{"id":1867,"date":"2018-10-31T14:39:11","date_gmt":"2018-10-31T17:39:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-21T15:51:09","modified_gmt":"2025-11-21T18:51:09","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/are-you-afraid-of-the-dark\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"capitular1\">C<\/span>atarina Desmont era uma crian\u00e7a normal e alegre. Costumava brincar sozinha, pois ainda era muito pequena e n\u00e3o possu\u00eda irm\u00e3os ou parentes da mesma idade que morassem perto o suficiente para lhe fazer companhia. Como qualquer crian\u00e7a, \u00e0s vezes fazia suas pirra\u00e7as, principalmente na hora de dormir quando ela ainda estava el\u00e9trica e queria continuar brincando.<br>\u2003\u2003\u2014 O bicho-pap\u00e3o vir\u00e1 te pegar se voc\u00ea n\u00e3o se comportar, Cat! \u2014 a m\u00e3e lhe dizia toda vez que a menina n\u00e3o queria obedecer.<br>\u2003\u2003Catarina fazia um grande bico, mas o bicho-pap\u00e3o sendo mencionado, ela logo ia se deitar para n\u00e3o ser levada. Cat era uma crian\u00e7a esperta, mas se havia uma coisa em que ela acreditava, era na palavra da m\u00e3e. Se a mulher lhe dizia que o bicho-pap\u00e3o a levaria, era porque&nbsp;<em>levaria<\/em>. E ela n\u00e3o queria ser levada pelo monstro. Queria ficar com sua mam\u00e3e.<br>\u2003\u2003Era s\u00f3 mais um dia comum na casa das Desmont, e mais uma vez Cat fazia manha n\u00e3o querendo ir para a cama.<br>\u2003\u2003\u2014 Catarina! \u2014 Lucile, a m\u00e3e, exclamou cruzando os bra\u00e7os. \u2014 Eu n\u00e3o vou falar de novo \u2014 a mulher disse respirando fundo para manter a paci\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas, mam\u00e3e! Eu quero brincar! \u2014 choramingou pulando na cama.<br>\u2003\u2003\u2014 Catarina, agora \u00e9 hora de dormir. Por favor \u2014 Lucile retrucou tentando fazer a filha deitar na cama, mas sem muito sucesso. \u2014 Ok. Ent\u00e3o fique a\u00ed e brinque com o bicho-pap\u00e3o \u2014 a mulher disse virando-se para a porta. Dera mais uma olhada para tr\u00e1s, mas a menina continuava a pular na cama, agora abra\u00e7ada a dois bichos de pel\u00facia. Lucile suspirou e apagou a luz para ver se daquela maneira a filha se sossegava, mas aparentemente, nada mudara.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Catarina continuou pulando na cama mesmo com a luz apagada e apenas o filete de luz que entrava pela porta semiaberta iluminava o quarto. Estava segurando o Senhor Le\u00e3o e a Senhora Urso enquanto brincava. Ela adorava os dois bichos de pel\u00facia. Depois de alguns minutos, ela finalmente sentara-se com a respira\u00e7\u00e3o ofegante de tanto pular. Olhou ao redor e seus olhos pararam na parte escura atr\u00e1s da porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor Le\u00e3o, acho que temos companhia\u2026 \u2014 a menina murmurou sem tirar os olhos do local que encarava. \u2014 Oi? \u2014 disse um pouco incerta.<br>\u2003\u2003Ela saiu de cima da cama e com passos vacilantes caminhou at\u00e9 meio caminho da porta, sem se desgrudar das pel\u00facias.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor Le\u00e3o\u2026 \u2014 ela disse parando de caminhar no meio do caminho. \u2014 Eu estou com medo\u2026 \u2014 murmurou baixinho.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003Lucile terminava de secar a lou\u00e7a do jantar e esperava que Catarina tivesse desistido de brincar e finalmente tivesse dormido \u00e0quela altura. A mulher terminava de secar o \u00faltimo prato quando o grito agudo e desesperado de Catarina fez-se ouvir. Lucile largou o prato de qualquer jeito sobre a pia \u2014 quase deixando-o cair \u2014 e correu em dire\u00e7\u00e3o ao corredor no qual ficava o quarto da menina. Quando abriu a porta e acendeu a luz, encontrou Cat se debatendo sobre a cama, gritando e chorando com desespero, as m\u00e3os sacudindo no ar como se tentando se livrar de alguma coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 Filha! \u2014 exclamou enquanto corria na dire\u00e7\u00e3o da menina que chorava. \u2014 Catarina, est\u00e1 tudo bem! \u2014 Lucile segurou os bra\u00e7os da filha que tinha os olhos fechados firmemente e tentava se livrar das m\u00e3os que a seguravam. \u2014 Catarina, \u00e9 a mam\u00e3e, olhe pra mim. Est\u00e1 tudo bem! \u2014 disse abra\u00e7ando a menina que finalmente abriu os olhos e come\u00e7ou a chorar ainda mais desesperadamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e! \u2014 conseguiu exclamar entre um solu\u00e7o e outro.<br>\u2003\u2003\u2014 O que houve, minha filha? \u2014 perguntou Lucile, preocupada.<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e, \u00e9 o bicho-pap\u00e3o! \u2014 choramingou a menina. \u2014 Ele quer me pegar, mam\u00e3e! \u2014 Catarina abra\u00e7ou a m\u00e3e com for\u00e7a. \u2014 Por favor, diz pra ele que eu vou ser boazinha, que vou me comportar! N\u00e3o deixa ele me levar, mam\u00e3e! \u2014 As l\u00e1grimas come\u00e7aram a escorrer novamente em uma nova onda de choro.<br>\u2003\u2003\u2014 Oh, meu amor \u2014 a mulher murmurou sentindo-se culpada pelo pesadelo da filha. \u2014 O bicho-pap\u00e3o n\u00e3o vai levar voc\u00ea, mam\u00e3e n\u00e3o vai deixar, est\u00e1 bem? \u2014 Sorriu para a menininha que a encarou e concordou abra\u00e7ando-a novamente. \u2014 Tudo bem, ent\u00e3o? \u2014 perguntou e a pequena concordou, deixando a m\u00e3e se levantar.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas mam\u00e3e, n\u00e3o apaga a luz\u2026 \u2014 Catarina choramingou quando Lucile fez men\u00e7\u00e3o de levar a m\u00e3o ao interruptor.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem, meu amor\u2026 \u2014 A mulher sorriu compreensiva e saiu do quarto, mantendo a luz acesa e a porta aberta.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ap\u00f3s uma semana inteira com Catarina tendo pesadelos e acordando de madrugada aos berros, Luci decidiu confessar a uma de suas melhores amigas sua afli\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014&nbsp;<em>O bicho-pap\u00e3o?<\/em>&nbsp;\u2014 a mulher, Martha, perguntou em tom curioso. \u2014 Ora, bem, o bicho-pap\u00e3o \u00e9 como o \u201cmedo do medo\u201d \u2014 disse. \u2014 Voc\u00ea conhece a hist\u00f3ria dele? \u2014 perguntou recebendo um aceno negativo da amiga. \u2014 Ele se transforma no que a pessoa mais teme para deix\u00e1-la apavorada \u2014 explicou. \u2014&nbsp;<em>O medo do medo<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que posso fazer para que ela deixe de lado essa hist\u00f3ria? \u2014 perguntou Lucile de forma ansiosa. Detestava ver a filha t\u00e3o amuada daquela forma, fazia dias que Catarina n\u00e3o dormia direito e n\u00e3o brincava mais.<br>\u2003\u2003\u2014 Sugiro que passe a apagar a luz. E quando ela tiver essas crises de medo, tente deix\u00e1-la enfrent\u00e1-lo sozinha. N\u00e3o v\u00e1 at\u00e9 ela a n\u00e3o ser que seja de extrema necessidade \u2014 Martha sugeriu com ar confiante.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Lucile n\u00e3o tinha mais ideia do que fazer com Catarina que gritava por ela naquele exato instante. Ela havia apagado a luz como Martha havia sugerido, mas os gritos da menina simplesmente a estavam deixando preocupada. N\u00e3o conseguiu evitar o impulso de sair correndo para ir ver a filha que a chamava.<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e, n\u00e3o apaga a luz! \u2014 Cat exclamou assim que a mulher adentrou o quarto.<br>\u2003\u2003\u2014 Filha\u2026 \u2014 Luci murmurou sentando-se ao lado da menina. \u2014 N\u00f3s j\u00e1 conversamos sobre isso. \u2014 Acariciou o rosto de Catarina que estava avermelhado por conta dos gritos que havia dado.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas, mam\u00e3e\u2026 \u2014 choramingou agarrando-se ao Senhor Le\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Filha, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 bem grandinha e sei que \u00e9 corajosa. Vamos tentar? \u2014 perguntou. Cat hesitou e fez bico por alguns instantes, mas logo concordou segurando o choro. \u2014 Muito bem, meu amor. \u2014 Lucile sorriu se levantando. \u2014 Boa noite, anjinho. \u2014 Curvou-se para dar um beijo na testa da filha.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A princ\u00edpio, nada se escutou, mas alguns minutos se passaram e novamente Catarina come\u00e7ou a gritar\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e, mam\u00e3e! Acende a luz! Ele vai me pegar! \u2014 a crian\u00e7a gritava em tom desesperado.<br>\u2003\u2003\u2014 Catarina, pare de gritar! \u2014 Lucile exclamou com certo aperto no peito.<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e! Por favor! \u2014 O choro podia ser ouvido naquele instante.<br>\u2003\u2003\u2014 Catarina, pare de gritar&nbsp;<em>agora<\/em>! \u2014 Ao dizer aquilo, a menina parou no mesmo instante. Luci respirou aliviada, n\u00e3o queria ter que brigar com a filha e ouvir aqueles gritos desesperados lhe cortavam o cora\u00e7\u00e3o, mas Martha havia dito que aquela atitude ajudaria Cat a superar seu medo, ent\u00e3o ela&nbsp;<em>tinha<\/em>&nbsp;que tentar.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ap\u00f3s algumas horas, como de costume, Lucile foi observar a filha dormir. Ela adorava ver a forma como Catarina parecia sorrir enquanto sonhava, era t\u00e3o tranquilizante. Acendeu a luz do corredor e abriu a porta o bastante para deixar a claridade entrar e iluminar a cama da menina. Ela parecia estar como sempre, talvez um pouco mais encolhida entre as cobertas, mas parecia estar bem. Lucile sorriu aliviada, ent\u00e3o fechou a porta novamente e foi ela mesma se deitar. Fora um longo dia e estava exausta.<br>\u2003\u2003Na manh\u00e3 seguinte quando despertou, achou um pouco estranho n\u00e3o ouvir Catarina brincando, a menina costumava acordar mais cedo que a m\u00e3e, mas talvez a noite anterior tivesse sido cansativa demais para as horas de sono normais. Luci decidiu deixar Cat dormindo por mais algum tempo. A preocupa\u00e7\u00e3o apenas bateu quando ao olhar o rel\u00f3gio constatou ser quase a hora do almo\u00e7o, e por mais que a madrugada tivesse sido turbulenta, Catarina nunca dormia por tanto tempo. A mulher decidiu ent\u00e3o que estava na hora de acordar a crian\u00e7a, n\u00e3o era saud\u00e1vel dormir tanto, ainda mais para uma crian\u00e7a el\u00e9trica como Cat.<br>\u2003\u2003\u2014 Filhinha, est\u00e1 na hora de acordar\u2026 \u2014 cantarolou enquanto atravessava o quarto para abrir a janela e dar passagem ao dia. \u2014 Catarina? \u2014 chamou se aproximando da cama, j\u00e1 que n\u00e3o recebeu nem um resmungo como resposta. \u2014 Cat? \u2014 Tocou o bra\u00e7o da crian\u00e7a que estava para fora das cobertas, segurando o le\u00e3o de pel\u00facia. Demorou certo tempo at\u00e9 Luci perceber o quanto a filha estava fria e im\u00f3vel. \u2014 Catarina, pare de brincar \u2014 disse pensando que a menina apenas queria lhe pregar uma pe\u00e7a. \u2014 Cat\u2026? \u2014 Ent\u00e3o percebeu que Catarina n\u00e3o respirava.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003Lucile estava encolhida na cama de Catarina abra\u00e7ada aos dois bichos de pel\u00facia que ela mais gostava. As l\u00e1grimas n\u00e3o escorriam mais apenas por n\u00e3o ter mais reservas delas, mas a tristeza e a sensa\u00e7\u00e3o de falha n\u00e3o haviam ido embora. Catarina Desmont havia falecido. Sua pequena Cat estava morta. O laudo dizia que possivelmente a menina havia se engasgado no meio de uma crise de terror noturno, mas aquilo n\u00e3o fazia o menor sentido para Lucile. Talvez se ela n\u00e3o tivesse apagado a luz naquela noite, a filha n\u00e3o tivesse literalmente morrido de medo. Ela ainda estaria ali para brincar com o Senhor Le\u00e3o e a Senhora Urso. Para rir e sorrir\u2026<br>\u2003\u2003Luci fungou e se encolheu ainda mais. Como queria sua filhinha ali. Estava no meio da escurid\u00e3o como todos os dias, j\u00e1 que mantinha as janelas e as cortinas do quarto de Catarina fechados, quando sentiu algo g\u00e9lido tocar-lhe o bra\u00e7o. Um arrepio percorreu toda sua espinha quando ouviu um sussurro de uma voz conhecida ao p\u00e9 do ouvido:<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e, voc\u00ea tem medo do escuro?<\/p>\r\n<h3 align=\"center\">Fim<\/h3>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[675],"class_list":["post-1867","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-are-you-afraid-of-the-dark"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/1867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1867"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=1867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}