{"id":3068,"date":"2025-05-05T16:24:00","date_gmt":"2025-05-05T19:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-26T16:25:42","modified_gmt":"2025-09-26T19:25:42","slug":"capitulo-01","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/cruel-warmth\/capitulo-01\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 01"},"content":{"rendered":"\n\u2003\u2003<strong>AS CATACUMBAS SE ABRIAM PARA UM PO\u00c7O DE CORPOS APODRECIDOS.<\/strong><br>\n\u2003\u2003%Lucie% %Vatra% desabou contra o ch\u00e3o coberto por pedras retangulares, porosas e umedecidas pela calefa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do lugar, cuidadosamente enfileiradas. O impacto, que lhe roubou o ar, a cegou momentaneamente por completo. A dor pulsava por seus membros; o ar faltava-lhe nos pulm\u00f5es de forma t\u00e3o dolorosa que pequenos pontinhos de luz explodiam ao redor de suas p\u00e1lpebras, brilhando e piscando como pequenas estrelas, enquanto os m\u00fasculos sofriam pequenos espasmos.<br>\n\u2003\u2003N\u00e3o era apenas o cheiro insuport\u00e1vel dentro das catacumbas, nem o <em>sangue<\/em> pungente, com uma textura pegajosa, que grudava em sua pele de maneira nauseante e a incomodava profundamente. Eram, igualmente, <em>os risos<\/em> que acompanharam sua queda. %Lucie% desejou poder chorar \u2014 na verdade, ela estava solu\u00e7ando sem parar fazia algumas horas j\u00e1, o suficiente para que seu abd\u00f4men doesse e seu diafragma parecesse em chamas com o movimento de contra\u00e7\u00e3o cont\u00ednuo \u2014, mas, a essa altura, n\u00e3o restavam sequer l\u00e1grimas em seu rosto que pudessem lhe fazer alguma justi\u00e7a. Ainda assim, obrigou-se a levantar-se. Obrigou-se a correr o mais r\u00e1pido que conseguia. Obrigou-se a manter o olhar focado no caminho \u00e0 sua frente. Obrigou-se a n\u00e3o olhar para tr\u00e1s. Custasse o que custasse, ela<em> n\u00e3o deveria olhar para tr\u00e1s<\/em>. N\u00e3o importava <em>o quanto<\/em> seu instinto a mandasse faz\u00ea-lo. N\u00e3o importava <em>o qu\u00e3o<\/em> pr\u00f3xima a criatura parecesse estar. Ela n\u00e3o deveria olhar para tr\u00e1s. N\u00e3o importava <em>o quanto<\/em> o Basilisco rugisse ao tentar alcan\u00e7\u00e1-la com suas presas grandes e afiadas.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% ofegava. No lugar das l\u00e1grimas, agora havia apenas suor escorrendo por seu rosto amortecido, misturando-se com o sangue de desconhecidos \u2014 e o pr\u00f3prio \u2014, marcando sua face com a brutalidade da persegui\u00e7\u00e3o em andamento. As risadas ecoando pelas paredes, com condescend\u00eancia e desprezo, formavam um coral j\u00e1 familiar para a garota \u2014 n\u00e3o era, por isso, menos cruel. %Lucie% desejou novamente chorar, mas n\u00e3o conseguia mais. Seu corpo havia chegado ao <em>limite<\/em>; importava-se apenas com a <em>sobreviv\u00eancia<\/em>. Questionava-se o que diabos poderia haver de t\u00e3o errado com ela \u2014 pois <em>deveria<\/em> haver algo de errado, n\u00e3o <em>havia<\/em> outra <em>resposta<\/em> plaus\u00edvel. Quando <em>uma<\/em> pessoa lhe dizia que voc\u00ea era ruim, talvez houvesse algum erro de julgamento. Mas quando <em>in\u00fameras<\/em> pessoas diziam isso&#8230; ent\u00e3o, talvez, <em>realmente<\/em> existisse um problema severo em voc\u00ea.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% desejava <em>apenas<\/em> entender. Se seus <em>amigos<\/em> pudessem simplesmente lhe <em>contar<\/em> o que havia de t\u00e3o errado com ela, se pudessem dizer onde estava errando t\u00e3o dolorosamente, talvez \u2014 <em>apenas talvez<\/em> \u2014 ela pudesse finalmente consertar o que havia dentro de si e ser como eles queriam. Talvez assim pudessem, finalmente, ser amigos de verdade. Ou, ao menos, n\u00e3o rissem com tanto alarde dela. Talvez at\u00e9 a aceitassem. Gostassem dela. Ou, ao menos, parassem de coloc\u00e1-la em situa\u00e7\u00f5es em que sua <em>\u00fanica<\/em> escolha era <em>correr<\/em> ou <em>chorar<\/em> por sua vida. Ela sabia que achavam engra\u00e7ada a situa\u00e7\u00e3o. Sabia que as risadas talvez n\u00e3o fossem maldosas \u2014 era apenas o jeito deles, cada um se divertia como bem queria. Mas ainda assim <em>do\u00eda<\/em> ouvir risos a cada queda, a cada novo corte que se abria em sua pele.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% s\u00f3 queria entender por que, quando as pessoas olhavam para ela, tudo o que viam era&#8230; <em>aquilo<\/em>. Uma <em>sangue-ruim<\/em>. \u00c0s vezes, acreditava nas palavras da tia Joanne, sobre ter nascido um monstro e sido a causa da morte de seus pais. %Lucie% certamente <em>n\u00e3o queria<\/em> ser um monstro; s\u00f3 n\u00e3o sabia como <em>n\u00e3o ser <\/em>um. N\u00e3o queria fazer mal a ningu\u00e9m. S\u00f3 queria ter <em>um<\/em> amigo \u2014 qualquer um, ela n\u00e3o se importava. Esse amigo <em>nem precisava<\/em> gostar dela. Apenas&#8230; n\u00e3o rir alto quando ela ca\u00edsse no ch\u00e3o j\u00e1 seria suficiente. %Lucie% n\u00e3o conseguia entender por que a odiavam tanto assim. Por que a detestavam se ela n\u00e3o havia feito <em>nada<\/em>? Era t\u00e3o&#8230; <em>injusto<\/em>! E, em paralelo ao sentimento de impot\u00eancia, restava-lhe apenas o <em>cansa\u00e7o<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Algu\u00e9m t\u00e3o jovem s\u00f3 poderia aguentar uma determinada quantidade de cora\u00e7\u00f5es partidos.<br>\n\u2003\u2003Talvez devesse deix\u00e1-los odi\u00e1-la. Talvez n\u00e3o houvesse nada dentro de si que fosse digno de ser amado. Talvez ela realmente fosse um problema e merecesse ser tratada assim. Era uma boa puni\u00e7\u00e3o. Se tivesse escolhido nascer como uma sangue-ruim, ent\u00e3o merecia a corre\u00e7\u00e3o, certamente. Talvez, como sua tia Joanne sempre dizia, %Lucie% estivesse choramingando e praguejando por ser uma criatura insens\u00edvel e monstruosa demais \u2014 ego\u00edsta em seu \u00e2mago \u2014, sem enxergar o ponto de ser punida daquela forma por ter sangue <em>trouxa<\/em> em suas veias. Era imposs\u00edvel que <em>tantas<\/em> pessoas estivessem erradas sobre ela. %Lucie% <em>merecia<\/em> ser tratada assim, mesmo que n\u00e3o entendesse exatamente o <em>porqu\u00ea<\/em>.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% %Vatra% caiu com for\u00e7a, outra vez, trope\u00e7ando contra um corpo \u2014 e gritou, em completo pavor.<br>\n\u2003\u2003O corpo estava coberto de larvas, a esta altura. Apodrecido e desgastado pelo tempo que j\u00e1 havia passado l\u00e1 embaixo, nas catacumbas, a umidade do ar e os gases que exalavam dele tornavam os corredores <em>ainda mais <\/em>quentes e repulsivos. O cheiro era insuport\u00e1vel. Mas, por mais est\u00fapido que parecesse \u2014 especialmente para algu\u00e9m que estava sendo perseguida por um basilisco em meio \u00e0s catacumbas abaixo do Instituto Durmstrang \u2014, %Lucie% estava com <em>mais medo<\/em> das larvas.<br>\n\u2003\u2003Ela havia passado a odi\u00e1-las e tem\u00ea-las como se fossem seus verdadeiros bichos-pap\u00f5es. Portanto, o grito que rompeu de sua garganta \u2014 forte o suficiente para deix\u00e1-la rouca \u2014 bastou para que a serpente sibilante a <em>localizasse<\/em> outra vez.<br>\n\u2003\u2003A garota tentou se levantar, bem a tempo de se lan\u00e7ar contra um v\u00e3o entre as paredes arredondadas das catacumbas, rolando v\u00e1rias vezes pela escadaria quebrada, com pedras retangulares faltando em determinados pontos, at\u00e9 se chocar contra a parede atr\u00e1s de si. \u2003\u2003Mais um corte se abriu, desta vez em sua nuca, e %Lucie% conteve um solu\u00e7o de dor. Seus olhos %obsidianos% estavam emba\u00e7ados o suficiente para distorcerem a luz, enquanto ela prendia a respira\u00e7\u00e3o com for\u00e7a, tr\u00eamula, observando com <em>horror<\/em> o corpo rastejante do basilisco deslizando pelos corredores das catacumbas \u2014 t\u00e3o pr\u00f3ximo dela que algumas escamas haviam arranhado seus bra\u00e7os cheios de cicatrizes.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% achou que finalmente fosse desmaiar. Podia sentir sua press\u00e3o alcan\u00e7ar um pico e, ent\u00e3o, despencar. Sua cabe\u00e7a parecia girar no lugar, e ela soltou um solu\u00e7o baixo, engasgado, enquanto seu corpo se dobrava para a frente e ela esvaziava o est\u00f4mago. O v\u00f4mito n\u00e3o revelava nada al\u00e9m de bile \u2014 provavelmente porque ela n\u00e3o comia havia dois dias, uma consequ\u00eancia de uma imprud\u00eancia que fora devidamente punida por Joanne.<br>\n\u2003\u2003Com a adrenalina e o instinto de sobreviv\u00eancia martelando em sua mente, amortecendo tudo ao redor, %Lucie% n\u00e3o esperou para saber se <em>ali<\/em> encontraria seu fim. Certamente, mesmo que morresse, seu esp\u00edrito <em>ainda<\/em> n\u00e3o conseguiria compreender a pr\u00f3pria passagem.<br>\n\u2003\u2003Solu\u00e7ando, obrigou-se a levantar-se mais uma vez, cambaleando cegamente, tateando a parede at\u00e9 encontrar um pequeno v\u00e3o \u00e0 sua direita \u2014 e voltou a correr por sua vida.<br>\n\u2003\u2003Seus m\u00fasculos j\u00e1 estavam tr\u00eamulos pelo esfor\u00e7o e pela exaust\u00e3o f\u00edsica; n\u00e3o demoraria muito para que desabasse no ch\u00e3o permanentemente. Talvez fosse mais f\u00e1cil se ela simplesmente&#8230;<br>\n\u2003\u2003Quando %Lucie% caiu, desta vez, n\u00e3o conseguiu se levantar novamente. Ouviu o rugido do basilisco avan\u00e7ando em sua dire\u00e7\u00e3o, o bafo c\u00e1lido e putrefato atingindo seu rosto, enquanto ela fechava os olhos com for\u00e7a, encolhendo-se, esperando pela mordida. Esperava o momento em que as presas venenosas da criatura se fincariam em sua pele, retalhando os m\u00fasculos e dilacerando os ossos. Mas a mordida nunca chegou.<br>\n\u2003\u2003Ao longe, ela p\u00f4de ouvir o grito de um galo. %Lucie% ouviu um gorgolejo, mas n\u00e3o abriu os olhos para verificar de onde viera. S\u00f3 os abriu quando sentiu a vibra\u00e7\u00e3o do corpo da criatura chocando-se contra o ch\u00e3o \u2014 reverberando pelo seu corpo e fazendo seus dentes baterem uns contra os outros \u2014 antes de registrar que o basilisco que a perseguia agora estava morto. %Lucie% n\u00e3o soltou um suspiro de al\u00edvio. Pelo contr\u00e1rio, tremeu com mais for\u00e7a, sentindo um <em>medo<\/em> ainda pior do que o de ser presa de uma criatura como aquela.<br>\n\u2003\u2003Seus olhos %obsidianos% desviaram-se do corpo da cobra \u2014 agora jazendo ao seu lado \u2014 para encarar os saltos <em>stilettos<\/em> que estalavam contra o ch\u00e3o de pedras retangulares, \u00famidas e cobertas pelo sangue dos outros que estavam presos nas catacumbas. %Lucie% desejou poder fugir \u2014 desejou t\u00e3o forte que sentiu uma pequena dor ao redor das t\u00eamporas, enquanto fechava os olhos \u2014, mas, como sempre, n\u00e3o havia ningu\u00e9m para resgat\u00e1-la.<br>\n\u2003\u2003Ningu\u00e9m nunca veio resgat\u00e1-la. Ao menos, <strong>n\u00e3o daquele monstro.<\/strong><br>\n\u2003\u2003\u2013 Chega! \u2013 A voz de Joanne Karine Rozenn ecoou pelas catacumbas com intensidade, reverberando entre as pedras com um tom de aprova\u00e7\u00e3o mal disfar\u00e7ado. Seus olhos azul-prateados, g\u00e9lidos como a neve, desviaram-se momentaneamente do rosto de %Lucie% para encarar os alunos que se escoravam na entrada das catacumbas, com olhares ansiosos e divertidos. \u2013 Isso \u00e9 tudo por hoje. Est\u00e3o dispensados.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% n\u00e3o se moveu. Continuou ali no ch\u00e3o, tremendo, encarando suas m\u00e3os \u2014 agora cortadas, cobertas de sangue e com pequenas queimaduras causadas pelo <em>veneno<\/em> do basilisco. Coberta de suor e sangue, era dif\u00edcil ignorar a sensa\u00e7\u00e3o <em>pegajosa<\/em> da pr\u00f3pria pele.<br>\n\u2003\u2003Os risos cessaram, substitu\u00eddos por resmungos desapontados.<br>\n\u2003\u2003A vice-diretora de Durmstrang bateu algumas palmas para retomar a aten\u00e7\u00e3o dos alunos do primeiro ano, passando os \u00faltimos avisos enquanto os encaminhava para a pr\u00f3xima aula com o velho professor Krasny, em Hist\u00f3ria da Magia. Diferente das outras crian\u00e7as, %Lucie% n\u00e3o os acompanhou.<br>\n\u2003\u2003Como sangue-ruim, %Lucie% %Vatra% n\u00e3o podia acompanh\u00e1-los mesmo que quisesse. Sua tia Joanne dizia que j\u00e1 havia conseguido mant\u00ea-la nos terrenos do Instituto a <em>muito<\/em> custo, em meio a longas delibera\u00e7\u00f5es com os demais professores da borda estudantil daquela institui\u00e7\u00e3o m\u00e1gica. Pedi-los para aceit\u00e1-la como uma de suas alunas era um <em>absurdo<\/em> impens\u00e1vel \u2014 quase uma <em>heresia<\/em>. %Lucie%, todavia, era permitida a ajudar os colegas de turma em seus treinamentos, quando necess\u00e1rio. Uma esp\u00e9cie de <em>cobaia<\/em>, %Lucie% ouvira o professor Volkov dizer certa vez, embora n\u00e3o compreendesse totalmente o significado da palavra, tampouco como ela se aplicava a si. Supunha que talvez fosse <em>esse<\/em> o \u00fanico motivo que ainda a mantinha ali. Ao menos, <em>n\u00e3o completamente<\/em> esquecida.<br>\n\u2003\u2003De toda forma, a presen\u00e7a de bruxos mesti\u00e7os ou vindos de fam\u00edlias trouxas era terminantemente proibida nos terrenos de Durmstrang. %Lucie% n\u00e3o sabia dizer se sempre fora assim, ou se essa pol\u00edtica fora instaurada mais recentemente. A <em>\u00fanica<\/em> coisa de que tinha certeza era que, embora n\u00e3o pudesse estudar ali, tamb\u00e9m lhe era proibido sair \u2014 ou buscar ref\u00fagio em qualquer outro lugar do mundo. Uma vez, %Lucie% viu, pelas janelas, uma coruja carregando uma carta. O papel branco se destacava contra os bancos de neve por causa do pequeno selo <em>vermelho<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Tia Joanne matou a coruja e queimou a carta com a varinha.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% nunca entendeu exatamente por que ela fizera isso, mas desde ent\u00e3o \u2014 j\u00e1 fazia um ano \u2014 nenhuma outra coruja se aproximou. O que quer que houvesse naquela carta, irritara profundamente sua tia, pois naquela semana, %Lucie% se alimentou apenas dos restos de p\u00e3o mofado de uma caixa perto da despensa \u2014 com exce\u00e7\u00e3o de uma ou outra ma\u00e7\u00e3 que Kaprizen, um dos elfos dom\u00e9sticos do Instituto, lhe deu \u00e0s escondidas.<br>\n\u2003\u2003Assim que as catacumbas se esvaziaram por completo, tia Joanne voltou o olhar para %Lucie%. Havia algo de <em>assustador<\/em> no olhar da mulher que paralisava a menina. %Lucie% <em>at\u00e9 mesmo<\/em> temia respirar de forma errada diante da tia. Engoliu em seco, os olhos voltando lentamente na dire\u00e7\u00e3o da mulher de cabelos platinados e olhos prateados fixos em seu rosto. %Lucie% desejou, mais uma vez, simplesmente desaparecer. Mas desta vez, n\u00e3o vieram insultos nem tapas. Joanne apenas estalou os l\u00e1bios, em desaprova\u00e7\u00e3o, indicando com o queixo que a menina se levantasse, estendendo-lhe a m\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003\u2013 Ande, est\u00e1 na hora do seu <em>tratamento<\/em> \u2013 disse Joanne Karine Rozenn com um tom de voz baixo, quase tranquilo \u2014 completamente oposto ao desespero e medo que ainda pulsavam da menina como ondas cont\u00ednuas. \u2013 E vamos cuidar dessas suas <em>novas<\/em> feridas.<br>\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\n\u2003\u2003O quartinho onde %Lucie% vivia n\u00e3o possu\u00eda sequer 10 metros quadrados.<br>\n\u2003\u2003Durante o inverno, era insuportavelmente g\u00e9lido. No ver\u00e3o, sufocante e c\u00e1lido. Quando n\u00e3o estava suando, estava tremendo. \u00c0s vezes, os dois ao mesmo tempo, em um intervalo ridiculamente curto. As paredes lhe causaram claustrofobia no in\u00edcio, mas com o tempo, %Lucie% se acostumou a manter os olhos fechados e fingir que estava dentro de alguma das telas que vira uma vez, h\u00e1 muito tempo, no escrit\u00f3rio de sua tia. Um prado vasto e verde v\u00edvido, com pequenas flores silvestres espalhadas ao acaso, guiando talvez para uma floresta escura \u2014 mas que, sem sombra de d\u00favida, parecia mais segura que as catacumbas de Durmstrang.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% se encolheu outra vez sob os len\u00e7\u00f3is pu\u00eddos e finos, observando com tristeza as pr\u00f3prias m\u00e3os. Uma nova cicatriz se formava onde tia Joanne lan\u00e7ara o feiti\u00e7o. Da ferida, esva\u00eda-se um brilho esbranqui\u00e7ado de magia, espiralando pelo ar em formas abstratas, enquanto a menina esperava o sono. Estava t\u00e3o cansada de fugir do basilisco que n\u00e3o conseguia dormir. Seus m\u00fasculos do\u00edam tanto pelas quedas e fugas que mover-se na cama tornava-se penoso.<br>\n\u2003\u2003Virou-se de lado, de frente para a parede, soltando um gemido baixo de dor. Fechou os olhos com for\u00e7a, implorando outra vez \u2014 para o que quer que estivesse ouvindo \u2014 que viesse resgat\u00e1-la. Talvez at\u00e9 mesmo Azkaban fosse um lugar <em>melhor<\/em>. Talvez passar fome nas ruas fosse <em>melhor<\/em>\u2026<br>\n\u2003\u2003O ar gelado que atravessava as paredes de pedra lhe dava algum al\u00edvio, especialmente naquele espa\u00e7o abafado. Dependendo de como apoiava o nariz contra a parede, quase conseguia imaginar que a corrente fria era ar puro. \u00c0s vezes, das fissuras nas paredes, surgiam sussurros. Baixos, sibilantes, que espiralavam por seus ouvidos de forma quase convidativa. Eram altos o suficiente para serem reconhecidos como vozes, e ainda assim, baixos demais para se entender o que diziam.<br>\n\u2003\u2003Quando mais nova, %Lucie% at\u00e9 tentou entender as palavras. Mas a repetida frustra\u00e7\u00e3o a levou a crer que, fosse o que fossem aqueles sussurros, n\u00e3o eram destinados a <em>ela<\/em>.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% %Vatra% fechou os olhos com mais for\u00e7a, tentando obrigar-se a dormir, quando o eco suave e distante de m\u00fasica atravessou as paredes.<br>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o se lembrava de sons ou melodias como aquelas. Presa desde pequena nas catacumbas, raramente autorizada a subir aos p\u00e1tios do Instituto, pouco conhecia do mundo exterior. Aquele som n\u00e3o era <em>agressivo<\/em>, tampouco <em>causava dor<\/em> aos ouvidos \u2014 n\u00e3o lembrava ratos, nem o basilisco. Era estranho, desconhecido, mas ainda assim\u2026 <em>belo<\/em>. Com um fungar baixinho, %Lucie% se sentou na cama, usando o dorso das m\u00e3os enfaixadas para limpar o rosto, piscando in\u00fameras vezes a fim de clarear a vis\u00e3o \u2014 mesmo que n\u00e3o conseguisse ver a um palmo de dist\u00e2ncia.<br>\n\u2003\u2003Era arriscado. <em>Extremamente<\/em> arriscado. Se sua tia descobrisse que havia tentado se aventurar novamente pelos corredores de Durmstrang, %Lucie% estaria em apuros por meses. Mas, ao mesmo tempo, a garota \u2014 que passava a maior parte do tempo trancada naquele quartinho, tentando ler \u00e0 luz de uma fissura com os livros que Kaprizen contrabandeava em gestos de compaix\u00e3o \u2014 estava <em>curiosa<\/em>. Queria ouvir <em>s\u00f3 mais um pouquinho<\/em>.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% tateou as paredes de pedra com cuidado, esgueirando-se por entre pequenos v\u00e3os. Observou, escondida, alguns alunos sentados em bancos de pedra ou escorados na entrada, rindo e conversando entre si. Alguns eram mais velhos, outros pareciam ter sua idade, sentados em c\u00edrculo, gargalhando enquanto comiam doces ou giravam suas varinhas praticando feiti\u00e7os. Algo dentro do peito de %Lucie% pareceu se partir. Ela queria <em>tanto<\/em> fazer parte daquilo. \u00c0s vezes, imaginava-se sentada com eles, ouvindo suas risadas, compartilhando algum doce. Perguntava-se <em>como<\/em> seria o sabor. Seriam doces de verdade? Ou mais amargos?<br>\n\u2003\u2003Mordeu o l\u00e1bio inferior ressecado e lan\u00e7ou um olhar assustado para tr\u00e1s, em dire\u00e7\u00e3o ao seu pequeno quartinho, antes de disparar silenciosamente, o mais r\u00e1pido que conseguia, apesar da exaust\u00e3o dos m\u00fasculos \u2014 evitando chamar aten\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis colegas&#8230; ou dos zeladores do Instituto.<br>\n\u2003\u2003\u2013 Sangue-ruim! \u2013 gritou um dos meninos de sua idade, sentado na rodinha, seguido por uma gargalhada e um comando de \u201cpersegui\u00e7\u00e3o\u201d.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% arregalou os olhos, percebendo tardiamente que havia sido pega em flagrante e, como em todas as vezes em que isso acontecera, n\u00e3o demorou para que as outras crian\u00e7as dessem prosseguimento \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o contra a garotinha.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% correu como se sua vida dependesse disso.<br>\n\u2003\u2003As crian\u00e7as lhe arremessaram livros e at\u00e9 mesmo lan\u00e7aram feiti\u00e7os em sua dire\u00e7\u00e3o. Nenhum Feiti\u00e7o Imperdo\u00e1vel, \u00e9 claro \u2014 seja l\u00e1 o que isso significasse para eles \u2014, mas feiti\u00e7os que poderiam levit\u00e1-la, caso assim desejassem, ou prend\u00ea-la novamente em um dos lustres. Ou pior: faz\u00ea-la se co\u00e7ar at\u00e9 que sua pele estivesse em carne viva.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% sabia que gritar apenas os incentivaria mais. Ent\u00e3o virou bruscamente \u00e0 esquerda, descendo novamente as escadarias, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sala da tia Joanne, que certamente j\u00e1 deveria ter escutado a como\u00e7\u00e3o de gargalhadas e os gritos de <em>comando<\/em> das outras crian\u00e7as.<br>\n\u2003\u2003No desespero, %Lucie% virou \u00e0 direita, depois novamente \u00e0 direita, at\u00e9 encontrar um v\u00e3o na parede. Espremeu-se ali com toda a for\u00e7a, mordendo com for\u00e7a o l\u00e1bio inferior quando a press\u00e3o machucou seu ombro esquerdo, tentando desaparecer entre a parede do Instituto e uma est\u00e1tua. Prendeu a respira\u00e7\u00e3o, mesmo que seus pulm\u00f5es estivessem desesperados por oxig\u00eanio, e implorou a qualquer entidade superior que a estivesse ouvindo para que a fizesse passar despercebida, at\u00e9 que todas as crian\u00e7as se entediassem de ca\u00e7\u00e1-la pelos corredores da Durmstrang e voltassem aos pr\u00f3prios interesses \u2014 antes que sua tia Joanne a encontrasse.<br>\n\u2003\u2003Sabia que o castigo viria de qualquer forma. Pelo menos poderia protelar um pouco antes de receb\u00ea-lo.<br>\n\u2003\u2003Mesmo que fosse um instinto tolo, %Lucie% fechou os olhos com for\u00e7a assim que viu as crian\u00e7as passarem correndo por ela. Sabia que n\u00e3o demoraria para que percebessem o erro, e como ela mesma havia se encurralado. Todavia, a \u00faltima coisa que esperava ver era o Professor Krasny.<br>\n\u2003\u2003O velho homem, de cabelos grisalhos misturados aos fios acobreados e olhos obsidiana como os dela, fingiu abaixar-se para recolher alguns dos livros que os estudantes haviam derrubado enquanto a perseguiam. Sem desviar o olhar dos volumes, sussurrou com um sotaque russo pesado:<br>\n\u2003\u2003\u2013 <em>Siga as luzes.<\/em><br>\n\u2003\u2003%Lucie% piscou, surpresa com o coment\u00e1rio, mas ouvir os passos dos colegas retornando na dire\u00e7\u00e3o dela foi suficiente para faz\u00ea-la sair imediatamente de seu esconderijo e seguir, ao p\u00e9 da letra, as palavras do Professor Krasny.<br>\n\u2003\u2003Ela voltou a correr, os p\u00e9s chapinhando no ch\u00e3o de pedras irregulares, escorregadio por pequenos amontoados de neve que derretiam nos terrenos do castelo \u2014 enfeiti\u00e7ado para manter a neve <em>longe<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Ainda escutava gritos e, por um breve segundo, sentiu-se tentada a olhar por sobre o ombro para verificar de onde vinham e quem a chamava. Certamente reconhecia as vozes de seus agressores, <em>cada uma delas<\/em> gravada no fundo da mente, espiralando sempre que tinham oportunidade. Mas ent\u00e3o, lembrou-se vividamente do basilisco que a perseguia durante as aulas da tia, e como <em>morria de medo<\/em> de olhar para tr\u00e1s. Como supunha que a criatura de h\u00e1lito f\u00e9tido e presas venenosas poderia estar \u00e0 espreita naquele mesmo corredor.<br>\n\u2003\u2003Ent\u00e3o %Lucie% apenas correu. Correu o m\u00e1ximo que p\u00f4de, os olhos piscando em busca das luzes que o Professor Krasny dissera para seguir.<br>\n\u2003\u2003E ent\u00e3o&#8230; l\u00e1 estavam elas.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% ouviu os sussurros outra vez, desta vez mais altos, espiralando n\u00e3o apenas dos telhados, como costumava ver, mas agora tamb\u00e9m ao seu redor \u2014 pontos brilhantes de bioluminesc\u00eancia, vivos, <em>pulsando<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Ela parou de correr, esfregando os olhos, o cenho franzido. Olhou em volta, confusa e ao mesmo tempo fascinada, erguendo a m\u00e3o direita para comparar com a nova cicatriz que a Professora Joanne observara. Uma pequena luz espiralava do ferimento e pairava no ar \u2014 n\u00e3o como os pontos que giravam livremente, mas parecida&#8230; n\u00e3o g\u00eamea, apenas pr\u00f3xima.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% teria se perdido ali.<br>\n\u2003\u2003Teria ficado admirando, com a fascina\u00e7\u00e3o de quem nunca vira o c\u00e9u direito, <em>mas ainda<\/em> sonhava com ele. Que observava as estrelas de longe, imaginando como seria a sensa\u00e7\u00e3o de <em>apenas<\/em> contempl\u00e1-las, assistindo ao passar dos seus infinitos anos enquanto ela mesma se desfazia em esquecimento e poeira.<br>\n\u2003\u2003A voz da tia ecoou em alto e bom tom, comandando-a para parar, e %Lucie% n\u00e3o p\u00f4de evitar: desta vez, obedeceu ao que os sussurros lhe diziam.<br>\n\u2003\u2003<em>Direita.<\/em><br>\n\u2003\u2003%Lucie% virou \u00e0 direita.<br>\n\u2003\u2003<em>Esquerda.<\/em><br>\n\u2003\u2003Virou. E ent\u00e3o novamente \u00e0 esquerda. Esquerda.<br>\n\u2003\u2003Desceu, aos trope\u00e7os, uma escadaria em espiral, seguindo as luzes e os sussurros que a guiavam. Ent\u00e3o novamente direita, direita, esquerda. Seguiu reto, depois novamente \u00e0 direita. Os olhos de obsidiana voltaram-se instintivamente para o caminho que se abria \u00e0 sua frente, e ela prendeu a respira\u00e7\u00e3o ao se deparar com uma das entradas das catacumbas \u2014 mas, desta vez, <em>algo<\/em> era diferente.<br>\n\u2003\u2003O corredor que se abria agora parecia mais&#8230; estranho do que ela se lembrava. %Lucie% deu um passo para tr\u00e1s, hesitante.<br>\n\u2003\u2003Uma fina camada, que parecia gelo, formava-se na entrada abobadada do corredor. Em vez de apenas revelar o breu das catacumbas do Instituto, refletia <em>outro<\/em> lugar. Um lugar estranho e completamente desconhecido. O ch\u00e3o de pedra era mais <em>uniforme<\/em> e escuro, com pontos duplos de luz se movendo rapidamente. Havia torres semelhantes \u00e0s de Durmstrang \u2014 ou ao que %Lucie% se <em>lembrava<\/em> de ter visto poucas vezes \u2014 ou pequenas casinhas, lado a lado, apertadas e quase do mesmo tamanho, meio distorcidas pela penumbra de gelo.<br>\n\u2003\u2003%Lucie% prendeu a respira\u00e7\u00e3o outra vez, virando-se na dire\u00e7\u00e3o da tia. O rosto de Joanne era uma m\u00e1scara de frustra\u00e7\u00e3o e f\u00faria contida, marchando em sua dire\u00e7\u00e3o.<br>\n\u2003\u2003A garota ofegou, agarrando a frente da blusa pu\u00edda com for\u00e7a, os olhos arregalados saltando da imagem da tia para a vis\u00e3o distorcida pelo gelo \u00e0 esquerda.<br>\n\u2003\u2003C\u00e9us, sua tia iria mat\u00e1-la! Ela tinha certeza!<br>\n\u2003\u2003Durante todos os anos em que vivera ali, a regra fora sempre clara: pior do que se fazer notar era <em>humilhar a tia<\/em> Joanne diante dos colegas e estudantes. Pior do que ser percebida era se colocar \u00e0 frente de Joanne. %Lucie% deveria ser como um fantasma \u2014 apenas assombrar, jamais pedir ou exigir algo. Ela n\u00e3o tinha direito algum. Era um monstro, aceito ali apenas pela miseric\u00f3rdia daqueles que <em>ainda<\/em> esperavam que fosse \u00fatil para alguma coisa \u2014 uma cobaia, nada mais.<br>\n\u2003\u2003E agora, %Lucie% havia se feito notar. Pior: havia <em>desafiado<\/em> as regras da tia Joanne, a expusera ao rid\u00edculo diante de todos.<br>\n\u2003\u2003<em>Tia Joanne iria mat\u00e1-la. N\u00e3o, dessa vez %Lucie% estava mesmo encrencada!<\/em><br>\n\u2003\u2003Ofegante, em p\u00e2nico, a garotinha agiu por puro instinto e desespero. Disparou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fina camada de gelo que cobria a entrada do corredor \u2014 como uma membrana emba\u00e7ada, imposs\u00edvel de compreender. Um passo ap\u00f3s o outro. Sentiu as unhas da tia Joanne cravarem-se em seu ombro esquerdo, mas, desta vez, deixaram apenas <em>arranh\u00f5es<\/em> e <em>verg\u00f5es<\/em> para tr\u00e1s, quando a garota se projetou adiante, desabando no vazio.<br>\n\u2003\u2003\u2013 <strong>%LUCILLE% \u2013 o grito da tia Joanne desapareceu no instante em que %Lucie% afundou no portal.<br>\n\u2003\u2003Ent\u00e3o, tudo escureceu.<br>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1214],"class_list":["post-3068","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-cruel-warmth"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/3068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=3068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}