{"id":5473,"date":"2025-06-11T09:04:00","date_gmt":"2025-06-11T12:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-17T09:06:25","modified_gmt":"2025-10-17T12:06:25","slug":"capitulo-14","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-14\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 14"},"content":{"rendered":"\r\n<p><em>Por %Alice% %Dias%<\/em><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003O som dos meus<\/span> saltos ecoava como sempre no corredor. Preciso. R\u00edtmico. Inquebrant\u00e1vel. Era assim que deveria ser. Era assim que eu <em>precisava<\/em> ser. <br \/>\u2003\u2003Atravessei o setor de diretoria sem diminuir o passo, sem olhar para os lados, sem deixar que nada quebrasse a imagem que passei anos aperfei\u00e7oando. A imagem da mulher que nunca perdia o compasso. <br \/>\u2003\u2003<em>Mas, por dentro, cada batida dos saltos soava como um vazio.<\/em> <br \/>\u2003\u2003Hoje era o primeiro dia sem ele. <br \/>\u2003\u2003Me sentei \u00e0 minha mesa, abri o notebook e tentei focar nos relat\u00f3rios que Mariana havia separado logo cedo. Ela era organizada, aplicada e atenta. Estava fazendo tudo o que precisava ser feito, mas, ainda assim, o peso da aus\u00eancia <em>dele <\/em>preenchia cada espa\u00e7o. <br \/>\u2003\u2003Mariana trouxe um caf\u00e9. Eu agradeci com um aceno discreto. Ela voltou para a pr\u00f3pria mesa, digitando sem parar. O caf\u00e9 estava\u2026 ok. Sem a\u00e7\u00facar, como sempre. Mas sem alma tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003J\u00e1 havia desistido de pedir os croissants. Nunca vinham quentes o suficiente. %Arthur% sabia disso. Sabia que eu gostava deles levemente tostados, com as pontas crocantes e o centro macio. Sabia que eu tomava o caf\u00e9 em goles curtos, entre uma reuni\u00e3o e outra, e que deixava sempre um \u00faltimo gole intacto, por puro h\u00e1bito. Ele sabia. <br \/>\u2003\u2003E era isso que do\u00eda: ele sabia at\u00e9 as pequenas coisas que eu nunca precisei dizer&#8230; <br \/>\u2003\u2003Tentei trabalhar. <br \/>\u2003\u2003Ou pelo menos, fingir. <br \/>\u2003\u2003Mas era como tentar costurar um tecido que j\u00e1 vinha rasgado. Os pensamentos n\u00e3o paravam. As lembran\u00e7as vinham em ondas \u2014 suaves no come\u00e7o, depois devastadoras. <br \/>\u2003\u2003Eu sempre dava um jeito de v\u00ea-lo. Antes, era f\u00e1cil \u2014 bastava um chamado, um e-mail, um relat\u00f3rio qualquer, e l\u00e1 estava ele: entrando pela porta da minha sala, com aquela postura sempre respeitosa, mas os olhos\u2026 os olhos diziam muito mais do que qualquer protocolo. <br \/>\u2003\u2003Chamava para reuni\u00f5es desnecess\u00e1rias. Pedia atualiza\u00e7\u00f5es que eu nem precisava. Inventava pretextos s\u00f3 para v\u00ea-lo ali, s\u00f3 para ter a presen\u00e7a dele me preenchendo os sil\u00eancios. <br \/>\u2003\u2003Depois que voltou para o setor de Planejamento, tudo mudou. Eu n\u00e3o podia cham\u00e1-lo sem motivo. N\u00e3o podia mais t\u00ea-lo orbitando ao meu redor com a mesma const\u00e2ncia silenciosa. Mas&#8230; me adaptei. <br \/>\u2003\u2003Descia para a copa em hor\u00e1rios espec\u00edficos, apenas para esbarrar com ele no corredor. Esticava as pernas no sagu\u00e3o com a desculpa de encontrar algum gerente \u2014 quando, na verdade, s\u00f3 queria v\u00ea-lo de longe. Pegava o elevador fora do meu hor\u00e1rio s\u00f3 para correr o risco de dividir alguns segundos com ele, em sil\u00eancio. <br \/>\u2003\u2003Esses encontros se tornaram a minha rotina. Meu v\u00edcio secreto. Um aceno. Um \u201cbom dia\u201d. Um olhar r\u00e1pido demais para ser casual. Mas agora, nem isso, nem a casualidade me dava mais o direito de v\u00ea-lo. <br \/>\u2003\u2003Era estranho. Porque sempre fui eu quem controlava o ritmo. Sempre fui eu quem decidia quando e como algo terminava. Mas, com %Arthur%, ele foi embora antes que eu conseguisse admitir que queria que ele ficasse. <br \/>\u2003\u2003Fechei os olhos por um segundo. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3 um. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3 para tentar retomar o controle. <br \/>\u2003\u2003Respirei fundo. <br \/>\u2003\u2003Mas n\u00e3o adiantava. Porque eu sabia exatamente quando tudo come\u00e7ou. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o foi no dia em que nos beijamos ou quando fizemos sexo pela primeira vez. Nem na noite em que ele apareceu na minha porta, pronto para me enfrentar. Come\u00e7ou muito antes. No detalhe. No imprevisto. <br \/>\u2003\u2003Foi naquele final de tarde, quando ele entrou na minha sala e corrigiu um dado do relat\u00f3rio com tanta calma, mesmo eu estando impaciente. Quando ele me respondeu com firmeza, mas sem arrog\u00e2ncia. Quando ele me olhou como quem me enxergava \u2014 de verdade \u2014 e n\u00e3o apenas como a CEO imposs\u00edvel de agradar. <br \/>\u2003\u2003Foi a\u00ed que alguma coisa trincou e continuou nas pequenas coisas. <br \/>\u2003\u2003Na forma como ele puxava a cadeira com um cuidado quase t\u00edmido. Como me trazia um caf\u00e9 extra nos dias de reuni\u00e3o longa, sem que eu precisasse pedir. Como ele ficava em sil\u00eancio ao meu lado sem pressa, como se minha presen\u00e7a bastasse. Como ele sorria quando achava que eu n\u00e3o estava olhando. <br \/>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu fui me apaixonando em sil\u00eancio. Enquanto fingia indiferen\u00e7a, mantinha a dist\u00e2ncia, enquanto me escondia atr\u00e1s de ordens e formalidades. <br \/>\u2003\u2003E agora\u2026 agora era tarde demais para admitir. Ele j\u00e1 tinha ido embora e eu ainda estava aqui \u2014 estagnada no meio do que n\u00e3o disse, do que n\u00e3o fiz, e do que fingi n\u00e3o sentir. <br \/>\u2003\u2003O interfone tocou. <br \/> <br \/>\u2003\u2003\u2014 Senhorita %Dias%, a Rafa Kalimann est\u00e1 aqui para a reuni\u00e3o de alinhamento. \u2014 informou Mariana. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Pode mandar entrar. \u2014 respondi, a voz t\u00e3o fria quanto o vidro daquela sala. <br \/>\u2003\u2003Segundos depois, Rafa entrou, cheia de energia, como se o peso do mundo n\u00e3o a tocasse. Jogou a bolsa em uma poltrona e me lan\u00e7ou um sorriso largo. Fran veio logo atr\u00e1s, ajeitando o tablet na mesa de apoio. <br \/>\u2003\u2003Mariana j\u00e1 estava em sua posi\u00e7\u00e3o habitual: sentada em uma das cadeiras do canto da sala, caderno no colo, caneta em m\u00e3os, pronta para anotar cada palavra que sa\u00edsse dali. Sempre eficiente. Sempre discreta. Mas ainda&#8230; estranha, deslocada. Como se aquele espa\u00e7o ainda n\u00e3o a reconhecesse. <br \/>\u2003\u2003Rafa olhou para Mariana rapidamente, depois para mim, com um olhar cheio de mal\u00edcia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; \u2014 come\u00e7ou, casual \u2014 cad\u00ea o seu secret\u00e1rio gato? <br \/>\u2003\u2003A pergunta bateu como uma pedra no meio da sala. Arqueei uma sobrancelha, mantendo o rosto inexpressivo. Controle. Sempre controle. <br \/>\u2003\u2003\u2014 O %Arthur%? \u2014 perguntei, como quem mal se lembrava. <br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9, u\u00e9. \u2014 Rafa deu uma risadinha leve. \u2014 Cad\u00ea ele? Achei que ia ver o sorriso dele brilhando nesse andar. <br \/>\u2003\u2003Vi Mariana se mexer desconfortavelmente na cadeira, abaixando o olhar para o caderno. Mantive a voz neutra, a mais pr\u00e1tica poss\u00edvel. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele foi transferido para outro setor. E, recentemente, aceitou uma proposta em uma empresa de ilustra\u00e7\u00e3o. \u2014 Disse, ajeitando distraidamente uma pasta de documentos, apenas para ocupar as m\u00e3os. \u2014 Mais alinhada com o que realmente quer fazer. <br \/>\u2003\u2003Rafa franziu o cenho, surpresa genu\u00edna. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ilustra\u00e7\u00e3o? \u2014 perguntou, interessada. \u2014 Uau. N\u00e3o fazia ideia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele \u00e9 muito talentoso. \u2014 escapou da minha boca antes que eu pudesse filtrar o tom. Baixei os olhos imediatamente, for\u00e7ando-me a voltar ao foco. <br \/>\u2003\u2003Rafa, esperta como sempre, n\u00e3o deixou passar. Um sorriso sapeca surgiu no canto dos seus l\u00e1bios, mas ela se conteve \u2014 talvez percebendo que era um assunto que sangrava mais do que parecia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Entendi. \u2014 disse apenas, se acomodando para come\u00e7armos a reuni\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Mariana continuou anotando tudo em sil\u00eancio. Certa tens\u00e3o pairava no ar, mas ningu\u00e9m ousou coment\u00e1-la. <br \/>\u2003\u2003Falamos de campanhas, novas a\u00e7\u00f5es para os pr\u00f3ximos meses, discutimos prazos e metas. Mariana fazia o poss\u00edvel para acompanhar, suas anota\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas preenchendo o caderno. Ainda assim, era imposs\u00edvel n\u00e3o perceber a diferen\u00e7a. Com %Arthur%, tudo era mais fluido, havia uma sincronia silenciosa. Agora&#8230; havia lacunas. Sil\u00eancios que nem Mariana \u2014 com toda a sua boa vontade \u2014 conseguia preencher. <br \/>\u2003\u2003Quando a reuni\u00e3o terminou, Rafa se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. Olhou de novo para Mariana, depois para mim. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Trocaram o sorriso mais bonito do setor, hein? \u2014 comentou em tom brincalh\u00e3o, mas os olhos me estudavam. <br \/>\u2003\u2003Controle, %Alice%. Sempre. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A Mariana \u00e9 muito competente. \u2014 respondi com firmeza. \u2014 Estamos nos adaptando. <br \/>\u2003\u2003Rafa apenas sorriu, como quem entendia muito mais do que ouvia, e saiu acompanhada por Fran, que j\u00e1 abria a agenda para marcar a pr\u00f3xima reuni\u00e3o. Quando a sala ficou vazia novamente, Mariana se aproximou, deixando os pap\u00e9is para assinatura. <br \/>\u2003\u2003Assinei tudo no autom\u00e1tico. Nem olhei para ela. Nem precisei. Assim que ela saiu, o sil\u00eancio caiu como uma cortina pesada. E eu, pela primeira vez em muito tempo, n\u00e3o encontrei ref\u00fagio no trabalho. <br \/>\u2003\u2003Por impulso, quase sem pensar, abri o navegador e digitei: %Arthur% Torres Ilustra\u00e7\u00e3o <br \/>\u2003\u2003Seu perfil surgiu imediatamente. <br \/>\u2003\u2003Uma nova ilustra\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Uma x\u00edcara solit\u00e1ria. Um caf\u00e9 vazio. A luz filtrada pela janela. Solid\u00e3o desenhada em linhas suaves. Saudade desenhada sem nem saber que era saudade. <br \/>\u2003\u2003Fechei a aba com um clique r\u00e1pido, como se pudesse apagar o que aquilo mexia dentro de mim. Ajeitei a postura, endireitei os ombros, segurei a m\u00e1scara de CEO com ambas as m\u00e3os invis\u00edveis. <br \/>\u2003\u2003Eu era %Alice% %Dias%. <br \/>\u2003\u2003E %Alice% %Dias% n\u00e3o sentia falta. <br \/>\u2003\u2003Ou, pelo menos, deveria ter aprendido a n\u00e3o sentir. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A chave girou na fechadura com um estalo seco. <br \/>\u2003\u2003Empurrei a porta da cobertura e entrei, os saltos ecoando no piso impec\u00e1vel de m\u00e1rmore claro. Joguei a bolsa sobre a poltrona mais pr\u00f3xima e me desfiz do blazer, deixando-o cair com precis\u00e3o estudada sobre o encosto. <br \/>\u2003\u2003O apartamento parecia ainda mais silencioso do que o normal. <br \/>\u2003\u2003Era perfeito. Luxuoso. Moderno. Linhas retas, tons neutros, arte minimalista decorando as paredes brancas como folhas em branco. Cada pe\u00e7a tinha sido escolhida com cuidado. Cada detalhe exalava sucesso. <br \/>\u2003\u2003E, ainda assim&#8230; Era frio. Inerte. Um cen\u00e1rio de revista que n\u00e3o sabia abrigar ningu\u00e9m de verdade. <br \/>\u2003\u2003Suspirei, tirando os saltos e atravessando a sala at\u00e9 a cozinha aberta. Peguei uma ta\u00e7a de vinho na prateleira, servi o l\u00edquido vermelho at\u00e9 a metade e encostei o quadril na bancada, encarando a vista noturna de S\u00e3o Paulo atrav\u00e9s da parede de vidro. <br \/>\u2003\u2003As luzes da cidade piscavam l\u00e1 fora, indiferentes ao que se passava aqui dentro. <br \/>\u2003\u2003Tentei me distrair. Peguei o notebook. Abri pastas. Respondi e-mails. Programei reuni\u00f5es que nem sabia se queria ter, mas nada me prendia. As palavras escapavam entre meus dedos. As planilhas dan\u00e7avam na tela. O foco, que sempre foi minha fortaleza, hoje era uma muralha rachada. <br \/>\u2003\u2003Fechei o notebook com um estalo mais forte do que pretendia. <br \/>\u2003\u2003Cada canto daquele apartamento parecia ecoar a mesma aus\u00eancia. Cada m\u00f3vel. Cada quadro. Cada cent\u00edmetro do ch\u00e3o. Tudo gritava a falta que eu n\u00e3o sabia nomear direito. <br \/>\u2003\u2003Fechei os olhos por um segundo. E ent\u00e3o, sem pedir permiss\u00e3o, o flash veio. <br \/>\u2003\u2003%Arthur%. <br \/>\u2003\u2003De p\u00e9, no meio da minha sala. A carta de demiss\u00e3o nas m\u00e3os. A express\u00e3o decidida e triste ao mesmo tempo. A voz dele \u2014 rouca, firme, cortando o espa\u00e7o entre n\u00f3s: <br \/>\u2003\u2003<em>&#8220;Eu t\u00f4 escolhendo ser feliz.&#8221;<\/em> <br \/><em>\u2003\u2003As palavras reverberaram dentro de mim como um trov\u00e3o. <em>Escolhendo ser feliz.<\/em> <br \/><\/em>\u2003\u2003Escolhendo ser livre de mim. <br \/>\u2003\u2003Abri os olhos devagar, como quem emergia debaixo d&#8217;\u00e1gua. O peso da solid\u00e3o parecia mais denso naquela noite, infiltrando-se pelas paredes frias da cobertura, colando na pele. <br \/>\u2003\u2003E, ainda assim, algo em mim se recusava a solt\u00e1-lo completamente&#8230; <br \/>\u2003\u2003Por que eu soube da contrata\u00e7\u00e3o antes dele. <br \/>\u2003\u2003Vi seu nome entre os novos contratados da Bravura antes mesmo que %Arthur% anunciasse. E naquele momento, sozinha no sil\u00eancio frio da minha cobertura, algo dentro de mim aqueceu. <br \/>\u2003\u2003Ele conseguiu, estava seguindo em frente. E, de alguma forma \u2014 ainda que ele nunca soubesse \u2014, eu tinha ajudado a abrir essa porta. <br \/>\u2003\u2003Era ir\u00f4nico. Sempre me considerei uma mulher pr\u00e1tica, calculista. Apoiava causas, projetos, movimentos&#8230; mas nunca pessoas. Nunca indiv\u00edduos. Nunca deixava que algu\u00e9m ocupasse espa\u00e7o demais dentro de mim. <br \/>\u2003\u2003Exceto ele. <br \/>\u2003\u2003%Arthur%. <br \/>\u2003\u2003O erro mais doce da minha vida. <br \/>\u2003\u2003E foi por ele \u2014 s\u00f3 por ele \u2014 que eu rompi minha regra mais sagrada: ajudar algu\u00e9m sem esperar nada em troca. Sem assinar meu nome no final. Sem querer gratid\u00e3o. Sem querer reconhecimento. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3&#8230; querer v\u00ea-lo brilhar. <br \/>\u2003\u2003Meu peito apertou, e por um breve instante, deixei minha mente voltar \u00e0quela noite. A noite em que tomei a decis\u00e3o que, at\u00e9 agora, guardei s\u00f3 para mim. A noite em que fiz o \u00fanico gesto verdadeiramente altru\u00edsta da minha vida. <\/p>\r\n<p><strong>\u2003\u2003Flashback<\/strong><br \/>\u2003\u2003O celular vibrava discretamente sobre a bancada. <br \/>\u2003\u2003Olhei para a tela \u2014 um n\u00famero conhecido, mas n\u00e3o pessoal. Respirei fundo antes de atender. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Alice% %Dias% falando. <br \/>\u2003\u2003A voz do outro lado era calma, polida. O Sr. Navarro, CEO da Bravura. Um dos poucos contatos que eu mantinha em sil\u00eancio no meu c\u00edrculo de influ\u00eancia. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o porque precisasse dele para algo \u2014 mas porque, \u00e0s vezes, saber pedir da forma certa era mais poderoso do que qualquer ordem direta. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Alice% %Dias%, recebi sua mensagem, estou curioso. \u2014 ele disse, com aquele tom brincalh\u00e3o disfar\u00e7ado de formalidade. <br \/>\u2003\u2003Agarrei a ta\u00e7a de vinho com mais for\u00e7a do que o necess\u00e1rio, mantendo a voz neutra. <br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 simples, Navarro. \u2014 falei. \u2014 Quero que olhe o portf\u00f3lio de um jovem ilustrador. Sem compromisso. Sem promessas. <br \/>\u2003\u2003Ele riu baixo do outro lado, como se aquilo fosse divers\u00e3o para ele. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E por que o interesse, vinda da toda-poderosa da Domus Enterprises? <br \/>\u2003\u2003Mordi o interior da bochecha, controlando o impulso de fechar a cara. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Porque \u00e9 talento genu\u00edno. \u2014 respondi. \u2014 E&#8230; acredito que o tipo de sensibilidade que voc\u00eas procuram. S\u00f3 isso. <br \/>\u2003\u2003Houve uma breve pausa. Do outro lado da linha, senti a mudan\u00e7a de tom. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sem nomes? Sem indica\u00e7\u00e3o oficial? <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sem nomes. \u2014 respondi r\u00e1pido. \u2014 S\u00f3 veja. \u00c9 tudo que eu pe\u00e7o. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o queria que %Arthur% soubesse. N\u00e3o queria que aquilo parecesse um favor. <br \/>\u2003\u2003%Arthur% era orgulho puro. E eu&#8230; eu tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Mas isso \u2014 essa pequena interven\u00e7\u00e3o secreta \u2014 era a \u00fanica forma que encontrei de ajudar sem destruir o que ele estava tentando construir sozinho. <br \/>\u2003\u2003Um sil\u00eancio tenso pairou entre n\u00f3s, at\u00e9 que Navarro respondeu: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 bem, %Alice%. Envie o link. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada. \u2014 disse, antes de desligar. <br \/>\u2003\u2003Enviei o perfil do %Arthur% no Instagram logo depois, com uma mensagem curta: <br \/>\u2003\u2003<em>&#8220;D\u00ea uma olhada. Ele merece ser visto.&#8221;<\/em> <br \/>\u2003\u2003Nada mais. <br \/>\u2003\u2003Fechei o celular com um clique seco e encostei a testa contra o vidro gelado da janela da cobertura. <br \/>\u2003\u2003Ele nunca saberia. <br \/>\u2003\u2003E era melhor assim. <br \/>\u2003\u2003Ajudar sem esperar nada. Sem reivindicar nada. <br \/>\u2003\u2003Era a minha forma torta de am\u00e1-lo. Silenciosa. Oculta. Como tudo o que existia entre n\u00f3s \u2014 e que, agora, s\u00f3 eu carregava\u2026 <br \/><strong>\u2003\u2003Fim do flashback<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Eu sempre fui boa em me controlar. Em manter tudo sob medida. Frieza, foco, disciplina. Era o que diziam de mim. Casca dura. Inalcan\u00e7\u00e1vel. E, sinceramente? Eu deixava que pensassem assim. Era mais f\u00e1cil, mais seguro. <br \/>\u2003\u2003Porque a verdade \u00e9 que eu aprendi cedo demais que se voc\u00ea se permite sentir, voc\u00ea quebra. E eu n\u00e3o podia me dar ao luxo de quebrar. <br \/>\u2003\u2003A vida me ensinou, desde cedo, que amor era uma promessa com prazo. Que confiar em algu\u00e9m era dar a eles a chance de te esmagar. Ent\u00e3o, eu virei o oposto disso. Me blindei. Me tornei aquilo que ningu\u00e9m conseguia atingir. <br \/>\u2003\u2003Mas ningu\u00e9m nascia assim. A gente aprendia. A gente virava. <br \/>\u2003\u2003E eu me lembro exatamente quando isso come\u00e7ou. <br \/>\u2003\u2003Eu tinha dez anos. <br \/>\u2003\u2003A casa era enorme, luxuosa, com pisos de m\u00e1rmore que ecoavam a cada passo e janelas t\u00e3o grandes que pareciam querer engolir o jardim perfeitamente aparado l\u00e1 fora. Tudo parecia perfeito \u2014 por fora. Mas ali, naquelas escadas de madeira escura, onde eu me escondia sempre que o mundo desabava, o que eu sentia era tudo, menos perfei\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Eu estava abra\u00e7ada aos joelhos, ainda vestindo o uniforme impec\u00e1vel da escola particular, assistindo ao pesadelo se desenrolar diante dos meus olhos. <br \/>\u2003\u2003Meu pai \u2014 o homem que me prometeu o mundo e as estrelas \u2014 descia carregando duas malas de couro italiano. A express\u00e3o dele era fria. N\u00e3o havia raiva. Nem culpa. S\u00f3&#8230; aus\u00eancia. Ele sequer olhava para tr\u00e1s. <br \/>\u2003\u2003Minha m\u00e3e estava parada \u00e0 porta da sala de estar, os bra\u00e7os cruzados sobre a blusa de cashmere, a boca cerrada numa linha fina de desd\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Ela n\u00e3o chorava. Nunca chorava. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Vai mesmo nos deixar pra viver com aquela mulherzinha? \u2014 disparou, a voz cortando o ar com a precis\u00e3o de uma l\u00e2mina. <br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o respondeu. Apenas ajustou a al\u00e7a da mala no ombro e continuou andando. E foi a\u00ed que eu me movi. <br \/>\u2003\u2003Desci correndo os \u00faltimos degraus, trope\u00e7ando nos pr\u00f3prios p\u00e9s, sem pensar. <br \/>\u2003\u2003Corri at\u00e9 ele. Agarrando a barra do palet\u00f3 caro como se fosse a \u00faltima \u00e2ncora do meu mundo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Pai&#8230; \u2014 minha voz saiu num solu\u00e7o infantil, desesperado. \u2014 N\u00e3o vai embora. Por favor. Fica\u2026 <br \/>\u2003\u2003Ele parou. Apenas por um segundo. O suficiente para olhar para mim. Seus olhos \u2014 os mesmos olhos que tantos elogiavam como &#8220;t\u00e3o claros, t\u00e3o confiantes&#8221; \u2014 estavam vazios. <br \/>\u2003\u2003Com um gesto impaciente, ele se desvencilhou da minha m\u00e3o pequena, como quem sacode um inc\u00f4modo qualquer. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Pare de ser dram\u00e1tica, %Alice%. \u2014 disse, sem emo\u00e7\u00e3o. \u2014 Voc\u00ea vai entender quando crescer. <br \/>\u2003\u2003E foi embora. <br \/>\u2003\u2003Assim. <br \/>\u2003\u2003Deixando para tr\u00e1s malas vazias\u2026 e uma menina de dez anos, ajoelhada no ch\u00e3o de m\u00e1rmore frio, abra\u00e7ando o pr\u00f3prio vazio. <br \/>\u2003\u2003Nunca mais me procurou, mandou cartas ou ligou. <br \/>\u2003\u2003Reconstruiu outra vida. <br \/>\u2003\u2003Outra fam\u00edlia. <br \/>\u2003\u2003Outra filha \u2014 que n\u00e3o era eu. <br \/>\u2003\u2003E minha m\u00e3e\u2026 ela n\u00e3o me consolou. N\u00e3o me puxou para um abra\u00e7o. N\u00e3o disse que ia ficar tudo bem. Apenas virou de costas, caminhou at\u00e9 a copa iluminada pelo lustre de cristal, e ordenou para a empregada com a frieza de quem pede um caf\u00e9: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Prepare o jantar. Minha filha precisa aprender que a vida n\u00e3o para pelos caprichos de homem nenhum. <br \/>\u2003\u2003E ali, no meio do luxo, das roupas caras, das viagens internacionais e dos jantares formais, eu entendi: o amor n\u00e3o era seguro, o amor era abandono. Eu cresci sem espa\u00e7o para ele e constru\u00ed armaduras em vez de sonhos. <br \/>\u2003\u2003Minha m\u00e3e virou uma m\u00e1quina de amargura. Cada dia, cada conversa, cada olhar. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Nunca confie em ningu\u00e9m, %Alice%. \u2014 ela dizia, batendo as lou\u00e7as na pia de m\u00e1rmore com for\u00e7a suficiente para faz\u00ea-las tilintar. \u2014 Homens s\u00e3o todos iguais. Hoje dizem que te amam, amanh\u00e3 te trocam como quem troca de carro. <br \/>\u2003\u2003Outras vezes, enquanto ajustava as p\u00e9rolas no pesco\u00e7o diante do espelho: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Seja sempre a melhor. A mais esperta. A mais fria. Se n\u00e3o for, eles v\u00e3o te esmagar, igual seu pai fez comigo. <br \/>\u2003\u2003E quando eu chorava sozinha no quarto, achando que ningu\u00e9m ouvia: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Chorar \u00e9 para as fracas, %Alice%. \u2014 a voz dela atravessava a porta fechada. \u2014 As fracas viram mem\u00f3ria. As fortes constroem imp\u00e9rios. <br \/>\u2003\u2003Eu cresci ouvindo isso como quem grava uma tatuagem invis\u00edvel na pele. Dia ap\u00f3s dia. Ano ap\u00f3s ano. Aprendi a me blindar. A nunca demonstrar fraqueza. A ser melhor do que qualquer um esperava. A nunca precisar de ningu\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Amor? <br \/>\u2003\u2003Amor era uma promessa vazia. Uma corda pendurada no penhasco&#8230; <br \/>\u2003\u2003O mais cruel foi anos depois. <br \/>\u2003\u2003Quando meu pai apareceu na coluna social da cidade, sorrindo com a nova esposa e sua filha perfeita. Quando minha m\u00e3e \u2014 entre um gole de vinho e um prato de jantar servido por funcion\u00e1rios pagos para fingir que \u00e9ramos uma fam\u00edlia \u2014 comentou, sem desviar os olhos da revista: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ainda bem que ele nos deixou. \u2014 disse, com um sorriso venenoso. \u2014 A gente sempre foi melhor sem ele. <br \/>\u2003\u2003Eu olhei para o prato vazio. <br \/>\u2003\u2003E soube. <br \/>\u2003\u2003Ningu\u00e9m ia me salvar. Nem ele. Nem ela. Nem ningu\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Se eu quisesse sobreviver, teria que ser forte. Mais forte do que qualquer coisa que pudesse me quebrar. <br \/>\u2003\u2003Quando ela \u2014 a mesma mulher que me ensinou a desconfiar de todos \u2014 passou a cobrar de mim uma fam\u00edlia, um marido e filhos, ferrou completamente minha cabe\u00e7a e de repente, eu precisava mudar minha forma de pensar: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 passou da idade de pensar em casamento, %Alice%. \u2014 dizia entre um gole de ch\u00e1 e outro, como se estivesse comentando o tempo ou pedindo para passar a manteiga. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mulher sozinha \u00e9 mulher esquecida. <br \/>\u2003\u2003\u2014 O rel\u00f3gio n\u00e3o para pra ningu\u00e9m, %Alice%. Nem para voc\u00ea. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ningu\u00e9m quer uma mulher que trabalha demais e sorri de menos. <br \/>\u2003\u2003Engoli o amargor em sil\u00eancio. Como sempre. <br \/>\u2003\u2003Porque, enquanto ela dizia essas palavras vazias, eu sabia: meu pai tinha constru\u00eddo outra fam\u00edlia. Nova esposa. Nova filha. Nova vida. <br \/>\u2003\u2003E nunca mais nos procurou. Nunca mais me ligou no meu anivers\u00e1rio. <br \/>\u2003\u2003Nunca mandou uma carta. Nunca quis saber quem eu me tornei. Quem eu precisei me tornar para sobreviver \u00e0 aus\u00eancia dele. <br \/>\u2003\u2003Eu era um quadro velho pendurado numa parede de mem\u00f3rias que ningu\u00e9m visitava. <br \/>\u2003\u2003Abri os olhos de novo, o teto da cobertura me encarando de volta, silencioso e indiferente.\u00a0 Respirei fundo, tentando afastar a dor antiga que nunca desaparecia \u2014 s\u00f3 aprendia a usar saltos altos, ternos caros e a enterrar mais fundo cada cicatriz. <br \/>\u2003\u2003Era por isso que eu n\u00e3o deixava ningu\u00e9m entrar. Era por isso que %Arthur%\u2026 %Arthur% me desmontava. Ele me olhava como se eu fosse digna de ser amada. Como se houvesse algo em mim al\u00e9m das muralhas. Al\u00e9m do vazio. <br \/>\u2003\u2003E era isso que me assustava mais do que qualquer abandono. <br \/>\u2003\u2003Porque eu sabia. <br \/>\u2003\u2003Se eu deixasse, ele poderia destruir tudo o que eu constru\u00ed para me proteger. Ele poderia me fazer querer confiar. Querer acreditar. Querer pertencer. E eu n\u00e3o sabia como consertar isso. <br \/>\u2003\u2003Porque a verdade nua e crua era essa: Uma parte de mim j\u00e1 estava quebrada. Uma parte de mim j\u00e1 era dele. <br \/>\u2003\u2003E pela primeira vez na vida, eu n\u00e3o sabia se queria me reconstruir&#8230;ou se queria simplesmente me permitir desmoronar nos bra\u00e7os dele. <br \/>\u2003\u2003A noite avan\u00e7ava sem piedade. As luzes da cidade l\u00e1 fora brilhavam feito constela\u00e7\u00f5es distantes, e eu&#8230; eu estava presa aqui dentro. Na minha pr\u00f3pria pris\u00e3o de luxo e sil\u00eancio. <br \/>\u2003\u2003Fechei os olhos, e a mem\u00f3ria veio com a for\u00e7a de uma l\u00e2mina bem afiada. <br \/>\u2003\u2003A foto. <br \/>\u2003\u2003A maldita foto que vazou para a empresa toda. <br \/>\u2003\u2003%Arthur% e eu, no estacionamento reservado, tarde da noite, entrando juntos no meu carro. N\u00e3o era exatamente comprometedora, mas sugeria o suficiente para alimentar especula\u00e7\u00f5es \u2014 e no ambiente em que trabalh\u00e1vamos, bastava uma fa\u00edsca para acender um inc\u00eandio. <br \/>\u2003\u2003Me vi sentada naquela sala gelada da diretoria, encarando rostos desconfiados, perguntas atravessadas, suposi\u00e7\u00f5es maliciosas. <br \/>\u2003\u2003E eu neguei. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A ideia de que eu estaria envolvida com um funcion\u00e1rio \u00e9 absurda. Nunca faria algo assim. At\u00e9 parece que n\u00e3o me conhece. Trabalhamos at\u00e9 tarde, eu lhe dei uma carona at\u00e9 sua casa, e foi s\u00f3 isso! \u2014 ouvi minha pr\u00f3pria voz, fria, calculada, ecoando nas paredes. <br \/>\u2003\u2003Uma mentira que soou t\u00e3o f\u00e1cil. T\u00e3o autom\u00e1tica. Uma mentira que n\u00e3o me custou nada na hora \u2014 mas que depois&#8230;depois me custou tudo. <br \/>\u2003\u2003O olhar dele me assombrava at\u00e9 hoje. <br \/>\u2003\u2003%Arthur%, parado no corredor, depois da reuni\u00e3o. %Arthur%, ouvindo minhas palavras como se fossem tiros disparados direto contra ele. A confus\u00e3o nos olhos. O ferimento aberto. A decep\u00e7\u00e3o. Porque sim, eu vi o momento em que ele tinha ouvido tudo. <br \/>\u2003\u2003Eu me tra\u00ed. <br \/>\u2003\u2003Tra\u00ed a n\u00f3s. <br \/>\u2003\u2003E, naquele instante, o perdi. <br \/>\u2003\u2003Por qu\u00ea? <br \/>\u2003\u2003Eu poderia dizer que foi orgulho. Que foi a empresa. Que foi o protocolo. Mas n\u00e3o. A verdade era ainda mais cruel. <br \/>\u2003\u2003Eu neguei porque estava apavorada. Apavorada com o que significava admitir. Porque se eu dissesse em voz alta que amava %Arthur%&#8230; Se eu permitisse que o mundo \u2014 que ele \u2014 soubesse\u2026 Ent\u00e3o ele teria o poder de me destruir. <br \/>\u2003\u2003Como meu pai teve. <br \/>\u2003\u2003E eu sabia \u2014 sabia no fundo do meu peito fechado \u2014 que amar era se expor. Era baixar a guarda. Era colocar tudo o que eu tinha nas m\u00e3os de algu\u00e9m. E eu nunca fui ensinada a fazer isso. <br \/>\u2003\u2003Fui treinada para sobreviver, n\u00e3o para confiar. Fui treinada para vencer, n\u00e3o para amar. <br \/>\u2003\u2003Ent\u00e3o, como a covarde que me tornei, eu escolhi o medo. E, ao proteger a mim mesma\u2026 eu perdi o %Arthur%. Perdi a \u00fanica pessoa que enxergou quem eu era antes mesmo de eu saber. <br \/>\u2003\u2003E talvez \u2014 apenas talvez \u2014 fosse tarde demais para consertar isso. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udc60\ud83d\udcbb<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A semana passou arrastada. Cada dia uma tortura elegante, escondida atr\u00e1s de relat\u00f3rios, reuni\u00f5es e planejamentos futuros que eu preenchia como se fossem cimento, tentando tapar as rachaduras. <br \/>\u2003\u2003Trabalho. Trabalho. Trabalho. <br \/>\u2003\u2003Essa era a regra. Sempre foi. <br \/>\u2003\u2003Mas o vazio\u2026 o vazio crescia. <br \/>\u2003\u2003E nenhuma m\u00e9trica, nenhum gr\u00e1fico, nenhum novo projeto conseguia preencher a aus\u00eancia dele. <br \/>\u2003\u2003%Arthur%. <br \/>\u2003\u2003O nome dele era uma constante dentro da minha cabe\u00e7a, mesmo que eu me proibisse de pronunci\u00e1-lo em voz alta. <br \/>\u2003\u2003Na sexta-feira, voltei para casa com os olhos ardendo e a cabe\u00e7a latejando. Deixei a bolsa atirada no aparador da entrada, tirei os saltos com um movimento brusco e me joguei no sof\u00e1, encarando o teto. <br \/>\u2003\u2003Eu podia fingir. Podia continuar fingindo. Era o que sabia fazer melhor. Mas algo dentro de mim&#8230; quebrou. <br \/>\u2003\u2003Segui direto para o banheiro, como se o banho pudesse lavar a inquieta\u00e7\u00e3o que latejava sob minha pele. A \u00e1gua quente desceu pesada sobre mim, mas n\u00e3o levou embora o que eu carregava. <br \/>\u2003\u2003Fiquei ali por longos minutos, de olhos fechados, enquanto a lembran\u00e7a do %Arthur% \u2014 do sorriso dele, da \u00faltima vez que nossos olhos se cruzaram \u2014 se agarrava \u00e0 minha mente como uma segunda pele. E pela primeira vez em anos, deixei-me fraquejar. <br \/>\u2003\u2003Quando sa\u00ed do banho, enxuguei o corpo devagar, como se cada movimento exigisse concentra\u00e7\u00e3o para n\u00e3o desmoronar. <br \/>\u2003\u2003Meus cabelos, que costumava prender em coques perfeitos ou alisar com perfei\u00e7\u00e3o milim\u00e9trica para os dias de trabalho, estavam ali, selvagens, cacheados e livres. Toquei-os com cuidado, sentindo a textura natural deslizar entre meus dedos. Por um segundo, hesitei. Depois, deixei. Deixei que fossem como eram. Como eu era. <br \/>\u2003\u2003No quarto, vesti jeans escuros \u2014 uma raridade no meu guarda-roupa engomado \u2014, uma blusa branca simples, de tecido leve, que ca\u00eda suavemente sobre o corpo. Nos p\u00e9s, optei por um all star preto, discreto. Nada de blazers estruturados. Nada de roupas feitas para intimidar. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3 eu, ou o que restava de mim. <br \/>\u2003\u2003Olhei para o espelho. <br \/>\u2003\u2003Cabelos soltos. <br \/>\u2003\u2003Rosto limpo. <br \/>\u2003\u2003Olhar inquieto. <br \/>\u2003\u2003Era estranho. E, de alguma forma, certo. <br \/>\u2003\u2003Peguei a bolsa pequena, as chaves, e desci as escadas do pr\u00e9dio antes que pudesse mudar de ideia. <br \/>\u2003\u2003No caminho, parei num mercado qualquer e comprei uma garrafa de vinho sem prestar aten\u00e7\u00e3o no r\u00f3tulo. N\u00e3o era para impressionar. Nem para brindar. Era s\u00f3&#8230; para ter algo nas m\u00e3os que n\u00e3o fosse o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Quando estacionei diante do pr\u00e9dio dele, o nervosismo tomou conta. <br \/>\u2003\u2003Rid\u00edculo. <br \/>\u2003\u2003Era s\u00f3 %Arthur%. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3&#8230; tudo que eu passei meses tentando esquecer. <br \/>\u2003\u2003Toquei a campainha. <br \/>\u2003\u2003E esperei. <br \/>\u2003\u2003At\u00e9 que a porta se abriu e tudo desabou. Era uma mulher. <br \/>\u2003\u2003Jovem. <br \/>\u2003\u2003Bonita. <br \/>\u2003\u2003Confort\u00e1vel na casa dele. <br \/>\u2003\u2003Ela usava um moletom largo e um sorriso f\u00e1cil, como quem pertencia \u00e0quela casa, \u00e0quele espa\u00e7o, \u00e0quela vida. A risada dela ecoou do fundo do apartamento, leve, natural, como algo que eu nunca soube fazer. <br \/>\u2003\u2003Minha mente correu em segundos: <br \/>\u2003\u2003<em>Ele seguiu em frente.<\/em> <br \/>\u2003\u2003<em>Ele est\u00e1 feliz.<\/em> <br \/>\u2003\u2003<em>Ele esqueceu.<\/em> <br \/>\u2003\u2003O instinto de defesa, aquele velho reflexo que eu achava ter deixado para tr\u00e1s, disparou como uma l\u00e2mina afiada. <br \/>\u2003\u2003Ergui o queixo. <br \/>\u2003\u2003Endireitei a coluna. <br \/>\u2003\u2003Vesti minha m\u00e1scara impec\u00e1vel como se fosse uma armadura. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Desculpe \u2014 disse, a voz firme, inexpressiva, enquanto os olhos dela me encaravam, curiosos. \u2014 Devo estar atrapalhando. <br \/>\u2003\u2003E pela primeira vez em muito tempo, eu \u2014 %Alice% %Dias%, a mulher que nunca hesitava \u2014 desejei poder desaparecer. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Imagina! Pode entrar. O %Arthur% t\u00e1 ali. Fica \u00e0 vontade! <br \/>\u2003\u2003Ela sorriu, sem entender nada. Claro que n\u00e3o entendeu. Como poderia? <br \/>\u2003\u2003Para ela, eu era s\u00f3 uma visitante inconveniente. N\u00e3o era a mulher que j\u00e1 conhecia o peso da aus\u00eancia dele melhor do que o pr\u00f3prio peito. Eu forcei um sorriso vazio \u2014 desses que a gente aprende a dar em jantares de gala e reuni\u00f5es de diretoria \u2014 e comecei a me virar para ir embora. <br \/>\u2003\u2003Por dentro, por\u00e9m? <br \/>\u2003\u2003Por dentro eu me sentia uma idiota. <br \/>\u2003\u2003<em>Eu o deixei livre.<\/em> <br \/>\u2003\u2003<em>Pedi para ele voar.<\/em> <br \/>\u2003\u2003<em>E agora que ele voou&#8230; por que \u00e9 t\u00e3o insuport\u00e1vel v\u00ea-lo feliz sem mim?<\/em> <br \/>\u2003\u2003Dei o primeiro passo para longe. Depois o segundo. O som dos meus passos ecoou no corredor, como a decis\u00e3o que eu n\u00e3o queria tomar. <br \/>\u2003\u2003Eu ia embora. <br \/>\u2003\u2003Sem drama. <br \/>\u2003\u2003Sem arrependimento aparente. <br \/>\u2003\u2003Sem nada. <br \/>\u2003\u2003Porque era isso que se esperava de mim. Porque era isso que eu me obriguei a ser, mas antes que eu chegasse \u00e0s escadas, ouvi. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Alice%, espera! \u2014 a voz dele, urgente, atravessando o corredor como um raio. <br \/>\u2003\u2003Senti a m\u00e3o dele segurar meu bra\u00e7o, firme, quente, real. Meu corpo congelou no mesmo instante. E antes que eu pudesse reagir \u2014 ou me proteger de novo \u2014, virei o rosto de leve, encontrando o olhar dele. <br \/>\u2003\u2003E foi ali que o cap\u00edtulo da nossa hist\u00f3ria \u2014 que eu tentei tanto encerrar \u2014 se reabriu. <br \/>\u2003\u2003De novo. <\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><strong>\u2003\u2003Nota da autora:<\/strong> Esse cap\u00edtulo \u00e9 especial. Pela primeira vez, damos espa\u00e7o para que a Alice conte a pr\u00f3pria vers\u00e3o \u2014 sem filtros, sem m\u00e1scaras, sem a lente de ningu\u00e9m al\u00e9m dela mesma. Aqui, a mulher que sempre pareceu inabal\u00e1vel finalmente cede. Mostra rachaduras. Mostra mem\u00f3rias. Mostra um cora\u00e7\u00e3o que aprendeu a endurecer cedo demais.<br \/>\u2003\u2003Escrev\u00ea-lo foi um mergulho profundo. Em dores antigas, em sil\u00eancios prolongados, em tudo o que ela nunca aprendeu a dizer em voz alta. E talvez por isso tenha sido t\u00e3o intenso.<br \/>\u2003\u2003Obrigada por estarem aqui. Cap\u00edtulo ap\u00f3s cap\u00edtulo.<br \/>\u2003\u2003At\u00e9 a pr\u00f3xima atualiza\u00e7\u00e3o.\u2728<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por %Alice% %Dias% \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \u2003\u2003Flashback \u2003\u2003Fim do flashback \ud83d\udc60\ud83d\udcbb \u2003\u2003Nota da autora: Esse cap\u00edtulo \u00e9 especial. 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