{"id":5162,"date":"2025-10-14T10:31:22","date_gmt":"2025-10-14T13:31:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-14T10:50:13","modified_gmt":"2025-10-14T13:50:13","slug":"capitulo-01","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/na-hora-certa\/capitulo-01\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 01"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<em>POV %Isla% %Torres%<\/em><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Era estranho pensar que<\/span> eu estava ali, de novo. Naquele ambiente t\u00e3o familiar, t\u00e3o barulhento, t\u00e3o masculino \u2014 e, ainda assim, t\u00e3o meu.<br \/>\u2003\u2003O cheiro de combust\u00edvel queimado me atingiu como uma lembran\u00e7a antiga. Daquelas que ficam presas na pele e no fundo da garganta. Respirei fundo. O macac\u00e3o vermelho da Ferrari grudava nas costas sob o sol implac\u00e1vel de Maranello. O suor escorria pela minha nuca antes mesmo do turno come\u00e7ar, mas eu estava firme. Ou, pelo menos, sustentando a melhor imita\u00e7\u00e3o de firmeza que aprendi a usar com o tempo.<br \/>\u2003\u2003Atravessei o port\u00e3o de acesso com a credencial pendurada no pesco\u00e7o e o cora\u00e7\u00e3o batendo r\u00e1pido, como se quisesse anunciar: <em>voc\u00ea conseguiu. <\/em>Porque ali estava eu, na equipe principal da Scuderia Ferrari.<br \/>\u2003\u2003Depois de dois anos na sombra da equipe j\u00fanior \u2014 desmontando prot\u00f3tipos, ajustando pe\u00e7as em salas abafadas, ouvindo gente me chamar de \u201ca menina da oficina\u201d com aquele tom condescendente \u2014 eu finalmente tinha sido promovida. Meu nome estava na escala da temporada.<br \/>\u2003\u2003Meu nome.<br \/>\u2003\u2003Na escala.<br \/>\u2003\u2003Da Ferrari.<br \/>\u2003\u2003Lembrei com nitidez do momento em que recebi a not\u00edcia.<br \/>\u2003\u2003Estava enfiada at\u00e9 o cotovelo numa carenagem que ningu\u00e9m queria desmontar quando meu chefe direto me chamou de canto. Pensei que fosse bronca \u2014 como sempre era, mas ent\u00e3o ele sorriu. Um sorriso raro.<br \/>\u2003\u2003<em>\u201cParab\u00e9ns, %Isla%. Voc\u00ea passou. Vai integrar a equipe principal na pr\u00f3xima temporada.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003Fiquei parada por um segundo, como se o c\u00e9rebro precisasse reiniciar. Senti os olhos encherem, mas disfarcei passando a m\u00e3o no rosto sujo de graxa. Voltar \u00e0 pista de verdade. Com os carros mais r\u00e1pidos do mundo, ao lado de engenheiros que eu cresci admirando \u2014 e que agora seriam meus colegas.<br \/>\u2003\u2003Naquela noite, eu n\u00e3o dormi. Nem de medo, nem de nervoso, mas porque a adrenalina j\u00e1 tinha voltado a correr nas minhas veias. O mesmo sonho que quase me tiraram, s\u00f3 porque eu engravidei.<br \/>\u2003\u2003Eu tinha vinte anos quando vi o teste mais importante da minha vida dar positivo. Um teste de farm\u00e1cia, n\u00e3o de desempenho t\u00e9cnico. N\u00e3o era o que eu esperava, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era algo de que eu pudesse fugir.<br \/>\u2003\u2003<em>O pai do meu filho?<\/em><br \/>\u2003\u2003Um erro. Um erro insistente, bonito e fugaz.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o sumiu \u2014 ao contr\u00e1rio, sempre aparecia nas redes, sorrindo em fotos com legenda de \u201cpai presente\u201d. Mas quando o %Liam% teve febre no meio da noite, ou quando eu precisei de algu\u00e9m para segur\u00e1-lo enquanto fazia uma entrevista\u2026 ele nunca estava.<br \/>\u2003\u2003E, mesmo assim, eu continuei porque parar nunca foi uma op\u00e7\u00e3o. Porque meu pai, Ram\u00f3n %Torres%, n\u00e3o deixou. Ele me deu uma bancada no fundo da oficina e uma promessa: <em>\u201cVoc\u00ea vai chegar l\u00e1, %Isla%. Um beb\u00ea n\u00e3o destr\u00f3i sonhos. S\u00f3 muda o caminho.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003E ele mudou. Com fralda, com leite em p\u00f3, com noites em claro, mas tamb\u00e9m com o apoio dele e com o da minha m\u00e3e, Luc\u00eda, que dividia comigo as madrugadas de choro, aquecia mamadeiras e dizia, sempre que eu amea\u00e7ava desmoronar: <em>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 sozinha, %Isla%. Nem por um segundo.&#8221;<\/em><br \/>\u2003\u2003E com o do meu irm\u00e3o mais novo, Juli\u00e1n, que largou o interc\u00e2mbio pra ficar comigo no primeiro ano do %Liam%. Ele embalava meu filho enquanto eu desmontava simuladores, me acordava quando eu cochilava em cima de um livro, decorava f\u00f3rmulas comigo como se estivesse treinando pra corrida, n\u00e3o pra viver.<br \/>\u2003\u2003Foram anos de estudo solit\u00e1rio. De especializa\u00e7\u00e3o pela madrugada. De cursos online feitos com fone de ouvido, enquanto o %Liam% dormia no sof\u00e1 da oficina. Enviei curr\u00edculos que nunca foram respondidos. Participei de feiras onde fui ignorada como se fosse invis\u00edvel. Fui recusada dezenas de vezes \u2014 sempre com os mesmos eufemismos: <em>\u201cTalvez numa pr\u00f3xima oportunidade.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003<em>\u201cSeu perfil n\u00e3o combina com o ritmo da escuderia.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003<em>\u201cPrecisamos de algu\u00e9m com mais flexibilidade.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003Eles nunca diziam \u201cm\u00e3e\u201d, mas era disso que estavam falando.<br \/>\u2003\u2003S\u00f3 que eu escutei pior, fui chamada de ajudante quando j\u00e1 comandava processos inteiros. Tive que ouvir outro receber os cr\u00e9ditos pelas solu\u00e7\u00f5es que sa\u00edram das minhas m\u00e3os. Perguntaram se eu estava ali para \u201ctrazer caf\u00e9\u201d, quando eu era a \u00fanica que identificava o ru\u00eddo estranho no eixo central sem precisar de scanner.<br \/>\u2003\u2003Ent\u00e3o n\u00e3o, ningu\u00e9m me deu espa\u00e7o. Eu o arranquei com ferramenta, com cansa\u00e7o, com cada hora que passei provando que sabia mais do que esperavam de mim. Fiz isso por mim, pelo meu filho e por <em>todas <\/em>as que ainda viriam.<br \/>\u2003\u2003E agora\u2026 eu estava aqui, no cora\u00e7\u00e3o da Ferrari.<br \/>\u2003\u2003Maranello.<br \/>\u2003\u2003Com o nome no crach\u00e1 e o macac\u00e3o ajustado por cima das cicatrizes que me trouxeram at\u00e9 aqui.<br \/>\u2003\u2003Ajustei a al\u00e7a da mochila no ombro e segui o corredor at\u00e9 os boxes. Meus t\u00eanis pisavam com cautela sobre o ch\u00e3o riscado de pneus e \u00f3leo, mas minha cabe\u00e7a j\u00e1 estava longe, correndo entre engrenagens e sensores. Era a \u00fanica forma de calar a voz que ainda sussurrava que eu podia falhar, que iam rir ou duvidar.<br \/>\u2003\u2003Cheguei ao box principal e a Ferrari estava l\u00e1. Imponente, escarlate e rodeada por t\u00e9cnicos, engenheiros, e olhares que fingiam n\u00e3o estar me notando, mas eu sentia como sempre senti.<br \/>\u2003\u2003A curiosidade disfar\u00e7ada de indiferen\u00e7a. A d\u00favida vestida de protocolo.<br \/>\u2003\u2003Antes de dar o primeiro passo, respirei fundo. Peguei o celular do bolso do macac\u00e3o. Era um ritual, minha \u00e2ncora.<br \/>\u2003\u2003Uma notifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003<strong>Papai <\/strong><strong>\ud83d\udc9b<\/strong><br \/>\u2003\u2003<em>1 novo \u00e1udio<\/em><br \/>\u2003\u2003Apertei o play.<br \/>\u2003\u2003Sabia que ia me desmontar, e me desmontou.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Mam\u00e3e&#8230; \u00e9&#8230; voc\u00ea vai ganhar a corrida hoje?<\/em> \u2014 a voz do %Liam% veio baixinha, meio enrolada, com aquele chiado de coberta por cima da cabe\u00e7a. \u2014 <em>Eu t\u00f4 com o carrinho vermelho, t\u00e1? Igual o do seu trabalho. A v\u00f3 falou que \u00e9 Ferrari. Te amo. Tchau!<\/em><br \/>\u2003\u2003Sorri sozinha. O rosto esquentou. Ele tinha quatro anos e o cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 batia no mesmo ritmo que o meu, no ritmo da pista.<br \/>\u2003\u2003Nos despedimos naquela manh\u00e3 bem cedinho com o sol quase nascendo. Um caf\u00e9 corrido na cozinha dos meus pais, uma mochila com carrinho de brinquedo, e um beijo na testa com gosto de culpa e saudade.<br \/>\u2003\u2003Depois, foi uma corrida silenciosa contra o rel\u00f3gio: voo pra Bolonha. Estrada at\u00e9 Maranello. Poucas horas de sono entre um deslocamento e outro.<br \/>\u2003\u2003O mundo achava que chegar at\u00e9 ali era s\u00f3 m\u00e9rito t\u00e9cnico, mas ningu\u00e9m via os voos \u00e0s cinco da manh\u00e3, a febre inesperada no meio de um treino, ou o malabarismo de parecer est\u00e1vel quando se est\u00e1 desmoronando por dentro.<br \/>\u2003\u2003Apertei o celular entre os dedos.<br \/>\u2003\u2003<em>Te amo at\u00e9 a lua e de volta, meu amor.<\/em> \ud83d\ude80\u2764\ufe0f<br \/>\u2003\u2003Guardei o aparelho com cuidado. Como se fosse a pe\u00e7a mais delicada do mundo para mim.<br \/>\u2003\u2003Inspirei fundo.<br \/>\u2003\u2003Hora de trabalhar.<br \/>\u2003\u2003A oficina mais poderosa do mundo estava prestes a descobrir que por tr\u00e1s das minhas m\u00e3os sujas de graxa\u2026 batia um motor t\u00e3o potente quanto qualquer V6 turbo que eles j\u00e1 viram.<br \/>\u2003\u2003E parece que o universo quis me testar no segundo seguinte.<br \/>\u2003\u2003\u2014 %Isla% %Torres%? \u2014 a voz veio firme, cortando o burburinho dos boxes. \u2014 Vem comigo.<br \/>\u2003\u2003Levantei o queixo, ajeitei a manga do macac\u00e3o com mais calma do que eu sentia por dentro, e assenti com a seguran\u00e7a ensaiada mil vezes no espelho. Aquela era minha entrada em cena e eu me recusei a trope\u00e7ar.<br \/>\u2003\u2003O homem que me esperava era Matteo Donati, engenheiro-chefe da Scuderia. Alto, esguio, cabelo grisalho e um olhar que analisava tudo como se fosse feito de c\u00f3digo bin\u00e1rio. Ele carregava uma prancheta na m\u00e3o e o tipo de postura que fazia qualquer um medir as palavras antes de falar. Eu j\u00e1 o tinha visto em reuni\u00f5es da equipe j\u00fanior \u2014 sempre \u00e0 dist\u00e2ncia. Era a primeira vez que ele me chamava pelo nome e, pelo jeito, tamb\u00e9m a primeira vez que muitos ali me viam.<br \/>\u2003\u2003Porque bastou eu cruzar o corredor em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ala dos t\u00e9cnicos principais para sentir o impacto. E n\u00e3o foi de boas-vindas.<br \/>\u2003\u2003Olhares.<br \/>\u2003\u2003Um, dois, cinco.<br \/>\u2003\u2003Conversas que pararam no meio, parafusos que deixaram de girar. Testas franzidas, sobrancelhas arqueadas, e aquele sil\u00eancio que carrega mais julgamento do que qualquer palavra. Alguns me fitaram r\u00e1pido, como se me catalogassem: <em>nova, mulher, pequena demais pro ambiente<\/em>. Outros me encararavam de cima a baixo, tentando encontrar a l\u00f3gica por tr\u00e1s da minha presen\u00e7a. Como se eu fosse uma pe\u00e7a avulsa jogada na bancada errada.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Esta \u00e9 %Isla% %Torres% \u2014 Matteo anunciou sem entona\u00e7\u00e3o, como quem comunica uma troca de pe\u00e7a, n\u00e3o a chegada de uma nova colega. \u2014 Vai atuar com voc\u00eas nos boxes a partir de hoje. Experiente. Formada. Preparada.<br \/>\u2003\u2003Ningu\u00e9m disse &#8220;bem-vinda&#8221;. Nem um aceno de cabe\u00e7a ou um sorriso real.<br \/>\u2003\u2003Um dos t\u00e9cnicos baixou os \u00f3culos de prote\u00e7\u00e3o devagar, me olhando como quem examinava defeito de f\u00e1brica. Outro, mais novo, se inclinou e cochichou algo pro colega ao lado \u2014 que soltou uma risadinha e bateu no ombro dele.<br \/>\u2003\u2003Curiosidade disfar\u00e7ada de simpatia. Deboche com verniz de profissionalismo. Surpresa mal disfar\u00e7ada de inc\u00f4modo.<br \/>\u2003\u2003Engoli seco, mantendo a postura, se eu deixasse a coluna ceder ali, n\u00e3o voltaria a se alinhar nunca mais. Matteo seguiu andando, e eu fui atr\u00e1s. Ouvi um coment\u00e1rio abafado vindo de tr\u00e1s:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Essa \u00e9 aquela da equipe de prot\u00f3tipos, n\u00e9?<br \/>\u2003\u2003\u2014 A que apareceu no relat\u00f3rio da pr\u00e9-temporada. O bom, lembra?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sim\u2026 mas achei que fosse s\u00f3\u2026 treinamento.<br \/>\u2003\u2003Claro.<br \/>\u2003\u2003Treinamento.<br \/>\u2003\u2003Vitrine de diversidade.<br \/>\u2003\u2003Campanha bonita pra foto.<br \/>\u2003\u2003Aparentemente, ningu\u00e9m ali achava que eu estaria no box para realmente colocar a m\u00e3o na m\u00e1quina.<br \/>\u2003\u2003Bom, eles iam descobrir&#8230;<br \/>\u2003\u2003Seguimos por entre bancadas, laptops com gr\u00e1ficos em tempo real, cabos pendurados, pneus alinhados como soldados. O cheiro de \u00f3leo e borracha queimada era o perfume da casa. E, de certa forma, reconfortante, mas o clima\u2026 o clima era de escaneamento.<br \/>\u2003\u2003Matteo parou diante de uma tela larga, cheia de dados e simula\u00e7\u00f5es rodando como um cora\u00e7\u00e3o batendo r\u00e1pido demais.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Esse \u00e9 seu setor. \u2014 Apontou com exatid\u00e3o para o espa\u00e7o delimitado por faixas vermelhas no ch\u00e3o. \u2014 Voc\u00ea vai trabalhar diretamente com o time respons\u00e1vel pelo carro n\u00famero dezesseis.<br \/>\u2003\u2003Demorou um segundo pro meu c\u00e9rebro entender.<br \/>\u2003\u2003<em>Dezesseis.<\/em><br \/>\u2003\u2003O n\u00famero n\u00e3o era s\u00f3 um n\u00famero. Era um nome.<br \/>\u2003\u2003<em>Charles Leclerc.<\/em><br \/>\u2003\u2003Senti o est\u00f4mago revirar, n\u00e3o de medo, mas de decep\u00e7\u00e3o. Expectativa frustrada era um gosto amargo que descia lento. Se eu fosse sincera \u2014 e naquele momento, s\u00f3 dava pra ser \u2014, uma parte de mim torcia pra cair no time do Hamilton. Algu\u00e9m com mais anos nas costas, menos ego na frente, e uma fama de respeitar quem faz o carro dele funcionar.<br \/>\u2003\u2003Mas n\u00e3o. Eu ganhei o favorito da Ferrari e a bomba-rel\u00f3gio de humor inst\u00e1vel que vinha junto. Suspirei fundo, ajeitando a gola do macac\u00e3o. Matteo me olhou de canto.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Algum problema?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Nenhum \u2014 respondi. E acrescentei, seca, sem nem tentar esconder o tom: \u2014 S\u00f3\u2026 um desafio interessante.<br \/>\u2003\u2003Ou um castigo.<br \/>\u2003\u2003Porque se tem uma coisa que qualquer pessoa no paddock sabia \u00e9 que Charles Leclerc podia ser brilhante no volante \u2014 mas insuport\u00e1vel fora dele. E agora, eu ia colocar as m\u00e3os no carro dele. Literalmente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele n\u00e3o vai gostar \u2014 murmurou algu\u00e9m atr\u00e1s de mim.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Azar o dele \u2014 murmurei de volta, sem virar o rosto.<br \/>\u2003\u2003Era isso, meu nome agora estava vinculado ao dele.<br \/>\u2003\u2003O carro estava ali: vibrante, escarlate e intimidante. Encostado na plataforma hidr\u00e1ulica, com os pneus ainda cobertos, o n\u00famero 16 estampado com orgulho na carenagem. Como se soubesse que era mais do que um ve\u00edculo. Era s\u00edmbolo. Era territ\u00f3rio. E, de certa forma, era.<br \/>\u2003\u2003Aproximei-me devagar, deixando o olhar passear pelas curvas da estrutura, pelas asas perfeitamente desenhadas, pelos detalhes milimetricamente planejados. Era uma m\u00e1quina absurda. Arrogante at\u00e9. Impec\u00e1vel.<br \/>\u2003\u2003A pintura brilhava. A aerodin\u00e2mica beirava a perfei\u00e7\u00e3o. O carro era um hino \u00e0 engenharia. O problema, claro, n\u00e3o era a m\u00e1quina, era o que ela vinha entregando.<br \/>\u2003\u2003Nas \u00faltimas tr\u00eas corridas, Charles n\u00e3o subiu ao p\u00f3dio. E, com o desempenho, caiu tamb\u00e9m a paci\u00eancia da equipe. Circulavam rumores \u2014 e na F\u00f3rmula 1, rumor era quase verdade. Falas sobre falhas t\u00e9cnicas, sabotagens internas, e, claro, a velha hist\u00f3ria de ego ferido destruindo conex\u00f5es no r\u00e1dio.<br \/>\u2003\u2003De fora, ele era o rosto da Ferrari. De dentro\u2026 um problema em alta velocidade.<br \/>\u2003\u2003Apertei os l\u00e1bios e comecei a dar uma volta ao redor do carro, os passos lentos, quase cerimoniais, como se ele pudesse me contar onde do\u00eda. Era um h\u00e1bito antigo o de ouvir o sil\u00eancio das m\u00e1quinas. \u00c0s vezes, elas sussurravam segredos que nenhum gr\u00e1fico revelava e, com frequ\u00eancia, diziam mais que os pr\u00f3prios pilotos.<br \/>\u2003\u2003Parei ao lado da asa traseira. Um desalinhamento m\u00ednimo no encaixe chamou minha aten\u00e7\u00e3o. Daqueles detalhes que a maioria ignorava, mas que, numa pista onde um mil\u00e9simo de segundo decidia tudo, podia custar uma corrida inteira.<br \/>\u2003\u2003Cheguei mais perto. Deixei os ru\u00eddos do box desaparecerem atr\u00e1s de mim. As vozes, as ferramentas, os sensores apitando\u2026 tudo se dissolveu at\u00e9 sobrar s\u00f3 a minha respira\u00e7\u00e3o e o carro. Passei os dedos devagar pela estrutura lateral, sentindo o leve relevo da tinta, o calor ainda pulsante das \u00faltimas voltas, os pequenos arranh\u00f5es camuflados na perfei\u00e7\u00e3o da carenagem. Tudo nele era impec\u00e1vel. A est\u00e9tica, o ajuste, a engenharia.<br \/>\u2003\u2003Tudo, menos o que importava: o desempenho.<br \/>\u2003\u2003O carro, segundo os relat\u00f3rios, estava inst\u00e1vel em curvas m\u00e9dias, perdendo tra\u00e7\u00e3o nas sa\u00eddas e gerando tempos inconsistentes. A telemetria?<em> \u201cQuase certo.\u201d <\/em>Mas a pista n\u00e3o mentia.<br \/>\u2003\u2003Fiquei agachada ao lado da suspens\u00e3o, o olhar treinado lendo o desenho das pe\u00e7as como quem lia um idioma secreto. E ali, de novo, o desalinhamento. Sutil. Milim\u00e9trico. Mas suficiente para causar vibra\u00e7\u00e3o, ru\u00eddo falso no torque, e perda de estabilidade em alta carga.<br \/>\u2003\u2003E foi quando vieram as vozes, aquelas que a gente fingia n\u00e3o escutar \u2014 mas nunca esquecia.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ainda ningu\u00e9m resolveu a maldita instabilidade no eixo traseiro? \u2014 sussurrou um engenheiro, dobrando a prancheta com for\u00e7a contida.<br \/>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 tentaram de tudo \u2014 respondeu outro, com desd\u00e9m entediado. \u2014 E o pr\u00edncipe do grid n\u00e3o ajuda muito com os surtos de estrelismo. N\u00e3o d\u00e1 para saber se o problema \u00e9 o carro ou a cabe\u00e7a dele.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ou os dois \u2014 completou um terceiro.<br \/>\u2003\u2003Fingi que n\u00e3o ouvi, mas ouvi e guardei cada palavra. Entre os dentes. Entre os ossos. Era isso que diziam fora dos r\u00e1dios, longe das c\u00e2meras. Charles Leclerc: um prod\u00edgio temperamental, um milagre com ego inflado. E agora, o <em>meu milagre problem\u00e1tico<\/em>.<br \/>\u2003\u2003\u2014 %Torres% \u2014 chamou Matteo, a voz neutra, sem se virar. \u2014 Te passaram os dados de telemetria? A gente precisa entender por que o carro t\u00e1 inst\u00e1vel em curva m\u00e9dia. Parece tudo certo no papel, mas em pista&#8230;<br \/>\u2003\u2003\u2014 Em pista, alguma coisa est\u00e1 sendo for\u00e7ada demais \u2014 respondi, sem me levantar. \u2014 A resposta pode estar no torque de regulagem\u2026 ou na flex\u00e3o da suspens\u00e3o. Posso desmontar essa pe\u00e7a?<br \/>\u2003\u2003Matteo me lan\u00e7ou um olhar r\u00e1pido por cima do ombro. Surpreso, talvez. Mas n\u00e3o me vetou. Assentiu.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Pode. Est\u00e1 nas suas m\u00e3os agora.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o fazia ideia do quanto essa frase carregava peso. Coloquei as luvas com um gesto calmo. Preciso. Na minha cabe\u00e7a, um flash repentino se acendeu como uma lembran\u00e7a indesejada.<br \/>\u2003\u2003Charles Leclerc.<br \/>\u2003\u2003Camisa branca da equipe semiaberta, cabelo bagun\u00e7ado de prop\u00f3sito, express\u00e3o entediada, c\u00e2mera ligada.<br \/>\u2003\u2003<em>&#8220;Acho que se a equipe tivesse feito o trabalho direito, a gente n\u00e3o teria terminado atr\u00e1s. Fiz a minha parte.&#8221;<\/em><br \/>\u2003\u2003Outra cena: ele saindo do carro, jogando as luvas no cockpit com for\u00e7a, ignorando o engenheiro no r\u00e1dio.<br \/>\u2003\u2003<em>&#8220;Talvez se escutassem mais o piloto ao inv\u00e9s de s\u00f3 analisar planilhas&#8230;&#8221;<\/em><br \/>\u2003\u2003Mais uma \u2014 claro que tinha mais uma.<br \/>\u2003\u2003<em>&#8220;N\u00e3o, eu n\u00e3o t\u00f4 feliz com o carro. E n\u00e3o, n\u00e3o vou sorrir para c\u00e2mera.&#8221;\u00a0<\/em><br \/>\u2003\u2003Revirei os olhos s\u00f3 de lembrar.\u00a0 Aquele era o tipo de piloto que fazia barulho quando tudo dava errado\u2026 e se achava respons\u00e1vel por cada vit\u00f3ria quando tudo dava certo.<br \/>\u2003\u2003Bonito? Claro. At\u00e9 demais.<br \/>\u2003\u2003Carism\u00e1tico? Talvez. Se voc\u00ea curtisse um ego com dire\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica.<br \/>\u2003\u2003Para mim, aquilo era verniz. S\u00f3 um brilho liso cobrindo o cl\u00e1ssico ego mimado da elite das pistas e agora ele era meu piloto. \u00d3timo.<br \/>\u2003\u2003Voltei ao trabalho. Puxei o carrinho de ferramentas pro meu lado e me abaixei de novo diante da suspens\u00e3o traseira como quem se curvava diante de um segredo prestes a ser revelado. Tudo naquela parte do carro gritava perfei\u00e7\u00e3o, mas perfei\u00e7\u00e3o demais, \u00e0s vezes, \u00e9 s\u00f3 um bom disfarce.<br \/>\u2003\u2003Com uma chave torx em m\u00e3os, comecei a soltar a cobertura. Meus movimentos eram r\u00e1pidos, mas contidos. Respeitosos. Eu n\u00e3o estava apenas desmontando um carro, estava entrando no territ\u00f3rio de um piloto que odiava mudan\u00e7as, e mais ainda, odiava gente nova. Senti algu\u00e9m se aproximar atr\u00e1s de mim. Nem precisei olhar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 fazendo o qu\u00ea a\u00ed? \u2014 a voz masculina veio com um tom debochado, arrastado, como quem testava limites.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o respondi de imediato. Conclu\u00ed o movimento e s\u00f3 ent\u00e3o falei, sem tirar os olhos do que fazia:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Verificando a flexibilidade da fixa\u00e7\u00e3o traseira. Tem uma diferen\u00e7a m\u00ednima de acoplamento entre o lado esquerdo e o direito. Isso pode causar vibra\u00e7\u00e3o em curva m\u00e9dia e distorcer a leitura de torque.<br \/>\u2003\u2003Sil\u00eancio.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Foi o que o estagi\u00e1rio sugeriu na etapa passada. E n\u00e3o deu em nada.<br \/>\u2003\u2003Virei o rosto devagar. Encarei o homem com um sorriso curto, seco, cheio de arame farpado.<br \/>\u2003\u2003\u2014 A diferen\u00e7a \u00e9 que eu n\u00e3o sou estagi\u00e1ria e eu sei exatamente o que estou procurando.<br \/>\u2003\u2003Voltei a mexer. Soltei o encaixe interno com cuidado, girando a pe\u00e7a com a sensibilidade de quem escutava o carro com os dedos. E ali estava. Um desgaste lateral no anel de veda\u00e7\u00e3o. Invis\u00edvel a olho nu. S\u00f3 percept\u00edvel quando se sabia o que procurar \u2014 e quando.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Achei \u2014 murmurei.<br \/>\u2003\u2003Ele se calou. Depois, ajoelhou ao meu lado e observou em sil\u00eancio por alguns segundos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso\u2026 n\u00e3o estava no relat\u00f3rio.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o mesmo \u2014 respondi. \u2014 Porque todo mundo aqui t\u00e1 procurando defeito no lugar errado.<br \/>\u2003\u2003Me levantei com a pe\u00e7a na m\u00e3o e caminhei at\u00e9 a bancada com os sensores. Matteo me observava de longe. N\u00e3o disse nada, mas o aceno discreto com a cabe\u00e7a\u2026 foi suficiente.<br \/>\u2003\u2003Foi ali que eu soube, a equipe podia n\u00e3o ter me recebido de bra\u00e7os abertos, mas a partir daquele momento, ningu\u00e9m ia conseguir fingir que eu n\u00e3o estava ali.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\ud83c\udfc1\ud83d\udee0<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O alojamento da equipe ficava nos fundos do paddock, atr\u00e1s de uma fileira de containers adaptados que pareciam ter sido montados com pressa e esquecimento. Camas estreitas, arm\u00e1rios min\u00fasculos e paredes t\u00e3o finas que dava pra ouvir a respira\u00e7\u00e3o do vizinho de beliche \u2014 ou o ronco, se tivesse azar.<br \/>\u2003\u2003Nada de glamour. Nada de sil\u00eancio. Mas confort\u00e1vel o suficiente pra quem aprendeu a cochilar em bancos de oficina, com o som de parafusadeiras embalando o sono. Me joguei na cama sem tirar as botas, sentindo a musculatura reclamar do dia inteiro.<br \/>\u2003\u2003Os p\u00e9s latejavam, os ombros estavam duros como a\u00e7o e a cabe\u00e7a rodava com dados, ru\u00eddos, e a lembran\u00e7a constante de que todos ali estavam prontos para duvidar de mim. Suspirei fundo e estiquei o bra\u00e7o at\u00e9 o celular, largado no travesseiro como se esperasse por mim.<br \/>\u2003\u2003A tela acendeu com uma \u00fanica notifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003<em>Videochamada \u2013 Papai <\/em>\ud83d\udc9b<br \/>\u2003\u2003Toquei. A tela piscou e ent\u00e3o apareceu o rosto mais importante do mundo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>\u00a1Hola, mam\u00e1!<\/em> \u2014 disse %Liam%, com os olhos brilhando e o cabelo todo bagun\u00e7ado, o pijama meio torto, o sorrisinho do p\u00f3s-banho estampado no rosto.<br \/>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o derreteu. Sem drama ou aviso. Derreteu de verdade.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Oi, meu amor. Tudo bem por a\u00ed?<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>\u00a1Sim! \u00a1A abuelita fez espaguete com bolinhas!<\/em> \u2014 respondeu, animado. Depois baixou a voz como se contasse um segredo \u2014 <em>Eu guardei duas bolinhas pro meu coelho de pel\u00facia.<\/em><br \/>\u2003\u2003Riu baixinho, cobrindo os olhos com a m\u00e3o, como se aquilo pudesse conter a avalanche de ternura que subiu dentro de mim.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Espero que o coelho tenha gostado. \u2014 Ele assentiu com tanta seriedade que parecia estar assinando um contrato.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>\u00bf<\/em><em>Mam\u00e1\u2026 voc\u00ea j\u00e1 viu o carro do Leclerc?<\/em> \u2014 Sorri de canto, massageando a t\u00eampora com o polegar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Vi sim. T\u00e1 inteiro, bonit\u00e3o\u2026 e exigente \u2014 brinquei. \u2014 Vermelho igual ao seu carrinho preferido.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Uaaau&#8230;<\/em> \u2014 ele sussurrou. \u2014 <em>E \u00e9 voc\u00ea que deixa ele r\u00e1pido assim?<\/em><br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso mesmo, meu piloto mirim. Sou eu quem cuida pra ele correr direitinho.<br \/>\u2003\u2003\u2014 <em>Que legal\u2026<\/em> \u2014 Ele ficou pensativo por um instante, e ent\u00e3o perguntou com os olhos brilhando: \u2014 <em>E um dia a gente vai ver uma corrida de perto?<\/em><br \/>\u2003\u2003O tempo parou por um segundo. S\u00f3 o suficiente pra eu respirar, s\u00f3 o suficiente pra sentir o que aquela pergunta causou dentro de mim.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Vai sim \u2014 respondi, com a voz mais firme do que me sentia. \u2014 Eu vou te levar. Um dia voc\u00ea vai sentar na arquibancada, com um fone de ouvido gigante e uma bandeira vermelha nas m\u00e3os. E vai ver seu nome estampado na minha camisa e vai saber que tudo isso foi por n\u00f3s dois.<br \/>\u2003\u2003Ele sorriu, satisfeito, como se aquilo bastasse. E antes de desligar, fiz uma careta, porque era tradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E quem sabe at\u00e9 consiga um aut\u00f3grafo do Leclerc&#8230; <em>se ele n\u00e3o for um idiota completo.<\/em><br \/>\u2003\u2003%Liam% gargalhou. Aquele riso livre, redondo, cheio de luz. O som mais bonito que ouvi o dia inteiro.<br \/>\u2003\u2003Desliguei a chamada com o sorriso ainda preso no rosto, os olhos ardendo naquele ponto entre a exaust\u00e3o e o amor. O tipo de cansa\u00e7o que pesava, mas n\u00e3o machucava. O tipo de amor que sustentava o corpo mesmo quando tudo dentro dele queria deitar e chorar.<br \/>\u2003\u2003Me deitei de costas, sentindo o colch\u00e3o duro ceder minimamente. Fechei os olhos por um instante \u2014 s\u00f3 um. Aquele segundo onde o mundo inteiro se calava e voc\u00ea se permitia existir sem performance.<br \/>\u2003\u2003Mas a paz durou exatos oito segundos. O celular vibrou de novo.<br \/>\u2003\u2003Uma nova notifica\u00e7\u00e3o apareceu na tela acesa:<br \/>\u2003\u2003<strong>\ud83d\udd14<\/strong><strong> Alerta interno \u2013 Scuderia Ferrari<\/strong><br \/>\u2003\u2003<em>Charles Leclerc chegou ao paddock \u2013 status: em atividade.<\/em><br \/>\u2003\u2003Abri os olhos devagar, encarando o teto branco e sem gra\u00e7a do alojamento.<br \/>\u2003\u2003Era isso.<br \/>\u2003\u2003Amanh\u00e3, ele estaria ali. No box. Com o mesmo ego inflado que eu vi em dezenas de entrevistas, com a mesma fama de insuport\u00e1vel. E, agora, com o meu nome vinculado ao dele \u2014 no papel, no sistema, no carro.<br \/>\u2003\u2003Sorri de canto. Aquele tipo de sorriso que nascia do desafio, do cansa\u00e7o e da vontade de vencer. Amanh\u00e3, eu conheceria o piloto que todos diziam ser insuport\u00e1vel. Mal podia esperar.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003POV %Isla% %Torres% \ud83c\udfc1\ud83d\udee0<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1773],"class_list":["post-5162","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-na-hora-certa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}