{"id":5646,"date":"2025-07-18T15:51:00","date_gmt":"2025-07-18T18:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-18T15:53:17","modified_gmt":"2025-10-18T18:53:17","slug":"prologo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/starfall\/prologo-2\/","title":{"rendered":"PR\u00d3LOGO 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><strong>NYX \u2022 ANOS ANTES<\/strong><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Nyx fechou os olhos<\/span>, esperando pelo impacto da flecha, sentindo o corpinho da garotinha se jogar contra o seu, puxando-o para a direita, chocando-se contra a parede. Mas o impacto da flecha nunca chegou.<br \/>\u2003\u2003Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, tudo pareceu est\u00e1tico, congelado ao redor deles, o tempo desacelerou ao seu redor, acompanhado com o eco distante, por\u00e9m presente de sua pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o, escapando em r\u00e1pidos e fortes, quase estrangulados, arfares. Sua pulsa\u00e7\u00e3o ecoava alta por seus ouvidos martelando contra suas veias, arrastando-se como agulhas afiadas, fincando-se por seu corpo, g\u00e9lida e precisa. Ele abriu seus olhos, segundos depois, prendendo sua respira\u00e7\u00e3o quando voltou seu rosto na dire\u00e7\u00e3o da garotinha. A princ\u00edpio, ele n\u00e3o registrou o que havia acontecido, os olhos azuis do menino se fixaram no rostinho horrorizado da menina, os olhos arregalados em choque, os l\u00e1bios entreabertos em um grito mudo, mas ent\u00e3o Nyx seguiu o olhar dela para seu bra\u00e7o quebrado.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o havia mais nada ali.<br \/>\u2003\u2003Onde outrora a m\u00e3ozinha dela estava quebrada, pendendo para tr\u00e1s de forma antinatural, com o osso p\u00e1lido projetando-se para fora, e at\u00e9 mesmo sangrando copiosamente, causada pela tentativa de Nyx de segur\u00e1-la e evitar a queda no <em>Po\u00e7o<\/em>, agora o membro faltava-lhe. Em seu lugar, n\u00e3o havia mais nada, apenas uma extremidade residual ensanguentada, expelindo para fora de acordo com a pulsa\u00e7\u00e3o acelerada da menina, formando uma po\u00e7a de sangue no ch\u00e3o poroso e irregular que se estendia abaixo de si. O ferimento era profundo e s\u00e9rio, a m\u00e3o retorcida da garotinha jazia um pouco mais atr\u00e1s no ch\u00e3o, e a flecha que havia arrancando-a havia se enterrado na parede um pouco mais atr\u00e1s de si, onde a cabe\u00e7a de Nyx deveria ter estado.\u00a0<br \/>\u2003\u2003A flecha deveria t\u00ea-lo acertado, deveria t\u00ea-lo <em>matado<\/em>, mas a acertou em seu lugar. <em>Ela<\/em> havia se colocado na frente dele, havia o <em>protegido<\/em>. E a percep\u00e7\u00e3o disso era assustadora e, ao mesmo tempo, havia despeda\u00e7ado algo dentro do peito do menino. Teria chorado pelo peso da culpa que recaiu em seus ombros, sufocante e pegajosa, grudando-se a figura do menino como veneno, podia ter de solu\u00e7ar, desolado, pela tristeza que havia reca\u00eddo sobre si, enroscando-se como tent\u00e1culos ao redor de seu pequeno cora\u00e7\u00e3o e o apertando, como se estivesse \u00e0 beira de o espremer. Se n\u00e3o tivesse fugido aquela noite\u2026<br \/>\u2003\u2003O ru\u00eddo da criatura ecoou atr\u00e1s de si, mais pr\u00f3ximo, despertando-o do torpor de sua pr\u00f3pria culpa e desalento. Outra flecha riscou o ar tremeluzente daqueles corredores de pris\u00f5es, apagando em sua trajet\u00f3ria ao menos uma das\u00a0velas que iluminavam o caminho, acertando com for\u00e7a a ponta superior das asas fechadas do menino, fincando-se ali. Nyx sequer a percebeu; sequer registrou a dor ou a maneira com que seu sangue escorreu por entre os veios de suas asas, n\u00e3o percebeu a maneira com que o veneno se espalhou por sua corrente sangu\u00ednea. Aterrorizado, o foco de Nyx estava fixo na garotinha. Antes que ela desmaiasse no ch\u00e3o, ele a agarrou com for\u00e7a, tentando correr, enquanto a arrastava.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Nyx correu cegamente pelos corredores. Cambaleou e rolou degraus abaixo, escorregou com a \u00e1gua que cobria as pedras irregulares dos degraus, chocou-se contra aberturas curvas das pedras escuras maci\u00e7as que se abriam como portais por entre as celas e pris\u00f5es que existiam abaixo da <em>Cidade Escavada<\/em>. Seus dedos apertaram-se no corpo da garotinha, os bra\u00e7os tremendo com o esfor\u00e7o de carreg\u00e1-la e arrast\u00e1-la pelo caminho, solu\u00e7ando entre arfares e l\u00e1grimas. Os olhos azuis do menino voltando-se por momentos por sobre seu ombro esquerdo, tentando localizar aonde a criatura encontrava-se e o qu\u00e3o perto de alcan\u00e7\u00e1-lo poderia estar. Virou para a direita e ent\u00e3o esquerda, e ent\u00e3o, direita, direita, esquerda e direita novamente, deparando-se com uma <em>bifurca\u00e7\u00e3o<\/em>. Tremendo, Nyx olhou para a garotinha desacordada, a quem se agarrava, percebendo com <em>horror<\/em> como ela havia empalidecido durante toda aquela correria desenfreada. O cora\u00e7\u00e3o de Nyx se apertou ainda mais, tremendo, sem ter ideia do que poderia ter acontecido com ela, e temeroso de verificar \u2014 e se ela tivesse morrido? E se tivesse parado de respirar e ele sequer tivesse percebido? E se ela j\u00e1 estivesse\u2026?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por favor\u2026 \u2014 o menino solu\u00e7ou baixinho, uma ora\u00e7\u00e3o que se esvaia em meio a escurid\u00e3o que os consumia. \u2014 Eu n\u00e3o sei pra onde ir\u2026 \u2014 confessou assustado.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Mas n\u00e3o houve resposta da garotinha.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Nyx tremeu, fechando os olhos e se abaixando para coloc\u00e1-lo no ch\u00e3o quando o ru\u00eddo de asinhas batendo agitadamente como pequenos besouros chamou sua aten\u00e7\u00e3o. Um pouco mais a frente, no t\u00fanel que abria-se a sua esquerda, o menino <em>viu<\/em> algo pontilhando o teto alto e escuro, iluminado precariamente pelo que pareciam ser pequenas <em>pixies<\/em> com dentinhos afiados e olhos grandes como os orbes de vidro que ele usava para brincar com Emhyr e as outras crian\u00e7as em Velaris. Eram completamente brancos, leitosos, como se n\u00e3o possu\u00edssem pupilas o que evidenciava que eram cegas. Espalhavam-se sobre o teto alto e curvado do po\u00e7o como pequenas estrelas cadentes, riscando o ar ao seu redor, agitadas, dando pequenas investidas ao sentir o menor movimento pelo caminho ou nos menores ru\u00eddos. Nyx tremeu encarando o rosto da garotinha em seus bra\u00e7os e ent\u00e3o as pixies, obrigando-se a inspirar fundo, uma, duas, tr\u00eas vezes. Ent\u00e3o ele correu com toda a for\u00e7a que ainda restava em seu corpinho de 8 anos.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Correu o mais r\u00e1pido que conseguia, ouvindo o chiado e zumbidos que escapavam das pequenas criaturas, vendo-as riscar a escurid\u00e3o que os engolia, mergulhando com dentinhos afiados e prontos para mord\u00ea-lo conforme Nyx adentrava mais e mais na escurid\u00e3o profunda que os cercavam. Dentinhos afiados se curvaram ao redor do ombro do menino, na ponta de sua orelha esquerda, no couro cabeludo, nas asas, fincando-se como pequenas agulhas afiadas, a dor aguda forte o suficiente para o fazer estremecer e se encolher, at\u00e9 mesmo se debater cegamente, mas n\u00e3o parar de correr. Arrancavam pequenos peda\u00e7os, formavam um enxame ao redor de Nyx, mas n\u00e3o tocavam a garotinha.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o a soltou.\u00a0<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o ousou, igualmente, olhar para o rosto dela, temendo o que encontraria ali se o fizesse \u2014 se as pixies estavam o atacando, mas n\u00e3o a menina, isso s\u00f3 poderia significar que ela\u2026 que ela n\u00e3o estava mais\u2026?\u00a0<br \/>\u2003\u2003Os olhos azuis arregalados disparando ansiosamente pelo espa\u00e7o, observando o corredor virar bruscamente para a direita e ent\u00e3o, o ar deixou os pulm\u00f5es de Nyx. O arfar genu\u00edno de surpresa e terror escapou por entre os l\u00e1bios ressecados do menino, quase o fazendo engasgar-se com suas pr\u00f3prias l\u00e1grimas. O t\u00fanel finalmente abria-se para uma galeria massiva no cora\u00e7\u00e3o da montanha que a Cidade Escavada havia sido esculpida. Era grandioso, uma bocarra escura e curvada que se abria mais a frente em uma conjun\u00e7\u00e3o de t\u00faneis, como, a muito, houvesse existido alguma criatura viva, que sozinha escavou a pedra maci\u00e7a a sua forma, criando padr\u00f5es serpenteantes por entre o lugar, deixando para tr\u00e1s os ossos curvados do que viria a ser costelas <em>massivas<\/em>, como se estes fossem <em>pilares<\/em> esbranqui\u00e7ados, contrastando contra as paredes escuras. Um pouco mais a frente, por entre declives e buracos que se abriam no terreno, o menino podia ver com clareza o que parecia ser um riacho que nascia por entre as fissuras e ch\u00e3o. Nyx n\u00e3o saberia dizer o qu\u00e3o fundo era, mas ele podia ver que a \u00e1gua se alastrava bem mais a frente, desaparecendo com a escurid\u00e3o do restante do caminho. A corrente de vento, vindo do topo de sua cabe\u00e7a, parecia surgir a sua direita, bem acima de onde estavam, e seguir para onde o riacho ia.<br \/>\u2003\u2003Uma ponta de esperan\u00e7a quase surgiu na mente do menino, ao considerar que: <em>onde havia entrada de ar, haveria uma sa\u00edda<\/em>. Ele engoliu em seco, se ele pudesse ao menos encontrar uma forma de alcan\u00e7\u00e1-la. Ele assentiu para si mesmo, arrastando a garotinha mole em seus bra\u00e7os e ent\u00e3o repousando-a com cuidado no ch\u00e3o, o enxame de pixies espiralando e debatendo-se contra as paredes, seguindo o cheiro do sangue de ambos que agora misturava-se na poeira e \u00e1gua parada dos dois.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Ele havia acreditado que se derrubasse ela no ch\u00e3o, com s\u00f3 um pouquinho mais de for\u00e7a, ela iria acordar. Abriria seus olhos e iria gritar com ele; uma parte esperan\u00e7osa do menino, at\u00e9 mesmo <em>queria<\/em> que ela o fizesse, mas quando Nyx a repousou no ch\u00e3o, perto do banco de pedras molhadas ao lado do riacho, n\u00e3o houve rea\u00e7\u00e3o alguma. Ele engoliu em seco, tentando sufocar o pr\u00f3prio choro, esticando a m\u00e3o direita, os dedos tr\u00eamulos, hesitando toc\u00e1-la. Os dedos pairavam sobre o rostinho im\u00f3vel dela, observando as sardas que envolviam as ma\u00e7\u00e3s do rosto, a ponta de seu nariz e mesmo o queixo dela, que cintilavam como pequenas estrelas e constela\u00e7\u00f5es \u00fanicas em sua pele, oscilavam agora, o brilho tornando-se menor, como se estivesse, aos poucos, desaparecendo. Nyx trincou os dentes com for\u00e7a, seu rosto se crispou, o peso da culpa era quase enlouquecedor, as l\u00e1grimas acumulando-se e escorrendo por seu rostinho manchado, criando caminhos limpos por sua pele, enquanto ele hesitava, congelado pela ideia de toc\u00e1-la. Os solu\u00e7os que escapavam por entre seus l\u00e1bios, agora se tornavam mais altos, desolados.\u00a0<br \/>\u2003\u2003<em>O que ele tinha feito? Por que havia fugido? Se ele tivesse apenas ficado ao lado de tio Azriel e tio Cassian\u2026 se ele n\u00e3o tivesse sido t\u00e3o bobo\u2026 t\u00e3o est\u00fapido\u2026 por qu\u00ea?&#8230; por que ele s\u00f3 n\u00e3o havia escutado seus pais e esperado\u2026?<\/em>\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por favor, acorda\u2026 \u2014 Nyx sussurrou, sem saber para o <em>que<\/em> estava implorando. Se para os c\u00e9us, ou para a pr\u00f3pria garotinha, se para a escurid\u00e3o ou sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, mas o fazia mesmo assim. A voz escapando estrangulada por entre os solu\u00e7os baixinhos. A pele dela estava fria quando as pontas dos dedos dele a tocou, empurrou com cuidado o rostinho da garotinha, sentindo o desespero dentro de si, o medo e a culpa aumentarem mais e mais. \u2014 Por favor, por favor, n\u00e3o me deixe aqui sozinho\u2026 eu n\u00e3o quero ficar\u2026 por favor\u2026 \u2014 Nyx chorou baixinho, sem conseguir conter-se mais.<br \/>\u2003\u2003O menino se afastou dela, arrastando-se para tr\u00e1s at\u00e9 sentir suas costas se chocarem contra o pilar de osso. Encolheu-se at\u00e9 que virasse uma bolinha: joelhos pressionados contra o pr\u00f3prio peito, os bra\u00e7os envolvendo sua cabe\u00e7a, apertado, os olhos fechados com for\u00e7a, a testa repousando sobre seus joelhos. Os solu\u00e7os de seu choro se tornaram mais altos, sua pulsa\u00e7\u00e3o martelando contra seu pr\u00f3prio ouvido enquanto ele chorava copiosamente, desolado, assustado, e\u2026 sozinho.<br \/>\u2003\u2003Percebeu que ele nunca tinha tido medo da Cidade Escavada. Percebeu que, embora as hist\u00f3rias de tia Mor fossem propositais para assombr\u00e1-lo e mant\u00ea-lo alerta, ele at\u00e9 gostava. Gostava da ideia de lutar contra monstros e a gl\u00f3ria que acompanhava as batalhas. Percebeu que n\u00e3o eram os ru\u00eddos esquisitos que ele ouvia dentro da floresta, ou at\u00e9 mesmo no fim da biblioteca que o perturbava. N\u00e3o eram as sombras que acompanhavam tio Azriel, e tampouco o olhar silencioso e reprovador de seu pai.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Nyx percebeu, com horror agarrando-se em suas entranhas, transformando-se em vinhas repletas de espinhos afiados e cravando-se mais e mais fundo no cora\u00e7\u00e3o do menino, que, na verdade, seu maior medo estava <em>diante<\/em> de si. Era aquele; estava completamente sozinho. Perdido. Sem ideia de como voltar para casa, se um dia sequer voltaria. Sem mais ningu\u00e9m ao seu lado para ajud\u00e1-lo. E esta percep\u00e7\u00e3o do menino apenas aumentou seu choro convulsivo.\u00a0<br \/>\u2003\u2003<em>Por favor, papai! Por favor! Por favor\u2026 me encontre\u2026 me encontre de novo\u2026 n\u00e3o me deixe aqui\u2026<\/em><br \/>\u2003\u2003Mas n\u00e3o houve resposta de seu pai ou sua m\u00e3e. N\u00e3o houve reconhecimento de ambos quando o menino tentou alcan\u00e7\u00e1-los com sua mente. Houve apenas sil\u00eancio. Desconexo, distante e doloroso. Ent\u00e3o\u00a0 algo aconteceu; dos fragmentos estilha\u00e7ados em seu peito, da desola\u00e7\u00e3o e tristeza profunda que consumia sua pequena e jovem alma, o menino sentiu algo estranho o envolver. Algo que o fez pausar por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos. Ele sentiu <em>paz<\/em>. Abaixou os bra\u00e7os de sua cabe\u00e7a, repousando-os sobre o topo de seus joelhos. Pequenos cortes e arranh\u00f5es se espalhavam na pele do menino, que n\u00e3o estava acostumado com a vis\u00e3o de <em>mordidas<\/em> e rasgos mais largos do que escalar os muros do Acampamento Illyriano poderiam deixar. Os ferimentos que tinha agora eram mais <em>profundos<\/em>, ardiam e sangravam. Nyx repousou o queixo sobre suas m\u00e3os no topo de seus joelhos, observando as sardas da garotinha se escurecerem, com uma ponta de conforto distante.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o ficaria sozinho por muito tempo. Quando o enxame de pixies os alcan\u00e7asse, elas provavelmente iriam devor\u00e1-lo. Nyx se encolheu, imaginando a dor que iria sentir, mas tamb\u00e9m, quando acabassem, n\u00e3o haveria mais nada, certo? Sentiu-se culpado por seu pai e sua m\u00e3e, eles ficariam furiosos com Nyx, e uma parte de si queria apenas pedir desculpas para eles. Mas logo tudo teria acabado. Talvez a garotinha at\u00e9 mesmo esperasse por ele do <em>Outro Lado<\/em>. Talvez eles pudessem ser amigos l\u00e1 tamb\u00e9m; talvez Nyx pudesse pedir desculpas por ter a arrastado para aquela confus\u00e3o, certamente, sentia-se suficientemente culpado.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Mas quando o enxame de pixies os alcan\u00e7ou, elas dispararam primeiro na dire\u00e7\u00e3o da garotinha.<br \/>\u2003\u2003Ele se encolheu, as unhas cravando-se em sua pr\u00f3pria pele, fundo, observando o enxame fincar suas presas pequenas mas afiadas na pele dela. Nyx teria chorado se ainda restassem l\u00e1grimas em seu rostinho, ao em vez disso, ele apenas assistiu, em sil\u00eancio, no escuro, o enxame de pixies banquetear-se com o corpo da garotinha. At\u00e9 que uma gritou.\u00a0<br \/>\u2003\u2003O ru\u00eddo era fino o suficiente para machucar os ouvidos, mas havia desespero ali tamb\u00e9m. Pungente, arrepiante, como se algo estivesse machucando a pequena pixie de <em>dentro<\/em> para <em>fora<\/em>. Ent\u00e3o, mais gritinhos se seguiram em uma cacofonia desesperada. Nyx tentou tapar com suas m\u00e3os seus ouvidos, se encolhendo com a dor afiada que percorreu seu cr\u00e2nio. O menino se encolheu com a dor. Os olhos, semicerrados, capturaram parcialmente o pandem\u00f4nio desperto que afligira as pixies. Nyx viu por entre os c\u00edlios grossos algumas pixies se contorcerem, tentando escapar, antes de suas luzes tremeluzirem, e ent\u00e3o\u2026 virarem p\u00f3.<br \/>\u2003\u2003Observou com as sobrancelhas unidas, pego desprevenido, observando em choque, e ent\u00e3o, com uma confus\u00e3o admirada, quando a luz que outrora pertencia \u00e0s pequenas pixies, deslizaram pelo ar, desaparecendo pela pele da garotinha, iluminando suas veias, parecendo oscilar e pulsar ao guiar-se para o peito dela. Ele assistiu fascinado e estranhamente assustado, sem conseguir entender como aquilo era poss\u00edvel, quando as sardas que permeavam o rostinho da menina voltaram a se ascender. Nyx franziu o cenho, surpreso, e saltando para tr\u00e1s, quando a menina arfou alto abrindo os olhos.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Talvez pela correria, ou talvez pelo medo, o menino n\u00e3o tinha se dado ao trabalho de <em>v\u00ea-la<\/em> propriamente, na verdade, percebeu apenas o que era dif\u00edcil n\u00e3o perceber. Mas agora, deparado com o sil\u00eancio sepulcral daquela galeria abaixo da Cidade Escavada, com apenas pequenos pontos de luzes prec\u00e1rios que ofereciam silhuetas e n\u00e3o clareza a sua vis\u00e3o, ele p\u00f4de finalmente <em>ver<\/em> a cor dos olhos dela. E eram <em>lindos<\/em>. \u00c0 primeira vista pareciam ser de um tom prateado bem claro, quase como <em>gelo<\/em>, mas ent\u00e3o ele percebeu, n\u00e3o era prateado, mas sim, <em>esbranqui\u00e7ado<\/em>.\u00a0 Brilhavam como estrelas, assim como as sardas que ela tinha em seu rosto, iluminando os c\u00edlios curvados dela. Eram igualmente brancos, e pareciam brilhar tanto quanto o resto. Pequenas sardas que se espalhavam pelos bra\u00e7os dela, pontilhadas como min\u00fasculas estrelas, a faziam parecer como\u2026<br \/>\u2003\u2003Como se fosse <em>uma<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Nyx prendeu a respira\u00e7\u00e3o, im\u00f3vel, observando a garotinha se colocar sentada, piscando confusa e ofegante, olhando ao seu redor, antes de voltar sua aten\u00e7\u00e3o para o bracinho esquerdo.\u00a0 Ainda lhe faltava a m\u00e3o e boa parte do antebra\u00e7o, mas o ferimento havia ao menos parado de sangrar, uma camada estranha de energia e carne envolvida no membro mutilado, impedindo-o de esvair-se em sangue. Ele a viu mover o bra\u00e7o para cima e para baixo, como se estivesse registrando a falta do membro, antes de suas sobrancelhas se uniram, entristecidas. Os l\u00e1bios dele se partiram, as palavras presas em sua l\u00edngua, quando houve um pequeno tremor ao redor, e ent\u00e3o as velas se acenderam outra vez, iluminando a galeria que eles se encontravam. Iluminando o caminho que o riacho deveria os levar. As palavras morreram nos l\u00e1bios de Nyx.<br \/>\u2003\u2003Levou alguns longos minutos de completa estupefa\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o contida para que o menino, enfim, percebesse que, na verdade, o <em>Po\u00e7o<\/em> estava reconhecendo <em>ela<\/em>, n\u00e3o ele. Nyx pouco havia tido tempo para pensar desde que ambos haviam ca\u00eddo. Haviam corrido em desalento, desesperados para sobreviver do segundo em que ele esbarrou com ela no corredor abaixo da sala do Trono. Todavia, era apenas <em>agora<\/em> que o menino percebia que ela n\u00e3o era normal. Que se aquele lugar, como ela havia chamado, o <em>Po\u00e7o<\/em> a reconheceu, era porque ela era <em>um deles<\/em>\u2026\u00a0<br \/>\u2003\u2003A garganta dele se apertou, um n\u00f3 sufocante formando-se ao perceber, tardiamente, que estava condenado desde o come\u00e7o. Que a <em>garotinha<\/em> deveria t\u00ea-lo condenado desde o come\u00e7o. Ele exalou a respira\u00e7\u00e3o que prendia por entre seus dentes, um pequeno sibilo baixo que n\u00e3o passou despercebido dos olhos estelares da menina. Queimaram, primeiro em surpresa e at\u00e9 mesmo al\u00edvio, e ent\u00e3o, m\u00e1goa. Algo no rosto de Nyx deveria ter exposto o que ele estava sentindo para ela, porque ela se encolheu como se ele tivesse acabado de a acertar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u00a0\u2014 Voc\u00ea\u2026 \u2014 Nyx sussurrou assustado e com uma ponta de ressentimento, quase tra\u00eddo ao encarar os olhos estelares da menina. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 como eles\u2026 \u2014 arriscou-se a dizer, com raiva da menina, e, ao mesmo tempo, assustado com o que ela poderia acabar fazendo com ele. E se decidisse o matar? Pior, e se decidisse o manter ali, como prisioneiro tamb\u00e9m? Ele queria s\u00f3 encontrar algu\u00e9m para brincar, ou talvez tentar pregar alguma pe\u00e7a em tio Cassian, j\u00e1 que era sempre mais f\u00e1cil conseguir fazer alguma pegadinha com tio Cassian do que com tio Azriel, mas\u2026 agora?<br \/>\u2003\u2003Agora o menino percebia com profunda tristeza que talvez nunca mais fosse ver ningu\u00e9m que amava.<br \/>\u2003\u2003Nem a tia Nestha, com as caixinhas de m\u00fasicas m\u00e1gicas e os elogios de que ele era um bom dan\u00e7arino. Ou tia Elain, com os bolinhos de blueberries que Nyx sempre encontrava uma maneira de roubar sem que sua m\u00e3e ficasse sabendo. As aulas de hist\u00f3ria com tia Amren, e etiqueta com tia Mor, e como as duas pareciam se frustrar rapidamente com Nyx quando ele ativava o \u201cmodo Rhys\u201d de ser \u2014 algo que vinha acontecendo com mais frequ\u00eancia conforme os anos se passavam. Ou os dias inteiros em que ele passava tentando imitar tio Azriel, seus trejeitos e postura, tentando adquirir aquele tom pausado e reservado com que seu tio falava com ele, esgueirando-se pelas sombras, tentando assustar Nuala ou Cerridwen, antes de correr por sua vida e com uma risada borbulhando seu peito. At\u00e9 mesmo de Gwyn ele sentiria falta, dos jogos de palavras com a sacerdotisa que sempre acabava com uma competi\u00e7\u00e3o escalando para uma guerra de c\u00f3cegas. N\u00e3o teria mais guerra de qualquer coisa que encontrasse pelo caminho \u2014 comida, tinta, neve, at\u00e9 peda\u00e7os de lama e grama \u2014 com tio Cassian no quintal, e tampouco esgueirar-se no meio da noite para o quarto de seus pais e pedir para dormir ali, abra\u00e7ado com sua m\u00e3e, e ouvindo distante a voz de seu pai murmurar aquela familiar can\u00e7\u00e3o de ninar.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Muito menos haveria implorar para seu pai o levar junto nas reuni\u00f5es da Corte, para deix\u00e1-lo usar suas espadas e facas, tentando mostrar o qu\u00e3o grande e adulto ele j\u00e1 era. O qu\u00e3o parecido ele era de seu pai, ansioso para ver aquele brilho orgulhoso em seu olhar, para o ouvir mesmo que fosse s\u00f3 um \u201cmeu garoto\u201d do mais velho. N\u00e3o haveria mais correr pelas ruas de Velaris com Emhyr e Mav, os dois meninos com idade pr\u00f3xima de Nyx que lhe faziam companhia sempre que sua m\u00e3e lhe permitia brincar na rua \u2014 ou quando Nyx categoricamente escapava de casa para ir explorar a cidade sozinho. N\u00e3o haveria chutar bolas cegamente e acertar vidros sem querer. N\u00e3o haveria disputas para ver quem chegava primeiro na loja de tia Emerie, ou quem poderia enfiar <em>mais<\/em> bolinhos de blueberries na boca sem se engasgar. N\u00e3o haveria disputas ou apostas sobre <em>quem<\/em> conseguiria irritar a prima de Nyx, Aurora, at\u00e9 que ela sa\u00edsse correndo, chorando, e gritando pela m\u00e3e. Ou as desculpas baixinhas que sempre se seguiram, com os risos sufocados quando tia Nestha viesse censur\u00e1-los por atormentar sua filha.<br \/>\u2003\u2003At\u00e9 Basilius, o austero e severo Capit\u00e3o que ficava de olho em Nyx no Acampamento Illyriano quando seu pai ou o tio Cassian precisava resolver assuntos de adultos, faria falta. Ele percebeu com tristeza e resigna\u00e7\u00e3o: sentiria falta dos gritos, das corre\u00e7\u00f5es de sua postura e especialmente, da liberdade de poder acordar um outro dia exasperado por levantar cedo, e por ter que ir para o acampamento outra vez.<br \/>\u2003\u2003Estava tudo perdido, como a si mesmo. E em troca do que?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por que mentiu para mim? \u2014 Nyx sussurrou, sua voz baixinha, e ecoando com o peso do sentimento de trai\u00e7\u00e3o que empestava seu pequeno peito. A garotinha franziu o cenho, defensiva, se encolhendo um pouco mais contra si, encarando-o irritadi\u00e7a.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o menti! \u2014 ela sussurrou de volta, encarando-o com irrita\u00e7\u00e3o, e ao mesmo tempo, um medo enraizado que n\u00e3o parecia ter sido despertado por Nyx, apenas lembrado. Um medo que n\u00e3o pertencia aos ecos das criaturas que se espalhavam ali embaixo, nem a escurid\u00e3o que os envolvia densa como um manto, tampouco pelos ferimentos que agora ambos exibiam e carregariam pelo resto de suas vidas a vir. Era algo mais profundo que isso, algo que ele n\u00e3o conseguia compreender, mas que partia <em>dele<\/em>. De <em>dentro<\/em> dele. A garotinha fungou baixinho, como se estivesse se esfor\u00e7ando muito para n\u00e3o chorar, abra\u00e7ando seus joelhos com um pouco mais de for\u00e7a. \u2014 Eu nem te conhe\u00e7o\u2026<br \/>\u2003\u2003O coment\u00e1rio dela doeu.<br \/>\u2003\u2003Ela falava como se eles n\u00e3o fossem amigos, mas verdade seja dita, com tudo o que eles estavam passando juntos, desde a escapada de Nyx da sala do trono, ela havia sido sua \u00fanica companhia. Eles estavam juntos ali, para o que desse e viesse, para o bem ou para o mal, Nyx estava feliz em acreditar que ela seria sua amiga, que eles j\u00e1 eram <em>mais<\/em> amigos do que ele era at\u00e9 mesmo com Emhyr, e, todavia, ela falava como se ele fosse apenas um estranho. E a pior parte disso?<br \/>\u2003\u2003Ela estava <em>certa<\/em>. De certa forma, Nyx era s\u00f3 um estranho para ela, mesmo que ele n\u00e3o quisesse ser\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me olha como eles \u2014 ela lamentou, melanc\u00f3lica e acusat\u00f3ria. Os olhos, aqueles olhos expressivos e estelares, pareciam envergonhados, abaixaram-se do rosto de Nyx para encarar os pezinhos sujos. Foi somente naquele momento que Nyx percebeu: ela estava descal\u00e7a, os pezinhos sujos de fuligem, poeira, e agora escoria\u00e7\u00f5es causadas pela corrida e queda, pareciam pequenos e maltratados, at\u00e9 mesmo <em>queimados<\/em>. Ele sentiu algo em seu peito doer, mas igualmente sentiu algo em sua mente se erguer, pegou-se de repente defensivo, pronto para retorquir as palavras dela, antes mesmo que ela prosseguisse com sua fala. \u2014 Voc\u00ea acha que eu sou um monstro tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas voc\u00ea \u00e9 \u2014 ele sussurrou de volta, desviando o olhar da garotinha, sentindo-se culpado pela admiss\u00e3o, mas sem conseguir conter-se. N\u00e3o gostava do jeito que ela falava com ele, como se ele fosse algu\u00e9m ruim\u2026<br \/>\u2003\u2003Ele esperou que ela gritasse com ele. Esperou ouvi-la defender-se, que lhe dissesse que era mentira, que Nyx era um grande mentiroso, e que n\u00e3o sabia nada sobre ela. Ele podia quase sentir os pensamentos dela, t\u00e3o transparentes e sinceros, pulsando por sua cabe\u00e7a, e ele n\u00e3o precisaria usar seus poderes para sequer l\u00ea-los. Ela era transparente como \u00e1gua.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Mas ela n\u00e3o disse nada.<br \/>\u2003\u2003Ele havia magoado ela, percebeu com surpresa e culpa. Ele ponderou, unindo suas sobrancelhas, introspectivo por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, considerando suas palavras. Elas eram verdadeiras, aquela garotinha <em>era um monstro<\/em> e isso era expl\u00edcito. Que tipo de criatura era capaz de absorver luz daquela forma? Que tipo de criatura seria mantida naquele lugar horr\u00edvel se n\u00e3o fosse puramente por ser um monstro ruim? Ela s\u00f3 <em>podia<\/em> ser um monstro, ele n\u00e3o estava errado em sua conclus\u00e3o! Todavia, ele imaginou como as suas palavras deveriam ter soado aos ouvidos dela.<br \/>\u2003\u2003E se a situa\u00e7\u00e3o fosse inversa e ele tivesse ouvido cham\u00e1-lo de monstro\u2026 Nyx encolheu-se contra si, seus ombros pesando com a culpa, e projetando-se para frente, em uma silenciosa derrota. O menino enterrou o queixo em suas m\u00e3os, hesitando por um momento antes de voltar a encar\u00e1-la, sem ter certeza do que encontraria em seu rosto. N\u00e3o o surpreendeu quando se deparou com uma profunda tristeza que fazia os olhos brilhantes dela ofuscados. E no fundo de tudo, havia dor. Uma dor que Nyx sup\u00f4s que n\u00e3o viria de seus machucados.<br \/>\u2003\u2003O menino queria se desculpar. Queria retirar suas palavras e assegurar a ela que ele n\u00e3o a via como um monstro, havia dito aquelas palavras porque queria magoar ela, porque ela o magoou quando havia dito que ele a encarava como os outros da Corte dos Pesadelos. Seu pai sempre havia dito que a Corte dos Pesadelos era composta por pessoas ruins, dizer a Nyx que ele era como <em>eles<\/em>, significava claramente que ele era ruim tamb\u00e9m. Ele estaria mentindo, todavia, se o fizesse. Porque, querendo ou n\u00e3o, ela <em>era<\/em> e <em>sempre seria<\/em> um monstro.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Como sabia que aqui era o <em>Po\u00e7o?<\/em>\u2014 Nyx questionou, t\u00e3o baixinho que por um momento ele achou que ela n\u00e3o havia escutado sua pergunta e que ele teria que repeti-la. Ent\u00e3o, ap\u00f3s alguns longos minutos em sil\u00eancio, ele imaginou se ela sequer se daria ao trabalho de responder. Era prov\u00e1vel que n\u00e3o, depois do que ele havia dito, ele n\u00e3o a culparia se ela n\u00e3o quisesse mais falar com ele\u2026 ainda assim, o sil\u00eancio o irritou.<br \/>\u2003\u2003Ela deu de ombros, ainda sem encar\u00e1-lo, parecendo ainda t\u00e3o envergonhada e cabisbaixa que antes. A culpa arranhou a consci\u00eancia dele, mas ele a silenciou tentando focar apenas nas palavras dela. Precisava de informa\u00e7\u00f5es para saber o que deveria fazer daqui para frente. Como sobreviver naquele lugar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Quando a senhorita Lyra n\u00e3o precisa mais de mim, eles me mandam para c\u00e1 \u2014 a garotinha disse com um tom de voz simples, baixinho. Os olhos estelares dela se fixaram no riacho um pouco mais longe de onde eles est\u00e3o, balan\u00e7ando-se um pouco para frente e para tr\u00e1s, fosse por ansiedade ou medo, Nyx n\u00e3o era capaz de compreender.<br \/>\u2003\u2003Ele repassou o nome em sua mente. Lyra\u2026 lhe era familiar, como o de um desconhecido o seria. N\u00e3o era que ele pudesse dar um rosto para o nome, ou tampouco fosse completamente desconhecido, ele j\u00e1 havia ouvido o nome ser mencionado em um ou outro jantar quando o C\u00edrculo \u00cdntimo de seu pai estava reunido para o jantar. Ouvira que era mimada, e que era muito bonita, n\u00e3o t\u00e3o bonita como Aurora, mas bonita como uma Gr\u00e3 Fe\u00e9rica. Ouvira tamb\u00e9m o lamento de algu\u00e9m vindo da corte que havia desejado que ela fosse, na verdade, um macho, e assim, teriam um herdeiro digno para o trono. Sabia que os coment\u00e1rios afiados n\u00e3o deixavam seu pai feliz, mas se tivesse que apontar quem poderia ser a menina e o que significava, Nyx n\u00e3o o poderia fazer, por mais que tentasse.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Quem \u00e9 Lyra? \u2014 Nyx ecoou, inclinando a cabe\u00e7a para o lado, observando-a em um sil\u00eancio cauteloso, n\u00e3o menos curioso.<br \/>\u2003\u2003Ela deu de ombros, voltando a encar\u00e1-lo com olhos grandes e expressivos. Ela inclinou a cabe\u00e7a um pouco para o lado, repousando-a em seu bracinho direito, e ent\u00e3o bocejou.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ela \u00e9 a neta do Lorde Thanatos \u2014 a garotinha resmungou como se a informa\u00e7\u00e3o fosse algo \u00f3bvio, embora n\u00e3o o fosse, ao menos n\u00e3o para Nyx. \u00c9 claro que ele conseguia colocar as pe\u00e7as nos lugares certos para compreender de quem se tratava e a <em>quem<\/em> ela se referia, mas igualmente n\u00e3o deixava de ser confuso. A garotinha se ajeitou no ch\u00e3o, parecendo ter tornado seu prop\u00f3sito agora, enterrar seus pezinhos descal\u00e7os no amontoado de cascalho que se formava ali. \u2014 Ela n\u00e3o gosta de bonecas. Diz que s\u00e3o feias e para crian\u00e7as. Ent\u00e3o o av\u00f4 dela me levou para ela.<br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio sepulcral se estendeu por um longo momento enquanto Nyx franzia o cenho confuso. Levou para Lyra? Como assim? Por que a garotinha falava como se ela fosse uma\u2026 coisa de Lyra? Uma boneca viva, talvez? Nyx sentiu sua cabe\u00e7a girar um pouco mais, desconfort\u00e1vel, sem conseguir compreender como era poss\u00edvel aquilo acontecer.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o quer dizer que voc\u00ea\u2026 \u2014 Nyx come\u00e7ou a dizer, categoricamente e com cuidado, franzindo o cenho um pouco mais, confuso. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 amiga dela?<br \/>\u2003\u2003A garotinha pareceu pausar por um momento, encarando Nyx com confus\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que \u00e9\u2026 <em>amigo?<\/em> \u2014 A pergunta que escapou dos l\u00e1bios da menina era inocente, confusa com a palavra desconhecida, e Nyx emudeceu. Observou-a encar\u00e1-lo a espera de uma resposta, os olhos brilhando com uma curiosidade inocente, parecendo tentar calcular o que diabos ele estava se referindo. O que poderia vir a ser. Nyx abriu sua boca para respond\u00ea-la, mas sua voz n\u00e3o saiu.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Tentou encontrar suas palavras, tentou encontrar uma forma de explicar para ela o que era um amigo: uma parte da sua alma que te completava e que n\u00e3o te abandonaria, n\u00e3o importava o qu\u00e3o dif\u00edcil ou ruim as coisas poderiam se tornar? Algu\u00e9m que havia nascido de outra pessoa, mas que voc\u00ea sabia que era seu irm\u00e3o? Como ele poderia explicar para ela o que era um amigo, se nem mesmo ele era capaz de compreender a dimens\u00e3o da palavra ainda.\u00a0<br \/>\u2003\u2003O que quer que o menino estivesse prestes a falar, foi interrompido pelo eco de uma voz familiar, chamando por seu nome. Nyx se tencionou no mesmo segundo, colocando-se de p\u00e9, e lan\u00e7ando um olhar ao redor ansioso.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Nyx! \u2014 Feyre o chamou de algum lugar da escurid\u00e3o, o tom desesperado e preocupado, e o al\u00edvio inundou o peito do menino. Ele abriu um sorriso largo, imediatamente colocando-se a correr, tentando encontrar de onde o som havia partido. Podia ouvir, meio aparte, o barulho dos pezinhos da garotinha seguindo-o, podia ouvi-la dizer alguma coisa, mas estava concentrado. Precisava encontrar sua m\u00e3e. Precisava\u2026 \u2014 Nyx, filho onde voc\u00ea est\u00e1!?<br \/>\u2003\u2003O sorriso de Nyx desapareceu lentamente de seu rosto cansado e assustado, ao perceber que a voz adquiriu um tom sibilante ao final de sua fala. N\u00e3o vinha dos t\u00faneis e tampouco das aberturas de ar ao topo abobadado do teto daquela galeria, n\u00e3o, ela vinha de <em>cima<\/em> da cabe\u00e7a dele. O grito morreu na garganta do menino, quando ele inclinou sua cabe\u00e7a para tr\u00e1s, os olhos azuis seguindo os veios e irregularidades das paredes at\u00e9 repousarem no que parecia ser um corpo grande e molenga enroscado entre as estalactites do teto.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o reage! \u2014 a garotinha gritou, e ent\u00e3o se silenciou abruptamente quando a criatura avan\u00e7ou na dire\u00e7\u00e3o dela. Nyx congelou no lugar, tentando manter sua express\u00e3o neutra, prendendo sua respira\u00e7\u00e3o por instinto.\u00a0<br \/>\u2003\u2003A criatura tinha um cheiro horr\u00edvel, uma mistura profunda de ferrugem, escurid\u00e3o e algo podre, intrag\u00e1vel, como enxofre, mas por baixo disso havia um aroma estranho, que se destacava, um aroma <em>doce<\/em>, enjoativo, fazia com que seu est\u00f4mago se contra\u00edsse. A bile subiu por sua garganta, sufocante e o fazendo engasgar-se, enjoativo o suficiente para fazer com que ele ficasse zonzo, mal respirando direito. Mas o que era assombroso era a <em>vis\u00e3o<\/em> desta. Possu\u00eda um corpo largo, pesado, e repleto de dobras tal como um inseto, rastejava-se pelas paredes, mesmo que suas patas afiadas e finas, como ponta de flechas, se fincassem com for\u00e7a contra o ch\u00e3o, arrastando o corpo pesado e espa\u00e7oso at\u00e9 estar contorcido, parado a poucos cent\u00edmetros do rosto da garotinha. E ao centro, onde deveria ficar sua bocarra amea\u00e7adora, encontrava-se na verdade um <em>rosto<\/em>.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Nyx n\u00e3o ousou se mexer, mantendo sua express\u00e3o neutra, tentando imitar a garotinha, os olhos azuis dele encontraram-se com o rosto que a criatura usava naquele momento. Um Gr\u00e3o Fe\u00e9rico, macho, com cabelos longos e de apar\u00eancia macia, de pele p\u00e1lida como neve e olhos escuros como a escurid\u00e3o que os cercava, talvez mais. Possu\u00eda uma cicatriz que atravessava seu rosto inteiro e foi somente naquele momento, ao ver aquela cicatriz que um arrepio g\u00e9lido percorreu a espinha do menino. Seu est\u00f4mago contraiu, e um aperto envolveu seu peito, e ele achou que iria vomitar, embora estivesse esfor\u00e7ando-se para manter seus olhos fechados. Era o monstro que havia os perseguido mais cedo. O rosto vivo da criatura agora pertencia a esta, moldado da forma que assim desejava, e Nyx teve a terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de que se expressasse qualquer coisa, por menor que fosse, aquele monstro iria n\u00e3o apenas mat\u00e1-lo, como roubaria seu rosto para si. Quando o medo se tornou demais, Nyx fechou os olhos com for\u00e7a.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Estrelinha, solit\u00e1ria\u2026 arrrrrrhhh\u2026 quanto tempo\u2026 hsssssss\u2026. levaria para se\u2026. apagar<\/em> \u2014 cantarolou a criatura com uma voz \u00e1spera, um ru\u00eddo aterrorizante que lembrava as garras afiadas sendo fincadas contra as paredes de pedras e violentamente puxadas para baixo, arranhando o ar ao seu redor e fazendo seus ouvidos doerem. Ele mordeu sua l\u00edngua tentando silenciar quaisquer ru\u00eddos que ele pudesse fazer; o sangue percorreu pelo interior de sua boca, adentrando por sua garganta e escorrendo pelos cantos, vagarosamente, encorpado e denso. \u2014 <em>N\u00e3o h\u00e1\u2026 nada\u2026 eerhh\u2026 que possa\u2026 amaaaaarrrr\u2026 voc\u00ea\u2026<\/em><em>\u00a0<\/em><br \/>\u2003\u2003Nyx abriu os olhos virando-se para a criatura, irritado.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o fale assim! \u2014 Nyx advertiu, impulsivo, e arrependeu-se no mesmo segundo, porque em um piscar, a criatura estava \u00e0 frente de seu rosto.\u00a0<br \/>\u2003\u2003Um sorriso vagaroso surgiu no rosto roubado da criatura, a cabe\u00e7a inclinando-se para a esquerda, os olhos fixos nos de Nyx, sem desviar, sem sequer piscar, o manto escuro de seus cabelos acariciando o ar como se n\u00e3o possu\u00edssem gravidade alguma. Uma m\u00e3ozinha pequena, tr\u00eamula e gelada envolveu a direita de Nyx, os dedinhos, ainda que pegajosos pela poeira e sujeira, deslizando firmemente pelos dedos dele, entrela\u00e7ando em um aperto surpreendentemente forte. Algo no peito dele se apertou, e ent\u00e3o se aqueceu. Nyx n\u00e3o voltou seu rosto na dire\u00e7\u00e3o da garotinha, mesmo se desejasse, n\u00e3o poderia, estava travado no lugar, preso no poder do que quer que aquela criatura composta de pesadelos e escurid\u00e3o possu\u00eda.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Defende-a\u2026 como se fosse sua&#8230; rrrhhh<\/em>\u2026 <em>amiga\u2026<\/em> \u2014 sibilou a criatura com um ru\u00eddo alto e estridente. Nyx sentiu o impulso de fazer uma careta, de se encolher, fechar os olhos e tentar desaparecer com as sombras, mas manteve-se firme, sustentando o olhar do monstro \u00e0 sua frente. O tremor aumentou por seu corpo, vibrando por sua pele com espasmos irregulares. Manteve sua express\u00e3o vazia, seus olhos fixos nos da criatura, tentando se for\u00e7ar a ser corajoso, tentando for\u00e7ar-se a ser como <em>seu pai<\/em>\u2026 \u2014 <em>E ela nem \u00e9\u2026 hssss&#8230; uma de&#8230; voc\u00eassss\u2026<\/em><br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me importo \u2014 Nyx disse com convic\u00e7\u00e3o, talvez mais convic\u00e7\u00e3o do que sentia, mas n\u00e3o havia mentido. Os olhos percorreram os po\u00e7os escuros dos que a criatura vestia, e com uma ponta de horror, observou-a trocar de rosto lentamente para o de uma f\u00eamea, linda, de cabelos ruivos longos, pele repleta de sardas e olhos verdes como grama. Tinha um rosto gentil, suave, quase reconfortante, e lembrava, estranhamente, a garotinha atr\u00e1s de si\u2026 como\u2026?\u00a0<br \/>\u2003\u2003O rosto da criatura terminou de girar em 360 graus e ent\u00e3o voltou a se inclinar na dire\u00e7\u00e3o de Nyx, o h\u00e1lito putrefato da criatura aumentando a n\u00e1usea que o garoto sentia.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Um herdeiro\u2026 <\/em>\u2014 a criatura sibilou, o sorriso largo. \u2014 <em>Hssssss\u2026. H\u00e1 escurid\u00e3o\u2026. dentro de voc\u00ea\u2026 Nyyyx\u2026 h\u00e1\u2026 morteee\u2026 e culpa\u2026 e raiva\u2026 muita raivarrrhhh\u2026 augh que criatura\u2026 fascinante\u2026 voc\u00ea.. \u00e9\u00e9\u00e9e\u2026\u00a0<\/em><br \/>\u2003\u2003Nyx estava prestes a questionar a criatura o que diabos aquilo significava quando a voz baixa da menina ecoou:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Pode dizer para onde \u00e9 a sa\u00edda daqui? \u2014 ela pediu, atr\u00e1s de Nyx, hesitando. A cabe\u00e7a da criatura girou novamente, daquela forma quase mec\u00e2nica e antinatural, projetando-se sobre Nyx e inclinando-se na dire\u00e7\u00e3o da menina.\u00a0<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Posso\u2026 hhsss\u2026 mas com\u2026 uma\u2026 condi\u00e7\u00e3o\u2026 <\/em>\u2014 a criatura sibilou, um estalo esquisito e ruidoso escapando pela maneira com que alongava as palavras. Nyx engoliu em seco, esfor\u00e7ando-se para manter sua express\u00e3o vazia. Ele n\u00e3o se moveu, n\u00e3o porque n\u00e3o queria, mas porque estava considerando o que diabos a criatura poderia querer deles. Seu pai havia dito um tempo atr\u00e1s que Nyx deveria ser cuidadoso, deveria escolher suas palavras da forma correta e com cuidado, deveria estar atento, pois havia truques escondidos em <em>todas as barganhas<\/em> oferecidas, mesmo aquelas de bom grado. Palavras tinham mais poder do que ele imaginava, dizia Rhysand, e ele deveria ser cuidadoso com o que prometia. \u2014 <em>Um de\u2026 voc\u00easss\u2026 precisa ficar\u2026 aquiii\u2026<\/em><br \/>\u2003\u2003Por um longo momento, os dois ficaram em sil\u00eancio. Nyx em choque, a garotinha perturbadoramente calma, e ent\u00e3o, para o horror de Nyx, os dedinhos que se enroscavam com os seus, apertado em um suporte silencioso, se puxaram, gentilmente, para baixo, desfazendo o aperto, mesmo que ele tivesse tentado agarrar-se a m\u00e3o da menina, ele <em>ainda<\/em> sentiu quando esta desapareceu. E tudo pareceu ficar mais frio ao seu redor.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu fico. \u2014 Nyx voltou-se na dire\u00e7\u00e3o dela, em choque, mas ela parecia resignada em sua escolha, encarando o olhar sufocante da criatura, come\u00e7ando a sorrir.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> \ud83e\udd20essa porra de pr\u00f3logo \u00e9 a coisa mais longa que eu j\u00e1 escrevi, tive que dividir em TR\u00caS PARTES para que o contexto inteiro da hist\u00f3ria pudesse ser estabelecido, o ano ser\u00e1 2089 e a gente ainda vai estar no pr\u00f3logo KSKSKSKSKS\u00a0<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NYX \u2022 ANOS ANTES \u2003\u2003Nota da Autora: \ud83e\udd20essa porra de pr\u00f3logo \u00e9 a coisa mais longa que eu j\u00e1 escrevi, tive que dividir em TR\u00caS PARTES para que o contexto inteiro da hist\u00f3ria pudesse ser estabelecido, o ano ser\u00e1 2089 e a gente ainda vai estar no pr\u00f3logo KSKSKSKSKS\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1920],"class_list":["post-5646","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-starfall"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5646","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5646"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5646"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5646"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}