{"id":3651,"date":"2025-05-16T14:04:00","date_gmt":"2025-05-16T17:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-02T14:12:54","modified_gmt":"2025-10-02T17:12:54","slug":"capitulo-03","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/feitico-inquebravel\/capitulo-03\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 03"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003A biblioteca estava quase<\/span> vazia quando resolvi que j\u00e1 era o bastante. Os poucos alunos que ainda restavam pareciam ter se fundido \u00e0s p\u00e1ginas dos livros, como se os pr\u00f3prios livros os tivessem engolido e digerido com sil\u00eancio e poeira antiga.<br \/>\u2003\u2003Eu folheava distraidamente um cap\u00edtulo sobre ingredientes vol\u00e1teis e suas propriedades inst\u00e1veis, mas minha cabe\u00e7a estava longe. Miguel, do meu lado, rabiscava num pergaminho que mais parecia um campo de batalha. A pena dele travava guerras contra o papel e vencia s\u00f3 pelo cansa\u00e7o.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Miguel \u2014 murmurei, sem tirar os olhos da ilustra\u00e7\u00e3o da po\u00e7\u00e3o borbulhante \u2014, voc\u00ea vai explodir esse dever se continuar escrevendo assim.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Se explodir, viro exemplo para posteridade \u2014 respondeu, bocejando. \u2014 Slughorn vai me usar como aviso nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. \u201cVejam, jovens, a trag\u00e9dia da mandr\u00e1gora mal anotada.\u201d<br \/>\u2003\u2003Ri baixo e fechei o livro com cuidado, como quem guarda um feiti\u00e7o perigoso.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vou voltar pra torre. J\u00e1 entendi mais do que precisava por hoje.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu fico. T\u00f4 quase sacando a l\u00f3gica das p\u00e9talas de mandr\u00e1gora. \u201cQuase\u201d, t\u00e1? N\u00e3o me julga.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Boa sorte com isso.<br \/>\u2003\u2003Recolhi minha mochila e sa\u00ed da biblioteca em sil\u00eancio. O castelo estava mergulhado naquela penumbra azulada que s\u00f3 Hogwarts tem \u00e0 noite. As pedras come\u00e7avam a gelar, e meus passos pareciam alto demais nos corredores vazios.<br \/>\u2003\u2003Peguei um atalho pelo terceiro andar, desviando da ala das armaduras \u2014 elas sempre reclamavam quando passava tarde por ali. Mas, na curva do corredor, algo mudou.<br \/>\u2003\u2003O ar&#8230; vibrou.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o como um vento. Como uma presen\u00e7a.<br \/>\u2003\u2003Parei.<br \/>\u2003\u2003O corredor estava vazio. Mas eu n\u00e3o estava sozinha. Tinha certeza disso.<br \/>\u2003\u2003Mais tr\u00eas passos. E ent\u00e3o vi.<br \/>\u2003\u2003A porta.<br \/>\u2003\u2003Madeira escura, entalhada com a f\u00eanix dourada \u2014 a entrada do escrit\u00f3rio do diretor. Sempre selada e imponente. Mas agora&#8230; agora havia algo ao redor dela, no ar. Um calor silencioso, uma vibra\u00e7\u00e3o sutil, m\u00e1gica, quase viva.<br \/>\u2003\u2003Me aproximei devagar, como se o ch\u00e3o estivesse chamando meu nome.<br \/>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que ouvi.<br \/>\u2003\u2003Sussurros.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era som, era uma sensa\u00e7\u00e3o. Uma l\u00edngua que eu n\u00e3o conhecia, mas que parecia me reconhecer. As palavras flutuavam como fuma\u00e7a, e por um instante, juro, tive a impress\u00e3o de que a pr\u00f3pria pedra murmurava.<br \/>\u2003\u2003Estendi a m\u00e3o e toquei a parede ao lado da porta. A imagem veio na hora, n\u00e3o sonho ou imagina\u00e7\u00e3o, era mem\u00f3ria.<br \/>\u2003\u2003Uma casa. Ru\u00ednas. Paredes quebradas. Um campo seco. \u00c1rvores que pareciam m\u00e3os torcidas apontando para o c\u00e9u. E no centro disso tudo, uma mulher. Em p\u00e9 \u00e0 porta.<br \/>\u2003\u2003Ela me olhou.<br \/>\u2003\u2003Cabelos soltos, olhos tristes, corpo curvado como se carregasse s\u00e9culos de dor. E na ma\u00e7aneta da porta, enrolada como um segredo: uma serpente. Viva? S\u00edmbolo? Maldi\u00e7\u00e3o?<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o sei.<br \/>\u2003\u2003Afastei a m\u00e3o num sobressalto. Meu peito do\u00eda. Olhei ao redor, esperando&#8230; alguma coisa. Um som, ou um aviso, mas nada.<br \/>\u2003\u2003Tudo im\u00f3vel de novo. Como se o corredor tivesse me devolvido ao tempo presente e fechado a cortina na minha cara. Respirei fundo e pressionei os dedos contra a palma da m\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Aquilo n\u00e3o era imagina\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o tinha explica\u00e7\u00e3o. Ainda n\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Voltei a andar e guardei o que vi naquele canto da mente onde se escondem as perguntas que ningu\u00e9m ainda teve coragem de fazer.<br \/>\u2003\u2003A Torre da Corvinal estava quieta quando entrei. N\u00e3o troquei de roupa. N\u00e3o falei com ningu\u00e9m. S\u00f3 deitei, olhando o teto encantado girar com as constela\u00e7\u00f5es azuis, e deixei os pensamentos se emaranharem com as estrelas.<br \/>\u2003\u2003Sussurros.<br \/>\u2003\u2003A mulher.<br \/>\u2003\u2003A serpente.<br \/>\u2003\u2003O castelo havia deixado um segredo cair no meu colo. E eu&#8230; ainda n\u00e3o sabia se queria carreg\u00e1-lo.<br \/>\u2003\u2003Tentei dormir. Ch\u00e1 de menta. Feiti\u00e7o de relaxamento\u2026 mas nada funcionou.<br \/>\u2003\u2003Quando o c\u00e9u come\u00e7ou a clarear, eu ainda estava sentada na cama, abra\u00e7ada ao grim\u00f3rio como se ele fosse um escudo contra o que n\u00e3o dava para nomear. Cho se mexeu na cama. Miranda tamb\u00e9m.<br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 tudo bem? \u2014 perguntou Cho, ainda sonolenta.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea parece&#8230; estranha \u2014 disse Miranda, sentando-se. Me virei, prendendo o cabelo com calma.<br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 tudo certo. S\u00f3 n\u00e3o dormi o suficiente.<br \/>\u2003\u2003Elas trocaram olhares, mas n\u00e3o insistiram.<br \/>\u2003\u2003Peguei minha mochila e desci as escadas com passos leves. O Sal\u00e3o Principal estava barulhento, como sempre. Talheres, vozes, corujas, risadas, mas para mim, tudo parecia abafado, como se estivesse ouvindo o mundo debaixo d\u2019\u00e1gua.<br \/>\u2003\u2003Parei em frente \u00e0 mesa da Corvinal.<br \/>\u2003\u2003Luna lia <em>O Pasquim<\/em> de cabe\u00e7a pra baixo. Miguel discutia com Cho sobre alguma teoria de po\u00e7\u00e3o que envolvia lesmas. Tudo ali parecia alto demais, colorido demais, distante demais.<br \/>\u2003\u2003Me virei para a mesa da Grifin\u00f3ria. Harry, Rony e Hermione estavam ali, os lugares ao redor ainda meio vazios. Um sil\u00eancio diferente pairava entre eles. \u00c0s vezes, quando precisava de sil\u00eancio&#8230; era ali que eu me sentava. E hoje, precisava mais do que nunca.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 com uma cara p\u00e9ssima \u2014 foi o que Rony disse quando me sentei. Delicado como uma vassoura no meio da cara. \u2014 Tipo \u201cacabei de escapar de um dementador\u201d p\u00e9ssima.<br \/>\u2003\u2003Hermione o fulminou com os olhos. Harry n\u00e3o disse nada, mas me olhou. Aquele tipo de olhar que escutava sem precisar de palavras. Passei a m\u00e3o no rosto, peguei uma torrada, mas nem tentei comer.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o dormi. \u2014 Minha voz saiu crua. \u2014 Tive uma&#8230; experi\u00eancia estranha ontem.<br \/>\u2003\u2003Eles se calaram.<br \/>\u2003\u2003Contei.<br \/>\u2003\u2003O corredor. A vibra\u00e7\u00e3o. A parede. O toque. A vis\u00e3o da casa. A mulher. A serpente. Omiti o medo. A sensa\u00e7\u00e3o de ser observada. O arrepio na espinha. Algumas coisas eram s\u00f3 minhas, ainda.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso foi ontem \u00e0 noite? \u2014 Harry perguntou, mais baixo. Assenti. \u2014 Depois a gente conversa. Com calma \u2014 foi tudo que respondeu.<br \/>\u2003\u2003Hermione tocou levemente no meu bra\u00e7o. A sineta tocou. Hora da primeira aula.<br \/>\u2003\u2003Transfigura\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Fomos juntos, mas Harry ficou um pouco atr\u00e1s. Andava em sil\u00eancio. Pensando. E mesmo com a cabe\u00e7a pesada, percebi: tinha algo nele diferente. Algo que estava se movendo tamb\u00e9m.<br \/>\u2003\u2003Na sala de aula, McGonagall j\u00e1 nos esperava. R\u00edgida. Impec\u00e1vel. As palavras no quadro negro j\u00e1 eram suficientes pra dar arrepios:<br \/>\u2003\u2003<em>\u201cTransfigura\u00e7\u00e3o Humana: modifica\u00e7\u00e3o localizada e revers\u00edvel de atributos corporais.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003Me sentei ao lado de Hermione. Rony bocejava. Harry tentava parecer normal, mas n\u00e3o conseguia.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Hoje come\u00e7amos o conte\u00fado mais delicado do ano \u2014 McGonagall anunciou. \u2014 Erros aqui s\u00e3o dolorosos. Ou embara\u00e7osos. Ou ambos.<br \/>\u2003\u2003A turma riu, nervosa. Ela demonstrou. A m\u00e3o virou uma pata felina em segundos. Elegante. Precisa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora \u00e9 com voc\u00eas.<br \/>\u2003\u2003Varinhas em m\u00e3os, fechei os olhos, respirei e deixei fluir. N\u00e3o forcei, ou controlei, s\u00f3 senti, como me ensinaram em Uagadou. Minhas pontas dos dedos se alongaram. Os ossos mudaram. E, quando abri os olhos, l\u00e1 estava: pata felina perfeita, pelos macios, garras retra\u00eddas.<br \/>\u2003\u2003Sil\u00eancio absoluto na mesa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Impressionante, Srta. %Chikondi% \u2014 disse McGonagall. \u2014 Eleg\u00e2ncia e controle. Uma combina\u00e7\u00e3o rara.<br \/>\u2003\u2003Assenti com um sorriso discreto. Nada de arrog\u00e2ncia. S\u00f3&#8230; tranquilidade. Hermione sussurrou ao meu lado:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu sabia que voc\u00ea era boa. Mas isso foi&#8230; uau.<br \/>\u2003\u2003\u2014 L\u00e1 em Uagadou a gente aprende Transfigura\u00e7\u00e3o antes de escrever o pr\u00f3prio nome \u2014 murmurei, dando de ombros.<br \/>\u2003\u2003Harry ainda me olhava. N\u00e3o com surpresa, mas com&#8230; reconhecimento. Como se tivesse se lembrado, por um instante, de quem eu era. Do que eu carregava.<br \/>\u2003\u2003Desfiz o feiti\u00e7o com facilidade. Voltei \u00e0 normalidade, ou algo pr\u00f3ximo disso. Quando a aula terminou, McGonagall passou pela minha mesa de novo. Abaixou o tom:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Srta. %Chikondi%, o professor Dumbledore gostaria de v\u00ea-la depois do almo\u00e7o.<br \/>\u2003\u2003Parei. Assenti.<br \/>\u2003\u2003O mundo girava.<br \/>\u2003\u2003E alguma coisa, dentro de mim, estava come\u00e7ando a despertar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele disse o motivo? \u2014 perguntei, baixando a varinha e tentando manter o tom leve, mesmo com o cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 acelerado.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Mas o tom&#8230; n\u00e3o era de repreens\u00e3o. \u2014 McGonagall arqueou uma sobrancelha, naquele jeito enigm\u00e1tico e s\u00f3 um pouco orgulhoso que ela dominava com perfei\u00e7\u00e3o. \u2014 E, se me permite dizer&#8230; h\u00e1 poucos alunos em Hogwarts que conseguem executar uma transfigura\u00e7\u00e3o como a sua. Especialmente num dia que, claramente, n\u00e3o come\u00e7ou f\u00e1cil.<br \/>\u2003\u2003Senti o peito apertar, uma pontada silenciosa que n\u00e3o era exatamente medo \u2014 mas tamb\u00e9m n\u00e3o era s\u00f3 ansiedade. Era como se algo estivesse se preparando dentro de mim, tomando forma no escuro.<br \/>\u2003\u2003Assenti, engolindo em seco.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada, professora.<br \/>\u2003\u2003Ela me lan\u00e7ou um pequeno sorriso e voltou ao centro da sala, encerrando a aula como se n\u00e3o tivesse acabado de soltar uma bomba em minhas costas.<br \/>\u2003\u2003Enquanto guardava o material, meus pensamentos j\u00e1 estavam longe dali. Muito antes de subir at\u00e9 o escrit\u00f3rio do diretor, algo em mim j\u00e1 sabia: alguma coisa estava prestes a ser revelada. E eu n\u00e3o estava certa se estava pronta para ouvir.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O c\u00e9u parecia mais pesado quando caminhei pelos corredores vazios que levavam \u00e0 torre de Dumbledore. Nuvens densas se acumulavam do lado de fora, e uma brisa fria serpenteava pelas pedras do castelo. Tudo tinha um ar suspenso, como se at\u00e9 Hogwarts estivesse prendendo a respira\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003A g\u00e1rgula girou devagar assim que murmurei a senha que McGonagall havia me dado: <em>Sorvete de gengibre.<\/em><br \/>\u2003\u2003Cl\u00e1ssico.<br \/>\u2003\u2003Subi os degraus em espiral sentindo o cora\u00e7\u00e3o bater alto \u2014 n\u00e3o de medo, mas de&#8230; antecipa\u00e7\u00e3o. Como quem entra em um lugar onde o tempo se dobra.<br \/>\u2003\u2003A porta se abriu com um rangido suave. Dumbledore estava de costas, em p\u00e9, observando a luz que filtrava pelas janelas arqueadas. Seu manto roxo ro\u00e7ava o ch\u00e3o com suavidade, e Fawkes soltava um canto baixo e melanc\u00f3lico, como se j\u00e1 soubesse o que estava por vir.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Srta. %Chikondi% \u2014 disse ele, sem se virar \u2014, fico feliz por ter vindo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 A professora McGonagall disse que o senhor queria falar comigo \u2014 respondi, mantendo a postura firme, mesmo com as m\u00e3os suando levemente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 De fato. E a senhorita sabia, n\u00e3o sabia?<br \/>\u2003\u2003Ele se virou ent\u00e3o, os olhos brilhando por tr\u00e1s dos \u00f3culos de meia-lua. Um brilho que eu n\u00e3o sabia dizer se era sabedoria, provoca\u00e7\u00e3o ou apenas o reflexo de algo que eu ainda n\u00e3o conseguia enxergar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sabia? \u2014 repeti, hesitante.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o exatamente. Mas&#8230; sentiu. \u2014 Ele sorriu, e aquele sorriso parecia conter mil respostas e nenhuma. \u2014 A magia antiga costuma sussurrar antes de falar alto. Nem todos conseguem ouvi-la. E menos ainda sabem escut\u00e1-la.<br \/>\u2003\u2003Dei um passo \u00e0 frente, sentindo o corpo todo em alerta.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que o senhor quer dizer com&#8230; escutar?<br \/>\u2003\u2003Dumbledore apontou para uma poltrona diante de sua mesa. Sentei-me, tensa, ainda sem saber se estava ali para receber um segredo ou uma responsabilidade.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Seu pai era muito parecido com voc\u00ea \u2014 comentou de repente, com a voz suave, como se puxasse um fio da mem\u00f3ria. \u2014 Observador. Curioso. E dono de uma magia inquieta. Ele estudou em Hogwarts nos mesmos anos que Tiago Potter e Sirius Black, sabia?<br \/>\u2003\u2003Assenti, surpresa com a men\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sabia que eles se conheciam, mas&#8230; meu pai nunca falou muito sobre isso.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele foi um aluno brilhante. Teimoso, \u00e0s vezes. \u2014 Um brilho leve atravessou os olhos de Dumbledore. \u2014 Conheceu sua m\u00e3e em uma confer\u00eancia internacional sobre combate \u00e0s Artes das Trevas. E simplesmente&#8230; decidiu que o lugar dele era ao lado dela. Foi um daqueles momentos raros em que at\u00e9 a magia pareceu dizer &#8220;\u00e9 por aqui&#8221;.<br \/>\u2003\u2003Sorri com a imagem que aquilo formava na minha cabe\u00e7a. Foi ent\u00e3o que ele colocou um pequeno frasco de vidro sobre a mesa. Dentro, rodopiava uma subst\u00e2ncia prateada. Uma mem\u00f3ria.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea viu na noite passada&#8230; n\u00e3o foi imagina\u00e7\u00e3o, %Ayana%. Foi um eco. \u2014 Minhas m\u00e3os se fecharam contra os bra\u00e7os da cadeira.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vi uma casa. Uma mulher. Uma serpente. \u2014 As palavras sa\u00edram num sussurro.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Fragmentos de uma mem\u00f3ria guardada com magia antiga. T\u00e3o poderosa que n\u00e3o conseguiu permanecer contida. E voc\u00ea a captou&#8230; porque h\u00e1 algo em voc\u00ea igualmente antigo. \u2014 Engoli em seco.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; o senhor sabia?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Suspeitava. Agora, tenho certeza.<br \/>\u2003\u2003Ele se aproximou com calma, os olhos suaves, mas firmes. Como se me enxergassem inteira.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Meus pais sabem? \u2014 perguntei ent\u00e3o, baixando a voz. Dumbledore assentiu, com uma express\u00e3o gentil.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sabem. Sempre souberam que havia algo especial, mas decidiram esperar que voc\u00ea mesma percebesse. Que sua rela\u00e7\u00e3o com a magia crescesse de forma natural, n\u00e3o for\u00e7ada. Eles confiaram que voc\u00ea saberia quando fosse a hora. E, %Ayana%\u2026 voc\u00ea soube.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu\u2026 \u2014 as palavras fugiam da minha mente, era muito a assimilar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Em Uagadou, h\u00e1 registros de bruxos como voc\u00ea. N\u00e3o s\u00e3o videntes. Nem legilimentes. Caminham na borda entre o mundo m\u00e1gico e o invis\u00edvel.<br \/>\u2003\u2003Eu me mantive em sil\u00eancio, mas por dentro&#8230; era como se todas as pe\u00e7as que eu fingia n\u00e3o ver estivessem come\u00e7ando a se encaixar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Seu dom \u00e9 raro. E perigoso, se n\u00e3o compreendido. Mas tamb\u00e9m&#8230; precioso. Porque voc\u00ea pode ouvir o que mais ningu\u00e9m ouve. E talvez, no tempo certo&#8230; ver o que mais ningu\u00e9m v\u00ea.<br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu era denso. Quase ritual\u00edstico. Meus olhos foram at\u00e9 o frasco sobre a mesa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Aquela mem\u00f3ria&#8230; \u00e9 dela? A mulher que eu vi? \u2014 Dumbledore n\u00e3o respondeu direto.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Digamos apenas que algumas hist\u00f3rias se repetem. E algumas marcas, como a serpente, voltam a aparecer onde h\u00e1 segredos antigos demais para ficarem enterrados.<br \/>\u2003\u2003Assenti devagar. A mente girava, como se procurasse onde encaixar tudo aquilo. Ele se afastou, como quem fecha um livro ainda pela metade.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigado por escutar, %Ayana%. E por n\u00e3o ignorar o que viu.<br \/>\u2003\u2003Me levantei, os joelhos ligeiramente tr\u00eamulos. E ent\u00e3o ele acrescentou, com um meio sorriso:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ah, e diga ao Sr. Potter que estarei esperando por ele amanh\u00e3 \u00e0 noite.<br \/>\u2003\u2003Pisquei, surpresa. Mas n\u00e3o perguntei por qu\u00ea. Apenas assenti. Enquanto sa\u00eda, uma certeza crescia dentro de mim, quente e inc\u00f4moda como uma tocha acesa no escuro:<br \/>\u2003\u2003<em>A partir de agora, nada seria como antes.<\/em><\/p>\r\n<p align=\"center\">\u26a1\ud83e\uddd9<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O castelo j\u00e1 dormia. Ou fingia. A maioria dos alunos havia se recolhido, e o som de passos apressados, risadas perdidas e feiti\u00e7os sussurrados se dissolvera no sil\u00eancio espesso que s\u00f3 Hogwarts conhecia quando respirava sozinha.<br \/>\u2003\u2003Est\u00e1vamos os quatro sentados nos degraus gastos do sagu\u00e3o de entrada, perto da escadaria de m\u00e1rmore. Rony arrumava o material de Herbologia com m\u00e1 vontade, Hermione revisava anota\u00e7\u00f5es com uma pena encantada que parecia mais viva do que ele, e eu&#8230; s\u00f3 observava.<br \/>\u2003\u2003Observava o modo como Harry mantinha o olhar abaixado desde que sentamos ali, como se cada pensamento pesasse nos ombros mais do que qualquer mochila de livros. Aquilo n\u00e3o era cansa\u00e7o comum. Era o tipo de exaust\u00e3o que s\u00f3 conhece quem j\u00e1 viu demais. Quem carrega segredos demais.<br \/>\u2003\u2003Esperei.<br \/>\u2003\u2003Ele soltou um suspiro curto, quase engolido pela noite.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O Dumbledore me chamou ontem \u00e0 noite&#8230; para uma li\u00e7\u00e3o \u2014 disse, com a voz contida, como se cada palavra precisasse ser escolhida com precis\u00e3o cir\u00fargica. \u2014 Me mostrou uma mem\u00f3ria. De um homem chamado Bob Ogden. Ele trabalhava no Minist\u00e9rio&#8230; e foi visitar uma fam\u00edlia chamada Gaunt.<br \/>\u2003\u2003Vi os olhos de Hermione se erguerem na mesma hora.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Gaunt? Nunca ouvi falar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eles eram sangue-puros. Orgulhosos disso. Mas viviam isolados, no meio da sujeira e da loucura. O pai, Marvolo, era violento. O filho, Morfin, completamente perturbado. E a filha&#8230;<br \/>\u2003\u2003Ele fez uma pausa longa. O tipo de pausa que n\u00e3o \u00e9 para lembrar, \u00e9 para processar o que se lembra.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Merope. Era tratada como nada. Invis\u00edvel.<br \/>\u2003\u2003Meu est\u00f4mago se revirou, a mulher da vis\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eles s\u00e3o parentes do Voldemort? \u2014 perguntou Rony, a testa franzida.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Merope&#8230; era a m\u00e3e dele \u2014 Harry disse, quase sem voz. \u2014 Ela se apaixonou por um trouxa. Um homem bonito, rico, chamado Tom Riddle.<br \/>\u2003\u2003Um sil\u00eancio denso caiu sobre n\u00f3s. Hermione parecia tomada por compaix\u00e3o. Rony olhava para o ch\u00e3o, inquieto. E eu\u2026 eu fechei os olhos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu vi essa casa. \u2014 Minha pr\u00f3pria voz me surpreendeu. Os tr\u00eas se viraram para mim. \u2014 Naquela noite, no corredor. N\u00e3o sabia o que era. Mas vi uma mulher com olhos tristes&#8230; e uma serpente enrolada na ma\u00e7aneta. Eu n\u00e3o entendi. S\u00f3&#8230; senti.<br \/>\u2003\u2003Harry prendeu a respira\u00e7\u00e3o. Como se uma pe\u00e7a tivesse acabado de se encaixar num quebra-cabe\u00e7a antigo demais.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Era a mesma casa. A mesma mulher. \u2014 Assenti devagar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E hoje \u00e0 tarde&#8230; Dumbledore tamb\u00e9m me chamou. Ele queria falar sobre isso. Sobre mim. Sobre o que eu sou. \u2014 Rony arregalou os olhos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea \u00e9? \u2014 Respirei fundo antes de responder.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele disse que eu tenho um dom. Um tipo de sensibilidade m\u00e1gica. Eu escuto o que n\u00e3o foi dito. Vejo o que n\u00e3o \u00e9 meu. Fragmentos. Ecos de coisas que aconteceram&#8230; ou que ainda est\u00e3o acontecendo em outro plano. \u2014 Hermione estava completamente atenta, absorvendo cada palavra.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Como uma&#8230; premoni\u00e7\u00e3o?<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o exatamente. \u00c9 mais como&#8230; se a magia falasse. E eu escutasse, mesmo quando ningu\u00e9m mais est\u00e1 ouvindo. Como se fosse uma antena para coisas que n\u00e3o querem ser encontradas.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 brilhante \u2014 sussurrou Hermione, encantada.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 assustador \u2014 disse Rony. Soltei uma risada baixa, sem humor.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 as duas coisas.<br \/>\u2003\u2003Harry me encarou. E naquele olhar&#8230; havia algo novo. Como se estiv\u00e9ssemos finalmente no mesmo mapa, mesmo sem saber onde era o norte.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o estamos os dois vendo peda\u00e7os de algo que aconteceu antes&#8230; tentando entender o que isso significa agora.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E ainda vamos precisar ver muito mais pra entender qualquer coisa.<br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio que veio depois n\u00e3o era desconfort\u00e1vel.<br \/>\u2003\u2003Era cheio.<br \/>\u2003\u2003Cheio de respeito, de compreens\u00e3o&#8230; de uma confian\u00e7a que vinha daquilo que ningu\u00e9m mais via. As tochas do sagu\u00e3o oscilavam, projetando sombras vivas nas paredes de pedra. Quase como se o pr\u00f3prio castelo estivesse ouvindo, quieto, o que a gente dizia.<br \/>\u2003\u2003Rony, com os olhos ainda fixos nas m\u00e3os, murmurou:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; se a m\u00e3e do Voldemort era uma bruxa sangue-puro, e o pai era trouxa&#8230; ele \u00e9 mesti\u00e7o? \u2014 Hermione assentiu, sem hesitar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sim. E passou a vida inteira tentando apagar isso. \u00c9 a grande ironia. \u2014 Rony franziu o cenho.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas ent\u00e3o&#8230; ser\u00e1 que o sangue tem mesmo tanto peso? Ser\u00e1 que algu\u00e9m&#8230; j\u00e1 nasce ruim? \u2014 Fui eu quem respondeu. Sem hesitar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 o sangue. S\u00e3o as escolhas. \u2014 Olhei para eles, um a um. \u2014 A Merope podia ter sido outra pessoa se tivesse sido amada. O Tom Riddle podia ter feito outras escolhas. Mas ele escolheu o caminho mais escuro. E continuou escolhendo. Mesmo quando poderia ter voltado.<br \/>\u2003\u2003Hermione assentiu devagar, tocada. Rony ficou em sil\u00eancio. Processando.<br \/>\u2003\u2003Mas Harry\u2026 estava em outro lugar. Os olhos fixos em algo que s\u00f3 ele via.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ele nunca teve amor \u2014 disse, por fim. \u2014 Nem chance.<br \/>\u2003\u2003E naquele momento, eu vi. N\u00e3o o \u201cEleito\u201d. N\u00e3o o \u201cMenino que Sobreviveu\u201d. Eu vi um garoto que, como o pr\u00f3prio Voldemort, cresceu \u00f3rf\u00e3o, mas que teve uma diferen\u00e7a crucial: ele teve pessoas. Teve apoio. Teve op\u00e7\u00e3o. Teve coragem de escolher diferente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea escolheu diferente \u2014 murmurei. \u2014 Sempre escolheu.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o respondeu, mas vi o m\u00fasculo de sua mand\u00edbula se contrair, como se estivesse engolindo algo maior do que palavras. Ent\u00e3o, sem pensar muito, s\u00f3 deixei meu corpo agir. Me aproximei e o abracei. Foi um gesto simples. Sem cerim\u00f4nia. Sem expectativa de retribui\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003S\u00f3&#8230; um abrigo. Silencioso.<br \/>\u2003\u2003Como quem diz, sem dizer: <em>eu sei. E eu t\u00f4 aqui.<\/em><br \/>\u2003\u2003Harry demorou um segundo. Mas ent\u00e3o&#8230; afundou levemente o queixo no meu ombro. Como se, por um segundo, pudesse soltar o ar que estava preso h\u00e1 dias. Ningu\u00e9m disse nada. E, naquele sil\u00eancio&#8230; tudo foi dito.<br \/>\u2003\u2003A conversa morreu ali. N\u00e3o por falta de assunto, mas porque sab\u00edamos que hav\u00edamos tocado em algo profundo demais para continuar naquela noite.<br \/>\u2003\u2003Nos levantamos juntos.<br \/>\u2003\u2003E enquanto sub\u00edamos de volta para nossas torres, senti a certeza de que, a partir dali, n\u00e3o est\u00e1vamos mais sozinhos dentro desse mist\u00e9rio. T\u00ednhamos uns aos outros e isso j\u00e1 era o come\u00e7o de tudo.<br \/>\u2003\u2003A escadaria em espiral da Torre da Corvinal rangeu sob meus passos silenciosos.<br \/>\u2003\u2003Cheguei ao dormit\u00f3rio com os ombros pesados. Mas n\u00e3o era o tipo de peso que um banho quente ou uma noite de sono resolveriam. Era um cansa\u00e7o que nascia por dentro \u2014 de sentir demais, saber demais&#8230; e ainda assim n\u00e3o saber o suficiente.<br \/>\u2003\u2003O c\u00e9u al\u00e9m das janelas estava coberto por nuvens carregadas, mas uma luz azulada atravessava as pedras encantadas, filtrando-se at\u00e9 meu canto do quarto como se dissesse: <em>voc\u00ea ainda est\u00e1 aqui<\/em>. Acendi a vela com um estalar de dedos e sentei \u00e0 escrivaninha. Os olhos ardiam, mas n\u00e3o chorei. N\u00e3o tinha espa\u00e7o nem pra isso.<br \/>\u2003\u2003Puxei dois peda\u00e7os de pergaminho.<br \/>\u2003\u2003O primeiro foi para Tonks.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>Tonks,<\/em><br \/><em>Como voc\u00ea sabia?<\/em><br \/><em>Como conseguiu entender que eu estava sentindo essas coisas antes mesmo de eu perceber o que elas eram?<\/em><br \/><em>Dumbledore me contou. Sobre o dom. Sobre o que eu sou. Mas&#8230; saber n\u00e3o ajuda tanto quanto eu imaginava. Ainda me sinto perdida.<\/em><br \/><em>Voc\u00ea sempre teve esse jeito de rir do caos \u2014 ent\u00e3o, por favor, se puder rir agora, talvez ele pare\u00e7a menos aterrorizante. Talvez pare\u00e7a s\u00f3&#8230; um vento forte, e n\u00e3o um furac\u00e3o.<\/em><br \/><em>Escreve de volta, t\u00e1? Acho que preciso mais de voc\u00ea do que imaginava.<\/em><br \/><em>\u2014 %Ayana%<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Dobrei o pergaminho com cuidado, quase como se fosse fr\u00e1gil demais para o mundo. Deixei-o ao lado da coruja da casa, que dormia empoleirada, indiferente \u00e0 tormenta m\u00e1gica que crescia dentro de mim.<br \/>\u2003\u2003Respirei fundo. Puxei o segundo.<br \/>\u2003\u2003Era a vez dos Weasley.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>Fred, George (ou os dois, porque \u00e9 imposs\u00edvel separar voc\u00eas),<\/em><br \/><em>Acabei de presenciar mais um cap\u00edtulo do drama m\u00e1gico n\u00e3o autorizado de Hogwarts, e sinceramente? Acho que o castelo t\u00e1 tentando superar voc\u00eas em espet\u00e1culo. T\u00e1 dif\u00edcil competir.<\/em><br \/><em>Prometo passar na loja assim que conseguir uma brecha. Mas se eu sair de l\u00e1 com uma sobrancelha roxa ou um feiti\u00e7o de solu\u00e7o eterno, a vingan\u00e7a vai ser criativa. Isso n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a, \u00e9 uma promessa.<\/em><br \/><em>As coisas por aqui&#8230; est\u00e3o esquisitas. Comigo, principalmente. Mas juro que explico tudo pessoalmente.<\/em><br \/><em>Ah, e se tiverem lan\u00e7ado alguma coisa com glitter explosivo, mandem amostras. A torre da Corvinal anda precisando de uma revolu\u00e7\u00e3o cintilante.<\/em><br \/><em>Com confus\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/><em>%Ayana%<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ri baixinho ao terminar de escrever. Pela primeira vez naquele dia, senti o mundo recuar um pouquinho. Como se existisse um intervalo entre uma batida e outra do cora\u00e7\u00e3o \u2014 s\u00f3 o suficiente pra respirar.<br \/>\u2003\u2003Fechei o pergaminho e o deixei sobre a mesa.<br \/>\u2003\u2003E ent\u00e3o puxei o grim\u00f3rio.<br \/>\u2003\u2003A capa escura parecia mais viva do que deveria. As p\u00e1ginas, marcadas pelo tempo, ainda vibravam com aquela energia antiga que nunca se apagava. Folheei at\u00e9 a se\u00e7\u00e3o das runas. Parei quando encontrei a que estava desenhada no livro do Pr\u00edncipe Mesti\u00e7o: a da escuta ancestral.<br \/>\u2003\u2003<em>\u201cA escuta ancestral n\u00e3o \u00e9 o ouvir comum. \u00c9 o sil\u00eancio que se abre para al\u00e9m do som. Os antigos a usavam para capturar o eco da magia do mundo \u2014 viva, pulsante, e \u00e0s vezes, prof\u00e9tica.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003Passei os dedos sobre os tra\u00e7os finos e entrela\u00e7ados da runa. Um arrepio subiu pelo meu bra\u00e7o como se a marca reconhecesse meu toque \u2014 ou talvez estivesse me reconhecendo.<br \/>\u2003\u2003Fechei os olhos.<br \/>\u2003\u2003Pensei em Merope. Nos olhos vazios, na casa rachada.Na serpente enroscada na ma\u00e7aneta. No que aquilo significava. No que estava por vir.<br \/>\u2003\u2003Fechei o grim\u00f3rio devagar, como quem sela um segredo. Soprei a vela e me deitei, puxando as cobertas at\u00e9 o queixo, mesmo sem frio. O sono veio devagar. Como mar\u00e9 estranha \u2014 calma por fora, inquieta por dentro.<br \/>\u2003\u2003E eu sabia: alguma coisa estava se movendo no mundo. E agora\u2026 ela tamb\u00e9m se movia em mim, o s\u00edmbolo brilhou de novo.<br \/>\u2003\u2003No sonho, a casa apareceu de novo.<br \/>\u2003\u2003As ru\u00ednas estavam l\u00e1 \u2014 fantasmag\u00f3ricas, cobertas por poeira e sil\u00eancio. O c\u00e9u, opaco como um espelho emba\u00e7ado. O campo, est\u00e9ril e deserto. Mas dessa vez\u2026 o rosto da mulher estava mais n\u00edtido.<br \/>\u2003\u2003E eu reconheci algo nela.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era exatamente como olhar para mim mesma. Mas havia tra\u00e7os meus. No contorno do queixo. Na sombra que ca\u00eda nos olhos. Como se um eco tivesse atravessado o tempo, cruzando sangue, dor e sil\u00eancio at\u00e9 encontrar abrigo em mim.<br \/>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que ouvi.<br \/>\u2003\u2003Um sussurro cortando o ar \u2014 vindo de todos os lados e, ao mesmo tempo, de lugar nenhum:<br \/>\u2003\u2003<em>&#8220;O sangue carrega lembran\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o suas.&#8221;<\/em><br \/>\u2003\u2003Me virei no sonho, o cora\u00e7\u00e3o disparado, como se eu estivesse acordada dentro dele. E ent\u00e3o, do nada, como um corte na realidade, vi.<br \/>\u2003\u2003Um fragmento do futuro.<br \/>\u2003\u2003Duas varinhas erguidas.<br \/>\u2003\u2003<em>Harry.<\/em><br \/>\u2003\u2003<em>Voldemort.<\/em><br \/>\u2003\u2003Frente a frente. O ar estava suspenso, denso como veneno. A tens\u00e3o entre eles era t\u00e3o viva que parecia que o tempo segurava o pr\u00f3prio f\u00f4lego. A luz congelada. O mundo parado.<br \/>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o quase saiu pela garganta, e antes que o feiti\u00e7o fosse lan\u00e7ado&#8230; tudo desapareceu.<br \/>\u2003\u2003Acordei num salto. A respira\u00e7\u00e3o presa. Os olhos escancarados na escurid\u00e3o do quarto. A runa da escuta ancestral queimava na minha mem\u00f3ria como um ferro em brasa.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era s\u00f3 sobre o passado. Era sobre o que ainda estava por vir.<br \/>\u2003\u2003E, no fundo, eu sabia \u2014 <em>algumas mem\u00f3rias n\u00e3o pertencem a quem viveu. Elas pertencem a quem escuta.<\/em><br \/>\u2003\u2003E eu&#8230; estava come\u00e7ando a escutar mais do que jamais deveria.<br \/>\u2003\u2003O c\u00e9u ainda estava acinzentado quando desci para o caf\u00e9, mas a comida no sal\u00e3o parecia mais enfeite do que sustento. Mal toquei na torrada. Harry me olhou uma vez, de longe. N\u00e3o trocamos palavras.<br \/>\u2003\u2003Meu corpo estava em Hogwarts, mas a minha mente\u2026 ainda estava naquela casa em ru\u00ednas. No campo vazio. Nos olhos dela. E depois \u2014 nas varinhas erguidas. Harry. Voldemort. O sil\u00eancio antes da destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Eu n\u00e3o conseguia fingir que era s\u00f3 mais uma manh\u00e3 qualquer.<br \/>\u2003\u2003Antes mesmo da aula come\u00e7ar, procurei a professora McGonagall. Pedi para ver o diretor. Ela n\u00e3o fez perguntas \u2014 s\u00f3 me olhou por um segundo mais longo do que o necess\u00e1rio, assentiu e deu passagem.<br \/>\u2003\u2003A senha era a mesma de ontem.<br \/>\u2003\u2003<em> \u201cSorvete de gengibre.\u201d<\/em><br \/>\u2003\u2003O gosto doce da ironia pairava na l\u00edngua.<br \/>\u2003\u2003Subi pelas escadas espirais devagar, cada degrau reverberando com uma urg\u00eancia que eu n\u00e3o sabia nomear. Quando cheguei ao topo, ele j\u00e1 estava l\u00e1. Dumbledore, de p\u00e9, diante da janela arqueada, como se j\u00e1 soubesse.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Srta. %Chikondi% \u2014 disse sem se virar, com a voz calma como \u00e1gua parada \u2014, imaginava que voltaria.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu sonhei de novo. \u2014 Minhas palavras sa\u00edram sem pre\u00e2mbulo.<br \/>\u2003\u2003Ele se virou lentamente. Os olhos por tr\u00e1s dos \u00f3culos de meia-lua pareciam mais s\u00e9rios dessa vez. Mais atentos. N\u00e3o havia sorrisos enigm\u00e1ticos, nem enigmas disfar\u00e7ados de met\u00e1foras. S\u00f3 escuta.<br \/>\u2003\u2003Sentei-me na poltrona \u00e0 frente da mesa antes mesmo que ele oferecesse.<br \/>\u2003\u2003\u2014 A casa estava l\u00e1 outra vez. Aquela&#8230; que eu vi no corredor. Mas agora&#8230; a mulher estava mais n\u00edtida. Eu vi o rosto dela. E era como se&#8230; \u2014 engoli em seco \u2014 como se ela fosse parte de mim. Ou eu, dela.<br \/>\u2003\u2003Ele se aproximou, os olhos fixos nos meus, sem pressa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Um reflexo na mem\u00f3ria do sangue \u2014 murmurou.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 isso? Eu estou conectada a ela? \u00c0 Merope? \u2014 Minha voz saiu mais alta do que eu queria.<br \/>\u2003\u2003Ele n\u00e3o respondeu de imediato. Caminhou at\u00e9 a estante, pegou um pequeno frasco prateado \u2014 outro fragmento de mem\u00f3ria \u2014, e o colocou sobre a mesa sem dizer nada. Mas n\u00e3o era o momento de ver. Era o momento de contar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E depois \u2014 continuei \u2014 vi Harry. Vi Voldemort. Frente a frente. As varinhas erguidas. Tudo parado, como se o tempo tivesse medo de continuar. Mas antes do feiti\u00e7o&#8230; acordei.<br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio entre n\u00f3s foi quase f\u00edsico.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c0s vezes \u2014 come\u00e7ou ele, por fim \u2014, os dons mais antigos se manifestam com s\u00edmbolos. Outras vezes&#8230; com vis\u00f5es. Mas, para alguns, eles tomam forma em ecos. Fragmentos do que o mundo ainda n\u00e3o viveu, mas j\u00e1 sussurrou para aqueles dispostos a ouvir.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por que eu? \u2014 perguntei. N\u00e3o como quem reclama, mas como quem realmente precisa entender. \u2014 Por que eu vejo isso?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Porque o mundo precisa de testemunhas. De quem olhe o que est\u00e1 escondido, n\u00e3o para ter poder sobre isso\u2026 mas para n\u00e3o deixar que se perca.<br \/>\u2003\u2003Ele se aproximou da minha cadeira, com a f\u00eanix cantando suavemente ao fundo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 %Ayana%, sua magia n\u00e3o \u00e9 feita apenas de feiti\u00e7os. Ela \u00e9 feita de escuta. De v\u00ednculo. De pressentimento. E, por isso mesmo, ela exige coragem. Porque ver o futuro n\u00e3o \u00e9 um dom f\u00e1cil, \u00e9 responsabilidade.<br \/>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os estavam fechadas em punhos sobre o colo. Soltei-as devagar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E o que eu fa\u00e7o com isso?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por enquanto? Escute. Anote. E n\u00e3o fuja. \u2014 Ele me olhou com gentileza. \u2014 A hora de agir chega para todos. E quando chegar, voc\u00ea vai saber.<br \/>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio por um tempo. O peso do sonho ainda vibrava dentro de mim como um segundo cora\u00e7\u00e3o. Mas ali, naquele escrit\u00f3rio de luz filtrada e paredes vivas de hist\u00f3ria, n\u00e3o parecia que eu estava carregando isso sozinha.<br \/>\u2003\u2003Dumbledore caminhou de volta at\u00e9 a janela.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Quando sonhos carregam o passado e o futuro ao mesmo tempo, \u00e9 sinal de que o presente est\u00e1 prestes a mudar. \u2014 Assenti devagar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada\u2026 por ouvir.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigado por n\u00e3o ignorar \u2014 ele respondeu.<br \/>\u2003\u2003Sa\u00ed do escrit\u00f3rio sem pressa, mas com um novo tipo de sil\u00eancio me acompanhando. N\u00e3o o sil\u00eancio que esconde, mas o que prepara.<br \/>\u2003\u2003E agora, eu estava ouvindo.<br \/>\u2003\u2003De verdade.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da autora: <\/strong>Eu sempre disse que a %Ayana% n\u00e3o veio pra ser s\u00f3 mais uma figurante em Hogwarts, n\u00e9? Esse cap\u00edtulo \u00e9 um dos meus preferidos at\u00e9 agora, porque mostra o quanto ela \u00e9 complexa, sens\u00edvel e <em>muito<\/em> mais inteligente do que aparenta. %Ayana% \u00e9 for\u00e7a, mas tamb\u00e9m \u00e9 d\u00favida, \u00e9 escuta, \u00e9 aquela bruxa que carrega o peso do passado, presente e futuro, mas segue caminhando. \ud83d\udda4<br \/>\u2003\u2003Esse dom dela vai ganhar mais destaque daqui pra frente, ent\u00e3o fiquem de olho \ud83d\udc40<br \/>\u2003\u2003Obrigada por estarem aqui, cap\u00edtulo ap\u00f3s cap\u00edtulo. Voc\u00eas s\u00e3o tudo! \ud83d\udc99\u2728<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u26a1\ud83e\uddd9 Tonks,Como voc\u00ea sabia?Como conseguiu entender que eu estava sentindo essas coisas antes mesmo de eu perceber o que elas eram?Dumbledore me contou. Sobre o dom. Sobre o que eu sou. Mas&#8230; saber n\u00e3o ajuda tanto quanto eu imaginava. 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