{"id":5470,"date":"2025-05-07T08:59:00","date_gmt":"2025-05-07T11:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-17T09:00:36","modified_gmt":"2025-10-17T12:00:36","slug":"capitulo-11","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-11\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 11"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Ouvi os saltos dela<\/span> ecoando no corredor antes mesmo de v\u00ea-la. Era sempre assim \u2014 o aviso sonoro de que %Alice% %Dias% estava em modo CEO implac\u00e1vel. Voz firme, passos r\u00e1pidos, olhar que atravessava a alma. E hoje, ela carregava uma pasta com curr\u00edculos como se estivesse prestes a selecionar algu\u00e9m para assumir o controle de uma miss\u00e3o espacial. <br \/>\u2003\u2003Passei perto da sala de reuni\u00f5es e escutei a voz dela subir um pouco. N\u00e3o era comum. %Alice% raramente perdia a compostura \u2014 pelo menos n\u00e3o em p\u00fablico. Mas ali, entre os vidros da sala, dava para sentir o tom da tens\u00e3o que pairava. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada por ter vindo. \u2014 disse ela, j\u00e1 com a m\u00e3o na ma\u00e7aneta antes mesmo de a candidata se levantar. \u2014 Nosso time vai entrar em contato. Pr\u00f3xima, por favor. <br \/>\u2003\u2003A porta se abriu e uma jovem, de terninho bege e coque frouxo, saiu com a express\u00e3o de quem acabou de fazer uma prova de vestibular sem saber se foi p\u00e9ssima ou genial. Bianca, da recep\u00e7\u00e3o, deu um sorrisinho simp\u00e1tico para ela e, com um toque discreto no interfone, anunciou a pr\u00f3xima. <br \/>\u2003\u2003Na copa, tr\u00eas colegas se agrupavam, fingindo mexer no caf\u00e9 enquanto trocavam cochichos e olhares c\u00famplices. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Gente, essa j\u00e1 \u00e9 a quinta? \u2014 perguntou Bruna, sussurrando como se a pr\u00f3pria %Alice% estivesse atr\u00e1s da geladeira. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sexta, se contar a que entrou e saiu em sete minutos. \u2014 respondeu Isabela, segurando a risada. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Imagina trabalhar com ela? \u2014 murmurou Marcel, abaixando o tom. \u2014 Tipo&#8230; ser a sombra da %Alice% %Dias% o dia inteiro? <br \/>\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 se me pagarem em barras de ouro e terapia vital\u00edcia. \u2014 completou Bruna, rindo baixinho. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E o %Arthur%? Coitado, t\u00e1 desde cedo com a cara fechada. Aposto que ele t\u00e1 contando os minutos para passar o bast\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003As risadinhas se espalharam pela copa at\u00e9 que Anelise, parada mais adiante, mexendo em sua x\u00edcara de ch\u00e1, se virou para o grupo: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00eas acham mesmo que n\u00e3o tinha nada entre eles? \u2014 soltou, arqueando a sobrancelha, a voz carregada de certeza. <br \/>\u2003\u2003Bruna riu, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003\u2014 L\u00e1 vem a teoria da conspira\u00e7\u00e3o&#8230; \u2014 provocou, enquanto Isabela e Marcel trocavam olhares divertidos. <br \/>\u2003\u2003Mas Anelise cruzou os bra\u00e7os e insistiu: <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 teoria. Eu vi. \u2014 Sua voz baixou um tom, ficando quase conspirat\u00f3ria. \u2014 Aquela foto que rodou a\u00ed pelo escrit\u00f3rio? Fui eu quem tirou. <br \/>\u2003\u2003O grupo parou. As express\u00f5es mudaram de divers\u00e3o para surpresa desconfort\u00e1vel. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Aquele flagra no estacionamento? \u2014 perguntou Marcel, arregalando os olhos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sim. \u2014 confirmou Anelise, com um brilho estranho nos olhos. \u2014 Tarde da noite. Eles entrando juntos no carro dela. Claramente&#8230; \u00edntimos. Voc\u00eas acham que era s\u00f3 amizade? <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ah, pelo amor, n\u00e9&#8230; \u2014 retrucou Isabela, tentando rir. \u2014 Era s\u00f3 ele entrando no carro dela, sei l\u00e1. N\u00e3o parecia nada demais na foto. <br \/>\u2003\u2003Anelise inclinou a cabe\u00e7a, como quem guarda o golpe final. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A foto pode at\u00e9 n\u00e3o mostrar tudo. \u2014 disse, batendo de leve na mesa. \u2014 Mas quem viu ao vivo&#8230; viu. Eu vi. O jeito como ele tocou nela, como ela hesitou antes de entrar no carro&#8230; \u2014 sorriu de canto, maliciosa. \u2014 Aquilo n\u00e3o \u00e9 coisa de chefe e subordinado, n\u00e3o. \u00c9 coisa de quem luta pra n\u00e3o fazer besteira. <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio que caiu foi denso. As pessoas desviaram o olhar, mexeram nos celulares, pigarrearam \u2014 ningu\u00e9m querendo dar raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m sem coragem de chamar Anelise de louca. <br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 exagerando, Ane. \u2014 Bruna tentou amenizar, mas a risada dela saiu for\u00e7ada. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sei o que vi. \u2014 Anelise respondeu, firme, antes de sair da copa com a x\u00edcara nas m\u00e3os, deixando um rastro de d\u00favida no ar. <br \/>\u2003\u2003Eu fingia que n\u00e3o ouvia enquanto enchia minha caneca de caf\u00e9, tentando focar em qualquer coisa que n\u00e3o fosse o aperto que come\u00e7ava a crescer no peito. <br \/>\u2003\u2003Porque, no fundo, Anelise tinha raz\u00e3o. O que a gente tinha era mesmo \u00edntimo demais. Intenso\u2026 t\u00e3o intenso que aqui estava eu\u2026 apaixonado por ela. <br \/>\u2003\u2003Voltei para a minha mesa e deixei o barulho das teclas me distrair, mas o burburinho continuava ao redor. Candidatas entrando e saindo. Gente comentando. O clima da manh\u00e3 era quase de reality show corporativo \u2014 s\u00f3 que sem pr\u00eamio, sem carisma e com uma jurada que ningu\u00e9m queria decepcionar. <br \/>\u2003\u2003Na minha cabe\u00e7a, tudo aquilo soava como uma despedida disfar\u00e7ada. Cada curr\u00edculo rejeitado era, de alguma forma, mais um sinal de que a %Alice% ainda resistia a me substituir. S\u00f3 que agora\u2026 n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para essa d\u00favida. <br \/>\u2003\u2003E mais tarde, ela mesma ia deixar isso bem claro. <br \/>\u2003\u2003Na hora do almo\u00e7o, quando voltei da copa com uma caneca de caf\u00e9 quase fria na m\u00e3o, vi a porta da sala dela entreaberta. %Alice% estava sentada \u00e0 mesa de reuni\u00e3o, o blazer pendurado na cadeira, as mangas da camisa branca dobradas at\u00e9 os cotovelos, revelando os antebra\u00e7os \u2014 e sim, at\u00e9 isso nela era bonito de olhar. Os pap\u00e9is dos curr\u00edculos estavam espalhados \u00e0 sua frente como se fossem mapas de guerra. Ou v\u00edtimas de uma emboscada bem calculada. <br \/>\u2003\u2003Ela parecia exausta. O rosto mais s\u00e9rio que o normal, uma das m\u00e3os apoiando a testa, os olhos perdidos por um segundo\u2026 s\u00f3 por um segundo. Porque, no instante em que me viu ali parado, ela ergueu o rosto e me fuzilou com o olhar. <br \/>\u2003\u2003Mas eu j\u00e1 estava perdido antes disso. <br \/>\u2003\u2003Linda. Gostosa. Inalcan\u00e7\u00e1vel. %Alice% %Dias%, no auge do caos, ainda era a mulher mais irresist\u00edvel daquele andar \u2014 e, infelizmente, a que mais ferrava com a minha sanidade. <br \/>\u2003\u2003Engoli o caf\u00e9 amargo e murmurei para mim mesmo: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Idiota\u2026 \u2014 Mas n\u00e3o disse se era ela ou eu. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, pode entrar. \u2014 disse, a voz firme demais para quem parecia cansada. <br \/>\u2003\u2003Fechei a porta com cuidado e fiquei ali, esperando. Ela empurrou os pap\u00e9is para longe como se estivesse assinando uma senten\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Escolhi uma. Mariana Tavares. Experi\u00eancia razo\u00e1vel, postura profissional&#8230; e, mais importante, foi a \u00fanica que n\u00e3o tentou puxar assunto sobre minha vida pessoal durante a entrevista. <br \/>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio. N\u00e3o sabia muito bem o que ela queria que eu respondesse. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora voc\u00ea est\u00e1 finalmente livre de mim, n\u00e3o \u00e9? \u2014 completou, com um sorriso curto, sem alcan\u00e7ar os olhos. <br \/>\u2003\u2003A frase bateu como um soco no est\u00f4mago. N\u00e3o pelo conte\u00fado, mas pela forma como ela disse. Como se a liberdade fosse um pr\u00eamio que eu estivesse ansiando. Como se o afastamento entre n\u00f3s fosse tudo o que eu queria. <br \/>\u2003\u2003Tentei conter qualquer rea\u00e7\u00e3o, mas acho que meus ombros denunciaram a rigidez. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A diretoria quer que ela comece na segunda. \u2014 %Alice% continuou, levantando e pegando alguns pap\u00e9is na mesa. \u2014 E, como voc\u00ea foi&#8230; impec\u00e1vel enquanto esteve aqui, gostaria que ficasse pelo menos uma semana para treinar a Mariana. Ensinar os processos, mostrar os caminhos, essas coisas. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Claro. \u2014 respondi, sem hesitar. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, mas firme. <br \/>\u2003\u2003Ela me encarou por alguns segundos, como se tentasse decifrar alguma coisa que nem ela mesma sabia que procurava. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Vai ser melhor assim. \u2014 disse, mais para ela do que para mim. Assenti, sem saber muito bem o que fazer com as m\u00e3os. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; \u00e9 isso. Segunda-feira, voc\u00ea come\u00e7a oficialmente a transi\u00e7\u00e3o. \u2014 %Alice% finalizou, voltando para tr\u00e1s da mesa, os olhos j\u00e1 mergulhados nos pap\u00e9is como se a conversa tivesse acabado. <br \/>\u2003\u2003Mas o gosto amargo ficou. As palavras dela ecoavam na minha mente com um peso estranho: &#8220;Agora voc\u00ea est\u00e1 finalmente livre de mim.&#8221; <br \/>\u2003\u2003E, por mais que aquilo fosse verdade&#8230; por mais que aquilo fosse o que eu mesmo pedi, parte de mim n\u00e3o sabia se queria mesmo essa liberdade. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A segunda-feira chegou com cheiro de caf\u00e9 requentado e a promessa de mais uma semana ca\u00f3tica. E, com ela, chegou Mariana \u2014 a nova secret\u00e1ria da %Alice%. T\u00edmida, eficiente, vestida de forma impec\u00e1vel e com um sorrisinho nervoso que entregava tudo: ela queria causar uma boa impress\u00e3o, mas j\u00e1 sentia o peso de onde estava pisando. Cumprimentou todos com educa\u00e7\u00e3o, anotou nomes com pressa e carregava uma pastinha nas m\u00e3os como se fosse uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. E %Alice%? Passou por ela como se fosse invis\u00edvel. Nem um aceno. Nem um olhar. Nada. Bem-vinda ao mundo da Srta. %Dias%. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai se acostumar com isso \u2014 comentei mais tarde, quando est\u00e1vamos na copa e ela ainda tentava entender se aquilo era um teste ou um desprezo mesmo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ela n\u00e3o me respondeu nem o \u201cbom dia\u201d\u2026 \u2014 Mariana murmurou, baixinho, mexendo no ch\u00e1. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso significa que voc\u00ea est\u00e1 no caminho certo. \u2014 Dei um gole no meu caf\u00e9 e me encostei na bancada. \u2014 %Alice% \u00e9 assim. N\u00e3o vai facilitar, vai te testar muito. \u00c0s vezes com sil\u00eancio, ou com tarefas imposs\u00edveis \u00e0s 18h55 numa sexta-feira. <br \/>\u2003\u2003Ela soltou um riso nervoso. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Parece&#8230; intenso. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu diria que \u00e9 mais como sobreviver numa floresta com uma chefe leoa. Ela sente cheiro de medo, mas, se voc\u00ea mostrar firmeza, ela respeita. E, em alguns casos, at\u00e9 manda emoji depois do expediente. \u2014 Sorri, lembrando dos absurdos que ela j\u00e1 me mandou domingo \u00e0 noite. \u2014 No meu primeiro dia, ela pediu pra eu fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o em PowerPoint de \u00faltima hora para uma reuni\u00e3o que come\u00e7ava em vinte minutos. E depois disse que era s\u00f3 um teste. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E era? <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Ela usou a apresenta\u00e7\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003Mariana riu mais abertamente agora, e eu relaxei tamb\u00e9m. Ensinar algu\u00e9m para ocupar o lugar que foi meu&#8230; bom, n\u00e3o era f\u00e1cil. Mas eu precisava fechar esse ciclo. <br \/>\u2003\u2003Na parte da tarde, fomos para uma reuni\u00e3o com alguns executivos da \u00e1rea comercial. Mariana entrou na sala com a prancheta na m\u00e3o e os ombros tensos, sentou-se ao lado de %Alice% e abriu o bloco de anota\u00e7\u00f5es. Eu fiquei no canto oposto, apenas observando\u2026 e, claro, pronto para intervir se precisasse. <br \/>\u2003\u2003%Alice% come\u00e7ou a falar com a fluidez de sempre, mas logo lan\u00e7ou Mariana no fogo: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mariana, anote os pontos principais e me envie um resumo at\u00e9 o fim do dia. Quero enxuto e objetivo, sem floreios. \u2014 Ela nem olhou pra ela. S\u00f3 disse, como quem solta um desafio no ar. <br \/>\u2003\u2003Mariana assentiu r\u00e1pido, e eu reparei no jeito que sua m\u00e3o tremia levemente com a caneta. <br \/>\u2003\u2003Aos poucos, fui me aproximando para ajud\u00e1-la, explicando um ou outro termo t\u00e9cnico, apontando nos slides&#8230; mas, antes que eu terminasse uma frase, %Alice% ergueu a m\u00e3o, sem desviar os olhos da tela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%, deixe que ela anote. Vamos ver como se sai. <br \/>\u2003\u2003A voz era calma. Mas o recado estava ali, claro como cristal: ela queria ver se Mariana aguentava sozinha. <br \/>\u2003\u2003Engoli em seco e recuei, voltando ao meu lugar. N\u00e3o porque queria, mas porque entendi o que aquilo era. %Alice% queria testar os limites da Mariana&#8230; e talvez os meus tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003Mas a reuni\u00e3o continuou, e eu observei. Porque, se eu tinha aprendido algo ali, era que, com %Alice%, nada era apenas o que parecia. <br \/>\u2003\u2003Quando a reuni\u00e3o terminou, %Alice% ainda estava com a postura firme na cadeira, mas os olhos diziam que ela j\u00e1 estava em outro lugar \u2014 pensando, calculando, analisando. Mariana come\u00e7ou a recolher os pap\u00e9is, mas, antes que pudesse deixar a sala, a voz de %Alice% a cortou com precis\u00e3o: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Mariana, d\u00e1 uma passada na diretoria e entrega essa pasta pro pessoal do financeiro. Quero saber se esses n\u00fameros batem com o que foi enviado semana passada. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Claro, senhor\u2026 \u2014 Mariana respondeu de imediato, meio tr\u00eamula, j\u00e1 pegando a pasta em m\u00e3os. <br \/>\u2003\u2003%Alice% parou por um segundo, estreitando os olhos como se estivesse calculando o n\u00edvel de paci\u00eancia que ainda lhe restava naquele dia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me chame de senhora. Me chame de Srta. %Dias%. \u201cSenhora\u201d me d\u00e1 dor nas costas s\u00f3 de ouvir \u2014 disse com o tom controlado, mas afiado, lan\u00e7ando um olhar que era quase um aviso. <br \/>\u2003\u2003Mariana assentiu depressa, corando at\u00e9 as orelhas. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Desculpe, Srta. %Dias%. Claro. <br \/>\u2003\u2003Ela saiu quase trope\u00e7ando nos pr\u00f3prios p\u00e9s. <br \/>\u2003\u2003Fiquei ali, encostado na beirada da mesa, e n\u00e3o consegui evitar um sorriso discreto. Porque aquilo ali \u2014 a voz cortante, o jeito objetivo, a forma como o \u201csenhora\u201d a irritava \u2014 me levou direto de volta ao meu primeiro dia ali. E \u00e0 primeira vez que ouvi a mesma bronca. <br \/>\u2003\u2003\u201cN\u00e3o me chame de senhora. Parece que estou contratando um mordomo. Me chame de&#8230; Srta. %Dias%.\u201d <br \/>\u2003\u2003Na \u00e9poca, achei que fosse apenas arrog\u00e2ncia. Hoje&#8230; ainda acho. Mas agora sei que, de algum jeito estranho, era tamb\u00e9m o jeito dela manter as barreiras onde queria. Nomes, t\u00edtulos, dist\u00e2ncia. <br \/>\u2003\u2003E eu? Eu tinha derrubado todas elas. Sem permiss\u00e3o. Sem nem perceber. <br \/>\u2003\u2003At\u00e9 agora. <br \/>\u2003\u2003%Alice% esperou que ela sa\u00edsse e fechasse a porta antes de desviar o olhar para mim. N\u00e3o disse nada de imediato, apenas me observou por um instante longo o suficiente para me deixar desconfort\u00e1vel. Eu fiquei onde estava, ao lado da mesa, com a caneta que usava para anotar detalhes ainda na m\u00e3o, como se aquilo pudesse me proteger da intensidade do olhar dela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o? \u2014 ela finalmente soltou, cruzando os bra\u00e7os. \u2014 Impress\u00f5es? <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ela \u00e9 um pouco insegura \u2014 falei, direto. \u2014 Mas tem potencial. <br \/>\u2003\u2003Ela assentiu com um meneio breve de cabe\u00e7a, desviando o olhar por um segundo antes de se levantar. Andou at\u00e9 o aparador para pegar uma caneta diferente \u2014 como se precisasse daquilo para ocupar as m\u00e3os, ou a mente. <br \/>\u2003\u2003Ao voltar, passou por mim no espa\u00e7o estreito entre a mesa e a cadeira. S\u00f3 que, dessa vez, trope\u00e7ou levemente no tapete. Um desequil\u00edbrio r\u00e1pido, mas suficiente para que meu reflexo fosse mais r\u00e1pido que a l\u00f3gica. Segurei-a pela cintura, firme, impedindo que ela ca\u00edsse. <br \/>\u2003\u2003O toque foi imediato. O choque tamb\u00e9m. <br \/>\u2003\u2003A m\u00e3o dela parou no meu peito, os olhos arregalados encontrando os meus, e, por um segundo \u2014 longo demais \u2014 tudo ao redor pareceu evaporar. A sala, o trabalho, a nova secret\u00e1ria. Tudo sumiu. <br \/>\u2003\u2003S\u00f3 existia aquele contato. A respira\u00e7\u00e3o descompassada dela e a minha que nem existia mais. <br \/>\u2003\u2003Meu polegar ro\u00e7ou de leve a lateral da cintura dela enquanto eu ainda a segurava. Ela n\u00e3o recuou. S\u00f3 ficou ali, im\u00f3vel, como se estivesse tentando n\u00e3o se render \u00e0quela proximidade. Como se soubesse exatamente o que aquilo significava. <br \/>\u2003\u2003%Alice% se afastou devagar, endireitando o corpo, mas ainda com os olhos cravados nos meus. A caneta que ela tinha ido buscar estava agora esquecida na m\u00e3o, os dedos ainda tr\u00eamulos. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou, mas n\u00e3o terminou. Eu j\u00e1 tinha dado dois passos pra tr\u00e1s. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Melhor eu ir. \u2014 murmurei, sem saber se estava tentando convenc\u00ea-la ou a mim mesmo. <br \/>\u2003\u2003Abri a porta e sa\u00ed sem esperar resposta, o cora\u00e7\u00e3o batendo t\u00e3o forte que parecia querer sair pela garganta. Porque se eu ficasse ali mais um segundo&#8230; ia esquecer tudo. Inclusive quem eu era. <br \/>\u2003\u2003E naquele momento, eu precisava desesperadamente lembrar. <br \/>\u2003\u2003Cheguei em casa como quem volta de uma guerra que ningu\u00e9m viu acontecer. Joguei as chaves no balc\u00e3o da cozinha e fui direto pro quarto, ignorando a luz fraca que vinha da sala. Meu corpo estava exausto, mas minha mente&#8230; bom, essa continuava presa no corredor apertado da sala de reuni\u00f5es, no toque dos nossos corpos, no cheiro do perfume dela misturado ao som abafado da minha respira\u00e7\u00e3o acelerada. <br \/>\u2003\u2003%Alice%. <br \/>\u2003\u2003Por mais que eu tentasse fugir, ela continuava ali, presa em mim de um jeito que nem o banho mais quente do mundo conseguiria arrancar, mas eu tentei. Deixei a \u00e1gua cair sobre a cabe\u00e7a, os ombros, o peito. Fechei os olhos e me obriguei a respirar fundo, como se isso bastasse pra me libertar de tudo que ela ainda causava em mim. <br \/>\u2003\u2003A forma como ela dizia meu nome. A maneira como me olhava. O toque acidental que parecia mais proposital do que qualquer coisa. <br \/>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os escorregaram pela minha pele, guiadas mais pela mem\u00f3ria dela do que pela necessidade f\u00edsica. Segurei meu pau, e foi inevit\u00e1vel come\u00e7ar a me tocar, pensando nela. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Alice%&#8230; \u2014 o nome escapou num sussurro rouco, perdido no vapor do banheiro. <br \/>\u2003\u2003Imaginei suas m\u00e3os pequenas, delicadas, percorrendo meu corpo do jeito que s\u00f3 ela sabia. Seu cheiro, doce e inebriante, parecia impregnar at\u00e9 o ar ao meu redor. Fechei os olhos e a vi ali \u2014 deitada na cama, os cabelos bagun\u00e7ados, o corpo nu me esperando, os olhos escuros me devorando com sede. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o&#8230; \u2014 murmurei, sem terminar a frase, perdido no pr\u00f3prio del\u00edrio. <br \/>\u2003\u2003Meu quadril come\u00e7ou a se mover em busca de mais fric\u00e7\u00e3o, cada movimento desenhando o quanto ela me dominava. Era mais do que desejo carnal. Era fome dela. Da risada abafada no meu ouvido. Da voz manhosa me chamando entre gemidos. <br \/>\u2003\u2003&#8221;<em>Minha<\/em>&#8220;, pensei, o peito apertando junto do prazer que crescia r\u00e1pido, quase violento. <br \/>\u2003\u2003Imaginei %Alice% montada em mim, com aquela express\u00e3o sacana que s\u00f3 ela fazia, a boca entreaberta, os gemidos escapando sem controle. Imaginei o calor, o aperto, o jeito como ela se movia s\u00f3 pra me torturar. <br \/>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os se apertaram, o ritmo descompassado, guiado por essa lembran\u00e7a t\u00e3o viva que era quase real. O calor explodiu dentro de mim com um gemido rouco, urgente, sussurrando o nome dela entre os dentes. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Alice%&#8230; porra&#8230; \u2014 ofeguei, apoiando a testa na parede fria. <br \/>\u2003\u2003Fiquei ali, tentando recuperar o f\u00f4lego, o corpo todo ainda vibrando, enquanto o nome dela continuava ecoando no meu peito. <br \/>\u2003\u2003%Alice%. <br \/>\u2003\u2003Meu v\u00edcio mais doce. <br \/>\u2003\u2003Meu caos favorito. <br \/>\u2003\u2003E, naquele instante, mais do que nunca, eu soube: eu era dela por inteiro. <br \/>\u2003\u2003Sa\u00ed do banheiro enrolado na toalha, os cabelos pingando, o peito ainda em guerra. Me sequei, e vesti um samba can\u00e7\u00e3o, seria o meu m\u00e1ximo para aquela noite. <br \/>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que encarei a escrivaninha, ou melhor, ela me encarou primeiro. <br \/>\u2003\u2003A luz do abajur aceso iluminava a superf\u00edcie vazia, como se o papel em branco me esperasse, zombando do caos que morava em mim. Caminhei at\u00e9 ela devagar, como quem se aproxima de algo sagrado e perigoso ao mesmo tempo. <br \/>\u2003\u2003Sentei. Respirei fundo e abri o sketchbook. <br \/>\u2003\u2003Peguei o l\u00e1pis. Encostei a ponta na primeira folha. E&#8230; nada. A folha em branco parecia zombar de mim, refletindo exatamente o que eu sentia por dentro: um vazio que nem eu conseguia explicar. <br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 criando ou s\u00f3 fingindo que t\u00e1 criando? \u2014 ouvi a voz da Clara na porta, leve, mas atenta. Ela encostou no batente, ainda de avental, o cabelo preso com uma caneta colorida. <br \/>\u2003\u2003Suspirei, largando o l\u00e1pis. <br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00f4&#8230; tentando. \u2014 respondi, sem encar\u00e1-la. \u2014 Mas parece que quanto mais eu quero, menos sai. <br \/>\u2003\u2003Ela entrou no quarto, analisando a mesa. Os l\u00e1pis enfileirados, o sketchbook aberto, a folha ainda virgem. Ela n\u00e3o disse nada por alguns segundos. S\u00f3 observou. Depois, se sentou na beirada da cama. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sabe o que talvez ajude? \u2014 perguntou. \u2014 Cria um perfil. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Um perfil? <br \/>\u2003\u2003\u2014 No Insta. Ou sei l\u00e1. Um lugar s\u00f3 seu. Onde o %Arthur% desenhista respire. Nem precisa mostrar pra ningu\u00e9m agora. Deixa fechado, privado, escondido do mundo, se quiser. Mas come\u00e7a. Vai postando s\u00f3 pra voc\u00ea lembrar que existe esse lado a\u00ed. Porque ele ainda t\u00e1 aqui, s\u00f3 t\u00e1 dormindo. <br \/>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio, encarando o papel como se aquilo fosse uma proposta indecente. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Parece bobo, eu sei. \u2014 ela continuou, levantando com um sorrisinho. \u2014 Mas \u00e0s vezes, a gente s\u00f3 precisa de um cantinho pra voltar a ser quem era. <br \/>\u2003\u2003Ela j\u00e1 estava saindo do quarto quando completou: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Ah, e o jantar t\u00e1 pronto, fui a melhor irm\u00e3 do mundo, eu cozinhei, mas n\u00e3o se acostume. Mas sem press\u00e3o&#8230; quer dizer, s\u00f3 um pouquinho, porque se esfriar, a culpa \u00e9 sua. <br \/>\u2003\u2003Deixou a porta entreaberta, e eu fiquei ali, parado, olhando para tela do celular como se ele tivesse acabado de ganhar um novo significado. Um perfil privado. S\u00f3 meu. Um espa\u00e7o onde ningu\u00e9m esperava nada. Onde eu n\u00e3o precisasse ser bom. S\u00f3&#8230; eu. <br \/>\u2003\u2003Pela primeira vez em dias, algo se mexeu dentro de mim. Pequeno, t\u00edmido. Mas real. <br \/>\u2003\u2003Talvez ela tivesse raz\u00e3o. Talvez fosse esse o come\u00e7o \u2014 de novo. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Naquela sexta-feira, o escrit\u00f3rio tinha aquele clima estranho de fim de ciclo. As pessoas circulavam pelos corredores com mais calma, os celulares vibravam com mensagens de \u201chappy hour?\u201d, e o som das teclas parecia menos intenso. Mas, pra mim, era diferente. Era o meu \u00faltimo dia ali. <br \/>\u2003\u2003Mariana ajeitava as coisas na mesa dela, ansiosa, mas ainda um pouco insegura. O jeito como ela mexia nos pap\u00e9is, conferindo e reconferindo as planilhas, me fazia sorrir de canto. Lembrava muito o meu primeiro dia \u2014 a mesma tens\u00e3o disfar\u00e7ada de efici\u00eancia. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Respira, Mari. Voc\u00ea j\u00e1 pegou o jeito \u2014 falei, me encostando na beirada da mesa com os bra\u00e7os cruzados. <br \/>\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 fico com medo de esquecer alguma coisa&#8230; A %Alice% n\u00e3o parece ser o tipo que tolera deslize. <br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 mesmo \u2014 respondi com um sorriso enviesado \u2014, mas ela tamb\u00e9m respeita quem segura as pontas. E voc\u00ea segura. S\u00f3 precisa confiar mais no que j\u00e1 sabe. <br \/>\u2003\u2003Ela me olhou por um instante, como se estivesse processando aquilo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu tentei observar como voc\u00ea lidava com ela. Sempre t\u00e3o calmo, t\u00e3o&#8230; no controle. <br \/>\u2003\u2003\u2014 H\u00e3&#8230; isso era s\u00f3 a fachada. Por dentro eu estava gritando metade do tempo. \u2014 Pisquei para ela. \u2014 Vai dar tudo certo. Se errar, aprende. E n\u00e3o esquece de bloquear o n\u00famero dela depois do expediente de sexta. <br \/>\u2003\u2003Ela riu alto. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Vou anotar isso num post-it. Obrigada, %Arthur%. De verdade. Por tudo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Vai l\u00e1. Sexta-feira te espera. \u2014 Toquei de leve no ombro dela e a vi desaparecer pelo corredor, com um ar nervoso e determinado ao mesmo tempo. <br \/>\u2003\u2003Fiquei ali por alguns segundos, em p\u00e9 no meio da sala agora silenciosa. Meus olhos varreram o lugar: a mesa onde sentei durante semanas. O arm\u00e1rio onde escondi minhas crises. O espa\u00e7o entre as portas, onde o imposs\u00edvel quase aconteceu mais de uma vez. Parte de mim estava aliviada por sair dali. Mas a outra&#8230; ainda n\u00e3o sabia como dizer adeus. <br \/>\u2003\u2003Respirei fundo, caminhei at\u00e9 a porta de vidro ao final do corredor e bati duas vezes, antes de empurrar devagar. <br \/>\u2003\u2003%Alice% estava sentada \u00e0 mesa, o cabelo preso num coque desfeito, as mangas da camisa arrega\u00e7adas e os olhos grudados na tela do notebook. Quando me viu, ergueu os olhos e depois se recostou na cadeira, como se j\u00e1 esperasse. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A Mariana saiu. J\u00e1 t\u00e1 tudo com ela. A partir de segunda&#8230; volto pro time de Planejamento. \u2014 Ela assentiu devagar, o maxilar tenso. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada, %Arthur%. Por ter ficado essa semana. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu fiquei porque achei certo. Ela precisava de um in\u00edcio menos ca\u00f3tico que o meu. \u2014 Falei com calma, mas algo no meu peito ainda estava preso. <br \/>\u2003\u2003%Alice% se levantou, caminhando lentamente at\u00e9 o aparador, onde pegou uma pasta qualquer s\u00f3 para fingir ocupa\u00e7\u00e3o. Quando falou de novo, a voz dela estava baixa, diferente. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Sobre aquele dia&#8230; \u2014 murmurou \u2014 a nossa conversa. Eu&#8230; n\u00e3o devia ter falado da forma como falei. Eu s\u00f3&#8230; n\u00e3o soube lidar com aquilo. Espero que voc\u00ea compreenda. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Compreendo \u2014 respondi, mesmo que a ferida ainda doesse. \u2014 Mas entender n\u00e3o \u00e9 o mesmo que suportar, %Alice%. <br \/>\u2003\u2003Ela ficou em sil\u00eancio por um instante, depois cruzou os bra\u00e7os, o olhar grudado no ch\u00e3o. <br \/>\u2003\u2003\u2014 A gente podia continuar. Sem r\u00f3tulo. Sem rastro. \u2014 Ela ergueu os olhos e me encarou. \u2014 Agora voc\u00ea t\u00e1 em outro setor. Ainda \u00e9 errado, mas&#8230; menos. A gente podia&#8230; continuar assim. Do nosso jeito. <br \/>\u2003\u2003Ela se aproximou devagar. O olhar dela era um convite claro. Um \u00faltimo apelo. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Alice%&#8230; \u2014 murmurei. \u2014 Isso t\u00e1 me consumindo. A gente se escondeu, eu me machuquei, me confundi. N\u00e3o d\u00e1 mais. Eu n\u00e3o posso mais viver pela metade. <br \/>\u2003\u2003Ela mordeu o l\u00e1bio, os olhos brilhando com algo que eu n\u00e3o soube nomear. Um sil\u00eancio denso se instalou entre n\u00f3s. Bastou um passo \u2014 um \u00fanico passo dela \u2014 para que tudo ru\u00edsse. <br \/>\u2003\u2003Seus l\u00e1bios encontraram os meus num beijo urgente, quase desesperado, como se ainda houvesse tempo de desfazer o que nos afastava. E eu\u2026 eu cedi. Porque era ela. Porque meu corpo ainda reagia como se n\u00e3o soubesse da dor. Como se s\u00f3 conhecesse o v\u00edcio. <br \/>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os seguravam sua cintura com for\u00e7a, puxando-a contra mim. %Alice% gemeu baixo no beijo, e isso foi o suficiente para apagar qualquer resto de racionalidade. Em um movimento r\u00e1pido, a ergui pelas coxas e a sentei na mesa. Suas pernas se fecharam ao redor da minha cintura com precis\u00e3o, como se aquele fosse o lugar exato \u2014 e talvez fosse, naquele segundo. <br \/>\u2003\u2003Meus dedos deslizaram pelas coxas dela, subindo com firmeza at\u00e9 encontrarem a barra da saia. A m\u00e3o dela se agarrou \u00e0 minha nuca, puxando, pedindo mais. O beijo ficou mais quente, mais profundo, mais tudo. Beijei seu pesco\u00e7o, mordi seu queixo, explorei sua boca como se ainda fosse minha. <br \/>\u2003\u2003\u2014 %Arthur%&#8230; \u2014 ela arfou, entre um suspiro e outro. Meu nome saiu como um pedido. <br \/>\u2003\u2003E eu beijei seus ombros, suas clav\u00edculas. Sentia o calor dela nas palmas das minhas m\u00e3os, os suspiros dela entrando direto na minha corrente sangu\u00ednea. Por um instante, era s\u00f3 isso. Ela. Eu. E o que sempre existia quando nos toc\u00e1vamos. <br \/>\u2003\u2003Mas ent\u00e3o\u2026 <br \/>\u2003\u2003A consci\u00eancia me atingiu como um balde de \u00e1gua fria. <br \/>\u2003\u2003O que eu estava fazendo? <br \/>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os hesitaram na cintura dela. A respira\u00e7\u00e3o ainda vinha entrecortada. O corpo dela colado ao meu, ainda pedindo. Mas eu n\u00e3o podia mais fingir. Isso n\u00e3o bastava. <br \/>\u2003\u2003Segurei seus ombros e recuei, ofegante. Meu cora\u00e7\u00e3o batia t\u00e3o alto que eu podia ouvir o eco na sala. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Para. \u2014 sussurrei. \u2014 Isso s\u00f3 me machuca mais. Porque voc\u00ea sabe que eu&#8230; eu t\u00f4 apaixonado por voc\u00ea, %Alice%. E voc\u00ea s\u00f3 me procura quando o sil\u00eancio te incomoda. Quando t\u00e1 tudo pesado demais pra carregar sozinha. E a\u00ed vem aqui e descarrega em mim. <br \/>\u2003\u2003Ela me olhou, como se n\u00e3o soubesse o que dizer. Como se, pela primeira vez, estivesse sem argumentos. A respira\u00e7\u00e3o dela tamb\u00e9m era inst\u00e1vel, mas n\u00e3o dizia nada. S\u00f3 me olhava. <br \/>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea sente por mim, %Alice%? \u2014 continuei, a voz ainda baixa, mas firme. \u2014 Seja sincera. \u00c9 s\u00f3 tes\u00e3o? \u00c9 s\u00f3 ego? Ou tem um pingo de sentimento a\u00ed dentro? <br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio dela doeu mais do que qualquer resposta. Ela desviou os olhos por um instante, como se procurasse as palavras \u2014 ou fugisse delas. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Porque, se voc\u00ea dissesse que sente&#8230; que sente mesmo&#8230; \u2014 dei um passo \u00e0 frente, quase num apelo \u2014 a gente terminava isso aqui. Agora. Eu ficava. A gente encontrava um jeito. <br \/>\u2003\u2003Ela me olhou de novo. E ent\u00e3o, devagar, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o havia l\u00e1grimas, n\u00e3o havia drama. S\u00f3 uma entrega silenciosa ao que ela n\u00e3o conseguia ser. \u00c0quilo que ela n\u00e3o estava pronta para admitir. <br \/>\u2003\u2003Engoli seco. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Era isso. Era s\u00f3 isso que eu precisava saber. <br \/>\u2003\u2003Ela deu meio passo \u00e0 frente, como se fosse dizer algo, mas parou. Talvez porque soubesse que n\u00e3o adiantaria mais. <br \/>\u2003\u2003Nos encaramos por alguns segundos, como se estiv\u00e9ssemos memorizando tudo antes do ponto final. Os beijos, os toques, as fa\u00edscas, as madrugadas escondidas. Tudo aquilo que poderia ter sido \u2014 e nunca foi. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Boa sorte com a Mariana \u2014 minha voz saiu rouca. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Boa sorte no Planejamento \u2014 a dela saiu mais baixa ainda. <br \/>\u2003\u2003Assenti lentamente. E ent\u00e3o dei dois passos at\u00e9 a porta. <br \/>\u2003\u2003E fechei. <br \/>\u2003\u2003N\u00e3o com raiva dela, pelo menos. Fechei com o tipo de dor que s\u00f3 existe quando a gente queria que tivesse dado certo, mas n\u00e3o deu. E agora, precisava seguir. Mesmo com o gosto dela ainda grudado na minha boca. <br \/>\u2003\u2003Mesmo com o cora\u00e7\u00e3o dizendo que ainda queria. Porque, pela primeira vez\u2026 eu estava escolhendo n\u00e3o aceitar menos do que eu mere\u00e7o. <\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003No s\u00e1bado, Clara praticamente me arrastou para uma feira de arte no centro. Disse que precisava de companhia, que queria \u201cver umas coisas bonitas\u201d depois de uma semana puxada. E, bom\u2026 eu n\u00e3o tive for\u00e7a pra recusar. <br \/>\u2003\u2003Ainda estava meio anestesiado com tudo: a discuss\u00e3o com %Alice%, o beijo, as palavras que n\u00e3o vieram, a aus\u00eancia dela desde ent\u00e3o. Era como se o sil\u00eancio depois do fim fizesse mais barulho do que qualquer briga entre n\u00f3s. Eu s\u00f3&#8230; seguia. <br \/>\u2003\u2003A feira estava cheia. Barracas coloridas, m\u00fasica ao vivo, cheiro de comida no ar. Clara andava animada, tirando fotos das bancas, comentando sobre as coisas com aquele entusiasmo leve que s\u00f3 ela tinha. Eu a seguia, mais em sil\u00eancio do que devia, com um copo de caf\u00e9 numa m\u00e3o e as m\u00e3os vazias do lado de dentro. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Olha essa ilustra\u00e7\u00e3o, %Arthur%! Um gato de boina lendo Virginia Woolf. Isso \u00e9 voc\u00ea em forma de felino. \u2014 Ela me mostrou a imagem no celular, rindo sozinha. <br \/>\u2003\u2003Soltei um riso baixo, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Achei que eu fosse mais cachorro triste do que gato intelectual. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 os dois. Gato, cachorro e talvez um pouquinho de pombo dram\u00e1tico. \u2014 Ela piscou, voltando a mirar as bancas. \u2014 Mas vai passar. Esse vazio a\u00ed dentro. S\u00f3 precisa encontrar alguma coisa que te lembre quem voc\u00ea \u00e9. <br \/>\u2003\u2003Continuei andando ao lado dela, desviando de uma mo\u00e7a com uma cesta de p\u00e3es artesanais. <br \/>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea acha que \u00e9 aqui? No meio de estandes com p\u00f4ster de Star Wars em aquarela? <br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu acho que voc\u00ea precisa ver o mundo com mais cor. E, se isso n\u00e3o funcionar\u2026 a gente compra um p\u00e3o de alho. Sempre funciona. \u2014 Ela deu de ombros, leve, como se curar o cora\u00e7\u00e3o fosse uma coisa simples. <br \/>\u2003\u2003Eu apenas sorri. Porque, com ela, \u00e0s vezes, parecia mesmo. <br \/>\u2003\u2003Foi numa das tendas mais discretas que parei de andar. N\u00e3o sei se foi a paleta de cores nas ilustra\u00e7\u00f5es ou a forma como os tra\u00e7os pareciam meio desalinhados de prop\u00f3sito. Havia algo de imperfeito, mas sincero ali. Um cara mais velho, com bon\u00e9 desbotado e \u00f3culos tortos, vendia prints com uma plaquinha feita \u00e0 m\u00e3o: <em>arte sem filtro<\/em>. <br \/>\u2003\u2003Fiquei ali parado, folheando um sketchbook de capa dura. Meus dedos deslizavam pelas p\u00e1ginas em branco como se esperassem alguma resposta que n\u00e3o vinha. Foi a\u00ed que ele falou, sem tirar os olhos de um caf\u00e9 que esfriava ao lado: <br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea nunca vai se sentir pronto \u2014 disse, com a naturalidade de quem repete aquilo todo s\u00e1bado. \u2014 Ningu\u00e9m sente. Voc\u00ea desenha mesmo assim, ou fica parado vendo os outros fazerem. <br \/>\u2003\u2003Olhei pra ele, surpreso. Ele n\u00e3o me conhecia. Mas parecia que sim. <br \/>\u2003\u2003Comprei mais l\u00e1pis, apontadores e um novo sketchbook sem pensar duas vezes. Clara, que estava em outro estande vendo bijuterias, veio correndo atr\u00e1s de mim quando percebeu que eu tinha desaparecido. <br \/>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea comprou? \u2014 perguntou, espiando por cima do meu ombro. <br \/>\u2003\u2003\u2014 Uma desculpa pra tentar de novo \u2014 respondi, sem tirar os olhos da capa do caderno. <br \/>\u2003\u2003\u00c0 noite, j\u00e1 em casa, tomei um banho e sentei \u00e0 minha escrivaninha. O sketchbook novo em cima da mesa, ao lado dos l\u00e1pis. Organizei tudo com o cuidado de um ritual. Afiei as pontas. Alinhei as canetas. Respirei fundo. <br \/>\u2003\u2003E, pela primeira vez, deixei o tra\u00e7o vir sem meta. Sem cobran\u00e7a. S\u00f3 ele e eu. <br \/>\u2003\u2003Um tra\u00e7o. Depois outro. <br \/>\u2003\u2003Foi a primeira vez, em semanas, que eu me senti inteiro. N\u00e3o por ter superado tudo. Mas por, finalmente, ter come\u00e7ado. <\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><strong>\u2003\u2003Nota da autora:<\/strong> Eita que foi drama, viu? \ud83d\ude02<br \/>\u2003\u2003Alice ali, cheia de orgulho, sem conseguir dizer que quer o Arthur; Arthur, firme, sem aceitar menos do que eles se assumirem de vez; e n\u00f3s? Sofrendo junto porque esses dois cabe\u00e7udos preferem se torturar do que ceder. Ai, ai&#8230; quem mandou se apaixonarem t\u00e3o bonito? \ud83d\udc94<br \/>\u2003\u2003Mal sabem eles que o pior (ou o melhor?) ainda est\u00e1 por vir&#8230; \ud83d\udc40\u2728<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \ud83d\udcbb\ud83d\udc60 \u2003\u2003Nota da autora: Eita que foi drama, viu? \ud83d\ude02\u2003\u2003Alice ali, cheia de orgulho, sem conseguir dizer que quer o Arthur; Arthur, firme, sem aceitar menos do que eles se assumirem de vez; e n\u00f3s? Sofrendo junto porque esses dois cabe\u00e7udos preferem se torturar do que ceder. Ai, ai&#8230; quem mandou se apaixonarem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1860],"class_list":["post-5470","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-segredo-de-escritorio"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5470","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5470"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}