{"id":4911,"date":"2025-09-17T17:57:00","date_gmt":"2025-09-17T20:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-11T17:58:35","modified_gmt":"2025-10-11T20:58:35","slug":"capitulo-5","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/noivado-de-conveniencia\/capitulo-5\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5"},"content":{"rendered":"\n<span class=\"capitular1\">A<\/span> noite caiu sobre o s\u00edtio como um v\u00e9u macio, e logo o quintal se iluminou com a fogueira que Seu Anselmo insistira em acender \u2014 <em>\u201cporque nada \u00e9 mais rom\u00e2ntico do que fogo crepitando e cheiro de lenha queimando\u201d.<\/em> A fam\u00edlia inteira se ajeitou ao redor, alguns em cadeiras de madeira, outros em banquinhos improvisados, e Camila ainda arrumou um cobertor para cobrir Sofia e Miguel, como se o frio fosse um pretexto perfeito para a aproxima\u00e7\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Opa! \u2014 provocou Caio, com seu sorriso maroto. \u2014 Se esquentem bem a\u00ed, pombinhos, porque a fogueira n\u00e3o d\u00e1 conta sozinha.<br>\n\u2003\u2003Sofia revirou os olhos, mas n\u00e3o reclamou quando Miguel ajeitou o cobertor sobre os dois. O calor do fogo misturado ao calor do corpo dele a deixou em um misto de desconforto e\u2026 seguran\u00e7a.<br>\n\u2003\u2003Enquanto alguns assavam marshmallows improvisados em galhos de bambu, Dona L\u00facia n\u00e3o parava de lan\u00e7ar olhares cheios de esperan\u00e7a.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Isso sim \u00e9 uni\u00e3o, meus filhos! \u2014 disse, batendo palmas quando viu Miguel afastar um fio de cabelo que insistia em cair no rosto de Sofia. \u2014 Ele cuida dela, ela cuida dele\u2026 \u00c9 assim que se constr\u00f3i um futuro!<br>\n\u2003\u2003Helena e Vera riram entre si, brindando com ta\u00e7as de vinho como se j\u00e1 estivessem em um casamento.<br>\n\u2003\u2003Camila, no entanto, n\u00e3o perdeu a oportunidade de espetar mais um coment\u00e1rio:<br>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 s\u00e9rio, voc\u00eas precisam se olhar no espelho. Mal come\u00e7aram a namorar e j\u00e1 parecem noivos de propaganda de revista de campo.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Revista de campo? \u2014 Miguel resmungou, fingindo indigna\u00e7\u00e3o. \u2014 Pelo menos me coloca numa propaganda urbana.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ah, para, Miguel. \u2014 Sofia cutucou o bra\u00e7o dele com o cotovelo, rindo. \u2014 Eu acho que voc\u00ea combina com o campo. Meio atrapalhado, mas com potencial.<br>\n\u2003\u2003Ele arqueou a sobrancelha, com aquele sorriso torto que sempre a fazia rir, e respondeu:<br>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea combina comigo?<br>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi breve, mas intenso o suficiente para que Sofia engolisse seco. Ela disfar\u00e7ou, colocando um marshmallow na boca e fingiu que n\u00e3o tinha ouvido a provoca\u00e7\u00e3o. Mas Miguel percebeu o rubor nas bochechas dela iluminado pelo fogo.<br>\n\u2003\u2003Mais tarde, quando a fogueira j\u00e1 estava mais baixa e os mais velhos come\u00e7aram a se dispersar, Caio puxou um viol\u00e3o de algum canto e come\u00e7ou a dedilhar, criando uma trilha sonora improvisada. Camila, claro, aproveitou o momento para cantarolar \u201cm\u00fasicas de amor\u201d, olhando diretamente para Sofia e Miguel.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ah, pronto \u2014 resmungou Sofia, rindo nervosa. \u2014 Agora a serenata da vergonha.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Vai dizer que n\u00e3o \u00e9 perfeito? \u2014 Miguel inclinou-se para ela, baixinho. \u2014 At\u00e9 parece arma\u00e7\u00e3o do destino.<br>\n\u2003\u2003Eles riram, mas ficaram pr\u00f3ximos o bastante para que o riso se transformasse em sil\u00eancio confort\u00e1vel. O fogo crepitava, o viol\u00e3o soava ao fundo, e de repente tudo parecia\u2026 f\u00e1cil.<br>\n\u2003\u2003At\u00e9 que Sofia quebrou o sil\u00eancio, olhando para o c\u00e9u estrelado:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe que\u2026 eu n\u00e3o esperava que fosse t\u00e3o\u2026 gostoso, fingir isso com voc\u00ea.<br>\n\u2003\u2003Miguel a encarou, surpreso pela sinceridade repentina.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o. Achei que ia ser s\u00f3 um teatrinho\u2026<br>\n\u2003\u2003Ela desviou o olhar, mordendo o l\u00e1bio, mas o sorriso denunciava que sentia o mesmo.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o estamos os dois ferrados. \u2014 Sofia brincou, tentando aliviar o peso da confiss\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ferrados juntos. \u2014 Miguel completou, rindo. \u2014 O que, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 a pior coisa do mundo.<br>\n\u2003\u2003Foi nesse instante que Camila interrompeu, como um cupido barulhento:<br>\n\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 podem se beijar ou precisam de autoriza\u00e7\u00e3o por escrito da fam\u00edlia?<br>\n\u2003\u2003Todos riram, inclusive os av\u00f3s, mas Miguel e Sofia s\u00f3 trocaram um olhar carregado de algo que n\u00e3o ousaram concretizar diante de tanta plateia. Pouco depois, a fogueira foi apagada, as ta\u00e7as recolhidas, e cada um seguiu para o seu quarto. No corredor, j\u00e1 sem ningu\u00e9m por perto, Miguel segurou a m\u00e3o de Sofia, com a mesma naturalidade de quem fazia isso h\u00e1 anos.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Sofi\u2026 \u2014 ele disse, baixo, quase num sussurro. \u2014 Acho que\u2026 eu gosto disso. De verdade.<br>\n\u2003\u2003Ela o encarou, sentindo o cora\u00e7\u00e3o disparar, e respondeu com um meio sorriso c\u00famplice:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m, Miguel.<br>\n\u2003\u2003N\u00e3o houve beijo. N\u00e3o naquela noite. Mas o sil\u00eancio cheio de significado entre eles foi mais eloquente do que qualquer palavra.<br>\n<p style=\"text-align: center;\">N O I V A D O \u2022 D E \u2022 C O N V E N I \u00ca N C I A<\/p>\n\u2003\u2003O domingo amanheceu pregui\u00e7oso no s\u00edtio. O cheiro de caf\u00e9 fresco e p\u00e3o de queijo assando invadia os quartos, mas para Miguel e Sofia, arrumar as malas foi quase uma opera\u00e7\u00e3o de guerra. N\u00e3o tanto pelo que tinham que levar, e sim pelo que carregavam dentro de si depois da noite da fogueira.<br>\n\u2003\u2003Enquanto arrumavam as malas para voltar, os dois j\u00e1 estavam diferentes. Havia cumplicidade no jeito de se ajudar, nos risos abafados ao lembrar dos trope\u00e7os da cavalgada, do barro na horta, da fogueira\u2026 e um peso doce no ar, como se uma decis\u00e3o silenciosa tivesse sido tomada: a farsa tinha dado lugar a algo real, e nenhum dos dois parecia disposto a frear isso.<br>\n\u2003\u2003Cada pe\u00e7a de roupa dobrada parecia um lembrete silencioso: <em>o que aconteceu entre a gente?<\/em><br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 enrolando demais pra fechar essa mala, Sofi \u2014 Miguel comentou, encostado no batente da porta, com os bra\u00e7os cruzados.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o t\u00f4 enrolando. \u2014 Ela se defendeu, sem encar\u00e1-lo. \u2014 S\u00f3\u2026 t\u00f4 organizando.<br>\n\u2003\u2003Ele riu baixo.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Desde quando voc\u00ea organiza meias por cor?<br>\n\u2003\u2003Ela se virou, j\u00e1 de bochechas vermelhas.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Desde que preciso ocupar a mente com qualquer coisa que n\u00e3o seja voc\u00ea.<br>\n\u2003\u2003Miguel ficou em sil\u00eancio por um segundo, surpreso, at\u00e9 erguer as m\u00e3os em rendi\u00e7\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ok, ponto pra voc\u00ea. Mas j\u00e1 aviso que n\u00e3o vai funcionar. \u2014 E piscou.<br>\n\u2003\u2003Antes que Sofia pudesse responder, a voz de Dona L\u00facia ecoou do corredor:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Miguel! Sofia! Venham logo pro caf\u00e9, sen\u00e3o v\u00e3o perder o p\u00e3o de queijo quentinho!<br>\n\u2003\u2003Ambos riram, c\u00famplices, e o clima foi quebrado.<br>\n\u2003\u2003No caf\u00e9 da manh\u00e3, a mesa estava uma festa. Seus pais e os av\u00f3s se revezavam em coment\u00e1rios nost\u00e1lgicos e previs\u00f5es rom\u00e2nticas.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ah, esses dois me lembram tanto o in\u00edcio do meu casamento com Anselmo \u2014 disse Dona L\u00facia, emocionada.<br>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 verdade. \u2014 Vera completou. \u2014 A gente v\u00ea que eles nasceram um pro outro. N\u00e3o precisa ser vidente pra enxergar isso.<br>\n\u2003\u2003Camila e Caio, \u00e9 claro, n\u00e3o deixaram barato.<br>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 decidido ent\u00e3o \u2014 Caio anunciou, com um brinde de suco de laranja. \u2014 Ano que vem a gente t\u00e1 de volta aqui pra comemorar o noivado oficial.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Que oficial, Caio? \u2014 Sofia tossiu, quase engasgando. \u2014 Voc\u00eas est\u00e3o completamente malucos!<br>\n\u2003\u2003\u2014 Malucos, n\u00e3o. \u2014 Camila sorriu maliciosa. \u2014 Apenas vision\u00e1rios.<br>\n\u2003\u2003Miguel s\u00f3 observava, comendo devagar, tentando n\u00e3o rir da express\u00e3o indignada de Sofia. Mas no fundo, aquele coro de vozes s\u00f3 refor\u00e7ava o turbilh\u00e3o dentro dele. Quando finalmente partiram, o carro carregava n\u00e3o s\u00f3 malas e lembran\u00e7as, mas tamb\u00e9m novas verdades n\u00e3o ditas. Sofia, no banco do passageiro, olhava a estrada que se desenrolava pela janela, enquanto Miguel mantinha as m\u00e3os firmes no volante. O sil\u00eancio entre eles n\u00e3o era vazio, era cheio de possibilidades.<br>\n\u2003\u2003At\u00e9 que ela suspirou:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Sabe o que me assusta?<br>\n\u2003\u2003\u2014 Hm?<br>\n\u2003\u2003\u2014 Que talvez eles estejam certos.<br>\n\u2003\u2003Miguel desviou os olhos da estrada por um segundo s\u00f3 para encar\u00e1-la, e sorriu de canto.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Sabe o que me assusta?<br>\n\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\n\u2003\u2003\u2014 Que eu quero que eles estejam.<br>\n<p style=\"text-align: center;\">N O I V A D O \u2022 D E \u2022 C O N V E N I \u00ca N C I A<\/p>\n\u2003\u2003A volta para a cidade foi silenciosa, mas n\u00e3o daquele sil\u00eancio constrangedor. Era o tipo de sil\u00eancio carregado de lembran\u00e7as, de olhares que se desviavam r\u00e1pido demais, de sorrisos contidos.<br>\n\u2003\u2003Quando o carro parou no estacionamento do pr\u00e9dio, Miguel desligou o motor, mas n\u00e3o fez men\u00e7\u00e3o de sair de imediato. Sofia tamb\u00e9m n\u00e3o. Ficaram alguns segundos s\u00f3 ouvindo o barulho distante e abafado do tr\u00e2nsito, at\u00e9 que ela quebrou o clima:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Parece que a semana durou um m\u00eas.<br>\n\u2003\u2003\u2014 E ao mesmo tempo passou r\u00e1pido demais \u2014 Miguel respondeu, virando-se para ela. Seus olhos se demoraram nos dela. \u2014 Sofi\u2026 lembra do que eu disse na fogueira?<br>\n\u2003\u2003Ela sorriu de canto, j\u00e1 adivinhando.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Que ia me chamar pra sair quando volt\u00e1ssemos.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Isso. \u2014 Ele co\u00e7ou a nuca, nervoso. \u2014 E eu vou. Mas quero que seja do jeito certo, sem press\u00e3o\u2026 s\u00f3 voc\u00ea e eu.<br>\n\u2003\u2003Sofia assentiu devagar, o cora\u00e7\u00e3o acelerado, e abriu a porta do carro. Caminharam juntos at\u00e9 o hall do pr\u00e9dio, as malas arrastando pelo ch\u00e3o. No elevador, ficaram lado a lado, t\u00e3o pr\u00f3ximos que qualquer movimento parecia carregar eletricidade. Quando chegaram ao corredor, pararam diante de suas portas \u2014 uma de frente \u00e0 outra. Por um instante, nenhum dos dois quis girar a chave.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Boa noite, Sofi. \u2014 Miguel falou baixo, quase como se fosse um segredo.<br>\n\u2003\u2003Ela sorriu, mordendo o l\u00e1bio.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Boa noite, Miguel.<br>\n\u2003\u2003Demoraram um segundo a mais do que deveriam para se despedir, at\u00e9 finalmente cada um desaparecer para dentro de casa.<br>\n<br>\n<strong>Tr\u00eas dias depois\u2026<\/strong>\n\u2003\u2003A rotina voltou, mas nada parecia exatamente igual. Sofia estava no apartamento de Camila e girava a x\u00edcara de caf\u00e9 entre os dedos, distra\u00edda, enquanto Camila a encarava com aquele olhar de quem j\u00e1 sabia demais.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o? \u2014 Camila cutucou. \u2014 J\u00e1 rolou o convite? Jantar, cinema, casamento marcado?<br>\n\u2003\u2003Sofia bufou.<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o rolou nada. Desde que a gente voltou, n\u00e3o nos vimos. S\u00f3 umas mensagens r\u00e1pidas\u2026 bom dia, boa noite, como foi o trabalho.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 grave. \u2014 Camila fingiu anotar num caderninho imagin\u00e1rio. \u2014 <em>\u201cPaciente em nega\u00e7\u00e3o, claramente apaixonada, mas fingindo que est\u00e1 tudo bem\u201d.<\/em><br>\n\u2003\u2003Sofia deu uma risada nervosa, apoiando o rosto nas m\u00e3os.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o t\u00f4 em nega\u00e7\u00e3o! Eu s\u00f3\u2026 t\u00f4 com medo de que a gente estrague tudo. Foram quatorze anos de amizade, Camila. E agora, depois de um fim de semana, eu n\u00e3o paro de pensar nele de outro jeito.<br>\n\u2003\u2003Camila sorriu com ternura.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Sofi, \u00e0s vezes a gente demora mesmo pra enxergar o \u00f3bvio.<br>\n\u2003\u2003Sofia levantou os olhos devagar, como se aquilo fosse perigoso demais de encarar.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Mas e se eu estiver confundindo? O que a gente viveu no s\u00edtio foi\u2026 intenso. Tinha press\u00e3o da fam\u00edlia, tinha todo mundo olhando. Talvez eu esteja s\u00f3 embarcando numa fantasia.<br>\n\u2003\u2003Camila inclinou a cabe\u00e7a, paciente.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea se conhece melhor do que ningu\u00e9m. Me responde: quando ele te olhava, quando te fazia rir, quando te defendia das provoca\u00e7\u00f5es\u2026 voc\u00ea sentiu que era teatro?<br>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio de Sofia foi resposta suficiente. Ela engoliu em seco, apertando a x\u00edcara entre as m\u00e3os como se fosse uma \u00e2ncora.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu senti\u2026 \u2014 murmurou, com a voz mais baixa. \u2014 Eu senti como se fosse real. Como se eu tivesse me enganado esses anos todos sobre n\u00f3s dois.<br>\n\u2003\u2003Camila se aproximou, apoiando a m\u00e3o no bra\u00e7o da amiga.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fantasia, Sofi. Voc\u00ea s\u00f3 t\u00e1 descobrindo uma nova vers\u00e3o de voc\u00eas.<br>\n\u2003\u2003Sofia suspirou, olhando para o caf\u00e9 j\u00e1 frio.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3 n\u00e3o quero perder o Miguel. Se ele n\u00e3o sentir o mesmo, se isso virar um peso\u2026 eu n\u00e3o sei se consigo encarar.<br>\n\u2003\u2003Camila apertou o bra\u00e7o dela com firmeza, s\u00e9ria.<br>\n\u2003\u2003\u2014 A \u00fanica coisa que voc\u00ea n\u00e3o pode fazer \u00e9 se esconder. Porque, se voc\u00ea fizer isso, vai perder do mesmo jeito. \u2014 E com ar de quem sabia os n\u00fameros da mega-sena, Camila ainda finalizou com um encorajamento \u00e0 amiga: \u2014 E se quer saber\u2026 Um passarinho me contou que o Miguel est\u00e1 at\u00e9 mais submerso nesse sentimento do que voc\u00ea!<br>\n\u2003\u2003Sofia arregalou os olhos de um jeito curioso e apreensivo. Embora queria que Camila estivesse certa, n\u00e3o evitou pensar: se era daquele jeito, porque j\u00e1 haviam se passado tr\u00eas dias e Miguel ainda n\u00e3o a chamara para sair?<br>\n\u2003\u2003De outro ponto da cidade, Miguel estava na academia com Caio e enquanto puxava pesos, Miguel suspirava alto o suficiente para incomodar. Caio, ao lado, n\u00e3o perdoava.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Cara, voc\u00ea t\u00e1 malhando ou encenando novela mexicana?<br>\n\u2003\u2003Miguel largou o aparelho e passou a m\u00e3o no rosto.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu disse que ia chamar a Sofi pra sair. Disse com todas as letras. E j\u00e1 se passaram tr\u00eas dias e nada.<br>\n\u2003\u2003Caio ergueu a sobrancelha.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o o que t\u00e1 esperando? Quer que eu escreva o convite num outdoor na frente do pr\u00e9dio de voc\u00eas?<br>\n\u2003\u2003Miguel riu, meio sem gra\u00e7a.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3\u2026 n\u00e3o quero parecer que t\u00f4 confundindo as coisas, entende? A gente foi pro s\u00edtio como uma mentira, mas l\u00e1\u2026 n\u00e3o parecia mentira.<br>\n\u2003\u2003Caio deu um tapa amig\u00e1vel no ombro dele.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Se n\u00e3o parecia mentira, \u00e9 porque n\u00e3o era. S\u00f3 chama logo, cara. Voc\u00ea tem medo de qu\u00ea?<br>\n\u2003\u2003Miguel respirou fundo, encarando o pr\u00f3prio reflexo no espelho da academia.<br>\n\u2003\u2003\u2014 De perder a amiga que eu mais amo no mundo\u2026 e de ganhar a mulher que eu n\u00e3o consigo parar de imaginar.<br>\n\u2003\u2003Caio parou, dessa vez sem piada, observando o amigo com seriedade inesperada.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Miguel, voc\u00ea j\u00e1 percebeu que t\u00e1 se referindo \u00e0 mesma pessoa, n\u00e9? A Sofi \u00e9 a amiga que voc\u00ea ama e a mulher que voc\u00ea deseja. N\u00e3o tem divis\u00e3o a\u00ed.<br>\n\u2003\u2003Miguel passou a m\u00e3o no cabelo, como se tentasse organizar o pr\u00f3prio caos interno.<br>\n\u2003\u2003\u2014 E se ela n\u00e3o quiser? E se ela s\u00f3 tiver se deixado levar pelo clima? Pelos olhares da fam\u00edlia, pela press\u00e3o\u2026<br>\n\u2003\u2003Caio bufou, jogando a toalha no banco.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me cansa, sabia? \u2014 falou em tom leve, mas direto. \u2014 Essa mulher passou um fim de semana inteiro com voc\u00ea, enfrentou cavalo, lama, pescaria desastrosa e churrasco com torcida organizada. Se ela n\u00e3o quisesse, n\u00e3o teria te olhado daquele jeito.<br>\n\u2003\u2003Miguel baixou os olhos, quase rindo da lembran\u00e7a.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Aquele jeito\u2026<br>\n\u2003\u2003\u2014 Isso. \u2014 Caio cruzou os bra\u00e7os. \u2014 E quer saber? Se voc\u00ea n\u00e3o se mexer, algu\u00e9m mais vai notar esse jeito tamb\u00e9m. E a\u00ed, meu amigo, vai sobrar pra voc\u00ea s\u00f3 arrependimento.<br>\n\u2003\u2003Miguel engoliu seco, como se a possibilidade fosse dolorosa demais para ser considerada.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea acha que eu devo\u2026<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o acho nada. \u2014 Caio cortou. \u2014 Eu tenho certeza. Para de tremer e convida logo. Se voc\u00ea continuar nessa enrola\u00e7\u00e3o, vou eu mesmo ligar pra ela fingindo ser voc\u00ea.<br>\n\u2003\u2003Miguel riu, empurrando o amigo de leve.<br>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1, t\u00e1\u2026 voc\u00ea venceu. Mas dessa vez \u00e9 s\u00e9rio, Caio. Eu n\u00e3o quero brincar com ela.<br>\n\u2003\u2003Caio sorriu, sincero.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o brinque. Mostre que \u00e9 s\u00e9rio.<br>\n<p style=\"text-align: center;\">N O I V A D O \u2022 D E \u2022 C O N V E N I \u00ca N C I A<\/p>\n\u2003\u2003O rel\u00f3gio j\u00e1 marcava quase oito da noite quando Sofia saiu do apartamento de Camila, ainda sorrindo das provoca\u00e7\u00f5es da amiga. A cabe\u00e7a, por\u00e9m, latejava com uma mistura de ansiedade e lembran\u00e7as do s\u00edtio.<br>\n\u2003\u2003Ao virar o corredor para pegar o elevador, deu de cara com Miguel, suado, camiseta colada ao corpo depois da academia, uma garrafa de \u00e1gua na m\u00e3o e uma toalha jogada no ombro. Ele tamb\u00e9m parou, como se tivesse levado um susto agrad\u00e1vel.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Sofi? \u2014 o tom dele saiu surpreso, mas carregado de uma ponta de al\u00edvio. \u2014 Voc\u00ea por aqui\u2026<br>\n\u2003\u2003Ela arqueou a sobrancelha, segurando a bolsa contra o peito.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu moro aqui, Miguel. \u2014 respondeu com ironia, mas os olhos n\u00e3o escondiam o brilho divertido. \u2014 Ou j\u00e1 esqueceu que a porta da frente \u00e9 bem ali?<br>\n\u2003\u2003Ele riu, passando a m\u00e3o no cabelo molhado de suor.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Claro que n\u00e3o esqueci. \u00c9 que\u2026 sei l\u00e1, fazia uns dias que eu n\u00e3o te via.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Tr\u00eas dias. \u2014 ela corrigiu de imediato, antes mesmo de pensar. \u2014 N\u00e3o que eu esteja contando.<br>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi preenchido pelo barulho distante do elevador subindo. Eles se olharam por um segundo a mais do que deveriam, como se as palavras n\u00e3o fossem necess\u00e1rias.<br>\n\u2003\u2003Miguel pigarreou, tentando recuperar o controle.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu\u2026 tava indo pra casa tomar um banho. Academia puxada hoje.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Deu pra perceber. \u2014 Sofia riu, os olhos percorrendo a toalha no ombro dele. \u2014 Voc\u00ea parece ter lutado contra um caminh\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 E perdido. \u2014 ele admitiu, arrancando uma risada dela.<br>\n\u2003\u2003Quando o elevador chegou e as portas se abriram, entraram juntos. O espa\u00e7o pequeno pareceu ainda menor naquela proximidade. Sofia podia sentir o cheiro do desodorante esportivo misturado ao suor fresco, e Miguel, por sua vez, notava o perfume doce e leve que escapava dos cabelos dela. Os dois apertaram o bot\u00e3o quase ao mesmo tempo, as m\u00e3os ro\u00e7ando de leve. Um choque el\u00e9trico subiu pelo bra\u00e7o de Sofia, e Miguel prendeu a respira\u00e7\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Sabe, Sofi\u2026 \u2014 ele come\u00e7ou, a voz um pouco rouca, como se tivesse decidido algo de \u00faltima hora. \u2014 Eu t\u00f4 devendo uma coisa pra voc\u00ea.<br>\n\u2003\u2003Ela virou o rosto, encarando-o com curiosidade e um sorriso cauteloso.<br>\n\u2003\u2003\u2014 E o que seria?<br>\n\u2003\u2003As portas do elevador se abriram no andar deles. Miguel deu um passo para fora, mas antes que ela sa\u00edsse tamb\u00e9m, olhou para tr\u00e1s, diretamente nos olhos dela:<br>\n\u2003\u2003\u2014 O convite.<br>\n\u2003\u2003O cora\u00e7\u00e3o de Sofia disparou, mas ela disfar\u00e7ou com uma provoca\u00e7\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Hm\u2026 convite pra qu\u00ea? Torneio de supino? Aula de abdominal?<br>\n\u2003\u2003Ele riu, abrindo a porta do apartamento dele, bem em frente ao dela.<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Pra sair comigo. Jantar. S\u00f3 eu e voc\u00ea. De verdade.<br>\n\u2003\u2003Sofia parou diante da porta dela, os dedos brincando com as chaves. Por fora, parecia calma. Por dentro, estava em combust\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Vou pensar no caso. \u2014 disse, tentando soar leve, mas o sorriso que n\u00e3o conseguia esconder a entregava completamente.<br>\n\u2003\u2003Miguel encostou no batente da porta, ainda a observando.<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o pense muito, Sofi. Quero voc\u00ea livre no s\u00e1bado.<br>\n\u2003\u2003\u2014 S\u00e1bado ent\u00e3o. \u2014 Ela falou corajosa \u2014 Devo me vestir para que tipo de evento?<br>\n\u2003\u2003\u2014 Para um encontro, se poss\u00edvel daqueles que voc\u00ea n\u00e3o espera se despedir na porta de casa, mas que queira convidar o cara para entrar.<br>\n\u2003\u2003Sofia perdeu a fala. Era a primeira vez que ela recebia um flerte de verdade do Miguel. Ent\u00e3o era daquele jeito ousado que ele falava com as mulheres que estava interessado? Ou ele estava sendo uma vers\u00e3o s\u00f3 para ela? As bochechas coraram e ela soube no momento que a temperatura de sua pele subiu e olhar travesso de Miguel se juntou a um sorriso ladino, ao encar\u00e1-la. Sofia estava morrendo de vergonha por ser flagrada por ele, ela entrou em casa com o cora\u00e7\u00e3o acelerado, fechando a porta devagar. Do outro lado do corredor, Miguel encostou a testa na pr\u00f3pria porta, sorrindo sozinho.<br>\n\u2003\u2003No s\u00e1bado, pouco antes das sete da noite, Miguel j\u00e1 tinha revisado o espelho do quarto mais vezes do que se orgulharia de admitir. Camisa social azul-marinho, cabelo arrumado, mas n\u00e3o demais. Queria parecer elegante, mas sem for\u00e7ar. No celular, a mensagem de Sofia ainda estava fixada no topo da tela:<br>\n\u2003\u2003<strong>Sofia:<\/strong> <em>\u201cNada de me buscar em casa. Quero te encontrar direto no lugar. Nosso encontro precisa ser diferente de tudo que foi antes.\u201d<\/em><br>\n\u2003\u2003Ele sorriu sozinho ao reler aquilo pela quarta vez. Ela tinha raz\u00e3o. Se o \u201cnamorado de emerg\u00eancia\u201d e o \u201cnoivo de conveni\u00eancia\u201d tinham nascido de improvisos e farsas, o que viria agora precisava nascer da escolha deles.<br>\n\u2003\u2003O restaurante escolhido ficava em uma rua tranquila, cheio de plantas na entrada e com ares de segredo guardado. Miguel chegou alguns minutos antes, o cora\u00e7\u00e3o acelerado, e foi conduzido at\u00e9 a mesa reservada, bem no canto, iluminada apenas por uma vela alta.<br>\n\u2003\u2003Quando Sofia entrou, alguns olhares se voltaram para ela. Vestido vermelho, simples, mas que parecia feito sob medida. O cabelo solto, ondulado, ca\u00eda sobre os ombros, e havia algo nos olhos dela \u2014 talvez nervosismo, talvez expectativa \u2014 que fez Miguel esquecer completamente de respirar por alguns segundos.<br>\n\u2003\u2003Ela se aproximou sorrindo, e ele se levantou de imediato.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea veio. \u2014 disse ele, como se n\u00e3o acreditasse.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Claro que vim. \u2014 Sofia respondeu, apoiando a bolsa na cadeira. \u2014 N\u00e3o ia perder a chance de descobrir se voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o bom num jantar de verdade quanto \u00e9 fingindo nas reuni\u00f5es de fam\u00edlia.<br>\n\u2003\u2003Miguel riu, puxando a cadeira para ela sentar.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Prometo n\u00e3o derrubar vinho nem inventar hist\u00f3rias sobre como voc\u00ea quase me matou na adolesc\u00eancia.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ei, essa parte era verdade. \u2014 ela rebateu, divertida.<br>\n\u2003\u2003O gar\u00e7om se aproximou, mas os dois demoraram para escolher. Passavam mais tempo se olhando, rindo sem motivo, desviando o olhar e voltando em seguida. Quando finalmente pediram \u2014 lasanha para ela, nhoque ao molho de gorgonzola para ele \u2014, j\u00e1 estavam mergulhados em uma conversa que parecia ter esperado quatorze anos para acontecer.<br>\n\u2003\u2003Falavam de tudo: da viagem, dos olhares suspeitos da fam\u00edlia, das piadas de Camila e Caio, e at\u00e9 de pequenas mem\u00f3rias que nunca haviam contado um ao outro. Cada detalhe parecia novo, mesmo que partisse de uma amizade antiga.<br>\n\u2003\u2003Em certo momento, Sofia apoiou o cotovelo na mesa e ficou apenas observando Miguel.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Estranho\u2026 \u2014 murmurou.<br>\n\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea? \u2014 ele arqueou a sobrancelha.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre foi meu melhor amigo. Mas, aqui, agora, parece\u2026 diferente.<br>\n\u2003\u2003Ele inclinou a cabe\u00e7a, s\u00e9rio por um instante.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Porque \u00e9 diferente, Sofi. Pela primeira vez, n\u00e3o estamos fingindo nada.<br>\n\u2003\u2003Ela sentiu um arrepio, mas antes que pudesse responder, o gar\u00e7om trouxe os pratos, quebrando a tens\u00e3o. A noite seguiu entre garfadas, risadas e olhares que diziam mais do que qualquer palavra.<br>\n\u2003\u2003Quando a sobremesa chegou \u2014 um tiramis\u00f9 dividido \u2014, Miguel deixou a colher de lado, encarando-a de frente.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o\u2026 posso oficializar que esse foi nosso primeiro encontro de verdade?<br>\n\u2003\u2003Sofia fingiu pensar, passando a colher pelo creme doce.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Hm\u2026 acho que sim. \u2014 ela sorriu, levantando os olhos para ele. \u2014 Mas s\u00f3 se voc\u00ea prometer que vai ter o segundo.<br>\n\u2003\u2003O sorriso de Miguel foi imediato, genu\u00edno, iluminando o rosto dele.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Prometo.<br>\n\u2003\u2003E, pela primeira vez, nenhum dos dois precisou fingir.<br>\n\u2003\u2003Depois do jantar, eles sa\u00edram do restaurante sem pressa, como se o tempo tivesse decidido andar mais devagar para favorecer aquele instante. A rua estava calma, iluminada por postes antigos, e havia uma pra\u00e7a pequena logo adiante, com \u00e1rvores e um coreto no centro. O som da \u00e1gua caindo misturava-se ao riso distante de algumas pessoas.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Quer andar um pouco? \u2014 Miguel perguntou, oferecendo o bra\u00e7o de forma brincalhona.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Se for s\u00f3 andar\u2026 \u2014 Sofia arqueou uma sobrancelha, mas aceitou o gesto, entrela\u00e7ando o bra\u00e7o no dele.<br>\n\u2003\u2003O caminho at\u00e9 a pra\u00e7a foi leve, cada sorriso ou brincadeira vinha acompanhada daquele olhar que terminava sempre um segundo a mais do que deveria. Ao chegarem perto do coreto, Sofia se afastou alguns passos, subindo os degraus para ver a pra\u00e7a um pouco mais alta, enquanto admirava a luz amarela dos postes refletindo nos arbustos floridos da pracinha.<br>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 bonito aqui\u2026 \u2014 disse, mais para si mesma do que para ele.<br>\n\u2003\u2003Miguel a observou em sil\u00eancio, como se estivesse vendo-a pela primeira vez. O vestido dela balan\u00e7ava suavemente com a brisa, e havia algo quase cinematogr\u00e1fico na forma como ela girava de leve, olhando em volta.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9. \u2014 escapou, antes que pudesse controlar.<br>\n\u2003\u2003Sofia parou, surpresa, e virou o rosto para ele.<br>\n\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\n\u2003\u2003Ele deu de ombros, um pouco envergonhado, mas n\u00e3o recuou.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Disse que voc\u00ea \u00e9 bonita. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 novidade, eu sempre te disse isso\u2026<br>\n\u2003\u2003Ela mordeu o l\u00e1bio inferior, disfar\u00e7ando o sorriso, mas o cora\u00e7\u00e3o disparava.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea anda treinando essas falas, Miguel?<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 ele riu, se aproximando devagar. \u2014 S\u00f3 t\u00f4 deixando sair o que ficou preso tempo demais.<br>\n\u2003\u2003Os dois ficaram frente a frente, t\u00e3o perto que podiam sentir a respira\u00e7\u00e3o um do outro. Por um instante, parecia que o mundo inteiro tinha parado. Sofia piscou devagar, o olhar descendo para a boca dele.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o\u2026 vai ficar s\u00f3 olhando?<br>\n\u2003\u2003Foi a deixa que Miguel precisava. Ele segurou o rosto dela com delicadeza, e o beijo aconteceu como um estalo \u2014 intenso, urgente, mas ao mesmo tempo cheio de carinho. O tipo de beijo que n\u00e3o parecia um come\u00e7o, mas sim algo que j\u00e1 existia e finalmente encontrava seu lugar. Quando se afastaram, ambos estavam sorrindo, respira\u00e7\u00f5es aceleradas.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Cinematogr\u00e1fico. \u2014 Sofia murmurou, ainda com os olhos fechados.<br>\n\u2003\u2003Miguel riu, encostando a testa na dela.<br>\n\u2003\u2003\u2014 E sem roteiro dessa vez.<br>\n\u2003\u2003Eles riram juntos, e o som ecoou pelo ar da noite, selando de vez o que antes era apenas teatro.<br>\n\u2003\u2003O beijo na pra\u00e7a foi s\u00f3 o in\u00edcio de uma desventura. Bastou um \u00fanico beijo livre e sem qualquer encena\u00e7\u00e3o ao redor, e Miguel e Sofia n\u00e3o conseguiam mais se soltar. Era como se cada passo fosse puxado por um fio invis\u00edvel, que insistia em mant\u00ea-los pr\u00f3ximos. Quando finalmente chamaram um t\u00e1xi, entraram juntos no banco de tr\u00e1s, e antes mesmo de a porta fechar, as m\u00e3os j\u00e1 tinham se encontrado no meio do caminho, entrela\u00e7adas de forma natural.<br>\n\u2003\u2003O carro seguiu pela cidade iluminada, mas para eles, parecia que nada existia al\u00e9m daquele contato. Sofia olhava pela janela, o cora\u00e7\u00e3o disparado, e a cada vez que Miguel apertava levemente seus dedos, uma onda de calor subia pelo corpo dela.<br>\n\u2003\u2003Ele tamb\u00e9m n\u00e3o conseguia parar de sorrir. A cada curva, a cada farol, o pensamento martelava: <em>se eu me inclinar agora, beijo de novo<\/em>. Mas, como se estivessem em um jogo silencioso, os dois se seguraram, alimentando a expectativa, aumentando o desejo.<br>\n\u2003\u2003Quando o carro parou diante do pr\u00e9dio, o sil\u00eancio entre eles era el\u00e9trico. Miguel pagou a corrida com a m\u00e3o livre, sem soltar a dela. Subiram os degraus da entrada de forma quase autom\u00e1tica, como se a tens\u00e3o fosse guiando. No elevador, o espa\u00e7o pequeno e fechado fez a respira\u00e7\u00e3o de ambos se tornar aud\u00edvel. Sofia encostou nas costas do espelho, e Miguel, diante dela, parecia lutar com o pr\u00f3prio autocontrole.<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai fazer nada? \u2014 ela provocou, arqueando uma sobrancelha, a voz baixa, carregada de desafio.<br>\n\u2003\u2003Ele riu, passando a m\u00e3o pelos cabelos, antes de se aproximar de repente.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o imagina o quanto eu t\u00f4 me segurando desde o t\u00e1xi.<br>\n\u2003\u2003A resposta dela foi agarrar a gola da camiseta dele e pux\u00e1-lo para um beijo urgente, cheio de riso e pressa. As costas dela batiam de leve contra a parede do elevador, e cada segundo era marcado por beijos que iam de intensos a desajeitados, porque ambos riam no meio, trope\u00e7ando no pr\u00f3prio desejo.<br>\n\u2003\u2003As portas do elevador se abriram no andar deles com um <em>ding<\/em> quase inconveniente, mas nem isso os separou de imediato. Miguel s\u00f3 afastou o suficiente para segurar a m\u00e3o dela de novo, ofegante.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Quer que eu\u2026 \u2014 ele come\u00e7ou, sem terminar a frase.<br>\n\u2003\u2003Sofia sorriu, mordendo o l\u00e1bio, puxando-o pelo bra\u00e7o para fora do elevador.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu quero.<br>\n\u2003\u2003Miguel sorriu largamente, porque apesar de entrar no apartamento de Sofia tantas e tantas vezes, daquela era diferente. Apesar de ter dormido no s\u00edtio, dividindo uma cama com ela, agora \u2014 o que viesse a acontecer \u2014 seria diferente. Ele entrou atr\u00e1s dela, ainda de m\u00e3os dadas, e assim que a porta se fechou, Sofia o empurrou suavemente contra ela, como se quisesse selar de vez aquele momento. O beijo veio de novo, quente, faminto, mas com aquela pitada de riso nervoso que s\u00f3 eles dois sabiam produzir.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sempre vi voc\u00ea entrando aqui\u2026 \u2014 ela disse entre risadas, encostando a testa na dele. \u2014 Mas nunca imaginei desse jeito.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu j\u00e1 imaginei, confesso. Mas n\u00e3o achei que fosse me sentir t\u00e3o confort\u00e1vel colando seu corpo no meu. \u2014 Miguel deslizou os dedos pela cintura dela, puxando-a mais para perto.<br>\n\u2003\u2003Foram andando trope\u00e7ando entre beijos pelo corredor do apartamento, derrubando um par de sapatos e quase esbarrando na mesinha da sala. Sofia ria, tentando guiar o caminho, mas Miguel n\u00e3o parecia muito interessado em dire\u00e7\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Cuidado\u2026 \u2014 ela tentou avisar, mas j\u00e1 era tarde. Ele topou no tapete e os dois ca\u00edram no sof\u00e1, um em cima do outro, gargalhando.<br>\n\u2003\u2003O riso, por\u00e9m, logo foi engolido por beijos mais profundos, mais s\u00e9rios, o tipo de beijo que dizia <em>n\u00e3o tem mais volta<\/em>. Miguel passou a m\u00e3o pelo cabelo dela, devagar, como se estivesse decorando cada detalhe. Sofia o olhou, o sorriso cedendo lugar a uma express\u00e3o de ternura inesperada.<br>\n\u2003\u2003\u2014 A gente t\u00e1 mesmo fazendo isso, n\u00e9? \u2014 ela sussurrou, quase sem f\u00f4lego.<br>\n\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 se voc\u00ea quiser. \u2014 ele respondeu, olhando-a nos olhos, sem pressa, como se aquele momento fosse mais importante do que qualquer outra coisa.<br>\n\u2003\u2003Ela assentiu, mordendo o l\u00e1bio, e foi quem puxou a camiseta dele pela barra, revelando o abd\u00f4men quente. Miguel riu baixo, ajudando a tir\u00e1-la de uma vez, antes de se inclinar de novo sobre ela.<br>\n\u2003\u2003A cada pe\u00e7a de roupa que ca\u00eda pelo caminho at\u00e9 o quarto, parecia que eles iam deixando para tr\u00e1s tamb\u00e9m anos de amizade plat\u00f4nica, como se abrissem espa\u00e7o para algo novo. O corpo de Sofia contra o dele era t\u00e3o familiar e ao mesmo tempo t\u00e3o surpreendente que Miguel parava por segundos s\u00f3 para encar\u00e1-la, como se quisesse gravar a cena na mem\u00f3ria.<br>\n\u2003\u2003Quando finalmente chegaram ao quarto, n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para palavras. Os beijos se tornaram lentos e intensos, as m\u00e3os exploravam territ\u00f3rios antes proibidos, e a risada leve dava lugar a suspiros que ecoavam pela escurid\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003Foi uma noite de descobertas, de urg\u00eancia misturada com carinho, de corpos que j\u00e1 se conheciam em todos os detalhes banais do dia a dia, mas que agora se redescobriam de um jeito completamente novo.<br>\n\u2003\u2003E, entre beijos e toques, Sofia murmurou contra os l\u00e1bios dele:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Acho que a gente acabou de estragar a amizade pra sempre\u2026<br>\n\u2003\u2003Miguel sorriu, beijando-a com mais intensidade, antes de responder:<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. A gente acabou de come\u00e7ar outra hist\u00f3ria.\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N O I V A D O \u2022 D E \u2022 C O N V E N I \u00ca N C I A N O I V A D O \u2022 D E \u2022 C O N V E N I \u00ca N C I A Tr\u00eas dias depois\u2026 N O I V A D [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1684],"class_list":["post-4911","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-noivado-de-conveniencia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/4911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=4911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}