{"id":5475,"date":"2025-07-11T09:08:00","date_gmt":"2025-07-11T12:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-17T09:09:16","modified_gmt":"2025-10-17T12:09:16","slug":"capitulo-16","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-16\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 16"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Eu nem sabia exatamente<\/span> em que momento isso tinha acontecido. Sei apenas que, sem grandes discursos, sem promessas solenes, sem mudan\u00e7as bruscas, eu simplesmente&#8230; comecei a ficar mais na casa dela do que na minha.<br>\u2003\u2003Primeiro foi uma camisa esquecida no closet. Depois, um t\u00eanis largado ao p\u00e9 da cama. O rel\u00f3gio que eu sempre tirava antes de dormir, repousado na mesinha de cabeceira dela como se sempre tivesse pertencido ali. O meu perfume favorito, um frasco novo, discretamente surgindo ao lado dos dela, como se o universo estivesse, ele tamb\u00e9m, se acostumando \u00e0 ideia de n\u00f3s dois.<br>\u2003\u2003Era natural. Era inevit\u00e1vel. Era\u2026 certo.<br>\u2003\u2003A cobertura dela, moderna e impec\u00e1vel, agora carregava pequenas assinaturas minhas espalhadas pelos cantos. E %Alice%, mesmo com todo o seu perfeccionismo, nunca reclamou.<br>\u2003\u2003Pelo contr\u00e1rio: \u00e0s vezes, quando achava que eu n\u00e3o estava olhando, eu flagrava o olhar dela repousando nesses pequenos vest\u00edgios de mim. E ela sorria. De leve. Sutilmente. Mas sorria.<br>\u2003\u2003Minha rotina se moldou \u00e0 dela de um jeito curioso. Durante o dia, eu me perdia entre rabiscos, briefings e telas no est\u00fadio da Bravura. \u00c0 noite&#8230; era ela quem me buscava, pontual e majestosa, parando o carro de luxo em frente \u00e0 empresa como se fosse o gesto mais banal do mundo.<br>\u2003\u2003%Alice% descia do carro com sua eleg\u00e2ncia inata \u2014 o salto firme, o blazer alinhado, os cabelos sempre emoldurando o rosto como uma obra de arte viva. E, mesmo depois de tudo, mesmo depois de t\u00ea-la nua, crua, entregue nos meus bra\u00e7os, cada vez que a via assim \u2014 soberana \u2014 meu peito disparava como na primeira vez.<br>\u2003\u2003Ela nunca se importou com os olhares curiosos. Nunca hesitou. Apenas me esperava ali, do lado de fora, bra\u00e7os cruzados e um sorriso reservado, como se dissesse: <em>&#8220;O mundo pode olhar. Eu n\u00e3o me escondo mais.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003E eu\u2026 eu sa\u00eda pela porta da empresa todas as noites sabendo que estava indo para casa. N\u00e3o o lugar f\u00edsico, mas para ela. Minha casa era ela.<br>\u2003\u2003Naquela sexta-feira, por acaso, decidi passar em casa antes de encontrar a %Alice%. Precisava pegar uns documentos antigos, umas ilustra\u00e7\u00f5es que eu queria mostrar pra ela \u2014 e, bem, parte de mim sentia falta da minha zona de conforto bagun\u00e7ada.<br>\u2003\u2003Subi as escadas dois a dois, a mochila jogada de qualquer jeito no ombro, as chaves girando entre os dedos. Quando abri a porta do apartamento, fui recebido por uma cena que me fez congelar no batente.<br>\u2003\u2003Clara estava no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003Marcos tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Muito&#8230; pr\u00f3ximos.<br>\u2003\u2003Muito&#8230; envolvidos.<br>\u2003\u2003Beijos intensos, m\u00e3os ousadas, gemidinhos abafados \u2014 e uma falta generalizada de no\u00e7\u00e3o do ambiente.<br>\u2003\u2003\u2014 Pelo amor de Deus, crian\u00e7as! \u2014 exclamei, batendo a porta mais forte do que o necess\u00e1rio para anunciar minha presen\u00e7a.<br>\u2003\u2003Os dois se separaram como se tivessem levado choque. Clara ajeitou a blusa toda torta e Marcos, coitado, ficou t\u00e3o vermelho que parecia um tomate prestes a explodir.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea podia ter mandado mensagem, n\u00e9?! \u2014 Clara reclamou, tentando arrumar o cabelo desordenado com uma dignidade que j\u00e1 era imposs\u00edvel de recuperar.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, claro \u2014 revirei os olhos, jogando a mochila no ch\u00e3o \u2014 porque a casa \u00e9 de voc\u00eas agora?<br>\u2003\u2003\u2014 Olha quem fala! \u2014 Clara retrucou na hora, apontando pra mim como se fosse advogada de defesa. \u2014 Voc\u00ea mal pisa aqui, %Arthur%! Vive acampado na cobertura da Barbie executiva!<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9, velho&#8230; \u2014 Marcos murmurou, ainda tentando recompor a postura \u2014 S\u00f3 t\u00f4 aqui porque sua presen\u00e7a virou evento raro.<br>\u2003\u2003Eu cruzei os bra\u00e7os, encarando os dois com uma express\u00e3o semi carrancuda.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 falando como se fosse mentira \u2014 resmunguei, arrancando uma gargalhada alta da Clara.<br>\u2003\u2003Ela se levantou, ajeitando a barra da camiseta e vindo at\u00e9 mim com aquele sorrisinho malicioso que era a marca registrada dela.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente t\u00e1 zoando&#8230; \u2014 disse, cutucando minha barriga. \u2014 Mas s\u00e9rio, voc\u00ea t\u00e1 feliz, n\u00e9?<br>\u2003\u2003Suspirei, deixando o peso da verdade escapar num sorriso que n\u00e3o consegui \u2014 nem quis \u2014 esconder.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00f4. \u2014 admiti. \u2014 De um jeito que nem sabia que era poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003Clara sorriu largo, e eu vi um brilho orgulhoso nos olhos dela. Um daqueles momentos silenciosos que diziam mais do que qualquer zoeira.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; fica l\u00e1. \u2014 ela piscou. \u2014 Mas, se puder, avisa antes de vir.<br>\u2003\u2003\u2014 Principalmente se for de surpresa. \u2014 completou Marcos, rindo, puxando Clara de volta pro sof\u00e1, dessa vez de forma mais comportada.<br>\u2003\u2003Revirei os olhos mais uma vez, pegando o que eu precisava no arm\u00e1rio da sala.<br>\u2003\u2003\u2014 Dois adolescentes sem controle&#8230; \u00e9 isso que voc\u00eas s\u00e3o. \u2014 murmurei, saindo pela porta.<br>\u2003\u2003Clara ainda gritou atr\u00e1s de mim:<br>\u2003\u2003\u2014 A gente aprendeu com o melhor, %Arthur%! Voc\u00ea e a %Alice% s\u00e3o pura inspira\u00e7\u00e3o!<br>\u2003\u2003Eu s\u00f3 levantei a m\u00e3o em despedida, sem coragem de olhar pra tr\u00e1s. Porque, no fundo, ouvir isso\u2026 tamb\u00e9m me deixou feliz.<br>\u2003\u2003Ridiculamente feliz.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003A vida, pela primeira vez em muito tempo, tinha encontrado um ritmo que fazia sentido para mim. Meus dias na Bravura se tornaram uma sequ\u00eancia de pequenos momentos de felicidade que eu nunca tinha imaginado sentir no trabalho.<br>\u2003\u2003Logo cedo, eu chegava no est\u00fadio com meu sketchbook debaixo do bra\u00e7o, cumprimentava a equipe que, aos poucos, foi se tornando mais do que colegas \u2014 foram virando parte da minha hist\u00f3ria nova.<br>\u2003\u2003O espa\u00e7o era leve, cheio de mesas bagun\u00e7adas com canecas de caf\u00e9, computadores lotados de refer\u00eancias, pranchetas improvisadas nos cantos e p\u00f4steres de arte moderna pelas paredes.<br>\u2003\u2003Era&#8230; vivo.<br>\u2003\u2003Era criativo.<br>\u2003\u2003Era meu.<br>\u2003\u2003Trabalhava em campanhas publicit\u00e1rias para marcas grandes \u2014 ilustrando conceitos, criando personagens que transmitissem o esp\u00edrito de cada projeto.<br>\u2003\u2003Mas o que realmente me fazia sorrir era outro trabalho: pequenas s\u00e9ries de ilustra\u00e7\u00f5es para livros infantis.<br>\u2003\u2003Eu desenhava hist\u00f3rias sobre drag\u00f5es t\u00edmidos, meninas astronautas, florestas encantadas&#8230; E cada tra\u00e7o carregava algo que eu nem sabia que estava guardado em mim.<br>\u2003\u2003Sensibilidade.<br>\u2003\u2003Sonho.<br>\u2003\u2003Esperan\u00e7a.<br>\u2003\u2003Recebia feedback positivo dos colegas e dos meus chefes \u2014 gente como a Marina e o Sr. Navarro, que n\u00e3o economizavam elogios quando algo realmente os tocava.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem sensibilidade, %Arthur%. \u2014 ouvi uma vez da Marina, enquanto analis\u00e1vamos as p\u00e1ginas coloridas de um projeto novo. \u2014 N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 t\u00e9cnica. Voc\u00ea&#8230; sente o que desenha. E isso n\u00e3o se ensina.<br>\u2003\u2003Em outra manh\u00e3, durante uma reuni\u00e3o de revis\u00e3o, Navarro passou os olhos por uma s\u00e9rie de ilustra\u00e7\u00f5es que eu havia feito para um livro sobre amizade e disse, com aquele jeito s\u00f3brio e direto dele:<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea entende de alma humana, garoto. E isso vale mais que qualquer diploma.<br>\u2003\u2003Teve tamb\u00e9m a Laura, uma colega de equipe que, ao ver uma sequ\u00eancia de esbo\u00e7os para uma campanha de outono, largou o caf\u00e9 na mesa e soltou:<br>\u2003\u2003\u2014 Caramba, %Arthur%! Seus desenhos fazem a gente querer entrar dentro da cena. Tipo&#8230; morar nela.<br>\u2003\u2003Sa\u00ed desses momentos querendo guardar cada palavra num potinho. Porque, pela primeira vez, eu me sentia exatamente onde deveria estar.<br>\u2003\u2003Pertencendo.<br>\u2003\u2003Sendo visto.<br>\u2003\u2003Sendo valorizado n\u00e3o s\u00f3 pelo que eu fazia&#8230; mas pelo que eu era. E parte dessa confian\u00e7a, eu sabia, vinha do amor que, agora, tamb\u00e9m morava dentro de mim.<br>\u2003\u2003%Alice%.<br>\u2003\u2003Meu presente, meu futuro.<br>\u2003\u2003O que antes parecia imposs\u00edvel \u2014 ser feliz de verdade \u2014 agora era minha realidade de todo dia.<br>\u2003\u2003Feliz.<br>\u2003\u2003Realizado.<br>\u2003\u2003Inteiro.<br>\u2003\u2003Minha vida n\u00e3o era perfeita. Ainda havia dias dif\u00edceis, prazos apertados, noites sem inspira\u00e7\u00e3o. Mas agora, tinha um lugar para onde eu queria voltar. Tinha bra\u00e7os me esperando. Tinha um amor que, contra todas as probabilidades, tinha encontrado um jeito de existir.<br>\u2003\u2003Um jeito bonito. Simples. Real.<br>\u2003\u2003E isso mudava tudo.<br>\u2003\u2003Meu celular vibrou no bolso justo no meio dos meus devaneios.<br>\u2003\u2003<strong>Amor:<\/strong> &#8220;Vem pra c\u00e1 no seu hor\u00e1rio de almo\u00e7o. \u00c9 urgente.&#8221;<br>\u2003\u2003Pisquei, confuso.<br>\u2003\u2003Urgente? Com ela?<br>\u2003\u2003Respondi que iria e, sem nem terminar de almo\u00e7ar, corri.<br>\u2003\u2003O elevador parecia mais lento do que nunca. Minhas m\u00e3os suavam levemente enquanto atravessava o sagu\u00e3o da empresa dela. Era bizarro como, mesmo agora, a simples ideia de estar naquele territ\u00f3rio me deixava meio el\u00e9trico.<br>\u2003\u2003Mas&#8230; urgente? Entrei direto para o andar da diretoria \u2014 e ent\u00e3o vi.<br>\u2003\u2003%Alice% estava em p\u00e9, num pequeno c\u00edrculo de conversa com tr\u00eas chefes de \u00e1rea, todos rindo, pap\u00e9is em m\u00e3os, clima casual de uma reuni\u00e3o p\u00f3s-apresenta\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ela usava um conjunto azul-marinho que parecia desenhado no corpo, cabelo preso num coque despojado que deixava sua nuca \u00e0 mostra \u2014 e, como sempre, irradiava aquela mistura \u00fanica de eleg\u00e2ncia e poder.<br>\u2003\u2003Antes que eu pudesse sequer abrir a boca, ela me viu. E, sem hesitar, caminhou at\u00e9 mim, pegou a minha m\u00e3o com naturalidade \u2014 e, virando para os presentes, falou:<br>\u2003\u2003\u2014 Para quem ainda n\u00e3o conhece oficialmente: esse \u00e9 %Arthur%. Meu ex-secret\u00e1rio, e agora meu namorado.<br>\u2003\u2003O ch\u00e3o sumiu por um segundo.<br>\u2003\u2003Senti o rubor subindo pelo pesco\u00e7o, tomando o rosto inteiro. O zum-zum-zum foi imediato.<br>\u2003\u2003Olhares arregalados. Pessoas trocando mensagens discretamente. Sussurros atravessando a sala feito corrente el\u00e9trica.<br>\u2003\u2003Eu fiquei ali, sem saber se sorria, se falava algo, se cavava um buraco para me enfiar. Mas %Alice%&#8230; %Alice% n\u00e3o vacilou nem por um segundo. Ela manteve a postura reta, impec\u00e1vel, um leve sorriso no canto dos l\u00e1bios, mas era nos olhos \u2014 s\u00f3 nos olhos \u2014 que eu via.<br>\u2003\u2003Vi o que ela queria me dizer sem palavras:<br>\u2003\u2003<em>&#8220;Eu n\u00e3o vou te esconder.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003<em>&#8220;Eu escolho voc\u00ea.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Meus dedos apertaram de leve a m\u00e3o dela, sem pensar.<br>\u2003\u2003Era simples.<br>\u2003\u2003Era direto.<br>\u2003\u2003E, ainda assim, era o gesto mais grandioso que ela podia fazer.<br>\u2003\u2003\u2014 Muito prazer \u2014 murmurei, meio sem ar, cumprimentando os poucos que ainda tentavam disfar\u00e7ar o espanto.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele trabalha com ilustra\u00e7\u00f5es agora, na empresa Bravura que admiro muito \u2014 %Alice% continuou, natural como se estivesse apresentando o novo CFO da companhia. \u2014 E \u00e9&#8230; a melhor parte dos meus dias.<br>\u2003\u2003Senti meu cora\u00e7\u00e3o bater no ritmo errado.<br>\u2003\u2003<em>Porra, %Alice%.<\/em><br>\u2003\u2003Ela sorriu pra mim, breve, privada, daquele jeito que s\u00f3 eu conhecia. Que s\u00f3 existia para mim. E naquele instante, no meio de cochichos, olhares curiosos, e celulares vibrando com fofocas internas, eu soube:<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o estava apenas me apresentando.<br>\u2003\u2003Ela estava <em>me assumindo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Nos assumindo.<\/em><br>\u2003\u2003Sem medo. Sem reservas.<br>\u2003\u2003E a parte mais bonita? Ela n\u00e3o disse isso com promessas ou declara\u00e7\u00f5es melosas. Disse com um gesto. Com a coragem de ser vista ao meu lado.<br>\u2003\u2003Respirei fundo, com o peito t\u00e3o cheio que parecia que ia explodir.<br>\u2003\u2003E sorri.<br>\u2003\u2003Sorri como quem finalmente entende que, \u00e0s vezes, os reparos mais profundos v\u00eam em sil\u00eancio \u2014 mas deixam marcas eternas.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003O s\u00e1bado parecia normal.<br>\u2003\u2003Eu estava jogado no sof\u00e1 da cobertura da %Alice%, sketchbook no colo, rascunhando qualquer coisa sem muita pretens\u00e3o. O sol da tarde entrava pelas janelas enormes, banhando a sala num dourado pregui\u00e7oso. O cheiro de caf\u00e9 vinha da cozinha, e por um segundo, tudo parecia absurdamente em paz.<br>\u2003\u2003At\u00e9 ela aparecer.<br>\u2003\u2003%Alice% cruzou a sala com passos leves, os passos ecoando no piso de m\u00e1rmore, e parou na minha frente, cruzando os bra\u00e7os de um jeito que s\u00f3 ela conseguia fazer parecer natural e autorit\u00e1rio ao mesmo tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Troca essa roupa a\u00ed. \u2014 ordenou, com um sorriso pequeno e perigosamente ador\u00e1vel. \u2014 Vamos sair. Quero fazer uma coisa diferente.<br>\u2003\u2003Ergui uma sobrancelha, desconfiado, olhando para minha camiseta velha e o short de moletom.<br>\u2003\u2003\u2014 Diferente tipo&#8230; o qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Ela apenas piscou, divertida, e se jogou de lado no sof\u00e1, roubando espa\u00e7o e fingindo estudar meu desenho.<br>\u2003\u2003\u2014 Confia em mim, lindo.<br>\u2003\u2003Suspirei, j\u00e1 rindo. Era imposs\u00edvel dizer n\u00e3o para ela \u2014 principalmente quando usava aquele apelido de prop\u00f3sito, s\u00f3 pra me provocar.<br>\u2003\u2003Larguei o sketchbook na mesinha de centro e fui me trocar. Quando voltei, ela j\u00e1 batucava os dedos no bra\u00e7o do sof\u00e1 com uma impaci\u00eancia divertida.<br>\u2003\u2003A viagem foi tranquila. %Alice% dirigia com a mesma eleg\u00e2ncia que fazia tudo na vida \u2014 segura, decidida, impec\u00e1vel. Eu tentei arrancar alguma dica sobre o destino, mas ela apenas ria e desviava, jogando o cabelo para tr\u00e1s como quem escondia o segredo mais valioso do mundo.<br>\u2003\u2003Foi s\u00f3 quando viramos uma esquina que eu entendi.<br>\u2003\u2003\u2014 Parque Marisa? \u2014 perguntei, surpreso, olhando as luzes coloridas e meio gastas, a roda-gigante girando contra o c\u00e9u azul-acinzentado.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. \u2014 ela sorriu, desligando o motor do carro de luxo que destoava completamente dos outros no estacionamento de terra batida. \u2014 Achei que a gente merecia uma tarde sem regras. Sem cobran\u00e7as. S\u00f3&#8230; divers\u00e3o.<br>\u2003\u2003Meu peito apertou com uma ternura quase adolescente.<br>\u2003\u2003%Alice% %Dias%. No Parque Marisa.<br>\u2003\u2003Deixei que ela puxasse minha m\u00e3o e nos guiasse entre as barraquinhas de algod\u00e3o doce, crian\u00e7as correndo, cheiro de pipoca e carrossel tocando m\u00fasica velha.<br>\u2003\u2003E foi m\u00e1gico.<br>\u2003\u2003%Alice%, que normalmente era a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de autocontrole, soltou um grito agudo na primeira volta da roda-gigante, agarrando meu bra\u00e7o com tanta for\u00e7a que eu achei que ia perder a circula\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%! \u2014 ela exclamou, com os olhos arregalados, a m\u00e3o espalmada contra o meu peito. \u2014 Eu odeio altura, voc\u00ea n\u00e3o me avisou que balan\u00e7ava tanto!<br>\u2003\u2003Soltei uma risada baixa, puxando-a mais para perto.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea quem quis vir, amor. Agora aguenta. \u2014 provoquei, beijando de leve sua testa.<br>\u2003\u2003%Alice% bufou, mas se aninhou ainda mais contra mim, os dedos cravados no meu casaco. E, quando a roda-gigante come\u00e7ou a descer suavemente, ela soltou uma risada nervosa \u2014 daquelas que escapam sem querer, quebrando toda a pose.<br>\u2003\u2003Descemos, e ela, j\u00e1 mais corajosa, me puxou pelo bra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o aos carrinhos bate-bate, a express\u00e3o agora desafiadora.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos ver se voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o bom no volante quanto fala. \u2014 disse, arqueando uma sobrancelha.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 me desafiando, %Dias%? \u2014 perguntei, rindo.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00f4 te avisando. \u2014 ela retrucou, piscando.<br>\u2003\u2003Entramos em carrinhos separados e, no segundo que a buzina soou, ela veio na minha dire\u00e7\u00e3o como uma bala. O impacto nos fez ricochetear de um lado pro outro, %Alice% rindo alto, a risada dela mais livre e escandalosa do que eu jamais tinha visto.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 guerra! \u2014 gritei, fingindo indigna\u00e7\u00e3o enquanto tentava escapar dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Guerra \u00e9 o que voc\u00ea vai ter se continuar fugindo! \u2014 ela gritou de volta, a voz embargada de tanto rir.<br>\u2003\u2003Quando finalmente sa\u00edmos dos carrinhos de bate-bate, o cabelo dela estava todo bagun\u00e7ado, a jaqueta torta no ombro e os olhos brilhando de adrenalina. E, mesmo rindo, eu s\u00f3 conseguia pensar: estou ferrado.<br>\u2003\u2003\u2014 Viu s\u00f3? \u2014 disse, ajeitando o z\u00edper com um ar vitorioso. \u2014 Quem ri por \u00faltimo, ri melhor.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9, mas quem bate melhor&#8230; \u2014 sacudi a cabe\u00e7a, fingindo dor no ombro \u2014 sou eu.<br>\u2003\u2003Ela me mostrou a l\u00edngua, sem um pingo de vergonha, e me puxou pela m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo desafio: o jogo das argolas.<br>\u2003\u2003\u2014 Se eu ganhar, quero sorvete. E um pedido de desculpas p\u00fablico. \u2014 anunciou, pegando as argolas como se fosse uma atleta ol\u00edmpica.<br>\u2003\u2003\u2014 E se <em>eu<\/em> ganhar? \u2014 arqueei a sobrancelha, entrando no jogo.<br>\u2003\u2003\u2014 Hm&#8230; \u2014 %Alice% fingiu pensar, mordendo o l\u00e1bio de leve. \u2014 Eu admito que voc\u00ea \u00e9 bom em mais de uma coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 Excelente pr\u00eamio. \u2014 sorri, pegando minhas argolas.<br>\u2003\u2003Ela foi a primeira. Mirou com concentra\u00e7\u00e3o, ergueu a m\u00e3o\u2026 e errou feio. A primeira caiu longe. A segunda quicou fora do alvo. A terceira bateu no suporte e rolou.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 claramente sabotagem. \u2014 murmurou, olhando para as m\u00e3os como se elas tivessem a culpa.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro, amor. As argolas se rebelaram contra voc\u00ea. \u2014 provoquei, rindo tanto que precisei apoiar as m\u00e3os nos joelhos.<br>\u2003\u2003Quando chegou a minha vez, acertei logo de primeira. Depois outra. E mais uma.<br>\u2003\u2003%Alice% cruzou os bra\u00e7os, o nariz empinado, a express\u00e3o teatralmente ofendida.<br>\u2003\u2003\u2014 Injusto. Voc\u00ea deve ter treinado escondido.<br>\u2003\u2003\u2014 Ou talvez eu s\u00f3 seja&#8230; talentoso. \u2014 falei com falsa mod\u00e9stia, lan\u00e7ando a \u00faltima argola direto no alvo.<br>\u2003\u2003Ganhei um ursinho de pel\u00facia de olhos tortos e segurei como se fosse um trof\u00e9u. Fiz quest\u00e3o de estender pra ela com pompa.<br>\u2003\u2003\u2014 Agora, cad\u00ea meu pr\u00eamio?<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea\u00e9bomemaisdeumacoisa<\/em>. \u2014 ela murmurou num sussurro r\u00e1pido e indecifr\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 Hein? Repete, por favor. Volume e dic\u00e7\u00e3o, <em>docinho<\/em>. \u2014 Ela me fuzilou com os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 insuport\u00e1vel\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Mas irresist\u00edvel. Vai negar?<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 bom! \u2014 ela bufou. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 bom em mais de uma coisa. Satisfeito?<br>\u2003\u2003\u2014 Muito. \u2014 sorri, roubando um selinho r\u00e1pido antes que ela pudesse fugir. \u2014 E o pr\u00eamio vai para a dama que perdeu com muita classe.<br>\u2003\u2003Entreguei o ursinho com uma rever\u00eancia exagerada. Ela segurou o bicho com uma express\u00e3o de quem queria fingir desprezo\u2026 mas n\u00e3o conseguia esconder o sorriso.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu vou guardar. \u2014 disse, num tom t\u00e3o s\u00e9rio que meu peito apertou.<br>\u2003\u2003E eu sabia. Ela n\u00e3o falava s\u00f3 do ursinho. Falava daquele momento. Daquela lembran\u00e7a. Da gente. E eu&#8230; eu queria guardar ela. Aquele momento. Aquela %Alice% que ningu\u00e9m conhecia \u2014 mas que era s\u00f3 minha.<br>\u2003\u2003Depois da nossa pequena &#8220;competi\u00e7\u00e3o&#8221; nas barracas, com %Alice% ainda abra\u00e7ada ao ursinho de pel\u00facia como se ele fosse feito de ouro, fomos andando devagar pelo parque. O vento da noite j\u00e1 come\u00e7ava a ficar mais frio, trazendo o cheiro doce do algod\u00e3o doce misturado ao de pipoca estourada.<br>\u2003\u2003Ela ergueu o rosto devagar, os olhos nos meus. E ent\u00e3o me beijou.<br>\u2003\u2003Foi um beijo que veio com calma, mas que cresceu em intensidade a cada segundo. Os l\u00e1bios dela se moldavam aos meus com precis\u00e3o quase absurda \u2014 como se tivessem sido feitos pra isso. Era um beijo quente, profundo, que trazia saudade e promessa na mesma medida. A ponta dos dedos dela se enroscou na gola da minha jaqueta, enquanto minhas m\u00e3os seguravam sua cintura com delicadeza, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer o momento.<br>\u2003\u2003Tudo girava \u2014 a roda, o mundo, o meu peito \u2014 menos a gente.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o, no auge do sil\u00eancio, do encaixe, da certeza\u2026 o celular dela vibrou.<br>\u2003\u2003%Alice% afastou os l\u00e1bios com um suspiro frustrado, encostando a testa na minha. E s\u00f3 ent\u00e3o o encanto come\u00e7ou a se desfazer. Ela franziu a testa, relutante. Eu a vi hesitar antes de pegar o aparelho no bolso da jaqueta. Quando olhou a tela, o sorriso sumiu do rosto na mesma hora.<br>\u2003\u2003Ela olhou o visor do celular e, por um segundo, hesitou. Depois atendeu, j\u00e1 com a voz mais contida.<br>\u2003\u2003\u2014 M\u00e3e?<br>\u2003\u2003Permaneci em sil\u00eancio, apenas observando. Mas era imposs\u00edvel n\u00e3o notar como os ombros dela ficaram tensos quase que imediatamente. A forma como a m\u00e3o livre apertou o tecido da cal\u00e7a, como se precisasse de um ponto de apoio invis\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim\u2026 \u2014 ela disse, a voz firme no in\u00edcio. \u2014 Eu apresentei, sim. Na empresa.<br>\u2003\u2003Ela desviou o olhar pra janela da cabine, mas n\u00e3o parecia ver nada l\u00e1 fora.<br>\u2003\u2003\u2014 O nome dele \u00e9 %Arthur%.<br>\u2003\u2003Meu peito apertou com for\u00e7a. N\u00e3o pelo nome \u2014 mas pela maneira como ela o disse. Como quem tenta manter o controle enquanto o ch\u00e3o racha sob os p\u00e9s.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei o que estou fazendo. \u2014 continuou, mais baixo. \u2014 \u00c9 a minha vida. A minha decis\u00e3o.<br>\u2003\u2003As pausas come\u00e7aram a ficar mais longas. As palavras, mais escolhidas. A cada resposta que ela dava, algo nela parecia encolher. Como se estivesse recuando para dentro de si mesma.<br>\u2003\u2003\u2014 M\u00e3e\u2026 \u2014 sussurrou, quase sem som.<br>\u2003\u2003Aquilo doeu mais do que qualquer grito. Ela ficou em sil\u00eancio por uns segundos, ouvindo, e ent\u00e3o disse, com uma calma que me cortou:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te ligo depois.<br>\u2003\u2003Desligou.<br>\u2003\u2003Ficou olhando o aparelho na m\u00e3o, como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa. Depois guardou no bolso da jaqueta e soltou o ar devagar, como quem n\u00e3o sabia mais onde enfiar a dor.<br>\u2003\u2003\u2014 %Alice%\u2026 \u2014 chamei baixinho, colocando a m\u00e3o sobre a dela.<br>\u2003\u2003Ela piscou, como se estivesse voltando de algum lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 tudo bem \u2014 mentiu, com um sorriso pequeno, amargo. \u2014 S\u00f3 ganhei um novo t\u00edtulo, s\u00f3 isso.<br>\u2003\u2003\u2014 Que t\u00edtulo?<br>\u2003\u2003Ela me encarou, os olhos ainda carregados da conversa.<br>\u2003\u2003\u2014 &#8220;Erro estrat\u00e9gico&#8221;. &#8220;Erro estrat\u00e9gico&#8221;. \u2014 repetiu, quase rindo, mas o som saiu seco. Ir\u00f4nico. Como se tentasse achar gra\u00e7a s\u00f3 pra n\u00e3o chorar.<br>\u2003\u2003Fiquei quieto por alguns segundos. N\u00e3o sabia se puxava ela pra mais perto ou se dava espa\u00e7o. N\u00e3o sabia se falava alguma coisa ou se o sil\u00eancio era o que ela precisava, mas ela n\u00e3o me deixou escolher.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela sempre estraga tudo. \u2014 disse de repente, com os olhos fixos no vidro da cabine. A roda-gigante continuava girando devagar, como se zombasse da tens\u00e3o no ar. \u2014 Sempre.<br>\u2003\u2003\u2014 %Alice%&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o posso fazer nada espont\u00e2neo. Nada. \u2014 o tom dela era mais alto agora, mas n\u00e3o gritava. Era um tipo de raiva contida, sussurrada com os dentes cerrados. \u2014 Se eu tomo uma decis\u00e3o, tem que ter l\u00f3gica, estrat\u00e9gia, retorno. At\u00e9 pra amar algu\u00e9m, eu tenho que fazer planilha?<br>\u2003\u2003N\u00e3o soube o que responder. Porque, no fundo, eu sabia que essa cobran\u00e7a que ela carregava nas costas n\u00e3o tinha come\u00e7ado agora. E n\u00e3o era <em>s\u00f3 <\/em>sobre mim.<br>\u2003\u2003Ela passou a m\u00e3o no cabelo, puxando com for\u00e7a as pontas como se quisesse arrancar a frustra\u00e7\u00e3o pela raiz.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tava feliz. Um \u00fanico momento de paz, de leveza, e ela liga. Como se eu precisasse de autoriza\u00e7\u00e3o pra sentir. Como se tudo que eu fa\u00e7o ainda tivesse que passar pelo crivo dela.<br>\u2003\u2003\u2014 %Alice%, olha pra mim. \u2014 pedi, tocando seu queixo com delicadeza.<br>\u2003\u2003Ela relutou por um segundo, mas acabou virando o rosto, os olhos mais marejados do que ela permitiria que algu\u00e9m percebesse.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea quer conversar sobre isso?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 respondeu r\u00e1pido, mas sua voz falhou. \u2014 Eu s\u00f3 precisava de um dia sem isso. S\u00f3 um.<br>\u2003\u2003Puxei-a pra mais perto, mesmo que ela estivesse meio r\u00edgida no in\u00edcio. Aos poucos, seu corpo foi cedendo, e ela se aninhou no meu peito, como antes.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea. \u2014 murmurou, quase um pedido de desculpa. \u2014 \u00c9 ela. Sempre foi ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei.<br>\u2003\u2003Ficamos em sil\u00eancio por um momento. A roda-gigante girava, l\u00e1 embaixo a cidade seguia acesa, ignorando nossas dores pessoais. E ent\u00e3o, quase como quem se lembrou de mais um detalhe irritante no meio do caos, ela falou:<br>\u2003\u2003\u2014 Ah&#8230; \u2014 o tom agora era levemente sarc\u00e1stico, como se tentasse retomar o controle pelo humor \u00e1cido \u2014 Ela quer te conhecer.<br>\u2003\u2003Eu arregalei os olhos, surpreso.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 A rainha-m\u00e3e quer avaliar o plebeu. \u2014 disse, se afastando um pouco s\u00f3 pra me encarar. \u2014 Mas n\u00e3o se anima, t\u00e1? N\u00e3o \u00e9 porque ela se interessou por voc\u00ea. \u00c9 porque quer descobrir com qual das minhas decis\u00f5es voc\u00ea vai destruir o legado da fam\u00edlia primeiro.<br>\u2003\u2003N\u00e3o consegui evitar um riso nervoso.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1, agora eu t\u00f4 com medo real.<br>\u2003\u2003%Alice% sorriu de leve, um daqueles sorrisos curtos e cansados, que n\u00e3o disfar\u00e7avam a exaust\u00e3o emocional, mas tentavam.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem-vindo \u00e0 minha vida, %Arthur%. Quem namora comigo, namora com a sombra da minha m\u00e3e tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o deixa eu te dizer uma coisa. \u2014 segurei sua m\u00e3o. \u2014 Se for pra estar contigo, eu lido com qualquer sombra. At\u00e9 a dela.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu. Mas respirou fundo, encostando de novo no meu peito. E quando n\u00e3o disse nada, eu entendi: o sil\u00eancio dela tamb\u00e9m era uma resposta.<br>\u2003\u2003E, naquela noite, bastava.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\n<p>\u2003\u2003A manh\u00e3 seguinte chegou mais r\u00e1pido do que eu gostaria \u2014 como se a noite tivesse sido s\u00f3 uma v\u00edrgula entre dois par\u00e1grafos de ansiedade. Desde a liga\u00e7\u00e3o da m\u00e3e da %Alice%, que encerrou nosso passeio na roda-gigante, meu c\u00e9rebro parecia ter entrado em modo de emerg\u00eancia. Dormir? S\u00f3 se fosse com o pensamento desligado. E claramente n\u00e3o era o caso.<br>\u2003\u2003%Alice% estava visivelmente irritada \u2014 com a m\u00e3e, com a situa\u00e7\u00e3o, com o mundo. Disse que ela estragava tudo. E que agora queria que eu fosse tomar caf\u00e9 da manh\u00e3\u2026 com elas.<br>\u2003\u2003Sim. Caf\u00e9. Na casa dela.<br>\u2003\u2003Com direito a cara fechada, julgamento silencioso e a sensa\u00e7\u00e3o de que eu seria escaneado da cabe\u00e7a aos p\u00e9s por uma mulher que tratava o cora\u00e7\u00e3o da filha como um patrim\u00f4nio de alto valor estrat\u00e9gico.<br>\u2003\u2003Talvez por isso \u2014 ou talvez porque o clima entre a gente tenha ficado estranho depois da liga\u00e7\u00e3o \u2014 eu tenha decidido dormir em casa naquela noite. O que era raro, ultimamente. Mas naquela noite&#8230; eu precisava do meu quarto. Do sof\u00e1 da sala. Da torneira que pinga desde 2019. Do caf\u00e9 da Clara feito no fim do dia como se fosse um abra\u00e7o em forma l\u00edquida.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o l\u00e1 estava eu, na manh\u00e3 seguinte, no quarto da Clara, com uma camisa social passada, sapato lustrado e um p\u00e2nico crescente a cada vez que o espelho me devolvia o reflexo.<br>\u2003\u2003Eu juro que tentei manter a calma. Mas era como se o colarinho tivesse sido costurado com ansiedade pura.<br>\u2003\u2003\u2014 Tu vai tirar sangue dela ou s\u00f3 tomar um caf\u00e9, %Arthur%? \u2014 perguntou Clara, parada na porta com os bra\u00e7os cruzados e aquele sorriso debochado de quem se diverte com a trag\u00e9dia alheia.<br>\u2003\u2003\u2014 Clara, por favor. \u2014 murmurei, tentando ajeitar o cabelo que teimava em cair na testa. \u2014 Eu vou conhecer a m\u00e3e da %Alice%. A mulher me v\u00ea como se eu fosse\u2026 sei l\u00e1\u2026 uma planilha desatualizada no sistema dela.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea n\u00e3o \u00e9? \u2014 Virei, indignado.<br>\u2003\u2003\u2014 Muito engra\u00e7ado. Vai abrir um stand-up? \u2014 Ela jogou uma almofada em mim, rindo.<br>\u2003\u2003\u2014 Relaxa. A %Alice% te ama. Ela te apresentou pra empresa inteira, lembra? Depois daquilo, \u00e9 meio tarde pra fingir que voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 o secret\u00e1rio bonitinho.<br>\u2003\u2003Suspirei e voltei a encarar o espelho. No fundo, eu sabia que n\u00e3o era s\u00f3 sobre o caf\u00e9. Era sobre o que aquela mulher representava: frieza, l\u00f3gica, poder. O sobrenome dela abria portas antes mesmo dela bater. E eu? Eu era um ex-secret\u00e1rio, agora ilustrador de um est\u00fadio pequeno, morando num apartamento alugado com a Clara e uma selva de samambaias.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3\u2026 \u2014 respirei fundo. \u2014 N\u00e3o queria que ela achasse que eu t\u00f4 com a filha dela por interesse.<br>\u2003\u2003Clara, que ainda ria, parou na hora.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, voc\u00ea foi o \u00fanico cara que a %Alice% apresentou pra algu\u00e9m em anos. Se essa mulher tiver um pingo de bom senso, vai perceber que voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 ali por status. E se n\u00e3o perceber&#8230; \u2014 ela deu de ombros. \u2014 A %Alice% que lute.<br>\u2003\u2003N\u00e3o contive o riso, mesmo com o est\u00f4mago embrulhado.<br>\u2003\u2003\u2014 E se ela me olhar com aquela cara de CEO do mal?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 sobreviveu a uma CEO do mal. Inclusive, t\u00e1 dormindo com ela agora.<br>\u2003\u2003\u2014 Touch\u00e9.<br>\u2003\u2003Clara se aproximou, ajeitou meu colarinho com aquele carinho silencioso que s\u00f3 irm\u00e3o tem e disse, mais suave:<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o precisa ser rico. Nem CEO. Nem ter sobrenome de peso. S\u00f3 precisa ser o %Arthur% que ama a %Alice% como ela merece. O cara que n\u00e3o joga charme, mas tem um cora\u00e7\u00e3o do tamanho do mundo. Isso basta.<br>\u2003\u2003\u2014 E se ela perguntar onde eu me vejo em cinco anos?<br>\u2003\u2003\u2014 A\u00ed voc\u00ea mente. Com classe. E depois volta chorando que eu fa\u00e7o chocolate quente.<br>\u2003\u2003Suspirei, rindo nervoso.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sei se t\u00f4 mais pronto\u2026 ou mais ferrado.<br>\u2003\u2003\u2014 Os dois. \u2014 ela piscou. \u2014 Agora vai. Impressiona a sogra.<br>\u2003\u2003&nbsp;<br>\u2003\u2003A mans\u00e3o de Regina %Dias% era exatamente como eu me lembrava da primeira vez que estive ali com a %Alice%: elegante demais, silenciosa demais, grande demais. Uma daquelas casas em que at\u00e9 o ar parecia pedir permiss\u00e3o para circular. Tudo era imaculado, sim\u00e9trico, com m\u00f3veis que pareciam ter sa\u00eddo direto de um cat\u00e1logo de luxo e uma escadaria digna de final de novela. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhum aroma que indicasse que ali vivia, de fato, uma fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003Ela surgiu na sala de jantar como quem presidia uma reuni\u00e3o do conselho \u2014 passos firmes, express\u00e3o calculada, cabelo impecavelmente preso num coque alto e um conjunto bege t\u00e3o alinhado quanto os talheres dispostos \u00e0 mesa.<br>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%. \u2014 disse, com um leve aceno de cabe\u00e7a. As sobrancelhas erguidas, os olhos avaliando como se eu fosse um relat\u00f3rio trimestral.<br>\u2003\u2003\u2014 Dona Regina. Bom dia. \u2014 respondi com um sorriso educado, ainda que tenso. Senti o peso de cada letra do meu cumprimento.<br>\u2003\u2003Ao meu lado, %Alice% estava com o maxilar travado. Ombros erguidos. Ela j\u00e1 esperava o embate \u2014 s\u00f3 n\u00e3o contava que fosse antes mesmo do caf\u00e9 esfriar.<br>\u2003\u2003Regina caminhou at\u00e9 a cabeceira da mesa com a mesma precis\u00e3o meticulosa de antes. Sentou-se com eleg\u00e2ncia quase ensaiada, cruzou as pernas com delicadeza e, ent\u00e3o, ajeitou o guardanapo no colo com a precis\u00e3o de um bisturi.<br>\u2003\u2003N\u00f3s a acompanhamos, tomando nossos lugares \u00e0 mesa logo em seguida. As cadeiras estofadas eram r\u00edgidas como o ambiente, e por um momento me perguntei se algu\u00e9m ali realmente j\u00e1 havia relaxado de verdade naquela casa.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00f3s j\u00e1 nos vimos antes, n\u00e3o foi? \u2014 comentou, como se retomasse uma reuni\u00e3o pendente. \u2014 Voc\u00ea esteve aqui com a %Alice% h\u00e1 um tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, senhora. Foi uma visita breve.<br>\u2003\u2003\u2014 Hm. Parecia&#8230; deslocado.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez porque eu estivesse. \u2014 tentei aliviar com um sorriso, mas ela nem piscou.<br>\u2003\u2003\u2014 Espero que agora se sinta mais \u00e0 vontade. \u2014 disse, embora seu tom deixasse claro que \u201c\u00e0 vontade\u201d n\u00e3o era exatamente o que ela esperava de mim.<br>\u2003\u2003%Alice% pigarreou. Quase um aviso.<br>\u2003\u2003\u2014 M\u00e3e, viemos apenas tomar caf\u00e9. Vamos manter isso simples, por favor?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu prefiro refei\u00e7\u00f5es a reuni\u00f5es. As pessoas se revelam muito mais entre goles e garfadas do que em qualquer sala com ar-condicionado. \u2014 comentou, enquanto se servia de frutas com gestos medidos.<br>\u2003\u2003Recebi um caf\u00e9 das m\u00e3os de um dos empregados. O cheiro era forte. Amargo. Tudo a ver com o ambiente.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; \u2014 Regina retomou. \u2014 Voc\u00ea trabalha como ilustrador?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. Estou no est\u00fadio Bravura. Trabalho com dire\u00e7\u00e3o de arte editorial, narrativa visual e projetos gr\u00e1ficos autorais.<br>\u2003\u2003\u2014 Hm. Imagino que n\u00e3o seja um setor muito\u2026 lucrativo.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o perguntou. Afirmou. Engoli em seco e mantive a compostura.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 uma profiss\u00e3o que exige bastante dedica\u00e7\u00e3o. Mas paga as contas, sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Algumas, talvez. \u2014 murmurou, mexendo o ch\u00e1 com a colher prateada. \u2014 E quanto voc\u00ea ganha, exatamente?<br>\u2003\u2003%Alice% largou o garfo. N\u00e3o foi sem querer.<br>\u2003\u2003\u2014 M\u00e3e!<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 uma pergunta simples, %Alice%. Transpar\u00eancia \u00e9 essencial em qualquer relacionamento.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso aqui n\u00e3o \u00e9 uma entrevista de emprego. \u2014 rebateu, fria. \u2014 E, sinceramente? O valor que ele ganha \u00e9 mais digno do que muito executivo com sobrenome e cargo herdado.<br>\u2003\u2003Regina recostou-se, o sorriso congelado nos l\u00e1bios.<br>\u2003\u2003\u2014 Que rea\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria.<br>\u2003\u2003\u2014 Que pergunta desnecess\u00e1ria. \u2014 %Alice% respondeu no mesmo tom.<br>\u2003\u2003Tentei amenizar o clima:<br>\u2003\u2003\u2014 Se n\u00e3o se importa, dona Regina\u2026 onde fica o banheiro?<br>\u2003\u2003\u2014 Segunda porta \u00e0 esquerda no corredor. \u2014 respondeu %Alice%, com um sorrisinho tenso e olhos que pediam desculpa sem dizer.<br>\u2003\u2003Sa\u00ed sentindo o colarinho apertar. Lavei o rosto, respirei fundo, deixei a \u00e1gua correr pelas m\u00e3os como se pudesse dissolver o desconforto.<br>\u2003\u2003Na volta, parei no p\u00e9 da escada. Sem querer. Juro. Mas quando ouvi meu nome no meio da frase, meus p\u00e9s congelaram.<br>\u2003\u2003\u2014 \u2026\u00e9 s\u00f3 isso que estou dizendo. Ele \u00e9 limitado, %Alice%. Um rapaz simp\u00e1tico, claro. Mas n\u00e3o \u00e9 um homem pra voc\u00ea. Voc\u00ea sabe disso.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o o conhece, m\u00e3e. E n\u00e3o tem o direito de diminuir algu\u00e9m que construiu tudo com o pr\u00f3prio esfor\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Esfor\u00e7o n\u00e3o paga viagens para Genebra. Esfor\u00e7o n\u00e3o garante filhos em boas escolas. N\u00e3o sustenta estabilidade. Eu te criei para escolher com estrat\u00e9gia, n\u00e3o com car\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o fala comigo como se eu fosse um investimento, Regina. Porque, se for, prefiro cortar o contato de vez.<br>\u2003\u2003Sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu amo o %Arthur%. E se voc\u00ea n\u00e3o consegue aceitar isso, talvez precise se perguntar se ainda faz parte da minha vida. Porque eu n\u00e3o vou deixar voc\u00ea acabar com o que a gente tem.<br>\u2003\u2003O vazio que se instalou depois disso parecia denso. Como se ali, entre aquelas palavras, estivessem anos de frustra\u00e7\u00e3o engolidos.<br>\u2003\u2003Afastei-me devagar e voltei a andar com firmeza, os sapatos fazendo barulho de prop\u00f3sito no ch\u00e3o de m\u00e1rmore. As duas se viraram. Regina recomp\u00f4s o rosto num segundo. %Alice% nem tentou.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo certo, %Arthur%? \u2014 ela perguntou, a voz baixa e tr\u00eamula.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo sim. \u2014 respondi, encarando-a por um instante. S\u00f3 pra que ela soubesse: eu tinha ouvido. E estava ali.<br>\u2003\u2003Regina ajeitou a x\u00edcara com um tilintar suave.<br>\u2003\u2003\u2014 Como eu dizia\u2026 amanh\u00e3 voc\u00ea almo\u00e7a aqui, %Alice%. S\u00f3 n\u00f3s duas.<br>\u2003\u2003%Alice% demorou a responder. Quando falou, foi com um olhar afiado:<br>\u2003\u2003\u2014 A gente conversa depois. Agora\u2026 eu quero ir embora.<br>\u2003\u2003E eu fui com ela. Porque, mesmo sem dizer nada, ela segurou minha m\u00e3o com for\u00e7a. Daquele jeito que dizia tudo.<\/p>\n<hr>\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora: <\/strong>Esse cap\u00edtulo foi uma mistura de calmaria e terremoto. De um lado, temos o Arthur ocupando, de vez, os espa\u00e7os da vida da Alice, da rotina ao cora\u00e7\u00e3o. Do outro, temos a m\u00e3e dela, jogando aquele balde de \u00e1gua gelada que, no fundo, a gente j\u00e1 esperava. Porque amar \u00e9 f\u00e1cil\u2026 assumir esse amor diante do mundo (e da fam\u00edlia) \u00e9 que exige coragem.<br>\u2003\u2003Escrever essa fase foi como andar na roda-gigante com eles: subidas doces, descidas bruscas, e aquele frio na barriga que n\u00e3o passa. O passeio no parque, o beijo roubado, os sorrisos sinceros\u2026 tudo isso existe no mesmo universo onde a palavra &#8220;erro estrat\u00e9gico&#8221; ainda machuca. E \u00e9 a\u00ed que a hist\u00f3ria mostra suas camadas.<br>\u2003\u2003E, sim, a gente t\u00e1 mesmo na reta final. Agora n\u00e3o tem mais volta. As pe\u00e7as est\u00e3o todas no tabuleiro, e o fim se aproxima \u2014 com promessas, medos e decis\u00f5es que n\u00e3o d\u00e1 mais pra adiar.<br>\u2003\u2003Obrigada por estarem aqui.<br>\u2003\u2003Beijos &lt;3<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\ud83d\udc60\ud83d\udcbb \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \u2003\u2003&nbsp; \u2003\u2003Nota da Autora: Esse cap\u00edtulo foi uma mistura de calmaria e terremoto. De um lado, temos o Arthur ocupando, de vez, os espa\u00e7os da vida da Alice, da rotina ao cora\u00e7\u00e3o. Do outro, temos a m\u00e3e dela, jogando aquele balde de \u00e1gua gelada que, no fundo, a gente j\u00e1 esperava. 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