{"id":2123,"date":"2018-11-19T20:43:00","date_gmt":"2018-11-19T23:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-16T20:19:40","modified_gmt":"2025-09-16T23:19:40","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/vermilion\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"capitular1\">O<\/span> espelho refletia uma silhueta t\u00e3o conhecida por mim, mas ao mesmo tempo, distante. Meu dedo decidia em qual <em>&#8220;eu&#8221;<\/em> iria tocar, havia sete peda\u00e7os colados que mostravam a m\u00e1scara que meu corpo vestia todos os dias na frente dos demais. A camisa branca tinha uma pequena mancha na altura da gola, mas nada que meu casaco n\u00e3o cobrisse. Meu olhar percorreu pelo meu rosto, indo de encontro com a janela que insistia em ficar batendo por culpa do vento que vinha quando queria. Antes de fecha-la, dei uma espiada l\u00e1 fora, tendo a vis\u00e3o que eu mais queria: a garota com o vestido vermelho. Eu corri para terminar de arrumar tudo, sem me importar em fechar a janela, afinal, a minha menina estava me aguardando no nosso ponto de encontro e eu n\u00e3o iria perder mais nenhum segundo cortando meus dedos naqueles vidros, mesmo que eu gostasse.<br>\u2003\u2003Sa\u00ed na rua com passos apressados, e ainda sim percebi que o cen\u00e1rio estava mudando gradativamente, causando uma estranheza em mim. As nuvens fechavam o tempo, e o anoitecer se tornou um fundo muito escuro, que s\u00f3 era poss\u00edvel enxergar aquele vestido vermelho gra\u00e7as ao \u00fanico poste que tentava iluminar a estrada. Quanto mais eu me aproximava, minhas pernas iam se cansando, e o desespero de n\u00e3o chegar a tempo do meu encontro se instalou em meu peito. Forcei os meus p\u00e9s a me obedecerem, quase precisando travar uma luta com a minha cabe\u00e7a que insistia em me boicotar o dia inteiro. Com muito custo, toquei nas gramas e todo o peso que eu sentia sumiu, dando um al\u00edvio para o meu corpo. Levei alguns minutos para me recuperar, e recebi um beijo quente na minha bochecha, seguido de uma mordiscada leve no local. Me coloquei de p\u00e9 e encarei a coisa mais perfeita que j\u00e1 tive o prazer de desfrutar na minha lament\u00e1vel vida, vendo aquele sorriso se desmanchar ao desviar seus grandes olhos heterocrom\u00e1ticos de mim.<br>\u2003\u2003Ela estava se sentindo <em>culpada<\/em>.<br>\u2003\u2003E eu sabia exatamente o motivo.<br>\u2003\u2003Nos conhecemos h\u00e1 cinco meses e todas as noites eu fazia quest\u00e3o de procur\u00e1-la no parque, mais precisamente, no balan\u00e7o. Conforme a brisa g\u00e9lida tocava levemente seus cabelos macios, a minha paix\u00e3o mal reparava na minha chegada, e meu rosto queimava de vergonha, assim que nem o dela quando me via. Durante a minha exist\u00eancia, em meus sonhos mais profundos, ela surgia e agia de acordo com os meus sentimentos, como se f\u00f4ssemos um s\u00f3. Ao v\u00ea-la fora da minha cabe\u00e7a, todos os detalhes eram perfeitamente iguais, e de in\u00edcio isso me assustou. Na primeira semana eu tentava falar algo, por\u00e9m o sil\u00eancio era a resposta que ficava expl\u00edcita no ar. Aos poucos fui escutando aquele timbre adocicado, e a minha vontade de ficar a madrugada inteira observando aquele ser descal\u00e7o, correndo com parte de seu vestido vermelho na m\u00e3o s\u00f3 crescia.<br>\u2003\u2003At\u00e9 o dia que seus l\u00e1bios pronunciaram a not\u00edcia que arruinaria o meu c\u00e9u estrelado.<br>\u2003\u2003Tr\u00eas meses ap\u00f3s o an\u00fancio, a minha paix\u00e3o ia me deixando triste, e eu n\u00e3o sabia o que fazer. Nunca achei que chegar\u00edamos nesse ponto, e ela tinha no\u00e7\u00e3o de como eu me sentia. Como n\u00f3s nos sent\u00edamos. Aqueles malditos olhos n\u00e3o conseguiam mentir, e mesmo que fizesse isso, a culpa que consumia o seu corpo se instalava no meu que nem uma bomba rel\u00f3gio prestes a explodir.<br>\u2003\u2003E desta vez, n\u00e3o ter\u00edamos para onde fugir.<br>\u2003\u2003Encarei a minha garota com certa incerteza, e meu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 ia se despeda\u00e7ado ao ver a boca dela abrindo e o sil\u00eancio novamente surgia. Ficamos assim durante longos minutos, at\u00e9 que ela segurou a barra de seu vestido, vestindo a minha vergonha em si como da primeira vez.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea precisa acordar.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o! &#8211; Gritei. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pode me mandar ir embora, Lion. Por que me deixaste assim, t\u00e3o triste? Eu sinto a sua culpa! E eu n\u00e3o quero mais ter isso dentro de mim.<br>\u2003\u2003- N\u00f3s precisamos acordar. &#8211; Sua voz ia se tornando distante, assim como a sua silhueta.<br>\u2003\u2003Um sentimento adormecido no meu interior foi acionado ao ouvir aquelas palavras, e a frase continuava saindo dos l\u00e1bios da minha paix\u00e3o. Minha cabe\u00e7a come\u00e7ou a girar e um n\u00f3 surgiu na minha garganta, me impossibilitando de chama-la. A raiva crescia t\u00e3o r\u00e1pido e em menos de dez segundos meus dedos estavam em volta daquele pesco\u00e7o t\u00e3o delicado e sua fei\u00e7\u00e3o de surpresa era exatamente igual a minha. Quanto mais eu apertava, mais meu corpo implorava para parar, mas eu n\u00e3o podia.<br>\u2003\u2003N\u00e3o podia deixa-la crescer dentro de mim.<br>\u2003\u2003N\u00e3o mais.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 real, n\u00e3o \u00e9? &#8211; Uma l\u00e1grima escorria pelo meu rosto ao receber a confirma\u00e7\u00e3o. &#8211; Por que n\u00e3o me contou antes?<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea p-precisava perceber sozinho.<br>\u2003\u2003- P-p-perceber o qu\u00ea? &#8211; Comecei a ficar sem ar.<br>\u2003\u2003- Que n\u00f3s somos um s\u00f3, meu querido.<br>\u2003\u2003Ao escutar o seu \u00faltimo suspiro, a escurid\u00e3o me envolveu em seus bra\u00e7os, fazendo com que eu perdesse a minha consci\u00eancia e a \u00fanica coisa que eu me lembraria para sempre era dos nossos corpos mortos se desfazendo com o vento.<\/p>\n<div class=\"nota\">\n<h3 align=\"center\">Fim<\/h3>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[863],"class_list":["post-2123","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-vermilion"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/2123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=2123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}