{"id":1858,"date":"2018-10-06T10:03:00","date_gmt":"2018-10-06T13:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/?post_type=capitular&#038;p=1858"},"modified":"2025-08-19T13:18:15","modified_gmt":"2025-08-19T16:18:15","slug":"capitulo-unico-47","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/not-sober\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p>\u2003\u2003Ela sentia os seis anos de sua sobriedade se esvaindo pelos dedos junto da fuma\u00e7a do cigarro que tragava. Cada puxada de ar era um ano a menos que ela tinha, mas era um segundo a mais de vida. Como aquilo podia soar t\u00e3o ir\u00f4nico e t\u00e3o sincero ao mesmo tempo? Deveria ser, no m\u00ednimo, absurdo que algu\u00e9m comparasse uma tragada de cigarro a um segundo a mais de vida. Mas, para ela, tudo era ir\u00f4nico e \u00e1cido de uma forma desconhecida.<br \/>\u2003\u2003Apagou o cigarro, ainda pela metade, no parapeito da janela e juntou seus restos aos dos outros cigarros abandonados pela metade no cinzeiro. Ela tinha essa mania, nunca os fumava inteiros, mas, ainda assim, sempre acendia um novo. Era como um passatempo favorito, tipo colecionar adesivos que v\u00eam nos cadernos infantis das papelarias. Ou aquele kit cheio de pap\u00e9is de carta, todos meio amarelados, mas que seguem guardados.<br \/>\u2003\u2003Ela voltou para cama, acompanhada da fiel dose de u\u00edsque, para seguir rascunhando aquela que seria, dentre todas as j\u00e1 lan\u00e7adas, sua can\u00e7\u00e3o mais verdadeira. Por mais que j\u00e1 tivesse falado sobre como os v\u00edcios a afetavam, n\u00e3o havia assumido ainda que eles j\u00e1 n\u00e3o eram mais parte do passado. Os v\u00edcios haviam voltado, talvez at\u00e9 mais fortes do que antes, mais perigosos e com um maior poder de destrui\u00e7\u00e3o. E ela sabia, l\u00e1 no fundo do peito, que era quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que algo maior e pior acontecesse. Mas ela n\u00e3o era forte o suficiente para par\u00e1-los. Ou ser\u00e1 que o motivo era o oposto? Foi forte tanto tempo, que n\u00e3o haveria mal algum em ser fraca? N\u00e3o naquele instante?<br \/>\u2003\u2003Bebericou o l\u00edquido dourado do copo enquanto rascunhava mais uma parte daquela m\u00fasica, um grito quase que cansado de quem n\u00e3o aguenta mais se esconder. Ela havia ca\u00eddo, falhado, e era hora do mundo saber que ela era humana, afinal.<br \/>\u2003\u2003O celular tocou em cima da bancada, ao lado do saquinho com o p\u00f3 branco que ela evitava ao m\u00e1ximo. Por mais que o mantivesse na gaveta do criado mudo, n\u00e3o queria se entregar a ele, n\u00e3o ainda. Ela era mais forte do que o conte\u00fado daquele saquinho transparente, mas n\u00e3o era mais forte que o nome que piscava na tela do celular.<br \/>\u2003\u2003O contato de caveira deveria significar alguma mensagem importante, mas ele estava ali servido apenas de alento. Um contato proibido, mas que ela fazia quest\u00e3o de manter, j\u00e1 que todos os outros j\u00e1 n\u00e3o existiam mais. N\u00e3o naquele celular, dedicado apenas aquilo, a sua autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"center\"><em>\u201ceu tenho o que voc\u00ea precisa, vou levar na sua casa agora mesmo\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003Quem lesse aquela mensagem, digitada \u00e0s pressas e cheias de meias palavras, n\u00e3o entenderia muito bem do que se tratava, mas ela sabia. Sabia, porque aquelas meias palavras traziam uma paz conturbada e pintada de cinza chumbo para dentro do seu cora\u00e7\u00e3o. Aquelas meias palavras poderiam amarrar seu fim.<br \/>\u2003\u2003A campainha soou assim que ela terminou de colocar a \u00faltima palavra, no \u00faltimo verso da m\u00fasica. Correu at\u00e9 a porta, apenas para encontrar o rosto conhecido.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o se tratavam por amigos, por apelidos, ou gestos carinhosos. Ele vendia, ela comprava, eles usavam juntos, ele ia embora, enquanto ela estivesse respirando. O que viesse depois disso, era lucro.<br \/>\u2003\u2003Pediu cinco minutos para ajeitar as coisas no est\u00fadio que tinha dentro da pr\u00f3pria casa e, enquanto ele separava o pedido, ela acertava as notas, que embalariam a can\u00e7\u00e3o rec\u00e9m formulada.<br \/>\u2003\u2003As notas sa\u00edram de primeira, junto da primeira aspirada. Ela era boa naquilo que fazia, tanto para um lado, quanto para o outro. O pr\u00f3ximo passo foi colocar em voz as letras escritas \u00e0s pressas no papel dobrado de qualquer jeito. E a voz sa\u00eda, magicamente doce, ainda que sofrida. Afinal de contas, era sua vida ali, enrolada entre as letras da can\u00e7\u00e3o e o que realmente acontecia dentro daquele est\u00fadio. Puxou o ar e o pedido, uma vez mais, antes de ver o arquivo ficar pronto, e ela s\u00f3 esperou que aquele fosse o fim.<br \/>\u2003\u2003Ela pedia perd\u00e3o a todos aqueles que ela havia machucado, mas a verdade \u00e9 que ela ainda estava machucando aquelas pessoas que nem tiveram tempo de pensar em aceitar suas desculpas. Porque tudo o que restou, foi amargo e vazio. Tudo o que restou foram as sirenes no meio da madrugada, quando ela foi encontrada, meio viva, meio morta, em cima do piano de cauda que cuidava como se fosse um filho, as marcas da noite anterior ainda presentes em seu rosto, seu corpo e no espa\u00e7o em que estava. Tudo o que restou foi o pedido de socorro silenciado, o pedido que as pessoas fingiram n\u00e3o ouvir. Tudo o que restou foi o eco silencioso de quem ela deveria ser, por\u00e9m nunca havia sido.<br \/>\u2003\u2003Tudo o que ela queria era viver, mas havia desgra\u00e7ado sua vida h\u00e1 muito tempo quando deixou que os outros se enfiassem em sua mente de forma a lhe fazer perder o ch\u00e3o, o controle, a sa\u00fade e, por que n\u00e3o, a vida.<br \/>\u2003\u2003Mas a vida lhe fora poupada, em um \u00faltimo suspiro, uma \u00faltima tentativa. Se, depois dessa tempestade, ela n\u00e3o aceitasse a calmaria, provavelmente n\u00e3o veria mais nuvem alguma, porque n\u00e3o existiria mais c\u00e9u. N\u00e3o para ela, n\u00e3o para os outros perto dela.<br \/>\u2003\u2003Algu\u00e9m que, desde muito jovem, viveu a dor de ser observada pelo mundo inteiro. Algu\u00e9m que, desde muito jovem, n\u00e3o pode cair e errar, como todos os outros. Algu\u00e9m que, desde muito jovem, viu as tristezas cruas que a vida \u00e9 capaz de causar. Algu\u00e9m que, desde muito jovem, luta para se aceitar.<br \/>\u2003\u2003Mas algu\u00e9m que acreditava em chances e que as abra\u00e7aria com toda sua alma e sua for\u00e7a de vontade, que era infinita.<br \/>\u2003\u2003Afinal, assumir que n\u00e3o estava mais s\u00f3bria era o primeiro passo para caminhar em dire\u00e7\u00e3o a sobriedade.<\/p>\n<p align=\"center\"><em>\u201cI&#8217;m not sober anymore<br \/>I&#8217;m sorry that I&#8217;m here again<br \/>I promise I&#8217;ll get help<br \/>It wasn&#8217;t my intention<br \/>I&#8217;m sorry to myself\u201d<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Ela sentia os seis anos de sua sobriedade se esvaindo pelos dedos junto da fuma\u00e7a do cigarro que tragava. Cada puxada de ar era um ano a menos que ela tinha, mas era um segundo a mais de vida. Como aquilo podia soar t\u00e3o ir\u00f4nico e t\u00e3o sincero ao mesmo tempo? 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