{"id":1988,"date":"2018-05-08T16:45:00","date_gmt":"2018-05-08T19:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-23T14:06:26","modified_gmt":"2025-11-23T17:06:26","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/aquela-crianca\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<strong>GUARAREMA, 2001.<\/strong><\/p>\r\n<p><span class=\"versalete\">\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai querer<\/span> subir a\u00ed.<br>\u2003\u2003Foi assim que a conheci. Eu j\u00e1 estava com um p\u00e9 apoiado em um alto relevo do tronco da \u00e1rvore de carambola e o outro pronto para contornar um galho grosso o suficiente para suportar meu peso. Se n\u00e3o fosse pelas roupas e a falta de pelos no corpo, eu achava que poderia ser facilmente confundido por um macaco. Daqueles que pegam a comida e somem em uma fra\u00e7\u00e3o de segundo. Sempre fui bom em furtar comida.<br>\u2003\u2003Olhei para tr\u00e1s e a vi em um macac\u00e3o jeans com uma camiseta com mangas bufantes por baixo. Era a moda da \u00e9poca, ser feminina demais. Seus cabelos eram longos e finos, deixando suas tran\u00e7as \u2014 duas delas \u2014 parecerem quase 2 peda\u00e7os de corda marrom. Nos p\u00e9s, botas de borracha vermelhas, sujas da terra que mexeu ao plantar umas florzinhas aqui e ali.<br>\u2003\u2003Ela usava um chap\u00e9u de palha que era do tamanho ideal para seu rosto pequeno. Conseguia proteger bem o rosto do sol do in\u00edcio de janeiro, \u00e1pice do ver\u00e3o. Al\u00e9m disso, em uma das m\u00e3os carregava um pequeno balde da mesma cor de suas botas. L\u00e1 dentro havia um par de luvas e ferramentas para as flores.<br>\u2003\u2003Desisti de pegar as carambolas. N\u00e3o seria legal ser dedurado logo ap\u00f3s ter sa\u00eddo de um castigo que durou dois dias inteiros. Sem meus amigos, tudo o que pude fazer foi ler alguns gibis e estrear o caderno de colorir que a minha tia havia me dado de natal. Do ano retrasado.<br>\u2003\u2003\u2014 E por que n\u00e3o? \u2014 Encarei a garota, que pude logo perceber que n\u00e3o era t\u00e3o alta assim, pois o topo de sua cabe\u00e7a batia abaixo do meu ombro, e eu n\u00e3o era, nem de longe, o mais alto da minha turma. \u2014 Voc\u00ea acha que n\u00e3o consigo pegar umas simples carambolas? Tenho 13 anos e sou t\u00e3o forte quanto o Jos\u00e9, da oitava s\u00e9rie.<br>\u2003\u2003A garota ficou me encarando, amuada, como se tentasse desvendar o que eu queria dizer, me comparando com o garoto mais forte do gin\u00e1sio.<br>\u2003\u2003\u2014 O que eu quis dizer, \u00e9 que se voc\u00ea subir, ter\u00e1 problema com as abelhinhas. \u2014 Ela apontou para um ponto pr\u00f3ximo de onde eu estava prestes a subir.<br>\u2003\u2003Olhei na dire\u00e7\u00e3o que seu dedo indicava e pude ver uma colmeia grande, mas n\u00e3o t\u00e3o grande, s\u00f3 que com v\u00e1rias abelhas rodeando, algumas, inclusive, vindo at\u00e9 mim para me mostrar que quem mandava na \u00e1rvore de carambola era elas.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah \u2014 foi o que consegui responder. \u2014 E-eu consigo enfrentar elas! \u2014 Olhei de volta para a garota, que ergueu os ombros e me deu as costas, voltando seu caminho. \u2014 Eu s\u00f3 n\u00e3o irei mexer com elas, porque voc\u00ea pode se machucar!<br>\u2003\u2003A garota parou e virou sua cabe\u00e7a, as duas tran\u00e7as balan\u00e7ando como cordas soltas.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que eu me machucaria? N\u00e3o subi na \u00e1rvore.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea acha que as abelhas saberiam disso? \u2014 Coloquei minhas m\u00e3os na cintura. \u2014 Meu pai disse uma vez que elas n\u00e3o sabem, hum, disti&#8230; disti&#8230; elas n\u00e3o sabem que voc\u00ea n\u00e3o gosta de carambolas!<br>\u2003\u2003\u2014 Mas eu gosto! \u2014 ela gritou, por estar um pouco afastada de mim. Como se eu fosse surdo, oras! \u2014 Elas t\u00eam formato de estrela e s\u00e3o gostosas!<br>\u2003\u2003\u2014 Bem, ent\u00e3o \u00e9 mais uma raz\u00e3o para elas te picarem. \u2014 Ergui os ombros e os soltei. \u2014 \u00c9 por isso que n\u00e3o vou subir l\u00e1. Eu poderia dar uma li\u00e7\u00e3o nelas, se quisesse.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o poderia, n\u00e3o. As picadas de abelha doem muito. Eu j\u00e1 tomei muito. Demorou dias para sarar. Nem o beijo da vov\u00f3 conseguiu parar a dor.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 uma <em>menina<\/em>. \u2014 Sorri. \u2014 Meninas s\u00e3o fr\u00e1geis. Eu sou mais forte! \u2014 Ergui os bra\u00e7os, mostrando como eram longos e fortes. \u2014 Meu pai disse que cresci mais r\u00e1pido do que o Samuel, meu irm\u00e3o mais velho. N\u00e3o vai demorar muito para eu alcan\u00e7a-lo.<br>\u2003\u2003\u2014 A vov\u00f3 disse que meninas s\u00e3o fortes tamb\u00e9m. \u2014 Ela ergueu o bra\u00e7o livre, mas ele n\u00e3o chegava nem perto do comprimento ou \u201cfortura\u201d do meu bra\u00e7o. Humpf. \u2014 \u00c9 por isso que eu posso ir sozinha para a escola e para a minha hortinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas tem medo de abelhaaas \u2014 cantarolei.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque as picadas delas doem! \u2014 A garota bateu um p\u00e9 no ch\u00e3o e pareceu ainda mais brava quando gargalhei. \u2014 Se voc\u00ea acha que n\u00e3o d\u00f3i, ent\u00e3o vai l\u00e1, pega uma carambola.<br>\u2003\u2003Olhei para tr\u00e1s, vendo cerca de vinte ou trinta abelhas em volta da colmeia. Engoli seco. O T\u00f3di, cachorro do Samuel, levou uma picada de abelha uma vez. Ele chorou muito.<br>\u2003\u2003\u2014 E-eu j\u00e1 disse que n\u00e3o vou. N\u00e3o posso levar a culpa se voc\u00ea se machucar com elas&#8230; ai! \u2014 Movi minha m\u00e3o r\u00e1pido ao sentir uma dor aguda em minha m\u00e3o. \u2014 AI!<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o era assim que uma dor de picada de abelha era. Uma mistura de tapa do papai, chute do Samuel e belisc\u00e3o da mam\u00e3e todos juntos.<br>\u2003\u2003A garota me puxou pela m\u00e3o at\u00e9 uma casa branca, bem ao lado da sorveteria da cidade. L\u00e1, ela logo gritou pela av\u00f3:<br>\u2003\u2003\u2014 Vov\u00f3! VOV\u00d3! \u2014 N\u00e3o se importou de eu estar quase sem ar, tamanha dor que sentia, quero dizer, j\u00e1 estava para n\u00e3o sentir mais a m\u00e3o que levou a picada. Meus olhos n\u00e3o desgrudavam da \u00e1rea onde a abelha havia deixado seu ferr\u00e3o. \u2014 Veja! Uma abelha o picou! \u2014 Ouvi a garota gritar e soltar minha m\u00e3o, usando a mesma para apontar para o local machucado.<br>\u2003\u2003\u2014 Santo Deus! \u2014 A voz de uma senhora ecoou. \u2014 Vamos cuidar disso logo, venha, menino!<br>\u2003\u2003Ela me colocou em um banquinho e sumiu em seguida, retornando com um kit de primeiros socorros, uma lupa e uma pin\u00e7a. <br>\u2003\u2003Com tranquilidade, ela come\u00e7ou a me perguntar quem eu era e quem eram os meus pais. Sem perceber, havia lhe contado metade da minha hist\u00f3ria e esquecido do machucado que havia em minha m\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Pronto \u2014 ela disse, prendendo a gaze com um esparadrapo. \u2014 Sua m\u00e3e saber\u00e1 o que fazer mais tarde. Se ela tem uma farm\u00e1cia, ent\u00e3o poder\u00e1 cuidar melhor de voc\u00ea do que essa velha. Voc\u00ea \u00e9 um garoto valente. N\u00e3o chorou nem um pouco.<br>\u2003\u2003\u2014 Chorou sim \u2014 a garota disse ao meu lado. Ela havia permanecido calada o tempo inteiro, prestando bastante aten\u00e7\u00e3o no que a av\u00f3 fazia. \u2014 Quando est\u00e1vamos vindo, ele chorou sim.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o chorei, n\u00e3o! \u2014 gritei, tentando encobrir a verdade dela com a altura de minha voz.<br>\u2003\u2003A senhora soltou uma risadinha e deu dois tapinhas em minhas costas.<br>\u2003\u2003\u2014 Minha Lorena gosta de constranger as pessoas de vez em quando. Mas isso n\u00e3o a faz uma menina ruim. \u2014 E fez um carinho no rosto da menina. \u2014 Que tal um sorvete? Voc\u00eas podem se sentar ali e trarei um para os dois. Que sabor querem?<br>\u2003\u2003\u2014 Morango! \u2014 a garota gritou, animada.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu gosto de chocolate \u2014 disse, vendo a av\u00f3 sorrir e fazer sinal para que fossemos nos sentar.<br>\u2003\u2003Eu e a garota ficamos calados nos encarando. Eu n\u00e3o sabia o que dizer, havia realmente chorado no caminho para c\u00e1, mas tinha vergonha de pedir que ela mantivesse em segredo. Se Samuel soubesse que uma simples abelha me fez chorar, ele zombaria de mim at\u00e9 eu completar 15 anos. E eu havia acabado de fazer 13.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 tudo bem, eu n\u00e3o vou contar pra ningu\u00e9m \u2014 Lorena disse. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o chorou tanto assim.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o chorei nada. \u2014 Meu orgulho me fez dizer.<br>\u2003\u2003Ela ergueu os ombros mais uma vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea diz&#8230;<br>\u2003\u2003Observei a menina balan\u00e7ar as pernas e cantarolar alguma coisa.<br>\u2003\u2003No dia seguinte, quando cheguei na escola, fui surpreendido por uma hist\u00f3ria de que a havia salvo de ser picada por abelhas. Foi a\u00ed que conheci Lorena, da turma B e minha primeira melhor amiga.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>S\u00c3O PAULO, 2017.<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 Doutor. A paciente das 11h j\u00e1 est\u00e1 aguardando.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 irei chama-la, obrigado \u2014 disse, sereno, enquanto terminava de preencher o formul\u00e1rio do \u00faltimo paciente que havia sa\u00eddo h\u00e1 apenas alguns minutos da sala.<br>\u2003\u2003Terminei de digitar o diagn\u00f3stico \u2014 gripe, comum nessa \u00e9poca do ano \u2014 e passei para o pr\u00f3ximo formul\u00e1rio, do paciente das 11h.<br>\u2003\u2003O som do aviso de nova mensagem do celular soou, e a notifica\u00e7\u00e3o logo surgiu na tela do meu computador.<br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o se esque\u00e7a do jantar hoje \u00e0 noite. Voc\u00ea n\u00e3o pode faltar de novo, Caio! \u00c0s 20h.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Ah&#8230; \u2014 solto um gemido e fa\u00e7o uma careta. \u2014 Merda&#8230; \u2014 Olho em meu rel\u00f3gio apenas por for\u00e7a do h\u00e1bito, j\u00e1 que tinha plena no\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio. Abro minha agenda eletr\u00f4nica no computador mesmo e confiro os afazeres do dia.<br>\u2003\u2003<strong>Posto de sa\u00fade \u2018X\u2019.<\/strong><br>\u2003\u2003\u00d3timo. E eu havia aceito fazer o plant\u00e3o de sexta-feira na \u00fanica sexta-feira que tinha programa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o podia simplesmente n\u00e3o ir. O governo fez um bom trabalho em divulgar a necessidade da vacina contra a poliomielite, e agora milhares de pais v\u00eam at\u00e9 o posto de sa\u00fade em busca da medica\u00e7\u00e3o. O plant\u00e3o havia sido decidido desde o come\u00e7o do ano e eu, como pediatra, n\u00e3o poderia me dar por ausente.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai ser uma correria danada \u2014 murmurei.<br>\u2003\u2003Eu j\u00e1 havia faltado em quatro encontros da turma de Guararema. Meus pais haviam dito que n\u00e3o era comum alunos que estudaram juntos no colegial, se reunirem para \u201crelembrar os velhos tempos\u201d. O primeiro encontro aconteceu cinco anos depois de nossa formatura, quando duas garotas se encontraram e decidiram reunir toda a sala para um churrasco. As duas garotas n\u00e3o encontraram dificuldade nenhuma de nos achar e enviar o convite. Eu, obviamente, n\u00e3o pude ir. A data coincidiu com o dia mais intenso do internato, portanto, acabei passando.<br>\u2003\u2003Os tr\u00eas encontros seguintes ocorreram devido ao \u201csucesso\u201d da reuni\u00e3o do grupo. Eduardo, meu melhor amigo de inf\u00e2ncia, disse que a galera se deu muito bem, mesmo depois de tanto tempo, ent\u00e3o n\u00e3o foi dif\u00edcil combinar um novo encontro. Al\u00e9m disso, um grupo no Whatsapp foi criado e, apesar de eu n\u00e3o conseguir acompanhar grande parte da conversa deles \u2014 que se iniciaram nos encontros \u2014, pude relembrar alguns momentos de nossa inf\u00e2ncia juntos.<br>\u2003\u2003S\u00f3 que agora, depois de 12 anos desde a formatura do colegial, eu ainda n\u00e3o havia comparecido em nenhum encontro, e o grupo acabou exigindo a minha presen\u00e7a \u2014 o \u00fanico que n\u00e3o foi em absolutamente nenhum dos encontros, mesmo tendo visto cada um deles, seja para tratar de um filho doente, um rec\u00e9m-nascido ou passar alguma indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de urg\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Jane, pode pedir para a paciente das onze entrar. Poderia tamb\u00e9m, por favor, pedir para minha empregada separar um terno completo e gravata, e pedir para algu\u00e9m trazer para o escrit\u00f3rio? Preciso que ele esteja no meu carro antes de eu ir para o posto de sa\u00fade.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Sem problemas, farei isso agora. O senhor vai querer almo\u00e7ar em sua sala?<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o posso, preciso estar no posto \u00e0 uma e ainda tenho tr\u00eas pacientes para atender. A das dez ainda n\u00e3o chegou?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela disse que chega em dez minutos.<br>\u2003\u2003Suspirei. \u00d3timo dia para a paciente mais pontual de todas atrasar.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem. Obrigado.<br>\u2003\u2003Digitei a tempo uma mensagem para Eduardo, confirmando que n\u00e3o faltaria dessa vez. O grupo topou em fazer a confraterniza\u00e7\u00e3o em um restaurante aqui em S\u00e3o Paulo. Apesar de uma parte da turma morar aqui, mais da metade continuou em Guararema ou as cidades pr\u00f3ximas, o que facilitava que o encontro fosse por l\u00e1. Ningu\u00e9m disse, mas Eduardo deixou escapar que eles podem ter topado, por minha causa.<br>\u2003\u2003Por sorte, dos tr\u00eas atendimentos, somente um demorou mais do que meia hora para acabar. A m\u00e3e de primeira viagem queria garantir que seu beb\u00ea teria todo o suporte quando nascesse e eu havia garantido que n\u00e3o sairia do hospital, caso o rec\u00e9m-nascido apresentasse qualquer anormalidade, por m\u00ednima que fosse. Tudo o que as m\u00e3es precisam, principalmente quando est\u00e3o tendo seus primeiros filhos ou filhas, \u00e9 sentir seguran\u00e7a por parte do m\u00e9dico. Sou \u00f3timo nisso. E \u00f3timo tamb\u00e9m em cumprir com minha palavra.<br>\u2003\u2003\u2014 A paciente de segunda, das nove da manh\u00e3, perguntou se n\u00e3o poderia vir hoje. A encaminhei para o posto, tudo bem, doutor? \u2014 a Jane disse rapidamente ao me ver saindo da sala.<br>\u2003\u2003\u2014 Raquel e Orlandinho? \u2014 Tentei resgatar de minha mem\u00f3ria, meus hor\u00e1rios de segunda.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso. Ela disse que a febre dele ainda n\u00e3o abaixou.<br>\u2003\u2003Suspirei. Raquel havia vindo no primeiro hor\u00e1rio dessa manh\u00e3 e eu avisei que poderia levar um dia, pelo menos, para a febre da crian\u00e7a sumir por completo.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem, ficarei atento no posto. Tente remarcar, se poss\u00edvel, os hor\u00e1rios de segunda. Gostaria de ter o dia livre.<br>\u2003\u2003\u2014 Segunda \u00e9 dia da senhora Pires. Herm\u00ednia Pires.<br>\u2003\u2003Merda.<br>\u2003\u2003Herm\u00ednia era uma m\u00e3e excepcional. Ela j\u00e1 estava em sua quinta crian\u00e7a e ainda cismava em traz\u00ea-las todo m\u00eas para um <em>check-up<\/em> total. Agora, gr\u00e1vida do sexto beb\u00ea, acredita sentir ainda mais necessidade de minha ajuda. Chegou, inclusive, a querer me contratar como m\u00e9dico particular das cinco \u2014 agora seis \u2014 crian\u00e7as, o que eu obviamente recusei.<br>\u2003\u2003O problema de ser pediatra n\u00e3o \u00e9 a agenda lotada e os afazeres em postos de sa\u00fades e hospitais. \u00c9 o simples fato de ter de lidar com as m\u00e3es. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 formado e especializado em pediatria. Voc\u00ea jamais saber\u00e1 mais do que as m\u00e3es. O fato de eu ser um homem torna tudo ainda mais dif\u00edcil. Para algumas delas, falta-me <em>tato<\/em> ou <em>empatia<\/em> para compreender o papel da m\u00e3e na vida do filho. Tudo porque sugeri uma pomada ou um tratamento diferente das que elas estavam acostumadas. Al\u00e9m disso, o fato de ser m\u00e9dico n\u00e3o significa que voc\u00ea possa se cansar. Para algumas m\u00e3es, m\u00e9dicos n\u00e3o dormem. Ou se dormem, \u00e9 bem pouco, o que significa que n\u00e3o h\u00e1 problema ligar para o celular dele \u00e0s duas ou tr\u00eas da manh\u00e3. Mesmo quando ele est\u00e1 de f\u00e9rias.<br>\u2003\u2003\u2014 Invente uma desculpa \u2014 digo, co\u00e7ando a nuca. \u2014 Informe que receberei um novo equipamento na segunda, e gostaria que os filhos dela tenham acesso a ele na ter\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas n\u00f3s n\u00e3o teremos um novo equipamento para mostrar para ela na ter\u00e7a. \u2014 Jane ergueu a sobrancelha. O que mais gosto em minha secretaria, al\u00e9m dela passar um sentimento maternal \u00e0s m\u00e3es das crian\u00e7as que v\u00eam aqui, \u00e9 que ela, como grande parte das mulheres, pensam muito al\u00e9m do presente. Em um piscar de olhos, ela problematizou minha solu\u00e7\u00e3o cinco vezes mais, me obrigando a criar argumentos para todas elas com a \u00fanica desculpa de:<br>\u2003\u2003\u2014 Sou eu que terei de aguentar os resmungos dela no telefone e aqui na sala de espera.<br>\u2003\u2003O que era muito justo.<\/p>\r\n<p align=\"center\">~*~<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003No plant\u00e3o, nada diferente. M\u00e3es perguntando se \u00e9 normal filho n\u00e3o querer comer na hora certa, se faz mal aliment\u00e1-los com determinados alimentos, se j\u00e1 est\u00e1 na hora de tirar a chupeta e quantas vezes mais ter\u00e1 de traz\u00ea-los para vacinar. Milhares de perguntas cujas respostas eu j\u00e1 tinha na ponta de minha l\u00edngua.<br>\u2003\u2003\u2014 Essa foi a \u00faltima, doutor \u2014 a enfermeira disse.<br>\u2003\u2003Olhei em meu rel\u00f3gio. 19h. Eu iria atrasar.<br>\u2003\u2003\u2014 Acha que conseguimos terminar de verificar em meia hora?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu acho bastante dif\u00edcil. \u2014 A mulher arregalou os olhos e olhou para a quantidade de fichas que n\u00f3s t\u00ednhamos para conferir. Precis\u00e1vamos realizar uma verifica\u00e7\u00e3o para o controle das vacinas. Levaria cerca de uma hora. \u2014 Por sorte, deixei tudo organizado por tipos de atendimento, ent\u00e3o economizaremos um tempo. Talvez terminemos em 40 minutos?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00d3timo. \u2014 Sorri. \u2014 Voc\u00ea pode come\u00e7ar? Preciso fazer um telefonema.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro.<br>\u2003\u2003Sa\u00ed da sala e fui at\u00e9 a \u00e1rea externa do posto, onde o sinal poderia pegar melhor. De l\u00e1, liguei para Eduardo, que pelo jeito estava pronto para receber uma not\u00edcia ruim.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea disse que n\u00e3o faltaria.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o vou \u2014 respondi. \u2014 Mas pode ser que eu me atrase um pouco.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Um pouco, alguns minutos, ou um pouco, chegar\u00e1 no final da festa?<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Um pouco, talvez uma hora. \u2014 Olhei em meu rel\u00f3gio. \u2014 Acabaram de fechar o posto e preciso fazer o relat\u00f3rio final. A enfermeira ajudou com a organiza\u00e7\u00e3o, mas preciso rubricar v\u00e1rias coisas e cadastrar para que o m\u00e9dico de amanh\u00e3 n\u00e3o espalhe que sou um profissional ruim.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea pode ser qualquer coisa, Caio, menos um profissional ruim.<\/em> \u2014 Eduardo riu. \u2014 <em>Tudo bem, uma hora \u00e9 suport\u00e1vel e at\u00e9 que bate com o hor\u00e1rio da Lorena. Voc\u00ea ir\u00e1 busca-la, n\u00e3o \u00e9?<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Qu\u00ea? \u2014 Parei meu olhar, que at\u00e9 ent\u00e3o corria de um lado para o outro, observando a movimenta\u00e7\u00e3o da rua. \u2014 Buscar Lorena?<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Cara, voc\u00ea n\u00e3o viu a mensagem da Julia? Ela pediu faz umas cinco horas!<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Que mensagem? Voc\u00eas falam tanto no grupo que-<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Sem essa. Ela disse que mandou uma mensagem em privado para voc\u00ea.<\/em><br>\u2003\u2003Tirei o celular do ouvido e procurei pelo nome de Julia, que realmente estava perdido entre os nomes das m\u00e3es que me enviavam perguntas sobre sintomas dos filhos, grupos da fam\u00edlia, faculdade e resid\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Merda \u2014 murmurei.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Pelo jeito, voc\u00ea n\u00e3o viu a mensagem.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Minha falta de resposta n\u00e3o p\u00f4de ser lida como \u201cn\u00e3o irei busca-la\u201d?<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Estamos falando da Julia. A probabilidade dela ter te mandado uma mensagem para perguntar se voc\u00ea n\u00e3o poderia buscar Lorena \u00e9 menor do que a quantidade de alunos por vaga nos cursos de medicina.<\/em> \u2014 Eduardo riu. \u2014 <em>N\u00e3o, meu caro, se ela te mandou mensagem, \u00e9 porque j\u00e1 estava definido que voc\u00ea buscaria a Lori.<\/em><br>\u2003\u2003Fiquei calado, pasmo com a conclus\u00e3o de Eduardo. Eu sabia que o pessoal de nossa turma n\u00e3o havia mudado muito desde a \u00e9poca da escola, mas jamais imaginaria que a mandona da Julia continuava t\u00e3o mandona quanto era antes. Quero dizer, ningu\u00e9m nunca se atreveu a desobedece-la, quando, em nossa prepara\u00e7\u00e3o para unir dinheiro para a viagem de formatura da oitava s\u00e9rie, Bruno a contrariou, dizendo que n\u00e3o participaria da venda dos doces porque n\u00e3o ia para a viagem. Por causa dele, ou de sua falta de atividade, nossas \u00fanicas op\u00e7\u00f5es de viagem foram um hotel fazenda pr\u00f3ximo de Guararema ou alguns dias em Aparecida do Norte. Ningu\u00e9m ficou feliz. E Julia se tornou a l\u00edder do grupo inteiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o falo com ela h\u00e1 anos! \u2014 digo, me referindo \u00e0 Lorena.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Ah, ent\u00e3o o problema n\u00e3o \u00e9 receber ordem da chefona, mas reencontrar a Lorena.<\/em><br>\u2003\u2003Fechei meus olhos. Eu havia mantido a compostura at\u00e9 agora, mesmo tendo encarado dezenas de pais preocupados que seus filhos fossem ficar paralisados \u2014 ainda que tenhamos explicado centenas de vezes que a vacina era somente uma precau\u00e7\u00e3o. Eduardo, quando inspirado, conseguia ser ainda mais irritante do que Samuel, meu irm\u00e3o mais velho.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe que as coisas n\u00e3o terminaram bem da \u00faltima vez que nos vimos.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Se eu n\u00e3o sei bem? Caio, metade da minha persist\u00eancia em te levar para esse encontro, \u00e9 para que eu possa parar de ouvir sobre voc\u00ea e Lorena!<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Todo mundo ainda se pergunta o porqu\u00ea de voc\u00eas dois terem se separado ap\u00f3s a morte da v\u00f3 Leila.<\/em> \u2014 Ele suspirou. \u2014 <em>J\u00e1 faz dez anos. Voc\u00eas precisam se falar.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 como se estiv\u00e9ssemos nos evitando.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>N\u00e3o?<\/em><br>\u2003\u2003N\u00e3o respondi.<br>\u2003\u2003A verdade era que sim, parte do motivo pela qual eu n\u00e3o compareci \u00e0s reuni\u00f5es anteriores, foi porque imaginava que Lorena pudesse estar l\u00e1.<br>\u2003\u2003Quando terminamos o col\u00e9gio, parte da nossa turma se mudou para S\u00e3o Paulo por conta da faculdade ou do cursinho, enquanto a outra parte se dividia entre mudar para algumas cidades fora de Guararema ou ficar em Guararema. Eu, Eduardo, Bruno e Ca\u00edque dividimos um apartamento no bairro da Liberdade, enquanto Lorena ficou em Guararema, estudando em uma faculdade na cidade de Mogi das Cruzes, bem ao lado da nossa cidade.<br>\u2003\u2003Apesar da dist\u00e2ncia e do meu regresso \u00e0 Guararema ficar cada vez mais raro acontecer, eu e Lorena continu\u00e1vamos conversando via internet. No entanto, no segundo ano, quando eu estava cursando o segundo ano da faculdade de medicina, me vi comparecendo a festas do curso e tamb\u00e9m aos plant\u00f5es que haviam nas f\u00e9rias, al\u00e9m de estudar para conseguir monitoria, que faria bem para minha grande quando eu tentasse fazer minha resid\u00eancia no melhor hospital de S\u00e3o Paulo. Toda essa agenda fez com que eu desse menos e menos aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Lorena. Eu ignorava suas mensagens e e-mails, suas liga\u00e7\u00f5es e at\u00e9 suas visitas, quando ela vinha ver as amigas da nossa turma.<br>\u2003\u2003Foi quando, no meio do segundo ano, Eduardo abriu a porta de nosso quarto e disse:<br>\u2003\u2003\u2014 A v\u00f3 Leila morreu.<br>\u2003\u2003Ningu\u00e9m esperava. Quero dizer, ela era velha, claro, mas t\u00e3o forte que est\u00e1vamos todos crentes que duraria at\u00e9 os cem anos. Ou pelo menos noventa. Mas n\u00e3o. O excesso de medicamentos durante toda a vida lhe causou problemas com sua medula, que parou gradativamente de produzir os gl\u00f3bulos brancos e vermelhos, at\u00e9 que ela enfim perdeu a batalha contra o c\u00e2ncer.<br>\u2003\u2003Foi a primeira vez que faltei em uma aula. O dia seguinte n\u00e3o era t\u00e3o importante, mas isso n\u00e3o significava um bom motivo para faltar. Contudo, estar com Lorena naquele momento sim.<br>\u2003\u2003O que eu n\u00e3o esperava, era que Lorena estivesse l\u00edvida de raiva por eu n\u00e3o ter estado ao lado dela no \u00faltimo ano.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe quantas vezes tentei falar com voc\u00ea? Tentei <em>te ver<\/em>? Que tipo de amigo voc\u00ea \u00e9, afinal? \u2014 ela gritava com toda for\u00e7a que seus pulm\u00f5es conseguiam suportar. \u2014 Sabe quantas vezes vov\u00f3 perguntou de voc\u00ea? Quantas vezes a ouvi me pedir que trouxesse voc\u00ea para que ela pudesse v\u00ea-lo uma \u00faltima vez?<br>\u2003\u2003Recebi v\u00e1rios socos naquele dia. Socos de Lorena, de suas palavras, da dor que havia em seus olhos e em suas l\u00e1grimas.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu espero que voc\u00ea salve muitas vidas, Caio. Milhares, para que compense a sua falta na vida da vov\u00f3 quando ela mais precisou. De que adianta ser m\u00e9dico, se desde o in\u00edcio voc\u00ea n\u00e3o pode salvar vidas? \u2014 ela disse, antes de me deixar plantado do lado de fora de sua casa, ainda no mesmo lugar, ao lado da sorveteria que agora era sua responsabilidade.<br>\u2003\u2003As palavras de Lorena haviam sido duras, mas impensadas, eu sabia. Ela jamais diria tudo aquilo, se n\u00e3o estivesse t\u00e3o magoada quanto se encontrava. Eu nunca cheguei a culpa-la por ter me odiado. A vida em S\u00e3o Paulo era algo fantasticamente novo e eu queria aproveit\u00e1-la ao m\u00e1ximo. Jamais pensaria que deixaria meus amigos para tr\u00e1s. Que trocaria a vida tranquila e repleta de amizades de Guararema, para a competi\u00e7\u00e3o acirrada que havia no mundo da medicina em S\u00e3o Paulo.<br>\u2003\u2003\u2014 Escuta \u2014 comecei a falar \u2014, ser\u00e1 que voc\u00ea&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Desculpe, cara, dessa vez vou ficar te devendo \u2014<\/em> Eduardo disse. \u2014 <em>Estou chegando de Jundia\u00ed agora e ainda vou passar na casa da Julia. Ela ofereceu meu carro de carona para a Luana e a Moraes.<\/em><br>\u2003\u2003Julia, Luana e Moraes (chamada pelo sobrenome porque seu nome tamb\u00e9m era Julia) eram as melhores amigas de Lorena. Julia e Luana moravam em S\u00e3o Paulo, mas desde o primeiro encontro, t\u00eam passado mais tempo juntas do que na \u00e9poca da escola. J\u00e1 Moraes nunca perdeu contato com Luana, o que as tornou o trio parada dura. Julia, a chefona, \u00e9 namorada de Eduardo, uma combina\u00e7\u00e3o um tanto surpreendente, j\u00e1 que na \u00e9poca de escola, Julia estava no grupo das meninas populares e Eduardo apesar de ser soci\u00e1vel, n\u00e3o dava a m\u00ednima para ela.<br>\u2003\u2003Suspirei e encarei o rel\u00f3gio.<br>\u2003\u2003\u2014 Ser\u00e1 que voc\u00ea pode pedir para Julia avisar a Lorena que eu vou me atrasar?<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Bem, isso eu posso fazer por voc\u00ea.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Obrigado.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>N\u00e3o agrade\u00e7a, desconte alguns reais daquilo que eu estou te devendo.<\/em><br>\u2003\u2003Soltei uma risada. Eu jamais cobraria Eduardo pelo dinheiro que eu dei para ele. Havia sido um presente meu para ele quando comprou seu primeiro apartamento. Ele estava decidido a pedir Julia em casamento no final desse ano, ent\u00e3o desde o ano passado tem se dedicado em colocar sua vida em ordem, a come\u00e7ar por uma casa pr\u00f3pria, ou melhor, um apartamento pr\u00f3prio. O \u00fanico obst\u00e1culo, era que o valor da parcela de entrada era maior do que ele era capaz de pagar, o que me fez dar o dinheiro para ele, ao inv\u00e9s de v\u00ea-lo pedir um empr\u00e9stimo ao banco.<br>\u2003\u2003Enquanto eu estava nos primeiros anos de medicina, Eduardo arcou com as minhas despesas, porque meus pais n\u00e3o conseguiam pagar o suficiente para eu viver em S\u00e3o Paulo \u2014 Samuel havia engravidado uma menina e eles tinham de ajuda-lo a ter responsabilidade pela crian\u00e7a \u2014 e eu, com o hor\u00e1rio integral do curso, n\u00e3o podia ficar pegando transporte de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Guararema e vice-versa todos os dias. At\u00e9 ent\u00e3o, ele nunca havia cobrado todo aquele valor. Decidi, ent\u00e3o, quitar minhas d\u00edvidas com seus devidos juros, pagando a entrada do apartamento que ele havia escolhido para sua futura vida conjugal.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea nunca me deveu nada, seu man\u00e9. \u2014 Ri e o ouvi rir de volta. \u2014 Vejo voc\u00ea daqui a pouco.<\/p>\r\n<p align=\"center\">~*~<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Limpei minha garganta e olhei no espelho do retrovisor mais uma vez. A gravata estava impec\u00e1vel e os \u00f3culos de grau estavam bem posicionados em meu rosto. Eu n\u00e3o queria parecer um desleixado depois de dez anos sem ver Lorena.<br>\u2003\u2003Havia mandado uma mensagem para ela h\u00e1 dez minutos informando que eu estava na frente da sa\u00edda do metr\u00f4. Ela havia vindo de Guararema para S\u00e3o Paulo, mas devido a um pequeno problema na sorveteria, s\u00f3 conseguiu chegar na cidade \u00e0s oito e meia. O metr\u00f4 mais perto do meu apartamento e consult\u00f3rio era um tanto distante da esta\u00e7\u00e3o da Luz, de onde ela chegou. Apesar de eu estar longe da minha casa e do meu trabalho por conta do posto de sa\u00fade, n\u00e3o mencionei nada a ningu\u00e9m e continuei com a responsabilidade de pegar Lorena na esta\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Eu batucava os dedos na dire\u00e7\u00e3o, quando a vi saindo do metro com uma mochila nas costas. Abri a boca, pasmo com o fato de ter conseguido identifica-la, j\u00e1 que ela n\u00e3o era mais a garota de 19 anos que vi na&nbsp;\u00faltima vez, durante o vel\u00f3rio da v\u00f3 Leila.<br>\u2003\u2003Dei uma buzinada, chamando sua aten\u00e7\u00e3o. Vi seus olhos pararem em mim e o suspiro que ela deu antes de iniciar sua caminhada at\u00e9 meu carro.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode deixar sua mochila no banco de tr\u00e1s \u2014 disse, abaixando a janela do lado passageiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem \u2014 ela disse, abrindo a porta de tr\u00e1s e jogando a enorme mochila adentro. Em seguida, seguiu para o banco do passageiro. \u2014 Obrigada por ter me esperado.<br>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 tudo bem, moro aqui do lado. E trabalho tamb\u00e9m. \u2014 Sorri, dando partida no carro.<br>\u2003\u2003Ficamos calados. O que eu deveria dizer? <em>Como anda? O que tem feito?<\/em> Talvez&#8230; <em>Voc\u00ea est\u00e1 bonita<\/em>?<br>\u2003\u2003\u2014 Nossa&#8230; \u2014 A voz dela soou. \u2014 Voc\u00ea ainda tem isso?<br>\u2003\u2003Olhei para onde sua m\u00e3o estava. Era um boneco de pano do tamanho de um dedo. Eu e ela hav\u00edamos feito ele como pedido para que o tempo ficasse bom logo, j\u00e1 que eu tinha um ligeiro pavor de trovoadas.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem feito um bom trabalho, na maior parte do tempo.<br>\u2003\u2003Ouvi sua risada.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu nunca esperaria que aquela tempestade fosse parar. Acreditei fortemente que hav\u00edamos criado um monstro quando os trov\u00f5es pararam.<br>\u2003\u2003Eu tamb\u00e9m. O motivo pela qual n\u00f3s criamos esse boneco, foi porque est\u00e1vamos em \u00e9poca de chuva e, em Guararema, a \u00e9poca de chuva costumava ser mais uma \u00e9poca de temporais, repletos de trovoadas e \u00e1rvores sendo derrubadas. At\u00e9 o telhado da igreja uma vez sofreu as consequ\u00eancias. Ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do boneco, nunca mais tivemos tempestades fortes, o que me fez acreditar que bonecos do tempo realmente s\u00e3o m\u00e1gicos.<br>\u2003\u2003\u2014 Que legal que voc\u00ea o transformou em um chaveiro. \u2014 Ela continuou encarando o boneco pendurado no retrovisor do carro.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea ainda tem o seu? \u2014 perguntei, mais na esperan\u00e7a de saber se ela mantinha algo que lembrava a mim com ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Sinto muito, o Beto o comeu j\u00e1 alguns anos.<br>\u2003\u2003Beto era seu cachorro. Ele tamb\u00e9m j\u00e1 havia falecido, de acordo com Eduardo, que ouviu de Julia, que ficou sabendo por Moraes, que manteve contato com Lorena durante todos esses anos, pelo fato das duas terem continuado em Guararema.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem. Espero que ele tenha aproveitado, ent\u00e3o. Sempre me perguntei se o boneco n\u00e3o daria um bom mordedor. Voc\u00ea sabe, como o que os beb\u00eas usam na \u00e9poca que nascem os dentes.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, tenho certeza que sim. Ficou uma semana inteira com o boneco entre os dentes. At\u00e9 que virou fiapo e ele perdeu o interesse. \u2014 Ela sorriu. \u2014 Eu vi seus pais ontem. Meu tio caiu de novo, tive que passar na farm\u00e1cia.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom saber que eles continuam indo para a farm\u00e1cia.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem pouco \u2014 ela disse \u2014, vejo seu irm\u00e3o e Milena sempre. Acho legal como os dois se deram bem depois da turbul\u00eancia que foi o in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o. Quantos anos o Luizinho tem? Dez?<br>\u2003\u2003\u2014 Onze \u2014 disse. \u2014 N\u00e3o pense que sou um bom tio, ele s\u00f3 n\u00e3o me deixa esquecer. \u2014 Suspiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele n\u00e3o deixa <em>ningu\u00e9m<\/em> esquecer \u2014 ela disse, em meio \u00e0 um sorriso.<br>\u2003\u2003N\u00e3o pude pensar em maneiras de estender nossa conversa, pois chegamos logo em seguida ao restaurante reservado por Julia.<br>\u2003\u2003Foi uma \u00f3tima coisa eu ter conseguido vir \u00e0 reuni\u00e3o. Eu sabia que iria me divertir, pois fiz parte da maioria das aventuras que todos mencionavam; al\u00e9m disso, ningu\u00e9m parecia se importar em repetir as hist\u00f3rias que contaram nas reuni\u00f5es passadas, s\u00f3 porque eu estava ali.<br>\u2003\u2003Aqueles que haviam rixas quando eram crian\u00e7as, agora conversavam descontraidamente, como se nunca tivessem se estranhado antes. Alguns, inclusive, compareceram com os filhos, outros, com as namoradas e alguns, noivos(as).<br>\u2003\u2003Olhei para Lorena, que se divertia com uma turma da sala A, relembrando uma hist\u00f3ria que eu certamente n\u00e3o fiz parte, pois ouvi uma delas falar sobre \u201cfesta do pijama\u201d, e me perguntei se ela possu\u00eda algu\u00e9m em Guararema. Apesar de n\u00e3o ser uma cidade grande, Mogi das Cruzes era ali do lado e havia muitas pessoas, principalmente por causa das duas universidades que a cidade abrigava.<br>\u2003\u2003Peguei minha ta\u00e7a de vinho e passei a observ\u00e1-la com mais aten\u00e7\u00e3o, agora que a turma come\u00e7ava a se dispersar ou ir embora por conta das crian\u00e7as. Mais alguns trabalhos aqui e ali, eu n\u00e3o precisava me preocupar em algum dia ter de correr atr\u00e1s de pacientes.<br>\u2003\u2003Os cabelos de Lorena acredito jamais terem deixados de ser da maneira que estavam. Compridos e brilhantes. Quero dizer, talvez estejam mais grossos ou volumosos, mas nada diferente de quando \u00e9ramos mais novos e a v\u00f3 Leila se divertia fazendo suas tran\u00e7as.<br>\u2003\u2003Lembro-me de quando o dia das m\u00e3es e dos pais chegavam, Lorena fingia n\u00e3o se importar em ter de fazer as lembran\u00e7as para sua av\u00f3 e tio, no lugar de sua m\u00e3e ou seu pai. Ambos faleceram quando Lori era muito nova, quase beb\u00ea. Eles estavam voltando de uma viagem que fizeram para comemorar cinco anos de casados, mas um caminh\u00e3o acabou pegando eles. A estrada at\u00e9 Guararema n\u00e3o era segura \u2014 e apesar de ter sido reformada, continua n\u00e3o sendo \u2014 e com frequ\u00eancia carros batiam, rodopiavam e deslizavam. Houve at\u00e9 um que acabou caindo de um barranco.<br>\u2003\u2003Lorena nunca chegou a conhecer, de fato, os pais. Durante nosso crescimento, aprendi que alguns dias eram dif\u00edceis, enquanto a maioria eram f\u00e1ceis. N\u00e3o d\u00e1 para se sentir falta do que nunca teve, mas d\u00e1 para se sentir solit\u00e1rio vendo os outros terem algo que voc\u00ea nunca ter\u00e1.<br>\u2003\u2003Sorri e desviei meu olhar para outro lugar. Outra conversa. Assim com Lorena, todos os outros amigos presentes eram uma novidade para mim, com a exce\u00e7\u00e3o de Eduardo e Julia, quem mantenho um forte contato at\u00e9 hoje.<br>\u2003\u2003No entanto, durante todo o jantar at\u00e9 a hora em que decidimos que era o momento para irmos embora, me peguei olhando para Lorena. Cada vez que me desprendia das conversas em que estava envolvido por causa dela, me via relembrando de alguma cena de nosso passado. Momentos felizes, divertidos, bons de serem relembrados.<br>\u2003\u2003\u2014 Caio, ser\u00e1 que posso falar contigo? \u2014 Eduardo me puxou para um canto, enquanto as garotas continuavam suas conversas. \u2014 Houve um problema.<br>\u2003\u2003\u2014 Com o qu\u00ea? O trabalho? \u2014 Olhei para ele, preocupado, mas logo o vi negar com a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me mate, mas preciso que voc\u00ea fa\u00e7a um favor.<br>\u2003\u2003\u2014 Um favor?<br>\u2003\u2003\u2014 Para Julia.<br>\u2003\u2003\u2014 Julia?!<br>\u2003\u2003\u2014 Shhh! \u2014 Ele levou o dedo indicador \u00e0 boca, fazendo com que eu me calasse. \u2014 Ela calculou mal. Achou que Lorena poderia dormir no ap\u00ea dela, mas esqueceu que est\u00e1 colocando ele em ordem; diga-se, pintando-o; e o local est\u00e1 praticamente inabitado. Ela ficar\u00e1 l\u00e1 em casa, mas&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00eas n\u00e3o se veem h\u00e1 duas semanas \u2014 disse, lembrando de todo o muxoxo que eu ouvi de Eduardo. \u2014 E as garotas?<br>\u2003\u2003\u2014 Julia falou com elas mais cedo. Luana se mudou para a casa do namorado e Moraes pernoitar\u00e1 l\u00e1. Mas s\u00f3 tem um quarto, ent\u00e3o Moraes j\u00e1 ter\u00e1 de dormir no sof\u00e1. \u2014 Ele olhou no rel\u00f3gio. \u2014 Lorena disse que ficaria na rodovi\u00e1ria esperando o pr\u00f3ximo \u00f4nibus para Mogi.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea? De jeito nenhum! \u2014 falei, um pouco mais exaltado do que deveria estar.<br>\u2003\u2003\u2014 Logo, a\u00ed est\u00e1 o favor \u00e0 Julia. E eu&#8230; \u2014 Ele riu, sem gra\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem, por mim n\u00e3o tem problema. Tenho quarto para ela. Para Moraes tamb\u00e9m, se ela preferir dormir em uma cama.<br>\u2003\u2003\u2014 Falarei com a Ju agora. \u2014 Eduardo meu deu um forte abra\u00e7o. \u2014 \u00c0s vezes eu acho que nossa amizade \u00e9 mais conveniente para mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tenho meus momentos tamb\u00e9m, Du. \u2014 Sorri. \u2014 Ningu\u00e9m quer ter amizade com um cara que nunca tem tempo para nada.<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda acho que voc\u00ea deveria se mudar para o mesmo pr\u00e9dio que eu.<br>\u2003\u2003\u2014 E ter que ver voc\u00ea todos os dias? Ou pior. Ver a Julia? \u2014 Ergui uma sobrancelha. \u2014 N\u00e3o, obrigado.<br>\u2003\u2003Eduardo riu e me deu um tapa de leve no bra\u00e7o, se afastando para contar \u00e0s mulheres sobre minha oferta. Voltei a uma conversa com Bruno e sua esposa, que haviam acabado de ter o primeiro filho. Eles n\u00e3o estavam muito satisfeitos com o pediatra deles, porque o homem estava para se aposentar, ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estava t\u00e3o esfor\u00e7ado quanto antes, mas n\u00e3o havia outro com um pre\u00e7o razo\u00e1vel para atende-los. Logo, decidi fazer um pro bono para os dois e combinei que veria o pequeno Hiago no dia seguinte, apenas para garantir que estava tudo certo e pedir por alguns exames.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o. \u2014 Julia surgiu no meio de nossa conversa. \u2014 O desaparecido se tornou o salvador das donzelas.<br>\u2003\u2003Olhei para Julia, que sorriu para mim. Encarei Bruno e sua esposa, que compreenderam ainda menos que eu sobre o que ela falava.<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que voc\u00ea tivesse sua pr\u00f3pria mulher, Caio \u2014 ela continuou.<br>\u2003\u2003\u2014 At\u00e9 onde eu sei, estou solteiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda? \u2014 Bruno abriu a boca. \u2014 Se voc\u00ea quiser, Bri tem algumas amigas do curso&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Estou por op\u00e7\u00e3o, mas obrigado, Bruno. \u2014 Sorri para ele, que apenas fez uma careta de quem n\u00e3o aprovava a situa\u00e7\u00e3o. \u2014 N\u00e3o h\u00e1 muito tempo para namoradas no in\u00edcio da carreira.<br>\u2003\u2003\u2014 Nunca teve tempo para nada, voc\u00ea quer dizer. \u2014 Julia ergueu uma sobrancelha. \u2014 Namoradas \u00e9 apenas uma delas.<br>\u2003\u2003\u2014 Ju&#8230; \u2014 Eduardo chegou e sorriu sem gra\u00e7a para mim, que com meu olhar perguntei o que diabos estava acontecendo.<br>\u2003\u2003\u2014 De qualquer maneira, obrigada por acolher as meninas na sua mans\u00e3o. Veja se n\u00e3o se aproveita delas, me ouviu?<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpe, acho que est\u00e1 na hora de irmos.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m acho. \u2014 Moraes olhou feio para Julia, que apenas ergueu os ombros em meio a uma express\u00e3o alterada do \u00e1lcool e deixou ser levada por Eduardo, que disse que me ligaria no dia seguinte para beberem algo. \u2014 Escuta, apesar da embriaguez da Julia, obrigada de verdade por nos oferecer seu apartamento. \u2014 Ela me encarou. \u2014 Eu realmente n\u00e3o queria dormir no sof\u00e1. E nem Lori na rodovi\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9, Lori?<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea? \u2014 Ela me encarou. \u2014 Ah, sim. Obrigada.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o tem de qu\u00ea \u2014 respondi. \u2014 N\u00f3s podemos ir ou voc\u00eas querem ficar mais um pouco?<br>\u2003\u2003\u2014 Podemos ir, claro! \u2014 Moraes se sobressaltou. \u2014 Voc\u00ea se importa de passarmos no ap\u00ea da Lu? Deixei minhas coisas l\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, s\u00f3 preciso do endere\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Ai que \u00f3timo, obrigada, Caio.<br>\u2003\u2003Moraes foi falando durante todo o percurso at\u00e9 a casa do namorado de Luana e ent\u00e3o de volta para meu apartamento. Lorena manteve-se calada, comentando algo aqui ou ali quando eu ou Moraes a coloc\u00e1vamos no assunto. Ela decidiu ir no banco de tr\u00e1s, alheia ao meu campo de vis\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Fiquem \u00e0 vontade. <br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea se importa se eu fumar?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea se importa de fumar na sacada? \u2014 perguntei, abrindo a porta balc\u00e3o para \u00e1rea que, apesar de externa, era coberta e muito bem mobiliada, gra\u00e7as \u00e0 designer de interiores que paguei para deixar minha casa habit\u00e1vel para os meus pais.<br>\u2003\u2003\u2014 Uau \u2014 ela disse. \u2014 De jeito nenhum. Eu posso at\u00e9 dormir aqui, se quiser.<br>\u2003\u2003Dei uma risada e deixei tudo preparado da maneira mais confort\u00e1vel poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o preciso dizer que voc\u00ea pode pegar o que quiser.<br>\u2003\u2003\u2014 At\u00e9 os vinhos?<br>\u2003\u2003\u2014 Inclusive os vinhos. \u2014 Suspirei. \u2014 N\u00e3o tenho h\u00e1bito de beber sozinho e tirando Eduardo e minha fam\u00edlia, voc\u00eas s\u00e3o as primeiras convidadas a me visitar.<br>\u2003\u2003\u2014 Caraca. E da onde surge tanto vinho?<br>\u2003\u2003\u2014 Presente de clientes, a maioria. Eles acham que m\u00e9dicos curtem se embebedar.<br>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o curtem? \u2014 Ela riu.<br>\u2003\u2003\u2014 Esse aqui pelo menos, n\u00e3o. \u2014 Ri tamb\u00e9m. \u2014 Eu vou entrar, preciso de um banho.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro, voc\u00ea est\u00e1 trabalhando desde manh\u00e3. \u2014 Ela se levantou. \u2014 Boa noite, Caio.<br>\u2003\u2003\u2014 Boa noite, Moraes. \u2014 Sorri, come\u00e7ando a fechar a porta balc\u00e3o para deixa-la encostada, quando sou chamado novamente, de modo que pausei meu movimento com a porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea que hoje \u00e9&#8230; \u2014 Ela apontou para dentro, onde Lorena estava tomando um banho.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Hoje faz onze anos \u2014 ela somente disse, o que foi suficiente para mim compreender.<br>\u2003\u2003Olhei no rel\u00f3gio que ainda mantinha em meu pulso para ver que j\u00e1 hav\u00edamos passado da meia-noite h\u00e1 um tempo. 18 de setembro foi exatamente o dia quando a v\u00f3 Leila perdeu para o c\u00e2ncer.<br>\u2003\u2003\u2014 Apesar de n\u00e3o parecer, ela ainda sente muito a perda da v\u00f3 Leila \u2014 Moraes sussurrou.<br>\u2003\u2003Assenti, crente que ela tinha raz\u00e3o. N\u00e3o havia mais o que falar, ent\u00e3o deixei minha m\u00e3o terminar o trabalho de fechar a porta balc\u00e3o e segui a caminho do meu quarto. Quando cheguei \u00e0 porta, olhei para a porta do quarto ao lado do meu, onde Lorena estava acomodada. Vi que a luz estava acesa, mas n\u00e3o havia sinal do chuveiro estar ligado.<br>\u2003\u2003Resolvi encarar o peso que minha consci\u00eancia fazia desde a morta da v\u00f3 Leila e caminhei at\u00e9 a porta do quarto de Lorena, batendo levemente tr\u00eas vezes.<br>\u2003\u2003N\u00e3o demorou muito para ela abrir. Quase tomei um susto, pois Lorena usava os cabelos presos em duas tran\u00e7as, assim como o dia em que a conheci.<br>\u2003\u2003\u2014 Aconteceu algo? \u2014 ela perguntou.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, \u00e9&#8230; \u2014 tentei falar, mas as palavras simplesmente se perderam no meio do caminho. Fiquei encarando ela, com aquelas tran\u00e7as, e pude enxergar a menina no macac\u00e3o jeans, as botas vermelhas e o chap\u00e9u de palha, cuja sombra cobria o rosto inteiro.<br>\u2003\u2003Apesar de Lorena estar mais de 15 anos mais velha, era como se nada tivesse mudado. Eu continuava mais alto e r\u00edgido. Ela continuava com o mesmo olhar calmo e a postura despreocupada.<br>\u2003\u2003\u2014 Sei que est\u00e1 cansada \u2014 comecei a falar \u2014; acabei batendo sem pensar.<br>\u2003\u2003\u2014 Precisa me dizer algo? \u2014 Ela me encarou, seus olhos esperando tudo e ao mesmo tempo nada.<br>\u2003\u2003Me perdi pensando em quantas vezes quis que Lorena dissesse, atrav\u00e9s de seu olhar, o que queria que eu fizesse. Quando eu cometia algum erro com ela ou quando eu estava prestes a fazer algo que achava ser melhor se tivesse sua aprova\u00e7\u00e3o. De uma maneira ou de outra, eu sempre precisei do apoio de Lorena, e foi exatamente por isso que decidi me tornar pediatra. \u00c9 muito mais f\u00e1cil ser um dos apoios fundamentais de crian\u00e7as e da fam\u00edlia no geral.<br>\u2003\u2003\u2014 H\u00e1 muito eu preciso te dizer algo \u2014 disse. \u2014 Para ser sincero, eu preciso dizer muito. \u2014 Engoli seco, vendo que ela n\u00e3o moveu um fio de sua sobrancelha para me mostrar uma rea\u00e7\u00e3o. Seus olhos mantiveram-se atentos em mim. Limpei a garganta. \u2014 Acima de todas as coisas que preciso te dizer, est\u00e1 uma que&#8230; bem. Me desculpe \u2014 pausei, pensando em como tornar meu pedido de desculpas mais real e sincero. \u2014 Depois que paramos de nos falar, tive tempo suficiente para rever todas as minhas atitudes. N\u00e3o fui justo com voc\u00ea. N\u00e3o fui, nem de perto, o amigo que talvez voc\u00ea achava que eu fosse.<br>\u2003\u2003\u2014 Caio&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Foi o fasc\u00ednio. \u2014 Entrei no quarto dela quando vi uma brecha e sentei-me na poltrona que havia em um lado do quarto. Lorena fechou a porta atr\u00e1s de si e sentou-se na poltrona oposta. \u2014 Toda aquela vida aqui em S\u00e3o Paulo&#8230; o rumo \u00e0 independ\u00eancia dos meus pais&#8230; a necessidade de ser algu\u00e9m maior do que esperavam de mim&#8230; eu estava extasiado com tudo aquilo, Lorena. Foi por isso que me afastei.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o fazia parte desse novo mundo.<br>\u2003\u2003\u2014 O pior \u00e9 que fazia. Voc\u00ea e Eduardo \u2014 disse, com um meio sorriso. \u2014 As duas \u00fanicas pessoas que cuidaram de mim sem me fazer sentir um completo tolo. O problema era que voc\u00ea estava longe. Eduardo sempre esteve ao meu lado. Quero dizer, divid\u00edamos um quarto, n\u00e3o dava para me afastar dele nem que quisesse. Al\u00e9m disso, ele pagava as minhas contas.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele pagava? \u2014 Ela arregalou os olhos. Assenti. \u2014 Achei que seus pais&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Eles estavam com medo de estragar a vida do Samuel. Achavam que porque eu fazia medicina, teria um futuro mais garantido. E Samuel havia engravidado Milena. Os dois estavam perdidos. Meus pais acharam melhor ajuda-lo. N\u00e3o tenho m\u00e1goa nenhuma. Eles apenas se esqueceram de que para eu ter um futuro promissor e garantido, era necess\u00e1rio que primeiro me formasse. \u2014 Ri, sem gra\u00e7a. \u2014 Eduardo me ajudou. Inventou para o tio Jorge que o cursinho havia ficado mais caro. Com aquilo, conseguia pagar minha parte das contas.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que n\u00e3o me contou?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe como eu era. Todo mach\u00e3o. \u2014 Ri, vendo um sorriso em seu rosto. \u2014 Voc\u00ea estava fazendo enfermagem, seguindo sua vida, mostrando do que era capaz. Eu queria fazer o mesmo. Se voc\u00ea soubesse que eu n\u00e3o tinha nem como pagar minhas contas&#8230; o fasc\u00ednio se quebraria.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro. Nada de independ\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso. Mas n\u00e3o pensei que minha falta de valor sobre voc\u00ea fosse nos afetar tanto. Quero dizer, quando as pessoas est\u00e3o aqui, voc\u00ea n\u00e3o pensa que ir\u00e1 perde-las at\u00e9, de fato, elas n\u00e3o estarem mais aqui. E ent\u00e3o era tarde demais.<br>\u2003\u2003Ficamos calados. N\u00e3o pude olhar para Lorena. Ela me lembrava tudo agora. Nossa inf\u00e2ncia. Adolesc\u00eancia. A v\u00f3 Leila.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu o vi uma vez, h\u00e1 alguns anos, no t\u00famulo da vov\u00f3 \u2014 Lorena disse. \u2014 Tio Tupi disse que voc\u00ea sempre passa l\u00e1 quando volta para Guararema.<br>\u2003\u2003\u2014 A v\u00f3 Leila, assim como para todo mundo na cidade, tamb\u00e9m foi como uma m\u00e3e para mim. \u2014 Abri um pequeno sorriso. \u2014 Parte de mim foi porque queria ver voc\u00ea, se desculpar, arranjar uma maneira de me redimir. Mas a maior parte foi porque eu queria que ela voltasse a viver para que eu pudesse fazer certo.<br>\u2003\u2003Arrisquei encarar Lorena, mas a cena foi pior do que eu imaginava. Seus olhos estavam vermelhos e as l\u00e1grimas ca\u00edam sem parar pelo rosto. Era a pequena Lori, mas com a apar\u00eancia de uma Lori madura. Ainda assim, ela n\u00e3o parecia nada segura. Parecia&#8230; desamparada.<br>\u2003\u2003Foi por isso que sem pensar me levantei de minha poltrona e fui at\u00e9 ela apert\u00e1-la em um forte abra\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 E-eu sinto falta dela&#8230; \u2014 Ela chorou em minha camisa. \u2014 Todos os dias&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei \u2014 sussurrei, acariciando a cabe\u00e7a dela.<br>\u2003\u2003\u2014 E-e de repente eu n\u00e3o tinha a vov\u00f3 e-e nem voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi minha culpa, me desculpe. \u2014 Fechei os olhos, tentado evitar imaginar o tamanho da dor que Lori sentiu naquela \u00e9poca. \u2014 A culpa foi toda minha, Lorena.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu poderia ter me esfor\u00e7ado mais. Obrigado voc\u00ea me ouvir.<br>\u2003\u2003 Respirei fundo e segurei em seus ombros, afastando-a de mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o pode viver de \u201cse\u2019s\u201d, Lorena. \u2014 Encarei seus olhos, s\u00e9rio. \u2014 As coisas aconteceram daquela maneira. Passou. \u2014 Limpei suas l\u00e1grimas. \u2014 E eu estou aqui agora. E mesmo que voc\u00ea n\u00e3o queira, eu continuarei aqui. E ficarei aqui para sempre.<br>\u2003\u2003\u2014 Aqui? \u2014 Ela olhou para mim assustada.<br>\u2003\u2003\u2014 Com voc\u00ea, \u00e9 claro. \u2014 Me sentei no ch\u00e3o \u00e0 sua frente. \u2014 E eu vou cuidar de voc\u00ea. Cuidar do seu tio, assim como cuidarei dos meus pais e do meu irm\u00e3o. Do meu sobrinho e da minha cunhada. E de Eduardo. E at\u00e9 Julia, apesar de \u00e0s vezes achar que nossos santos n\u00e3o se batem.<br>\u2003\u2003Lorena riu com meu \u00faltimo coment\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2014 Julia \u00e9 assim com todo mundo que ama.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o coitado do Du. \u2014 Ergui os ombros, trazendo mais risadas ao ambiente.<br>\u2003\u2003Esperei que Lorena se acalmasse, para ent\u00e3o me levantar e voltar a sentar em minha poltrona, depois de traz\u00ea-la mais para perto dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o pode cuidar de todo mundo \u2014 ela disse em meio \u00e0 um sorriso. \u2014 Est\u00e1 aqui em S\u00e3o Paulo, e todos n\u00f3s estamos em Guararema.<br>\u2003\u2003\u2014 Meus pais v\u00e3o se mudar para c\u00e1. Mam\u00e3e quer mudar de ares e meu pai quer tentar deixar Samuel cuidar de tudo sozinho. Estamos planejando a mudan\u00e7a h\u00e1 meses. \u2014 Suspirei. \u2014 Comprei um apartamento para os dois aqui nesse pr\u00e9dio. \u00c9 melhor para mim. Eles j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais jovens e a localiza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3tima para os dois. H\u00e1 muitas coisas para eles fazerem, como aulas de dan\u00e7a, artesanato e futebol para meia idade.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 perfeito para eles. \u2014 Ela sorriu.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea pode vir para c\u00e1 terminar o curso de enfermagem \u2014 disse.<br>\u2003\u2003Lorena arregalou os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o posso, tio Tupi&#8230; a sorveteria&#8230; era o sonho da vov\u00f3.<br>\u2003\u2003\u2014 Seu tio Tupi est\u00e1 muito bem encaminhado com a nova namorada, que eu saiba. \u2014 Ergui uma sobrancelha. \u2014 N\u00e3o foi o que Moraes disse mais cedo no jantar? \u2014 Lorena abriu a boca, mas n\u00e3o pode falar nada. \u2014 Se ele chegar a se casar, ser\u00e1 um grande interesse para ele ter o pr\u00f3prio neg\u00f3cio. Al\u00e9m disso, tenho certeza que ele n\u00e3o se importar\u00e1 nem um pouco de deixar voc\u00ea viver a sua vida.<br>\u2003\u2003Vi Lori hesitar. Ela n\u00e3o sabia, mas todo mundo sabia que o tio Tupi havia tentado convenc\u00ea-la, sem \u00eaxito, a seguir o sonho dela se tornar enfermeira.<br>\u2003\u2003\u2014 Vov\u00f3 queria que eu cuidasse da sorveteria \u2014 ela murmurou.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. O sonho da v\u00f3 Leila era que voc\u00ea n\u00e3o fosse igual a ela.<br>\u2003\u2003Lorena sabia o que eu queria dizer. A v\u00f3 Leila foi, assim como Lorena tentou ser uma vez, uma enfermeira completa. Cursada. Foi na profiss\u00e3o que conheceu o av\u00f3 de Lorena e por causa disso que acabou optando por ficar com o marido e ajuda-lo na sorveteria. No entanto, desde quando \u00e9ramos pequenos, ela sempre disse que Lorena deveria ser o que quisesse.<br>\u2003\u2003A ouvi fungar o nariz e respirar fundo.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sei se tenho idade para come\u00e7ar um curso de enfermagem.<br>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 brincando? Eu ainda nem me decidi no que quero focar em meu pHd. \u2014 Sorri. \u2014 Al\u00e9m disso, tudo o que voc\u00ea precisa fazer \u00e9 estudar, entrar em um curso e se formar. Os est\u00e1gios, indica\u00e7\u00f5es e trabalho, eu mesmo poderei cuidar disso para voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea? \u2014 Ela riu. <br>\u2003\u2003\u2014 Sim. Eu sou m\u00e9dico, lembra? E muito bom, por sinal.<br>\u2003\u2003\u2014 Vejo que seu ego continua o mesmo. \u2014 Ela riu.<br>\u2003\u2003\u2014 Nah&#8230; \u2014 Sorri para ela, vendo finalmente a alegria retornar, aos poucos, ao rosto que tanto passei observando durante a vida. \u2014 Voc\u00ea quem me faz voltar a ser aquela crian\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Aquela crian\u00e7a?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9. Voc\u00ea sabe. \u2014 Ergui meus ombros. \u2014 Aquela crian\u00e7a que queria ser o seu her\u00f3i.<\/p>\r\n<div class=\"nota\">\r\n<h3 align=\"center\">Fim<\/h3>\r\n<\/div>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003GUARAREMA, 2001. \u2003\u2003S\u00c3O PAULO, 2017. ~*~ ~*~ Fim<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[731],"class_list":["post-1988","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-aquela-crianca"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/1988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1988"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=1988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}