{"id":4987,"date":"2025-05-16T16:25:00","date_gmt":"2025-05-16T19:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-12T16:28:04","modified_gmt":"2025-10-12T19:28:04","slug":"parte-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/o-casaco-vermelho\/parte-1\/","title":{"rendered":"Parte 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<em>Yulha (Coreia do Sul) 2025<\/em><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Parecia que nada havia<\/span> mudado, tudo continuava quase suspenso no tempo. As lojinhas com suas placas pintadas \u00e0 m\u00e3o, suas vitrines cheias de velas artesanais, potes de geleia caseira, cart\u00f5es postais com paisagens locais e panos de prato bordados com nomes de fam\u00edlia.<br \/>\u2003\u2003O cheiro da cidade era o mesmo \u2014 uma mistura terrosa de floresta \u00famida, madeira fresca e caf\u00e9 rec\u00e9m-passado vindo da cafeteria da esquina, que ainda tinha a mesma mesa redonda na cal\u00e7ada e o sininho pendurado na porta. Havia algo de eterno naquele lugar. As pessoas caminhavam devagar pelas ruas, com sacolas de mercado ou c\u00e3es nos bra\u00e7os, como se o tempo fosse um velho amigo que n\u00e3o tivesse pressa de partir.<br \/>\u2003\u2003Os poucos carros que circulavam o faziam sem buzinas ou urg\u00eancia, e at\u00e9 o som das bicicletas parecia mais suave ali. O vento soprava gentil, trazendo consigo a lembran\u00e7a de ver\u00f5es passados, risadas ecoando pelas trilhas e o tilintar das pedras no riacho que cruzava o bosque.<br \/>\u2003\u2003Yulha era assim \u2014 um lugar onde as coisas n\u00e3o pareciam acontecer\u2026 at\u00e9 que aconteciam.<br \/>\u2003\u2003%Sunhee% sentiu os olhos marejarem brevemente quando o carro parou na casa da av\u00f3, olhou para a fachada com aten\u00e7\u00e3o quando desceu do mesmo, ap\u00f3s desligar o motor. A brisa leve da tarde acariciou seu rosto, e ela respirou fundo antes de finalmente tirar as malas do bagageiro.<br \/>\u2003\u2003A casa era simples, de um andar s\u00f3, com o telhado em formato triangular coberto por telhas escuras. A tinta amarelada nas paredes externas estava um pouco desbotada pelo tempo, e havia trepadeiras subindo pelas laterais, com pequenas flores roxas brotando entre as folhas \u2014 a av\u00f3 sempre gostara de manter o jardim vivo. O port\u00e3o de madeira clara rangia com facilidade, mas continuava firme, assim como a pequena varanda de t\u00e1buas envelhecidas, onde ainda repousavam duas cadeiras de balan\u00e7o que pareciam esperar por algu\u00e9m.<br \/>\u2003\u2003Um sino de vento pendurado na beirada do telhado tilintou suavemente, trazendo consigo a lembran\u00e7a de ver\u00f5es antigos e tardes regadas a ch\u00e1 gelado e hist\u00f3rias contadas com paci\u00eancia.<br \/>\u2003\u2003%Sunhee% caminhou at\u00e9 o porta-malas e retirou suas malas uma por uma, colocando-as com cuidado sobre a cal\u00e7ada. Havia algo simb\u00f3lico naquele gesto \u2014 como se, ao abrir o compartimento, abrisse tamb\u00e9m uma parte de si que havia deixado para tr\u00e1s. Fechou o porta-malas e olhou mais uma vez para a casa, antes de subir os dois degraus da varanda e destrancar a porta com a chave que havia trazido pendurada no pesco\u00e7o.<br \/>\u2003\u2003O interior da casa a acolheu com um sil\u00eancio morno. Um cheiro familiar de madeira antiga e ch\u00e1 de ervas pairava no ar, e a luz suave que atravessava as cortinas floridas deixava tudo com um tom dourado, como se o tempo ali passasse mais devagar. Os m\u00f3veis estavam todos no lugar \u2014 a poltrona da av\u00f3 no canto da sala, com a manta de croch\u00ea cuidadosamente dobrada sobre o encosto, e a estante cheia de livros e porta-retratos antigos.<br \/>\u2003\u2003%Sunhee% pousou as malas ao lado da porta e caminhou devagar at\u00e9 o centro da sala. Seu peito do\u00eda, mas n\u00e3o era exatamente tristeza. Era saudade misturada com al\u00edvio, medo com ternura. Um reencontro com partes dela mesma que havia esquecido.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Oi, <em>halmeoni<\/em>&#8230; \u2014 sussurrou, mesmo sabendo que n\u00e3o teria resposta. Ainda assim, sentiu uma presen\u00e7a c\u00e1lida ali, como se a av\u00f3 estivesse apenas no outro c\u00f4modo, preparando ch\u00e1 e esperando para lhe dar um abra\u00e7o.<br \/>\u2003\u2003Caminhou pela sala em passos pesados e lentos, os olhos ainda passeando por cada detalhezinho, como se quisesse redecorar na mente todas as coisas que ela j\u00e1 conhecia.<br \/>\u2003\u2003Depois caminhou pelo corredor que dava acesso aos quartos e ao banheiro. O piso rangia levemente sob seus p\u00e9s, como se sussurrasse <em>boas-vindas<\/em>, e as paredes estreitas guardavam pequenos quadros com flores secas prensadas, todos feitos pela av\u00f3 em molduras simples de madeira. O primeiro quarto \u00e0 esquerda era o dela \u2014 ou, pelo menos, costumava ser. Ao empurrar a porta, sentiu o cheiro discreto de lavanda. A colcha bordada \u00e0 m\u00e3o ainda cobria a cama de solteiro, e o abajur de cer\u00e2mica azul permanecia firme no criado-mudo. Havia um ursinho de pel\u00facia em cima do travesseiro, velho e um pouco desbotado, mas ainda sorridente.<br \/>\u2003\u2003Ela n\u00e3o entrou \u2014 apenas observou, com uma pontada de emo\u00e7\u00e3o na garganta, antes de continuar.<br \/>\u2003\u2003O segundo quarto era o da av\u00f3. A porta estava entreaberta, como sempre ficava quando a velha senhora ia \u00e0 cozinha e voltava com uma x\u00edcara de ch\u00e1. %Sunhee% empurrou com delicadeza, quase com rever\u00eancia. O ambiente era aconchegante, com tons quentes, uma colcha de retalhos cobrindo a cama e uma penteadeira repleta de pequenos frascos de perfume, pentes de madeira e uma caixinha de joias aberta, revelando alguns brincos simples e um colar de contas vermelhas que a av\u00f3 sempre usava em dias especiais.<br \/>\u2003\u2003O banheiro, ao final do corredor, era pequeno, mas impecavelmente limpo. As toalhas estavam dobradas com perfei\u00e7\u00e3o sobre a prateleira, e a cortina floral do chuveiro tinha leves manchas de sol, resultado dos anos de uso. At\u00e9 o sabonete em forma de flor continuava ali, como se tivesse sido colocado ontem.<br \/>\u2003\u2003%Sunhee% apoiou a m\u00e3o na parede por um instante, fechando os olhos.<br \/>\u2003\u2003Tudo ali gritava a presen\u00e7a da av\u00f3 \u2014 e ao mesmo tempo, a aus\u00eancia dela. Era como caminhar por uma lembran\u00e7a v\u00edvida, que pulsava em cada objeto, em cada aroma, em cada raio de luz filtrado pelas cortinas finas.<br \/>\u2003\u2003Ela respirou fundo, tentando conter as l\u00e1grimas que insistiam em vir.<br \/>\u2003\u2003Ali estava de volta. Em casa.<br \/>\u2003\u2003Ou, pelo menos\u2026 em tudo aquilo que um dia foi lar.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83e\udef0\ud83e\udef0\ud83e\udef0<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Se sentou no sof\u00e1 um tanto quanto exaurida, sentindo o corpo come\u00e7ar a reagir \u00e0 faxina intensa que havia dado na casa. Havia revirado a mesma quase de cabe\u00e7a para baixo para tirar a sujeira acumulada depois daqueles meses todos sem nenhuma presen\u00e7a humana no local.<br \/>\u2003\u2003Os bra\u00e7os do\u00edam, as pernas come\u00e7avam a latejar e o peito dela subia e descia descompassado pelo esfor\u00e7o f\u00edsico colocado na empreitada. O rabo de cavalo estava uma verdadeira bagun\u00e7a, e %Sunhee% acabou por refazer o mesmo, com mais firmeza dessa vez.<br \/>\u2003\u2003Encarou a sala outra vez, agora limpa e arrumada e ent\u00e3o se permitiu fechar os olhos, enquanto encostava a cabe\u00e7a no encosto do sof\u00e1, se permitindo finalmente relaxar, os m\u00fasculos e o cora\u00e7\u00e3o. A respira\u00e7\u00e3o ainda estava acelerada, mas ia se acalmando aos poucos. Se permitiu esticar os bra\u00e7os e as pernas, num alongamento longo, e acaba soltando alguns gemidos de dor, com o corpo n\u00e3o totalmente acostumado \u00e0quele tipo de <em>\u201cexerc\u00edcio\u201d.<\/em><br \/>\u2003\u2003Depois de alguns minutos largada no sof\u00e1, esperando autoriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo para se levantar, ela resolveu que guardaria as roupas antes mesmo de sair para comer alguma coisa e abastecer a casa.<br \/>\u2003\u2003No quarto que um dia havia sido seu, ela retirou algumas roupas da mala, dobrando-as cuidadosamente, da mesma forma que havia aprendido a fazer com a av\u00f3 quando ainda era crian\u00e7a.<br \/>\u2003\u2003Ela se lembrava perfeitamente de quando aprendeu a dobrar roupas ali mesmo, sentada no ch\u00e3o, com a av\u00f3 ao lado, paciente, guiando suas m\u00e3os pequenas com voz doce e firmeza gentil.<br \/>\u2003\u2003<em>\u201cDobra pelas costuras, n\u00e3o pelas pontas&#8230; Assim elas n\u00e3o amassam depois.\u201d <\/em>A voz ecoava na mente dela com uma nitidez quase dolorosa.<br \/>\u2003\u2003%Sunhee% sorriu de leve, um sorriso melanc\u00f3lico, enquanto dobrava uma blusa e a colocava com carinho na primeira gaveta do arm\u00e1rio. Sentia que estava tentando, de algum modo, preservar o gesto \u2014 como se manter o m\u00e9todo fosse manter tamb\u00e9m a av\u00f3 um pouco mais viva naquele espa\u00e7o vazio.<br \/>\u2003\u2003Cada dobra era uma lembran\u00e7a, cada toque no tecido era uma tentativa silenciosa de se reconectar com algo que o tempo havia levado, mas que o cora\u00e7\u00e3o se recusava a esquecer.<br \/>\u2003\u2003Ela parou por um instante, sentando-se na beirada da cama. Passou a m\u00e3o devagar sobre a colcha e respirou fundo, sentindo o cheiro discreto de lavanda ainda impregnado no tecido. Fechou os olhos.<br \/>\u2003\u2003Era ali que ela voltava a ser neta.<br \/>\u2003\u2003Ali, o mundo desacelerava.<br \/>\u2003\u2003E mesmo que tudo estivesse diferente, mesmo que a presen\u00e7a da av\u00f3 fosse agora apenas mem\u00f3ria, havia um conforto silencioso naquele gesto cotidiano \u2014 quase como um abra\u00e7o invis\u00edvel, tecido entre as gavetas, os cheiros e o sil\u00eancio da casa.<br \/>\u2003\u2003Depois de todas as roupas guardadas, ela seguiu para seu banho com seus itens de higiene em m\u00e3os. Deixou a \u00e1gua quente aquecer seus m\u00fasculos ainda doloridos da intensa faxina na casa, enquanto fechava os olhos. Na mente as lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia na casa, vinham e voltavam.<br \/>\u2003\u2003Lembrou-se das manh\u00e3s pregui\u00e7osas de ver\u00e3o, quando acordava com o cheiro de mingau de arroz vindo da cozinha e ouvia o som do r\u00e1dio antigo tocando baladas coreanas. A av\u00f3 cantarolava baixinho enquanto cortava frutas para o caf\u00e9 da manh\u00e3, e %Sunhee% aparecia na cozinha ainda de pijama, os cabelos bagun\u00e7ados e os p\u00e9s descal\u00e7os no ch\u00e3o frio.<br \/>\u2003\u2003Lembrou-se tamb\u00e9m das noites em que a chuva batia no telhado de zinco, e ela corria para se enfiar na cama da av\u00f3, encolhendo-se sob as cobertas enquanto ouvia hist\u00f3rias de um tempo que j\u00e1 parecia lenda. A av\u00f3 falava com tanto carinho, com tanto calor na voz, que tudo o que era assustador \u2014 o trov\u00e3o, a escola nova, ou at\u00e9 o mundo l\u00e1 fora \u2014 desaparecia por alguns instantes.<br \/>\u2003\u2003E havia tamb\u00e9m as tardes no quintal. Os p\u00e9s sujos de terra, o som das cigarras, a \u00e1gua gelada do tanque onde lavavam roupa juntas, rindo, brigando com as formigas, correndo para pegar a roupa do varal antes da tempestade. Os ver\u00f5es de sua inf\u00e2ncia estavam todos ali \u2014 presos em fragmentos simples, mas eternos.<br \/>\u2003\u2003A espuma do sabonete escorria pelos bra\u00e7os enquanto %Sunhee% se apoiava na parede do chuveiro, sentindo as l\u00e1grimas se misturarem com a \u00e1gua quente. Talvez fosse o cansa\u00e7o. Talvez fosse o reencontro com aquele passado que ela tinha deixado t\u00e3o cuidadosamente guardado. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela se permitiu sentir tudo de uma vez s\u00f3.<br \/>\u2003\u2003E no meio de tantas lembran\u00e7as, entre a voz da av\u00f3 e o cheiro da lavanda, uma imagem espec\u00edfica surgiu:<br \/>\u2003\u2003Um garoto de cabelos escuros, um sorriso t\u00edmido, e um <em>casaco vermelho<\/em> que parecia grande demais para ele.<br \/>\u2003\u2003<em>%Eric% %Sohn%.<\/em><br \/>\u2003\u2003Ela abriu os olhos devagar, como se tivesse acordado de um sonho antigo.<br \/>\u2003\u2003Talvez nem tudo tivesse sido esquecido, afinal.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83e\udef0\ud83e\udef0\ud83e\udef0<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Yulha (Coreia do Sul) 2025 \ud83e\udef0\ud83e\udef0\ud83e\udef0 \ud83e\udef0\ud83e\udef0\ud83e\udef0<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1722],"class_list":["post-4987","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-o-casaco-vermelho"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/4987","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=4987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}