{"id":5155,"date":"2013-10-31T21:19:00","date_gmt":"2013-11-01T00:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-21T17:13:35","modified_gmt":"2025-11-21T20:13:35","slug":"quarto","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/peccavi\/quarto\/","title":{"rendered":"Quarto"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003A mulher se olhava<\/span> no grande espelho grudado na parede do quarto de luxo do \u00faltimo andar do hotel em que se hospedara. Pediu o melhor quarto e que isolassem o andar apenas para ela e alguns companheiros do desfile. Sim, desfile. Andrea Cardghan era produtora de eventos de moda, famosa por suas extravag\u00e2ncias quando se tratava de seus desfiles e tamb\u00e9m por sua beleza incontest\u00e1vel. Era imposs\u00edvel negar sua beleza, a pele clara; cabelos negros, ondulados e luminosos; grandes olhos num tom diferente de cinza; o formato do rosto era delicado, sua silhueta com curvas em evid\u00eancia&#8230; Ela tinha tudo o que grande parte da popula\u00e7\u00e3o feminina do mundo queria.<br>\u2003\u2003Andrea adorava a companhia dos espelhos e tudo que pudesse refletir seu rosto. Sorriu largamente para o enorme espelho a sua frente e viu seu reflexo retribuir; ela poderia ficar se encarando por uma vida se fosse poss\u00edvel, e tamb\u00e9m se algu\u00e9m n\u00e3o batesse \u00e0 porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Entra! \u2014 retrucou sem tirar os olhos do espelho. \u2014 Ah, finalmente trouxeram o meu jantar, eu pago essa merda tr\u00eas vezes mais caro pra qu\u00ea, pra ter tratamento ral\u00e9 igual a todos? \u2014 ela exclamou sem nem ao menos se dar ao trabalho de olhar para quem adentrara o quarto.<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpe-me, senhorita. \u2014 Ouviu uma voz e passos se aproximando.<br>\u2003\u2003\u2014 Ao menos espero que a droga do jantar ainda esteja quente \u2014 resmungou Andrea.<br>\u2003\u2003\u2014 Com toda a certeza, madame. \u2014 A intrusa no quarto parou atr\u00e1s de Andrea e sorriu maliciosamente. \u2014 O seu jantar ainda vai esquentar <em>muito<\/em> \u2014 a mulher invasora disse e tapou a boca de Andrea com um pano embebido de clorof\u00f3rmio. Andrea caiu desacordada em instantes.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003Quando Andrea acordou, sentiu os bra\u00e7os dormentes, a boca seca e sentindo-se sufocada. Demorou um pouco para entender o que estava acontecendo. Ela estava amarrada desconfortavelmente em uma cadeira com os bra\u00e7os presos com cordas que apertavam seus pulsos com for\u00e7a, havia um embolado de panos em sua boca para que evitasse uma poss\u00edvel gritaria, e aquilo explicava por que ela tinha a boca seca e sufocando. Andrea vagou com os olhos em seu quarto de hotel e ent\u00e3o percebeu a presen\u00e7a de uma mulher alta, magra de cabelos vermelhos como o fogo. Ela era jovem, talvez uns vinte e sete anos, n\u00e3o mais que isso com toda a certeza.<br>\u2003\u2003\u2014 Ol\u00e1, senhora Cardghan! \u2014 A jovem sorriu percebendo que havia chamado a aten\u00e7\u00e3o. \u2014 Desculpe-me os modos, mas voc\u00ea falando \u00e9 irritante, e aposto que n\u00e3o vai querer me irritar. \u2014 Ela se aproximou da cadeira em que Andrea estava amarrada para poder encar\u00e1-la melhor. \u2014 Ah querida, o que o tempo fez com voc\u00ea? Da \u00faltima vez que a vi voc\u00ea n\u00e3o tinha rugas \u2014 a intrusa murmurou e a fei\u00e7\u00e3o da mulher amarrada se transformou em uma de horror. A estranha riu. \u2014 Deus, s\u00f3 estou brincando, sabe que n\u00e3o tem nenhuma ruga a\u00ed, voc\u00ea vive se analisando no espelho!<br>\u2003\u2003Andrea soltou um barulhinho que deveria ser seu suspiro sufocado pelo pano em sua boca.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, Andrea, feliz com sua vida? \u2014 a estranha perguntou come\u00e7ando a andar de um lado para o outro. \u2014 Hum, claro que sim, olhe para voc\u00ea, de vadia a estrela da moda. \u2014 Ao dizer essa frase a mulher parou para encarar Andrea. \u2014 Acha que as pessoas gostariam tanto de voc\u00ea se soubessem do seu passado sombrio? Ou de %Annelise% %Mills%? \u2014 Ao ouvir o nome a mulher amarrada fez careta. \u2014 Eu acho que n\u00e3o&#8230; Mas talvez sim, afinal, no seu mundinho f\u00fatil tudo o que importa \u00e9 a apar\u00eancia; quanto mais bonita, quanto mais peito e bunda, menor a chance de te culparem por alguma coisa, n\u00e3o? \u2014 A intrusa pegou uma luva de sua pequena bolsa pendurada em sua cintura e logo depois de colocar a luva nas m\u00e3os, pegou um pequeno pote transparente com algo branco em seu interior. \u2014 \u00c9 melhor voc\u00ea come\u00e7ar a se preocupar com acusa\u00e7\u00f5es e interrogat\u00f3rios, Andrea, porque a beleza n\u00e3o caber\u00e1 mais a voc\u00ea \u2014 a mais jovem disse se aproximando com o pote aberto, pegou uma pequena quantidade do que parecia ser creme com a m\u00e3o enluvada e com cuidado passou no rosto de Andrea que queria gritar.<br>\u2003\u2003Depois de passar o tal creme em todo o rosto de Andrea, a estranha se afastou um pouco para contemplar sua arte.<br>\u2003\u2003\u2014 Essa \u00e9 uma das minhas obras primas de qu\u00edmica \u2014 a jovem murmurou parecendo admirada consigo mesma. \u2014 \u00c9 um creme que desenvolvi para um trabalho do col\u00e9gio, \u00e9 um esfoliante \u2014 ela continuou sua explica\u00e7\u00e3o e sorriu quando percebeu que a mulher sentada a sua frente fazia careta. \u2014 Est\u00e1 formigando, querida? \u00d3timo, ent\u00e3o est\u00e1 fazendo efeito.<br>\u2003\u2003Andrea n\u00e3o conseguia entender, o que aquela louca intrusa estava fazendo, passando esfoliante caseiro em seu rosto? O que ela queria? E se era apenas um esfoliante, para que tanto alarde? Foi ent\u00e3o que ela come\u00e7ou a sentir.<br>\u2003\u2003A pele que fora coberta pelo tal creme come\u00e7ou a arder consideravelmente, como se estivesse queimada de sol. Aos poucos essa ard\u00eancia foi se transformando, at\u00e9 tornar-se uma queima\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel, Andrea sentia como se a pele inteira de seu rosto estivesse em chamas, como se tivesse enfiado a cabe\u00e7a numa fogueira. Ela tentou gritar, mas quanto mais o fazia, mais se sentia sufocada, e ent\u00e3o as l\u00e1grimas chegaram e a dificuldade em respirar s\u00f3 aumentou. Ela queria gritar, espernear, tirar aquele maldito creme do rosto.<br>\u2003\u2003\u2014 A partir de hoje, Andrea, todas as pessoas te ver\u00e3o da forma que eu vejo, por <em>dentro<\/em>, o monstro horr\u00edvel que voc\u00ea \u00e9. \u2014 A estranha sorriu maldosa. \u2014 Hum&#8230; \u2014 a mulher murmurou pensativa olhando seu rel\u00f3gio te pulso. \u2014 Acho que voc\u00ea deve estar querendo refrescar as coisas por a\u00ed, certo? \u2014 perguntou. Ela segurou os bra\u00e7os de Andrea numa posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel para que esta n\u00e3o tentasse se mover e atacar, obrigou-a a levantar e a empurr\u00f5es a agressora levou a v\u00edtima para o banheiro onde encontraram a banheira cheia d\u2019\u00e1gua; a intrusa arrancou o pano da boca de Cardghan violentamente, o que causou \u00e2nsia na mulher.<br>\u2003\u2003Andrea esperneou, tentou se desvencilhar, mas a mulher que a segurava era firme, e com for\u00e7a a obrigou a se ajoelhar em frente a banheira. A estranha agarrou Andrea pelos cabelos e for\u00e7ou sua cabe\u00e7a para frente, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua. Cardghan tentou resistir ao m\u00e1ximo, mas n\u00e3o fora o suficiente.<br>\u2003\u2003Sentiu a \u00e1gua tocar seu rosto quente e queimado, deveria aliviar a agonia, mas s\u00f3 o que aliviara era o fogo invis\u00edvel, a dor s\u00f3 aumentou com a ard\u00eancia que a \u00e1gua causava em contato com sua pele ferida. A agressora retirou sua cabe\u00e7a da banheira bruscamente.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o se sente melhor, vadiazinha? \u2014 a mulher mais jovem perguntou em tom seco, irado. \u2014 Hum? Que tal mais um mergulho? \u2014 E dizendo isso voltou a enfiar a cabe\u00e7a de Andrea na \u00e1gua. \u2014 Acho que est\u00e1 bem melhor agora, <em>Vadia Cardghan<\/em>.<br>\u2003\u2003Andrea estava atordoada pelos \u00faltimos acontecimentos, mas percebeu muito bem o maldito apelido que recebera de alguns rapazes da faculdade: <em>Vadia Cardghan<\/em>. Ela se sentia enfurecida, mas n\u00e3o era o bastante para se ver livre das m\u00e3os daquela mulher.<br>\u2003\u2003Sabendo que Andrea n\u00e3o teria chances de fugir, a intrusa largou-a rapidamente para pegar uma toalha no balc\u00e3o da pia. Ao voltar, esfregou a toalha no rosto molhado da mulher que gritou de dor com o gesto. Quando viu que o rosto maltratado estava seco o bastante, a invasora sorriu, pegou Andrea pelos bra\u00e7os e a levou de volta para o quarto com o rosto coberto, sentou-a de frente para o espelho.<br>\u2003\u2003\u2014 Ningu\u00e9m mais te ver\u00e1 como antes, Andrea Cardghan&#8230; \u2014 a estranha murmurou.<br>\u2003\u2003Andrea sentiu a toalha em seu rosto sendo puxada e quando viu o reflexo que lhe encarava de volta no espelho, n\u00e3o o reconheceu. <em>Quem era aquele ser horrendo?<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Apresento-lhe a nova Andrea Cardghan, que reflete o que \u00e9 por dentro pelo lado de fora. \u2014 A agressora sorriu olhando para o espelho.<br>\u2003\u2003O reflexo que olhava de volta para Andrea tinha a pele do rosto completamente avermelhada, carne viva ela p\u00f4de constatar. Algumas partes mostravam finas linhas vermelhas, como pequenos vasos sangu\u00edneos. N\u00e3o se distinguia mais os l\u00e1bios da imagem, apenas vermelhid\u00e3o, sangue e carne, nada mais. Os olhos que a encaravam estavam envoltos na mesma pele viva que o restante do rosto, mas eles eram a \u00fanica coisa que podia lembrar a velha Andrea Cardghan, a maravilhosa, a linda.<br>\u2003\u2003Percebendo o estado em que Andrea se encontrava, a agressora deu-se por satisfeita, sorriu deliciada, piscou para o reflexo no espelho e foi embora pela mesma porta que havia entrado.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Andrea continuou encarando aquele reflexo horrendo sem conseguir saber de quem era. Estava quase em choque, quando finalmente entendeu que aquela refletida era ela, completamente desfigurada.<br>\u2003\u2003A verdade chegou-lhe como um soco no est\u00f4mago, deixando-a sem ar. Se olhou mais uma vez no espelho e ficou em sil\u00eancio e completamente im\u00f3vel por alguns instantes. Ent\u00e3o levantou-se de onde estava, caminhou at\u00e9 a porta vacilante, e caminhou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s escadas que levavam \u00e0 cobertura, subiu at\u00e9 l\u00e1 e, como se estivesse sob efeito de hipnose, caminhou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 beirada do pr\u00e9dio; olhou para baixo com um sorriso insano amea\u00e7ando aparecer em seus l\u00e1bios distorcidos e ent\u00e3o pulou.<br>\u2003\u2003Pulou renunciando sua vida, pois, sem a beleza que lhe fora dada, ela n\u00e3o era nada; <em>ningu\u00e9m<\/em> era alguma coisa sem beleza e ela acreditava piamente nisso.<br>\u2003\u2003Alguns segundos de queda livre, o cora\u00e7\u00e3o palpitando mais acelerado que o normal, e ent\u00e3o o baque, uma s\u00fabita dor e a escurid\u00e3o definitiva.<br>\u2003\u2003Andrea Cardghan de 36 anos estava morta, e todos lhe olharam com horror quando perceberam a horr\u00edvel face que lhe pertencia naquele instante.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1768],"class_list":["post-5155","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-peccavi"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/5155","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5155"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=5155"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}