{"id":2107,"date":"2018-09-14T16:55:49","date_gmt":"2018-09-14T19:55:49","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-14T17:21:17","modified_gmt":"2025-09-14T20:21:17","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/antes-do-amanhecer\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p>&emsp;&emsp;%Yesung% passara a vida toda com a sensa\u00e7\u00e3o de despreparo, de estar esquecendo alguma coisa ou simplesmente <em>n\u00e3o saber<\/em> alguma coisa. Como se a vida insistisse, dia ap\u00f3s dia, em cerc\u00e1-lo de pessoas que sabiam mais do que ele. Sobre a vida, sobre o futuro e at\u00e9 sobre ele mesmo. N\u00e3o era t\u00e3o verdade, mas era como ele se sentia. Havia certa irracionalidade em seu complexo de inferioridade e ele sabia, mas n\u00e3o podia evitar. Se sentia menor do que era, era alto, mas parecia pequeno, porque projetava exatamente o modo como se sentia.\u00a0 <br>\n&emsp;&emsp;No dia seguinte, %Yesung% tinha uma entrevista com o escrit\u00f3rio de admiss\u00e3o da faculdade na qual pretendia ingressar e n\u00e3o conseguia parar de pensar naquilo. No qu\u00e3o pequeno se sentia. <br>\n&emsp;&emsp;Ele sabia que estava preparado, vinha se preparando a vida toda, sabia o que tinha que falar, quais perguntas escutaria e como respond\u00ea-las, mas, ainda assim, n\u00e3o tinha certeza se, mesmo sabendo o que e como falar, conseguiria o fazer. Era t\u00edpico dele n\u00e3o conseguir.<br>\n&emsp;&emsp;O percurso de trem at\u00e9 Seul levaria a noite toda e, a cada instante que passavam parados na linha, com os passageiros embarcando muito lentamente, %Yesung% ficava ainda mais nervoso. Esperava que quando estivessem em movimento conseguisse dormir um pouco, mas por enquanto tudo que era capaz de fazer era quase pingar de nervosismo. E pensar no qu\u00e3o pequeno se sentia. <br>\n&emsp;&emsp;N\u00e3o se importaria mais com aquilo, em ter passado a vida inteira se sentindo pequeno, se no dia seguinte, apenas no dia seguinte, quando sua entrevista chegasse, fosse capaz de se sentir diferente. Grande. Gigante. <br>\n&emsp;&emsp;S\u00f3 daquela vez&#8230;\u00a0 N\u00e3o era pedir muito, era? <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% movia a perna direita numa representa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, e muito clara, de seu nervosismo, mas, caso ainda restasse d\u00favidas, ele estralava os dedos da m\u00e3o tamb\u00e9m. Em algum momento, suspirou frustrado e jogou a cabe\u00e7a para tr\u00e1s, resmungando qualquer coisa sem sentido numa reclama\u00e7\u00e3o pela demora. <br>\n&emsp;&emsp;Ser\u00e1 que n\u00e3o dava para irem logo? Quer dizer, quanto mais r\u00e1pido fossem, mais r\u00e1pido chegariam e %Yesung% poderia, finalmente, se sentir grande. <br>\n&emsp;&emsp;Ser\u00e1 que n\u00e3o dava para irem logo? <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Com licen\u00e7a, posso me sentar aqui? \u2013 a voz feminina fez %Yesung% erguer o olhar s\u00f3 para dar de cara com um desafio inesperado. Era %Bruna% ali, a garota que estudara com ele, no mesmo col\u00e9gio, a vida toda e por quem ele alimentava uma pseudo-paix\u00e3o-plat\u00f4nica. Nunca haviam trocado mais que duas, tr\u00eas frases e agora teriam que ficar sentados juntos a noite toda a caminho da viagem mais importante de suas vidas?! \u2013 O trem est\u00e1 quase cheio. \u2013 ela acrescentou em seguida, quase como se pedisse desculpas por incomod\u00e1-lo. <br>\n&emsp;&emsp;O tique na perna de %Yesung% parou imediatamente quando ele assentiu, endireitando-se com a postura excessivamente ereta em seu assento enquanto a garota se punha a sentar ao seu lado. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Tudo bem. \u2013 ele finalmente murmurou, desviando em seguida o olhar para a janela. <br>\n&emsp;&emsp;Achou por um instante que j\u00e1 estavam em movimento, mas talvez fosse s\u00f3 o modo como seu est\u00f4mago revirava e ele apertou os olhos. %Bruna% era, disparado, o que, entre todas as coisas, lhe fazia sentir menor. <br>\n&emsp;&emsp;Para ela, ele devia parecer um gigante abestalhado. Porque era alto. Infelizmente, era alto e tudo que fazia para se esconder era in\u00fatil, pensamento o qual fez seu est\u00f4mago revirar ainda mais, junto com o solavanco que atingiu seu corpo com o primeiro movimento do trem. <br>\n&emsp;&emsp;Estavam partindo. Finalmente. <\/p>\n\n<p align=\"center\">&#8230;<\/p>\n\n<p>&emsp;&emsp;Cerca de vinte, trinta, minutos depois, %Yesung% acordou. Ele nem notara quando pegou no sono, mas, ao abrir os olhos, n\u00e3o precisou de muito para ter a certeza que n\u00e3o dormira muito. <br>\n&emsp;&emsp;Seus olhos ardiam e, normalmente, ele s\u00f3 viraria para o lado e voltaria a dormir, mas n\u00e3o o fez daquela vez. Ao virar para o lado, seus planos foram refreados pela vis\u00e3o de %Bruna% sentada bem ali, no assento ao lado do seu, concentrada numa pilha de sandu\u00edches empilhados em sua bandeja embutida. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Peguei dois pra voc\u00ea e dois pra mim. \u2013 ela murmurou, como se soubesse que ele j\u00e1 acordara e lhe encarava, ainda que sequer houvesse desviado o olhar de sua bandeja. Ao menos, n\u00e3o parecia ter desviado, j\u00e1 que com o cabelo caindo sob sua pele como fazia %Yesung% n\u00e3o podia dizer com certeza o que ela via ou n\u00e3o. \u2013 Voc\u00ea estava dormindo e&#8230; \u2013 ela come\u00e7ou a acrescentar, desajeitada, ao virar para lhe encarar e %Yesung% fez que n\u00e3o, indicando que ela n\u00e3o precisava falar. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Obrigado. \u2013 ele murmurou, fazendo um esfor\u00e7o quase f\u00edsico para espantar o nervosismo que congelava seus nervos e sorrir para a garota. Conhecia %Bruna% h\u00e1 anos, de modo que existia um relacionamento mesmo sem haver um e, por isso, entendia porque ela pegara os sandu\u00edches para ele tamb\u00e9m. Conseguia acompanhar sua linha de pensamento. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o foi nada. \u2013 ela respondeu, dando de ombros enquanto retirava o pl\u00e1stico que protegia o pr\u00f3prio sandu\u00edche. Quando deu uma mordida, seus olhos se arregalaram e ela levou a m\u00e3o \u00e0 boca quase que imediatamente, fazendo com que %Yesung% arregalasse um pouco os olhos tamb\u00e9m, inclinando-se preocupado em sua dire\u00e7\u00e3o. Antes que ele pudesse fazer ou falar qualquer coisa, no entanto, ela o fez: \u2013 Aigoo! N\u00e3o foi <em>mesmo <\/em>nada. S\u00e9rio, n\u00e3o come isso. \u2013 ela apontou os sandu\u00edches que ele j\u00e1 segurava, os puxando de volta. \u2013 Que coisa horr\u00edvel. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% acabou rindo daquilo, lhe estendendo uma por\u00e7\u00e3o de guardanapo que ela n\u00e3o pareceu lembrar que tinha no colo. Ela cuspiu os resqu\u00edcios do lanche ali e ele mordeu a pr\u00f3pria risada quando ela lhe encarou de cara feia. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o ri. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o estou. \u2013 ele garantiu e ela rolou os olhos, j\u00e1 que ele era, claramente, p\u00e9ssimo naquela coisa de prender a risada. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Est\u00fapido. Vou me lembrar de n\u00e3o pegar mais nenhum lanche pra voc\u00ea essa noite, mesmo que tenham gosto de p\u00e9.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu fico agradecido. \u2013 ele retrucou, rindo novamente quando ela estapeou seu ombro, acabando por rir junto com ele dessa vez tamb\u00e9m. \u2013 Eu acho que tenho doce na mochila. \u2013 ele murmurou depois de um instante, se pondo de p\u00e9 para pegar a mochila no compartimento acima de suas cabe\u00e7as, tirando de l\u00e1 de dentro um pacote com biscoito recheado. <br>\n&emsp;&emsp;%Bruna% acabou cedendo e sorrindo quando ele lhe estendeu a embalagem, tirando de l\u00e1 um biscoito e mordendo um peda\u00e7o sob o olhar do garoto.<br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% pensava em muitas coisas. <br>\n&emsp;&emsp;A ideia de falar com %Bruna%, por si s\u00f3, sempre lhe apavorara de modo irracional. Ele a idealizava, projetava algu\u00e9m nela baseado apenas no que observava e n\u00e3o tinha como saber se estava certo, mas, naquele momento, enquanto ria com a guarda inegavelmente baixa, c\u00e9us, ele torceu para que ela fosse. Torceu para que ela fosse exatamente tudo que sempre imaginara porque ela estava bem ali ao seu lado, dividindo um pacote de biscoito recheado com ele e lhe fazendo rir. <br>\n&emsp;&emsp;Ele quase sentia os tornozelos doerem, como se pudesse sentir os ossos crescerem. Sua pequenez come\u00e7ava a se tornar algo combat\u00edvel, algo inesperadamente combat\u00edvel. Ele n\u00e3o estava acostumado com aquilo. <br>\n&emsp;&emsp;Mas era s\u00f3 uma das coisas que ele pensava. E tudo se tornava muito contradit\u00f3rio e bagun\u00e7ado, porque todo o restante de sua linha de pensamento era autodestrutiva, confusa e sombria. <br>\n&emsp;&emsp;Aquilo n\u00e3o ia terminar bem. Ela era %Bruna%, era incr\u00edvel e cheia de luz e ele&#8230; Ele era s\u00f3 ele. Ele faria alguma coisa, em algum momento, e estragaria aquele momento esquisito e agrad\u00e1vel. Ele n\u00e3o sabia viver momentos esquisitos e agrad\u00e1veis. <br>\n&emsp;&emsp;Bom, sua vida toda era esquisita, mas em combina\u00e7\u00e3o com o agrad\u00e1vel&#8230; Aquilo, definitivamente, era algo com o qual ele n\u00e3o tinha familiaridade. E ia estragar. <br>\n&emsp;&emsp;A certeza se misturava a esperan\u00e7a de que n\u00e3o o fizesse, que, por algum milagre, desse tudo certo e ele conseguisse apenas manter uma conversa agrad\u00e1vel com a garota de quem passara a vida toda gostando. Era sua \u00faltima chance, afinal. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 \u00c9 bom. \u2013 a garota murmurou, chamando sua aten\u00e7\u00e3o enquanto levava outro biscoito a boca depois de engolir o anterior. Ele olhou dela para a embalagem e assentiu, abrindo um pequeno sorriso. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 \u00c9, n\u00e3o \u00e9? \u2013 murmurou e ela lhe encarou de um jeito que ele n\u00e3o foi capaz de decifrar, assentindo um instante depois e desviando o olhar. <br>\n&emsp;&emsp;Um arrepio alcan\u00e7ou a espinha de %Yesung% sem que ele conseguisse explicar o motivo e o garoto acertou novamente a postura, mesmo que j\u00e1 estivesse quase ereto e n\u00e3o houvesse o que realmente acertar. <\/p>\n\n<p align=\"center\">&#8230;<\/p>\n\n<p>&emsp;&emsp;\u2014 Eu acho que \u00e9 esse o momento. Sabe, <em>o<\/em> momento. \u2013 %Bruna% murmurou, aos sussurros j\u00e1 que o trem estava escuro demais para que ela tivesse a ousadia de fazer diferente. J\u00e1 passava das uma e meia da manh\u00e3 e a maior parte dos passageiros dormia, exceto por eles. Nenhum dos dois conseguia pregar o olho. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 <em>O<\/em> momento? \u2013 %Yesung% perguntara ao ouvir sua afirma\u00e7\u00e3o repentina, conseguindo ver muito pouco de seu rosto, apenas o que a pouca luz vinda da janela ao seu lado permitia. <br>\n&emsp;&emsp;N\u00e3o conversaram muito depois que terminaram de comer, ambos tentaram, sem sucesso, dormir e ambos terminaram de olhos bem abertos, observando os ru\u00eddos ao seu redor diminu\u00edrem gradativamente, ao passo que os outros passageiros se entregavam ao sono e lhes causava inveja. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% quase se deixava esquecer que era %Bruna% ali e o que aquilo significava, ou qu\u00e3o pequeno aquilo lhe fazia sentir, mas ent\u00e3o a vira iluminada apenas pela pouca luz que vinha da janela e, c\u00e9us, ela nunca estivera t\u00e3o bonita. E falando de momentos. <br>\n&emsp;&emsp;Sua pequenez usava todas as armas que podia contra ele.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Sabe, o momento em que voc\u00ea quase pode ver tudo mudar. \u00c9 agora. \u2013 %Bruna% explicou \u2013 Parece que o mundo inteiro est\u00e1 em silencio e, se fizermos sil\u00eancio tamb\u00e9m, podemos ouvir. Podemos ouvir os port\u00f5es se abrindo para o resto das nossas vidas. \u2013 ela falava baixo, quase como se tentasse realmente escutar algo e %Yesung% quase se reconheceu na express\u00e3o \u00e1vida em seus olhos. <br>\n&emsp;&emsp;Por mais nervoso que estivesse, ele n\u00e3o aguentava mais a vida como era, a tempo demais, e queria, <em>desejava<\/em>, aquela mudan\u00e7a. Estava preso entre ansiar por aquilo e temer, temer n\u00e3o estar pronto, porque o tempo todo n\u00e3o estava pronto e mesmo se preparando pra aquilo a vida toda, era pavoroso agora que chegara a hora e ele tinha hist\u00f3rico em n\u00e3o estar pronto. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 pronta? \u2013 ele, por fim, perguntou a %Bruna%, soando t\u00e3o desesperado para se sentir reconfortado quanto se sentia, ainda que n\u00e3o soubesse realmente qual resposta ela poderia dar e ser capaz de, realmente, reconfort\u00e1-lo. <br>\n&emsp;&emsp;Ela sorriu compadecida ao lhe encarar, parecendo saber o que ele queria dela.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Acho que n\u00e3o \u00e9 pra estarmos prontos para esse tipo de coisa. \u2013 ela murmurou, respirando fundo. %Yesung% apenas continuou lhe encarando, tomado pela intensidade de sua beleza naquela pouca luz, t\u00e3o estranhamente dram\u00e1tica e, ao mesmo tempo, confortante. Como se aquele fosse um momento s\u00f3 deles, secreto ao ponto de lhe fazer sentir a vontade para falar e sentir qualquer coisa, ainda que fosse assustador. \u2013 Acho que \u00e9 assim que devemos nos sentir. Despreparados. Porque \u00e9 algo novo, algo que nunca fizemos e n\u00e3o temos a menor ideia de como vai ser, de como vamos nos sair. \u2013 ela explicou seu ponto de vista, com o olhar fixo no fundo do assento a frente do seu no trem.\u00a0 <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Mas \u00e9 como voc\u00ea se sente? \u2013 ele insistiu, com a sensa\u00e7\u00e3o de que precisava ouvir para acreditar, porque a garota que projetara nela era segura demais para n\u00e3o estar. Quebrar aquilo, aquela proje\u00e7\u00e3o, parecia, de repente, o conforto de um abra\u00e7o apertado em meio a uma crise intensa de ansiedade.<br>\n&emsp;&emsp;%Bruna% sorriu outra vez, sem lhe encarar. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 O tempo todo. \u2013 confessou \u2013 O tempo todo, eu me sinto pequena. T\u00e3o, t\u00e3o pequena que uma ventania um pouco mais forte pode mudar tudo num piscar de olhos e me tirar as poucas certezas que tenho. Ou talvez menos&#8230; Bem, com certeza menos. Parece que qualquer coisa pode me tirar as poucas certezas que tenho, porque sou pequena e errada. \u2013 ela n\u00e3o lhe encarava enquanto falava, por isso n\u00e3o viu quando %Yesung% piscou, surpreso. De todas as pessoas, jamais imaginaria que ela sentia aquilo, tudo o que ele sentia. <br>\n&emsp;&emsp;Aquilo era estranho.<br>\n&emsp;&emsp;Pouco a pouco, %Yesung%, de fato, desfazia a proje\u00e7\u00e3o que tinha dela e aquilo era surpreendentemente bom. Era como, finalmente, sentir um sonho bom se infiltrar em sua realidade, aspectos dele, aspectos que podia tocar e sentir nos dedos. O pensamento lhe fez esfregar as m\u00e3os na cal\u00e7a e balan\u00e7ar a cabe\u00e7a, tentando afastar a linha de pensamento que lhe fazia rumar a ideia de toc\u00e1-la. T\u00ea-la se tornando uma pessoa real, uma pessoa com quem podia se identificar, j\u00e1 parecia bom o suficiente.\u00a0 <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea esconde bem. \u2013 riu, por fim, e ela imitou, virando a cabe\u00e7a um pouco para o lado para lhe encarar sem se afastar do estofado. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o. \u2013 murmurou e os dois riram juntos em seguida, antes que ele se virasse de lado na poltrona para ficar de frente para ela, imitando a postura que ela assumira antes. Seus olhos ficavam na linha dos dele daquele jeito e %Yesung% gostou daquilo. Ele costumava ter dificuldade para olhar as pessoas nos olhos, mas, estranhamente, ela lhe fazia sentir a vontade para isso. Ele gostava de olhar nos olhos dela, gostava de verdade. \u2013 Vamos ficar bem, %Yesung%-ah. \u2013 ela murmurou, soando muito certa do que dizia. \u2013 Tudo vai mudar e tudo bem, porque talvez a gente precise disso. Talvez isso nos fa\u00e7a sentir maiores. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu espero que sim. \u2013 ele murmurou baixinho, seu tom de voz deixando escapar uma melancolia impensada, que ele gostaria de poder tomar de volta para que ela n\u00e3o notasse, mas j\u00e1 era tarde. <br>\n&emsp;&emsp;%Bruna%, no entanto, continuou a lhe surpreender, olhando em seus olhos por um longo instante, como se visitasse seu estado de esp\u00edrito e se acomodasse ali, sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de ir embora, mas apenas de sentar ali com ele, naquele lugar estranho, triste e cheio de inseguran\u00e7as, e lhe fazer companhia. Como se ela pudesse fazer aquilo sem problemas porque j\u00e1 havia estado ali antes, porque conhecia bem aquele lugar. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu tamb\u00e9m. \u2013 ela falou baixinho, lhe dando um sorriso triste e estendendo a m\u00e3o para que ela alcan\u00e7asse a sua, pegando %Yesung% de surpresa ao tocar seus dedos com os seus. <br>\n&emsp;&emsp;Ele quase pulou de susto com o contato, olhando de suas m\u00e3os juntas para o rosto da garota enquanto tinha certeza que seu cora\u00e7\u00e3o poderia sair pela boca.\u00a0 C\u00e9us, ele gostava dela. <br>\n&emsp;&emsp;Gostava dela antes daquela viagem de trem e parecia que, quanto mais tempo passavam juntos naquele trem, gostava mais. Aquilo fazia sentido? Aquilo tinha alguma l\u00f3gica cientifica na qual podia se sustentar? Era poss\u00edvel que a intensidade de um sentimento antes t\u00e3o bobo, apenas baseado em proje\u00e7\u00f5es, aumentasse tanto com t\u00e3o pouco? <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 O que foi? \u2013 ela riu, alheia ao motivo do movimento minimamente brusco dele e %Yesung% balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Nada. \u2013 murmurou, pigarreando pro ter falado baixo demais. \u2013 Dev\u00edamos tentar dormir. Amanh\u00e3 temos um grande dia pela frente. <br>\n&emsp;&emsp;%Bruna% assentiu, observando em silencio enquanto ele virava de costas para ela, de frente para a janela. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 grande, %Yesung%. S\u00f3 precisa ver isso. \u2013 ela murmurou, num fio de voz antes que o ru\u00eddo em seu lugar denunciasse o movimento partido dela pra se virar na poltrona e tentar dormir tamb\u00e9m. <br>\n&emsp;&emsp;De olhos fechados, %Yesung% sorriu, se deixando embalar pelas palavras da garota. Ele nunca quis tanto acreditar naquilo. <\/p>\n\n<p align=\"center\">&#8230;.<\/p>\n\n<p>&emsp;&emsp;%Yesung% n\u00e3o conseguiu pegar no sono e, pouco tempo depois, notou que %Bruna% tamb\u00e9m n\u00e3o. Os dois, enfim, cederam a ins\u00f4nia e voltaram a conversar, compartilhando hist\u00f3rias e pensamentos.<br>\n&emsp;&emsp;Parecia ser algum tipo de efeito da madrugada nas pessoas, no fim das contas: Ningu\u00e9m pensava muito no que falar ou n\u00e3o falar quando passava horas a fio, noite adentro, conversando. Era como se sentir seguro, porque parece ser um momento secreto, \u00fanico e que ningu\u00e9m nunca vai desrespeitar ou macular. Eles pareciam se sentir daquela forma naquele momento. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% se sentia.<br>\n&emsp;&emsp;Eles falaram sobre a escola, sobre seus amigos e os planos de cada um deles agora que aquela fase de suas vidas estava acabando, sobre suas fam\u00edlias e in\u00fameras outras coisas. %Bruna% era a filha do meio em casa, portanto ainda tinha uma irm\u00e3 para quem podia dar dicas quando chegasse a vez dela e tinha uma irm\u00e3 que j\u00e1 passara por tudo aquilo, o que era \u00f3timo. Ela dissera que o melhor jeito de ter perspectiva: ter sempre os dois lados da moeda t\u00e3o perto. %Yesung% era filho \u00fanico, mas concordara. Seus amigos eram como irm\u00e3os para ele, portanto achava que podia dizer que entendia, pelo menos um pouco, do que ela estava falando. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% tamb\u00e9m descobrira que ela aprendera chin\u00eas desde muito nova porque sua m\u00e3e era de l\u00e1 e sabia muito pouco de coreano, ent\u00e3o as tr\u00eas filhas estavam no mesmo n\u00edvel em ambas as l\u00ednguas.<br>\n&emsp;&emsp;Havia, enfim, muitas coisas incr\u00edveis sobre %Bruna% que ele descobrira. Coisas que ele nunca imaginara e coisas que ele j\u00e1 desconfiava antes, portanto houveram dois tipos de sorriso que ele deu enquanto ela contava sobre si mesma: o sorriso admirado, surpreso, e o sorriso admirado e orgulhoso, embora n\u00e3o houvesse ousado revelar que o orgulho que sentia era de si mesmo por conhec\u00ea-la de fato t\u00e3o bem quanto imaginou fazer. <br>\n&emsp;&emsp;Eles passaram horas conversando, horas e horas discutindo coisas relevantes e importantes, como os maiores problemas da humanidade e como resolv\u00ea-los, e coisas irrelevantes tamb\u00e9m, bobas, como, por exemplo, quem venceria uma briga entre a Mulher Maravilha e a Vi\u00fava Negra, e a melhor m\u00fasica j\u00e1 feita. N\u00e3o chegaram a um acordo sobre isso, mas aquilo n\u00e3o foi um problema. Falar sobre m\u00fasicas com %Bruna% fez %Yesung% sorrir tanto que suas bochechas doeram. <br>\n&emsp;&emsp;Eles tinham gostos parecidos, mas n\u00e3o id\u00eanticos, o que tornava a discuss\u00e3o indiscutivelmente interessante. E ela sabia do que falava. Quando falava de m\u00fasica, ela falava do seu momento favorito nas can\u00e7\u00f5es como se houvesse feito parte da cria\u00e7\u00e3o deles, como se pudesse sentir tudo que tornava o seu momento favorito o que era. %Yesung% adorava cantar e fazia aquilo desde novo, seu pai era apaixonado por m\u00fasica tamb\u00e9m e sempre tivera piano e viol\u00e3o em casa, habilidades que passou para o filho com prazer, mas ele n\u00e3o disse nada daquilo a ela. N\u00e3o quis que ela soubesse que ele cantava simplesmente porque n\u00e3o acreditava tanto em si mesmo a ponto de falar, de se vangloriar. <br>\n&emsp;&emsp;Era algo que gostava de fazer, mas era bom o suficiente para contar por a\u00ed? <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% n\u00e3o seria %Yesung% se achasse que a resposta era sim, no fim das contas. <br>\n&emsp;&emsp;Ele n\u00e3o contou, mas seu segredo estava fadado a ser descoberto. Ele n\u00e3o pensou nisso quando %Bruna% pegou o celular e os fones para lhe mostrar uma de suas m\u00fasicas favoritas, assim como n\u00e3o pensou nisso quando reconheceu a m\u00fasica e se pegou cantando um trecho dela baixinho. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Uau. \u2013 %Bruna% murmurou, puxando os fones para ouvi-lo melhor, o que fez com que ele acordasse para o que fazia e fechasse a boca imediatamente, tirando os fones tamb\u00e9m, com o olhar encabulado. %Bruna% abriu um pequeno sorriso por isso. \u2013 Uau. \u2013 repetiu com humor, fazendo com que ele risse. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 O qu\u00ea? \u2013 ele perguntou, como se n\u00e3o entendesse qu\u00e3o perplexa ela parecia de repente e a garota riu por isso. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea canta bem. \u2013 deu de ombros, como se n\u00e3o fosse nada demais. \u2013 Mas, sabe, n\u00e3o importa. Todo mundo canta, n\u00e3o \u00e9? \u2013 fez pouco caso e o garoto gargalhou, sem conseguir se conter. Ela fazia quest\u00e3o de deixar obvio que estava sendo ir\u00f4nica justamente porque ele estava agindo como se n\u00e3o fosse nada demais e %Yesung% notou aquilo com uma surpresa satisfat\u00f3ria. <br>\n&emsp;&emsp;Ela achava que ele cantava bem. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Obrigado. \u2013 falou baixinho por fim, sorrindo com gratid\u00e3o para ela, que riu e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea \u00e9 inacredit\u00e1vel. \u2013 murmurou, sem conseguir esconder a surpresa por ele, de fato, parecer tocado com o que, para ela, parecia obvio. \u2013 Voc\u00ea canta t\u00e3o bem que, um dia, vai ter uma multid\u00e3o gritando por voc\u00ea. Se voc\u00ea se permitir acreditar, sabe, s\u00f3 um pouquinho&#8230; Vai ter. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% riu, mas n\u00e3o falou nada, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a ao em vez disso e lhe devolvendo um dos lados do fone enquanto pegava o celular da m\u00e3o dela para escolher algo para ouvirem. <br>\n&emsp;&emsp;Ela devia ter algum tipo de super poder porque, honestamente, parecia que quando falava algo bom, mesmo que parecesse uma realidade t\u00e3o distante, era imposs\u00edvel n\u00e3o acreditar e sentir aquele formigamento agrad\u00e1vel no peito de quem, de fato, sabia que tinha algo de bom vindo em seu caminho. Mesmo que s\u00f3 acreditasse realmente naquilo porque ela dissera. <br>\n&emsp;&emsp;Ningu\u00e9m mais era capaz de faz\u00ea-lo pensar assim, ent\u00e3o %Yesung% s\u00f3 podia assumir que era aquilo. Ela tinha um super poder.<\/p>\n\n<p align=\"center\">&#8230;<\/p>\n\n<p>&emsp;&emsp;A esta\u00e7\u00e3o de Gwamgmyeong era a parada final parada final para os dois jovens. De l\u00e1, pegariam um avi\u00e3o para Seul ou um carro, n\u00e3o chegaram a realmente conversar aquilo, afinal era onde se separariam.<br>\n&emsp;&emsp;Quando chegaram l\u00e1, %Bruna% e %Yesung% dormiam, abra\u00e7ados sem que tivessem consci\u00eancia daquilo. \u00c9 claro que, ao acordar, com a campainha soando exageradamente alta indicando a chegada a esta\u00e7\u00e3o final, %Yesung% corou ao notar o estado dos dois. %Bruna% estava praticamente deitada com o tronco por cima dele, de mal jeito, por\u00e9m parecendo dormir de maneira serena enquanto tinha os bra\u00e7os dele ao seu redor. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Anh \u00e9&#8230; Eu acho que chegamos. \u2013 %Yesung% murmurou quando conseguiu acordar a garota, depois de algumas tentativas falhas. Ela passou a m\u00e3o pelo rosto, sonolenta, e se endireitou na cadeira, fazendo uma careta para o modo como seu corpo estralou por isso. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Gwamgmyeong? \u2013 ela perguntou e ele assentiu com a cabe\u00e7a, confirmando. <br>\n&emsp;&emsp;Eles se encararam por um instante, absorvendo o que aquilo significava. Todos ao seu redor j\u00e1 se punham de p\u00e9 e pegavam suas malas para sair, mas %Bruna% e %Yesung% sequer repararam. <br>\n&emsp;&emsp;Os dois haviam tido uma noite surpreendente e incr\u00edvel, uma da qual n\u00e3o iam esquecer e, por isso, n\u00e3o parecia certo quebrar a magia dela falando sobre o que viria agora. N\u00e3o sabiam quando ou se iriam se ver de novo e aquilo parecia uma realidade extremamente esquisita. <br>\n&emsp;&emsp;N\u00e3o eram t\u00e3o pr\u00f3ximos antes, ent\u00e3o talvez nem fizesse sentido que a hora da despedida fosse lhes pegar como um soco na boca do estomago, mas era exatamente o que acontecia. Haviam acabado de descobrir algo incr\u00edvel, verdadeiramente \u00f3timo, um no outro e j\u00e1 precisavam se despedir daquilo. <br>\n&emsp;&emsp;Era uma droga. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Bom, \u00e9&#8230; Boa sorte, ent\u00e3o. \u2013 %Yesung% murmurou, sem jeito, enquanto co\u00e7ava a nuca e a garota assentiu, levando um instante para responder ainda assim.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Para voc\u00ea tamb\u00e9m. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% assentiu e os dois continuaram se encarando em silencio por mais alguns instantes, incertos quanto ao que fazer ou falar antes que a mesma mulher que passara duas vezes por eles entregando lanches fosse retirar o lixo de suas poltronas, lhes acordando para a urg\u00eancia do momento: Precisavam ir. <br>\n&emsp;&emsp;Engolindo em seco, %Yesung% olhou da mo\u00e7a para %Bruna%, assistindo-a se levantar e sair do caminho para que ela pudesse limpar a regi\u00e3o de seu assento. Enquanto ela o fazia, %Yesung% foi obrigado a se manter onde estava para n\u00e3o atrapalhar, mas n\u00e3o desviou o olhar de %Bruna% ainda assim, mesmo que ela j\u00e1 estivesse em p\u00e9 e pronta para ir embora.<br>\n&emsp;&emsp;Ele tinha medo que ela realmente fosse. Quer dizer, sabia que ela ia, que n\u00e3o podiam ficar parados olhando um para o outro por muito mais tempo, mas queria. Queria poder olhar para ela e falar com ela por mais tempo. <br>\n&emsp;&emsp;Ele sempre fora apaixonado por aquela garota, afinal de contas, n\u00e3o devia ser tanta surpresa assim que se sentisse daquela forma agora, devia? Parecia que havia finalmente descoberto como ela era de verdade e o quanto de tudo que sempre projetara sobre ela era verdade tamb\u00e9m. <br>\n&emsp;&emsp;Ele gostou de descobrir, mas n\u00e3o conseguia parar de sentir que ainda podia descobrir muito mais. N\u00e3o conseguia parar de <em>querer<\/em> descobrir muito mais. <br>\n&emsp;&emsp;C\u00e9us, como queria. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu, hm&#8230; Preciso ir. \u2013 ela murmurou, desajeitada, quando ele se p\u00f4s de p\u00e9, parando de frente para ela. <br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% assentiu.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Boa sorte na sua entrevista. \u2013 murmurou, mesmo que j\u00e1 houvessem dito aquilo.\u00a0%Bruna% assentiu.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Boa sorte para voc\u00ea tamb\u00e9m. <br>\n&emsp;&emsp;Ele assentiu e ela sorriu com constrangimento antes de se aproximar a abra\u00e7\u00e1-lo, de maneira rob\u00f3tica e desconfort\u00e1vel, que foi como %Yesung% terminou por retribuir o abra\u00e7o tamb\u00e9m. %Bruna% se afastou r\u00e1pido e acenou para ele, engolindo em seco antes de dar as costas, dando passos largos para fora do trem. <br>\n&emsp;&emsp;A mulher que limpava seus assentos olhou para ele por sob o ombro depois que %Bruna% saiu e rolou os olhos, fazendo %Yesung% corar e engolir em seco, encabulado com a rea\u00e7\u00e3o.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 O qu\u00ea? \u2013 perguntou, como se n\u00e3o entendesse porque ela lhe encarava daquele jeito. Exceto que entendia. <br>\n&emsp;&emsp;Ele s\u00f3 n\u00e3o tinha certeza do que deveria pensar a respeito. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu reparei em voc\u00eas dois durante a viagem. \u2013 ela murmurou, dando de ombros como se falar aquilo n\u00e3o fosse nada demais. \u2013 N\u00e3o \u00e9 assim que quer se despedir dela. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu&#8230; \u2013 %Yesung% se interrompeu, deixando que a surpresa pelo modo direto que a mulher falara desse lugar a uma pontinha de ultraje. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o sabe disso.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Sei que gosta dela. \u2013 a mulher deu de ombros, como se n\u00e3o fosse nada demais. %Yesung% limpou a garganta, atitude que se misturou a uma tosse carregada, originada unicamente pelo nervosismo.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o sabe disso.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o voc\u00eas, \u00e9 verdade. \u2013 ela deu de ombros, cedendo. \u2013 Mas sei que, se fosse eu, n\u00e3o ia querer me despedir assim se n\u00e3o soubesse quando veria de novo o garoto de quem, um dia, eu poderia vir a gostar. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Acha que ela poderia vir a gostar de mim um dia? \u2013 %Yesung% perguntou, surpreso, soando exatamente como um adolescente sonhador e apaixonado, o que lhe fez corar e tossir outra vez, constrangido. <br>\n&emsp;&emsp;A mulher riu.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o se voc\u00ea for estragar a despedida de voc\u00eas assim. \u2013 deu de ombros e %Yesung% mordeu o l\u00e1bio, olhando dela para a porta por onde a garota sa\u00edra. <br>\n&emsp;&emsp;%Bruna% tinha um super poder. Ela o fazia sentir maior, do tamanho certo. Ele n\u00e3o queria e n\u00e3o podia se despedir daquilo com um abra\u00e7o rob\u00f3tico e desconfort\u00e1vel. <br>\n&emsp;&emsp;Pensando naquilo, %Yesung% agarrou sua mochila e pendurou de qualquer jeito em um dos ombros antes de correr para fora do tem, procurando %Bruna% ao olhar desesperado em volta na esta\u00e7\u00e3o. <br>\n&emsp;&emsp;Ela j\u00e1 estava quase na sa\u00edda.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Aish! \u2013 ele resmungou, frustrado, antes de correr naquela dire\u00e7\u00e3o, conseguindo puxar o bra\u00e7o da garota bem no instante em que ela o estendia para chamar um taxi. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 %Yesung%! \u2013 ela gritou, assustada, ao virar de frente para ele. \u2014 O que est\u00e1 fazendo? <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Me despedindo direito de voc\u00ea. \u2013 ele murmurou, pousando uma m\u00e3o em seu rosto e a trazendo para si, usando seu \u00faltimo suspiro de coragem ao moldar seus l\u00e1bios. %Bruna% segurou imediatamente em seu pesco\u00e7o, retribuindo o beijo intenso que ele iniciara e torcendo os dedos da outra m\u00e3o em seus cabelos enquanto abria a boca e permitia que ele aprofundasse o beijo.<br>\n&emsp;&emsp;%Yesung% sonhara com aquilo por tanto tempo que agora que, finalmente, estava acontecendo ele sequer podia raciocinar direito, t\u00e3o entregue as sensa\u00e7\u00f5es que a ideia de realmente formar um pensamento l\u00f3gico parecia uma piada. C\u00e9us, piadas pareciam il\u00f3gicas. <br>\n&emsp;&emsp;Quando, por fim, se afastaram, ele demorou um instante para abrir os olhos, mas o sorriso brotou em seus l\u00e1bios imediatamente quando o fez. %Bruna% j\u00e1 sorria para ele.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Acho que vejo voc\u00ea por a\u00ed, ent\u00e3o? \u2013 ela arqueou as sobrancelhas e ele assentiu, sorrindo. Ela imitou. \u2013 \u00d3timo. <br>\n&emsp;&emsp;Ele sorriu e virou de costas para chamar um t\u00e1xi para ela, j\u00e1 que fizera com que a garota perdesse o anterior. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 %Yesung%, voc\u00ea \u00e9 grande. N\u00e3o pequeno, grande. \u2013 ela murmurou quando o t\u00e1xi chegou e ele abriu a porta para ela, lhe arrancando um pequeno sorriso. <br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Boa sorte, %Bruna%-yah.<br>\n&emsp;&emsp;Ela piscou e entrou no t\u00e1xi, permitindo que ele fechasse a porta para ela em seguida. %Yesung% acenou e ent\u00e3o sentiu um peso no peito quando o carro acelerou, levando-a dali. O peso, no entanto, n\u00e3o durou muito, parecendo descer para debaixo de seus p\u00e9s. <br>\n&emsp;&emsp;De repente, %Yesung% se sentia maior. <br>\n&emsp;&emsp;Ser\u00e1 que ganhara alguns cent\u00edmetros naquela noite? <\/p>\n\n<h2><center>FIM<\/center><\/h2>\n\n<p>&emsp;<b>Nota:<\/b> OL\u00c1\u00c1\u00c1\u00c1! Gente,que loucura HAHAHAHHAA<br>\n&emsp;Long Live n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica f\u00e1cil, n\u00e3o, viu? Dei muita sorte de j\u00e1 ter esse plot e mesmo assim foi um paro pra sair HAHAHA<br>\n&emsp;Enfim! Vida longa ao &ldquo;momento&rdquo;! <br>\n&emsp;Beij\u00e3o!<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;%Yesung% passara a vida toda com a sensa\u00e7\u00e3o de despreparo, de estar esquecendo alguma coisa ou simplesmente n\u00e3o saber alguma coisa. Como se a vida insistisse, dia ap\u00f3s dia, em cerc\u00e1-lo de pessoas que sabiam mais do que ele. Sobre a vida, sobre o futuro e at\u00e9 sobre ele mesmo. N\u00e3o era t\u00e3o verdade, mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[832],"class_list":["post-2107","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-antes-do-amanhecer"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/2107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2107"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=2107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}