{"id":2885,"date":"2025-09-07T14:50:00","date_gmt":"2025-09-07T17:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-25T14:52:39","modified_gmt":"2025-09-25T17:52:39","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/a-historia-de-ana-da-boemia-e-ana-da-austria\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003Na manh\u00e3 que se<\/span> iniciava ap\u00f3s o ano de 1514, quase beirando 1515, %Ana% da Bo\u00eamia acordara de sobressalto. Ainda lembrava do pai, o rei de Jagel\u00e3o que morrera cedo. Ela conseguia sentir a tristeza pelo que acontecera com o pai, ele era um homem t\u00e3o altivo, t\u00e3o importante. E agora ela estava sem ele. Sentia-se de alguma forma nost\u00e1lgica. Sabia que era natural a morte de entes queridos, mas ela n\u00e3o conseguia esquecer. Ele fazia de tudo por ela e agora havia partido.<br \/>\u2003\u2003Viu seu novo amigo Tomasz ajudar nas tarefas reais, mas ela mesma n\u00e3o conseguia esconder sua tristeza pelo peso da morte do pai. Passara meses lamentando, mas finalmente decidiu que n\u00e3o mais iria chorar pela morte dele. Iria ser ela mesma e tentar lidar com a vida. Mas como lidar com algo que \u00e9 dif\u00edcil? Ela n\u00e3o sabia o que fazer.<br \/>\u2003\u2003%Ana% da Bo\u00eamia naquela manh\u00e3 vestiu seu vestido verde ainda crian\u00e7a, quase adolescente e um v\u00e9u verde mudou o cen\u00e1rio. Agora, cinco anos depois, em 1520, com 15 anos, %Ana% da Bo\u00eamia era mais do que uma simples jovem, era uma garota inteligente, t\u00edmida e reservada, mas ainda assim uma candidata a matrim\u00f4nios que surgissem.<br \/>\u2003\u2003%Ana% estava aproveitando mais um dia no reino, quando foi anunciado que o pr\u00edncipe Lu\u00eds, seu irm\u00e3o, requisitava sua presen\u00e7a. A presen\u00e7a de Lu\u00eds fora para fazer uma reuni\u00e3o familiar em torno do padrasto dele e de %Ana%. %Ana%, com seu jeito reservado, mas h\u00e1bil de falar, participou ativamente da reuni\u00e3o. Lu\u00eds ent\u00e3o, ap\u00f3s alguns dias, anunciou a irm\u00e3 %Ana% que ela deveria se casar por procura\u00e7\u00e3o com o pr\u00edncipe Fernando I do Sacro Imp\u00e9rio Romano Germ\u00e2nico, irm\u00e3o de Carlos V, o rei de Castela. De in\u00edcio, %Ana% hesitou, mas por fim decidiu aceitar. Era uma oferta tentadora e ela j\u00e1 n\u00e3o tinha mais ningu\u00e9m a quem lutar para permanecer ali. E foi assim que em um dia qualquer, uma carta chegou as m\u00e3os de %Ana%.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que ser\u00e1 isso? \u2014 Se perguntou %Ana%.<br \/>\u2003\u2003Quando viu, era um selo real do Sacro Imp\u00e9rio Romano Germ\u00e2nico a convidando para passar um tempo no Sacro Imp\u00e9rio Romano Germ\u00e2nico. O rei Fernando mesmo tratou de mandar sua comitiva buscar %Ana%.<br \/>\u2003\u2003A princesa de Jagel\u00e3o parecia animada, pois estava se comprometendo a algu\u00e9m que a faria feliz. O matrim\u00f4nio com Fernando foi celebrado em 25 de maio de 1521, em Linz, na \u00c1ustria. Na \u00e9poca, Fernando era governador das <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Monarquia_de_Habsburgo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">terras heredit\u00e1rias dos Habsburgos<\/a> em nome de seu irm\u00e3o mais velho, o imperador <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_I_de_Espanha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carlos V<\/a>.<br \/>\u2003\u2003Fernando tratava %Ana% da Bo\u00eamia muito bem, sendo um marido presente e pr\u00f3spero. No in\u00edcio do casamento eles eram felizes. Nos tr\u00eas primeiros anos, o casal era feliz e pr\u00f3spero. Naquele dia, o sol j\u00e1 se havia posto por tr\u00e1s dos muros da fortaleza imperial quando Fernando de Habsburgo, ainda vestido com o gib\u00e3o escuro e a gola de ricas rendas, atravessou o vasto sal\u00e3o onde poucos criados aguardavam, em sil\u00eancio, que ele adentrasse seus aposentos. No ar pairava uma fragr\u00e2ncia de incenso e de velas, misturada ao perfume suave de jasmim que viera da Bo\u00eamia junto com %Ana%. Tr\u00eas anos de casamento havia-se passado, marcados por alian\u00e7as diplom\u00e1ticas e deveres de Estado, mas agora chegara o momento de Fernando e %Ana% consumarem, enfim, seu amor.<br \/>\u2003\u2003A porta de jacarand\u00e1 maci\u00e7o abriu-se com um rangido contido. O aposento, preparado para a noite, revelava tape\u00e7arias vermelhas carregadas de bordados dourados, bancos de veludo e um enorme leito com dossel, coberto por finos len\u00e7\u00f3is de linho branco. Sobre a mesa de \u00e9bano, duas ta\u00e7as cheias de hidromel borbulhavam, convidando ao brinde. Lamparinas espalhavam uma luz suave e amarelada, como se fosse o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do quarto a pulsar no ritmo dos suspiros que o aguardavam.<br \/>\u2003\u2003Fernando percorreu o ambiente com o olhar, detendo-se por um instante na janela, de onde podia ver as torres do pal\u00e1cio mergulhadas na escurid\u00e3o pontilhada de tochas. Respirou fundo, sentindo o frio da pedra antiga contra os seus p\u00e9s. Virou-se, ent\u00e3o, e encontrou %Ana% da Bo\u00eamia parada entre as cortinas do dossel, em vestes de delicada musselina creme, que moldavam seu corpo em levezas e traziam um sutil brilho ao cair da luz.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Minha senhora \u2014 disse ele, a voz ligeiramente embargada pela mesma emo\u00e7\u00e3o que cedo se desvaneceria em ternura. \u2014 Est\u00e1 linda esta noite. \u00a0<br \/>\u2003\u2003%Ana% desviou por um segundo o olhar azul-esverdeado, corando como a p\u00e9tala de uma rosa silvestre. Fez um gesto t\u00edmido com a cabe\u00e7a e, em seguida, aproximou os passos, deixando-se guiar pelo som compassado do cora\u00e7\u00e3o que Fernando j\u00e1 sabia t\u00e3o bem decifrar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Obrigada, alteza \u2014 murmurou ela. \u2014 As criadas prepararam tudo com tanto cuidado\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Fui eu quem escolheu cada flor, cada vela \u2014 interrompeu Fernando, estendendo a m\u00e3o. \u2014 Quero que esta noite seja somente nossa.<br \/>\u2003\u2003%Ana% depositou a ta\u00e7a que segurava sobre uma pequena mesa lateral; seus dedos esbarraram nos vidros e ela estremeceu. Fernando aproximou-se com um passo firme, envolveu a sua m\u00e3o na dele e a conduziu at\u00e9 o centro do quarto. L\u00e1, lhe ergueu o queixo e ro\u00e7ou seus l\u00e1bios nos dela, num beijo suave, cheio de promessas.<br \/>\u2003\u2003%Ana% correspondeu, ao in\u00edcio, com a delicadeza de quem teme quebrar o encanto do momento. Mas logo se viu entregue: os bra\u00e7os de Fernando a abra\u00e7aram envolventemente, os corpos colaram-se, e seu suave vestido deslizou pelos ombros, caindo ao ch\u00e3o como um v\u00e9u rendado. Fernando recuou apenas o suficiente para admirar a esposa, a luz das lamparinas delineando cada curva.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Minha amada \u2014 disse ele, com ternura e rever\u00eancia \u2014, perdoe minha ansiedade\u2026 Eu esperei tanto por este instante.<br \/>\u2003\u2003Ela sorriu. Era um sorriso que misturava do\u00e7ura e mist\u00e9rio, pois naquela lente de ingenuidade residia a mulher que agora se concedia por inteiro ao esposo. Com um gesto, Anna fez deslizar seu corpete, revelando a pele suave, quase di\u00e1fana, contrastando com as joias que pesavam suavemente em seu pesco\u00e7o. Fernando, com m\u00e3os delicadas, afastou uma mecha loira de seu rosto para tocar-lhe a clav\u00edcula.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Deixe-me ador\u00e1-la \u2014 sussurrou ele, e o sopro quente percorreu a orelha de %Ana%, fazendo-a estremecer.<br \/>\u2003\u2003Passaram-se minutos \u2014 talvez horas, mas o tempo ali se tornara irrelevante. Cada gesto era descoberto como se fosse uma nova partitura de um c\u00e2ntico secreto. Fernando subiu delicadamente ao leito, envolvendo %Ana% nos bra\u00e7os. Os len\u00e7\u00f3is deslizaram sem ru\u00eddos, convidando-os a repousar naquela nuvem branca.<br \/>\u2003\u2003O sil\u00eancio do quarto s\u00f3 era quebrado pelos sussurros e pelos suspiros dos amantes. %Ana% apoiou a cabe\u00e7a no peito largo de Fernando, sentindo os batimentos dele acelerar conforme ela murmurava:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Tenho tanto medo de n\u00e3o corresponder\u2026<br \/>\u2003\u2003Ele beijou-lhe o alto da cabe\u00e7a:<br \/>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o existe medida para o amor que sinto. Somente viva este momento, minha princesa.<br \/>\u2003\u2003E com essa permiss\u00e3o, %Ana% fechou os olhos e deixou-se levar. As m\u00e3os dele percorreram o dorso dela, tra\u00e7ando mapas de ternura, e a respira\u00e7\u00e3o de %Ana% misturou-se \u00e0 dele num compasso \u00edntimo. Os corpos comprimiram-se, num bal\u00e9 antigo cujo a obra ambos aprenderam sem jamais terem lido. Entre beijos prolongados e car\u00edcias cuidadosas, descobriram segredos um do outro: cada arquejo, cada gemido suave, contava-lhes as fronteiras do prazer que at\u00e9 ent\u00e3o existia apenas no reino da imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Num instante de pausa, %Ana% ergueu-se ligeiramente e capturou os olhos de Fernando, descobrindo ali n\u00e3o apenas o homem forte que governava imp\u00e9rios, mas o jovem apaixonado que a desejava com pureza. Ele tomou-a pela cintura, aproximou os rostos e disse em um sussurro:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu te amo mais do que todas as coroas do mundo.<br \/>\u2003\u2003Ela sorriu outra vez, confiante e respondeu:<br \/>\u2003\u2003\u2014 E eu te darei tudo o que sou.<br \/>\u2003\u2003A noite prosseguiu, marcada pelo ritmo compassado entre entrega e descoberta. O calor dos corpos intensificou cada toque, e as paredes centen\u00e1rias testemunharam a consuma\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o que tr\u00eas anos de conv\u00edvio nos sal\u00f5es da corte n\u00e3o haviam conseguido romper. Quando enfim, exaustos de \u00eaxtase e ternura, ca\u00edram adormecidos nos bra\u00e7os um do outro, as primeiras luzes do amanhecer j\u00e1 se insinuavam por entre as cortinas.<br \/>\u2003\u2003Ainda enla\u00e7ados, %Ana% despertou e viu Fernando recostar a cabe\u00e7a sobre a almofada, com o semblante sereno de quem conquistou a paz. Um sorriso maternal e viril ao mesmo tempo lhe iluminou o rosto.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Boa madrugada, minha imperatriz \u2014 ele sussurrou, entreabrindo o olhar.<br \/>\u2003\u2003%Ana% pousou um beijo suave nos l\u00e1bios dele:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Boa madrugada, meu imperador.<br \/>\u2003\u2003E assim, naquela alcova onde amor e juramento se uniram para sempre, eles adormeceram de novo, abra\u00e7ados. L\u00e1 fora, o mundo continuava, com disputas, alian\u00e7as e intrigas, mas ali dentro s\u00f3 havia o eco de dois cora\u00e7\u00f5es que finalmente se tornaram um. E a hist\u00f3ria do Sacro Imp\u00e9rio e da Bo\u00eamia ganhara, naquela noite, uma p\u00e1gina de ternura t\u00e3o poderosa quanto qualquer decreto imperial.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":80,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1158],"class_list":["post-2885","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-a-historia-de-ana-da-boemia-e-ana-da-austria"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/2885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/80"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=2885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}