{"id":4436,"date":"2011-03-31T17:43:00","date_gmt":"2011-03-31T20:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-07T17:46:21","modified_gmt":"2025-10-07T20:46:21","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/just-in-time\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"1"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"capitular1\">E<\/span>u podia ouvir o som das gotas caindo da torneira mal fechada h\u00e1 v\u00e1rios metros do meu quarto. Parecia alto o suficiente para manter meus olhos abertos, piscando a cada vez que a solu\u00e7\u00e3o tocava o metal da pia. J\u00e1 n\u00e3o era a primeira e nem a cent\u00e9sima vez que eu perdia o sono naquele m\u00eas. Frascos laranjas vazios de Neozine jaziam em meu criado mudo. %Jay% havia dito que ele era mais forte do que qualquer outro rem\u00e9dio para dormir, apesar de estar relacionado a disturbios psicol\u00f3gicos. Eu poderia muito bem culpar um pouco de seu psicol\u00f3gico. Eram o que as pessoas faziam, afinal, culpavam seus sentimentos, culpavam o outro.<br>\u2003\u2003Mas eu sabia que a culpa era minha. Sempre fora.<br>\u2003\u2003Eu nunca fui a pessoa mais soci\u00e1vel e sorridente do mundo, ou algu\u00e9m que poderia um dia conquistar alguma pessoa. Mas eu conquistei. Conquistei a garota mais ador\u00e1vel e linda que algu\u00e9m ir\u00e1 conhecer na vida. Pode-se dizer que qualquer um sentiria o poder de seu sorriso assim que ele se abrisse. Seus olhos doces e sua voz aveludada, parece at\u00e9 que Ele a criou para trazer a paz. Pois paz era o que sentia quando ela estava por perto. Quando eu sabia que ela viria at\u00e9 mim. Dentre todas as m\u00edseras coisas boas que realizei em toda minha vida at\u00e9 agora, faz\u00ea-la sorrir ainda estava no topo. Soa clich\u00ea, mas isso \u00e9 tudo o que tenho de clich\u00ea em minha vida.<br>\u2003\u2003Aprendi a sorrir quando deveria, aprendi a me entrosar nos lugares que nunca visitaria se n\u00e3o fosse por ela. N\u00e3o posso dizer que aprendi tudo em v\u00e3o. Este tudo est\u00e1 cuidadosamente guardado em uma caixa l\u00e1 no fundo do meu cora\u00e7\u00e3o. Junto com todos os bons momentos que passei com ela durante os quatro anos que permanecemos juntos. Junto com suas palavras, seus sorrisos, seu amor. Meu amor. Tentei ser o que eu n\u00e3o seria nunca. E o que eu aprendi foi que na verdade, eu sempre fora um fracassado. Aquele momento fora apenas uma felicidade passageira que Ele enviou para que eu n\u00e3o reclamasse de uma vida injusta.<br>\u2003\u2003Mas quem sou eu para julgar minha pr\u00f3pria vida? Dizem que s\u00f3 se pode julgar quando \u00e9 conhecido do assunto. Mal me conhe\u00e7o.<br>\u2003\u2003O teto descascando parecia como um quebra-cabe\u00e7as j\u00e1 montado. Eu j\u00e1 havia decorado cada rachadura e manchas que ali jaziam. Sabia onde ocorria os vazamentos, por onde as formigas faziam seu caminho no ver\u00e3o. Sabia a hora que o caminh\u00e3o de lixo passava de madrugada e a hora que o jornal era jogado em minha porta pelo garoto com sua motocicleta.<br>\u2003\u2003Todas as noites me recordava da maneira que ela terminou tudo. Da maneira digna de dizer que fora realmente ela quem terminara comigo.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Fora h\u00e1 quatro meses e quatorze dias atr\u00e1s&#8230;<br><em>\u2003\u2003<em>&#8211; Podemos conversar? &#8211; ouvira sua voz ansiosa atr\u00e1s de mim. Estava jogado em nosso sof\u00e1. Divid\u00edamos o apartamento fazia mais de um ano e meio, pod\u00edamos chamar aquele lugar de lar. Lembro-me de ter estranhado aquele tom de voz ser usado para com minha pessoa. Rapidamente abaixei o volume da televis\u00e3o e olhei para tr\u00e1s. Eu sabia que havia algo errado desde o momento em que a vi ali encolhida, seus dedos brincando ou guerreando com o outro. Me endireitei lhe dando toda minha aten\u00e7\u00e3o, o que a fez hesitar.<\/em><br>\u2003\u2003Milhares de coisas passavam por minha mente. Milhares de erros provavelmente cometidos, mas nenhum t\u00e3o grave a ponto dela usar <i>aquele<\/i> tom comigo.<br>\u2003\u2003- Eu&#8230; &#8211; meus globos oculares se mexeram, mostrando que eu estava de volta em \u00f3rbita. Eu n\u00e3o conhecia aqueles movimentos, aquelas posi\u00e7\u00f5es dela. Durante todos os quatro anos que convivemos juntos eu sabia, sabia de tudo dela. Todos os seus sorrisos e as ocasi\u00f5es que ela o usava. Os verdadeiros, os falsos. Eu havia estudado seu corpo e movimentos. Mas pela primeira vez eu a vira encolhida daquele jeito, como se tivesse medo de mim. Como se tivesse medo que eu fizesse algum mal \u00e0 ela.<br>\u2003\u2003Mal \u00e0 ela. Eu faria tudo, menos isso. E n\u00e3o estou sendo metaf\u00f3rico.<br>\u2003\u2003- O que voc\u00ea faria se&#8230; encontrasse algu\u00e9m&#8230; &#8211; ela dizia num impasse. Sua hesita\u00e7\u00e3o atrapalhava seu racioc\u00ednio, e sem pensar, ela havia me contado que conhecera uma outra pessoa. Um outro homem. Algu\u00e9m com um futuro promissor, talvez n\u00e3o tanto quanto o meu, afinal, eu j\u00e1 estou com uma carreira feita. Mas eu sabia, sabia pelos olhos dela, que ele era melhor que eu. Ele era mais que eu. Era o que ela merecia.<br>\u2003\u2003Me limitei a ficar calado. Eu n\u00e3o era e continuo n\u00e3o sendo o tipo de pessoa que n\u00e3o quer ouvir a verdade por ela ser dolorida. Eu queria ouvir para voltar \u00e0 minha realidade.<br>\u2003\u2003Ouvi cada palavra, cada letra de que formaram a frase que eu n\u00e3o me esque\u00e7o at\u00e9 o dia de hoje. A frase que descrevia aquele que a conquistou. Que a tirou de mim. Que a est\u00e1 fazendo feliz. Ouvi ela dizer que queria tentar. E em nenhum momento ela disse que me amava. E continuei esperando pela frase que nunca veio.<br><\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003Abro meus olhos ao perceber que os mantinha fechados. J\u00e1 estava claro. A luz sendo ofuscada pelas cortinas brancas que %Bridget% adorava. Aquelas que mesmo com uma fraca brisa, dan\u00e7ava como se fosse um vendaval. Que era transparente para n\u00e3o deixar o quarto na escurid\u00e3o. O quarto nunca estaria na escurid\u00e3o, pois l\u00e1 havia uma l\u00e2mpada e energia para lig\u00e1-la e deslig\u00e1-la. A \u00fanica coisa realmente escura ali era eu. Minha energia fora passada para uma outra casa. Uma casa que na verdade, j\u00e1 omitia luz pr\u00f3pria.<br>\u2003\u2003Sento-me e passo as m\u00e3os pelo rosto. Espero meus olhos se acostumarem com a claridade e fa\u00e7o minha higiene matinal. Tinha o dia livre. A semana, para dizer a verdade. O temporal no sul do pa\u00eds nos fez voltar para casa e aproveitar o per\u00edodo de shows cancelados. Era o quarto dia e nada demais acontecera.<br>\u2003\u2003- Oh you, oh you left just in time&#8230; &#8211; toco alguns acordes de Just In Time no viol\u00e3o. Qualquer um podia cantar aquela m\u00fasica. Afinal, ela foi criada para este fim. Era uma m\u00fasica para todos e qualquer um. Todos e qualquer um cantar.<br>\u2003\u2003Olho para nossa foto em minha cabeceira. %Maika% dizia ser loucura eu ainda ter aquilo em meu quarto. Mas ele n\u00e3o sabia que aquilo era tudo o que me restara de um ind\u00edcio de que um dia eu senti tudo o que senti por ela e fui retribu\u00eddo. Diversas vezes ele e %Christian% com a ajuda de %Jay% me diziam que eu tinha de sair daquela. Tinha que parar de me iludir achando que um dia ela iria voltar.<br>\u2003\u2003Mas ela voltaria. Porque se n\u00e3o fosse para ela voltar, ela n\u00e3o teria vindo pela primeira vez. S\u00f3 h\u00e1 retorno algo que uma vez se fora. E apenas \u00e9 caso perdido aquilo que \u00e9 causado pela morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1560],"class_list":["post-4436","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-just-in-time"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/4436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=4436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}