{"id":3067,"date":"2025-04-29T16:20:00","date_gmt":"2025-04-29T19:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-26T16:24:17","modified_gmt":"2025-09-26T19:24:17","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/cruel-warmth\/prologo\/","title":{"rendered":"PR\u00d3LOGO."},"content":{"rendered":"\n<span class=\"versalete\">\u2003\u2003<strong>TUDO COME\u00c7A QUANDO UM<\/span> BRUXO PURO-SANGUE SE APAIXONOU POR UM TROUXA.<\/strong><br>\n\u2003\u2003Uma hist\u00f3ria que parecia se repetir com frequ\u00eancia no mundo bruxo. Um bruxo considerado puro-sangue, nascido dentro de um nome poderoso e respeitado, apaixonar-se por um <em>mero<\/em> humano <em>trouxa<\/em> apenas revelava a trag\u00e9dia encravada no \u00e2mago de cora\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podiam ver <em>barreiras<\/em>, mas apenas buscar reconhecer <em>semelhantes<\/em>. Inescap\u00e1vel, certamente. <em>Evit\u00e1vel<\/em>.<br>\n\u2003\u2003A fam\u00edlia Rozenn, porventura, era reconhecida no mundo bruxo \u2014 especialmente na <em>Fran\u00e7a<\/em> \u2014 n\u00e3o apenas por sua beleza estonteante, capaz de enlouquecer bruxos (gra\u00e7as, provavelmente, \u00e0 heran\u00e7a das antigas criaturas chamadas <em>Veelas<\/em>), como tamb\u00e9m por sua pureza sangu\u00ednea intacta. Mantinham a tradi\u00e7\u00e3o de envolver-se apenas com bruxos puro-sangue, permitindo que suas habilidades n\u00e3o apenas florescessem, mas alcan\u00e7assem <em>profundidade<\/em> \u2014 sobretudo no que dizia respeito \u00e0s po\u00e7\u00f5es.<br>\n\u2003\u2003Essa tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o carecia do apoio de muitos no mundo bruxo. Contudo, os jovens dessas fam\u00edlias, por vezes, preferiam desert\u00e1-la, escolhendo, por vontade <em>pr\u00f3pria<\/em>, a solid\u00e3o infundada do mundo trouxa, a submeter-se ao eterno tormento de <em>casar-se<\/em> com um desconhecido <em>apenas<\/em> para manter segura a linhagem de sangue. Eram fam\u00edlias com habilidades consider\u00e1veis, que cultivavam uma <em>presen\u00e7a fixa<\/em> em escolas renomadas no mundo m\u00e1gico, como a Beauxbatons \u2014 e, eventualmente, em outra institui\u00e7\u00e3o mais adequada \u00e0s expectativas da matriarca da fam\u00edlia: a temida Durmstrang.<br>\n\u2003\u2003Blanche Rozenn nasceu durante uma noite de intensa tempestade, no fim do ver\u00e3o franc\u00eas. Dizia-se que, desde pequena, a menina havia vindo ao mundo com o \u00fanico prop\u00f3sito de tornar-se uma for\u00e7a a ser reconhecida. Determinada, habilidosa e focada em seus objetivos, n\u00e3o havia quem realizasse um <em>feiti\u00e7o<\/em> t\u00e3o bem quanto Blanche Rose-Marie Rozenn. No entanto, sua <em>verdadeira<\/em> habilidade estava nas <em>palavras<\/em>. Garota ladina e sagaz, era facilmente uma das mais carism\u00e1ticas e expressivas alunas de Durmstrang. Pouco n\u00e3o conseguiria com algumas palavras bem arranjadas e um tom de voz doce e amig\u00e1vel. Pouco n\u00e3o conseguiria com aquele sorriso charmoso e convidativo.<br>\n\u2003\u2003Conforme cresceu, aceitou a proposta feita por sua fam\u00edlia de unir as casas Greengrass e Rozenn. Ap\u00f3s uma breve negocia\u00e7\u00e3o, ficou decidido que Edwin Greengrass seria o respons\u00e1vel por trocar seu sobrenome e assumir o posto de herdeiro da fam\u00edlia Rozenn. Com um ano de casamento, Blanche e Edwin \u2014 agora estabelecidos em Paris \u2014 receberam, em sua mans\u00e3o, a pequena Joanne Karine Rozenn, primog\u00eanita do casal. Nomeada em homenagem \u00e0 av\u00f3 materna, a garotinha era fisicamente id\u00eantica \u00e0 m\u00e3e, exceto pelos olhos herdados do pai. Como era comum entre as crian\u00e7as Rozenn, seus cabelos platinados \u2014 quase brancos \u2014 carregavam a fama de serem fruto de um <em>pacto<\/em> antigo com uma criatura m\u00e1gica ancestral.<br>\n\u2003\u2003\u00c9 claro, n\u00e3o passavam de lendas. Mas o folclore que envolvia o poder da Casa Rozenn jamais fora desmentido. Quaisquer que fossem as inten\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s da manuten\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, o objetivo era sempre lembrar a todos da <em>import\u00e2ncia<\/em> que a linhagem carregava.<br>\n\u2003\u2003Blanche e Edwin ainda se tornaram pais de mais tr\u00eas meninos antes da chegada do \u00faltimo filho.<br>\n\u2003\u2003A hist\u00f3ria, at\u00e9 aqui, tornava-se mais complexa. Ap\u00f3s quase doze anos de casamento, o casal \u2014 conhecido por sua imagem impec\u00e1vel \u2014 ocultava do olhar p\u00fablico as incoer\u00eancias e dificuldades causadas pelos ressentimentos de um relacionamento arranjado. Convidados pelo Ministro da Magia a mudarem-se para Bucareste, receberam, como extens\u00e3o da oferta, a oportunidade para Blanche Rozenn tornar-se uma das professoras de Durmstrang. Uma posi\u00e7\u00e3o de grande prest\u00edgio, jamais negada pela agora matriarca da fam\u00edlia Rozenn.<br>\n\u2003\u2003E foi <em>nesse novo cen\u00e1rio<\/em> que ela conheceu o admir\u00e1vel professor de Arte das Magias das Trevas, conhecido apenas como Vladimir Krasny.<br>\n\u2003\u2003Um homem bonito e imponente, de postura intrigante, olhos %obsidianos% intensos e observadores \u2014 capazes de captar pequenos detalhes que at\u00e9 mesmo os mais atentos poderiam deixar escapar por mero acaso ou distra\u00e7\u00e3o \u2014, e uma quietude gentil que parecia <em>sempre<\/em> ser um convite para que se orbitasse ao seu redor. Os cabelos %acobreados% destacavam-se entre os rostos p\u00e1lidos que povoavam Durmstrang, e sua gentileza, certamente, desafiava a postura mais fria das fam\u00edlias puro-sangue de bruxos que compunham o Instituto. Talvez tenha sido por isso que Blanche Rozenn se encantou pelo homem soturno ou, igualmente, fosse apenas o despeito causado pelo marido, que agora preferia trabalhar com maior frequ\u00eancia no Minist\u00e9rio da Magia da Rom\u00eania, parecendo estar determinado \u2014 quase <em>obcecado<\/em> \u2014 a entender o componente <em>h\u00e1 muito<\/em> desaparecido do mundo bruxo, conhecido como Magia Ancestral. Quaisquer que fossem as desculpas p\u00e9rfidas e irris\u00f3rias que Blanche pudesse usar para justificar sua trai\u00e7\u00e3o, o fator-chave ocorreu: ela se envolveu com o belo e silencioso professor de Artes da Magia das Trevas.<br>\n\u2003\u2003O caso durou cerca de tr\u00eas anos, per\u00edodo em que Blanche Rozenn lecionou, antes de retornar, mais uma vez, a Paris. E, desse caso extraconjugal, nasceu sua \u00faltima crian\u00e7a, que recebeu apenas o nome de <em>River<\/em>, ou como Edwin Greengrass-Rozenn a chamava afetuosamente: <em>Rio<\/em>. Para pouca surpresa de todos, embora ainda os deixasse perplexos, Blanche Rozenn n\u00e3o sobreviveu ao \u00faltimo parto. J\u00e1 enfraquecida pela perda de sangue, morreu pouco antes de sua \u00faltima crian\u00e7a nascer, perdendo a oportunidade de ter um \u00faltimo confronto com seu marido, Edwin, sobre a paternidade da crian\u00e7a.<br>\n\u2003\u2003Ficou claro, no momento em que a crian\u00e7a saiu de seu ventre, que n\u00e3o carregava o mesmo sangue de Edwin. N\u00e3o era apenas a pequena estrutura que levantava suspeitas, mas tamb\u00e9m os pequenos detalhes que se tornaram evidentes conforme a crian\u00e7a crescia. Primeiro, a heran\u00e7a caracter\u00edstica da fam\u00edlia Rozenn n\u00e3o se manifestou na constitui\u00e7\u00e3o de Rio que, por obra do destino \u2014 ou de um certo carma \u2014, possu\u00eda cabelos %acobreados%, tal como o pai biol\u00f3gico, e n\u00e3o os loiros p\u00e1lidos naturais de um Rozenn. Igualmente, possu\u00eda os olhos %obsidianos%, intensos e profundos, e n\u00e3o os azuis quase prateados da fam\u00edlia. A disson\u00e2ncia era tamanha que, mesmo para uma crian\u00e7a, seria evidente a infidelidade da m\u00e3e para com o pai. E, ainda assim, Edwin Greengrass-Rozenn, de alguma forma, n\u00e3o guardou <em>ressentimento<\/em> da crian\u00e7a, mesmo tendo todo o direito de faz\u00ea-lo \u2014 levando em considera\u00e7\u00e3o que Rio era a prova viva da infidelidade de sua falecida esposa.<br>\n\u2003\u2003Embora alguns o chamassem de <em>tolo<\/em> e at\u00e9 mesmo <em>depravado<\/em> por sua postura, Edwin Greengrass-Rozenn n\u00e3o mudava. Pelo contr\u00e1rio, demonstrou profunda compaix\u00e3o ao tomar a crian\u00e7a como sua no instante em que segurou o pequeno corpinho que protestava entre solu\u00e7os, sem <em>hesitar<\/em>. Sua falecida esposa poderia ser a culpada, mas n\u00e3o a crian\u00e7a que ela havia carregado. Portanto, o ressentimento partiu de sua primog\u00eanita, mesmo contra a vontade do patriarca da fam\u00edlia, e tomou forma nas atitudes de Joanne Karine Rozenn, que n\u00e3o demorou a influenciar os outros irm\u00e3os. Com o passar dos anos, \u00e0 medida que as crian\u00e7as cresciam, a discrep\u00e2ncia no tratamento dos filhos de Edwin por parte de estranhos tornava-se vis\u00edvel. Talvez fosse por <em>isso<\/em> que o patriarca tendesse a favorecer sua filha mais nova.<br>\n\u2003\u2003Veja bem, n\u00e3o \u00e9 que Edwin n\u00e3o amasse os outros filhos com respeito e dedica\u00e7\u00e3o, como fazia com Rio. Talvez, fosse a natureza de Blanche, <em>profundamente<\/em> marcada em Joanne, que o fazia, mesmo contra sua vontade, repudiar os mais velhos e ter um ponto mais suave e gentil para com a ca\u00e7ula. Ou, talvez, fosse a percep\u00e7\u00e3o de que a \u00fanica crian\u00e7a que <em>realmente<\/em> parecia carregar um resqu\u00edcio de sua pr\u00f3pria gentileza e compreens\u00e3o fosse justamente Rio \u2014 e nenhuma outra. Ou, ainda mais perverso, ressentido pela trai\u00e7\u00e3o da esposa, desejasse suprir todas as necessidades da crian\u00e7a para que Rio <em>jamais<\/em> precisasse sequer se lembrar de quem sua <em>m\u00e3e<\/em> ou <em>pai biol\u00f3gico<\/em> haviam sido. O suficiente para que nada lhe faltasse al\u00e9m dele.<br>\n\u2003\u2003E, de fato, Rio nunca precisou de mais ningu\u00e9m em sua vida al\u00e9m de Edwin.<br>\n\u2003\u2003Quando a fam\u00edlia se mudou para Londres, pouco mais de dois meses ap\u00f3s Edwin adoecer, chegou o momento de Rio decidir para qual escola desejaria ir. Com o hist\u00f3rico da fam\u00edlia puro-sangue, seria bem aceita em qualquer lugar onde quisesse trilhar seu caminho. No entanto, quando a carta de Hogwarts chegou, Rio prontamente a descartou, preferindo seguir os passos anteriores da fam\u00edlia e ingressar em Durmstrang. \u00c9 claro que Edwin n\u00e3o aceitou bem a decis\u00e3o, considerando o hist\u00f3rico e as mem\u00f3rias amargas que guardava daquele lugar, mas, igualmente, n\u00e3o <em>questionou<\/em> a escolha da filha, pois n\u00e3o lhe cabia tal papel.<br>\n\u2003\u2003Teria apoiado Rio independentemente de <em>onde<\/em> seu caminho a levasse, mesmo que lhe apertasse o cora\u00e7\u00e3o o receio de perd\u00ea-la para a Rom\u00eania \u2014 novamente.<br>\n\u2003\u2003A escolha de Rio por seguir para Durmstrang n\u00e3o se devia ao desejo de <em>pertencer<\/em> \u00e0 sua fam\u00edlia, pois h\u00e1 muito j\u00e1 havia enterrado a vontade de ser aceita pelos irm\u00e3os. Devia-se unicamente ao desejo de provar-se <em>superior<\/em> a Joanne. Joanne, que n\u00e3o hesitava em usar palavras cru\u00e9is e violentas contra a exist\u00eancia de Rio, logo percebeu que o talento da irm\u00e3 superava o dos demais membros da fam\u00edlia. O interesse de Rio pelas Artes das Trevas n\u00e3o estava ligado \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de feiti\u00e7os obscuros nem ao desejo de tornar-se um bruxo das trevas, mas nascia puramente da necessidade de se defender de Joanne.<br>\n\u2003\u2003Enquanto Joanne despertava cada vez mais a aten\u00e7\u00e3o de colegas e professores \u2014 exibindo, desde tenra idade, a habilidade <em>herdada<\/em> da m\u00e3e, Blanche, de encantar e convencer com as palavras \u2014, rapidamente se tornou uma estrela entre os futuros colunistas do Profeta Di\u00e1rio. Rio, por outro lado, demonstrou uma impressionante aptid\u00e3o para a <em>metamorfomagia<\/em> \u2014 talvez a mais not\u00e1vel que j\u00e1 passara pelos sal\u00f5es de pedra de Durmstrang. E foi <em>isso<\/em> que a levou at\u00e9 <em>ele<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Nomeado Django, em homenagem ao tio-tatarav\u00f4 \u2014 conhecido na comunidade como o Bardo por suas cantigas rid\u00edculas, por\u00e9m grudentas \u2014, o garoto trouxa cresceu em uma pequena comunidade Romani, no cora\u00e7\u00e3o de Cluj-Napoca. Esp\u00edrito livre, sorriso cativante e personalidade calorosa, Django n\u00e3o se preocupava com muitas coisas al\u00e9m das pr\u00f3ximas perip\u00e9cias e de como convencer algu\u00e9m a lhe oferecer comida de gra\u00e7a. Embora nascido em uma fam\u00edlia trouxa, os Vatra n\u00e3o eram desprovidos de magia \u2014 apenas a concebiam de maneira diferente. Sua vis\u00e3o de mundo moldava sua percep\u00e7\u00e3o, mas, ainda em tenra idade, Django <em>conseguia<\/em> ver os rastros da Magia Ancestral ao seu redor.<br>\n\u2003\u2003Ele a via envolvendo seus irm\u00e3os mais novos e sua m\u00e3e, Esmeralda. Via magia na maneira como seu pai dedilhava o viol\u00e3o e cantava \u201cO Dadoro\u201d para os filhos quando n\u00e3o queriam dormir e a fogueira ardia intensa demais para que seu calor fosse ignorado. Django a enxergava tamb\u00e9m nos rostos desconhecidos daqueles que desapareciam entre paredes ou andavam com varinhas em punho. \u00c0s vezes, gostava de esgueirar-se entre vielas estreitas at\u00e9 alcan\u00e7ar pubs onde tais criaturas se reuniam para beber algo vagamente semelhante \u00e0 cerveja.<br>\n\u2003\u2003E foi l\u00e1 que, aos dezesseis anos, ele viu Rio pela primeira vez.<br>\n\u2003\u2003Apaixonou-se \u2014 n\u00e3o pela apar\u00eancia, mas pela <em>ess\u00eancia<\/em> de Rio. Era uma figura curiosa: enquanto <em>muitos<\/em> tendiam a se encaixar em algum ponto do espectro de g\u00eanero, Rio subvertia essa concep\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira. N\u00e3o era uma coisa ou outra \u2014 era apenas <em>Rio<\/em>, de beleza imensur\u00e1vel e timidez encantadora. Na maior parte do tempo, quando Django encontrava Rio, ela usava roupas masculinas e os cabelos estavam curtos. Django gostava especialmente quando ela usava tons de verde, que faziam os cabelos %acobreados% parecerem ainda mais intensos. Gostava de poder emprestar-lhe roupas, nas noites em que ela dormia em sua casa.<br>\n\u2003\u2003Os pais de Django nunca questionaram profundamente quem era Rio; apenas a acolheram como parte da fam\u00edlia, com ternura e afeto. Por isso, n\u00e3o houve <em>hesita\u00e7\u00e3o<\/em> quando Rio se viu diante do dilema que tantos bruxos puro-sangue enfrentam ao se apaixonarem por um trouxa.<br>\n\u2003\u2003Nem mesmo Edwin, seu amado pai, p\u00f4de tolerar tamanha <em>\u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> vinda justamente de sua filha preferida. \u00c9 verdade que, no leito de morte, ele a perdoou. Mas j\u00e1 fazia tempo que Rio havia sido expulsa da fam\u00edlia e relegada, sem piedade, ao mundo dos trouxas \u2014 consequ\u00eancia direta da influ\u00eancia de sua irm\u00e3 mais velha.<br>\n\u2003\u2003Por um breve per\u00edodo, a persegui\u00e7\u00e3o de Joanne cessou.<br>\n\u2003\u2003Ocupada com sua carreira de escritora e agora como a nova matriarca da fam\u00edlia Rozenn, estava atarefada demais para se preocupar com Rio. E uma vez que a irm\u00e3 havia sido banida e vivia uma vida simples com seu agora marido, Django, pouco podia fazer para interferir nos pr\u00f3prios planos de ascender ao Minist\u00e9rio da Magia. Joanne influenciava alguns az\u00eamolas da sociedade bruxa com palavras vazias, convenientes ao \u00f3dio que cultivava \u2014 sem perceber que o fazia por pura debilidade emocional e enfado existencial. Seja como for, por um breve momento, Joanne estava <em>satisfeita<\/em> com a bajula\u00e7\u00e3o infundada que recebia por suas palavras habilmente arranjadas para faz\u00ea-la soar bem.<br>\n\u2003\u2003Mas ent\u00e3o, Rio e Django tiveram uma crian\u00e7a.<br>\n\u2003\u2003A crian\u00e7a herdara de Rio sua apar\u00eancia, mas era de Django a sua personalidade. Curiosa, admiravelmente sagaz e perspicaz, era t\u00e3o boa em observar detalhes quanto o seu av\u00f4 biol\u00f3gico podia; tal como o pai, n\u00e3o apenas enxergava os rastros de <em>Magia Ancestral<\/em>, como, surpreendentemente, a manuseava quando estivesse se concentrando muito. E <em>isto<\/em> despertou n\u00e3o apenas o <em>interesse<\/em> de Joanne, como, igualmente, seu senso de direito sobre a garotinha. Verdade seja dita, Joanne <em>jamais<\/em> iria aceitar ser <em>menos<\/em> que algu\u00e9m, principalmente Rio, a quem jogava toda culpa \u2014\u2014 aquela que <em>sequer<\/em> possu\u00eda culpa alguma. Joanne precisava <em>vilanizar<\/em> algu\u00e9m para que pudesse suprir o doloroso fato que se recusava a reconhecer que a pessoa <em>mais nojenta<\/em> que poderia ter conhecido a encarava <em>todos os dias<\/em> pelo espelho.<br>\n\u2003\u2003Orgulhosa, n\u00e3o demorou muito para que Joanne iniciasse uma verdadeira <em>Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas<\/em>. Alegou uma s\u00e9rie de crimes que Rio <em>jamais<\/em> poderia ter cometido, contudo, uma vez que Joanne havia conquistado a credibilidade que precisava, tampouco importava se suas palavras possu\u00edam algum fundamento ou n\u00e3o; desde que ela o dissesse, alguns bruxos inescrupulosos rapidamente a usariam como <em>\u201cverdade absoluta\u201d<\/em> para fundamentar seus <em>pr\u00f3prios<\/em> desejos <em>pessoais<\/em> e suas agendas. Para o desgosto de alguns poucos membros do parlamento, o Minist\u00e9rio da Magia n\u00e3o havia demorado tanto para aceitar as acusa\u00e7\u00f5es difamat\u00f3rias de Joanne, e como tal, tentarem capturar Rio e Django.<br>\n\u2003\u2003Mas o \u00f3dio que Joanne havia propositalmente incitado, n\u00e3o eram apenas pequenas chamas facilmente control\u00e1veis. Uma vez que o medo era instaurado e o \u00f3dio <em>\u201cjustificado\u201d,<\/em> tornavam-se labaredas gigantes que consumiam tudo pelo caminho, at\u00e9 que houvesse apenas cinzas. E talvez Joanne n\u00e3o tivesse a inten\u00e7\u00e3o de ver a dizima\u00e7\u00e3o de seus parentes, ou, talvez, lhe trouxesse para sua exist\u00eancia miser\u00e1vel, o conforto de uma valida\u00e7\u00e3o muito esquecida em sua mente infantil. A valida\u00e7\u00e3o de que <em>ela era a melhor<\/em> \u2014\u2014 mesmo que n\u00e3o fosse. A valida\u00e7\u00e3o de uma inseguran\u00e7a que em nada possu\u00eda conex\u00e3o se n\u00e3o a si mesma.<br>\n\u2003\u2003Mas uma vez que havia o desejo de cegar-se, um acreditaria em quaisquer mentiras que lhe fossem ditas; mesmo as que dizia a si mesmo.<br>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s a morte violenta e tr\u00e1gica de Rio e Django, a pequena garotinha, na \u00e9poca com apenas 3 anos, havia sido deixada sob a tutela de Joanne Karine Rozenn. A tutora n\u00e3o tardou em criar uma nova hist\u00f3ria, aclamada, que havia vendido <em>in\u00fameras<\/em> c\u00f3pias para os bruxos de todo o mundo; uma <em>doen\u00e7a<\/em> perigosa e facilmente contagiosa que percebera que sua sobrinha possu\u00eda. Causada pelo sangue <em>sujo<\/em> de um trouxa e um sangue-puro, o resultado poderia acarretar nas lacera\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas dos pequenos membros das crian\u00e7as, criando in\u00fameras cicatrizes na pele que o marcavam como <em>doente<\/em>. Devido a isto, um planejamento maior havia sido feito pelos bruxos de Durmstrang, que temiam que seus alunos pudessem vir a apresentar tal doen\u00e7a, e, como tal, extinguiu-se propositalmente a entrada de bruxos mesti\u00e7os.<br>\n\u2003\u2003\u00c9 claro que houve, de certa forma, resist\u00eancias para com o novo livro de Joanne Karine Rozenn, e que isso a tornara mal vista em lugares mais progressistas, todavia, agora como a Vice-Diretora de Durmstrang, era apoiada por in\u00fameros pais e estudantes do Instituto que presavam fortemente para manter o sangue bruxo <em>sempre<\/em> puro. O que poucos poderiam saber era que as poderosas exibi\u00e7\u00f5es de magia que Joanne Karine Rozenn fazia em suas celebra\u00e7\u00f5es, na verdade vinha exatamente de uma canaliza\u00e7\u00e3o conectada diretamente com a garotinha acorrentada nas catacumbas abaixo do castelo de Durmstrang. E as cicatrizes que se formavam nos bra\u00e7os da menina eram <em>apenas<\/em> as marcas deixadas para tr\u00e1s de sua crueldade, causadas pela <em>Magia das Trevas<\/em>.<br>\n\u2003\u2003Porque Joanne <em>jamais<\/em> seria algo melhor do que uma <em>mera <strong>parasita<\/strong>.<\/em><br>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1214],"class_list":["post-3067","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-cruel-warmth"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/3067","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=3067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}