{"id":2883,"date":"2025-06-12T14:41:00","date_gmt":"2025-06-12T17:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-25T14:42:59","modified_gmt":"2025-09-25T17:42:59","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/charia\/prologo\/","title":{"rendered":"Pr\u00f3logo"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"right\"><strong>FLORESTA AMAZ\u00d4NICA \u2022 16 ANOS ANTES.<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003<strong>OS GAR\u00c7A-BRANCAS ORGULHAVAM-SE DE SUAS RA\u00cdZES ORIGIN\u00c1RIAS, E, ESPECIALMENTE, DE TER CONSEGUIDO MANTER SUAS TRADI\u00c7\u00d5ES INTACTAS.<\/strong><br>\u2003\u2003Mesmo que o sangue de seu povo manchasse as ra\u00edzes daquelas terras, e que n\u00e3o houvesse sequer um <em>reconhecimento<\/em> m\u00ednimo das atrocidades que haviam sido feitas com os seus pelos <em>invasores<\/em> que se sentiram no direito de tomar uma terra que n\u00e3o lhe pertencia, a verdade era que um <em>Acar\u00e1<\/em>, sempre, <em>sempre<\/em> iria sobreviver. Descendentes dos <em>Tupis<\/em>, resist\u00eancia e resili\u00eancia estavam gravados em seu sangue. Aprenderam desde cedo que <em>sempre<\/em> haveria <em>brancos<\/em> para tentar apagar sua hist\u00f3ria, mas bastava que <em>um deles<\/em> se mantivesse vivo que suas hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es continuariam a seguir.<br>\u2003\u2003Continuariam a <em>viver<\/em>. N\u00e3o pelo sangue, mas pela <em>mem\u00f3ria<\/em>, pela <em>voz<\/em>.<br>\u2003\u2003Refugiaram-se ent\u00e3o em meio \u00e0 mata fechada, no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. N\u00e3o em uma divisa de pa\u00edses que pouco lhes pertenciam, n\u00e3o rodeados pela gan\u00e2ncia e o jogo de poder corrupto que assolava aquelas terras como uma praga descontrolada, mas <em>sim<\/em> onde a terra clamava e <em>reconhecia<\/em> o sangue que possu\u00edam. Aquela terra <em>sempre<\/em> iria reconhecer seus <em>filhos<\/em>, e assim como acreditavam que tudo vinha desta, tudo, igualmente, retornaria para l\u00e1.<br>\u2003\u2003Para os Gar\u00e7a-Brancas n\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o do humano e da magia. Havia-se a <em>conex\u00e3o<\/em>, fosse esta mais forte ou mais fraca, com o <em>sagrado<\/em>. O <em>palp\u00e1vel<\/em> e o n\u00e3o <em>tang\u00edvel<\/em>. Havia o preparo para <em>ouvir<\/em>, e a paci\u00eancia para <em>entender<\/em>. O tempo n\u00e3o era um inimigo para os Gar\u00e7a-Brancas, mas sim, um professor astuto, \u00e0s vezes caloso em seu tratamento, mas que escolhia a dedo as li\u00e7\u00f5es que lhe iriam oferecer no momento certo, na hora certa. Um guia, ou um paj\u00e9 ancestral, que lhe oferecia o caminho quando mais precisava. Quando mais sua alma gritava. E se destino existia ou n\u00e3o, cabia apenas um Gar\u00e7a-Branca reconhec\u00ea-lo.<br>\u2003\u2003E naquela noite, era a vez de Ti\u00ea fazer sua jornada.<br>\u2003\u2003Era tradi\u00e7\u00e3o para os Gar\u00e7a-Brancas que todo garoto que completasse seus 15 anos passasse pelo ritual que o tornaria um <em>homem<\/em>. Equivocava-se acreditar em papeis contemplados por uma sociedade fundada e moldada pela vis\u00e3o de europeus. O ritual para que um garoto fizesse sua travessia, tanto espiritual quanto f\u00edsica, para sua vida como um <em>homem<\/em> n\u00e3o se derivou de falsas exibi\u00e7\u00f5es de poder, humilhando e minando a ess\u00eancia de uma mulher apenas para afagar um ego inseguro; n\u00e3o, <em>jamais<\/em>. A jornada de um Gar\u00e7a-Branca era espiritual e f\u00edsica para entender como o mundo funcionava e qual seria o papel que seu cora\u00e7\u00e3o o comandava seguir. Um pedido para os grandes deuses, e uma oferenda silenciosa para a floresta que um dia havia lhe oferecido vida, de retorno e respeito. Caberia \u00e0 floresta determinar quem retornaria para a tribo e quem teria seu corpo clamado outra vez pela terra.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era um ritual de sacrif\u00edcio, mas sim, de <em>retorno<\/em>. <em>Retribui\u00e7\u00e3o<\/em>.<br>\u2003\u2003Os homens da tribo, mais velhos e mais s\u00e1bios \u2014 ou nem tanto assim, por vezes \u2014, iriam se reunir para fora de suas <em>ocas<\/em> e, em frente a uma fogueira alta e imponente, iriam dan\u00e7ar e iriam cantar em comemora\u00e7\u00e3o pelo rito daqueles que finalmente haviam chegado \u00e0quela idade t\u00e3o aguardada. Os jovens prontos para sua jornada iriam receber a ben\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 e as palavras s\u00e1bias de seu Cacique. E ent\u00e3o, as mulheres da tribo iriam se aproximar deles, pintariam seus rostos e os marcariam com uma despedida e uma oferenda de sorte. E ent\u00e3o estes tomariam seu caminho para dentro da mata fechada, para dentro de sua m\u00e3e origin\u00e1ria. Nenhum outro membro da tribo poderia ter contato com o jovem guerreiro, tampouco desvi\u00e1-lo de seu caminho; sua jornada deveria ser solit\u00e1ria e reflexiva. Era algo que apenas <em>eles<\/em> poderiam fazer por si mesmos.<br>\u2003\u2003E Ti\u00ea mal podia se conter de anima\u00e7\u00e3o quando chegou sua vez de ser pintado por sua m\u00e3e, Potira, e sua irm\u00e3zinha pequena, Amana, de apenas 4 anos. Ti\u00ea sorriu para sua m\u00e3e, observando-a desenhar uma faixa sobre seus olhos antes de afastar uma mecha de cabelo de seu rosto, uma \u00faltima vez, os olhos escuros marejados com a mistura maternal de preocupa\u00e7\u00e3o e profundo orgulho. Ti\u00ea balan\u00e7ou sua cabe\u00e7a de maneira reconfortante, tentando assegur\u00e1-la silenciosamente que estava tudo bem, que ele estava pronto. E ele sentiu uma vontade gritante de abra\u00e7ar sua irm\u00e3zinha quando sentiu a m\u00e3ozinha dela, suja com a tinta preta, marcar seu pulso. N\u00e3o era um desenho da tribo, nem uma escrita para os deuses o guiarem, era apenas uma marca da m\u00e3ozinha gorducha e pequena da menina, gravada em sua pele, e talvez fosse a marca mais importante que ele havia adquirido naquela noite, at\u00e9 ent\u00e3o.<br>\u2003\u2003Desejou poder abra\u00e7\u00e1-la, desejou poder jog\u00e1-la no ar e ouvi-la rir uma \u00faltima vez, mas n\u00e3o poderia ter contato com ningu\u00e9m. Era parte das regras do ritual, e Ti\u00ea jamais o quebraria. Ent\u00e3o, com um \u00faltimo olhar para sua m\u00e3e, Ti\u00ea pegou um galho grosso e longo de uma \u00e1rvore, usando-o como uma esp\u00e9cie de bengala para auxili\u00e1-lo em sua caminhada, e sozinho, sem mais nada, caminhou para dentro da floresta.<br>\u2003\u2003Seu corpo, nem franzino, nem musculoso, apenas jovem e esperan\u00e7oso, foi engolido pela folhagem verde e pungente da mata. O vento carregou seu cheiro, espalhando-o pelas \u00e1rvores e pedras, pelas folhas secas e mortas no ch\u00e3o, e as verdejantes e vivas nas copas da \u00e1rvore. Choros e ru\u00eddos de animais o acompanharam enquanto ele come\u00e7ava sua jornada. Seus p\u00e9s descal\u00e7os encontravam-se com as texturas diversas do solo da floresta, esmagando as folhas secas e murchas, enterrando-se na lama pungente e rica, viscosa e igualmente g\u00e9lida, sentindo a textura \u00e1spera e irregular das ra\u00edzes de algumas \u00e1rvores, um pouco saltadas sobre o ch\u00e3o, criando uma pequena resist\u00eancia para a sola de seu p\u00e9. O cheiro pungente de terra molhada e mata fechada, um ar mais g\u00e9lido e puro, lhe invadia os pulm\u00f5es, enviando uma onda de conforto intensa. O eco suave e reconfortante dos riachos se envolvendo e se conectando, guiando-se para o des\u00e1gue em uma cachoeira pequena.&nbsp;<br>\u2003\u2003Caminhou por um longo tempo, perdido em seus pensamentos. Deparou-se com uma \u00e1rvore de jabuticaba um pouco na dire\u00e7\u00e3o do sol nascente, espinhosa, mas que lhe serviu de jantar antes de encontrar uma boa \u00e1rvore para dormir. Quando a noite encobriu a floresta como um manto gentil, e Ti\u00ea deitou-se contra o ch\u00e3o terroso ao p\u00e9 de uma Jequitib\u00e1 grande e anci\u00e3, com ra\u00edzes robustas que se projetavam parcialmente para fora da terra, acalentando-o em um abra\u00e7o seguro para a temperatura que come\u00e7ava a tornar-se amena com a progressividade da noite. Quando o sono passou a arrastar-se por seu corpo, deixando os m\u00fasculos mais pesados e menos tensos, espalhando-se por suas veias como uma n\u00e9voa suave, espiralando sobre seus olhos, ao passo que suas m\u00e3os deixavam-se relaxar, espalhando-se, pressionadas contra a terra \u00famida pela transpira\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores, Ti\u00ea <em>sentiu<\/em>.<br>\u2003\u2003Estava <em>l\u00e1<\/em>. Abaixo da palma calejada de suas m\u00e3os devido ao trabalho di\u00e1rio que ele fazia com seu tio e irm\u00e3os mais velhos, um suave, mas inquestion\u00e1vel, pulsar. Como uma energia pulsando por suas veias, uma conex\u00e3o. Ti\u00ea compreendeu, naquele momento, quem ele era: apenas um <em>fio<\/em>, fino e precariamente tensionado sob um universo de liga\u00e7\u00f5es e termina\u00e7\u00f5es nervosas de exist\u00eancias al\u00e9m de sua pr\u00f3pria compreens\u00e3o, mas que espelhavam a sua pr\u00f3pria. Conex\u00f5es e elos que o conectavam como uma pequena raiz, enredando-se pela terra, conectando-se com tantas outras. Uma pequena pe\u00e7a que sustentava uma grande e preciosa <em>\u00e1rvore<\/em>. Respirava junto com ele, sentia fome como ele, e dor. Possu\u00eda esperan\u00e7as, sonhos e desejos como ele. Acreditava em algo e buscava desesperadamente o acalanto daquela sensa\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00e3o capaz de preencher uma alma perdida. Alguns possu\u00edam buracos, mas Ti\u00ea percebeu que n\u00e3o era capaz de am\u00e1-los menos.<br>\u2003\u2003E ao fundo de tudo aquilo, havia apenas amor.<br>\u2003\u2003Afeto. No intr\u00ednseco de seu significado. Um tipo de amor que ele nunca havia sido capaz de experimentar ainda que em jovem idade. E embora n\u00e3o fosse parecido com o que ele via em sua tribo \u2014 entre casais, ou amigos; entre fam\u00edlias, e animais \u2014, era um amor profundo que, de certa forma, assegurava sua alma, a envolvia em um abra\u00e7o c\u00e1lido que o completava. Tampouco poderia dizer que saberia identific\u00e1-lo, tampouco teria palavra para descrev\u00ea-lo corretamente, mas estava ali. Uma profunda emo\u00e7\u00e3o provinda de uma realiza\u00e7\u00e3o complexa, e, paradoxalmente, simpl\u00f3ria: um era todos, e todos eram <em>um<\/em>.<br>\u2003\u2003Ti\u00ea dormiu sem sonhos. Tivera um sono tranquilo, relaxante e revigorante, e teria acordado um pouco mais tarde do que o normal, quando os p\u00e1ssaros j\u00e1 estivessem empoleirados em seus galhos, e os animais j\u00e1 estivessem preparando-se para ca\u00e7ar seus desjejuns, se n\u00e3o fosse pelo tiro.<br>\u2003\u2003O primeiro disparo ecoou distante, seguido de um guincho alto de um animal. O animal ainda gorgolejou de forma fantasmag\u00f3rica por alguns minutos antes de ser vencido pela morte. Mas ent\u00e3o, houve os gritos, ordens em uma l\u00edngua que Ti\u00ea reconheceu vagamente, mas que n\u00e3o lhe era natural. R\u00edspida, rocosa, flu\u00edda com uma crueldade inerente, profusa e fria. Carregava cheiros met\u00e1licos e sufocantes, reconhecia semelhan\u00e7a em tabaco. E algo podre. Profundamente podre. Passos pesados partiam os galhos e varriam folhas mortas de seus jazigos, marcavam a terra com viol\u00eancia, possessividade de algo que assumia que tudo lhe pertencia. Com a violenta gan\u00e2ncia de um usurpador; <em>um invasor<\/em>.<br>\u2003\u2003Ti\u00ea acordou com um susto quando eles j\u00e1 estavam perto demais para que o garoto fugisse. Escondeu-se por baixo das ra\u00edzes da Jequitib\u00e1, e talvez ele tivesse conseguido escapar se sua respira\u00e7\u00e3o se prendesse por mais m\u00edseros segundos; ou se sua vis\u00e3o sobre os animais correndo em disparada para escaparem de seus ca\u00e7adores fosse semelhante ao daqueles que lhe invadiam a casa. Ou ainda, se o fogo n\u00e3o tivesse tomado conta das estruturas protetoras das \u00e1rvores que o cercavam. Mas Ti\u00ea estava <em>fadado<\/em> ao fracasso.<br>\u2003\u2003Gritos agonizantes dos animais ecoaram, pulsando pelo corpo de Ti\u00ea como um espelho da dor que sentiam, e o garoto debateu-se contra o ch\u00e3o. L\u00e1grimas grossas escorrendo por seu rosto, seu corpo tremendo e tendo espasmos ao registrar algo atravessar sua pele com for\u00e7a o suficiente para envi\u00e1-lo novamente ao ch\u00e3o, ao registrar o fogo consumindo tudo o que havia pela frente. O cheiro pungente era sufocante, e fazia com que seus pulm\u00f5es come\u00e7assem a latejar, a dor espalhando-se do centro do seu peito para as t\u00eamporas de sua cabe\u00e7a, estas pulsando ao ritmo da pulsa\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o do jovem, enquanto ele corria. Corria sem rumo, sem ideia do que fazer para salvar os animais que lhe eram irm\u00e3os, sem saber para onde seguir, implorando para que a floresta o recebesse, que o protegesse. Que n\u00e3o o abandonasse agora.<br>\u2003\u2003Mas os risos dos invasores e os gritos haviam ferido a floresta, e esta parecia recusar-se a oferecer-lhe uma m\u00e3o estendida em ajuda. Parecia, agora, retrair-se, como um animal ferido, e cortar tudo aquilo que se assemelhava a Ti\u00ea. Ent\u00e3o houve o primeiro disparo. O ombro de Ti\u00ea foi lan\u00e7ado com for\u00e7a para frente, o fazendo se desequilibrar e cair no ch\u00e3o, o ombro esquerdo queimando em um \u00fanico ponto, embora algo c\u00e1lido e l\u00edquido escorresse em profus\u00e3o por sua pele, mais r\u00e1pido do que deveria. O l\u00edquido pegajoso de seu sangue possu\u00eda uma tonalidade mais clara do que o garoto imaginava que fosse ser. Esva\u00eda-se em demasia, e embora doesse, o garoto n\u00e3o parou de correr, de tentar chegar ao menos em um dos riachos e permitir-se ser levado pela correnteza at\u00e9 a cachoeira, para longe dos invasores. N\u00e3o sabia que aquela ferida estava roubando-lhe, igualmente, a vida.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o houve <em>outro<\/em> disparo, alojando-se no abd\u00f4men de Ti\u00ea, lhe rasgando o intestino. A dor lacerante o cegando e fazendo seus joelhos fraquejarem. O corpo aos poucos perdendo sua for\u00e7a e rapidamente cedendo \u00e0 for\u00e7a gravitacional. A queda brusca foi amortecida pela sensa\u00e7\u00e3o de formigamento e perda de controle de seus membros. A dor se misturou e ent\u00e3o come\u00e7ou a desfazer-se. Mais um disparo e Ti\u00ea se engasgou com o pr\u00f3prio sangue. Uma press\u00e3o insuport\u00e1vel surgiu por seu peito, como se houvesse uma montanha o pressionando com viol\u00eancia para baixo, mandando-o para o mais profundo da terra, seguido ent\u00e3o de uma sensa\u00e7\u00e3o crescente de sono, convidativa. Espiralava por sua mente n\u00e3o como uma n\u00e9voa, mas sim como um vento, uma brisa suave que lhe enviava al\u00edvio. Obrigava-o, no entanto, a permanecer parado.<br>\u2003\u2003Crescia gradativamente, inicialmente t\u00edmida, agora acelerava-se. E com igual velocidade, estava obscurecendo seus olhos, primeiro pelas laterais, at\u00e9 que tudo fosse preto, at\u00e9 que n\u00e3o houvesse mais nada. Apenas o vazio.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Ele estava envolto por algo c\u00e1lido e confort\u00e1vel, flutuando em um mar abismal de estrelas, t\u00e3o distantes e ao mesmo tempo pr\u00f3ximas de seu toque.<br>\u2003\u2003Ti\u00ea abriu os olhos com o vago eco de dois cora\u00e7\u00f5es pulsando em uni\u00e3o. N\u00e3o soube dizer ao certo se um deles lhe pertencia, apenas podia ouvi-los, as vibra\u00e7\u00f5es percorrendo por seus membros pesados e molhados de forma fantasmag\u00f3rica, n\u00e3o assustadora, mas igualmente n\u00e3o <em>ali<\/em>. A \u00e1gua abaixo de seu rosto n\u00e3o parecia lhe trazer sensa\u00e7\u00e3o alguma, nem temperatura. O mar de estrelas se estendia com impon\u00eancia \u00e0 sua frente, envolvendo-o em absoluto, distantes, e ao mesmo tempo t\u00e3o pr\u00f3ximos que Ti\u00ea poderia esticar uma m\u00e3o e tentar toc\u00e1-las. E ao fundo de tudo isso, o eco suave do caminhar de patas macias, elegantes o suficiente para serem silenciosas, quase impercept\u00edveis de um percebido predador. Ti\u00ea se sentou em meio ao oceano noturno do c\u00e9u que o consumia, fazendo-o perder a no\u00e7\u00e3o de onde o c\u00e9u se iniciava e onde terminava, levando sua m\u00e3o direita, tr\u00eamula, em dire\u00e7\u00e3o ao seu peito.<br>\u2003\u2003Tocou com as pontas dos dedos o lugar em que um buraco se abria, mas pela primeira vez n\u00e3o sentiu dor alguma. Ti\u00ea pensou ter engasgado com a sensa\u00e7\u00e3o de seus dedos, amortecidos e sem tato algum, tocou a pele retalhada em seu peito, mas\u2026 ele n\u00e3o estava respirando. Era como se ele estivesse apenas existindo, preso em uma realidade ou situa\u00e7\u00e3o que ia al\u00e9m de sua pr\u00f3pria compreens\u00e3o. E ent\u00e3o, Ti\u00ea ergueu seus olhos, encontrando-se com o par de olhos felinos, grandes como dois s\u00f3is, cintilando com o que parecia ser uma mistura de energias, majoritariamente brilhando em azul. A grande cabe\u00e7a do felino inclinou-se para frente, e Ti\u00ea sentiu-se como se estivesse sendo observado por uma montanha. O tamanho da criatura era quase incompreens\u00edvel para sua cabe\u00e7a humana.<br>\u2003\u2003Mas n\u00e3o sentiu medo da on\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Sabe onde est\u00e1? <\/em>\u2014 A on\u00e7a havia perguntado, e embora sua mand\u00edbula n\u00e3o tivesse feito movimento algum, os sussurros giraram ao redor do ar estacionado, envolvendo Ti\u00ea com a sensa\u00e7\u00e3o esquisita de estar sonhando. Os sussurros, com vozes diferentes e em diferentes timbres e volumes, demoravam para serem registrados pelo garoto, criando-se uma confus\u00e3o moment\u00e2nea que rapidamente foi descartada quando se tornaram uma s\u00f3.<br>\u2003\u2003Ti\u00ea abriu sua boca para responder a on\u00e7a celestial, mas n\u00e3o conseguiu. Os olhos do jovem se abaixaram para o ch\u00e3o \u00e0 sua frente, de repente confusos. N\u00e3o, ele n\u00e3o sabia onde estava. N\u00e3o, ele n\u00e3o tinha ideia do que havia acontecido. A \u00faltima coisa que ele se lembrava era de ter ca\u00eddo no ch\u00e3o quando uma dor lacerante e aguda rompeu por seu peito, e ent\u00e3o tudo ficou escuro. Tudo desapareceu\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea est\u00e1 morrendo, crian\u00e7a.<\/em><br>\u2003\u2003Ti\u00ea uniu as sobrancelhas em uma mistura de descren\u00e7a, surpresa e choque. Colocou-se de p\u00e9 abruptamente, de forma atrapalhada, caminhando para tr\u00e1s enquanto as estrelas ao seu redor chocavam-se suavemente contra seu corpo e desviavam-se de suas rotas originais. Ti\u00ea sorriu incr\u00e9dulo, negando com a cabe\u00e7a. Aquilo era mentira, era rid\u00edculo, como ele poderia estar morrendo se ele <em>ainda<\/em> estava <em>aqui?<\/em><br>\u2003\u2003Mas a On\u00e7a Celestial permaneceu impass\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea sabe quem eu sou? <\/em>\u2014 Ti\u00ea franziu o cenho com a pergunta que divergia de todo o rumo que aquela conversa havia tomado. Ainda estava processando as palavras da On\u00e7a sobre estar morrendo, tentando encontrar uma maneira de escapar dali, tentando encontrar uma maneira de voltar para casa, de voltar para sua fam\u00edlia quando a pergunta foi registrada por sua mente confusa.<br>\u2003\u2003Ti\u00ea exalou, como se tivesse acabado de receber um soco em seu est\u00f4mago, roubando-lhe o que restava do ar que n\u00e3o estava escapando por entre seus l\u00e1bios. Voltou lentamente em dire\u00e7\u00e3o a criatura \u00e0 sua frente, o brilho de reconhecimento surgindo por tr\u00e1s da n\u00e9voa de desorienta\u00e7\u00e3o. Os l\u00e1bios do jovem se partiram em surpresa e at\u00e9 mesmo medo ao dar um passo para tr\u00e1s, o tremor escapou da sua coluna para os m\u00fasculos tensionados de um corpo que n\u00e3o estava mais em seu plano f\u00edsico. Ou, ao menos, estava se preparando para deix\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>N\u00e3o posso oferecer sua vida de volta. N\u00e3o posso oferecer a voc\u00ea a cura, e tampouco uma viagem segura para o que lhe foi roubado. Mas posso oferecer algo diferente, algo significativo, se me permitir. <\/em>\u2014 Ti\u00ea engoliu em seco, dando mais um passo para tr\u00e1s quando a On\u00e7a inclinou a cabe\u00e7a para frente, at\u00e9 que seus olhos estivessem na mesma altura que Ti\u00ea, ainda que fosse apenas uma v\u00e3 tentativa para o tamanho tit\u00e2nico do esp\u00edrito. \u2014 <em>Posso oferecer retribui\u00e7\u00e3o. Posso oferecer a voc\u00ea a maneira de destruir aqueles que destru\u00edram sua vida, sua casa, seu povo. Posso oferecer a voc\u00ea tudo o que desejar, se aceitar ser meu recipiente, meu avatar. Tudo que se inicia, precisa ter um fim, posso oferecer-lhe isso\u2026<\/em><br>\u2003\u2003Ti\u00ea deu um passo para tr\u00e1s, e ent\u00e3o, mais um, negando com sua cabe\u00e7a, assustado, mas a On\u00e7a n\u00e3o parecia estar totalmente convencida de sua negativa. Porque ao fundo de tudo, encravado em sua alma, havia o princ\u00edpio de uma chama h\u00e1 muito esquecida em uma tentativa de viver de forma pac\u00edfica longe de tudo. Uma chama que agora n\u00e3o mais gritava na solid\u00e3o da alma de Ti\u00ea, mas come\u00e7ava a consumir, pouco a pouco, o que lhe restava de alma. Uma chama que provinha da frustra\u00e7\u00e3o, da dor e da compreens\u00e3o que, para algu\u00e9m como ele, <em>nunca<\/em> haveria paz. Uma insatisfa\u00e7\u00e3o que aquecia as veias e roubava-lhe o f\u00f4lego. Um desejo desesperado de retribui\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a. A certeza de que n\u00e3o haveria nenhuma das duas, todavia, em sua vida. E ao fundo de tudo, o desespero de obrig\u00e1-los a pagar, de fazer com suas pr\u00f3prias m\u00e3os o que ningu\u00e9m mais faria. De proteger os seus e retribuir de forma correta as injusti\u00e7as que lhe ca\u00edam nos ombros por tanto tempo. O desejo de fazer as coisas ficarem <em>equivalentes<\/em>.<br>\u2003\u2003A On\u00e7a inclinou sua cabe\u00e7a um pouco mais e a respira\u00e7\u00e3o c\u00e1lida, cheirando a fogo e a terra molhada, atingiu o rosto de Ti\u00ea, enviando-lhe uma onda de conforto, e, ao mesmo tempo, raiva.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Apenas diga meu nome e o ajudarei, crian\u00e7a.<\/em><br>\u2003\u2003Ti\u00ea tremeu, e antes que percebesse, escapando por entre seus l\u00e1bios tr\u00eamulos, quase como uma s\u00faplica, ele disse:<br>\u2003\u2003\u2014 Ch\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"center\">&nbsp;<strong>\u2022\u2022\u2022<\/strong><\/p>\n<p align=\"right\"><strong>DEVON, INGLATERRA \u2022 AGORA<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003<em>\u00c0 minha cara %Clarissa%,<\/em><br>\u2003\u2003<em>Escrevo para voc\u00ea na \u00e2nsia que esta carta lhe seja entregue logo, pois, eu mesmo, mal posso conter minha anima\u00e7\u00e3o. Como havia dito em minha \u00faltima carta, tenho tentado h\u00e1 meses, consegui convencer minha m\u00e3e (e quase todo o professorado de Hogwarts, se quer saber) a me autorizar a finalmente participar do Programa Especial de Trato das Criaturas M\u00e1gicas para Alunos Avan\u00e7ados, do Professor Silvano Kettleburn, e tamanho esfor\u00e7o fiz! Lutei tanto que acho que receio ter ferido os sentimentos da pobre Gina, ainda t\u00e3o pequena para entender meu anseio, deve t\u00ea-lo visto como um desejo err\u00e1tico de me livrar da bagun\u00e7a di\u00e1ria com eles.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o que n\u00e3o fosse ser uma coisa boa ter dois segundos em paz, sem Fred e George explodindo tudo ao redor ou Perebas roendo minhas coisas para variar. Devo dizer-lhe que tentei me desculpar com a pequena Gina, mas ela se recusou a me ouvir, dizendo que s\u00f3 aceitaria minhas desculpas se eu trouxesse comigo nas pr\u00f3ximas f\u00e9rias, uma daquelas&#8230; como voc\u00ea chama mesmo? &#8230; <strong>compactas?<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o&#8230; era&#8230; <strong>compotas!<\/strong> Isso, <strong>compotas!<\/strong> Aquela compota de doce de leite que mandou para n\u00f3s ano passado. Receio que talvez tenha que enviar mais de duas desta vez, j\u00e1 que al\u00e9m de Gina, tenho quase certeza que mam\u00e3e tamb\u00e9m se rendeu a este doce.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Boas not\u00edcias, todavia, trago-lhe!<\/em><br>\u2003\u2003<em>Eu consegui! Professor Kettleburn aceitou meu pedido, finalmente, e me escreveu at\u00e9 uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o, veja s\u00f3! Estou devidamente matriculado<\/em><br>\u2003\u2003<em>Sinto que este \u00e9 apenas o come\u00e7o, %Clara%! Para mim, para tudo o que quero fazer, e especialmente para o que eu posso aprender com os drag\u00f5es que se espalham por seu pa\u00eds e continente. Acho que nunca fiquei assim t\u00e3o ansioso antes, quer dizer, exceto quando Professor Kettleburn me mostrou um filhote de Drag\u00e3o Verde-Gal\u00eas-Comum. De acordo com a carta de prepara\u00e7\u00e3o enviada pela Sra. Valverde, soube que em Castelobruxo n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o de casas, o que \u00e9 \u00f3timo, embora eu n\u00e3o fa\u00e7a a m\u00ednima ideia do que poderia vir a ser meu lugar como algu\u00e9m da Grifin\u00f3ria a\u00ed. Perguntei para uma das minhas colegas de casa, a irm\u00e3 de Jacob, lembra-se? Contei-lhe anteriormente sobre ela, e tanto ela quanto Rowan me disseram que voc\u00eas t\u00eam suas pr\u00f3prias adapta\u00e7\u00f5es para as nimbus, e estou curioso para que voc\u00ea finalmente me mostre como funciona.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Espero do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o que esta carta chegue a voc\u00ea antes de mim, mas se porventura Errol acabar se perdendo outra vez, pe\u00e7o para que n\u00e3o se sinta culpada, c\u00e9us sabem que esta coruja tem suas pr\u00f3prias vontades e ideias. Seja como for, estarei a\u00ed para ouvir suas piadas sobre a demora de Errol. Mal posso esperar, %Clara%. Por esta chance, e para te ver outra vez!<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Com carinho, vejo-te em breve.<\/em><br>\u2003\u2003<em>&#8211; Gui Weasley.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FLORESTA AMAZ\u00d4NICA \u2022 16 ANOS ANTES. &nbsp;\u2022\u2022\u2022 DEVON, INGLATERRA \u2022 AGORA Com carinho, vejo-te em breve.\u2003\u2003&#8211; Gui Weasley.<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1156],"class_list":["post-2883","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-charia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/2883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=2883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}