{"id":5722,"date":"2013-12-18T21:29:00","date_gmt":"2013-12-19T00:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-14T19:37:51","modified_gmt":"2025-11-14T22:37:51","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/tell-me-a-story\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003%Rebecca% encarava aquele caderno<\/span> um tanto surrado que fora deixado em sua porta por algu\u00e9m que, ap\u00f3s tocar a campainha, sumira de vista rapidamente.<br>\u2003\u2003A garota a princ\u00edpio pensou ser um trote, j\u00e1 que no col\u00e9gio era motivo de chacota, mas percebeu que o caderno, apesar de gasto, estava bem conservado. Ela o recolheu do ch\u00e3o e olhou ao seu redor mais uma vez para se certificar de que n\u00e3o havia ningu\u00e9m por ali. Fazia um dia gostoso e por mais que n\u00e3o se sentisse a vontade na varanda de sua pr\u00f3pria casa, sentou-se nos degraus da mesma para folhear o caderno.<br>\u2003\u2003N\u00e3o precisou ir muito al\u00e9m para reconhece-lo. Era <em>o seu caderno<\/em>.<br>\u2003\u2003Suspirou tentando se livrar das lembran\u00e7as nada reconfortantes de duas semanas atr\u00e1s, quando um de seus colegas de classe aproveitou-se de um momento seu de descuido para roubar o caderno de escritas de sua mesa. %Beckie% ficou desesperada para ter seu pertence de volta e mais desesperada ainda quando o garoto que lhe roubara come\u00e7ou a ler em voz alta um de seus textos.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Uuuh, por que ele n\u00e3o olha pra mim?<\/em> \u2014 o garoto leu com tom de zombaria e continuou lendo o par\u00e1grafo inteiro at\u00e9 chegar \u00e0 \u00faltima palavra: Phillip.<br>\u2003\u2003%Rebecca% ficou horrorizada com a rea\u00e7\u00e3o de sua turma, como podiam ser t\u00e3o infantis e bestas naquela idade?<br>\u2003\u2003Desde ent\u00e3o ela era motivo de piada entre os alunos do colegial, sempre fazendo brincadeirinhas de criancinhas que acabaram de descobrir o que \u00e9 gostar de algu\u00e9m. Era irritante, e o que a deixava mais magoada: Phillip era um dos babacas detest\u00e1veis.<br>\u2003\u2003%Beckie% respirou fundo para deixar a raiva baixar. Como p\u00f4de ter sido t\u00e3o iludida com o queridinho do col\u00e9gio? \u00c9 claro que por tr\u00e1s de tanta aparente perfei\u00e7\u00e3o haveria o arrogante, o exibido, o convencido Phillips.<br>\u2003\u2003A garota tentou apagar os pensamentos mal-educados que queriam surgir e passou a folhear seu caderno, j\u00e1 que percebia-se de longe que ele havia sido \u201creformado\u201d por algu\u00e9m. A capa que antes era de um preto discreto, agora tinha a cor azul chamativa em seu lugar. As folhas internas eram as mesmas, ela podia perceber, j\u00e1 que em dezenas de p\u00e1ginas sua pr\u00f3pria caligrafia era vis\u00edvel. Por\u00e9m, mais para o final das p\u00e1ginas, ela p\u00f4de notar uma caligrafia diferente da sua, o que lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o, e por um instante a irritou um pouco mais: Al\u00e9m de roubarem seu caderno, ainda ousavam <em>escrever<\/em> nele?<br>\u2003\u2003Manteve a calma enquanto procurou pelas p\u00e1ginas o lugar onde as letras diferentes come\u00e7avam.<\/p>\r\n<h3 align=\"center\"><strong>O in\u00edcio<\/strong><\/h3>\r\n\u2003\u2003Era o que estava escrito em grandes letras garrafais em uma p\u00e1gina inteira.\r\n<p>\u2003\u2003<em>\u201cEra in\u00edcio do ano letivo quando nos vimos pela primeira vez: eu achava que ela era mais uma garota estranha no mundo, e ela \u2014 pelo jeito que me encarava \u00e0s vezes \u2014 achava que eu era mais um babaca entre os garotos.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Claro que eu n\u00e3o me importava! Ou pelo menos eu achava isso.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o sei bem como nem quando aconteceu, mas num dia qualquer depois de uma longa aula sem utilidades, me peguei encarando <strong>ela<\/strong>. <strong>Ela<\/strong> tinha os olhos voltados para a carteira, de certo \u00e2ngulo poderia at\u00e9 parecer que estava tirando um cochilo, mas eu podia ver bem que ela tinha os olhos hipnotizados em um livro. Vez ou outra ela sorria ou fazia uma careta, mas o que mais me intrigou foi perceber que ela movia os l\u00e1bios acompanhando a leitura silenciosa, e que <u>eu<\/u> tentava entender o que eles diziam.\u201d<\/em><\/p>\r\n\u2003\u2003%Rebecca% parou a leitura bruscamente com a sobrancelha erguida. Aparentemente algu\u00e9m havia colocado um novo ponto de vista na hist\u00f3ria em que havia come\u00e7ado a escrever ali. Estava desconfiada demais com aquilo, mas decidiu continuar lendo.\r\n\u2003\u2003<em>\u201cEra estranho como eu passava os meus dias nas aulas. Sempre sentado a uma dist\u00e2ncia segura dela, mas perto o bastante para poder ter uma boa vis\u00e3o de seu rosto. Todas as vezes em que ela achava uma mat\u00e9ria desinteressante, eu a via lendo \u2014 e algumas vezes escrevendo em seu insepar\u00e1vel caderninho preto -, e me via tentando decifrar o que ela lia. Muitas semanas depois, percebi que estava ficando bom com leituras labiais, \u00e0s vezes aproveitando para \u201couvi-la\u201d contar hist\u00f3rias para mim, mesmo que ela n\u00e3o soubesse que o fazia.\u201d<\/em>\r\n<p>\u2003\u2003%Beckie% ficara confusa com aquelas linhas. Seria aquilo mais uma brincadeira de mau gosto de algum \u201ccoleguinha\u201d de classe? Ou ser\u00e1 que algu\u00e9m <em>realmente<\/em> lera o que ela havia escrito e estava dando um segundo ponto de vista sobre tudo aquilo?<br>\u2003\u2003Por mais que ainda tivesse suas d\u00favidas, sua curiosidade conseguiu vencer. Precisava terminar de ler aquelas p\u00e1ginas. Sua hist\u00f3ria original n\u00e3o tinha um fim, ser\u00e1 que o an\u00f4nimo a finalizara?<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>\u201cEra final do ano e eu permanecia em minha rotina que consistia em participar um pouco das aulas e passar o resto do tempo observando <strong>ela<\/strong>. Naquele momento ela escrevia freneticamente em seu caderninho, apenas desviou sua aten\u00e7\u00e3o quando foi chamada por uma amiga. Um \u00fanico instante de distra\u00e7\u00e3o fora o bastante para que um babaca qualquer da turma pegasse o caderninho e come\u00e7asse a l\u00ea-lo em voz alta para que todos pudessem ouvir.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O babaca fazia chacota e ria com o restante da turma \u00e0s custas <u>dela<\/u>, que bravamente segurava o choro de raiva \u2014 ao menos eu estaria me segurando \u2014 e tentava pegar o que lhe pertencia de volta.<\/em><br>\u2003\u2003<em>A hist\u00f3ria no caderno era de uma garota e um garoto que a primeira vista n\u00e3o haviam se encantado um com o outro, mas gradativamente as opini\u00f5es mudaram. Era tudo t\u00e3o perfeitamente detalhado e realista que diria que aquilo era um di\u00e1rio disfar\u00e7ado. Demorei um <strong>bom<\/strong> tempo at\u00e9 perceber que aquela hist\u00f3ria falava <u>de mim<\/u>. De <strong>n\u00f3s<\/strong>.\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003%Rebecca% arregalou os olhos ap\u00f3s ler aquele par\u00e1grafo. <em>De n\u00f3s<\/em>. O que aquilo queria dizer? N\u00e3o podia ser o que ela pensava. N\u00e3o com o grande babaca que Phillip Phillips era.<br>\u2003\u2003Respirou fundo como se fosse enfrentar o maior desafio de sua vida e ent\u00e3o voltou a ler o texto que restava.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>\u201cO caderno de capa preta finalmente chegou em minhas m\u00e3os, os meus colegas de classe babacas disseram que eu merecia ficar com aquilo, j\u00e1 que a hist\u00f3ria era <strong>minha<\/strong>. A primeiro momento simplesmente achei a ideia rid\u00edcula, por\u00e9m, logo me vi indo e voltando naquelas p\u00e1ginas.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Droga! O que <strong>ela<\/strong> pensaria de mim? Eu n\u00e3o havia feito nada para impedir que aquela brincadeira est\u00fapida parasse. Ela com certeza concluiria que sou o babaca mesquinho que ela pensara que eu era no in\u00edcio.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o! N\u00e3o podia ficar assim!<\/em><br>\u2003\u2003<em>Mas com que cara eu surgiria para falar com ela?<\/em><br>\u2003\u2003<em>Eu n\u00e3o tinha uma. E tampouco tinha a coragem de ir l\u00e1 lhe dizer algo. A \u00fanica coisa que eu sabia era que aquele caderno \u2014 agora com a capa caindo aos peda\u00e7os \u2014 deveria voltar \u00e0 sua dona. Talvez eu ainda tivesse esperan\u00e7as de que ela continuaria com nossa hist\u00f3ria e que nos daria um final feliz.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Ent\u00e3o eu decidi. Eu devolveria aquele caderno. E diria \u00e0 ela que aquela hist\u00f3ria poderia dar certo. Diria que era uma \u00f3tima hist\u00f3ria. Que ela era minha escritora favorita. Diria que&#8230;\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 Sinto muito. \u2014 %Rebecca% ouviu e se sobressaltou ao perceber a presen\u00e7a de Phillip agachado \u00e0 sua frente.<br>\u2003\u2003A garota estava prestes a murmurar algo em resposta quando o rapaz se inclinou e selou seus l\u00e1bios suavemente. N\u00e3o passara de um selinho \u2014 um pouco mais longo que o considerado normal -, mas foi o suficiente para que ela sentisse as borboletas no est\u00f4mago voltarem a bater suas asas. A \u00fanica coisa que %Beckie% conseguiu fazer foi sorrir, o que fez Phillip sorrir juntamente de imediato.<br>\u2003\u2003Talvez aquela hist\u00f3ria pudesse, afinal, dar certo. As linhas seguintes ainda eram um pouco incertas, mas algo dizia que todas tomavam o caminho em dire\u00e7\u00e3o ao \u201cFelizes para sempre\u201d.<\/p>\r\n<div class=\"nota\">\r\n<h3 style=\"text-align: center;\">Fim<\/h3>\r\n<\/div>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O in\u00edcio Fim<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1951],"class_list":["post-5722","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-tell-me-a-story"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}