{"id":1880,"date":"2018-10-06T21:14:00","date_gmt":"2018-10-07T00:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-08-20T21:16:10","modified_gmt":"2025-08-21T00:16:10","slug":"capitulo-unico-61","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/faisca-de-forca\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"capitular1\">A<\/span>s batidas na porta eram incessantes, assim como a indaga\u00e7\u00e3o de meio mundo querendo saber se eu estava bem. A cada cinco minutos a voz de algum parente se fazia presente e eu apenas ignorava, como j\u00e1 vinha feito desde ontem. N\u00e3o sa\u00ed do meu quarto e nem tinha pretens\u00e3o, eu precisava de um tempo para associar e desfazer o n\u00f3 que minha cabe\u00e7a insistia em produzir.<br \/>\u2003\u2003H\u00e1 coisas que eu realmente n\u00e3o queria entender.<br \/>\u2003\u2003Virei meu corpo de lado, dando de cara com uma foto <em>nossa<\/em>. A paz e calmaria invadiu meu peito ao olhar minha namorada t\u00e3o serena e encantadora, e eu, como sempre, com uma fei\u00e7\u00e3o abobalhada de tanto admir\u00e1-la.<br \/>\u2003\u2003Aisha era, de longe, a garota mais inteligente e linda que eu j\u00e1 conheci, seu sorriso podia ser facilmente considerado uma obra de arte. Ela havia me dado essa porta retrato dizendo que aquela era melhor foto que t\u00ednhamos, e eu n\u00e3o podia negar. O jeito que Isha vinha toda manhosa deitar sua cabe\u00e7a no meu peito e pedia para que eu cantarolasse qualquer m\u00fasica de sua banda favorita, provocava em mim uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o gostosa que eu quase cantava o CD inteiro s\u00f3 para v\u00ea-la feliz. E era assim que costum\u00e1vamos levar nossas vidas, simples e com um toque de algum musical da Disney.<br \/>\u2003\u2003Eu me lembro bem desse dia da fotografia, ainda mais do impacto que ele est\u00e1 causando at\u00e9 hoje.<br \/><em>\u2003\u2003Era por volta de cinco e meia da manh\u00e3 quando escutei as pedras sendo jogadas na minha janela. Levantei e abri, revelando ser Aisha com v\u00e1rias pedrinhas na m\u00e3o e rindo bastante da minha express\u00e3o. Vesti meu casaco e desci pela escada que eu constru\u00ed, j\u00e1 que quando mais novo eu gostava de sair escondido e n\u00e3o podia sair pela porta da frente. Fui recebido com um abra\u00e7o bem apertado e in\u00fameros beijos pelo meu rosto, sendo retribu\u00eddos rapidamente. Entrela\u00e7amos nossos dedos e deixei que ela me guiasse para o nosso esconderijo, que n\u00e3o ficava muito longe da minha moradia. \u00cdamos sentindo a brisa fresca do amanhecer, o sol t\u00edmido escondido atr\u00e1s das nuvens liberava pequenos raios para contar presen\u00e7a na vizinhan\u00e7a e Isha ia falando sobre a previs\u00e3o do tempo que sua v\u00f3 insistia em acompanhar todos os dias. Adentramos o dep\u00f3sito abandonado e subimos as escadas que dariam acesso ao nosso cantinho, e eu me aprontei a acender as velas e Aisha fechou as cortinas improvisadas. Desde que come\u00e7amos a namorar, achamos esse lugar e decidimos reformar para que ficasse do jeitinho que quer\u00edamos e \u00e9ramos. N\u00f3s t\u00ednhamos muitas coisas em comum, inclusive os problemas familiares que nos afetavam bastante. Esse dep\u00f3sito foi a nossa forma de conseguir escapar um pouco da realidade e esfriar a mente, podendo passar algumas horas curtindo o nosso amor sem nenhuma interrup\u00e7\u00e3o. Eu achei que ela tinha me trazido aqui para fugir da fam\u00edlia, j\u00e1 que sua m\u00e3e e seu padrasto vinham discutindo bastante, e isso envolvia sua v\u00f3, que passava algumas semanas na sua casa, que ficava contra a pr\u00f3pria filha. Seus parentes nunca foram os mais unidos, e duvido que tenha algo que os fa\u00e7am ficarem pr\u00f3ximos novamente. Meus pais adoravam Aisha, se pudessem troca-la comigo para ser sua filha o fariam na primeira oportunidade. Eles n\u00e3o me odeiam, apenas temos in\u00fameras diverg\u00eancias que acabam em brigas constantes e em choros dos meus irm\u00e3os menores. Isha, por outro lado, queria gostar bastante dos seus sogros, mas n\u00e3o conseguia por conta de v\u00e1rios epis\u00f3dios presenciados de troca de farpas.<br \/>\u2003\u2003Sentei no enorme pufe lil\u00e1s e fiquei observando minha namorada que estava com a cabe\u00e7a para fora da janela, reparando no c\u00e9u.<br \/>\u2003\u2003- Eu vou sentir falta disso. &#8211; sua voz era quase inaud\u00edvel e dava para perceber que algo n\u00e3o estava certo.<br \/>\u2003\u2003- Como assim, meu bem? &#8211; endireitei minha postura e estiquei minha m\u00e3o para Aisha vir pra perto.<br \/>\u2003\u2003- Eu fui no meu m\u00e9dico ontem, Trevor. Meu c\u00e2ncer voltou. E trouxe mais tr\u00eas amigos. E eu n\u00e3o quero mais fazer a quimioterapia porque vai ser pesado demais e isso s\u00f3 aumentaria dois meses do meu prazo. Eu n\u00e3o quero ser mais forte, Trev.<br \/>\u2003\u2003Eu a abracei bem forte e sussurrei que estava tudo bem. O sil\u00eancio era cortado pelo som das nossas respira\u00e7\u00f5es, e meu rosto sentia cada l\u00e1grima. Minha garganta queimava e ind\u00edcios da ansiedade surgiam, mas tentei me controlar ao m\u00e1ximo por conta da Aisha. Ela me apertava contra si, com o rosto escondido no meu pesco\u00e7o e seus p\u00e9s levantados, por conta da nossa diferen\u00e7a de altura. Ao contr\u00e1rio de mim, n\u00e3o chorava, e eu sabia que isso era pior do que Isha derramar um rio de l\u00e1grimas. Aisha sempre sofreu sozinha, assim como era o jeito que preferia resolver as suas coisas. As poucas vezes que ela ficava quieta eram as mais preocupantes, porque s\u00e3o os piores acontecimentos que estavam a afetando terrivelmente. Eu a vi desse jeito duas vezes e pude ter a no\u00e7\u00e3o do quanto minha menina \u00e9 forte por passar por todos os obst\u00e1culos e no final, continuar com aquele puta sorriso no rosto.<br \/>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que ela \u00e9 mais forte do que qualquer pessoa possa imaginar, inclusive, mais do que a mesma acredita.<br \/>\u2003\u2003- Ei, est\u00e1 tudo bem, okay? Eu estou aqui e eu tenho a certeza de que voc\u00ea \u00e9 a pessoa mais incr\u00edvel que eu conhe\u00e7o. Est\u00e1 tudo certo em n\u00e3o querer ser mais forte, mas preciso te lembrar que isso \u00e9 algo evidente em ti. &#8211; segurei seu rosto e acariciei suas bochechas &#8211; N\u00e3o seja t\u00e3o dura consigo, meu bem.<br \/>\u2003\u2003- A gente pode deitar um pouco? &#8211; assenti, ajeitando o pufe e pegando a nossa manta. Nos deitamos e a envolvi com meus bra\u00e7os, deixando-a o mais aquecida poss\u00edvel.<br \/>\u2003\u2003- Obrigada por tudo, Trev.<br \/><\/em>\u2003\u2003Beijei a sua testa e comecei a cantarola sua m\u00fasica favorita. Um pouco depois, percebi que ela havia adormecido e fiquei admirando o seu rosto t\u00e3o sereno e a sua boca entreaberta, at\u00e9 dormindo conseguia ser um amor de pessoa. Dei um sorriso e fechei meus olhos, pegando no sono demoradamente.<br \/>\u2003\u2003E l\u00e1 estava eu, lembrando mais uma vez desse dia com os olhos marejados. Independente da not\u00edcia, um filme passava pela minha cabe\u00e7a dia p\u00f3s dia, com v\u00e1rios momentos nossos. As batidas haviam finalmente cessado, e eu vi que j\u00e1 eram 14h15. Durante seus tr\u00eas meses, vivemos do melhor modo que pod\u00edamos. Transformamos aquele quarto de hospital em nosso cantinho, no mesmo estilo do dep\u00f3sito. Quando eu chegava l\u00e1 com o viol\u00e3o, eu recebia um olhar t\u00e3o brilhante que deixava meu corpo em \u00eaxtase. N\u00e3o havia sensa\u00e7\u00e3o melhor do que ver o meu potinho de felicidade toda animada porque ir\u00edamos cantar v\u00e1rias m\u00fasicas dos filmes da Disney. Eu dormia toda noite com ela, indo para casa de manh\u00e3 cedo para tomar banho e comer alguma coisa. Seus familiares iam visita-la praticamente todos os dias, e era triste pensar que precisou Aisha ficar doente para uni-los de uma vez por todas. At\u00e9 suas tias que moravam nas cidades vizinhas vieram.<br \/>\u2003\u2003Nos seus \u00faltimos dias, Isha estava debilitada, mas ainda permanecia com seu sorriso manhoso. Ela dizia que n\u00e3o queria que as pessoas tivessem sua \u00faltima imagem com ela tristonha e esperando a morte. Aisha queria que todos vissem o qu\u00e3o feliz e amada se sentia e grata por ter o apoio de todos. Eu nunca achei que seu ato era ego\u00edsta, minha menina s\u00f3 queria descansar e isso \u00e9 um direito dela. \u00c9 claro que eu queria que sua doen\u00e7a tivesse sumido para sempre e que ela ainda estivesse aqui, mas eu entendo a sua luta, e essa escolha foi uma das coisas mais fortes que j\u00e1 pude presenciar em toda a minha vida.<\/p>\r\n<div class=\"nota\">\r\n<h3 style=\"text-align: center;\">Fim<\/h3>\r\n<\/div>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[684],"class_list":["post-1880","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-faisca-de-forca"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/1880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=1880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}