{"id":5476,"date":"2025-07-31T09:09:00","date_gmt":"2025-07-31T12:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-17T09:11:53","modified_gmt":"2025-10-17T12:11:53","slug":"capitulo-17","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-17\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 17"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Quando ela desligou o<\/span> alarme do carro, pronta para abrir o port\u00e3o autom\u00e1tico da mans\u00e3o, eu tomei coragem.<br>\u2003\u2003\u2014 Amor&#8230; \u2014 chamei, baixo. Ela me olhou de lado, ainda com os ombros tensos da conversa com a m\u00e3e. \u2014 Voc\u00ea pode me deixar em casa?<br>\u2003\u2003Ela franziu o cenho, surpresa.<br>\u2003\u2003\u2014 Em casa? Voc\u00ea n\u00e3o quer ir para cobertura? \u2014 Hesitei s\u00f3 um segundo, antes de inventar.<br>\u2003\u2003\u2014 Clara me mandou mensagem mais cedo. Parece que t\u00e1 meio na bad\u2026 s\u00f3 queria estar l\u00e1 hoje, fazer companhia, sei l\u00e1.<br>\u2003\u2003%Alice% continuou me encarando, como se procurasse rachaduras no que eu dizia. E talvez at\u00e9 tivesse, mas ela n\u00e3o contestou. Apenas assentiu com um movimento pequeno da cabe\u00e7a e ligou o carro de novo.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 bom. Eu te levo.<br>\u2003\u2003O caminho de volta foi silencioso. Mas n\u00e3o o tipo de sil\u00eancio confort\u00e1vel, que se acomoda entre duas pessoas como um cobertor macio. Foi o sil\u00eancio denso, inc\u00f4modo, do tipo que preenchia o carro com mais ru\u00eddo do que a m\u00fasica do r\u00e1dio conseguiria cobrir.<br>\u2003\u2003%Alice% dirigia com as m\u00e3os firmes no volante. De vez em quando ajeitava o cabelo ou tocava o pr\u00f3prio joelho, numa inquieta\u00e7\u00e3o contida. Os olhos fixos na estrada. Eu fingia olhar a paisagem pela janela, mas n\u00e3o via nada. S\u00f3 repetia a conversa. Palavra por palavra.<br>\u2003\u2003Quando ela estacionou na frente do pr\u00e9dio, ficou em sil\u00eancio. N\u00e3o desligou o motor, nem me apressou.<br>\u2003\u2003\u2014 Me avise quando chegar. \u2014 disse por fim, num tom mais baixo, mais contido do que o habitual.<br>\u2003\u2003\u2014 Aviso sim. \u2014 respondeu, puxando um sorriso curto, quase t\u00edmido.<br>\u2003\u2003Me inclinei e beijei sua boca devagar, com um cuidado que n\u00e3o pedia pressa. Meus l\u00e1bios repousaram nos dela por um segundo a mais do que o habitual \u2014 n\u00e3o pela intensidade, mas pelo significado. Foi um beijo calmo. Silencioso. Quase como se dissesse \u201cobrigado\u201d&#8230; e tamb\u00e9m \u201cme perdoa\u201d.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o sa\u00ed. Sem olhar pra tr\u00e1s. Porque, se olhasse&#8230; talvez n\u00e3o conseguisse ir embora.<br>\u2003\u2003Fechei a porta do apartamento. Clara ainda n\u00e3o tinha chegado. O sil\u00eancio me recebeu como um velho conhecido \u2014 n\u00e3o exatamente bem-vindo, mas familiar o bastante pra saber onde apertar.<br>\u2003\u2003Joguei a mochila no sof\u00e1 com desleixo e fui direto pro quarto. Tirei a camisa, depois a cal\u00e7a social, os sapatos \u2014 cada pe\u00e7a caindo no ch\u00e3o como se estivesse cheia de tudo o que eu n\u00e3o consegui dizer hoje.<br>\u2003\u2003Fiquei parado diante do espelho. O cabelo bagun\u00e7ado. As olheiras fundas, quase esculpidas. Os olhos vermelhos, mas n\u00e3o era cansa\u00e7o, era exaust\u00e3o de um outro tipo.<br>\u2003\u2003E doeu.<br>\u2003\u2003Doeu de um jeito silencioso, \u00edntimo, covarde. Doeu porque, pela primeira vez em muito tempo, eu me enxerguei como <em>eles<\/em> me enxergavam.<br>\u2003\u2003Um garoto comum. Pobre. Que cresceu ouvindo que teria que trabalhar o dobro pra ser metade. Que vivia de rabiscos e de sonhos que ningu\u00e9m levava a s\u00e9rio. Que ainda morava num apartamento apertado e com azulejo antigo. E que, mesmo agora, mesmo amando do jeito mais inteiro que sabia, ainda se perguntava se algum dia ia ser suficiente para algu\u00e9m como ela.<br>\u2003\u2003O barulho da campainha me arrancou desse torpor. N\u00e3o era entrega. N\u00e3o era Clara. J\u00e1 tinha escurecido. E, no fundo, antes mesmo de levantar\u2026 eu soube.<br>\u2003\u2003Vesti uma bermuda e levantei devagar, o corpo pesado como se cada passo fosse puxado por dentro. Atravessar aquele corredor foi como cruzar um campo minado de inseguran\u00e7as mal resolvidas.<br>\u2003\u2003Quando abri a porta, ela estava l\u00e1.<br>\u2003\u2003%Alice%.<br>\u2003\u2003Casaco escuro, olhos ainda carregados, como se o dia tivesse drenado tudo que havia de paci\u00eancia. Mas era ela. Sempre ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi. \u2014 disse, baixinho.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi. \u2014 repeti, engolindo seco. Dei espa\u00e7o e ela entrou.<br>\u2003\u2003Fomos direto pra sala, como se o resto do apartamento nem existisse. %Alice% deixou a bolsa no sof\u00e1 e virou de frente pra mim, os bra\u00e7os cruzados como escudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sumiu. \u2014 falou. \u2014 E n\u00e3o foi s\u00f3 no carro. T\u00e1 sumido aqui. Nos olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3&#8230; precisava de sil\u00eancio. \u2014 respondi, sentando. \u2014 Pra pensar.<br>\u2003\u2003\u2014 Pensar no qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Em tudo. \u2014 soltei o ar devagar. \u2014 Eu ouvi. A conversa entre voc\u00ea e sua m\u00e3e, quando fui ao banheiro. Eu estava voltando e&#8230; parei sem querer. E a\u00ed j\u00e1 era tarde demais&#8230;<br>\u2003\u2003Ela congelou, mas n\u00e3o desviou o olhar.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu ia te contar. \u2014 disse, sentando ao meu lado. \u2014 Ia te dizer o que houve, mas voc\u00ea ficou t\u00e3o quieto\u2026 eu achei que talvez quisesse espa\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu queria. Ainda quero. Mas tamb\u00e9m quero entender.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, o que eu disse pra ela&#8230; era verdade. Eu n\u00e3o tenho vergonha de voc\u00ea. Nem por um segundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas ela tem. E isso ficou bem claro.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela sempre teve vergonha de tudo que n\u00e3o consegue controlar. E voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 control\u00e1vel. Voc\u00ea \u00e9\u2026 voc\u00ea. E isso \u00e9 o que mais me atrai.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3\u2026 \u2014 passei as m\u00e3os no rosto. \u2014 Eu a ouvi dizendo que eu era limitado, que eu n\u00e3o era homem pra voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu disse que se fosse preciso, eu cortava ela da minha vida. Disse isso com todas as letras. Eu quis que ela soubesse, que entendesse que n\u00e3o se trata dela, nem do que ela quer. \u00c9 sobre o que eu quero. E o que eu quero \u00e9 voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Ela se virou de frente pra mim, e segurou minha m\u00e3o com for\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu amo voc\u00ea. E n\u00e3o t\u00f4 dizendo isso pra compensar. Eu t\u00f4 dizendo porque \u00e9 verdade. Porque amar voc\u00ea me fez melhor e eu n\u00e3o troco isso por heran\u00e7a nenhuma.<br>\u2003\u2003Demorei pra falar. Porque, pela primeira vez, eu sabia que ela falava s\u00e9rio. E isso do\u00eda e aquecia ao mesmo tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m te amo. \u2014 sussurrei. \u2014 Mas\u2026 \u00e0s vezes eu olho pra mim, pra voc\u00ea\u2026 e me pergunto quanto tempo vai levar at\u00e9 o mundo tentar engolir a gente.<br>\u2003\u2003Ela sorriu com a cabe\u00e7a baixa e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Enquanto voc\u00ea me amar\u2026 eu vou lutar com voc\u00ea. Um dia de cada vez.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o ela me beijou.<br>\u2003\u2003Devagar. Depois mais fundo. A m\u00e3o dela foi pro meu rosto, a minha pra cintura dela, puxando devagar, sem pressa. Nos deitamos ali mesmo no sof\u00e1, os corpos se encontrando em sil\u00eancio, a respira\u00e7\u00e3o come\u00e7ando a acelerar. As m\u00e3os deslizando sem urg\u00eancia, mas com necessidade.<br>\u2003\u2003\u2014 %Alice%\u2026 \u2014 murmurei entre beijos.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu t\u00f4 aqui. \u2014 ela sussurrou contra meu pesco\u00e7o.<br>\u2003\u2003O barulho da chave girando na porta foi como um balde de \u00e1gua fria. Nos afastamos num pulo.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%? \u2014 Clara entrou com uma sacola na m\u00e3o, e Marcos logo atr\u00e1s. \u2014 Ah. Voc\u00eas est\u00e3o aqui.<br>\u2003\u2003%Alice% ajeitou o cabelo, ofegante. Eu me sentei no sof\u00e1, tentando parecer casual.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente tava\u2026 conversando. \u2014 falei.<br>\u2003\u2003Clara arqueou a sobrancelha com um sorrisinho maroto.<br>\u2003\u2003\u2014 Uhum. Conversando, claro. E a\u00ed, %Alice%, vai dormir aqui hoje?<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda n\u00e3o sei. \u2014 ela respondeu, com um sorriso c\u00famplice. \u2014 Mas a conversa foi boa.<br>\u2003\u2003Clara piscou e foi direto pra cozinha. Eu olhei pra %Alice% e ela me olhou de volta. A conversa tinha sido boa mesmo, mas eu sabia que ainda tinha mais por vir.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003No dia seguinte, nem o caf\u00e9 forte, nem os projetos acumulados, nem os elogios da Marina conseguiram abafar a sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento que insistia em voltar. Era como estar presente com o corpo\u2026 mas com a cabe\u00e7a a dois quarteir\u00f5es de dist\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003O barulho do garfo batendo no prato do lado me tirou do modo autom\u00e1tico. Est\u00e1vamos em mais um daqueles almo\u00e7os no restaurante por quilo perto do est\u00fadio. O cheiro de comida, a conversa dos outros, os talheres \u2014 tudo girando num ritmo que eu n\u00e3o conseguia acompanhar direito hoje.<br>\u2003\u2003Sentei com o Hugo e a Ana mais por in\u00e9rcia do que vontade.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente se conheceu aqui, n\u00e9? \u2014 Hugo falou com aquele tom leve de sempre. \u2014 Primeiro job juntos, primeira briga por causa de refer\u00eancia visual, primeiro beijo na escada de inc\u00eandio\u2026 \u2014 Ana riu.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 p\u00e9ssimo em datas, mas \u00f3timo em transformar drama em romance.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi meio isso mesmo. \u2014 ele olhou pra mim. \u2014 E voc\u00ea, %Arthur%? Ainda n\u00e3o contou pra gente&#8230; t\u00e1 com algu\u00e9m?<br>\u2003\u2003Fingi que estava concentrado no feij\u00e3o. Olhei pro prato como se dependesse dele pra sobreviver.<br>\u2003\u2003\u2014 Deixa o %Arthur% quieto. \u2014 Ana disse, me dando uma cobertura sutil, mas o olhar dela tamb\u00e9m era curioso. \u2014 Apesar que&#8230; tem uma coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea? \u2014 perguntei, sem levantar a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 A mo\u00e7a do carr\u00e3o. \u2014 ela disse, como quem solta uma carta estrat\u00e9gica. \u2014 Aquela que \u00e0s vezes vem te buscar aqui na porta. J\u00e1 vimos mais de uma vez. Salto alto, blazer, aquele carro que parece cuspido de um comercial da BMW. Vai dizer que \u00e9 sua prima?<br>\u2003\u2003Suspirei. A boca querendo negar, mas o cora\u00e7\u00e3o&#8230; n\u00e3o deixava.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 murmurei. \u2014 \u00c9 minha namorada.<br>\u2003\u2003Hugo largou os talheres com um <em>clac<\/em> animado.<br>\u2003\u2003\u2014 A\u00ed sim! E voc\u00ea escondendo o ouro! \u2014 disse, rindo. \u2014 O menino \u00e9 discreto, mas t\u00e1 namorando uma rica\u00e7a, \u00e9 isso?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela n\u00e3o \u00e9 uma rica\u00e7a. \u2014 corrigi, mesmo sabendo que era. \u2014 Ela s\u00f3&#8230; trabalha com lideran\u00e7a.<br>\u2003\u2003Ana estreitou os olhos, claramente juntando as pe\u00e7as com mais rapidez do que eu gostaria.<br>\u2003\u2003\u2014 Ahn. T\u00e1 apaixonado, %Arthur%?<br>\u2003\u2003Sorri, pequeno.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, t\u00f4 tentando ser feliz, s\u00f3 isso.<br>\u2003\u2003Eles sorriram tamb\u00e9m. E voltaram a comer, mas a atmosfera ao redor parecia mais leve, como se agora soubessem de um segredo que nos deixavam c\u00famplices. Se eles soubessem de tudo&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Um dia a gente quer conhecer. \u2014 Hugo disse, por fim.<br>\u2003\u2003\u2014 Um dia. \u2014 respondi.<br>\u2003\u2003Mas antes disso, eu ainda precisava provar pra mim mesmo que merecia estar com ela.<br>\u2003\u2003O fim do expediente chegou como sempre: tarde demais e r\u00e1pido demais ao mesmo tempo. O c\u00e9u j\u00e1 come\u00e7ava a mudar de cor, estava cansado, a cabe\u00e7a cheia. O cora\u00e7\u00e3o&#8230; nem se fala.<br>\u2003\u2003Eu j\u00e1 estava descendo as escadas do est\u00fadio quando a vi. Encostada no carro, bra\u00e7os cruzados, blazer jogado nos ombros e um sorriso enviesado de quem sabia exatamente o impacto que causava. %Alice% ergueu a m\u00e3o num aceno breve, e o cora\u00e7\u00e3o bateu no mesmo ritmo de sempre \u2014 acelerado, meio sem aviso.<br>\u2003\u2003Quando me aproximei, ela destravou o carro com um clique e abriu a porta do motorista com eleg\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003\u2014 Entra. \u2014 disse, sem perder o sorriso.<br>\u2003\u2003Obedeci, meio hipnotizado, e me acomodei no banco do passageiro. Ela deu a volta com passos calmos e seguros, entrou ao meu lado e fechou a porta com um estalo firme.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi. \u2014 falei, virando um pouco o rosto na dire\u00e7\u00e3o dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi, voc\u00ea. \u2014 ela respondeu, se inclinando para me dar um selinho demorado, daqueles que aquecem o peito mais do que o ar-condicionado.<br>\u2003\u2003Logo depois, deu partida com a mesma tranquilidade de quem carrega um furac\u00e3o no porta-luvas.<br>\u2003\u2003Ficamos em sil\u00eancio por um minuto ou dois, s\u00f3 o barulho da cidade filtrando pela janela aberta. A respira\u00e7\u00e3o dela estava calma, mas o jeito como segurava o volante \u2014 firme demais \u2014 entregava que ainda havia coisas n\u00e3o ditas. At\u00e9 que ela quebrou o clima:<br>\u2003\u2003\u2014 Sobre o almo\u00e7o com a minha m\u00e3e\u2026 \u2014 come\u00e7ou, com a voz mais baixa do que o habitual.<br>\u2003\u2003Eu respirei fundo, como quem se prepara para uma colis\u00e3o inevit\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o foi exatamente&#8230; caloroso. \u2014 ela continuou, os olhos presos na rua \u00e0 frente. \u2014 Mas eu fui firme. Disse que n\u00e3o tinha espa\u00e7o pra ela interferir nas minhas escolhas. E que se ela quisesse continuar fazendo parte da minha vida, precisava aceitar voc\u00ea nela.<br>\u2003\u2003Virei um pouco o rosto, observando o perfil dela \u00e0 luz do fim de tarde. Havia algo no tom que era mais do que simples desabafo \u2014 era um limite tra\u00e7ado a ferro e fogo.<br>\u2003\u2003\u2014 E ela? \u2014 perguntei, com cautela.<br>\u2003\u2003%Alice% soltou uma risada breve, sem humor.<br>\u2003\u2003\u2014 Disse que n\u00e3o entende. \u2014 deu de ombros. \u2014 Que n\u00e3o aprova, mas respeita. Que esperava outra coisa pra mim\u2026 outro tipo de futuro. Mas percebeu que n\u00e3o vai conseguir me moldar do jeito que fazia antes. E que, mesmo com todas as ressalvas dela, viu que eu t\u00f4 feliz. E que voc\u00ea me faz bem.<br>\u2003\u2003Ela respirou fundo, como se cada palavra da m\u00e3e ainda estivesse ali, latejando por dentro.<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que&#8230; ela vai engolir a pr\u00f3pria expectativa. Vai fingir que n\u00e3o v\u00ea, que n\u00e3o escuta, que n\u00e3o concorda, mas vai estar presente. Aos poucos. Do jeito torto dela. \u00c9 o que temos. N\u00e3o \u00e9 uma aceita\u00e7\u00e3o calorosa, mas \u00e9 um come\u00e7o.<br>\u2003\u2003Eu fiquei em sil\u00eancio por alguns segundos, tentando digerir tudo. %Alice%, t\u00e3o acostumada a ser racional e impenetr\u00e1vel, tinha enfrentado o cora\u00e7\u00e3o de pedra da pr\u00f3pria m\u00e3e por mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9&#8230; muita coisa. \u2014 murmurei, mais tocado do que consegui demonstrar. \u2014 Obrigado por n\u00e3o desistir.<br>\u2003\u2003Ela soltou uma risada suave, dessa vez verdadeira, e apertou minha m\u00e3o que estava sobre o c\u00e2mbio.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu j\u00e1 desisti de muita coisa pra caber nos moldes da minha m\u00e3e, %Arthur%. Mas de voc\u00ea? Nem pensar.<br>\u2003\u2003Assenti, olhando pela janela. Deveria ser um al\u00edvio \u2014 e era, em partes. Mas o sil\u00eancio que veio depois trouxe junto aquele velho inc\u00f4modo. A diferen\u00e7a de mundos. De realidades.<br>\u2003\u2003\u2014 %Alice%&#8230; \u2014 comecei, devagar. \u2014 Voc\u00ea tem no\u00e7\u00e3o que s\u00f3 o valor do condom\u00ednio do seu apartamento \u00e9 maior do que meu sal\u00e1rio?<br>\u2003\u2003Ela olhou de relance, depois voltou os olhos pra estrada.<br>\u2003\u2003\u2014 E?<br>\u2003\u2003\u2014 E isso \u00e9 surreal. A gente vive universos diferentes.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%\u2026 \u2014 ela suspirou. \u2014 Voc\u00ea acha mesmo que eu t\u00f4 com voc\u00ea esperando equil\u00edbrio banc\u00e1rio? Eu n\u00e3o quero voc\u00ea se importando com essas coisas.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas e se isso virar um problema?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai. \u2014 disse, firme. \u2014 Namoros s\u00e9rios evoluem. E \u00e9 \u00f3bvio que, em algum momento, a gente vai falar sobre casamento, casa, rotina&#8230; Mas a minha conta banc\u00e1ria n\u00e3o pode ser o motivo da gente ter uma DR. Eu te amo. E isso \u00e9 o que importa.<br>\u2003\u2003Fiquei quieto. Tentando absorver o que, para ela, parecia t\u00e3o simples.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o me importo de pagar as coisas da casa. Se a gente morar junto, eu cuido disso. Eu cresci com tudo isso sendo natural.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu cresci sabendo que eu tinha que correr atr\u00e1s. \u2014 respondi. \u2014 Se a gente casar um dia, eu vou ajudar. Mesmo que seja com pouco e que voc\u00ea possa cobrir tudo.<br>\u2003\u2003Ela sorriu, sem desviar os olhos do tr\u00e2nsito.<br>\u2003\u2003\u2014 E \u00e9 por isso que eu te amo, %Arthur%. Porque voc\u00ea nunca foi pequeno. Nem quando o mundo tenta te fazer sentir assim.<br>\u2003\u2003Soltei o ar devagar. Olhei pra ela, com aquele amor que era meio susto, meio milagre.<br>\u2003\u2003\u2014 E \u00e9 por isso que eu t\u00f4 tentando ser suficiente pra voc\u00ea. Mesmo com o medo inteiro no bolso do casaco.<br>\u2003\u2003Ela soltou uma risada baixa, doce.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9.<br>\u2003\u2003E a m\u00e3o dela procurou a minha sobre o c\u00e2mbio. Quente, firme, decidida.<br>\u2003\u2003Naquele instante, a diferen\u00e7a entre os nossos mundos parecia menos importante. Porque o que a gente tava construindo ali, entre sorrisos, DRs e tr\u00e2nsito engarrafado&#8230; era um universo s\u00f3 nosso.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003Os dias passaram.<br>\u2003\u2003N\u00e3o com a leveza que eu gostaria, mas passaram. %Alice% e eu voltamos a nos ver com frequ\u00eancia \u2014 o caf\u00e9 da manh\u00e3 juntos, as noites no sof\u00e1, os domingos pregui\u00e7osos em que ela tentava fazer panquecas e eu fingia que dava certo. A vida seguiu. A gente seguiu.<br>\u2003\u2003E eu tentava. De verdade. Tentava me manter no presente, nos olhos dela, na risada dela, nos dedos entrela\u00e7ados nos meus durante um filme qualquer, mas vez ou outra, o fantasma daquela manh\u00e3 voltava.<br>\u2003\u2003O tom da m\u00e3e dela. A palavra &#8220;limitado&#8221;. A forma como me vi, mesmo depois de tudo, ainda duvidando se bastava.<br>\u2003\u2003No trabalho, eu me agarrava ao que me fazia bem. Aos rabiscos no sketchbook, \u00e0s reuni\u00f5es criativas, \u00e0s ideias que surgiam no meio de um caf\u00e9 derramado. Hugo sempre puxava conversa com aquele entusiasmo de quem parecia viver em ritmo de trilha sonora otimista. Ana me arrastava pros feedbacks coletivos com Marina, que continuava dizendo que meus tra\u00e7os tinham alma.<br>\u2003\u2003Era bom. Era leve. Era o que eu precisava. Mas mesmo assim\u2026 havia algo que n\u00e3o desgrudava. Talvez fosse s\u00f3 coisa da minha cabe\u00e7a, fosse o medo voltando em ondas pequenas, disfar\u00e7ado de paz.<br>\u2003\u2003Foi quando ouvi.<br>\u2003\u2003A conversa veio pelo corredor, num tom baixo demais pra ser oficial e alto demais pra n\u00e3o alcan\u00e7ar meus ouvidos.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>\u2026aquela recomenda\u00e7\u00e3o perfeita, vinda da %Dias%, CEO da Domus\u2026<\/em> \u2014 disse o senhor Navarro, com aquele jeito empolgado de quem valoriza bons contatos e sobrenomes importantes.<br>\u2003\u2003Parei. Congelado.<br>\u2003\u2003%Dias%. CEO da Domus.<br>\u2003\u2003%Alice%.<br>\u2003\u2003Me escondi atr\u00e1s do monitor como se aquele gesto pat\u00e9tico fosse capaz de amortecer o impacto do que eu tinha acabado de ouvir, mas era tarde. O nome dela martelava na minha cabe\u00e7a como se algu\u00e9m tivesse acabado de gritar.<br>\u2003\u2003A garganta secou. O cora\u00e7\u00e3o bateu como se tivesse trope\u00e7ado num degrau invis\u00edvel.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era coincid\u00eancia. N\u00e3o podia ser. Eu sabia como o Navarro falava quando estava impressionado. Eu conhecia aquele tom. Aquele entusiasmo.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o, tudo fez sentido. As portas abertas. O convite inesperado. O elogio s\u00fabito. A oportunidade que tinha surgido r\u00e1pido demais, sem que eu tivesse me movido.<br>\u2003\u2003Ela.<br>\u2003\u2003Foi ela.<br>\u2003\u2003E ela n\u00e3o me contou.<br>\u2003\u2003Por mais que eu soubesse que ela me admirava, que me amava \u2014 uma parte de mim se sentiu pequena e exposta. Como se, no fim, a m\u00e3e dela tivesse raz\u00e3o. Como se eu s\u00f3 estivesse ali porque algu\u00e9m com um sobrenome importante me colocou.<br>\u2003\u2003A volta pra casa foi um borr\u00e3o. O metr\u00f4, os degraus, o elevador que demorou mais do que devia. Quando abri a porta, ela tava ali: descal\u00e7a, um copo de vinho na m\u00e3o, cabelo preso no alto da cabe\u00e7a e uma playlist baixa preenchendo o ar.<br>\u2003\u2003\u2014 Amor\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou, mas parei no meio da sala, sem sentar, sem sorrir.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea falou com algu\u00e9m do Bravura antes de me chamarem pra entrevista?<br>\u2003\u2003Ela franziu o cenho, surpresa real, e pousou o copo na mesa com cuidado.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Fala a verdade, por favor. \u2014 %Alice% respirou fundo, sem fugir.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3 pedi que olhassem seu portf\u00f3lio. S\u00f3 isso. N\u00e3o fiz indica\u00e7\u00e3o formal, n\u00e3o promovi, n\u00e3o forcei. Eu pedi que analisassem com aten\u00e7\u00e3o, porque voc\u00ea \u00e9 bom. Porque voc\u00ea merece ser visto.<br>\u2003\u2003Eu fechei os olhos por um segundo. O cora\u00e7\u00e3o do\u00eda. O orgulho tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu queria ter conseguido sozinho.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea conseguiu! \u2014 ela se levantou, andando at\u00e9 mim. \u2014 Eu s\u00f3 empurrei a porta. Voc\u00ea que entrou. Eles viram seu trabalho, te entrevistaram, te testaram. Foi m\u00e9rito seu.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas se ningu\u00e9m tivesse falado nada, ser\u00e1 que eles teriam me notado?<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%&#8230; \u2014 a voz dela falhou. \u2014 Eu juro que se quiser, eu ligo pra eles agora. Navarro vai dizer. N\u00e3o teve recomenda\u00e7\u00e3o formal. S\u00f3 olharam seu Instagram por minha causa, mas o resto&#8230; o resto foi tudo voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 Mesmo assim&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai terminar comigo por isso? \u2014 ela perguntou, mais baixo. \u2014 Por eu ter acreditado em voc\u00ea antes mesmo de voc\u00ea acreditar em si?<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio. E ela continuou, agora com a voz mais tr\u00eamula:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tive medo. Medo de te perder por conta de algo que nem foi interfer\u00eancia de verdade. Eu nunca quis te diminuir. Pelo contr\u00e1rio. Eu s\u00f3 queria te dar uma chance de ser visto. E voc\u00ea foi. E eles te escolheram. Isso n\u00e3o te basta?<br>\u2003\u2003Respirei fundo. Do\u00eda. Porque era verdade.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9. Eu consegui. \u2014 murmurei.<br>\u2003\u2003%Alice% encostou a testa na minha, segurando meu rosto como se o mundo inteiro dependesse daquele toque.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vamos estragar isso, por favor.<br>\u2003\u2003Fechei os olhos, deixando meus bra\u00e7os a envolverem, e a abracei forte. O tipo de abra\u00e7o que pedia desculpas e tamb\u00e9m pedia pra ficar. Ela beijou minha testa, como se tentasse colar todas as partes inseguras que ainda existiam em mim. Como se dissesse sem palavras: <em>n\u00e3o vai embora por isso<\/em>.<br>\u2003\u2003Mas eu n\u00e3o consegui responder. Porque algo dentro de mim ainda latejava. Soltei o ar devagar, e os dedos que estavam nas costas dela hesitaram.<br>\u2003\u2003\u2014 %Alice%\u2026<br>\u2003\u2003Ela recuou s\u00f3 o suficiente pra me encarar, os olhos ainda marejados. N\u00e3o de medo de mim, mas da dist\u00e2ncia que j\u00e1 sentia vindo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu\u2026 \u2014 limpei a garganta, procurando alguma forma de n\u00e3o dizer do jeito errado. \u2014 Eu preciso de um tempo. Pra pensar. Para colocar as coisas no lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 Um tempo? \u2014 ela sussurrou, quase sem acreditar.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 porque eu quero ir embora. \u00c9 porque eu preciso entender o que isso mexeu aqui dentro. \u2014 levei a m\u00e3o ao peito. \u2014 Eu n\u00e3o quero brigar com voc\u00ea por orgulho, nem carregar esse peso pra frente como se nada tivesse acontecido.<br>\u2003\u2003Ela ficou quieta e, por um segundo, s\u00f3 ficou me olhando. Depois assentiu, devagar, como quem n\u00e3o concorda, mas respeita.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1. Se esse tempo for o que voc\u00ea precisa para voltar inteiro\u2026 ent\u00e3o vai. Mas volta.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te amo, %Alice%. \u2014 falei, com a voz firme, mesmo doendo.<br>\u2003\u2003Ela sorriu, mas foi um sorriso triste.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei. E eu tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Ela disse isso com os olhos nos meus. E por um segundo, por um instante quase covarde, eu quis fingir que aquilo bastava. Quis esquecer tudo e ficar, mas n\u00e3o seria justo comigo.<br>\u2003\u2003Soltei um suspiro longo, como quem desaprende a respirar por um momento, e a abracei mais uma vez. Apertado. Silencioso.<br>\u2003\u2003Depois me afastei devagar. Como quem desmontava um cen\u00e1rio. Peguei minhas coisas em sil\u00eancio. A chave, a carteira, o celular. O casaco jogado na poltrona.<br>\u2003\u2003%Alice% n\u00e3o tentou me parar. E eu soube, ali, que era porque ela me amava. Porque ela entendia, mesmo que doesse.<br>\u2003\u2003Abri a porta devagar, e antes de sair, olhei por cima do ombro.<br>\u2003\u2003Ela continuava no meio da sala, im\u00f3vel, com os olhos brilhando e os bra\u00e7os cruzados sobre o peito, como se quisesse se manter inteira. Eu quis dizer algo. Qualquer coisa, mas n\u00e3o disse.<br>\u2003\u2003Apenas assenti, uma vez, fechei a porta atr\u00e1s de mim.<br>\u2003\u2003O corredor parecia mais frio do que o normal. O elevador demorou pra chegar, como se o mundo estivesse me dando tempo pra mudar de ideia, mas eu n\u00e3o mudei.<br>\u2003\u2003Desci. Cruzei o sagu\u00e3o com o rosto quente e as m\u00e3os frias. L\u00e1 fora, a noite tinha ca\u00eddo de vez e a cidade parecia n\u00e3o se importar com o fato de que, naquele instante, eu estava indo embora do lugar onde mais queria ficar.<br>\u2003\u2003Mas precisava.<br>\u2003\u2003Chamei um carro.<br>\u2003\u2003Entrei e encostei a cabe\u00e7a na janela, tentando n\u00e3o pensar, mas pensando em tudo. E assim, pela primeira vez em muito tempo, voltei pra casa. Mas n\u00e3o levei paz comigo. Levei s\u00f3 o sil\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003Os dias que se seguiram pareceram longos demais para t\u00e3o poucas horas. Eu voltava pra casa todos os dias, mas o conceito de <em>casa<\/em> j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo. O sof\u00e1, o caf\u00e9 amargo, o sil\u00eancio das paredes\u2026 tudo tinha gosto de aus\u00eancia.<br>\u2003\u2003%Alice% n\u00e3o me mandou mensagem e eu tamb\u00e9m n\u00e3o mandei. Mas pensei nela em todos os intervalos. Na hora de escovar os dentes, na hora de dobrar a roupa, na hora de n\u00e3o saber onde guardar o que eu estava sentindo.<br>\u2003\u2003Eu tentava me convencer de que era o certo. Que eu precisava desse tempo pra respirar, mas uma d\u00favida ainda corro\u00eda devagar \u2014 como ferrugem, como formiga em fruta doce: <em>Ela realmente n\u00e3o tentou me ajudar mais do que disse?<\/em> <em>Ou estava apenas me poupando da verdade que do\u00eda mais?<\/em><br>\u2003\u2003Na manh\u00e3 de quarta-feira, tomei coragem. Vi Navarro no refeit\u00f3rio da empresa, com seu jornal dobrado e a caneca de caf\u00e9 fumegando como sempre. Ele estava s\u00f3, folheando lentamente as p\u00e1ginas de cultura como se o mundo pudesse esperar por ele terminar.<br>\u2003\u2003Respirei fundo e me aproximei.<br>\u2003\u2003\u2014 Navarro? \u2014 chamei, tentando manter o tom leve. Ele ergueu os olhos por cima dos \u00f3culos.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%. Senta a\u00ed, rapaz.<br>\u2003\u2003Obedeci. A cadeira de metal fez um rangido irritante. Me senti com doze anos, prestes a pedir desculpas por algo que nem tinha certeza se tinha feito.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu queria\u2026 tirar uma d\u00favida contigo, sobre minha entrada aqui. \u2014 Ele franziu o cenho, curioso.<br>\u2003\u2003\u2014 Algum problema?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o. Nada disso. \u00c9 s\u00f3 que\u2026 esses dias eu soube que meu nome chegou at\u00e9 voc\u00eas por causa de uma recomenda\u00e7\u00e3o da %Alice% %Dias%. \u2014 Navarro assentiu devagar, como quem volta no tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, foi isso mesmo. Ela me mandou seu perfil pelo Instagram. Disse que achava seu tra\u00e7o \u00fanico, que tinha frescor, sensibilidade. Que a Bravura podia se beneficiar com algu\u00e9m como voc\u00ea e eu confio no faro criativo da %Alice%. Sempre confiei.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela chegou a pedir alguma coisa? Algum tipo de\u2026 prefer\u00eancia?<br>\u2003\u2003Navarro me encarou por um segundo a mais. N\u00e3o com suspeita \u2014 mas com sinceridade.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, %Arthur%. Se tivesse feito isso, eu teria dito. Ela foi clara: \u201cOlha esse perfil com calma. S\u00f3 isso.\u201d E foi o que fiz. Pedi pra nossa equipe de RH entrar em contato. Fizemos entrevista, portf\u00f3lio. Voc\u00ea passou por tudo, como qualquer outro candidato.<br>\u2003\u2003Assenti devagar, sentindo o est\u00f4mago apertar.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; se ela n\u00e3o tivesse falado nada, voc\u00ea acha que meu trabalho teria chamado aten\u00e7\u00e3o?<br>\u2003\u2003Ele pensou, mas n\u00e3o demorou.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o gosto de trabalhar com \u201ce se\u201d. Mas seu portf\u00f3lio\u2026 era bom. Ela acendeu a luz, %Arthur%, mas quem entrou na sala foi voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio, digerindo as palavras. Parte de mim queria que ele tivesse dito o contr\u00e1rio. Parte de mim queria ter com o que brigar. Mas ele apenas confirmou o que eu j\u00e1 sabia, no fundo e talvez fosse por isso que do\u00eda.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigado por ser honesto. \u2014 murmurei, j\u00e1 me levantando.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%. \u2014 ele me chamou antes que eu sa\u00edsse. \u2014 Nem sempre o orgulho \u00e9 sin\u00f4nimo de for\u00e7a. \u00c0s vezes, reconhecer que algu\u00e9m te estendeu a m\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9.<br>\u2003\u2003Assenti. Com mais peso do que queria carregar naquele momento. Voltei pra mesa com um buraco no peito \u2014 e, ao mesmo tempo, um pouco mais de clareza.<br>\u2003\u2003Porque a verdade, dita com calma, tamb\u00e9m podia deixar cicatriz, mas pelo menos n\u00e3o deixava d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003A televis\u00e3o estava ligada, mas eu nem sabia o que passava. S\u00f3 fazia barulho de fundo enquanto eu rabiscava o canto de uma folha amassada e tentava fingir que n\u00e3o via o celular im\u00f3vel na mesa.<br>\u2003\u2003<em>Quatorze dias.<\/em><br>\u2003\u2003Sem mensagem, liga\u00e7\u00e3o e %Alice%. E, dessa vez, o sil\u00eancio era escolha minha. Mesmo depois da conversa com Navarro. Mesmo depois da confirma\u00e7\u00e3o que deveria ter encerrado tudo.<br>\u2003\u2003Mas saber disso n\u00e3o tornava mais f\u00e1cil encarar o que eu ainda sentia. O orgulho, a inseguran\u00e7a, o medo de parecer pequeno demais ao lado dela \u2014 tudo isso ainda morava aqui dentro.<br>\u2003\u2003Clara surgiu no corredor com um casaco jogado nos ombros e aquele olhar de quem n\u00e3o ia fingir que estava tudo bem.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, a gente vai pra casa dos nossos pais no fim de semana, lembra? J\u00e1 confirmei tudo com eles.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00eas v\u00e3o? \u2014 respondi sem pensar. Ela me encarou.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>N\u00f3s<\/em>, %Arthur%. A ideia sempre foi essa. Eu vou apresentar o Marcos pra nossa fam\u00edlia. E voc\u00ea devia fazer o mesmo com a %Alice%. \u2014 Suspirei, recostando no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2014 Clara&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, s\u00e9rio. \u2014 Ela sentou do meu lado, direta como sempre. \u2014 J\u00e1 deu esse \u201ctempo\u201d. Voc\u00ea ama aquela mulher. E ela ama voc\u00ea. Ficar se punindo por orgulho n\u00e3o vai mudar isso.<br>\u2003\u2003Soltei um riso seco, mais amargo do que deveria. Fechei o caderno com um estalo.<br>\u2003\u2003\u2014 Sei l\u00e1\u2026 T\u00f4 me sentindo uma droga. Parece que tudo o que conquistei foi porque ela\u2026 ajudou.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, pelo amor de Deus. Voc\u00ea j\u00e1 conversou com o Navarro. Ele te confirmou. Ela n\u00e3o te indicou. Ela s\u00f3 disse: \u201colhem com aten\u00e7\u00e3o.\u201d E ainda bem que disse. Porque eles viram o que eu, ela, e qualquer um com olhos funcionais j\u00e1 via: que voc\u00ea \u00e9 bom.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas e se ela n\u00e3o tivesse falado nada? Talvez eu nem tivesse sido chamado.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez tivesse demorado mais, mas teria acontecido. Porque voc\u00ea \u00e9 talentoso e comprometido. E sabe o que mais? Se voc\u00ea ama algu\u00e9m, \u00e9 natural querer que o mundo enxergue aquela pessoa com o mesmo brilho que voc\u00ea v\u00ea.<br>\u2003\u2003Fiquei quieto. Porque do\u00eda. Mas do\u00eda mais saber que ela estava certa.<br>\u2003\u2003Clara me analisou de lado, com aquele olhar que ela reservava pras broncas mais sinceras.<br>\u2003\u2003\u2014 Esse \u201ctempo\u201d que voc\u00ea inventou\u2026 j\u00e1 passou da validade. Agora t\u00e1 virando covardia, %Arthur%. \u2014 Ela pegou minha m\u00e3o com firmeza. \u2014 Me desculpa, mas se voc\u00ea n\u00e3o consegue olhar pra mulher que te ama e dizer \u201cobrigado por ter acreditado em mim quando eu mesmo n\u00e3o conseguia\u201d, ent\u00e3o talvez o problema n\u00e3o seja ela. Talvez seja o medo que voc\u00ea tem de admitir o quanto ama de verdade.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3\u2026 \u2014 respirei fundo. \u2014 Tenho orgulho. \u00c0s vezes ele fala mais alto do que eu gostaria.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea vai deixar o orgulho te impedir de apresentar a mulher da sua vida pra nossa fam\u00edlia? Vai deixar esse sil\u00eancio virar ponto final?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sei\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Pois eu sei. \u2014 Ela apertou meu bra\u00e7o com mais for\u00e7a. \u2014 Voc\u00ea vai viajar com a gente. Vai respirar outro ar. Vai lembrar quem voc\u00ea \u00e9, o que construiu, sem precisar se diminuir. E, se tiver um pingo de ju\u00edzo, vai chamar a %Alice% pra ir junto.<br>\u2003\u2003Fez uma pausa. E ent\u00e3o completou:<br>\u2003\u2003\u2014 Porque se o Marcos vai conhecer nossos pais, ela tamb\u00e9m merece. Ali\u00e1s\u2026 ela j\u00e1 devia ter conhecido.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso foi um ultimato? \u2014 perguntei, arqueando a sobrancelha.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso foi amor, %Arthur%. Eu s\u00f3 t\u00f4 dizendo o que voc\u00ea mesmo n\u00e3o t\u00e1 conseguindo enxergar.<br>\u2003\u2003Marcos apareceu na cozinha com uma lata de refrigerante na m\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai dar serm\u00e3o toda semana, amor?<br>\u2003\u2003\u2014 Enquanto esse bobo n\u00e3o tomar vergonha na cara, vou sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Justo.<br>\u2003\u2003Sorri. Pequeno, mas real. Talvez aquele fim de semana fosse mesmo o que eu precisava. Pra respirar. Pra voltar a mim. E, talvez&#8230; pra voltar pra ela.<br>\u2003\u2003Peguei o celular. Escrevi devagar, como se as palavras estivessem pesando mais do que deviam, mas enviei. Deixei a tela virada para baixo, como quem sabe que a resposta j\u00e1 existia antes mesmo de chegar.<br>\u2003\u2003N\u00e3o deu dois minutos. A resposta apareceu, curta e sem hesita\u00e7\u00e3o:<br>\u2003\u2003<strong>Amor:<\/strong> Podemos sim. Que vir na minha casa?<br>\u2003\u2003Respirei fundo. O peito j\u00e1 apertava fazia dias. Peguei a jaqueta. E fui.<br>\u2003\u2003Demorei alguns segundos parado diante da porta. N\u00e3o por hesita\u00e7\u00e3o, mas porque&#8230; respirar antes de cruzar aquela linha parecia necess\u00e1rio. Tinha passado dias imaginando como seria rev\u00ea-la. O som da voz. O primeiro olhar. O que eu diria. O que ela n\u00e3o diria.<br>\u2003\u2003Mas a verdade \u00e9 que, quando a gente ama algu\u00e9m, nenhum ensaio serve de muito. Levantei a m\u00e3o pra tocar a campainha, mas n\u00e3o foi preciso.<br>\u2003\u2003Ela abriu antes. %Alice% estava descal\u00e7a, com uma camiseta larga demais e o cabelo preso de qualquer jeito \u2014 e ainda assim, linda do jeito que sempre me desmontava.<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que n\u00e3o ia mais me procurar. \u2014 disse, num tom mais calmo do que eu merecia.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu achei que precisava de tempo pra organizar as coisas na minha cabe\u00e7a. \u2014 respondi, entrando devagar.<br>\u2003\u2003Ela fechou a porta, mas manteve os olhos em mim. O sil\u00eancio da sala era cheio. Mas n\u00e3o desconfort\u00e1vel. Era como se as palavras estivessem ali, pairando, esperando coragem pra nascer.<br>\u2003\u2003\u2014 E organizou? \u2014 ela perguntou, sentando no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2014 Na medida do poss\u00edvel. \u2014 me sentei ao lado, com os cotovelos apoiados nos joelhos. \u2014 Clara me deu um serm\u00e3o que voc\u00ea ia gostar de ouvir. Disse que eu estava deixando o orgulho falar mais alto que o amor. E&#8230; acho que ela tava certa.<br>\u2003\u2003%Alice% arqueou uma sobrancelha, o olhar ainda cauteloso, talvez esperando que eu recuasse, mas n\u00e3o dessa vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe que eu nunca quis te diminuir, n\u00e9? \u2014 ela perguntou, com a voz baixa.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei. \u2014 olhei pra ela. \u2014 Mas eu me senti pequeno. N\u00e3o por voc\u00ea\u2026 mas por mim mesmo. Por n\u00e3o saber lidar com o fato de algu\u00e9m como voc\u00ea me amar tanto.<br>\u2003\u2003Ela estendeu a m\u00e3o e entrela\u00e7ou os dedos nos meus. Os olhos calmos, mas intensos.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o importa o quanto voc\u00ea lute contra isso&#8230; \u00e9 real. E n\u00e3o tem nada a ver com dinheiro, nem com curr\u00edculo, nem com o carro que eu dirijo.<br>\u2003\u2003Aquela era a mesma mulher que me viu antes de eu mesmo me enxergar. A mesma que acreditou nos meus tra\u00e7os antes que eu me sentisse artista. Sorri. Pequeno, mas sincero.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu fui um idiota.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi. \u2014 ela respondeu sem cerim\u00f4nia, me puxando de leve com o canto da boca curvado. \u2014 Mas eu perdoo. Se prometer parar de fugir.<br>\u2003\u2003\u2014 Prometo. \u2014 me aproximei mais. Toquei o rosto dela com a ponta dos dedos, como se ainda precisasse confirmar que era real. \u2014 Ali\u00e1s\u2026 eu queria te pedir uma coisa.<br>\u2003\u2003%Alice% me olhou, curiosa, mas sem desviar.<br>\u2003\u2003\u2014 O que foi?<br>\u2003\u2003\u2014 Clara e o Marcos v\u00e3o visitar nossos pais esse fim de semana. \u2014 respirei fundo. \u2014 E eu queria que voc\u00ea fosse comigo. Que conhecesse minha fam\u00edlia. Que a gente\u2026 d\u00ea esse passo.<br>\u2003\u2003Os olhos dela brilharam por um segundo. O sorriso tentou conter-se, mas n\u00e3o conseguiu.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem certeza?<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho. E n\u00e3o \u00e9 por impulso. Nem por culpa. \u00c9 porque eu quero voc\u00ea em tudo. At\u00e9 na sala de estar da minha inf\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003%Alice% sorriu. Um daqueles sorrisos que derretiam qualquer resist\u00eancia. E eu soube. Estava de volta. Ao lugar certo.<br>\u2003\u2003Ela me puxou com delicadeza, como quem sabia exatamente onde me encontrar.<br>\u2003\u2003Nosso beijo veio devagar, sem pressa. Como se o tempo tivesse desacelerado s\u00f3 pra assistir. Tinha gosto de saudade. De perd\u00e3o. De recome\u00e7o.<br>\u2003\u2003As m\u00e3os dela se prenderam \u00e0 gola da minha camisa, como se n\u00e3o quisessem mais me soltar. E eu fui, inteiro. Porque era ela, sempre foi.<br>\u2003\u2003Quando nossos l\u00e1bios se separaram, o sil\u00eancio ficou entre n\u00f3s \u2014 mas, dessa vez, ele n\u00e3o do\u00eda. Ele s\u00f3\u2026 repousava. Como se, finalmente, a gente tivesse encontrado paz.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu topo. \u2014 ela disse, encostando a testa na minha. \u2014 Mas voc\u00ea vai me avisar se seus pais forem do tipo que serve f\u00edgado de entrada, n\u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Prometo. \u2014 ri, aliviado. \u2014 E, se servirem, eu como por voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, ent\u00e3o t\u00e1. J\u00e1 \u00e9 casamento.<br>\u2003\u2003\u2014 Cuidado com o que deseja, %Dias%.<br>\u2003\u2003Ela me beijou de novo. E, dessa vez, o mundo inteiro desapareceu.<\/p>\n<hr>\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da autora:<\/strong> Gente, chegamos no pen\u00faltimo cap\u00edtulo de <em>Segredo de Escrit\u00f3rio<\/em> e, olha, foi dif\u00edcil de escrever. Arthur e Alice est\u00e3o naquela fase de se entender, se desconstruir, e claro, se apaixonar. Neste cap\u00edtulo, a gente v\u00ea o peso do orgulho, da inseguran\u00e7a, e o tanto que os dois t\u00eam a aprender com os pr\u00f3prios sentimentos.<br>\u2003\u2003Eu amei como a Clara, com a sinceridade dela, deu aquele empurr\u00e3ozinho necess\u00e1rio no Arthur. Ele tava perdido nos pr\u00f3prios medos e ela, como sempre, veio e colocou ele no lugar. E, claro, a Alice n\u00e3o deixou de ser a mulher firme que a gente conhece, enfrentando tudo o que vem pela frente para ficar com o Arthur.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o estou pronta pra me despedir e voc\u00eas? Aaaaaaa, nos vemos no \u00faltimo! Beijos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\ud83d\udc60\ud83d\udcbb \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \u2003\u2003Nota da autora: Gente, chegamos no pen\u00faltimo cap\u00edtulo de Segredo de Escrit\u00f3rio e, olha, foi dif\u00edcil de escrever. 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