansada de tudo aquilo. Eu me sentia fraca e incompleta por n\u00e3o ter o meu beb\u00ea. %Fernando% n\u00e3o queria mais ter filhos, por culpa minha talvez. Ent\u00e3o eu cheguei ao ponto de desistir.\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n\u2003\u2003Casados h\u00e1 um ano e meio. Ela desistiu de ter filhos. Por hora era o suficiente, e o melhor para n\u00f3s. Mas, as tentativas sempre t\u00e3o dolorosas para ambos, nos desgastaram demais. Em esferas inimagin\u00e1veis. Do ci\u00fame que sempre tivemos um do outro, que terminava ameno em um abra\u00e7o quente, ou em um beijo molhado e apaixonado, ao ci\u00fame que passou a terminar em brigas. Brigas que ecoavam as dores pr\u00f3prias de nossa alma, n\u00e3o dores de um para o outro ou pelo outro. Mas, dores que carreg\u00e1vamos em nossa culpa interior por n\u00e3o termos impedido chegar \u00e0quele ponto. Ela fez as malas.\r\n\u2003\u2003Casados h\u00e1 um ano e meio. Ele n\u00e3o mais falava em ter filhos, e estava bem com aquilo. Por muito tempo foi o suficiente para mim, mas eu n\u00e3o queria desistir de todas as possibilidades. E embora eu come\u00e7asse a pensar em ado\u00e7\u00e3o, ou retomar os tratamentos, eu observava que %Fernando% estava indo t\u00e3o bem no trabalho, na empresa, e no nosso casamento, que eu me senti um peso. Um peso n\u00e3o apenas para ele, mas para mim. Havia iniciado uma terapia em segredo, a fim de tirar o fantasma da maternidade que aprisionava meus p\u00e9s, me impedindo de me enxergar como a mulher que eu era antes de tudo aquilo. E foi ali que o ci\u00fame bobo que t\u00ednhamos antes, come\u00e7ou a dissipar entre n\u00f3s como uma maldi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica. %Fernando% n\u00e3o conseguia acreditar que eu n\u00e3o o estava traindo. Fiz minhas malas.\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Aquelas sa\u00eddas furtivas, aqueles encontros \u201cde trabalho\u201d, demorados, as desculpas sempre t\u00e3o vagas jamais poderiam me fazer imaginar que ela estava tendo terapia, e n\u00e3o me traindo. Eu deixei que uma \u00fanica desconfian\u00e7a desmoronasse tudo o que eu mais amava: meu casamento. A minha vida perfeita n\u00e3o era suficiente, se eu n\u00e3o tivesse a %J\u00falia%. Ent\u00e3o, depois de tr\u00eas meses separados, eu fui atr\u00e1s dela ap\u00f3s receber o telefonema do pr\u00f3prio terapeuta que quebrou seu sigilo \u00e9tico para salvar uma hist\u00f3ria de amor. Por que ela n\u00e3o disse? Por que ela me deixou achar que eu n\u00e3o era mais amado? Por que ela apenas assistiu eu destruir tudo? Por que eu estava cobrando alguma coisa dela? Por que eu estava culpando-a?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu estou do lado de fora e eu estou esperando pelo sol. O sol que me aquece o cora\u00e7\u00e3o. \u2014 falei assim que a ouvi atender a minha chamada telef\u00f4nica.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o acredito que voc\u00ea s\u00f3 veio agora. \u2014 Ela respondeu abrindo a porta de sua casa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu fui um idiota&#8230; Por favor, %Ju%&#8230; O que n\u00f3s devemos fazer para restaurar nossa inoc\u00eancia e toda a promessa que ador\u00e1vamos?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Entre.<br \/>\u2003\u2003Ela disse, e eu entrei. Ela caminhava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Tranque as portas.<br \/>\u2003\u2003Ela falou ap\u00f3s subir as escadas. Eu tranquei as portas da casa dela e a segui.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cTranque a porta, pois, eu gostaria de capturar essa voz que veio at\u00e9 mim essa noite. Assim todos ter\u00e3o uma escolha e de baixo das luzes vermelhas, eu irei mostrar a mim mesmo que n\u00e3o foi forjado. N\u00f3s estamos em guerra, n\u00f3s vivemos assim\u201d.<\/em><\/p>\r\n\u2003\u2003A reconcilia\u00e7\u00e3o foi mais amena do que eu imaginava. Eu n\u00e3o queria mais ficar longe. Eu n\u00e3o queria mais o perder. Eu n\u00e3o queria me culpar, ou culpar %Fernando% por todos os passos mal dados. Ele estava aprendendo a amar comigo, e eu com ele. \u00c9ramos apenas duas crian\u00e7as. Dois apaixonados que ainda estavam aprendendo como cessar a eterna guerra de amar descontroladamente. Sem o controle necess\u00e1rio dos pequenos passos. Sem a consci\u00eancia das pequenas coisas que podem causar rachaduras ou construir grandes muros. O que importa, \u00e9 que n\u00f3s est\u00e1vamos quebrados, e nada mais nos restava a n\u00e3o ser colar os peda\u00e7os. Porque quando se quebra, ou voc\u00ea se reconstr\u00f3i ou desiste de si. Eu n\u00e3o desistiria dele e nem de mim.\r\n\u2003\u2003Quando subi as escadas a seguindo, eu n\u00e3o imaginava que iria sentir o corpo de %J\u00falia% novamente sob o meu. Eu pensei em l\u00e1grimas, dores, despedidas e finais eternos. Mas, ela me perdoou por ser t\u00e3o descrente. E me pediu perd\u00e3o por n\u00e3o ter me contado nada. E de repente percebemos a nossa ingenuidade. Est\u00e1vamos sendo inocentes em buscar culpados, em erguer uma guerra de amor. Um amor que s\u00f3 nos salvou, por todo o tempo que n\u00f3s estivemos juntos. Est\u00e1vamos quebrados por nossas tentativas, como crian\u00e7as aprendendo a se mover, cheios de cicatrizes e pequenos arranh\u00f5es. Mas, como as crian\u00e7as, quando caem e se machucam, n\u00e3o desistem, n\u00f3s n\u00e3o desistir\u00edamos. Eu n\u00e3o desistiria dela e nem de mim. Pois, est\u00e1vamos quebrados e s\u00f3 nos restava colar os peda\u00e7os.\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cPois n\u00f3s estamos quebrados. O que n\u00f3s devemos fazer para restaurar nossa inoc\u00eancia e toda a promessa que ador\u00e1vamos? Nos d\u00ea a vida novamente, pois n\u00f3s s\u00f3 queremos ser completos\u201d.<\/em><\/p>\r\n<div class=\"nota\">\r\n<h3 style=\"text-align: center;\">Fim<\/h3>\r\n<\/div>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota de autora:<\/strong> Ol\u00e1 amores! Espero que tenham gostado desta songfic que mostra o quanto o amor pode superar pequenas ou grandes fases em sua constru\u00e7\u00e3o. Te vejo nos coment\u00e1rios, e nas minhas outras fics?<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Redes Sociais:<\/strong><br \/>\u2003\u2003Instagram: http:\/\/www.instagram.com\/escritoraraydias<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu estou do lado de fora e eu estive esperando pelo sol. Com meus olhos bem abertos, eu vi mundos que n\u00e3o faziam sentido\u201d. \u2022\u2022\u2022 \u201cMinha boca est\u00e1 seca com palavras que n\u00e3o consigo verbalizar\u201d \u2022\u2022\u2022 \u201cDiga-me por que n\u00f3s vivemos assim?\u201d \u2022\u2022\u2022 \u2022\u2022\u2022 \u201cMe mantenha salva dentro. Seus bra\u00e7os que s\u00e3o como torres. Torres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2109],"class_list":["post-6305","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-we-are-broken"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/6305","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6305"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6305"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=6305"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}