{"id":1877,"date":"2018-06-19T16:13:38","date_gmt":"2018-06-19T19:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-09-11T12:04:41","modified_gmt":"2025-09-11T15:04:41","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/dor-de-cabeca\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p>&emsp;&emsp;Os cr\u00e9ditos do filme estavam subindo quando Rafael olhou para mim cheio de expectativa.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Gostou?<br>\n&emsp;&emsp;Quero dizer que n\u00e3o, que se ele gostaria de ganhar dinheiro com seu trabalho deveria fazer filmes comerciais, n\u00e3o indies. Queria dizer que achava c\u00e2mera tremida algo de p\u00e9ssimo mau gosto e que, se eu fosse ele, j\u00e1 teria desistido daquele curso e tinha ido fazer algo produtivo, algo que fosse \u00fatil \u00e0 sociedade.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Gostei sim. Tem futuro, hein? \u2014 eu digo, pois, apesar de qualquer coisa, ele n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pelas merdas que passam pela minha cabe\u00e7a.<br>\n&emsp;&emsp;Saio da casa do meu amigo quase correndo, tentando esquecer a cena de grotesca de uma mulher sangrando pelo nariz e falando sobre como a vida era uma merda. Foi o curta-metragem mais longo e sem sentido que eu havia visto, com mensagens superficiais, repletos de clich\u00eas existencialista e problemas que todo mundo estava cansado de saber que existem. <br>\n&emsp;&emsp;Pego um \u00f4nibus lotado para voltar para casa e agrade\u00e7o a seja l\u00e1 qual divindade que exista por ser sexta-feira, que \u00e9 um dia que d\u00e1 esperan\u00e7a de bons dias de folgas, apesar de sentirmos vontade de nos matar no domingo de tanto t\u00e9dio. Ainda \u00e9 tr\u00eas horas da tarde, mas encontrei diversos tipos de pessoas em estado euf\u00f3rico e feliz demais para algu\u00e9m que passou a semana estudando ou trabalhando. Ou, talvez, os dois. De qualquer maneira, essa euforia me atinge com a sensa\u00e7\u00e3o de que apenas eu passo por guerras ininterruptas na minha cabe\u00e7a. \u00c9 um pensamento um tanto egoc\u00eantrico, mas imposs\u00edvel de evitar.<br>\n&emsp;&emsp;Com o tempo em que passo no \u00f4nibus lembro da dor de cabe\u00e7a que me assola desde o come\u00e7o da semana. Come\u00e7a a chover e fecho a janela ao mando de uma mo\u00e7a que aparentemente n\u00e3o tinha for\u00e7a naqueles bra\u00e7os raqu\u00edticos. <br>\n&emsp;&emsp;Chego em casa molhado de cima a baixo e com a enxaqueca em seu ponto alto. Ignoro o meu irm\u00e3o menor ainda com a farda da escola e jogando playstation. Apesar de saber que minha m\u00e3e odiaria me ver deitado na cama naquela situa\u00e7\u00e3o, deito enquanto massageava minha testa, tentando em v\u00e3o aplacar a dor.<br>\n&emsp;&emsp;Mesmo com as luzes desligadas e um sil\u00eancio estranho de um final da tarde, meu c\u00e9rebro parece capaz de explodir a qualquer momento. Sinto a cabe\u00e7a pesar conforme penso na prova de C\u00e1lculo II que irei fazer na pr\u00f3xima segunda e sei que n\u00e3o irei dormir nesse final de semana, a n\u00e3o ser que roube mais uma vez as p\u00edlulas para dormir da minha m\u00e3e.<br>\n&emsp;&emsp;A faculdade estava me sufocando, no entanto, ela n\u00e3o era \u00fanica na minha vida a fazer isso. Eu sabia que em menos de uma hora minha m\u00e3e apareceria perguntando-me porque n\u00e3o consertei o seu notebook, embora eu tenha explicado diversas vezes que eu n\u00e3o fazia ideia como resolver aquilo. Meu pai, ent\u00e3o, come\u00e7ar\u00e1 a falar qu\u00e3o pregui\u00e7oso eu era e que minha m\u00e3e iria morrer algum dia, ent\u00e3o eu tinha que acatar todas as suas ordens, apesar de achar que a melhor maneira de resolver a situa\u00e7\u00e3o era jogando toda a carca\u00e7a do notebook na lixeira.<br>\n&emsp;&emsp;Tiro as roupas molhadas e tento dormir para adiar tal cena desconfort\u00e1vel, mas que se repete constantemente em minha rotina. Ainda assim, n\u00e3o consigo descansar. Aparentemente s\u00f3 irei o fazer quando estiver morto.<br>\n&emsp;&emsp;Juan, meu irm\u00e3o, aparece em algum momento ligando as luzes e fazendo um barulho irritante.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea viu meu t\u00eanis azul, Felipe?<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Como eu vou saber, porra? \u2014 respondo mal humorado \u2014 Se voc\u00ea n\u00e3o colocasse suas coisas em qualquer lugar saberia onde t\u00e1 essa merda.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Nossa, precisa me engolir? Voc\u00ea n\u00e3o era assim&#8230;<br>\n&emsp;&emsp;Dou um suspiro sabendo que descontar em meu irm\u00e3o mais novo \u00e9 covardia. Ele n\u00e3o tem culpa dos desgra\u00e7amentos da minha cabe\u00e7a.<br>\n&emsp;&emsp;Penso um pouco antes de responder:<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 T\u00e1 no jardim. Deve t\u00e1 parecendo um aqu\u00e1rio a essa altura.<br>\n&emsp;&emsp;Juan sai sem pensar duas vezes e eu jogo o travesseiro na porta para fech\u00e1-la, j\u00e1 que ao que parecia meu irm\u00e3o era aleijado das m\u00e3os e n\u00e3o podia fechar o caralho de uma porta.<br>\n&emsp;&emsp;Eu confesso que estava mais agressivo nos \u00faltimos dias, mas a verdade \u00e9 que a estupidez humana havia passado dos limites de que eu poderia ignorar.<br>\n&emsp;&emsp;A verdade \u00e9 que eu precisava de uma pausa ou meu c\u00e9rebro iria me matar a qualquer instante. Levanto para tomar um banho, mas os meus pensamentos deprimentes n\u00e3o me deixam em paz. Escuto minha m\u00e3e chamar-me, no entanto, a ignoro deliberadamente.<br>\n&emsp;&emsp;Minha cabe\u00e7a ainda lateja quando, quinze minutos depois, finalmente apareci na cozinha. <br>\n&emsp;&emsp;Estranhamente, toda a fam\u00edlia estava l\u00e1, encarando-me. Meu pai tamb\u00e9m havia chegado e era o que parecia estar mais desconfort\u00e1vel com a situa\u00e7\u00e3o.<br>\n&emsp;&emsp;Engulo o seco sentindo que irei surtar a qualquer momento. O sil\u00eancio era violento e torturava cada peda\u00e7o da minha consci\u00eancia.<br>\n&emsp;&emsp;Ent\u00e3o, minha m\u00e3e abriu os bra\u00e7os. <br>\n&emsp;&emsp;Ent\u00e3o, eu a abracei.<br>\n&emsp;&emsp;Ent\u00e3o, chorei.<br>\n&emsp;&emsp;Ent\u00e3o, pela primeira vez em muito tempo, sinto o alento de minha fam\u00edlia ao abra\u00e7ar-me em conjunto e dizer que tudo ficaria bem. Infelizmente, para isso, uma trag\u00e9dia teve que acontecer.<br>\n&emsp;&emsp;Fazia apenas quatro meses que Alice, minha noiva, havia morrido. Assaltada, humilhada, estuprada, assassinada. Seu corpo era quase irreconhec\u00edvel quando a acharam em algum terreno baldio em Jaboat\u00e3o dos Guararapes. Com ela, havia morrido toda a minha esperan\u00e7a de um mundo melhor.<br>\n&emsp;&emsp;E n\u00e3o melhoraria. Eu sei que n\u00e3o.<\/p>\n\n<h2><center>FIM<\/center><\/h2>\n\n<p>&emsp;&emsp;<b>Nota:<\/b> Essa foi a hist\u00f3ria mais dif\u00edcil que escrevi. Migraine do Twenty One Pilots \u00e9 uma m\u00fasica \u00f3tima, no entanto, o pessimismo e tristeza retratado na letra me deu muita dificuldade para criar algo plaus\u00edvel. Est\u00e1 aqui o resultado e espero que tenham gostado.<\/p>\n\n<p>&emsp;&emsp;O que voc\u00ea achou? Ah, e obrigada por ler! <\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;Os cr\u00e9ditos do filme estavam subindo quando Rafael olhou para mim cheio de expectativa. &emsp;&emsp;\u2014 Gostou? &emsp;&emsp;Quero dizer que n\u00e3o, que se ele gostaria de ganhar dinheiro com seu trabalho deveria fazer filmes comerciais, n\u00e3o indies. 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