{"id":5471,"date":"2025-05-19T09:00:00","date_gmt":"2025-05-19T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-17T09:02:26","modified_gmt":"2025-10-17T12:02:26","slug":"capitulo-12","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-12\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 12"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003O elevador parou no<\/span> quarto andar com um estalo seco. Ajustei a al\u00e7a da mochila no ombro, respirei fundo e sa\u00ed, tentando me preparar para o que viria. O cheiro familiar de caf\u00e9 barato e o burburinho das conversas atravessando as baias me atingiram de imediato. Era como voltar no tempo. Como voltar pra casa. <br \/>\u2003\u2003Antes que eu pudesse dar mais dois passos, Rodrigo surgiu do meio do setor, sorrindo largo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o \u00e9 que o fuj\u00e3o voltou? \u2014 anunciou, alto o suficiente para todo mundo ouvir. <br \/>\u2003\u2003As cabe\u00e7as come\u00e7aram a se virar na minha dire\u00e7\u00e3o. J\u00falia, Felipe, Beatriz, Marcel. Rodrigo veio at\u00e9 mim e me puxou para um abra\u00e7o r\u00e1pido e desajeitado, t\u00edpico dele. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Bem-vindo de volta, campe\u00e3o. Tava fazendo falta por aqui. <br \/>\u2003\u2003Alguns colegas se aproximaram tamb\u00e9m, batendo nas minhas costas, rindo, soltando piadinhas. <br \/>\u2003\u2003 \u2014 Vai dizer que n\u00e3o sentiu saudade da nossa bagun\u00e7a? \u2014 provocou Beatriz, j\u00e1 puxando uma cadeira extra para mim perto da copa. <br \/>\u2003\u2003Sorri. Ri. Devolvi os abra\u00e7os, os apertos de m\u00e3o. Parte de mim se sentia acolhido de novo naquele caos organizado, onde ningu\u00e9m exigia perfei\u00e7\u00e3o absoluta, onde ser s\u00f3 humano bastava. <br \/>\u2003\u2003Mas, conforme os minutos passavam, algo dentro de mim n\u00e3o encaixava direito. <br \/>\u2003\u2003Rodrigo me mostrou minha nova esta\u00e7\u00e3o de trabalho \u2014 a mesma de antes, com vista parcial para a rua, a cadeira meio bamba que eu sempre prometia ajustar. A equipe sugeriu um almo\u00e7o de boas-vindas para a pr\u00f3xima semana. Beatriz j\u00e1 planejava decorar minha mesa com cartazes rid\u00edculos e memes. <br \/>\u2003\u2003E eu&#8230; eu deveria estar leve. Feliz. Mas no fundo, havia um desconforto estranho. <br \/>\u2003\u2003A cadeira do novo setor rangeu quando me sentei. Liguei o computador. Tentei focar nos e-mails que come\u00e7aram a pipocar na tela, mas o eco dos saltos dela, o som de sua voz firme, o jeito como o mundo parecia girar mais r\u00e1pido quando ela estava por perto&#8230; ainda estava ali, cravado em mim. <br \/>\u2003\u2003Eu tinha voltado, mas n\u00e3o completamente. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003J\u00e1 fazia duas semanas que eu estava de volta ao setor de Planejamento. Duas semanas inteiras tentando reaprender a respirar fora daquela sala de vidro. Era estranho. N\u00e3o de um jeito ruim, exatamente \u2014 mas como quem ainda carregava o eco de um lugar onde deixou parte de si. <br \/>\u2003\u2003Eu cruzava com %Alice% \u00e0s vezes, no elevador, ou no sagu\u00e3o. Sempre de longe. Sempre de forma profissional. Um aceno breve, um &#8220;bom dia&#8221; seco, ou, muitas vezes, apenas o sil\u00eancio confort\u00e1vel \u2014 ou desconfort\u00e1vel \u2014 que passava entre n\u00f3s como uma corrente de ar. <br \/>\u2003\u2003Estava tentando me adaptar, focar e me convencer de que isso era o certo. <br \/>\u2003\u2003O que ajudava era meu novo ritual. Meu perfil no Instagram, aquele que a Clara tinha me convencido a criar, j\u00e1 contava com quase duzentos seguidores \u2014 a maioria amigos meus, dela, ou dos nossos pais. Nada muito grande. Nada que mudasse o mundo. <br \/>\u2003\u2003Mas, pra mim, era gigantesco. <br \/>\u2003\u2003Todo dia, antes ou depois do trabalho, eu postava uma ilustra\u00e7\u00e3o nova. Pequenas cenas do cotidiano, retratos aleat\u00f3rios, \u00e0s vezes apenas rabiscos soltos. Coisas minhas, que eu tinha deixado adormecer por tempo demais. <br \/>\u2003\u2003Era estranho como um gesto t\u00e3o simples podia me ancorar. <br \/>\u2003\u2003Era como se, a cada tra\u00e7o, eu estivesse dizendo para mim mesmo: <em>voc\u00ea ainda est\u00e1 aqui.<\/em> E eu estava. De um jeito novo. Mais cauteloso. Mais inteiro. Ou pelo menos, era o que eu achava. <br \/>\u2003\u2003O som da notifica\u00e7\u00e3o do grupo interno da equipe da %Alice% fez meu celular vibrar sobre a mesa, era um grupo que eu deveria ter sa\u00eddo, mas n\u00e3o sai. Peguei sem muita pressa \u2014 a maior parte do dia tinha sido tranquila \u2014, mas a mensagem me fez arquear as sobrancelhas. <br \/>\u2003\u2003<strong>Equipe:<\/strong> <em>URGENTE: Problema com relat\u00f3rio enviado ao cliente Rembrandt Group. Erro nos dados de proje\u00e7\u00e3o. Reuni\u00e3o de crise \u00e0s 16h com diretoria.<\/em> <br \/>\u2003\u2003Deslizei os dedos pela tela, abrindo o anexo. Bastou uma olhada r\u00e1pida para entender: os n\u00fameros estavam trocados, proje\u00e7\u00f5es negativas enviadas como positivas. Uma confus\u00e3o que, para um cliente como a Rembrandt, poderia soar como desonestidade. <br \/>\u2003\u2003Fechei o celular, sentindo a tens\u00e3o se espalhar pelo corpo. <br \/>\u2003\u2003%Alice%. <br \/>\u2003\u2003Era o tipo de erro que ela nunca perdoaria. <br \/>\u2003\u2003O burburinho n\u00e3o demorou a come\u00e7ar, \u00f3bvio que aquilo vazaria, e n\u00e3o tardou. Alguns colegas sussurravam no caf\u00e9, trocando olhares c\u00famplices e nervosos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea viu? \u2014 cochichou J\u00falia, puxando Beatriz pelo bra\u00e7o. \u2014 Dizem que a %Alice% levou chamada da diretoria. Da diretoria! <br \/>\u2003\u2003\u2014 A mulher que nunca erra! \u2014 completou Felipe, com olhos arregalados. \u2014 Se at\u00e9 ela t\u00e1 levando bronca, a CEO da porra toda, o apocalipse corporativo chegou. <br \/>\u2003\u2003Forcei um sorriso discreto, mas a verdade \u00e9 que um aperto desconfort\u00e1vel come\u00e7ou a crescer dentro de mim. Eu sabia que n\u00e3o era dela o erro. Pelo menos, n\u00e3o diretamente. Mariana. Era Mariana quem agora cuidava dos relat\u00f3rios. Era o primeiro grande desafio dela e ela&#8230; tinha falhado. <br \/>\u2003\u2003Meu est\u00f4mago revirou. Por ela. Mas tamb\u00e9m por %Alice%. <br \/>\u2003\u2003Voltei pro computador, tentando focar no trabalho, at\u00e9 que o ambiente ao meu redor mudou de repente. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio pesado, os olhares curiosos e o barulho dos saltos. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o. N\u00e3o pode ser. <br \/>\u2003\u2003Levantei os olhos. <br \/>\u2003\u2003E l\u00e1 estava ela. <br \/>\u2003\u2003%Alice% %Dias% atravessava o setor de Planejamento Interno como se fosse uma tempestade vestida de eleg\u00e2ncia. O blazer preto, perfeitamente ajustado ao corpo, real\u00e7ava cada linha da postura dela \u2014 impec\u00e1vel, controlada, dominante. A saia l\u00e1pis desenhava as curvas com precis\u00e3o quase cruel, e os saltos finos batiam ritmados no ch\u00e3o, como uma trilha sonora de poder. <br \/>\u2003\u2003O cabelo estava preso num coque firme, sem um fio fora do lugar, mas era no rosto dela que meus olhos se perderam primeiro. A express\u00e3o inquebr\u00e1vel, os olhos afiados, o queixo levemente erguido \u2014 a imagem viva da mulher que comandava tudo sem precisar levantar a voz. <br \/>\u2003\u2003Linda. Inating\u00edvel. <br \/>\u2003\u2003E naquele dia, mais do que nunca, <em>letal.<\/em> <br \/>\u2003\u2003Mesmo irritada \u2014 talvez principalmente por isso \u2014, ela parecia ainda mais bonita. Como se a tens\u00e3o que ela carregava deixasse seus tra\u00e7os mais vivos, mais intensos. Era o tipo de beleza que n\u00e3o se explicava; s\u00f3 se sentia. E eu sentia. Cada passo dela reverberava em mim, cada movimento preciso, cada desvio m\u00ednimo dos olhos, cada respira\u00e7\u00e3o contida&#8230; Tudo me puxava como gravidade. <br \/>\u2003\u2003Quem n\u00e3o a conhecesse pensaria que ela estava apenas no controle, como sempre, mas eu sabia, eu conhecia a diferen\u00e7a. A rigidez no maxilar. O jeito como os dedos estavam levemente fechados, como se precisasse conter alguma coisa. A tens\u00e3o no pesco\u00e7o, mesmo sob a gola da blusa impec\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003%Alice% %Dias% estava irritada. <br \/>\u2003\u2003E ainda assim, era a coisa mais linda e perigosa que j\u00e1 tinha pisado naquele andar. <br \/>\u2003\u2003%Alice% parou a poucos passos de dist\u00e2ncia. O setor inteiro parecia ter congelado. O som dos teclados diminuiu. As conversas morreram. S\u00f3 o eco dos saltos dela ainda parecia vibrar no ar, como se o pr\u00f3prio pr\u00e9dio soubesse quem tinha acabado de chegar. <br \/>\u2003\u2003Ela me encarou com aquela intensidade silenciosa que era s\u00f3 dela \u2014 como se, em uma olhada, pudesse atravessar todas as barreiras que eu tentava manter de p\u00e9. Meu corpo inteiro ficou alerta. O cora\u00e7\u00e3o batendo num ritmo descompassado, as m\u00e3os suando levemente. <br \/>\u2003\u2003%Alice% n\u00e3o precisou elevar a voz, bastou um gesto m\u00ednimo \u2014 um aceno curto com a cabe\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, preciso falar com voc\u00ea. Agora. \u2014 disse, com aquela calma cortante que era quase mais perigosa do que se estivesse gritando. <br \/>\u2003\u2003Dei um passo em sua dire\u00e7\u00e3o, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Rodrigo surgiu, como se tivesse sentido o cheiro da confus\u00e3o no ar. Ele veio quase trotando do fundo do setor, ajeitando a camisa amassada e sorrindo de um jeito nervoso. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Senhorita %Dias%! \u2014 cumprimentou, a voz dois tons mais alta que o normal. \u2014 Se precisar de uma sala para conversar, pode usar a minha. Fique \u00e0 vontade! \u2014 apontou com uma m\u00e3o apressada para sua pr\u00f3pria porta, praticamente escancarando o espa\u00e7o para ela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada. \u2014 %Alice% respondeu, seca, sem perder tempo com sorrisos diplom\u00e1ticos. Seus olhos n\u00e3o se desviaram de mim nem por um segundo. <br \/>\u2003\u2003O recado estava dado: <em>era para mim.<\/em> <br \/>\u2003\u2003Rodrigo me lan\u00e7ou um olhar quase solid\u00e1rio \u2014 como quem sabia que eu estava sendo jogado aos le\u00f5es \u2014, mas deu dois passos para tr\u00e1s, recuando como um bom sobrevivente. <br \/>\u2003\u2003Ajeitei rapidamente a gola da camisa e segui %Alice% at\u00e9 a sala improvisada, sentindo todos os olhares me acompanharem como uma prociss\u00e3o silenciosa. Quando a porta se fechou atr\u00e1s de n\u00f3s, o mundo inteiro pareceu desaparecer. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3 restava ela. <br \/>\u2003\u2003E eu. <br \/>\u2003\u2003E algo no ar entre n\u00f3s que parecia prestes a explodir. <br \/>\u2003\u2003%Alice% caminhou at\u00e9 a mesa do Rodrigo com passos controlados, mas dava para ver na rigidez dos ombros que ela estava segurando o pr\u00f3prio temperamento com r\u00e9deas curtas. <br \/>\u2003\u2003Eu fiquei de p\u00e9, esperando, sem saber direito onde colocar as m\u00e3os \u2014 se no bolso, cruzadas, ou simplesmente largadas ao lado do corpo. No fim, s\u00f3 fiquei ali, tentando parecer mais inteiro do que estava por dentro. <br \/>\u2003\u2003Ela virou, enfim, para me encarar. O blazer preto moldava sua silhueta com perfei\u00e7\u00e3o cruel, e os olhos \u2014 normalmente t\u00e3o afiados \u2014 agora carregavam algo mais. Uma tens\u00e3o misturada com cansa\u00e7o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 O relat\u00f3rio do Rembrandt Group. \u2014 come\u00e7ou, a voz baixa, mas firme. \u2014 Houve um erro grave. <br \/>\u2003\u2003Assenti devagar, mesmo sem saber exatamente onde aquilo ia dar. Ela avan\u00e7ou um passo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mariana&#8230; \u2014 hesitou por um segundo, e eu vi, vi de verdade, como foi dif\u00edcil pra ela dizer o que viria a seguir. \u2014 A Mariana errou. Deixou passar dados trocados. O cliente recebeu o documento errado. <br \/>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio, absorvendo o peso daquilo. Era o tipo de erro que podia afundar uma negocia\u00e7\u00e3o inteira. E, para algu\u00e9m como %Alice% %Dias%, era mais do que um erro. Era um golpe. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A diretoria me pressionou. \u2014 continuou, cruzando os bra\u00e7os como se precisasse de algo para se apoiar. Respirou fundo, sem drama, apenas com aquele jeito pr\u00e1tico que escondia tudo o que ela n\u00e3o sabia dizer. \u2014 Eu nunca&#8230; fui pressionada desse jeito, <em>eu <\/em>sou quem pressiono as pessoas. <br \/>\u2003\u2003Minha garganta apertou ao ver a maneira como ela segurava as pr\u00f3prias palavras. %Alice%, t\u00e3o inquebr\u00e1vel, agora tinha rachaduras invis\u00edveis. Dei um passo mais pr\u00f3ximo, instintivamente. <br \/>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea precisa de mim? \u2014 perguntei, a voz saindo mais macia do que eu pretendia. Ela piscou devagar, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Preciso que me ajude a corrigir isso. \u2014 disse, por fim. \u2014 Discretamente. Antes que piore. <br \/>\u2003\u2003Engoli seco. N\u00e3o porque n\u00e3o queria ajudar, mas porque v\u00ea-la assim, vulner\u00e1vel daquele jeito silencioso, me fazia querer atravessar o maldito sal\u00e3o inteiro, colocar o mundo abaixo e dizer que ela n\u00e3o precisava carregar tudo sozinha. Mesmo sabendo que ela jamais pediria isso. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Claro. \u2014 respondi, firme. \u2014 Me diga o que voc\u00ea precisa. <br \/>\u2003\u2003%Alice% soltou o ar devagar, como se aquele pequeno gesto de confian\u00e7a j\u00e1 fosse um al\u00edvio maior do que ela gostaria de admitir. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Quero refazer o relat\u00f3rio do zero. Rever todos os dados. Checar cada informa\u00e7\u00e3o. Preciso que voc\u00ea supervise isso comigo. \u2014 sua voz tremeu s\u00f3 um pouco, impercept\u00edvel para quem n\u00e3o a conhecesse t\u00e3o bem quanto eu. \u2014 Preciso garantir que, dessa vez, seja impec\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003Assenti, sentindo algo quente se espalhar pelo peito. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era apenas trabalho. <br \/>\u2003\u2003Era ela confiando em mim. Ainda. Mesmo depois de tudo, mesmo depois do que fomos \u2014 ou quase fomos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Quando voc\u00ea quiser come\u00e7ar. \u2014 disse. <br \/>\u2003\u2003Ela me olhou por um instante, o olhar firme, mas com uma rachadura sutil na muralha que ela ergueu. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora. \u2014 respondeu, como se qualquer outra op\u00e7\u00e3o fosse inaceit\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003%Alice% saiu da sala do Rodrigo sem esperar por mim. Os saltos dela batiam firmes no ch\u00e3o, anunciando sua irrita\u00e7\u00e3o como uma sirene silenciosa enquanto atravessava o setor. <br \/>\u2003\u2003Parei por um segundo, ajeitando a camisa e respirando fundo. Precisava pegar meu notebook antes de acompanh\u00e1-la \u2014 e, honestamente, tamb\u00e9m precisava de uns segundos a mais para recompor o que a presen\u00e7a dela fazia comigo. <br \/>\u2003\u2003Atravessei a baia, peguei o notebook e os documentos necess\u00e1rios, sentindo os olhares curiosos do setor pesarem sobre minhas costas. Quando voltei, %Alice% j\u00e1 esperava no corredor, bra\u00e7os cruzados, impaciente. <br \/>\u2003\u2003Sem dizer uma palavra, ela virou nos calcanhares e seguiu em dire\u00e7\u00e3o ao elevador. Eu a acompanhei em sil\u00eancio. <br \/>\u2003\u2003O trajeto at\u00e9 sua sala foi r\u00e1pido \u2014 e silencioso. Quando chegamos, o cen\u00e1rio que nos recebeu foi ainda pior do que eu imaginava: Mariana estava sentada \u00e0 pr\u00f3pria mesa, com os olhos inchados de tanto chorar. Tentava disfar\u00e7ar a vermelhid\u00e3o com as costas da m\u00e3o, mas era in\u00fatil. O rosto dela denunciava tudo: a vergonha, o medo, o peso esmagador de ter errado. <br \/>\u2003\u2003%Alice% passou por ela como um furac\u00e3o contido \u2014 sem diminuir o passo, sem desviar o olhar, mas n\u00e3o sem deixar claro o que sentia: bufou alto, um som carregado de exaspera\u00e7\u00e3o que ecoou no corredor silencioso. <br \/>\u2003\u2003Meus olhos imediatamente se voltaram para Mariana. Ela j\u00e1 era pequena naquela cadeira, mas depois desse gesto&#8230; parecia ainda menor. Segurei o notebook com for\u00e7a e me virei levemente para tr\u00e1s, chamando-a num tom baixo, mas firme: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mariana. \u2014 sibilei. \u2014 Vem! <br \/>\u2003\u2003Ela me olhou, hesitante, como se n\u00e3o tivesse certeza se era uma ordem ou um convite. Assenti discretamente, incentivando-a. Mariana se levantou, ajeitando a barra do vestido com as m\u00e3os tr\u00eamulas, e nos seguiu com passos curtos e indecisos. <br \/>\u2003\u2003%Alice% n\u00e3o olhou para tr\u00e1s. Entrou direto na sala de reuni\u00f5es e se postou \u00e0 cabeceira da mesa, o ar ao redor dela pesado como chumbo. Coloquei o notebook na mesa e abri o relat\u00f3rio. Mariana ficou de p\u00e9, sem saber onde se colocar. <br \/>\u2003\u2003%Alice% cruzou os bra\u00e7os e a encarou como se fosse uma folha em branco prestes a ser rasgada. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea revisou esse relat\u00f3rio antes de enviar? \u2014 perguntou, a voz gelada. Mariana abriu a boca, mas nenhum som saiu de imediato. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu&#8230; eu revisei, mas&#8230; \u2014 ela engoliu em seco \u2014, mas eu n\u00e3o percebi que o arquivo estava desatualizado. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o percebeu. \u2014 %Alice% repetiu, como se saboreasse o gosto amargo das palavras. \u2014 Um detalhe que poderia custar milh\u00f5es \u00e0 empresa passou despercebido porque voc\u00ea n\u00e3o percebeu. <br \/>\u2003\u2003Mariana baixou o olhar, e eu vi quando ela se encolheu ainda mais. %Alice% se aproximou dela, devagar, como quem vai fustigar uma presa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 inaceit\u00e1vel. \u2014 disse, cada s\u00edlaba mais cortante que a outra. \u2014 E eu n\u00e3o tenho tempo para <em>babysitters<\/em>. <br \/>\u2003\u2003Mariana tremeu visivelmente. E foi a\u00ed que eu n\u00e3o aguentei. Fechei o notebook com for\u00e7a, fazendo um som seco ecoar pela sala. %Alice% me olhou, surpresa. Eu mantive o olhar firme no dela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Chega. \u2014 disse, a voz baixa, controlada, mas firme. Ela arqueou uma sobrancelha, o rosto numa m\u00e1scara de frieza. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, isso \u00e9 uma quest\u00e3o de responsabilidade. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E ela sabe disso. \u2014 rebati. \u2014 Voc\u00ea acha que ela n\u00e3o est\u00e1 sentindo o suficiente? Que ela n\u00e3o vai carregar isso por semanas, talvez meses? \u2014 Inclinei levemente o corpo \u00e0 frente. \u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo agora n\u00e3o \u00e9 consertar o erro. \u00c9 esmagar. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio caiu pesado entre n\u00f3s. Mariana parecia prestes a chorar de novo, mas se obrigava a ficar de p\u00e9. <br \/>\u2003\u2003%Alice% fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como quem engolia a raiva. Quando voltou a me encarar, havia algo diferente ali. N\u00e3o era apenas irrita\u00e7\u00e3o, era algo que misturava frustra\u00e7\u00e3o e&#8230; culpa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea acha que eu sou cruel. \u2014 disse ela, a voz mais baixa agora. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 respondi sem hesitar. \u2014 Eu acho que voc\u00ea esquece que os outros tamb\u00e9m sentem. Que nem todo mundo \u00e9 feito de a\u00e7o como voc\u00ea. <br \/>\u2003\u2003As palavras pairaram entre n\u00f3s, carregadas demais para serem ignoradas. <br \/>\u2003\u2003%Alice% desviou o olhar. Por um segundo, a CEO inflex\u00edvel que todos conheciam pareceu apenas&#8230; humana. Forte. Orgulhosa. Assustada. <br \/>\u2003\u2003Ela respirou fundo novamente e virou para Mariana, o tom menos cortante desta vez: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sente-se. Vamos refazer o relat\u00f3rio. Juntos. <br \/>\u2003\u2003Mariana piscou, surpresa, mas obedeceu de imediato, sentando-se na cadeira mais pr\u00f3xima. %Alice% n\u00e3o disse mais nada. Apenas se sentou, abriu o notebook e come\u00e7ou a trabalhar. E eu&#8230; eu fiz o mesmo. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio entre n\u00f3s era denso, carregado demais para ser confort\u00e1vel, mas, de algum jeito estranho, n\u00e3o era hostil. Era um sil\u00eancio de reconstru\u00e7\u00e3o, de quem sabia que, apesar dos estragos, ainda havia algo ali que valia a pena tentar salvar. <br \/>\u2003\u2003Enquanto revis\u00e1vamos o relat\u00f3rio juntos, vi de relance a forma como ela, de tempos em tempos, olhava de soslaio para o que eu fazia \u2014 como se buscasse, sem admitir, a minha aprova\u00e7\u00e3o. Ou talvez, de forma ainda mais sutil, como se buscasse apoio. <br \/>\u2003\u2003E foi ali, naquele gesto quase impercept\u00edvel, que eu percebi. Minha opini\u00e3o importava para %Alice%. N\u00e3o oficialmente, n\u00e3o verbalmente \u2014 ainda era a %Alice% %Dias%, afinal. Mas, de alguma maneira, eu j\u00e1 tinha atravessado barreiras que ela jurava serem intranspon\u00edveis. Eu j\u00e1 era algu\u00e9m que ela&#8230; escutava. <br \/>\u2003\u2003E, naquele momento, mesmo com todas as feridas abertas, com toda a dist\u00e2ncia que tent\u00e1vamos fingir que existia entre n\u00f3s, isso foi suficiente para manter meu cora\u00e7\u00e3o batendo firme no peito. <br \/>\u2003\u2003Porque \u00e0s vezes, as vit\u00f3rias mais importantes eram assim. Silenciosas. E talvez, s\u00f3 talvez, %Alice% ainda estivesse aprendendo a vencer&#8230; sem precisar destruir quem tentava caminhar ao lado dela. <br \/>\u2003\u2003O tempo passou devagar enquanto a gente revisava o relat\u00f3rio, linha por linha, n\u00famero por n\u00famero. %Alice%, met\u00f3dica como sempre, corrigia as informa\u00e7\u00f5es com precis\u00e3o cir\u00fargica. Eu, mais atento do que nunca, apontava inconsist\u00eancias sutis que, em outro momento, talvez tivessem passado despercebidas at\u00e9 para ela. <br \/>\u2003\u2003Mariana trabalhava em sil\u00eancio ao nosso lado, o semblante ainda tenso, mas j\u00e1 sem o p\u00e2nico estampado no rosto. \u00c0s vezes, eu explicava alguma coisa a ela num tom baixo, paciente, e percebia o jeito que %Alice% desviava os olhos da tela por meio segundo, como se estivesse anotando mentalmente a diferen\u00e7a de abordagem. <br \/>\u2003\u2003Era como se estiv\u00e9ssemos&#8230; sincronizados. De um jeito estranho e inesperado, como duas pe\u00e7as que tinham aprendido \u2014 \u00e0 for\u00e7a \u2014 a funcionar juntas, mesmo quando o encaixe do\u00eda. <br \/>\u2003\u2003Quando terminamos de revisar o relat\u00f3rio, %Alice% fechou o notebook devagar, como se pensasse no pr\u00f3ximo movimento. Seus olhos, agora mais calmos, cruzaram com os meus, e ela respirou fundo antes de falar: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mariana, pode nos dar um momento, por favor? <br \/>\u2003\u2003A garota pareceu hesitar por um segundo, olhando de mim, para ela, mas assentiu rapidamente, recolhendo os pap\u00e9is que restavam e saindo quase em um trope\u00e7o, fechando a porta atr\u00e1s de si com cuidado. <br \/>\u2003\u2003A sala mergulhou num sil\u00eancio pesado. S\u00f3 n\u00f3s dois. De novo. <br \/>\u2003\u2003%Alice% permaneceu sentada por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras a dedo. Ent\u00e3o se levantou, caminhou lentamente at\u00e9 o lado oposto da sala e apoiou as m\u00e3os na mesa, de frente pra mim. Sem a m\u00e1scara de CEO. S\u00f3 %Alice%. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu queria agradecer. \u2014 disse, a voz firme. \u2014 N\u00e3o s\u00f3 por ter ajudado com o relat\u00f3rio&#8230; mas por ter me feito enxergar que \u00e0s vezes&#8230; eu erro a m\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Pisquei, surpreso. Nunca tinha visto %Alice% admitir algo t\u00e3o&#8230; vulner\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea foi duro comigo \u2014 ela continuou, com um meio sorriso que n\u00e3o alcan\u00e7ou totalmente os olhos. \u2014 Mas era o que eu precisava ouvir. <br \/>\u2003\u2003Minha garganta fechou um pouco. Eu s\u00f3 consegui balan\u00e7ar a cabe\u00e7a, aceitando o agradecimento silenciosamente, mas %Alice% ainda n\u00e3o tinha terminado. Ela cruzou os bra\u00e7os, como se precisasse se proteger de alguma coisa, e soltou: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vi seu Instagram. \u2014 Minhas sobrancelhas arquearam de surpresa. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea&#8230; viu? \u2014 minha voz saiu mais rouca do que eu gostaria. %Alice% assentiu, o olhar cravado em mim. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mariana comentou outro dia, enquanto eu assinava uns documentos. Curiosidade me venceu. Entrei. Vi suas ilustra\u00e7\u00f5es. \u2014 Ela fez uma pausa, e o canto da boca se curvou de leve. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 bom. Muito bom, %Arthur%. <br \/>\u2003\u2003O calor subiu pelo meu rosto antes que eu pudesse controlar. Tossi discretamente, desviando o olhar para o ch\u00e3o por um segundo antes de voltar a encar\u00e1-la. <br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9&#8230; algo que eu sempre gostei de fazer. \u2014 murmurei. \u2014 Desde moleque. \u2014 %Alice% se aproximou um pouco mais, interessada. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; por que Administra\u00e7\u00e3o? \u2014 Suspirei, apoiando as m\u00e3os na beirada da cadeira. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Porque desenhar n\u00e3o pagava as contas. \u2014 confessei, com um meio sorriso cansado. \u2014 Eu precisava de algo seguro, est\u00e1vel. E a faculdade de Administra\u00e7\u00e3o parecia o caminho mais&#8230; sensato. <br \/>\u2003\u2003%Alice% me estudou por um momento, como se enxergasse mais do que eu dizia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas sensato n\u00e3o \u00e9 o mesmo que apaixonante. <br \/>\u2003\u2003Aquela frase ficou pairando no ar. T\u00e3o \u00f3bvia e t\u00e3o&#8230; cortante. De alguma forma, %Alice% sempre via atrav\u00e9s das defesas que eu tentava construir. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 admiti, baixinho. \u2014 N\u00e3o \u00e9. <br \/>\u2003\u2003Ela se aproximou ainda mais, at\u00e9 estar de p\u00e9 ao lado da cadeira onde eu estava sentado. A dist\u00e2ncia era pequena demais, \u00edntima demais. Meu cora\u00e7\u00e3o bateu forte, e eu precisei me concentrar em manter a respira\u00e7\u00e3o est\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Quando voc\u00ea desenha&#8230; \u2014 %Alice% disse, baixando o tom de voz, como se confessasse um segredo \u2014 &#8230;\u00e9 como se tivesse algo ali que&#8230; transborda. Como se fosse a sua verdade. <br \/>\u2003\u2003Olhei para ela, surpreso n\u00e3o s\u00f3 pelas palavras, mas pela sinceridade no olhar. %Alice% n\u00e3o falava bonito \u00e0 toa. Se ela dizia aquilo, era porque tinha sentido. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu ainda t\u00f4 tentando lembrar quem eu sou nisso tudo. \u2014 confessei num sussurro. \u2014 Mas&#8230; desenhar sempre foi o que me fazia sentir vivo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o talvez&#8230; \u2014 ela come\u00e7ou, a voz suave \u2014 esteja na hora de come\u00e7ar a viver pra isso. <br \/>\u2003\u2003O peso daquela frase me acertou em cheio. Tanto pelo que dizia&#8230; quanto pelo fato de que era ela dizendo. %Alice% %Dias%. A mulher que raramente deixava espa\u00e7o para sonhos. Estava ali, plantando um deles na minha frente. <br \/>\u2003\u2003Fiquei sem rea\u00e7\u00e3o. S\u00f3 conseguia encar\u00e1-la, sentindo que algo entre n\u00f3s mudava \u2014 mais uma vez. De um jeito lento, silencioso&#8230; mas ineg\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003%Alice% desviou o olhar depois de alguns segundos, como se tivesse se permitido demais. Pegou a caneta que estava esquecida na mesa, fingindo reorganizar pap\u00e9is. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Era s\u00f3 isso. \u2014 disse, voltando a vestir a armadura da CEO, ainda que um pouco trincada agora. <br \/>\u2003\u2003Assenti, sem conseguir impedir o sorriso discreto que se formava nos meus l\u00e1bios. Levantei, peguei o notebook, e enquanto caminhava at\u00e9 a porta, me permiti olhar para ela uma \u00faltima vez. <br \/>\u2003\u2003%Alice% continuava de costas, fingindo trabalhar, mas a tens\u00e3o sutil nos ombros dela entregava o que as palavras n\u00e3o diziam: ela sentia. <br \/>\u2003\u2003E, de algum modo, mesmo sem admitir, ela torcia por mim. <br \/>\u2003\u2003Por n\u00f3s. <br \/>\u2003\u2003De um jeito que ela ainda n\u00e3o sabia nomear \u2014 mas que, no fundo, j\u00e1 existia. <br \/>\u2003\u2003Quando sa\u00ed da sala de reuni\u00f5es \u2014 ou melhor, da trincheira tempor\u00e1ria montada pela %Alice% \u2014, tentei ajeitar o notebook debaixo do bra\u00e7o e puxar uma respira\u00e7\u00e3o que limpasse o caos interno. O corredor do andar da diretoria estava silencioso, profissional at\u00e9 demais. Ningu\u00e9m comentava nada. Ningu\u00e9m encarava. Mas eu sabia que, ali, as pessoas sabiam das coisas mesmo sem olhar, era o tipo de sil\u00eancio que pesava. <br \/>\u2003\u2003Apertei o bot\u00e3o do elevador e, enquanto as portas se fechavam, encostei a cabe\u00e7a brevemente na parede de a\u00e7o polido. &#8220;Finge costume, %Arthur%.&#8221; Era isso que me restava fazer. <br \/>\u2003\u2003Quando o elevador chegou ao andar de Planejamento, o cen\u00e1rio era completamente diferente. O burburinho habitual, as conversas atravessadas nas baias, as canecas de caf\u00e9 disputando espa\u00e7o nas mesas. Era ca\u00f3tico. Mas era familiar. <br \/>\u2003\u2003E bastou dar alguns passos para sentir os olhares. Meus colegas n\u00e3o eram discretos, nem um pouco. J\u00falia foi a primeira a largar o que estava fazendo, piscando exageradamente quando me viu: <br \/>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o \u00e9 que voltou vivo? \u2014 sussurrou alto o suficiente para metade do setor ouvir. <br \/>\u2003\u2003Beatriz levantou a cabe\u00e7a da tela do computador e sorriu de canto: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Achei que ia ter que come\u00e7ar a preparar um tributo em sua mem\u00f3ria, %Arthur%. <br \/>\u2003\u2003Felipe girou na cadeira como se estivesse num programa de audit\u00f3rio e apontou pra mim: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas olha s\u00f3&#8230; t\u00e1 at\u00e9 sorrindo! \u2014 provocou, rindo. \u2014 Pra quem acabou de tapar buraco de relat\u00f3rio errado, t\u00e1 muito felizinho, hein. <br \/>\u2003\u2003Senti o rosto esquentar na hora. Cruzei os bra\u00e7os sobre o notebook, tentando parecer impass\u00edvel e falhando miseravelmente. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o tem nada a ver. \u2014 rebati, seco, o que s\u00f3 fez os sorrisos se alargarem ainda mais. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Uhum, claro \u2014 murmurou J\u00falia, escondendo a risada atr\u00e1s da caneca de caf\u00e9. \u2014 A gente acredita. <br \/>\u2003\u2003Beatriz n\u00e3o deixou passar: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora, falando s\u00e9rio&#8230; \u2014 ela abaixou a voz, conspirat\u00f3ria \u2014 meu Deus, n\u00e9? Que mulher. Que presen\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A %Alice% de perto \u00e9&#8230; \u2014 Felipe balan\u00e7ou a cabe\u00e7a como se ainda estivesse impressionado \u2014 \u00e9 outro n\u00edvel. Uma aula de classe e intimida\u00e7\u00e3o em forma humana. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Parece que ela nasceu pra mandar na porra toda \u2014 completou Rafael, rindo. \u2014 D\u00e1 pra entender porque todo mundo que trabalha direto pra ela anda na linha. <br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 bonita de um jeito que voc\u00ea nem sabe se admira ou se pede licen\u00e7a para existir no mesmo ambiente \u2014 soltou J\u00falia, arrancando uma gargalhada geral. <br \/>\u2003\u2003Tentei n\u00e3o reagir. Tentei, de verdade. Mas a imagem dela veio \u00e0 minha cabe\u00e7a na hora: o blazer preto impec\u00e1vel, o cabelo arrumado, o olhar de quem atravessava qualquer sala como se fosse dona do lugar \u2014 porque era mesmo. <br \/>\u2003\u2003E pra mim\u2026 pra mim, ela era tudo isso. E ainda mais. Era imposs\u00edvel resumir o que eu sentia. O que me atravessava toda vez que ela estava por perto. <br \/>\u2003\u2003Revirei os olhos e bati com a palma da m\u00e3o na borda da minha mesa, meio brincando, meio s\u00e9rio: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Bora trabalhar, gente! \u2014 falei. \u2014 Ou querem que a %Alice% des\u00e7a aqui pra pegar no p\u00e9 de todo mundo? <br \/>\u2003\u2003O efeito foi imediato: o pessoal fingiu voltar ao trabalho, mas as risadinhas e olhares c\u00famplices ainda pairavam no ar. <br \/>\u2003\u2003Me sentei na minha cadeira, abrindo o notebook na tentativa desesperada de focar nos n\u00fameros, nos relat\u00f3rios, nos gr\u00e1ficos\u2026 mas era in\u00fatil. O toque leve da voz dela ainda ecoava na minha cabe\u00e7a. O jeito como ela tinha falado do meu Instagram. O jeito como ela tinha me olhado, como se&#8230; se importasse. <br \/>\u2003\u2003Foi quando o celular, largado ao lado do notebook, vibrou. Uma notifica\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria acendeu a tela. <br \/>\u2003\u2003<strong>[%Alice%.%Dias%] come\u00e7ou a seguir voc\u00ea.<\/strong> <br \/>\u2003\u2003Eu congelei. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era poss\u00edvel. <br \/>\u2003\u2003Olhei de novo. <br \/>\u2003\u2003Sim. Era real. <br \/>\u2003\u2003Minha garganta secou na hora, o cora\u00e7\u00e3o disparando como se eu estivesse no meio de uma maratona e n\u00e3o sentado numa baia qualquer. Tentei racionalizar. Talvez fosse s\u00f3&#8230; curiosidade profissional? Uma forma educada de apoiar? Mas quando se tratava de %Alice% %Dias%, nada era t\u00e3o simples. <br \/>\u2003\u2003A vontade de abrir o perfil e ver se ela tinha curtido alguma coisa era quase irresist\u00edvel. Mas, com metade do setor me espiando por cima dos monitores, forcei a manter o celular virado para baixo e tentei ignorar o calor subindo pelo meu pesco\u00e7o. <br \/>\u2003\u2003Foco, %Arthur%. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A noite chegou trazendo consigo um misto estranho de ansiedade e exaust\u00e3o. Clara tinha avisado mais cedo que ia trazer o Marcos pra jantar com a gente \u2014 o &#8220;tal&#8221; Marcos, aquele que at\u00e9 ent\u00e3o era s\u00f3 um nome e algumas descri\u00e7\u00f5es suspeitas. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Se comporta, hein. \u2014 ela disse, antes de sair correndo pro mercado no fim da tarde pra comprar ingredientes. <br \/>\u2003\u2003Agora, eu estava no sof\u00e1 da sala, de camiseta e cal\u00e7a jeans, fingindo ver TV, mas na verdade&#8230; esperando. De bra\u00e7os cruzados, batendo o p\u00e9 no ch\u00e3o sem nem perceber. <br \/>\u2003\u2003Quando a porta se abriu, ouvi os passos r\u00e1pidos dela e, logo depois, um segundo par de passos mais contidos. Me levantei automaticamente, como um general esperando inspe\u00e7\u00e3o. Clara apareceu primeiro, um sorriso largo no rosto. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, esse \u00e9 o Marcos. \u2014 disse, quase cantarolando de tanta empolga\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Meu olhar recaiu sobre ele. Marcos era mais baixo do que eu imaginava, cabelo castanho bagun\u00e7ado, \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o fina, usando uma camisa polo azul-marinho que claramente ele tinha escolhido com muito cuidado. Carregava uma garrafa de vinho numa m\u00e3o e um sorriso nervoso na outra. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Boa noite, senhor. \u2014 ele disse, estendendo a m\u00e3o pra mim. Franzi o cenho na hora. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Senhor? \u2014 arqueei uma sobrancelha, aceitando o aperto de m\u00e3o. \u2014 Quantos anos voc\u00ea acha que eu tenho, moleque? \u2014 Ele ficou vermelho at\u00e9 as orelhas. <br \/>\u2003\u2003\u2014 D-desculpa. \u00c9 o costume. Educa\u00e7\u00e3o, sabe? \u2014 gaguejou, tentando se recuperar. Clara bufou, passando entre n\u00f3s dois e batendo de leve no meu ombro. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Para de assustar ele, %Arthur%. Ele j\u00e1 \u00e9 t\u00edmido, coitado. <br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00edmido? \u2014 repeti, encarando o garoto. \u2014 T\u00edmido \u00e9 bom. Mant\u00e9m ele longe de problemas. \u2014 Marcos soltou uma risadinha nervosa, ajeitando os \u00f3culos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu&#8230; s\u00f3 quero fazer a Clara feliz. \u2014 disse, com uma sinceridade t\u00e3o pura que at\u00e9 eu, com toda a pose de irm\u00e3o mais velho carrancudo, precisei respirar fundo para n\u00e3o ceder. Clara rolou os olhos, rindo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele \u00e9 fofo, n\u00e9? Eu disse. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Fofo demais. \u2014 murmurei, fingindo resigna\u00e7\u00e3o. \u2014 Daqueles que a gente guarda no bolso pra proteger do mundo. \u2014 Ela soltou uma gargalhada, puxando Marcos pela m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Vem, antes que ele resolva mudar de ideia e te bote pra correr. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o corro. \u2014 Marcos respondeu, ainda t\u00edmido, mas firme, arrancando de mim um meio sorriso que tentei esconder. <br \/>\u2003\u2003Passamos a noite jantando lasanha, Clara rindo de cada hist\u00f3ria embara\u00e7osa minha que ela podia lembrar, e Marcos, aos poucos, se soltando. Ele falava sobre os projetos da faculdade, sobre a paix\u00e3o por astronomia, sobre o sonho de trabalhar com engenharia aeroespacial. E, mesmo que uma parte de mim ainda estivesse em alerta \u2014 irm\u00e3o mais velho \u00e9 assim, n\u00e3o tem jeito \u2014, n\u00e3o dava pra negar: ele era um bom garoto. <br \/>\u2003\u2003No fim da noite, enquanto Clara e Marcos lavavam a lou\u00e7a juntos, trocando risadas e olhares c\u00famplices que diziam muito mais do que palavras, peguei o celular largado na poltrona. O \u00edcone do Instagram ainda piscava discretamente na barra de notifica\u00e7\u00f5es. Com o cora\u00e7\u00e3o meio apertado \u2014 e curioso demais \u2014, desbloqueei a tela e abri o aplicativo. <br \/>\u2003\u2003Primeiro, l\u00e1 estava ela. <br \/>\u2003\u2003<strong>[%Alice%.%Dias%] come\u00e7ou a seguir voc\u00ea.<\/strong> <br \/>\u2003\u2003Nenhuma curtida. Nenhum coment\u00e1rio. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3 aquilo. Simples. Silencioso. Mas, vindo dela&#8230; Aquilo era quase uma confiss\u00e3o velada. Um &#8220;eu vejo voc\u00ea&#8221; traduzido na linguagem fria das redes sociais. <br \/>\u2003\u2003Sorri sozinho, baixinho, sentindo o peso de tudo o que %Alice% %Dias% significava para mim, e o quanto, ainda assim, ela conseguia mexer comigo com um gesto t\u00e3o pequeno. <br \/>\u2003\u2003Mas antes que pudesse me perder nesse pensamento de novo, outra notifica\u00e7\u00e3o me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Uma mensagem direta, que tinha chegado horas antes \u2014 antes mesmo das 18h \u2014 mas que, na correria do dia, eu n\u00e3o tinha visto. <br \/><strong>[Studio Bravura Ilustra\u00e7\u00e3o]:<\/strong> \u2003\u2003<em>&#8220;Ol\u00e1, %Arthur%! Acompanhamos algumas das suas postagens recentes e adoramos seu estilo. Estamos em busca de novos talentos para integrar nossa equipe de ilustradores. Gostar\u00edamos de convid\u00e1-lo para uma conversa inicial. Se tiver interesse, por favor, nos envie seu e-mail para agendarmos.&#8221;<\/em> <br \/>\u2003\u2003Fiquei paralisado por alguns segundos. Olhei para a tela como se ela estivesse brincando comigo, mas n\u00e3o. Estava l\u00e1. Real. Verdadeiro. <br \/>\u2003\u2003Algu\u00e9m \u2014 al\u00e9m da %Alice%, al\u00e9m dos meus amigos, al\u00e9m da Clara \u2014 tinha visto o que eu fazia e queria me dar uma chance. O sorriso que escapou dos meus l\u00e1bios dessa vez n\u00e3o foi t\u00edmido. Foi largo. Cheio. Vivo. <br \/>\u2003\u2003Olhei para a cozinha, onde Clara ria de algo que Marcos tinha dito, e senti uma onda estranha e boa invadir meu peito. Talvez&#8230; talvez tudo estivesse come\u00e7ando a mudar. E, pela primeira vez em muito tempo, essa mudan\u00e7a parecia menos assustadora \u2014 e mais minha. <\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><strong>\u2003\u2003Nota da autora:<\/strong> Que tudoooo, meu povo! Nosso menino %Arthur% recebendo convite para entrevista\u2026 curioso que foi logo depois da conversa com a %Alice%, n\u00e9? \ud83d\udc40 Coincid\u00eancia ou o universo conspirando?<br \/>\u2003\u2003Ser\u00e1 que vem a\u00ed o <em>debut<\/em> oficial do rapaz?<br \/>\u2003\u2003A gente descobre na pr\u00f3xima atualiza\u00e7\u00e3o!<br \/>\u2003\u2003Beijooo<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 [Studio Bravura Ilustra\u00e7\u00e3o]: \u2003\u2003Nota da autora: Que tudoooo, meu povo! Nosso menino %Arthur% recebendo convite para entrevista\u2026 curioso que foi logo depois da conversa com a %Alice%, n\u00e9? \ud83d\udc40 Coincid\u00eancia ou o universo conspirando?\u2003\u2003Ser\u00e1 que vem a\u00ed o debut oficial do rapaz?\u2003\u2003A gente descobre na pr\u00f3xima atualiza\u00e7\u00e3o!\u2003\u2003Beijooo<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1860],"class_list":["post-5471","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-segredo-de-escritorio"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}