{"id":3069,"date":"2025-05-12T16:25:00","date_gmt":"2025-05-12T19:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-26T16:26:50","modified_gmt":"2025-09-26T19:26:50","slug":"capitulo-02","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/cruel-warmth\/capitulo-02\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 02"},"content":{"rendered":"\n\u2003\u2003<strong>O PORTAL A FEZ CAIR NO MEIO DE UMA RUA MOVIMENTADA.<\/strong><br>\n\u2003\u2003%Lucie% gritou \u2014 alto, aterrorizada \u2014 raspando a garganta e fazendo-a doer, enquanto tentava se obrigar a levantar. Seus olhos %obsidianos% dispararam, em p\u00e2nico, na dire\u00e7\u00e3o dos carros que avan\u00e7avam ao seu redor, entre a cacofonia de buzinas, gritos e at\u00e9 xingamentos mal-educados dirigidos a ela, mas que se perdiam no vento e na velocidade do tr\u00e2nsito, misturando-se uns aos outros. %Lucie% tentou correr at\u00e9 um ponto seguro. Seus p\u00e9s descal\u00e7os tocavam com for\u00e7a o asfalto poroso, umedecido pela garoa; as panturrilhas, dolorosamente tensas, come\u00e7avam a dar sinais de c\u00e2imbra pelo esfor\u00e7o cont\u00ednuo; os cabelos %acobreados% grudavam na nuca, no rosto e nas costas, enquanto o vento os lan\u00e7ava para tr\u00e1s, algumas mechas invadindo seus olhos. %Lucie% teve certeza de que iria morrer \u2014 teve ainda mais certeza quando os far\u00f3is se moveram em sua dire\u00e7\u00e3o e a cegaram parcialmente. Ela s\u00f3 teve tempo de se encolher, cobrindo o rosto com os bra\u00e7os, esperando pelo impacto.<br>\n\u2003\u2003\u2014 OI! ENLOUQUECEU?! QUER SE MATAR, GAROTA IDIOTA?! \u2014 o grito veio de um carro que freou bruscamente, em um idioma esquisito que, surpreendentemente, %Lucie% conseguia entender, gra\u00e7as \u00e0s poucas intera\u00e7\u00f5es da tia Joanne com os outros tios. O carro cantou pneu e acertou um poste \u00e0 sua direita. A menina piscou, surpresa, tremendo em choque, encarando o rosto furioso do motorista. Seu medo foi tanto que ela sequer esperou para ouvir mais: obrigou-se a correr novamente, trope\u00e7ando e caindo, levantando-se de novo \u2014 e de novo \u2014 at\u00e9 alcan\u00e7ar o ponto mais distante que conseguia. At\u00e9 n\u00e3o conseguir mais correr.<br>\n<p align=\"center\"><strong>\u2022\u2022\u2022<\/strong><\/p>\n\u2003\u2003Desabando no ch\u00e3o, em algum ponto estranho da cidade barulhenta \u2014 uma interse\u00e7\u00e3o entre uma avenida movimentada e um parque cheio de \u00e1rvores verdes, pessoas caminhando, correndo com seus cachorros ou subindo em pequenas caixas de madeira para debater acaloradamente sobre a guerra no Vietn\u00e3 \u2014 seja l\u00e1 o que fosse isso, %Lucie% realmente se perguntou que diabos era um \u201cVietn\u00e3\u201d para causar discuss\u00f5es t\u00e3o intensas \u2014, ela <em>finalmente<\/em> se permitiu relaxar.<br>\n\u2003\u2003Seu corpo do\u00eda de exaust\u00e3o e esfor\u00e7o f\u00edsico; os pulm\u00f5es queimavam; os m\u00fasculos se contra\u00edam, dando sinais de uma c\u00e3ibra iminente. Ela sentia-os pesados e pulsando no ritmo acelerado dos batimentos card\u00edacos. Seus l\u00e1bios estavam secos, assim como a garganta, e por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, %Lucie% apenas tossiu \u2014 forte, sem parar \u2014 tentando recuperar o f\u00f4lego. Quando a tosse cessou, a menina respirou fundo, sentindo o cheiro de grama, polui\u00e7\u00e3o, urina, carbono queimado, e algo mais denso, carregado pelo vento vindo das \u00e1rvores.<br>\n\u2003\u2003A grama, apesar de um pouco molhada, pinicava curiosamente a pele sens\u00edvel de %Lucie%, fazendo-a se encolher e abrir os dedos instintivamente.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% n\u00e3o fazia <em>ideia<\/em> de onde estava. Nem para onde o portal a levara. Na verdade, nunca havia visto um lugar como aquele. Podia ouvir as pessoas conversando em um idioma familiar, por\u00e9m ainda estrangeiro. Conseguia entend\u00ea-lo com relativa clareza, mas ele n\u00e3o soava t\u00e3o familiar quanto quando seus tios sussurravam em voz baixa com a tia Joanne.<br>\n\u2003\u2003Ela se lembrava de ter visto o av\u00f4 Edwin uma \u00fanica vez, e ele tamb\u00e9m usava aquele idioma. Soava estranho. Mas, ainda assim&#8230; ela n\u00e3o estava completamente perdida, certo? Certo?<br>\n\u2003\u2003Ela exalou fundo mais uma vez, engolindo em seco, e por um momento apenas aproveitou a cacofonia silenciosa da cidade. Ao longo dos anos, imaginou como seriam as cidades \u2014 ou lugares diferentes das catacumbas de Durmstrang \u2014, mas verdade seja dita, ela nunca imaginou algo assim. Era muita informa\u00e7\u00e3o, muito movimento, mas, ao mesmo tempo, transmitia um certo al\u00edvio.<br>\n\u2003\u2003Ali, %Lucie% %Vatra% era simplesmente<em> ningu\u00e9m<\/em>. Invis\u00edvel aos olhos alheios. No m\u00e1ximo, receberia um coment\u00e1rio maldoso ou outro \u2014 e s\u00f3. Ali, ningu\u00e9m se importava com ela o suficiente nem para <em>olhar<\/em>. %Lucie% era <em>t\u00e3o insignificante<\/em> que ningu\u00e9m <em>sequer<\/em> olhava para ela. E <em>nunca<\/em> havia se sentido t\u00e3o <em>livre<\/em>.<br>\n\u2003\u2003A sensa\u00e7\u00e3o era inebriante. %Lucie% se esticou, pela primeira vez em muito tempo, sentindo a grama pinicar sua pele e o ar frio envolv\u00ea-la, apesar da temperatura amena. Ent\u00e3o, ergueu os olhos \u2014 para longe dos postes de luz, da sinfonia dissonante dos carros, dos pr\u00e9dios \u2014 e olhou para o c\u00e9u pela primeira vez na vida.<br>\n\u2003\u2003Um suspiro de admira\u00e7\u00e3o escapou quase imediatamente.<br>\n\u2003\u2003Era <em>estonteante<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Tantos pequenos pontinhos cintilantes espalhados pela malha de azul profundo, permeada por manchas alaranjadas e rosadas, escurecendo gradativamente com o tempo. At\u00e9 as nuvens carregadas da chuva outonal pareciam fascinantes para %Lucie%. Ela se perguntou como seria toc\u00e1-las. Qual seria sua textura? Elas desapareceriam antes mesmo de serem alcan\u00e7adas?<br>\n\u2003\u2003%Lucie% finalmente se sentou, co\u00e7ando a cabe\u00e7a com uma careta, olhando ao redor. Com a adrenalina diminuindo e o cansa\u00e7o controlado, a menina percebeu que, desta vez, estava realmente <em>perdida<\/em>. <em>Completamente<\/em> perdida.<br>\n\u2003\u2003Levando a m\u00e3o direita ao peito, agarrou o tecido da camisa, os dedos se cravando no pano como se aquilo pudesse facilitar sua respira\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o facilitou.<br>\n\u2003\u2003Franzindo o cenho, ela come\u00e7ou a entrar em p\u00e2nico. <em>Como<\/em> voltaria para casa agora? Mas&#8230; que casa? Durmstrang n\u00e3o era sua casa. Tia Joanne n\u00e3o era sua fam\u00edlia. Ela deixara isso claro vezes suficientes para que %Lucie% entendesse que jamais faria parte, n\u00e3o importa o quanto tentasse. Tia Joanne tamb\u00e9m n\u00e3o apreciaria seu retorno a Durmstrang. Para ser sincera, %Lucie% nem sabia se poderia \u2014 ou queria \u2014 voltar.<br>\n\u2003\u2003Ela estava \u00e0 beira das l\u00e1grimas, assustada com o futuro incerto, quando algu\u00e9m <em>aparatou<\/em> ao seu lado. %Lucie% se encolheu, protegendo a cabe\u00e7a, mas ent\u00e3o o vento trouxe um cheiro de pinho e algo invernal, com um toque c\u00edtrico que lembrava lim\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003Ela soube, imediatamente, que n\u00e3o era tia Joanne nem os irm\u00e3os dela. Era o Professor Krasny.<br>\n\u2003\u2003<em>Mas por que ele estaria ali?<\/em><br>\n\u2003\u2003\u2014 Levei quase cinco anos, mas fico feliz que finalmente tentou sair das catacumbas \u2014 disse o Professor Krasny com um tom mais contido, sem a agressividade que costumava usar nos corredores de Durmstrang. %Lucie% apenas o encarou, confusa e assustada. Do que ele estava falando? \u2014 Venha agora. Preciso lev\u00e1-la \u00e0 Pousada Tr\u00eas Vassouras. N\u00e3o temos muito tempo. N\u00e3o posso pedir que confie em mim, mas posso lev\u00e1-la at\u00e9 algu\u00e9m que cuidar\u00e1 de voc\u00ea. N\u00e3o precisar\u00e1 se preocupar com Joanne Rozenn, se n\u00e3o quiser.<br>\n\u2003\u2003Ele ofereceu a m\u00e3o, estoico como sempre, mas algo em seus olhos %obsidianos% parecia mais gentil e compreensivo do que jamais foram. Mesmo assim, %Lucie% hesitou.<br>\n\u2003\u2003Ele bateu sua bengala escura \u2014 com a cabe\u00e7a em forma de drag\u00e3o \u2014 duas vezes no ch\u00e3o, mais por h\u00e1bito que por necessidade. Em seguida, retirou discretamente sua varinha do casaco pesado, de ac\u00e1cia, pouco flex\u00edvel. %Lucie% lembrava-se dessa descri\u00e7\u00e3o. Ele observou a rua ao redor com cuidado para n\u00e3o atrair olhares curiosos. Ent\u00e3o, com um movimento r\u00e1pido e preciso, estendeu a varinha para a beira da cal\u00e7ada.<br>\n\u2003\u2003Pouco tempo depois, %Lucie% ouviu o guincho de um pneu. Encolheu-se pelo som alto. E ent\u00e3o, seus olhos encontraram o \u00f4nibus roxo. Ela agarrou a pr\u00f3pria m\u00e3o, segurando-a com for\u00e7a, enquanto o N\u00f4itibus Andante virava a esquina.<br>\n\u2003\u2003Pela velocidade, ele deveria ter atingido ao menos quatro carros, mas, com um feiti\u00e7o, encolheu-se at\u00e9 o tamanho da palma de uma m\u00e3o e deslizou entre os ve\u00edculos at\u00e9 parar diante deles. Buzinou duas vezes.<br>\n\u2003\u2003O cobrador, escorado na porta, virou-se para eles palitando os dentes e ajeitando o bigode fino, curvado como um caracol:<br>\n\u2003\u2003\u2014 Bem-vindos ao Noitibus Andante, transporte de emerg\u00eancia para bruxas e bruxos perdidos. Eu sou Branislav Shunpike, o condutor \u2014 informou ele, com apar\u00eancia de algu\u00e9m nem jovem, nem velho, cabelo desgrenhado sob o capuz e um cheiro estranho de algod\u00e3o doce <em>queimado<\/em>.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% hesitou, surpresa e receosa, olhando para o Professor Krasny, que permaneceu impass\u00edvel.<br>\n\u2003\u2003Era estranho v\u00ea-lo fora dos corredores de Durmstrang. Ele <em>destoava<\/em> dos outros professores. Ainda possu\u00eda a mesma carranca silenciosa que os outros professores de Durmstrang, mas se destacava como um ded\u00e3o podre em meio aos outros, principalmente, por causa de seus cabelos. Ainda que agora fossem grisalhos, eram de um acobreado vivido, profundo, e divergia dos outros cabelos p\u00e1lidos, loiros ou platinados que boa parte da Durmstrang parecia possuir. N\u00e3o possu\u00eda a <em>palidez<\/em> que tia Joanne e seus irm\u00e3os possu\u00edam, pelo contr\u00e1rio, era p\u00e1lido, sim, mas n\u00e3o de um jeito et\u00e9reo ou doentio.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Desculpe, senhor, n\u00e3o transportamos adultos que sabem <em>aparatar<\/em>. Nosso servi\u00e7o \u00e9 exclusivo para jovens bruxos ou doentes. Entretanto, tenha um bom&#8230;<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sei \u2014 cortou Krasny, seco. %Lucie% franziu o cenho, incomodada com o tom. \u2014 \u00c9 para <em>ela<\/em> \u2014 disse ele, apontando %Lucie%. Ela quase comentou que n\u00e3o tinha dinheiro, mas se calou quando ele apenas acenou, como se a viagem j\u00e1 estivesse paga. \u2014 Para a <em>Pousada Tr\u00eas Vassouras<\/em>. Minnie estar\u00e1 esperando por ela.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Mas, professor, eu n\u00e3o&#8230; \u2014 %Lucie% come\u00e7ou a dizer, mas antes que terminasse a frase, o professor Krasny j\u00e1 havia aparatado novamente, desaparecendo sabe-se l\u00e1 para onde. %Lucie% abriu a boca para cham\u00e1-lo de volta, mas rapidamente a fechou com for\u00e7a. Qual era o sentido de chamar por algu\u00e9m que j\u00e1 havia desaparecido? Era <em>desperd\u00edcio<\/em> de saliva, supunha. Ela suspirou pesadamente, agarrando a frente da blusa e se encolhendo, enquanto encarava o condutor com olhos grandes e assustados, calculando como deveria proceder a partir de agora. \u2014 N\u00e3o tenho bagagem, senhor \u2014 admitiu a menina, gesticulando apenas para as roupas que usava, pu\u00eddas e com algumas manchas de momentos n\u00e3o muito gloriosos nas catacumbas.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Bem, ent\u00e3o n\u00e3o vamos esperar a grama crescer! Ande! Ande! N\u00e3o temos o dia todo! \u2014 agitou o condutor Branislav Shunpike, gesticulando para que %Lucie% se movesse. A menina se questionou como poderia ser t\u00e3o lenta <em>mesmo<\/em> tentando entrar o mais r\u00e1pido que conseguia no \u00f4nibus. \u2014 Cama 11 para a menina de 11. Muito bem, devemos advertir para a possibilidade de n\u00e1useas, distor\u00e7\u00f5es visuais. Voc\u00ea tem direito a esta cama, uma por\u00e7\u00e3o de guisado e bebida quente \u00e0 sua prefer\u00eancia. No entanto, n\u00e3o tem o direito de escolher a m\u00fasica a ser tocada. Sente-se bem, aperte o cinto e&#8230; <em>l\u00e1 vamos n\u00f3s<\/em>!<br>\n\u2003\u2003%Lucie% soltou um gritinho, seguindo Branislav at\u00e9 o assento que lhe havia sido reservado. Observou a cadeira transformar-se, surpreendentemente, em uma cama longa \u2014 e, estranhamente, mais confort\u00e1vel do que sua pr\u00f3pria cama jamais fora. Olhou com uma ponta de suspeita para o exc\u00eantrico condutor, ent\u00e3o se sentou, testando-a por um breve momento. O colch\u00e3o era macio e afundava com seu peso; n\u00e3o era doloroso nem pinicava. Todavia, %Lucie% n\u00e3o teve muito tempo para aproveitar, pois Branislav deu o comando ao motorista, que imediatamente acelerou. Ela gritou baixo, agarrando-se \u00e0 lateral da cama com toda a for\u00e7a que conseguia, enquanto o \u00f4nibus se movia com uma velocidade absurda.<br>\n\u2003\u2003Uma das tr\u00eas cabe\u00e7as penduradas \u00e0 frente do para-choque do \u00f4nibus falava agitadamente. Possu\u00eda <em>dreads<\/em> e contas de metal no cabelo. %Lucie% se questionou se o estilo era rastaf\u00e1ri ou algum tipo de encantamento do s\u00e9culo XVII \u2014 talvez um pirata? \u2014 pois certamente soava de forma curiosa. Ela tentou acompanhar as palavras, mas em algum momento, o sotaque pesado e a velocidade da fala tornaram tudo incompreens\u00edvel. Sua aten\u00e7\u00e3o se desviou ent\u00e3o para a m\u00fasica que ecoava de um r\u00e1dio pendurado precariamente na frente. %Lucie% apertou os l\u00e1bios, inclinando-se para frente \u2014 quase se desequilibrando e batendo na janela \u00e0 sua direita com a curva fechada \u2014 ao reconhecer lentamente o ritmo.<br>\n\u2003\u2003Lembrava-se de ter ouvido aquela m\u00fasica mais cedo, vinda do corredor, com risadas desconhecidas, mas convidativas. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, %Lucie% se perguntou <em>quem<\/em> seriam as pessoas que riam t\u00e3o livremente nos corredores de Durmstrang. Embora <em>jamais<\/em> fosse <em>conhec\u00ea-las<\/em> ou imagin\u00e1-las a recebendo de bra\u00e7os abertos, tudo o que ela podia fazer agora era ouvir a m\u00fasica&#8230;<br>\n\u2003\u2003\u2014 Senhor Shunpike? \u2014 chamou a menina, tentando n\u00e3o soar hesitante como antes. Pela primeira vez, sentiu-se em casa. N\u00e3o que aquele \u00f4nibus fosse magicamente se transformar em sua casa \u2014 a verdade era que %Lucie% %Vatra% n\u00e3o possu\u00eda uma \u2014, mas sentiu-se, pela primeira vez em toda a sua breve exist\u00eancia, <em>n\u00e3o apolog\u00e9tica<\/em>. N\u00e3o se sentia culpada por chamar o exc\u00eantrico condutor, nem temia rea\u00e7\u00f5es agressivas. Sentiu-se, enfim, em casa <em>dentro de seu pr\u00f3prio corpo<\/em>. \u2014 Pode me dizer qual \u00e9 o nome dessa m\u00fasica que est\u00e1 tocando?<br>\n\u2003\u2003Branislav Shunpike pareceu incomodado com a pergunta. Estreitou os olhos, analisando o rosto da menina com aten\u00e7\u00e3o e impaci\u00eancia. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, %Lucie% esperou por um rosnado ou por um tapa que a silenciaria \u2014 mas n\u00e3o foi isso que aconteceu. Ao contr\u00e1rio, Branislav apenas deu de ombros, desinteressado.<br>\n\u2003\u2003\u2014 A curiosidade tende a matar o gato, senhorita %Vatra%! \u2014 resmungou, revirando os olhos, dando um passo para a esquerda quando o \u00f4nibus fez outra curva fechada que lan\u00e7ou %Lucie% contra a cama \u00e0 frente. %Lucie% gritou baixinho, pedindo desculpas \u00e0 senhora doente deitada ali, e tentou se agarrar a uma barra de ferro \u00e0 sua direita. Os n\u00f3s dos dedos ficaram brancos de tanto apertar. Seus olhos de obsidiana misturavam entretenimento, divers\u00e3o pessoal e absoluto <em>pavor<\/em>. Era loucura? Com certeza. Mas havia algo de divertido nisso tamb\u00e9m. \u2014 Estes, senhorita %Vatra%, s\u00e3o os Beatles! Trouxas podem ser arcaicos e desinteressantes por vezes, mas n\u00e3o d\u00e1 para negar que, especialmente tratando-se de m\u00fasica, eles s\u00e3o os melhores nisso!<br>\n\u2003\u2003%Lucie% o encarou com uma ponta de confus\u00e3o. Seu cenho se franziu, e ela mordeu a l\u00edngua para n\u00e3o dizer um petulante: \u201co senhor falou, falou e n\u00e3o disse nada\u201d. Talvez n\u00e3o tenha sido t\u00e3o bem-sucedida em ocultar a express\u00e3o, pois certamente estava vis\u00edvel.<br>\n\u2003\u2003\u2014 <em>Twist and Shout<\/em> \u2014 resmungou Branislav, irritado. %Lucie% abriu um sorriso largo, os olhos brilhando. Percebeu que gostava da rea\u00e7\u00e3o do mais velho \u2014 irritado por n\u00e3o poder engan\u00e1-la, mas sem ser amea\u00e7ador. %Lucie% se perguntou, internamente, <em>o que mais<\/em> poderia fazer para irritar algu\u00e9m sem acabar em confronto f\u00edsico.<br>\n\u2003\u2003Seus olhos %obsidianos% desviaram-se para a janela \u00e0 direita. Sentiu o est\u00f4mago se contrair com a velocidade que o \u00f4nibus parecia adquirir. As janelas viravam borr\u00f5es distorcidos, manchas de cores indistingu\u00edveis. %Lucie% tentou respirar pelo nariz e soltar pela boca \u2014 mas tampouco parecia estar funcionando. A pulsa\u00e7\u00e3o martelava contra as t\u00eamporas, gerando uma dor esquisita, como um choque, enquanto o \u00f4nibus encolhia at\u00e9 ter a largura de uma m\u00e3o. E ent\u00e3o, como num sopro, tudo parou.<br>\n\u2003\u2003Sua garganta estava seca. Os ouvidos zumbiam t\u00e3o alto que era inc\u00f4modo. Ela piscou algumas vezes, ofegante, ainda agarrada \u00e0 barra de metal. Tentou espiar pela janela para ver onde diabos estava, mas sequer teve tempo para registrar \u2014 j\u00e1 era conduzida para fora do \u00f4nibus. %Lucie% torceu a barra da blusa entre os dedos enquanto descia e dava de cara com uma viela de pedra e casinhas antiquadas, levando at\u00e9 uma pra\u00e7a ampla, com lojas igualmente antigas. Um vilarejo medieval, de madeira, pedra e vidro. Mais ao fundo, \u00e0 direita, %Lucie% viu com clareza o letreiro da <em>Pousada Tr\u00eas Vassouras<\/em>.<br>\n\u2003\u2003A menina engoliu em seco, esfregando inconscientemente as pontas dos dedos na barra da blusa, prendendo a respira\u00e7\u00e3o. Reconhecia que agora n\u00e3o havia mais volta. Era um recome\u00e7o. Mas o que, pelos c\u00e9us, deveria fazer com isso? Era s\u00f3 uma crian\u00e7a de 11 anos!<br>\n\u2003\u2003Timidamente, come\u00e7ou a se mover. Os m\u00fasculos ainda doloridos, as c\u00e2imbras a fazendo mancar. Seu caminhar era desajeitado. Abra\u00e7ou a si mesma, observando com curiosidade contida algumas figuras exc\u00eantricas \u2014 <em>bruxos<\/em>, certamente. Sabia que pertencia ali. Era uma bruxa, como eles, mas <em>ainda assim<\/em>, mesmo ali, alguns olhares de desconhecidos que a faziam desejar se esconder \u2014 abrir um buraco sobre seus p\u00e9s e desaparecer.<br>\n\u2003\u2003A noite n\u00e3o estava fria, mas %Lucie%, certamente, estava congelando.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Com licen\u00e7a, senhor? \u2014 %Lucie% chamou, hesitante, aproximando-se de um elfo dom\u00e9stico. Apertou os l\u00e1bios ao v\u00ea-lo parecer surpreso com a defer\u00eancia. Mas, ao encarar o rosto de %Lucie%, seu olhar se tingiu de desprezo. Ela engoliu em seco, tentando n\u00e3o se encolher. \u2014 Sabe onde posso encontrar uma pessoa chamada Minnie&#8230;? \u2014 come\u00e7ou a perguntar, mas o elfo sibilou entre os dentes, irritado.<br>\n\u2003\u2003\u2014 <em>Prole de sangue-ruim. Madame Walburga sempre diz que esta ra\u00e7a ir\u00e1 destruir o nome dos bons bruxos&#8230;<\/em> \u2014 resmungou ele. %Lucie% trincou os dentes. Provavelmente, n\u00e3o importava onde estivesse, ela n\u00e3o poderia escapar do fato de que <em>sempre<\/em> seria uma <em>sangue-ruim<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Apresentava-se de forma mais curvada, menor e um pouco lento, n\u00e3o parecia muito idoso, mas certamente n\u00e3o parecia jovem. Suas ma\u00e7\u00e3s do rosto eram mais delimitadas pela pele, e havia uma pequena flacidez na altura de suas bochechas, o nariz pontiagudo era torto, e os olhos um pouco mais avermelhados do que era normal, parecendo estar lacrimejando. %Lucie% se questionou internamente se seriam os olhos o problema para seu mal humor aparente.<br>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o quis ofend\u00ea-lo.<br>\n\u2003\u2003O elfo dom\u00e9stico franziu o cenho, voltando-se para encarar %Lucie%, parecendo ser pego outra vez de surpresa por suas palavras, e ent\u00e3o, estalando os l\u00e1bios:<br>\n\u2003\u2003\u2014 <em>Far\u00e1 bem retornar para onde veio, menina, aqui certamente n\u00e3o \u00e9 um lugar para algu\u00e9m como voc\u00ea&#8230; <\/em>\u2014 O elfo dom\u00e9stico come\u00e7ou a dizer, mas foi interrompido abruptamente pela abertura da porta da <em>Pousada Tr\u00eas Vassouras<\/em>. %Lucie% engoliu em seco, dando um passo para tr\u00e1s, e usando a porta aberta como um escudo, observando com olhos arregalados o homem que se projetava para fora do aparente bar e pousada.<br>\n\u2003\u2003Ele cheirava a <em>cerveja amanteigada<\/em> e algo doce.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Eu assumo que minha ador\u00e1vel irm\u00e3 o mandou para bisbilhotar novamente meus pr\u00f3prios assuntos sem ser percebido, n\u00e3o \u00e9, Monstro? \u2014 O homem disse com um tom de voz calmo e direto, at\u00e9 mesmo pragm\u00e1tico, mas %Lucie% podia sentir algo diferente, estranho, que n\u00e3o condizia com sua paci\u00eancia e clara tranquilidade. Algo mais como exaspera\u00e7\u00e3o, do que um tom contemplativo. O elfo dom\u00e9stico, Monstro, pareceu envergonhar-se e ao mesmo tempo empertigar-se com o coment\u00e1rio vindo do bruxo, a censura soando-lhe mais amarga do que %Lucie% poderia imaginar que de fato o fosse, enquanto encolhia os ombros ossudos. O bruxo suspirou pesado, parecendo revirar os olhos, e ent\u00e3o estendeu uma carta para o elfo. \u2014 Pois diga a Walburga que meus interesses nesta noite se alinham com os dela. Para Sirius, antecipadamente, para que aplaque sua inquieta\u00e7\u00e3o, agora, suma daqui.<br>\n\u2003\u2003O rosto de Monstro pareceu se iluminar ao receber das m\u00e3os do bruxo uma carta que %Lucie% poderia jurar j\u00e1 ter visto antes. O mesmo tipo de papel pesado e grosso que envolvia o pergaminho, com um selo vermelho destacando-se ao centro. Havia, igualmente, um bras\u00e3o, mas %Lucie% nunca havia tido uma oportunidade de observ\u00e1-lo mais a fundo embora lembrasse um pouco, de certa forma, o de Durmstrang.<br>\n\u2003\u2003O bruxo agitou suas m\u00e3os, dispensando do elfo, incitando-o a mover-se mais r\u00e1pido, e ent\u00e3o Monstro desapareceu. %Lucie% piscou, esfregando seus olhos, questionando-se se a essa altura o sono j\u00e1 estava fazendo-a ver coisas, mas descansar ainda n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o. Antes que %Lucie% pudesse dizer qualquer coisa, no entanto, os olhos azuis cinzentos do bruxo de cabelos escuros como a noite, um pouco desalinhados pela brisa suave, repousaram nela, e o rosto dele se empalideceu. Vestia-se totalmente de preto, com roupas discretas, mas possu\u00eda algum tipo de colar por baixo de suas roupas refinadas oculto pelo colarinho de sua camisa branca e o colete preto com bordados minuciosos como <em>vinhas<\/em> e <em>cravos<\/em> verdes decorando o tecido grosso, de prata.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% o viu abrir a boca, aparentemente para lhe dizer alguma coisa, mas nada saiu. Ela deu um passo instintivo para tr\u00e1s, respirando pesado, de maneira irregular e r\u00e1pida, j\u00e1 considerando correr.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Minerva&#8230; \u2014 O bruxo chamou com um sotaque sofisticado, pesado, que lembrava aos irm\u00e3os de tia Joanne, especialmente dois que pareciam morar em um lugar chamado <em>Reino Unido<\/em>. Embora ele tenha se referido a uma outra bruxa que se aproximava de onde ele estava, congelado na entrada da <em>Pousada Tr\u00eas Vassouras<\/em>, os olhos do bruxo permaneciam fixos no rosto de %Lucie%.<br>\n\u2003\u2003\u2014 Pelos c\u00e9us, Alphard, o que est\u00e1 acontece&#8230; \u2014 A bruxa com chap\u00e9u pontudo, olhos grandes expressivos e um rosto que, de alguma forma, embora fossem levemente severos, eram, igualmente doces, come\u00e7ou a dizer tocando no ombro do bruxo, mas ent\u00e3o sua voz igualmente desapareceu no segundo que seu olhar repousou sobre a menina. %Lucie% olhou ao seu redor, pronta para gritar, dando mais um passo para tr\u00e1s, as m\u00e3os se fechando em punhos firmes, tr\u00eamulos. A menina viu a bruxa mais velha levar as duas m\u00e3os em dire\u00e7\u00e3o, surpresa, e ent\u00e3o uma de suas m\u00e3os desvirtuou-se para repousar sobre seu peito, igualmente tr\u00eamula como as de %Lucie%, mas com a diferen\u00e7a de ser permeada apenas pela surpresa, e n\u00e3o o medo, como se ela estivesse tentando sentir seus pr\u00f3prios batimentos card\u00edacos. \u2014 Pelo c\u00e9us, n\u00e3o pode ser, Rio, \u00e9 voc\u00ea?<br>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1214],"class_list":["post-3069","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-cruel-warmth"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/3069","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3069"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3069"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=3069"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}