{"id":2807,"date":"2014-02-06T10:53:00","date_gmt":"2014-02-06T13:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-25T10:54:37","modified_gmt":"2025-09-25T13:54:37","slug":"capitulo-29","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chanel\/capitulo-29\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 29"},"content":{"rendered":"\n<p>\u2003\u2003<strong>Fran\u00e7a \/\/ Anos antes<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003A Europa nunca foi<\/span> um continente famoso por dias ensolarados, mas sim pela falta da luz solar durante o inverno e dias chuvosos. Aquele dia, especialmente, era o pior j\u00e1 vivido por %Beatrice% em anos.<br>\u2003\u2003Vestia sapatos engraxados dezenas de vezes, sendo imposs\u00edvel disfar\u00e7ar a velhice, mesmo quando usados com vestidos limpos e bonitos. %Beatrice% nunca gostou de vestidos escuros, porque achava que poderia parecer com um panda. A pele branca escondida atr\u00e1s do tecido escuro e o rosto coberto por mais fios escuros que vieram, mais tarde, descobrir o poder das tintas capilares. Contudo, para aquela ocasi\u00e3o, seu pai obrigou Chantelle, sua irm\u00e3 mais velha, vestir %Beatrice% e Pauline, a ca\u00e7ula de apenas quatro anos a trajarem os vestidos escuros que somente vestiram uma vez, durante o vel\u00f3rio de sua tia Illa. As tr\u00eas tentavam, inutilmente, se protegerem dos pingos congelantes da chuva que despencava sem d\u00f3; uma mensagem de Deus para as tr\u00eas novas \u00f3rf\u00e3s do mundo. %Beatrice% pensava se ele estava chorando e pedindo perd\u00e3o por ter-lhes levado a m\u00e3e t\u00e3o cedo.<br>\u2003\u2003Olhou para o pai, cuja express\u00e3o era t\u00e3o devastada quanto as \u00e1rvores ca\u00eddas e as outras covas malcuidadas. Pauline chorou desde quando desceu da caminhonete que trouxera a fam\u00edlia agora sem m\u00e3e; o choro n\u00e3o era pela perda, ela mal sabia o que estava acontecendo. As l\u00e1grimas e o som do choro eram devido ao medo que o ambiente lhe proporcionava sem d\u00f3. %Beatrice% estava em p\u00e9 entre Pauline e Chantelle. Suas m\u00e3os estavam unidas com os dedos entrela\u00e7ados, tentando dividir a dor e o pesar entre si. O pai, com as m\u00e3os unidas em frente ao corpo, chorava sem fazer nenhum ru\u00eddo. As l\u00e1grimas se misturavam com as gotas que vinham dos olhos de Deus. Durante os \u00faltimos meses %Beatrice% n\u00e3o se lembrava de t\u00ea-lo visto um dia sequer, s\u00f3brio. A voz arrastada, a barba por fazer e a roupa suja eram caracter\u00edsticas fixas do pai que um dia foi alegre. Desde quando a m\u00e3e, v\u00edtima de uma forte pneumonia, adoeceu e mostrou-se incapaz de seguir em frente pela falta de recursos que eles podiam oferecer, o pai se escondeu atr\u00e1s das garrafas de \u00e1lcool e dos cigarros que os cidad\u00e3os franceses deixavam para tr\u00e1s nas cal\u00e7adas ou ruas francesas. Nunca mais foi o mesmo. Nunca mais %Beatrice% pode ver o semblante que gostaria de ter gravado em sua mem\u00f3ria para tentar, no futuro, voltar a sentir algo bom pelo pai.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Estranhou, depois que voltaram para a casa agora sem luz, o pai arrumar as poucas roupas que tinham. Trovoadas faziam com que Pauline chorasse mais alto entre os bra\u00e7os de %Beatrice%, que tentava com toda sua for\u00e7a, ser forte por ela e por Pauline. Chantelle, na \u00e9poca com 18 anos, gritava com o pai, que ignorava a garota e manda-a calar a boca de vez em quando. A cama rangia enquanto %Beatrice% balan\u00e7ava Pauline em seus bra\u00e7os, tentando, em v\u00e3o, acalmar a irm\u00e3zinha que n\u00e3o conseguia parar de chorar, tanto o medo do barulho que parecia perto o suficiente para quebrar a casa fr\u00e1gil que moravam. %Beatrice% observou o pai empurrar Chantelle, de modo que a irm\u00e3 mais velha caiu no ch\u00e3o enquanto continuava a gritar com os olhos cheios de l\u00e1grimas, e sair pela porta sem olhar para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Foi a \u00faltima vez que %Beatrice% viu seu pai. Foi a \u00faltima vez que se sentiu em casa. Naquela noite, as tr\u00eas irm\u00e3s, com fome e com frio, dormiram juntas na cama sem dizerem uma palavra. Pauline foi a primeira a adormecer, sentindo-se segura quando Chantelle deitou ao seu lado. Ela foi a segunda a dormir, deixando %Beatrice% sozinha com seus pensamentos sobre as emo\u00e7\u00f5es atrapalharem suas vidas. O pai, que deu prefer\u00eancia ao desespero, acabou por errar e deixar-lhes sozinhas para tr\u00e1s. Tr\u00eas filhas de 18, 12 e 4 anos. Crian\u00e7as dependentes. A m\u00e3e, por querer sempre cuidar de sua fam\u00edlia, acabou por se deixar adoecer e partir para uma vida melhor sem suas tr\u00eas <em>belles<\/em>.<br>\u2003\u2003No dia seguinte, Chantelle, aparentando ser uma nova pessoa, combinou com %Beatrice% que por ser maior de idade, iria cuidar das duas, desde que prometessem n\u00e3o contar a nenhum adulto sobre a ida do pai embora. Se as autoridades soubessem que as mais novas estavam \u00f3rf\u00e3s, levariam-nas para o orfanato.<br>\u2003\u2003 %Beatrice% viu Chantelle sair todos os dias de manh\u00e3 cedo para procurar comida e algo que pudesse lhes aquecer durante as noites frias. Pauline era responsabilidade sua durante a aus\u00eancia da irm\u00e3 mais velha; dava-lhe banho e brincava para distrair a garotinha de cabelos cacheados como as do pai. Chantelle quase nunca voltava com comida o suficiente e %Beatrice% era honesta quando dizia que Pauline deveria comer mais e as duas deveriam comer o resto igualmente, mesmo a irm\u00e3 mais velha insistindo que %Beatrice% tinha que comer mais que ela. A irm\u00e3 mais velha come\u00e7ou a emagrecer; na terceira semana, passou a sair mais no fim da tarde e voltava somente quando o sol nascia. Milagrosamente, o dinheiro come\u00e7ou a aparecer mais no final do primeiro m\u00eas. Chantelle voltava com cobertores fofos e at\u00e9 novas pe\u00e7as de roupas quentes. A comida vinha em mais abund\u00e2ncia e, no meio do segundo m\u00eas, a luz voltara, fazendo com que as tr\u00eas irm\u00e3s sentissem mais prazer em tomar banho na \u00e1gua quente, ao inv\u00e9s da congelada que sa\u00eda da torneira. Quando perguntou \u00e0 Chantelle o que ela fizera para ganhar tanto luxo, %Beatrice% ficou sem resposta.<br>\u2003\u2003Em um dos dias, aguardou Pauline adormecer para sair \u00e0 busca de Chantelle ou descobrir o que a irm\u00e3 fazia para que pudesse, futuramente, fazer igual e ajuda-la com os gastos da casa. Viu-a com uma roupa absurdamente curta, parada em uma das ruas principais da cidade. Conversava com um grupo de garotas mais velhas e da mesma idade vestidas da mesma maneira. Por alguma raz\u00e3o, sentiu que n\u00e3o deveria se aproximar, por isso, se escondeu atr\u00e1s de um poste de luz. Observou atentamente Chantelle sorrir para homens mais velhos, quando estes passavam dentro de carros convers\u00edveis. Se surpreendeu ao v\u00ea-la entrar em um dos carros, que come\u00e7ou a se afastar. Desesperada para saber aonde a irm\u00e3 ia com um homem estranho, roubou a bicicleta de um garoto que havia deixado-a do lado de fora da loja de conveni\u00eancias e seguiu o autom\u00f3vel da cor bord\u00f4. Depois de alguns quil\u00f4metros, o carro parou em um pr\u00e9dio que %Beatrice% conseguiu ler \u201cmotel\u201d. Acostumada a se infiltrar em locais que era proibida, ouviu o homem pedir as chaves do quarto 12; sigilosa, subiu nas pontas dos p\u00e9s at\u00e9 o tal do quarto.<br>\u2003\u2003Nunca saberia o que a irm\u00e3 estava fazendo, se n\u00e3o tivesse aberto uma fresta da porta destrancada pelo estranho. Assim que passou pela porta 9, pode ouvir o som esquisito que nunca havia ouvido sair pela boca da irm\u00e3 mais velha. Curiosa para saber o que se passava e o que eles faziam, ultrapassou as portas 10 e 11, at\u00e9 chegar \u00e0 12. Mexeu lentamente na ma\u00e7aneta e a viu destrancada. Uma pequena fresta foi o suficiente; por sorte, o dia n\u00e3o estava escuro de modo que a luz do corredor n\u00e3o fez diferen\u00e7a no ambiente j\u00e1 iluminado pela luz do dia. Com um dos olhos metidos na fresta, viu a irm\u00e3 nua de frente para a parede, tendo uma parte do homem entrando em sua n\u00e1dega, fazendo-a soltar um grito que n\u00e3o parecia de pavor. %Beatrice% pensou em entrar e salvar a irm\u00e3 do estranho, mas estava hipnotizada pelos movimentos, gritos e sons. Eles n\u00e3o pareciam estar brigando, tampouco se machucando.<br>\u2003\u2003Por dias a imagem da irm\u00e3 com o estranho lhe ficou na cabe\u00e7a. N\u00e3o tentou perguntar o que ela fazia com ele, pois assim daria na cara que havia a seguido e aborreceria Chantelle. Continuou a cuidar de Pauline at\u00e9 um dia receber a visita do tal da autoridade.<br>\u2003\u2003O homem, com um chap\u00e9u preto, vestido em um terno de boa qualidade, mas n\u00e3o rica, olhou para %Beatrice% e em seguida para Pauline atr\u00e1s, sentada na cama conversando com uma boneca.<br>\u2003\u2003- Onde est\u00e1 seu pai? \u2013 perguntou, olhando em sua prancheta. <br>\u2003\u2003- No trabalho. \u2013 respondeu o que Chantelle havia pedido para ela responder quando algu\u00e9m lhe perguntasse.<br>\u2003\u2003- \u00c0s seis da manh\u00e3? \u2013 ele n\u00e3o pareceu se convencer. %Beatrice% levantou os ombros, mais um movimento pr\u00e9-calculado com Chantelle.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o possui uma irm\u00e3 mais velha? Onde ela est\u00e1? \u2013 tentou se esquivar para dentro, mas %Beatrice% fechou metade da porta. <br>\u2003\u2003- Saiu, mas volta logo.<br>\u2003\u2003Ouviu o suspiro do homem e ent\u00e3o viu sua cabe\u00e7a balan\u00e7ar de um lado para o outro, como vez o m\u00e9dico quando anunciou para seu pai a morte de sua m\u00e3e. Com um simples aceno de cabe\u00e7a, o suspiro pesaroso e os olhos piscando lentamente, %Beatrice% soube que Chantelle n\u00e3o voltaria mais para casa. Ela n\u00e3o traria mais dinheiro.<br>\u2003\u2003Naquele mesmo dia, %Beatrice% soube que Chantelle se uniu \u00e0 sua m\u00e3e no c\u00e9u.<br>\u2003\u2003O trabalho que realizava tinha nome: Prostitui\u00e7\u00e3o. O homem de chap\u00e9u escuro lhe explicou que era um trabalho procurado por jovens desesperadas por dinheiro. Por ser maior de idade, Chantelle conseguia melhores clientes, mas tamb\u00e9m mais perigosos. A irm\u00e3 foi v\u00edtima de um mafioso que, ao manda-la se casar com ele para lhe proporcionar prazer quando quisesse, negou e foi eliminada com um simples tiro entre seus olhos. %Beatrice% nunca pode ver o rosto de Chantelle, mesmo durante seu enterro. N\u00e3o deixaram abrir o caix\u00e3o. Naquela missa onde somente estavam presentes ela, Pauline, o assistente social e o padre, %Beatrice% olhou para o c\u00e9u claro, o oposto da morte de sua m\u00e3e. Durante o momento, pensou que o dia estava ensolarado porque Deus passava a mensagem de que sua m\u00e3e finalmente estava feliz, j\u00e1 que uma de suas filhas estava consigo. Pensou se seria justo deixar Pauline sozinha e ir embora tamb\u00e9m. Com o pensamento injusto, foi castigada por ter sido irrespons\u00e1vel em seus pensamentos.<br>\u2003\u2003Como Chantelle havia dito antes, o assistente social levou as duas a um orfanato. O local, sujo como sua casa, possu\u00eda mulheres e homens que se diziam cuidadores das crian\u00e7as sem pais que viviam sem vis\u00e3o do que poderiam fazer no futuro. Batiam-lhes com peda\u00e7os de madeira arrancadas das camas que rangiam quando se mexia durante a noite. Numa das pancadas, a mulher fora forte demais com o pau nas costas de Pauline, que desmaiou em uma po\u00e7a de sangue; seu pr\u00f3prio sangue. Dessa vez, %Beatrice% n\u00e3o pode usar o vestido preto com os sapatos engraxados. N\u00e3o viu a irm\u00e3 ca\u00e7ula dentro de um caix\u00e3o, porque jogaram-na no fundo do quintal durante a madrugada.<\/p>\n<p>\u2003\u2003 %Beatrice% foi deixada sozinha no mundo. Sem esperan\u00e7as de uma vida feliz e com preconceito sobre as emo\u00e7\u00f5es, que machucavam a todos. Sem perceber, tornou-se uma garota s\u00e9ria, sem express\u00f5es, que espantava todos os pais que ansiosamente tentavam conhec\u00ea-la melhor para pensar na possibilidade de adot\u00e1-la. Passou quatro anos no orfanato at\u00e9 um homem finalmente adot\u00e1-la por um bom pre\u00e7o.<br>\u2003\u2003- Me falaram que voc\u00ea tem 16, garota. \u2013 ele dizia, dentro de um carro luxuoso. T\u00e3o luxuoso que %Beatrice% se sentiu em outro mundo. Os bancos vermelhos de couro estavam limpos e brilhantes; sentia at\u00e9 que seu vestido estava sujando-o com a sujeira acumulada pela falta de higiene do orfanato.<br>\u2003\u2003- Tenho 16. \u2013 ela respondeu, s\u00e9ria. Viu os olhos claros do homem que aparentava seus quarenta e cinco anos analisar o corpo magro da garota no banco de tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003- O que voc\u00ea quer da vida?<br>\u2003\u2003O que ela queria da vida? Pensou em sua m\u00e3e, seu pai, Chantelle e Pauline. Dos quatro, qual teria sido mais feliz? Em sua mente deturpada pelas perdas e desgra\u00e7as dos \u00faltimos quatro anos, %Beatrice% pode rapidamente pensar que de todas as vidas, a de Chantelle teria sido mais feliz, ganhando dinheiro e podendo trazer para casa, roupa e comida fresca. Olhou para os dedos machucados pelas agulhas que manuseava; seu novo hobby era costurar. N\u00e3o podia fazer muito com os peda\u00e7os de panos velhos que eram jogados fora depois de usados como pano de ch\u00e3o, mas com a for\u00e7a de sua imagina\u00e7\u00e3o, conseguia imaginar pe\u00e7as lindas que pessoas poderiam usar para se sentirem mais belas.<br>\u2003\u2003- Quero fazer roupas. Ser rica.<\/p>\n<p>\u2003\u2003De fato, fazer roupas n\u00e3o era o que o homem pretendia deixa-la fazer. Mesmo adotando-a, ele nunca a deixou chama-lo de pai. Descobriu que ele era dono de uma casa de prostitui\u00e7\u00e3o, o neg\u00f3cio que matou Chantelle. No in\u00edcio, %Beatrice% se recusou a atuar na \u00e1rea, mas ao ver sua desvantagem e o perigo que corria se n\u00e3o obedecesse as ordens do homem que a adotou, acabou cedendo. Una, a anfitri\u00e3 da casa, era respons\u00e1vel por treinar as novas garotas que chegavam \u00e0 casa. Treinou %Beatrice% para que falasse polidamente bem, portasse com o corpo ereto e fez com que ela se exercitasse para aumentar a massa de suas coxas. Durante seis meses, ficou na \u00e1rea inferior da casa, trabalhando no backstage e limpando os quartos das prostitutas que viviam ali. Diferente do que viu com Chantelle h\u00e1 quatro anos, o lugar parecia mais decente para se trabalhar.<br>\u2003\u2003O desespero tomou conta de %Beatrice% quando Una anunciou o in\u00edcio de sua vida noturna no pr\u00f3ximo final de semana. Deu-lhe lingeries de renda, cintas de liga e espartilhos que lhe sufocava, mas que fazia seus seios parecerem maiores. Na primeira noite, as garotas auxiliaram-na a fazer a maquiagem. Suas pernas tremiam em cima do salto prata. A meia cal\u00e7a arrast\u00e3o lhe perturbava e o cheiro do tabaco lhe entorpecia. Fumou seu primeiro cigarro quando seu primeiro cliente lhe ofereceu. Conforme Una havia ensinado, deixou que o homem lhe tocasse e, quando perguntou sua idade, mentiu dizendo ter 18, quando ainda estava para completar 17.<br>\u2003\u2003Quando o bigode do homem alto e desengon\u00e7ado ro\u00e7ou em seu dorso, sentiu que n\u00e3o podia fazer aquilo e fugiu, dizendo ir pegar uma bebida para aquec\u00ea-lo melhor. Recebeu um tapa na cara de Una naquele dia. Ouviu desaforos e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, n\u00e3o sentiu remorso algum quando a viu ir embora ainda a xingando.<br>\u2003\u2003Respirou fundo e fechou os olhos, a fim de organizar melhor seus pensamentos. Quando voltou a abri-los, encontrou com um homem pouco mais velho que ela \u00e0 sua frente. Lhe beijou os l\u00e1bios antes que ela percebesse; um beijo que lhe conquistou, afinal, era seu primeiro.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea quer essa vida? \u2013 ele perguntou depois de separado. %Beatrice% negou com a cabe\u00e7a. \u2013 Ent\u00e3o venha comigo, irei cuidar de voc\u00ea. \u2013 sem pensar em nada, %Beatrice% deixou-se levar pelo garoto alto e charmoso que cheirava a um tabaco mais forte. Assim que foi coberta por seu sobretudo para sa\u00edrem pela porta dos fundos da casa, olhou para o garoto que abriu um sorriso malicioso e disse: &#8211; Meu nome \u00e9 Aurelian. Voc\u00ea n\u00e3o deve esquecer de mim e nem deste d\u00e9bito. \u2013 e antes de sa\u00edrem correndo rua abaixo, ele lhe roubou outro beijo, firmando o contrato da d\u00edvida de %Beatrice% com ele.<\/p>\n<p>\u2003\u2003<strong>Santa M\u00f4nica \/\/ Agora<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003- Ele me levou para Paris, onde me escondeu e cuidou de mim at\u00e9 ter certeza de que n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m procurando por mim. N\u00e3o sei o que ele fez, mas tive paz desde ent\u00e3o. \u2013 %Beatrice% agarrava as pernas cobertas pelo edredom de plumas da cama. Seus olhos estavam bem abertos e fixados em um ponto \u00e0 frente; mesmo assim, n\u00e3o enxergava nada. O que via era a cena de sua vida h\u00e1 anos atr\u00e1s. N\u00e3o gostava de se lembrar de seu passado. Odiava seu passado. Queria destru\u00ed-lo; achava que com %Zachary%, poderia finalmente viver uma vida sem d\u00edvidas, com uma emo\u00e7\u00e3o segura, que n\u00e3o fosse <em>fatal<\/em>.<br>\u2003\u2003- Por que o deixou? \u2013 %Zachary% perguntou baixo, sentado na beirada da cama de %Beatrice%. Ela abriu um pequeno sorriso.<br>\u2003\u2003- Aurelien sempre achou que minha vida era uma garantia para si. Comprou educa\u00e7\u00e3o para mim, sa\u00fade e conforto. Achou que isso era o suficiente para ter certeza de que meu amor seria dele para sempre. Mas quando se perde tudo, voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o se importa mais em ter de perder novamente, porque sabe que as coisas uma hora ou outra melhorar\u00e3o. \u2013 %Beatrice% olhou para o pol\u00edtico. \u2013 Eu havia me cansado de ser deixada em segundo plano, por isso, decidi esquecer o amor e me dedicar \u00e0 pouca dignidade que me sobrou e tentar subir em minha vida. Aurelien quem conseguiu este curso para mim; \u00e9 claro que eu nunca conseguiria sem ele. Tamb\u00e9m comprou minha passagem. Cuidou de mim como prometeu em nosso acordo. Eu n\u00e3o sei por que, mas achei que tudo o que ele me deu n\u00e3o era o suficiente ao amor que queria ser retribu\u00edda. \u2013 soltou um pequeno riso nasal e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. Encarou %Zack%: \u2013 O deixei porque queria saber como seria viver sem depender de algu\u00e9m para ser feliz.<br>\u2003\u2003 %Zachary% manteve seus bra\u00e7os cruzados enquanto ouvia as palavras de %Beatrice%. N\u00e3o se sentia nem um pouco nervoso quanto h\u00e1 alguns minutos, mas o fato de saber da verdade o perturbava bastante. Agora que entendia a raz\u00e3o de %Beatrice% respeitar e amar tanto o franc\u00eas tinha cabimento. N\u00e3o era superficial, os dois possu\u00edam uma hist\u00f3ria. Olhou para a garota, que continuava abra\u00e7ada \u00e0s pernas, provavelmente na mesma posi\u00e7\u00e3o que fazia toda vez que ficava pensativa, com a mente especificamente presa ao passado. %Beatrice% agora era dele, n\u00e3o estava mais na Fran\u00e7a e n\u00e3o havia outra pessoa sen\u00e3o ele para machuca-la com o amor. Sentiu responsabilidade quando percebeu o fato; se sentiu superior a Aurelian, que perdeu a oportunidade quando teve certeza de que n\u00e3o a perderia.<br>\u2003\u2003Essa era a diferen\u00e7a entre os dois. Apesar de fazer tudo para o conforto de %Beatrice%, %Zachary%, ao contr\u00e1rio de Aurelian, sempre pensou em como seria a vida se ele a perdesse. N\u00e3o gostando de ver o que enxergava, se empenhava mais em deixa-la bem.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea o ama? &#8211; perguntou. Depois da hist\u00f3ria que ouviu, ele n\u00e3o podia deixar de fazer a pergunta. Sabia que era poss\u00edvel dela ainda sentir algum tipo de sentimento forte pelo homem que, para ela, salvou-lhe a vida. Estava receoso pela resposta, porque sabia que ela poderia vir diferente do que ele esperava ou gostaria.<br>\u2003\u2003 %Beatrice% o encarou com o olhar entristecido, mas ele n\u00e3o pode ver a resposta estampada em seus olhos. Sentiu como na \u00e9poca que havia a conhecido. N\u00e3o conseguia ler seus sentimentos. Aguardou pacientemente a resposta, at\u00e9 ela vir:<br>\u2003\u2003- J\u00e1 o amei mais. &#8211; respondeu. \u2013 Agora, tudo o que sobrou foi gratid\u00e3o.<br>\u2003\u2003Aquilo, de alguma maneira, acalmou os nervos de %Zachary%. Seu cora\u00e7\u00e3o desacelerou e ele sentiu o ar que estava preso no peito sair. Pode sentir a brisa que entrava pela janela entreaberta bater em si, algo que j\u00e1 acontecia antes, mas com a raiva, ele n\u00e3o percebia. Encarou %Beatrice% com outros olhos e a viu encolhida em sua cama, insegura e \u00e0 procura de prote\u00e7\u00e3o. Assim que ouviu a resposta, conseguiu com a maior facilidade ver o que os olhos da estilista queriam mostrar.<br>\u2003\u2003Aurelian era seu passado. Ele a protegeu e salvou sua vida, garantindo que ela tivesse uma boa ideia at\u00e9 agora. <strong> %Zachary% <\/strong> era seu presente agora. Ele quem \u00e9 o atual respons\u00e1vel por garantir a seguran\u00e7a e a felicidade da garota para o resto de suas vidas. Com um sorriso interno, assinou o contrato quebrado de Aurelian para si. Ele teria certeza de que %Beatrice% fosse ser feliz com ele e mais ningu\u00e9m.<br>\u2003\u2003Cruzou os bra\u00e7os e olhou para o escuro do c\u00e9u, hoje sem estrelas. Suspirou ao pensar sobre o dia seguinte. O mais engra\u00e7ado, era que ele n\u00e3o se sentia nem um pouco mal pelo que estava para acontecer. Olhou para %Beatrice% mais uma vez e desistiu de se manter longe dela. Retirou a camisa e a cal\u00e7a, ficando apenas com sua boxer. Aproximou-se da cama e, em um \u00fanico movimento, a empurrou delicadamente para o lado e a puxou para dormir consigo. Foi quest\u00e3o de segundos at\u00e9 que ela adormecesse em seus bra\u00e7os. Demorou muito mais para ele dormir.<br>\u2003\u2003Talvez fosse sua consci\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Fran\u00e7a \/\/ Anos antes \u2003\u2003Santa M\u00f4nica \/\/ Agora<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1138],"class_list":["post-2807","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chanel"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/2807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=2807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}