{"id":5637,"date":"2025-06-09T14:14:00","date_gmt":"2025-06-09T17:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-18T14:15:19","modified_gmt":"2025-10-18T17:15:19","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/sour-love\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p style=\"text-align: center;\">\u2003\u2003<small>O texto a seguir \u00e9 meramente uma s\u00e1tira da realidade. Quaisquer semelhan\u00e7as com a realidade, nomes e eventos s\u00e3o meras coincid\u00eancias.<\/small><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003As m\u00e3os tr\u00eamulas de<\/span> Bosolaro pareciam amortecidas, pressionadas com for\u00e7a contra sua boca, tentando sufocar o acumulo de l\u00e1grimas que, agora, transbordavam pesadamente por seu rosto amassado de sono. Estava trancado naquele pequeno banheiro fazia alguns consider\u00e1veis minutos. Ele havia deixado de se importar com a sua pr\u00f3pria demora dentro do banheiro, ou se por ventura Trampo viria, eventualmente, perceber que ele n\u00e3o estava mais ao seu lado na cama. Mesmo chorar, ele o fazia em sil\u00eancio agora, engasgando-se baixinho, apoiando as duas m\u00e3os em sua cabe\u00e7a, sem saber o que diabos deveria fazer agora.<br \/>\u2003\u2003Chegou a questionar-se onde poderia ter errado para que estivesse naquela situa\u00e7\u00e3o agora: certamente n\u00e3o era sua culpa, afinal, Bosolaro jamais cometeria tais erros, Bosolaro era top, era o maioral. Mas&#8230; sentado no topo daquela privada parcialmente limpa, com o cheiro de desinfetante pungente vindo de um balde a sua esquerda, com uma parte de sua mente questionando-se porque diabos ele estava no vaso sanit\u00e1rio se ele ainda tinha a bolsa de colostomia ainda presa a seu pr\u00f3prio corpo. Bosolaro sabia, ele poderia ser muita coisa, mas inteligente, n\u00e3o era. E talvez <em>este<\/em> tivesse sido seu erro fatal.<br \/>\u2003\u2003Cantar ao p\u00e9 de ouvido de Trampo, sussurrar palavras de amor em meio ao escuro aconchegante de seu quarto \u2014\u2014 <em>popcorn and ice cream sellers senteced for coup attempt in Brazil<\/em>, que literalmente traduzia para um das palavras mais doces brasileiras j\u00e1 inventadas: <strong>minha cenoura <\/strong>\u2014\u2014 toc\u00e1-lo como nenhuma de suas amantes e nem mesmo sua esposa foram capazes de o fazer, Bosolaro havia se entregado de corpo e alma para Trampo, at\u00e9 mesmo assinado um contrato de submisso havia o feito, e c\u00e9us, se Bosolaro n\u00e3o sentia um puta tes\u00e3o ao lamber os sapatos sujos de Trampo.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro havia entregado tudo de si. Cada m\u00edsero cent\u00edmetro e esperan\u00e7as. E, todavia, as provas estavam todas dispostas a sua frente.<br \/>\u2003\u2003As mentiras, as desculpas, as arma\u00e7\u00f5es, estava tudo ali, escancarado para que qualquer um visse. C\u00e9us, Trampo nem sequer havia se <em>preocupado<\/em> em ocultar alguma coisa, pelo contr\u00e1rio, havia sido t\u00e3o descuidado que Bosolaro se questionava se a inten\u00e7\u00e3o de seu parceiro, desde o come\u00e7o n\u00e3o havia simplesmente ser <em>pego<\/em> no flagra. Se a inten\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o havia sido simplesmente proposital para que Bosolaro descobrisse sobre sua trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o que Bosolaro acreditasse na fidelidade de Trampo.<br \/>\u2003\u2003Antes de se unirem, e viverem aquele conto de fadas, aquele romance havia se iniciado como um romance proibido. O t\u00f3rrido <em>affair<\/em> havia tido inicio durante uma confraterniza\u00e7\u00e3o entre grandes lideres mundiais em uma reuni\u00e3o diplom\u00e1tica oferecida pela ONU, e, \u00e9 claro, sendo quem era, Bosolaro havia dado uma forma de entrar de penetra. N\u00e3o porque ele tivesse alguma coisa a acrescentar aquela reuni\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o fazia muita quest\u00e3o sequer de dar descarga quando usava o banheiro, qui\u00e7\u00e1 se daria ao trabalho a utilizar seus \u00faltimos dois neur\u00f4nios. Era fato que o m\u00e9dico de Bosolaro havia dito com clareza de palavras que o uso cont\u00ednuo de seu c\u00e9rebro acabaria por mat\u00e1-lo eventualmente, portanto, Bosolaro estava mais do que contente de ser um energ\u00fameno. Pois bem, Bosolaro estava rodando em c\u00edrculos, tendo acabado de perceber que havia pisado em alguma folha perdida dos outros importantes diplomatas, optando por girar no mesmo lugar at\u00e9 conseguir alcan\u00e7ar a sola de seu sapato ao em vez de seguir pelo caminho mais banal como abaixar e retir\u00e1-la, quando <em>ele<\/em> esbarrou em Bosolaro.<br \/>\u2003\u2003Tudo pareceu parar ao seu redor. As paredes prenderam suas respira\u00e7\u00f5es, e os ventiladores fizeram <em>renk, renk, renk<\/em> em estagna\u00e7\u00e3o. Um tremor percorreu o corpo de Bosolaro e, quando seus olhos se encontraram com os do outro homem, algo percorreu por seu corpo. Uma vibra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vinha de seu <em>Nokia<\/em> tijol\u00e3o \u2014 uma atitude tomada prioritariamente para ganhar gra\u00e7a publica, ao se mostrar humilde, embora seu Iphone 25 estivesse devidamente guardado em seu bolso. Bosolaro perdeu seu folego ao observar aquele homem, libidinoso e sensual, t\u00e3o atraente quanto uma laranja em um estande velho de metal em uma quintada qualquer em um bairro de classe m\u00e9dia a frente da entrada da loja. Suculenta, redonda, a um passo de ser jogada no lixo por j\u00e1 estar mais enrugada do que deveria.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro havia corado com a vis\u00e3o de tamanha masculinidade a sua frente, e ele pode sentir as rea\u00e7\u00f5es que o estrangeiro havia causado a seu pr\u00f3prio corpo. Como um encantador de serpentes, atraindo-o para sua orbita tal qual um im\u00e3 de polaridade oposta. Os l\u00e1bios finos e ressecados de Bosolaro haviam ficado, de repente, secos, e sua garganta desesperada por um pouco de \u00e1gua \u2014 ou um cuspe daquele homem sensacional a sua frente.<br \/>\u2003\u2003Trampo, havia dito ele com um sorriso torto que enrugava quase por completo o lado esquerdo de seu rosto, o que <em>quase<\/em> havia feito Bosolaro chamar a seguran\u00e7a e ligar para a emerg\u00eancia, achando que Trampo havia infartado. \u00c9 claro que n\u00e3o o fez, at\u00e9 porque o pre\u00e7o da ambul\u00e2ncia era maior do que seu Iphone 25, ao contr\u00e1rio, Bosolaro suspirou, sentindo que naquele momento, seu cora\u00e7\u00e3o murcho e caqu\u00e9tico, havia finalmente voltado a vida, de uma maneira que n\u00e3o havia batido por ningu\u00e9m, nem mesmo por L\u00facifer, seu ex-amante.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro e Trampo haviam trocado n\u00fameros naquele dia, ap\u00f3s Trampo, como um cavaleiro em armadura de papel\u00e3o ter verificado se ele estava certo. Bosolaro lembrava-se de ter sussurrado um \u201csim, t\u00e1 ok?\u201d para Trampo, e ter visto, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, os olhos de Trampo se obscurecerem com desejo. Mas todo o encanto daquela cena de amor implac\u00e1vel e predestinado havia acabado de forma curta quando Melanina, a atual esposa de Trampo, se aproximou deles. Bosolaro n\u00e3o pode deixar de sentir uma pequena pontada de inveja ao observar os bra\u00e7os fl\u00e1cidos e pelancudos daquele homem m\u00e1sculo envolverem a cintura de uma jovem mulher que deveria ter idade para ser sua neta. Bosolaro queria <em>aquele<\/em> lugar para si. Queria os bra\u00e7os de Trampo ao redor de <em>sua<\/em> cintura redonda e deforme por causa de um acidente em seu passado. Queria o lugar de Melanina, porque certamente, Melanina n\u00e3o parecia sequer estar impressionada com o homem que tinha ao seu lado.<br \/>\u2003\u2003Se Melanina sequer soubesse o que possu\u00eda!<br \/>\u2003\u2003Depois daquele dia, Bosolaro havia passado muito tempo encarando seus celulares a espera de uma liga\u00e7\u00e3o, de alguma coisa, <em>qualquer<\/em> coisa vinda de seu futuro parceiro. Sabia que era um risco, e que talvez estivesse confundido as coisas, afinal Trampo era um homem atarefado, com suas in\u00fameras pausas para respirar e suas reuni\u00f5es rotineiras para com o est\u00fadio de bronzeamento artificial. \u00c9 claro que Trampo n\u00e3o teria tempo para Bosolaro. Mas ent\u00e3o, um dia, depois de uma jet-ski-ata com seus seguidores, Bosolaro sentiu seu cora\u00e7\u00e3o acelerar, e suas m\u00e3os suarem ao ver a notifica\u00e7\u00e3o, na barra superior do aparelho com o nome de Trampo.<br \/>\u2003\u2003<em>\u201cPodemos nos ver?\u201d<\/em>, era tudo o que a mensagem dizia, abaixo do link do tradutor usado para a mensagem. Bosolaro havia hesitado, todavia, afinal ele n\u00e3o queria ser apenas mais um brinquedinho na m\u00e3o de Trampo. Bosolaro queria <em>mais<\/em> do que apenas ser usado e descartado como seu eleitorado era. Ligou ent\u00e3o para seu caro amigo, M\u00e9rgio Soro, e bem ali, Bosolaro passou horas confidenciando suas inseguran\u00e7as e seus receios ao ouvido do melhor amigo. M\u00e9rgio, sendo o s\u00e1bio que era, apenas sugeriu para que Bosolaro comprasse um <em>triplex<\/em> e ent\u00e3o ligasse de volta para ele, contando se havia dado certo ou n\u00e3o. \u00c9 claro, Bosolaro havia ficado confuso com aquele conselho, afinal o assunto pouco se dava relacionado a um <em>triplex<\/em>, mas as palavras de sabedoria de M\u00e9rgio Soro, nunca deveriam ser questionadas, apenas ouvidas e respeitadas, j\u00e1 que pouca coer\u00eancia e clareza possu\u00edam.<br \/>\u2003\u2003Por fim, Bosolaro aceitou. Ele comprou o triplex, e igualmente levou Trampo para l\u00e1.<br \/>\u2003\u2003A princ\u00edpio, tudo n\u00e3o parecia nada mais do que apenas uma conversa entre amigos, Bosolaro at\u00e9 desesperan\u00e7oso se sentiu. Pensou em como poderia ter se enganado em rela\u00e7\u00e3o a Trampo, em como deveria ter entendido suas inten\u00e7\u00f5es de maneira errada. \u00c9 claro que Trampo nunca largaria uma mulher t\u00e3o bonita quanto Melanina, era ousadia dele acreditar que Trampo o faria. Mas ent\u00e3o, Trampo tocou a m\u00e3o de Bosolaro com um pouco mais de demora do que o normal. Ele riu por um pouco mais de tempo. Ele colocou uma mecha de seu cabelo atr\u00e1s de sua orelha, em um gesto de carinho. E antes que Bosolaro pudesse dizer qualquer coisa, Trampo havia o beijado.<br \/>\u2003\u2003Um suspiro permeado por desejo, paix\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o escapou por entre os l\u00e1bios de Bosolaro quando ele abocanhou a boca de Trampo de volta. Suas l\u00ednguas travaram batalhas ferozes uma contra a outra, desbravando cada cent\u00edmetro da boca do outro tal qual como um invasor rico branco de uma Europa do s\u00e9culo XVII, invadindo e tomando tudo o que encontrava pelo caminho. Tal qual como Napole\u00e3o Bonaparte em meio ao <em>Inverno Russo<\/em>. Saboreou o gosto de leite condensado com p\u00e3o, e do frango sem tempero cozido e condimentado de latinha, e Bosolaro nunca se sentiu daquela maneira. T\u00e3o cheio, t\u00e3o envolto por uma paix\u00e3o avassaladora como aquela que Trampo havia despertado dentro de si.<br \/>\u2003\u2003E ent\u00e3o, uma coisa levou a outra. E em pouco tempo, Bosolaro estava cavalgando como um perfeito pe\u00e3o de Ouro Preto no pau enrugado e de proced\u00eancia duvidosa de Trampo. E c\u00e9us, como o prazer os envolvia, como a libera\u00e7\u00e3o reverberava por seus ossos de forma que ningu\u00e9m nunca havia conseguido o fazer sentir. Bosolaro pela primeira vez considerou deixar de ser uma pessoa detest\u00e1vel ao perceber o que era ser <em>amado<\/em> de verdade. Mas ent\u00e3o, havia o segredo.<br \/>\u2003\u2003Havia Melanina.<br \/>\u2003\u2003Trampo havia feito promessas para Bosolaro. Trampo havia lhe dito que seria por pouco tempo, que ele n\u00e3o precisava se preocupar que seu cora\u00e7\u00e3o pertencia unicamente a Bosolaro, mas sua situa\u00e7\u00e3o era complexa e delicada. N\u00e3o poderia deixar Melanina daquela forma, n\u00e3o poderia simplesmente ir embora, n\u00e3o antes que tivesse certeza que Melanina n\u00e3o teria nada em seu nome, especialmente para usar contra ele na corte.<br \/>\u2003\u2003E ent\u00e3o, os dias se tornaram semanas, e as semanas tornaram-se em meses. E por longos 4 anos e meio, Bosolaro percebeu-se preso naquele maldito relacionamento oculto, sendo escondido de olhares p\u00fablicos e sofrendo nas sombras por n\u00e3o poder ter o homem que tanto amava. De alguma forma, Trampo havia se tornado tudo para Bosolaro. Trampo havia se tornado a dedica\u00e7\u00e3o de sua vida, o sonho que ele nunca havia se permitido sonhar com tanto afinco, mas que agora, em suas m\u00e3os, recusava-se a largar. Bosolaro era idiota, sim, e n\u00e3o percebia que estava sendo, como muitos outros antes dele, usado por Trampo. N\u00e3o percebia a doce mentira que havia s\u00e3o apressadamente contado a si mesmo sobre o homem que amava.<br \/>\u2003\u2003Talvez, este fosse seu maior problema, para algu\u00e9m que nunca havia conhecido o afeto de fato, o que era ser amado e visto, acreditar que um gesto <em>simpl\u00f3rio<\/em> significava uma verdade absoluta tornava-se a \u00fanica coisa a mant\u00ea-lo no ch\u00e3o e est\u00e1vel. Talvez, seu problema fosse ter aceitado as pequenas migalhas acreditando que jamais iria merecer um baquete inteiro \u2014 e de fato, com uma culpa de quase 600 milh\u00f5es de almas puxando-o para baixo, certamente, Bosolaro n\u00e3o merecia sequer um suspiro de al\u00edvio, mas esta \u00e9 uma outra hist\u00f3ria, para um outro momento.<br \/>\u2003\u2003Conforme o tempo foi se passando, e aproximava-se o quinto ano daquele <em>affair<\/em> oculto de olhares p\u00fablicos e secreto, Bosolaro acabou cansando-se de esperar por uma atitude de Trampo, e fez como toda e boa amante costuma fazer: Bosolaro deu um jeito de fazer Melanina flagr\u00e1-los juntos.<br \/>\u2003\u2003Ah, tamanha baixaria e gritaria se deu, mas finalmente, ao final dos vidros quebrados, dos v\u00f4mitos e acusa\u00e7\u00f5es, Bosolaro havia sa\u00eddo vitorioso, havia conseguido <em>seu<\/em> homem finalmente. E agora, finalmente livre das amarras de um contrato social opressivo cujo \u00fanico prop\u00f3sito era o controle do sistema sobre eles, Bosolaro e Trampo estavam livres para viver seu amor.<br \/>\u2003\u2003Sem impedimentos. Sem arrependimentos. Sem perturba\u00e7\u00f5es maiores.<br \/>\u2003\u2003E Bosolaro teve certeza que aquele seria seu final feliz. C\u00e9us sabiam, o quanto ele havia desejado que o fosse, mas o tempo, ah, este era um cafet\u00e3o rancoroso para o cu de sua vida.<br \/>\u2003\u2003Por dois anos, Bosolaro e Trampo viveram um relacionamento perfeito. Trampo era carinhoso na intimidade com Bosolaro, era atento e sempre comprava pequenos presentes para ele; uma coleira com as inicias de Trampo, um anel personalizado, uma nova bolsa de colostomia, esta feita dos mais finos e caros materiais. Bosolaro era paparicado e cuidado como jamais havia sido anteriormente. E em troca Bosolaro amava Trampo como ningu\u00e9m jamais o amaria de fato. Amava-o com sua alma e sua boca, seu corpo e seu toque. O adorava com aten\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a, cumprindo com todos os seus desejos e requisitos.<br \/>\u2003\u2003E ent\u00e3o, Trampo o traiu.<br \/>\u2003\u2003De novo, e de novo, e de novo, e de novo.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro n\u00e3o teria tido problemas se fosse apenas uma prostituta qualquer ou uma noite de sexo, afinal, ningu\u00e9m era perfeito, todos cometiam erros, mas o que ele havia encontrado aquela manh\u00e3 no celular de Trampo&#8230; c\u00e9us, aquilo havia o arruinado completamente. N\u00e3o era apenas uma noite de sexo despreocupada, era um completo <em>affair<\/em>, um relacionamento que j\u00e1 durava quase seis meses pelas costas de Bosolaro com o maldito Elo Mosque, um bilion\u00e1rio de QI equivalente a Bosolaro. Um homem mais jovem, mais branco e mais rico do que Bosolaro jamais seria. Um garoto de 40 anos que parecia ter encantado Trampo do momento em que haviam se conhecido.<br \/>\u2003\u2003<em>Quando aquilo aconteceu? Quando ele havia deixado isso acontecer? Quando Trampo havia escapado de suas m\u00e3os?<\/em><br \/>\u2003\u2003Bosolaro limpou o rosto, engolindo em seco, tentando se acalmar, mas falhando miseravelmente. Ele teve vontade de gritar, de se debater e lan\u00e7ar-se contra o que quer que estivesse pelo caminho, ele teve vontade de simplesmente correr sem rumo, sem olhar para tr\u00e1s, e, ao mesmo tempo, havia um buraco gritante bem no centro de seu peito, um buraco t\u00e3o fundo e doloroso que respirar tornava-se dif\u00edcil. Ele apertou os l\u00e1bios em uma fina linha r\u00edgida \u2014 t\u00e3o fina que seus l\u00e1bios j\u00e1 finos desapareceram e viraram apenas uma linha reta \u2014 unindo as sobrancelhas, considerando o que diabos ele poderia fazer agora. Para onde iria? O que faria? O que seria de sua vida quando tudo o que ele era, toda sua vida, orbitava ao redor de Trampo? Deveria simplesmente esquecer de tudo? Se fingisse que tudo estava bem, eventualmente, tudo n\u00e3o voltaria ao normal?<br \/>\u2003\u2003Uma pequena pontada de esperan\u00e7a surgiu por seu peito. Uma esperan\u00e7a trai\u00e7oeira e regada a mem\u00f3rias do que aquele relacionamento um dia havia sido. Um desejo desesperado de acreditar que ele <em>ainda<\/em> conseguia alcan\u00e7ar aquele Trampo do inicio de relacionamento. Aquele Trampo <em>que lhe pertencia<\/em>, mas&#8230; aquele Trampo sequer havia sido real? O teste a sua frente havia dado positivo, mas levando em considera\u00e7\u00e3o as altera\u00e7\u00f5es hormonais, os desmaios e at\u00e9 mesmo o exame de sangue que Bosolaro havia feito mais cedo, era certeza de que ele estava gr\u00e1vido \u2014 ele era burro, pobre coitado, mas o c\u00e9rebro acreditaria no que desejava acreditar. Bosolaro al\u00e7ou seu celular do canto da pia do banheiro, os dedos tr\u00eamulos dificultando ao dobro para ele tentar desbloquear a tela.<br \/>\u2003\u2003Inspirou uma, duas, tr\u00eas vezes, sussurrando \u201ct\u00e1 ok\u201d para si mesmo at\u00e9 conseguir controlar o tom de sua vez, antes de discar aquele n\u00famero&#8230; o n\u00famero que havia jurado <em>nunca mais<\/em> ligar, o n\u00famero daquele <em>vermelho<\/em> maldito que ainda o atormentava em pesadelos distantes, mas sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe oferecia outra escolha. Se havia algu\u00e9m que poderia ajuda-lo naquele momento, era ele&#8230;<br \/>\u2003\u2003\u2014 Al\u00f4, meu caro companheiro&#8230; \u2014 a voz do outro lado da linha ecoou pelos ouvidos de Bosolaro com uma mistura de revirar seu est\u00f4mago, o gosto de bile subindo a sua l\u00edngua, pungente enquanto o m\u00fasculo de seu abd\u00f4men se contraia parcialmente. Ele se questionou se iria vomitar naquele momento, certamente desejava o fazer, s\u00f3 n\u00e3o sabia se era por causa de sua gravidez ou pela descoberta da trai\u00e7\u00e3o de Trampo; novamente, Bosolaro n\u00e3o era inteligente, e jamais seria.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00d4 Molusco? \u2014 Bosolaro questionou, hesitante, olhando ao redor do banheiro antes de apoiar a cabe\u00e7a em suas m\u00e3os, uma perna batendo ritmadamente no ch\u00e3o com a necessidade de seu corpo de expurgar a tens\u00e3o e ansiedade que permeavam sua mente. \u2014 \u00c9 voc\u00ea mesmo, Molusco, fala da\u00ed?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Olha&#8230; \u2014 Come\u00e7ou Molusco da Silva com um suspiro pesado, a voz \u00e1spera e levemente presa se misturou com o chiado da liga\u00e7\u00e3o. Bosolaro tencionou a mand\u00edbula, se questionando onde diabos Molusco da Silva deveria estar naquele momento? Certamente no barzinho do Seu Z\u00e9, tomando uma cerveja e comendo um espetinho de quinta categoria. Bosolaro suspirou pesado, sentindo seu primeiro desejo surgir. \u2014 \u00c9 muita aud\u00e1cia da sua parte, ligar para mim numa hora dessas! Depois de tudo que o senhor fez!<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu me arrependi, t\u00e1 ok? \u2014 Bosolaro resmungou com um tom de voz baixo, seguido de um solu\u00e7o. Molusco da Silva soltou um riso abafado, desacreditado, acabando por tossir com sua risada de fumante. \u2014 Por favor, Molusco, voc\u00ea precisa me ajudar! Eu&#8230; eu n\u00e3o sei&#8230;<br \/>\u2003\u2003\u2014 Companheiro, eu n\u00e3o tenho nenhum motivo para ajudar voc\u00ea \u2014 Molusco resmungou com um tom de voz r\u00edspido, desacreditado pelas palavras de Bosolaro, mas ainda assim, ouvindo-o. Uma ponta de esperan\u00e7a se acendeu no peito de Bosolaro, que sabia que n\u00e3o deveria alimentar, ainda assim, n\u00e3o conseguiu conter-se; estava desesperado, qualquer m\u00ednima a\u00e7\u00e3o oferecida seria vista como um ato grandioso. Bosolaro nunca havia sido amado, e muito disto se devia a si mesmo. \u2014 Me d\u00ea um motivo, companheiro&#8230; s\u00f3 um&#8230; \u2014 pediu Molusco, sua voz de fumante tornou-se mais suave, apesar da m\u00e1goa que ainda persistia em envolver seu tom e palavras.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro sentiu a press\u00e3o das l\u00e1grimas atingir sua garganta e seus olhos. Sua vis\u00e3o voltou a ficar emba\u00e7ada enquanto tentava se for\u00e7ar a manter-se respirando de forma controlada, desesperado para ocultar os solu\u00e7os de seu cora\u00e7\u00e3o partido.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu estou gr\u00e1vido \u2014 Bosolaro confessou em um sussurro.<br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi gritante. Bosolaro sentiu um tremor envolver suas m\u00e3os, enquanto esperava por uma resposta de Molusco do outro lado da linha. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, ele havia acreditado que nenhuma viria. Que o sil\u00eancio do outro lado da linha era apenas a finaliza\u00e7\u00e3o daquela liga\u00e7\u00e3o, e seu cora\u00e7\u00e3o se contraiu em seu peito. Bosolaro fechou os olhos com for\u00e7a, sentindo o desespero come\u00e7ar a nublar seus pensamentos mais uma vez, repousando sua m\u00e3o sobre sua barriga torta de lombriga, acariciando-a enquanto um g\u00e1s lhe escapava, imaginando o que diabos seria dele agora, como um pai solteiro com uma pequena crian\u00e7a \u2014 era s\u00f3 intestino preso \u2014 para criar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 As nove da manh\u00e3. Amanh\u00e3. Esteja pronto, companheiro \u2014 \u00c9 tudo que Molusco disse do outro lado da linha antes de finalizar a liga\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro exalou, sentindo o al\u00edvio envolver seu corpo com um tremor intenso. Ele limpou seu rosto, ofegando um pouco enquanto apagava a liga\u00e7\u00e3o do hist\u00f3rico de seu celular. Seu cora\u00e7\u00e3o, ainda partido e quebrado se apertou com a ideia de abandonar Trampo, mas que escolha ele teria ali? As evid\u00eancias de sua trai\u00e7\u00e3o com Elo Mosque era mais do que evidentes, eram uma clara declara\u00e7\u00e3o de onde a lealdade de Trampo jazia. Aquele homem que lhe oferecia o mundo e o universo havia o enroscado em suas teias de mentiras e o prendido como um pequeno inocente cordeirinho, e agora, Bosolaro teria que abrir seus olhos para enfrentar a dura realidade.<br \/>\u2003\u2003Ele havia sido usado. Ele havia sido descartado. Como todos antes dele.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro, que t\u00e3o rapidamente havia acreditado que era diferente por uma inseguran\u00e7a pessoal consigo mesmo, agora percebia, duramente com a realidade, que ele nunca havia sido especial. Ele havia sido apenas <em>mais um<\/em> para Trampo. Como todos que viriam depois. E aquilo doeu. Doeu profundamente, ele pode sentir essa dor at\u00e9 mesmo na sua bolsa de colostomia \u2014 ele nunca soube muito bem definir o que era ele e o que n\u00e3o era.<br \/>\u2003\u2003E, no fundo de tudo aquilo, havia ainda assim uma parte de si mesmo que hesitava. Que se apegava a mem\u00f3ria do que havia tido com Trampo, com a felicidade que havia tido, e com a for\u00e7a do amor que havia sentido. Bosolaro sabia que sua vis\u00e3o de amor estaria sempre tingida pelos atos de Trampo. Que ele n\u00e3o seria mais o mesmo depois daquela descoberta dolorosa. Bosolaro sabia que n\u00e3o conseguiria mais se apaixonar livremente, e lutar com unhas e dentes por algu\u00e9m, simplesmente por n\u00e3o poder confiar nas palavras dessa pessoa. Mas ainda assim&#8230; ainda assim, seu cora\u00e7\u00e3o traidor n\u00e3o estava pronto para abandon\u00e1-lo. N\u00e3o estava pronto para deix\u00e1-lo.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro bloqueou o celular de Trampo novamente, voltando para sua cama compartilhada, onde o outro dormia de forma sonora, roncando suaves \u201cChina\u201d como sempre fazia depois de um dia duro de trabalho em seu gabinete. Bosolaro percebeu com um aperto no cora\u00e7\u00e3o de que sentiria falta de ouvir aqueles resmungos intelig\u00edveis e engasgados. Que sentiria falta de acordar todos os dias e se deparar com a pele de ab\u00f3bora de seu parceiro, ou sentir as rugas de bulldog que seu parceiro possu\u00eda. Sentiria falta daquela pele fl\u00e1cida e molenga que adornava seu corpo como uma capa gostosa de calor. Nada seria mais como era antes.<br \/>\u2003\u2003Bosolaro depositou o celular de Trampo de volta na mesa de cabeceira, antes de se deitar ao lado de seu parceiro novamente, suspirando suavemente enquanto ajeitava-se em seu travesseiro, fechando os olhos. Tudo havia acabado.<br \/>\u2003\u2003Mas pelo menos, pelo resto daquele dia, Bosolaro iria fingir que n\u00e3o. Que tudo estava bem entre eles, que Trampo o amava como sempre havia feito, e que nada daquilo era verdade. Que eles ainda eram felizes e que o futuro ainda era brilhante e animador.<br \/>\u2003\u2003Permitiria se enganar uma \u00faltima vez.<\/p>\r\n<center><strong>Fim<\/strong><\/center>\r\n<p>\u2003\u2003<b>NOTA DA AUTORA:<\/b> eu pe\u00e7o desculpas para a pessoa que enviou a m\u00fasica do Blackpink, para a beta, e para quem quer que leu esta merda, eu n\u00e3o sabia o que fazer, sobre o que escrever. Vamos fazer um acordo aqui, ok? Voc\u00ea finge que nunca leu isso aqui, e eu finjo que nunca escrevi.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003O texto a seguir \u00e9 meramente uma s\u00e1tira da realidade. Quaisquer semelhan\u00e7as com a realidade, nomes e eventos s\u00e3o meras coincid\u00eancias. Fim \u2003\u2003NOTA DA AUTORA: eu pe\u00e7o desculpas para a pessoa que enviou a m\u00fasica do Blackpink, para a beta, e para quem quer que leu esta merda, eu n\u00e3o sabia o que fazer, sobre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1910],"class_list":["post-5637","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-sour-love"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5637"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}