{"id":5472,"date":"2025-05-29T09:02:00","date_gmt":"2025-05-29T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-17T09:04:34","modified_gmt":"2025-10-17T12:04:34","slug":"capitulo-13","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-13\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 13"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003O rel\u00f3gio marcava 9h<\/span> quando eu cheguei ao pr\u00e9dio discreto onde funcionava o Studio Bravura. Nada de fachadas chamativas, nada de recep\u00e7\u00e3o luxuosa. Era um sobrado simples, com paredes brancas e janelas grandes que deixavam a luz natural invadir cada canto. Mas, do lado de dentro, tudo gritava arte. Quadros de v\u00e1rios estilos forravam as paredes, prateleiras abarrotadas de sketchbooks, mesas com pinc\u00e9is, tablets gr\u00e1ficos e molduras esperando para serem preenchidas. <br \/>\u2003\u2003Respirei fundo, tentando controlar o frio no est\u00f4mago. <br \/>\u2003\u2003Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais em uma reuni\u00e3o de diretoria, %Arthur%. Agora \u00e9 outro tipo de batalha. <br \/>\u2003\u2003Ajeitei a al\u00e7a da mochila no ombro e avancei para a pequena recep\u00e7\u00e3o improvisada. Um quadro negro com letras tortas dizia: &#8220;<em>Bem-vindo, onde sua arte fala primeiro.<\/em>&#8221; A frase me arrancou um sorriso nervoso. <br \/>\u2003\u2003Antes que eu pudesse me perder demais naquele universo novo, uma mulher de sorriso f\u00e1cil e cabelo ruivo preso num coque bagun\u00e7ado se aproximou. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%? \u2014 perguntou, a voz doce, mas segura. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sou eu. \u2014 respondi, estendendo a m\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Prazer, eu sou a Marina. \u2014 disse, apertando minha m\u00e3o com firmeza. \u2014 Fico feliz que tenha vindo. O pessoal aqui adorou seu trabalho no Instagram. <br \/>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o trope\u00e7ou dentro do peito. <em>Eles viram. Eles realmente viram.<\/em> <br \/>\u2003\u2003Marina me conduziu at\u00e9 uma sala iluminada, onde algumas telas em processo de cria\u00e7\u00e3o estavam encostadas nas paredes. No centro, uma mesa redonda simples, com duas cadeiras. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Pode ficar \u00e0 vontade \u2014 disse ela, sorrindo enquanto se sentava. \u2014 Aqui, a gente acredita que t\u00e9cnica \u00e9 importante, claro, mas o que mais nos interessa \u00e9 o que est\u00e1 por tr\u00e1s do tra\u00e7o. A sensibilidade, a autenticidade. A voz de quem desenha. <br \/>\u2003\u2003Assenti, engolindo em seco. Sentia a camisa colar um pouco nas costas de tanto nervosismo. <br \/>\u2003\u2003A entrevista come\u00e7ou leve, com perguntas sobre minha rotina de desenho, o que me inspirava, que tipo de arte eu gostava de consumir. Fui falando aos poucos \u2014 sobre como eu comecei desenhando super-her\u00f3is no caderno da escola, sobre como a vida foi me puxando pra longe disso, mas o amor pela arte nunca deixou de existir. <br \/>\u2003\u2003Em algum momento, nem parecia mais uma entrevista. <br \/>\u2003\u2003Era uma conversa. Uma troca. <br \/>\u2003\u2003Marina perguntou qual era o meu sonho, e, antes que eu pudesse racionalizar, a resposta saiu: <br \/>\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 quero&#8230; criar coisas que fa\u00e7am algu\u00e9m parar o que est\u00e1 fazendo e sentir algo. \u2014 murmurei, meio sem jeito. \u2014 N\u00e3o importa se \u00e9 grande ou pequeno. S\u00f3&#8230; sentir. <br \/>\u2003\u2003Ela sorriu, um sorriso genu\u00edno, como se tivesse ouvido exatamente o que queria. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Acho que \u00e9 disso que o mundo precisa, %Arthur%. De artistas que ainda se importam em fazer sentir. <br \/>\u2003\u2003Ficamos ali por quase uma hora, falando de t\u00e9cnicas, refer\u00eancias, projetos futuros. Quando a entrevista terminou, Marina apertou minha m\u00e3o de novo e disse que entrariam em contato em breve. <br \/>\u2003\u2003Sai do est\u00fadio com o sol forte batendo no rosto e a cabe\u00e7a leve \u2014 como se eu tivesse deixado algo meu l\u00e1 dentro, junto com os tra\u00e7os das minhas ilustra\u00e7\u00f5es. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o sabia se ia ser o bastante. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha sido cem por cento eu. E, de algum jeito estranho e bonito, aquilo j\u00e1 era uma vit\u00f3ria. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Dois dias depois da entrevista, eu j\u00e1 estava quase convencido de que n\u00e3o tinha dado em nada. <br \/>\u2003\u2003Estava sentado na minha velha baia do Planejamento, tentando me concentrar em uma planilha absurda de or\u00e7amento, quando o computador apitou discretamente. Uma nova notifica\u00e7\u00e3o de e-mail. Olhei sem muita pressa \u2014 provavelmente s\u00f3 mais alguma cobran\u00e7a de relat\u00f3rio. <br \/>\u2003\u2003Mas quando vi o remetente, meu cora\u00e7\u00e3o trope\u00e7ou. <br \/>\u2003\u2003<strong>[Studio Bravura Ilustra\u00e7\u00e3o] \u2013 Retorno da entrevista<\/strong> <br \/>\u2003\u2003Meus dedos congelaram sobre o teclado. <br \/>\u2003\u2003Engoli seco e cliquei. <br \/><em>\u2003\u2003<em>&#8220;%Arthur%, foi um prazer enorme conversar com voc\u00ea. Depois de avaliarmos cuidadosamente seu perfil e suas ilustra\u00e7\u00f5es, temos o prazer de informar que gostar\u00edamos de t\u00ea-lo em nosso time de ilustradores!<\/em> <br \/>\u2003\u2003Seja bem-vindo ao Studio Bravura! \ud83c\udf89 <br \/><\/em>\u2003\u2003Em breve enviaremos as informa\u00e7\u00f5es sobre o contrato e os primeiros projetos.&#8221; <br \/>\u2003\u2003Fiquei parado, encarando aquelas palavras como se elas fossem evaporar a qualquer segundo. <br \/>\u2003\u2003Eu&#8230; consegui. <br \/>\u2003\u2003Consegui. <br \/>\u2003\u2003Senti a emo\u00e7\u00e3o subindo t\u00e3o r\u00e1pido que precisei apertar os punhos para n\u00e3o sair comemorando no meio do setor. O cora\u00e7\u00e3o batia alto demais, e, por um segundo, todo o barulho das conversas, dos teclados e dos telefonemas pareceu se dissolver ao meu redor. <br \/>\u2003\u2003Respirei fundo. <br \/>\u2003\u2003Fingi costume. <br \/>\u2003\u2003Me inclinei discretamente para frente e peguei o celular. Abri o WhatsApp com dedos tr\u00eamulos e entrei no grupo da fam\u00edlia: <br \/>\u2003\u2003<strong>Fam\u00edlia Torres \ud83d\udc99 %Arthur%:<\/strong> <em>CONTRATADO! \ud83c\udf89<\/em> <br \/>\u2003\u2003A resposta veio quase instant\u00e2nea. <br \/>\u2003\u2003<strong>Pai:<\/strong> <em>Meu filhooo!!! Que orgulho! Voc\u00ea merece tudo de melhor! T\u00f4 chorando aqui.<\/em> <br \/>\u2003\u2003<strong>M\u00e3e: <\/strong><em>%Arthur%, meu amor, sempre acreditamos em voc\u00ea. Agora \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o! <\/em>\ud83d\udc96 <br \/>\u2003\u2003<strong>Clara: <\/strong><em>AAAAAAAAAAAAAA MEU IRM\u00c3OZ\u00c3O TALENTOSO!!!<\/em> <br \/><strong>\u2003\u2003Clara:<\/strong> <em>Sabia que aquele sketchbook ia mudar sua vida, eu sabia!!!<\/em> <br \/><strong>\u2003\u2003Clara:<\/strong> <em>(E sim, estou pulando no intervalo entre as aulas, obrigada pela informa\u00e7\u00e3o)<\/em> <br \/>\u2003\u2003Sorri, sentindo os olhos arderem discretamente. Abaixei o rosto, fingindo olhar para a planilha, s\u00f3 para ningu\u00e9m perceber que o cara s\u00e9rio do Planejamento estava \u00e0 beira de se emocionar com um simples celular na m\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Mas n\u00e3o era simples. <br \/>\u2003\u2003Nada disso era simples. <br \/>\u2003\u2003Era o meu sonho. Era meu verdadeiro caminho se abrindo, debaixo dos meus p\u00e9s. <br \/>\u2003\u2003A ficha ainda n\u00e3o tinha ca\u00eddo por completo, mas uma coisa eu sabia: naquela manh\u00e3, sentado numa cadeira meio bamba, cercado de pap\u00e9is e planilhas, algo dentro de mim finalmente come\u00e7ou a se alinhar. <br \/>\u2003\u2003Eu estava prestes a mudar tudo. E, dessa vez, era por mim. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003N\u00e3o deu nem tempo de respirar. Clara praticamente me arrastou \u2014 e arrastou o Marcos junto \u2014 para nossa pizzaria favorita no bairro. Disse que uma not\u00edcia dessas n\u00e3o podia passar em branco. E, como sempre, ela venceu. <br \/>\u2003\u2003O lugar era pequeno, aconchegante, com luzes amarelas penduradas em fios grossos pelo teto e cheiro de massa assando invadindo o ar. Era o tipo de lugar que sempre parecia familiar, como se abra\u00e7asse a gente assim que pass\u00e1vamos pela porta. <br \/>\u2003\u2003Nos sentamos numa mesinha de canto, e Clara j\u00e1 fez quest\u00e3o de pedir uma pizza gigante, metade calabresa, metade quatro queijos, antes mesmo de o gar\u00e7om perguntar. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A casa paga a primeira rodada de refrigerante, hein? \u2014 ela disse, piscando, como se fosse cliente VIP. <br \/>\u2003\u2003Marcos riu, t\u00edmido, ajeitando os \u00f3culos no rosto, e eu s\u00f3 balancei a cabe\u00e7a, tentando acompanhar a energia dela. A pizza chegou r\u00e1pido \u2014 e, junto com ela, a conversa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, %Arthur% \u2014 Marcos come\u00e7ou, com aquela timidez simp\u00e1tica dele \u2014, eu vi alguns dos seus desenhos que a Clara me mostrou&#8230; S\u00e3o incr\u00edveis, cara. De verdade. Como \u00e9 que voc\u00ea consegue pensar nesses detalhes todos? <br \/>\u2003\u2003Sorri, meio envergonhado. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ah&#8230; acho que \u00e9 pr\u00e1tica. E&#8230; sei l\u00e1. \u00c9 como&#8230; enxergar as coisas de um jeito meio diferente. Como se eu tentasse desenhar o que sinto, mais do que o que vejo. <br \/>\u2003\u2003Marcos assentiu, com os olhos brilhando de sincero interesse. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 muito massa. S\u00e9rio. D\u00e1 pra ver que \u00e9 paix\u00e3o de verdade. <br \/>\u2003\u2003Fiquei quieto por um segundo, absorvendo aquilo. A pizza ainda nem tinha sido tocada. Era engra\u00e7ado como uma frase simples podia pesar tanto. Foi Clara quem cortou o momento, do jeito irreverente de sempre. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Marcos, voc\u00ea n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o. Se eu te contar direito a novela mexicana que foi a vida amorosa do %Arthur% nos \u00faltimos meses, voc\u00ea nem acredita. \u2014 disse, pegando uma fatia de pizza como quem preparava o terreno pra fofoca. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Qu\u00ea? \u2014 Marcos olhou confuso entre n\u00f3s dois. \u2014 Como assim? \u2014 Levei a m\u00e3o \u00e0 testa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o precisa exagerar, Clara\u2026 <br \/>\u2003\u2003\u2014 Precisa sim. \u2014 ela rebateu, rindo. \u2014 Sen\u00e3o perde a gra\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003Ela se inclinou na mesa, conspirat\u00f3ria. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, \u00f3&#8230; tudo come\u00e7ou quando o %Arthur% foi ser secret\u00e1rio da CEO. A %Alice% %Dias%. \u2014 disse, em tom grave, como quem contava uma hist\u00f3ria \u00e9pica. \u2014 A mulher mais linda, mais poderosa, mais &#8220;deixa todos os marmanjos de joelhos&#8221; que j\u00e1 pisou naquela empresa. <br \/>\u2003\u2003Marcos arregalou os olhos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Nossa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A\u00ed \u2014 continuou ela, j\u00e1 empolgada \u2014, num belo dia, i %Arthur% aqui teve que resgatar a dama em apuros, no caso, ela, de um encontro p\u00e9ssimo. Sabe aqueles dates que voc\u00ea pensa: &#8220;Se eu n\u00e3o sumir agora, talvez eu morra de vergonha&#8221;? Pois ent\u00e3o. %Arthur% foi o pr\u00edncipe do Uber. <br \/>\u2003\u2003Eu gemi de vergonha. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Clara, pelo amor de Deus\u2026 <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o t\u00f4 nem na metade! \u2014 Ela riu, ignorando meus protestos. \u2014 Depois disso, aquela tens\u00e3o sexual que dava pra cortar com uma faca&#8230; e bum. Se pegaram. Tipo, de verdade. Loucura total. <br \/>\u2003\u2003Marcos, entre surpreso e fascinado, balan\u00e7ava a cabe\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eles tentaram manter a rotina normal, fingindo que eram s\u00f3 chefe e funcion\u00e1rio, mas era mentira, n\u00e9? \u2014 Clara deu de ombros. \u2014 O %Arthur% estava praticamente morando na sala dela. Ou melhor\u2026 <em>na mesa dela<\/em>, se \u00e9 que voc\u00ea me entende. <br \/>\u2003\u2003\u2014 CLARA! \u2014 engasguei com a pizza. Ela gargalhou, batendo palmas discretamente. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Enfim! A\u00ed, do nada, algu\u00e9m tirou uma foto suspeita deles juntos. A fofoca explodiu. E sabe o que a %Alice% fez? \u2014 Clara apontou o dedo pra frente, indignada. \u2014 Negou. Falou na reuni\u00e3o que nunca faria isso, que seria &#8220;absurdo&#8221; se envolver com funcion\u00e1rio. \u2014 Marcos arregalou ainda mais os olhos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Caramba\u2026 <br \/>\u2003\u2003\u2014 Pois \u00e9. O %Arthur% ficou com o cora\u00e7\u00e3o na sola do sapato. \u2014 Clara disse, desta vez num tom mais suave. \u2014 Mas a\u00ed ele decidiu se afastar. Pediu pra sair do setor dela. Foi dif\u00edcil, viu? <br \/>\u2003\u2003Pisquei, tentando disfar\u00e7ar a pontada no peito que essa lembran\u00e7a ainda trazia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E agora? \u2014 Marcos perguntou, genuinamente curioso. Respirei fundo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora&#8230; \u2014 olhei para os dois, sentindo o peso e, ao mesmo tempo, a leveza do que eu ia dizer \u2014 eu t\u00f4 escolhendo ser feliz. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu n\u00e3o foi constrangedor. Foi cheio. Clara sorriu largamente. Marcos sorriu tamb\u00e9m. Era como se todos n\u00f3s soub\u00e9ssemos que, naquele momento, algo novo se abria \u00e0 minha frente. Peguei uma nova fatia de pizza e, antes de morder, brinquei: <br \/>\u2003\u2003\u2014 E \u00e9 claro que a primeira coisa que vou desenhar no est\u00fadio novo vai ser uma pizza gigante. Em homenagem a essa noite. \u2014 Clara gargalhou. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea desenhar minha cara no meio da pizza, eu te mato. \u2014 amea\u00e7ou, rindo. <br \/>\u2003\u2003E assim, no meio de queijo derretido, piadas ruins e olhares cheios de orgulho, eu comecei a escrever um novo cap\u00edtulo da minha hist\u00f3ria. <br \/>\u2003\u2003Dessa vez, inteiro. <br \/>\u2003\u2003E pela primeira vez, sem medo de ser exatamente quem eu era. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Na segunda-feira, eu cheguei mais cedo do que o normal ao setor de Planejamento. O sol mal tinha subido direito, e o andar ainda estava meio silencioso, com alguns poucos colegas batendo nos teclados ou se ajeitando nas mesas. A luz branca e fria dava \u00e0quele come\u00e7o de manh\u00e3 um ar meio surreal \u2014 como se tudo estivesse suspenso por um instante. <br \/>\u2003\u2003Respirei fundo, ajeitei a mochila no ombro e caminhei at\u00e9 a sala do Rodrigo. Ele j\u00e1 estava l\u00e1, como sempre, ajeitando relat\u00f3rios e tomando caf\u00e9 num copo descart\u00e1vel que parecia pequeno demais para o tanto de energia que ele precisava para aguentar o dia. <br \/>\u2003\u2003Bati na porta duas vezes, firme. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Pode entrar! \u2014 ele disse, sem levantar o olhar. Entrei, fechando a porta atr\u00e1s de mim com cuidado. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Rodrigo&#8230; \u2014 comecei, tirando do bolso a carta de demiss\u00e3o que tinha escrito no fim de semana inteiro \u2014, posso roubar uns minutos? <br \/>\u2003\u2003Ele levantou a cabe\u00e7a, estranhando o tom da minha voz. Seus olhos bateram na folha de papel nas minhas m\u00e3os antes de me encarar de verdade. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Opa. \u2014 ele sorriu de um jeito meio triste, meio orgulhoso. \u2014 Sabia que essa hora ia chegar. <br \/>\u2003\u2003Entreguei a carta pra ele. Meus dedos tremeram um pouco, era definitivo agora. <br \/>\u2003\u2003Rodrigo leu rapidamente, depois apoiou o papel na mesa com delicadeza. Seu sorriso cresceu, e havia algo de genu\u00edno ali, como um paiz\u00e3o vendo o filho tomar coragem. <br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00f4 feliz por voc\u00ea, %Arthur%. \u2014 ele disse, a voz grave, cheia de sentimento. \u2014 Vai fazer falta aqui, n\u00e3o vou mentir. A equipe vai sentir. Eu vou sentir. Mas, cara&#8230; voc\u00ea t\u00e1 indo pelo caminho certo. E isso \u00e9 o que importa de verdade. <br \/>\u2003\u2003Engoli seco. <br \/>\u2003\u2003Rodrigo se levantou e me puxou para um abra\u00e7o forte, r\u00e1pido, mas que disse tudo o que ele talvez nem soubesse como colocar em palavras. Dei dois tapinhas nas costas dele, tentando n\u00e3o deixar a emo\u00e7\u00e3o me trair ali no meio da manh\u00e3. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigado. \u2014 murmurei, sentindo o peso de todas as escolhas, de todos os caminhos, pousar nos meus ombros e, ao mesmo tempo, se tornarem mais leves. <br \/>\u2003\u2003Ele se afastou e, com aquele jeito meio pr\u00e1tico dele, perguntou: <br \/>\u2003\u2003\u2014 E a %Alice%? J\u00e1 falou com ela? \u2014 Senti minha garganta apertar na hora. Respirei fundo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ainda n\u00e3o. \u2014 admiti. \u2014 Mas vou. <br \/>\u2003\u2003Rodrigo apenas assentiu, com aquele olhar que dizia &#8220;boa sorte&#8221; sem precisar de palavras. <br \/>\u2003\u2003Quando sa\u00ed da sala dele, j\u00e1 dava pra sentir o setor ganhando vida. Gente chegando, conversas come\u00e7ando, o cheirinho de caf\u00e9 se espalhando. <br \/>\u2003\u2003Parei por um momento no meio do corredor, olhando para aquelas baias onde vivi tanta coisa \u2014 as vit\u00f3rias pequenas, as derrotas invis\u00edveis, os dias em que duvidei de mim mesmo. Tudo aquilo fazia parte de quem eu era agora. E me despedir&#8230; do\u00eda. Mas era um tipo bom de dor. Daquelas que abrem espa\u00e7o para algo novo. <br \/>\u2003\u2003Fui de mesa em mesa, me despedindo dos colegas. J\u00falia, Beatriz, Felipe, Marcel&#8230; cada um reagiu de um jeito. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas j\u00e1? \u2014 J\u00falia fez cara de drama. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Nem deu tempo de a gente encher seu perfil de memes! \u2014 protestou Felipe, rindo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E a gente tava pensando em te dar uma caneca nova de presente! \u2014 disse Beatriz, fingindo indigna\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vou cobrar, hein. \u2014 brinquei, sentindo o aperto no peito se misturar com o riso. <br \/>\u2003\u2003Eles insistiram em marcar uma comemora\u00e7\u00e3o, um jantar de despedida, alguma coisa. E eu sorri, sincero, dizendo: <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 um fim. \u00c9 s\u00f3&#8230; um recome\u00e7o. <br \/>\u2003\u2003Eles concordaram, e o clima que podia ter sido pesado se tornou leve, como se todos entendessem, de alguma forma, que era exatamente isso. <br \/>\u2003\u2003Peguei minhas coisas, me preparando mentalmente para o pr\u00f3ximo passo: a despedida mais dif\u00edcil de todas. <br \/>\u2003\u2003%Alice%. <br \/>\u2003\u2003Ela ainda n\u00e3o sabia que aquele seria o nosso \u00faltimo encontro como parte do mesmo mundo, mas eu sabia. E, dessa vez, eu estava pronto para seguir. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Vamos nessa, %Arthur%. \u2014 murmurei pra mim mesmo, ajustando a mochila nas costas. <br \/>\u2003\u2003E fui. <br \/>\u2003\u2003Subi at\u00e9 o setor da diretoria com o cora\u00e7\u00e3o batendo forte no peito, como se quisesse fugir antes de mim. Cada passo at\u00e9 a porta de vidro da sala dela parecia mais pesado do que o anterior. Bati duas vezes, com firmeza, tentando manter as m\u00e3os firmes. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Entre. \u2014 ouvi a voz dela do outro lado. <br \/>\u2003\u2003Abri a porta. <br \/>\u2003\u2003%Alice% estava sentada \u00e0 mesa, impec\u00e1vel como sempre \u2014 o blazer cinza claro ajustado ao corpo, o coque alinhado sem um fio fora do lugar, a postura ereta como se sustentasse o mundo nas costas. Mas o olhar\u2026 o olhar era diferente. <br \/>\u2003\u2003Quando me viu, houve um segundo \u2014 s\u00f3 um \u2014 em que a express\u00e3o dela vacilou. Como uma sombra cruzando uma superf\u00edcie polida. Depois, como sempre, ela recomp\u00f4s o rosto numa m\u00e1scara serena, inquebr\u00e1vel. Fechei a porta atr\u00e1s de mim. Respirei fundo. Cruzei a dist\u00e2ncia at\u00e9 a mesa dela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu precisava falar com voc\u00ea. \u2014 minha voz saiu firme, mesmo que minhas entranhas gritassem. <br \/>\u2003\u2003%Alice% apenas assentiu, as m\u00e3os entrela\u00e7adas sobre os documentos como se quisesse impedir que tremessem. Puxei uma folha do bolso da jaqueta \u2014 uma c\u00f3pia da carta de demiss\u00e3o \u2014 e a coloquei, sem cerim\u00f4nia, sobre a mesa. <br \/>\u2003\u2003Vi o olhar dela endurecer ao bater no papel. Seus dedos deslizaram lentamente at\u00e9 pegar a folha. Ela leu. N\u00e3o disse nada por um momento longo o suficiente para que eu ouvisse o zumbido leve do ar-condicionado. Quando finalmente falou, a voz dela era controlada demais. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Entendo. \u2014 disse. \u2014 Se encontrou em outro lugar. <br \/>\u2003\u2003Era uma frase pr\u00e1tica. Fria. Profissional. Mas quem a conhecia \u2014 como eu conhecia \u2014 saberia ler nas entrelinhas o que o orgulho tentava esconder: a tristeza. N\u00e3o uma tristeza escandalosa, de filme. Era a tristeza silenciosa de quem sabe que n\u00e3o pode pedir para algu\u00e9m ficar. <br \/>\u2003\u2003Sorri de canto, sem rancor. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Me encontrei em mim mesmo. \u2014 corrigi. \u2014 Era hora. <br \/>\u2003\u2003%Alice% desviou o olhar por um instante, como se algo em mim tivesse a atingido mais do que ela gostaria de admitir. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Para onde vai? \u2014 perguntou, a voz um pouco mais baixa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Fui contratado por um est\u00fadio de ilustra\u00e7\u00e3o. \u2014 respondi, sem esconder o brilho nos olhos. \u2014 Vou trabalhar desenhando. Criando. Coisa que eu sempre sonhei. \u2014 dei de ombros, meio t\u00edmido. \u2014 S\u00f3&#8230; demorou pra eu lembrar que podia. <br \/>\u2003\u2003%Alice% apertou levemente os l\u00e1bios, como quem tenta conter alguma rea\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai ser brilhante. \u2014 disse, e dessa vez havia verdade rasgando a voz dela. \u2014 Mesmo sem mim. <br \/>\u2003\u2003Por um instante, o peso daquelas palavras quase me derrubou. Sorri de novo, mas havia melancolia ali, inevit\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mesmo sem voc\u00ea. \u2014 repeti, a voz saindo mais rouca do que eu queria. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio que caiu entre n\u00f3s dois era quase palp\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003%Alice% respirou fundo, como se estivesse prestes a fazer algo. Seus dedos se moveram sobre a mesa, como se quisessem \u2014 por um impulso que ela mal controlava \u2014 se estender at\u00e9 mim. Como se, no fundo, ainda houvesse tanto a dizer, tanto a fazer. <br \/>\u2003\u2003Mas ela se conteve. <br \/>\u2003\u2003Eu tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Dei um passo atr\u00e1s, gentilmente, respeitando aquela barreira invis\u00edvel que ela ainda precisava manter. Ela ent\u00e3o se levantou. Olhou para mim. E, pela primeira vez, sem m\u00e1scaras, sem defesas, disse: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada por tudo, %Arthur%. <br \/>\u2003\u2003Era simples. Mas era real. <br \/>\u2003\u2003Meu peito apertou. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigado, %Alice%. \u2014 respondi. \u2014 Por tudo tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Nos encaramos por mais alguns segundos que pareceram se esticar no tempo. Eu sabia que, se sa\u00edsse agora, aquela seria a \u00faltima imagem dela que eu teria guardada: forte, sozinha, lutando contra sentimentos que jamais admitiria. <br \/>\u2003\u2003Mas algo em mim se rebelou. Dei dois passos de volta e, sem dar espa\u00e7o para d\u00favidas, segurei o rosto dela entre as m\u00e3os e a beijei. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o foi um beijo casto. Nem contido. <br \/>\u2003\u2003Foi um beijo que queimava. <br \/>\u2003\u2003Meus l\u00e1bios encontraram os dela com for\u00e7a, como se dias de sil\u00eancio, raiva, desejo e m\u00e1goa tivessem se condensado naquele \u00fanico toque. Um impacto bruto, desesperado, que dizia tudo o que as palavras jamais conseguiriam. <br \/>\u2003\u2003%Alice% correspondeu na mesma intensidade \u2014 n\u00e3o havia hesita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia controle \u2014 s\u00f3 urg\u00eancia. Seus dedos se agarraram \u00e0 minha camisa, fechando-se com for\u00e7a no tecido, puxando-me para mais perto, como se quisesse me manter ali, como se cada segundo importasse. <br \/>\u2003\u2003O corpo dela colou ao meu, tenso, tr\u00eamulo, e eu deslizei as m\u00e3os por sua cintura, apertando-a com a mesma necessidade cega. O beijo aprofundou-se, faminto, nossos corpos se encaixando como se fossem feitos para se perderem um no outro. <br \/>\u2003\u2003Meu peito do\u00eda pela falta de ar, mas era imposs\u00edvel parar. Ela gemeu baixinho contra a minha boca \u2014 um som abafado, sofrido, que atravessou meu corpo inteiro feito corrente el\u00e9trica. Passei uma m\u00e3o pela linha da mand\u00edbula dela, subindo at\u00e9 a nuca, puxando levemente o coque mal preso enquanto nossos l\u00e1bios continuavam se procurando, se machucando, se despedindo. <br \/>\u2003\u2003Era amor. Era raiva. Era a \u00faltima vez. <br \/>\u2003\u2003Quando finalmente me obriguei a recuar, deixei nossas testas encostadas, as respira\u00e7\u00f5es misturadas, pesadas, sufocadas pelo que n\u00e3o podia ser dito. <br \/>\u2003\u2003Meus dedos ainda acariciava de leve a curva do rosto dela antes que eu sussurrasse: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Essa \u00e9 a nossa despedida. <br \/>\u2003\u2003%Alice% manteve os olhos fechados, os l\u00e1bios entreabertos, como se ainda sentisse meu gosto, como se ainda lutasse contra a vontade de puxar-me de volta. <br \/>\u2003\u2003E naquele instante, eu soube. <br \/>\u2003\u2003Nenhum outro beijo que viesse depois carregaria tanto. <br \/>\u2003\u2003Ela lutava para n\u00e3o pedir que eu ficasse. Para n\u00e3o quebrar o pr\u00f3prio mundo s\u00f3 pra me manter ali, mas n\u00e3o disse nada. E isso, de alguma forma, era resposta suficiente. <br \/>\u2003\u2003Soltei seu rosto devagar, como se a \u00faltima parte de mim estivesse sendo arrancada dali. <br \/>\u2003\u2003Dei um passo para tr\u00e1s. <br \/>\u2003\u2003%Alice% abriu os olhos. Havia l\u00e1grimas presas ali. Mas n\u00e3o ca\u00edram. Virei-me, caminhei at\u00e9 a porta, e antes de sair, olhei uma \u00faltima vez por cima do ombro. Ela ainda estava l\u00e1, parada, linda, despeda\u00e7ada de um jeito que s\u00f3 eu podia ver. <br \/>\u2003\u2003Abri a porta. <br \/>\u2003\u2003Fechei atr\u00e1s de mim. <br \/>\u2003\u2003E, dessa vez, ao cruzar o corredor silencioso do setor de diretoria, percebi algo diferente. Dessa vez, eu n\u00e3o deixava peda\u00e7os de mim para tr\u00e1s. <br \/>\u2003\u2003Eu ia inteiro. <br \/>\u2003\u2003Finalmente inteiro. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A porta do est\u00fadio da <em>Bravura Ilustra\u00e7\u00e3o<\/em> se abriu com um leve tilintar do sino preso no batente. Eu respirei fundo antes de dar o primeiro passo para dentro. A sala de entrada era cheia de quadros coloridos pendurados nas paredes \u2014 estilos completamente diferentes convivendo lado a lado \u2014, e havia cheiro de caf\u00e9 fresco misturado a tinta de aquarela. <br \/>\u2003\u2003Era\u2026 diferente. Acolhedor. <br \/>\u2003\u2003Nada da frieza corporativa que eu estava acostumado. <br \/>\u2003\u2003Uma recepcionista sorridente me cumprimentou e me indicou onde esperar. Poucos minutos depois, Marina \u2014 a gerente simp\u00e1tica que tinha me entrevistado \u2014 apareceu, o cabelo preso num coque bagun\u00e7ado e um sorriso f\u00e1cil nos l\u00e1bios. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%! Bem-vindo oficialmente \u00e0 bagun\u00e7a mais linda da cidade. \u2014 ela brincou, estendendo a m\u00e3o. Apertei a m\u00e3o dela, sorrindo tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Ela me apresentou rapidamente a alguns ilustradores, designers e ao pequeno time de cria\u00e7\u00e3o. As baias eram abertas, cheias de plantas, sketchbooks espalhados, quadros de refer\u00eancias e post-its coloridos. N\u00e3o havia sil\u00eancio absoluto ali \u2014 havia m\u00fasica instrumental baixinha tocando, risadas de fundo, conversas r\u00e1pidas sobre projetos. Era caos, mas um caos que parecia respirar arte. <br \/>\u2003\u2003Passei a manh\u00e3 conhecendo o sistema deles, o fluxo de trabalho, e me entregaram logo um projeto inicial: criar esbo\u00e7os para uma campanha de uma marca de caf\u00e9s artesanais. Livre, criativo, divertido. <br \/>\u2003\u2003Eu, que passei meses suprimindo cada tra\u00e7o de mim mesmo, senti algo reacender. O l\u00e1pis dan\u00e7ava no papel quase sozinho. Era como lembrar de uma parte esquecida do meu pr\u00f3prio corpo. <br \/>\u2003\u2003Na hora do almo\u00e7o, sentei com dois colegas \u2014 Ana e Hugo \u2014 e j\u00e1 me vi rindo de bobagens, sem o peso de formalidades sufocantes. <br \/>\u2003\u2003Quando o dia acabou, sa\u00ed do est\u00fadio com o peito t\u00e3o leve que parecia que podia flutuar. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava exatamente onde deveria estar. <br \/>\u2003\u2003Abri a porta j\u00e1 sorrindo, e como sempre, encontrei Clara jogada no sof\u00e1, notebook no colo, e Marcos&#8230; no tapete, montando alguma coisa de Lego com pe\u00e7as que claramente eram da minha irm\u00e3. <br \/>\u2003\u2003Ele levantou a cabe\u00e7a assim que me viu. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E a\u00ed, campe\u00e3o? Como foi o primeiro dia? \u2014 perguntou, sincero. <br \/>\u2003\u2003Larguei a mochila no canto, largado tamb\u00e9m, e me joguei no sof\u00e1 ao lado da Clara, soltando um suspiro satisfeito. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Foi\u2026 \u2014 procurei a palavra certa, ainda meio embriagado da sensa\u00e7\u00e3o \u2014 diferente. No melhor sentido poss\u00edvel. Eu n\u00e3o precisei ser uma vers\u00e3o editada de mim. N\u00e3o precisei apertar meu talento em planilhas ou reuni\u00f5es in\u00fateis. S\u00f3&#8230; desenhar. Pensar. Criar. <br \/>\u2003\u2003Clara fechou o notebook, sorrindo daquele jeito que sempre parecia mais abra\u00e7o do que gesto. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu sabia. \u2014 disse, vitoriosa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea j\u00e1 fez amigos? \u2014 perguntou Marcos, curioso, ajeitando os \u00f3culos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Conheci o Hugo e a Ana hoje. \u2014 respondi, contando de forma animada sobre o almo\u00e7o, a vibe do lugar, a liberdade. \u2014 E eles t\u00eam um cachorro chamado Tofu que \u00e0s vezes vai trabalhar com eles. T\u00e1 na descri\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rio oficial do est\u00fadio. <br \/>\u2003\u2003Marcos riu. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Se tem cachorro no trabalho, j\u00e1 \u00e9 meu emprego dos sonhos. <br \/>\u2003\u2003Clara cruzou as pernas no sof\u00e1, o olhar cheio de orgulho. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea merecia isso, %Arthur%. Muito antes do caos todo. <br \/>\u2003\u2003Olhei pra ela, e depois pro Marcos, que parecia cada vez mais \u00e0 vontade, mais parte da casa do que visitante. Na verdade, ele j\u00e1 era. Marcos passava tanto tempo com a gente que j\u00e1 tinha uma caneca com o nome dele na cozinha. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E pensar que at\u00e9 pouco tempo eu n\u00e3o sabia mais quem eu era&#8230; \u2014 murmurei, olhando para as minhas m\u00e3os, agora meio manchadas de grafite. <br \/>\u2003\u2003Clara inclinou a cabe\u00e7a para o lado, como quem segura uma pergunta. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E a %Alice%? \u2014 ela perguntou, delicada. Suspirei, sentindo ainda uma pontada, mas muito menor do que antes. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ela vai seguir o caminho dela. Eu vou seguir o meu. \u2014 disse. E, pela primeira vez, essa frase parecia verdade. Uma verdade limpa. Sem m\u00e1goa sufocante. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Crescimento, beb\u00ea. \u2014 Clara cantou, rindo e jogando uma almofada em mim. Eu ri tamb\u00e9m, agarrando a almofada e jogando de volta nela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora, s\u00e9rio \u2014 disse, sentando direito. \u2014 Obrigado, Clara. Por&#8230; ter me puxado de volta quando eu estava me perdendo. <br \/>\u2003\u2003Clara sorriu largamente. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vou estar sempre aqui. \u2014 ela disse. \u2014 De mochilinha pronta para invadir seu est\u00fadio se voc\u00ea deixar a arte morrer de novo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai acontecer. \u2014 prometi, em voz alta. \u2014 Eu t\u00f4 escolhendo ser feliz. <br \/>\u2003\u2003Eles sorriram ainda mais, e eu juro que naquele momento, mesmo com o caos que o mundo podia trazer, mesmo sem saber tudo o que viria\u2026 eu me senti exatamente onde precisava estar. <br \/>\u2003\u2003No lugar certo. <br \/>\u2003\u2003Com as pessoas certas. <br \/>\u2003\u2003E, principalmente, sendo <em>eu<\/em>. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Uma semana se passou. <br \/>\u2003\u2003Sete dias inteiros trabalhando no est\u00fadio <em>Bravura<\/em>, desenhando, criando, respirando arte. Sete dias onde, a cada manh\u00e3, eu acordava com uma sensa\u00e7\u00e3o estranha \u2014 mas boa \u2014 de que finalmente estava construindo alguma coisa que era minha. <br \/>\u2003\u2003O perfil no Instagram tamb\u00e9m come\u00e7ava a ganhar vida. Alguns seguidores a mais, alguns coment\u00e1rios de ilustradores que eu admirava. Pequenas conquistas que eu colecionava como quem guardava estrelas no bolso. <br \/>\u2003\u2003Ainda era cedo. Ainda era fr\u00e1gil. Mas era real. <br \/>\u2003\u2003E hoje, depois de um dia puxado no est\u00fadio \u2014 rascunhos, reuni\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o, caf\u00e9s demais \u2014, eu s\u00f3 queria chegar em casa, largar tudo num canto e relaxar. <br \/>\u2003\u2003Abri a porta da sala e encontrei Clara e Marcos esparramados no sof\u00e1, assistindo algum filme adolescente com um pote de pipoca gigante no colo. Clara gritou a plenos pulm\u00f5es assim que me viu: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Adivinha quem chegou do primeiro <em>brainstorm <\/em>sem parecer que queria jogar algu\u00e9m pela janela?! <br \/>\u2003\u2003\u2014 Olha quem fala. \u2014 resmunguei, jogando a mochila no ch\u00e3o. \u2014 Voc\u00eas mora aqui agora ou&#8230;? <br \/>\u2003\u2003Marcos, com a boca cheia de pipoca, levantou a m\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu pago aluguel em risadas. \u2014 respondeu, s\u00e9rio. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E em constrangimento alheio. \u2014 completei, me jogando na poltrona mais pr\u00f3xima, fingindo exaust\u00e3o. \u2014 Porque se eu tiver que assistir mais um filme em que adolescentes salvam o mundo enquanto usam jaquetas estilosas, eu vou pedir emancipa\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Clara jogou uma almofada em mim. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Reclam\u00e3o. Voc\u00ea ama estes filmes. \u00c9 s\u00f3 inveja porque voc\u00ea nunca foi o quarterback da escola. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Gra\u00e7as a Deus. \u2014 murmurei, pegando uma almofada para me proteger de novos ataques. <br \/>\u2003\u2003O clima era leve. Quente. De fam\u00edlia improvisada e perfeita do jeito bagun\u00e7ado que era a nossa cara. Foi ent\u00e3o que a campainha tocou. Clara deu um pulo, animada. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu atendo! \u2014 disse, j\u00e1 correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta. <br \/>\u2003\u2003Nem me mexi. Provavelmente era entrega, ou algum vizinho pedindo ajuda com algo. Voltei a encarar o filme, jogando algumas pipocas no ar e tentando acertar a boca. <br \/>\u2003\u2003Resolvi olhar para a porta, e ent\u00e3o, a vi. <br \/>\u2003\u2003%Alice%. <br \/>\u2003\u2003De jeans escuros, all star, uma blusa branca simples, o cabelo solto como raramente eu via. Linda. Desarmada. Humana. <br \/>\u2003\u2003Clara ainda sorria para ela, totalmente \u00e0 vontade, sem nem desconfiar da bomba que tinha acabado de entrar pela porta. %Alice%, por outro lado, manteve a postura impec\u00e1vel, mas os olhos&#8230; os olhos dela vacilaram. S\u00f3 por um segundo \u2014 pequeno, mas suficiente para eu ver. <br \/>\u2003\u2003O olhar dela passou de mim para Clara novamente, e foi ent\u00e3o que, com aquela voz controlada demais para ser casual, ela disse: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Desculpe. Devo estar atrapalhando. <br \/>\u2003\u2003As palavras sa\u00edram suaves, educadas, mas havia uma l\u00e2mina fina de tens\u00e3o cortando cada s\u00edlaba. <br \/>\u2003\u2003E o olhar dela? O olhar ficou em Clara por um segundo a mais do que o necess\u00e1rio, como se estivesse medindo, julgando, tentando entender que tipo de \u201camiga\u201d era aquela. <br \/>\u2003\u2003Eu travei. <br \/>\u2003\u2003Clara, completamente inocente, s\u00f3 riu, abrindo mais espa\u00e7o com o bra\u00e7o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Imagina! Pode entrar. O %Arthur% t\u00e1 ali. Fica \u00e0 vontade! <br \/>\u2003\u2003Mas %Alice%&#8230; %Alice% continuou parada, ainda olhando para ela. Ainda tentando decifrar algo que a estava corroendo por dentro \u2014 e que ela, orgulhosa do jeito que era, jamais admitiria em voz alta. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio se alongou, tenso e pesado. <br \/>\u2003\u2003E eu soube que aquela noite n\u00e3o ia terminar do jeito que eu tinha planejado. <\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><strong>\u2003\u2003Nota da autora: <\/strong>Cap\u00edtulo de transi\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o carregado de significado pra mim \u2728<br \/>\u2003\u2003Nosso Arthur finalmente teve sua vit\u00f3ria profissional, tomou coragem, escolheu ser feliz e come\u00e7ou a se reencontrar. Foi um cap\u00edtulo que eu escrevi com um sorriso bobo no rosto, porque ele merecia demais esse momento \ud83d\udc99<br \/>\u2003\u2003E j\u00e1 aviso: <strong>o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo vai ser muito especial<\/strong>. Vamos entrar pela primeira vez na cabe\u00e7a da Alice.<br \/>\u2003\u2003Sim! O cap\u00edtulo 14 ser\u00e1 todinho narrado por ela, com direito a todas as emo\u00e7\u00f5es, ang\u00fastias e verdades que s\u00f3 ela sabe. Se preparem, porque vem a\u00ed! \ud83d\udc40<br \/>\u2003\u2003E claro, n\u00e3o deixem de me contar o que acharam\u2026 eu AMO ler cada teoria e surto de voc\u00eas hahaha! Beijos!<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \u2003\u2003Nota da autora: Cap\u00edtulo de transi\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o carregado de significado pra mim \u2728\u2003\u2003Nosso Arthur finalmente teve sua vit\u00f3ria profissional, tomou coragem, escolheu ser feliz e come\u00e7ou a se reencontrar. Foi um cap\u00edtulo que eu escrevi com um sorriso bobo no rosto, porque ele merecia demais esse momento \ud83d\udc99\u2003\u2003E j\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1860],"class_list":["post-5472","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-segredo-de-escritorio"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5472"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}