{"id":4483,"date":"2018-02-22T21:33:00","date_gmt":"2018-02-23T00:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-07T21:34:14","modified_gmt":"2025-10-08T00:34:14","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/lei-dos-cenarios\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"capitular1\">O<\/span> vento g\u00e9lido chocava-se contra o meu rosto, trazendo consigo um <i>aroma diferenciado<\/i>. Meu nariz, involuntariamente se contorceu, assim como o de minha amiga. Est\u00e1vamos l\u00e1, ambas sentadas no banco de madeira, enquanto a outra afagava minhas madeixas escuras em sinal de consolo. A minha \u00edris castanha ficara emba\u00e7ada, e aos poucos ia inundando-se com as l\u00e1grimas. Liberando-as, prossegui a olhar a tenebrosa chuva que insistia em cair em nossas cabe\u00e7as.<br \/>\u2003\u2003Lizzie respirou fundo e uma crise de espirros iniciou. Eu tentei alcan\u00e7ar sua bolsa, mas ela apenas barrou-me e p\u00f4s sua \u00edris sob a minha.<br \/>\u2003\u2003Suspirei pesadamente, a mente dela comunicava-se comigo, havia chegado a hora. Mesmo sem escolhas, respondia-a com pirra\u00e7a e levantei lentamente. Antes de despista-la, eu a abracei fortemente e a garota garantiu que me esperaria. Com relut\u00e2ncia, pedi que minha amiga me deixasse, n\u00e3o podia prend\u00ea-la no meu cen\u00e1rio por muito tempo. Ela bufou, desaparecendo em seguida.<br \/>\u2003\u2003Observei a estrada vazia e pus-me a caminhar. Conforme eu dava passos largos, mais o vento batia levemente em minha pele e com ele vinha <i>aquele aroma<\/i>. Apertei meus bra\u00e7os contra meu corpo, eu podia me aquecer com um estalo, mas n\u00e3o queria permitir perder uma sensa\u00e7\u00e3o sequer, talvez esse momento n\u00e3o se repetiria.<br \/>\u2003\u2003A neblina surgia rapidamente. Meus olhos n\u00e3o eram capazes de enxergar por causa da fuma\u00e7a, e eu cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que estava sendo <i>guiada pelo olfato<\/i>.<br \/>\u2003\u2003As brisas frias vinham com mais intensidade, e eu pude sentir o forte e delicioso cheiro que me movia durante o silencioso trajeto. Engatei uma breve corrida com finalidade de encontr\u00e1-lo, mas havia esquecido de uma coisa: ele tinha o <i>poder<\/i> de atrasar as pessoas.<br \/>\u2003\u2003Uma dose de raiva desceu pela minha garganta, juntamente com uma onda deliciosa que o seu <i>aroma<\/i> me proporcionava.<br \/>\u2003\u2003Depois de algum tempo, percebi que desvendei o percurso. As ruas permaneciam as mesmas, ent\u00e3o conclui que ele n\u00e3o conseguia mudar o <i>meu cen\u00e1rio<\/i>. Eu o achei encostado na sacada de um casebre, em p\u00e9 em cima do poste. Movi minha m\u00e3o em movimentos circulares, fazendo com que o poste diminu\u00edsse seu tamanho. Encarei o sujeito que mantinha aquele sorriso sarc\u00e1stico nos l\u00e1bios e fechei os olhos, escurecendo o cen\u00e1rio.<br \/>\u2003\u2003Ele se aproximou repentinamente, o que me fez ter um ar de d\u00favida de seus atos. O mo\u00e7oilo era imprevis\u00edvel, algo que minha mente nunca conseguia entender. Meu rosto come\u00e7ou a ser aquecido por sua \u00edris castanha e eu logo levei meus gl\u00f3bulos aos seus. Um choque t\u00e9rmico iniciaria novamente, por\u00e9m ambos n\u00e3o sabiam o que aconteceria a partir dali.<br \/>\u2003\u2003Uma corrente de ar prendia-nos em um c\u00edrculo, com poucos cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia. O perigo era eminente, dois corpos opostos se atraindo, as <b><i>leis do cen\u00e1rio<\/i><\/b> nunca haviam presenciado algo t\u00e3o explosivo.<br \/><i>\u2003\u2003<i>Eu estava embriagada pelo seu <b>cheiro<\/b>.<\/i><br \/>\u2003\u2003Ele, por meus <b>olhos<\/b>.<br \/><\/i>\u2003\u2003E ambos pelo <b>desejo<\/b>.<br \/>\u2003\u2003A corrente nos jogou um para os bra\u00e7os do outro. Fa\u00edscas sa\u00edam de nossos corpos \u00famidos por causa da chuva; quentes, por causa do choque. Sua m\u00e3o queimava ao encostar em minha bochecha, as minhas gelavam sua nuca, fazendo-o arfar. Ergui meus p\u00e9s para alcan\u00e7ar melhor sua face, inclinando minha cabe\u00e7a em sua dire\u00e7\u00e3o. Ao segurar minhas costas para me impulsionar, puxei-o para mim, percebendo a sua respira\u00e7\u00e3o descompassada.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o precis\u00e1vamos nos comunicar por olhares para saber que est\u00e1vamos prontos. Apenas quer\u00edamos descobrir um novo poder: <i>o <b>real choque<\/b>.<\/i><br \/>\u2003\u2003Nossos l\u00e1bios estavam se reconhecendo, agiam com calma, diferente de nossos toques. A cada segundo uma sensa\u00e7\u00e3o invadia nossos poros, provocando anseio por mais. Duas cargas opostas transformaram o cen\u00e1rio em v\u00e1rios, de acordo com nossas emo\u00e7\u00f5es. A jun\u00e7\u00e3o dos poderes sempre fora temida, o choque poderia destruir a civiliza\u00e7\u00e3o constru\u00edda em todos os cen\u00e1rios. Talvez seja por isso que n\u00e3o hav\u00edamos experimentado o real choque antes, sab\u00edamos dos danos. Vivemos na fantasia como duas crian\u00e7as, implicando e fugindo do sentimento. Agora, donos de nossos pr\u00f3prios desejos, \u00edamos contra as leis impostas para nos separarmos. Eu podia ouvir suas palpita\u00e7\u00f5es que se confundiam com as minhas. O sujeito separou seus l\u00e1bios dos meus, descansando sua \u00edris na minha.<br \/><i><b>\u2003\u2003&#8221;\u00c9 para isso que n\u00f3s viemos&#8221;<\/b><\/i>, eu sussurrei, pondo aqueles dois cent\u00edmetros para fora de jogo.<br \/>\u2003\u2003Agora \u00e9 o momento.<br \/>\u2003\u2003Uma <i>explos\u00e3o<\/i> ocorreu, mais conhecida como <i>&#8220;colorido&#8221;<\/i>. Havia diversas fa\u00edscas coloridas e estridentes saindo da corrente que nos prendia. Perdemos o controle do cen\u00e1rio e do tempo, acarretando os <i>raios<\/i>.<br \/>\u2003\u2003Curt\u00edamos cada detalhe m\u00ednimo, pois essa seria a nossa primeira e \u00faltima vez saboreando o <i>choque<\/i>.<br \/>\u2003\u2003A corrente come\u00e7ou a se desfazer, o que nos dizia que havia acabado o nosso encontro. Dei uma olhada nele, soltando-me de seu corpo. Passei meus dedos por seus l\u00e1bios e mudei o cen\u00e1rio.<br \/>\u2003\u2003Tudo estava diferente, e ao longe eu pude enxergar Lizzie me esperando. Ao abra\u00e7\u00e1-la, um vento percorreu nossos narizes, fazendo os mesmos se contorcerem. Sorri em saber que aquele <i><b>aroma<\/b><\/i> permaneceria comigo, mesmo se o sujeito n\u00e3o estivesse.<\/p>\r\n<div class=\"nota\">\r\n<h3 style=\"text-align: center;\">Fim<\/h3>\r\n<\/div>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1573],"class_list":["post-4483","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-lei-dos-cenarios"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/4483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=4483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}