{"id":1827,"date":"2017-12-08T18:33:00","date_gmt":"2017-12-08T21:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/?post_type=capitular&#038;p=1827"},"modified":"2025-04-23T19:10:01","modified_gmt":"2025-04-23T22:10:01","slug":"capitulo-unico-28","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/a-palavra\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p>&emsp;&emsp;Eu sou enfermeiro e conhe\u00e7o a parte mais grotesca de um hospital. Mas o que eu vi n\u00e3o se compara a nada visto antes. Meu m\u00e9dico n\u00e3o acredita em mim, ele me v\u00ea como um alucinado qualquer, mas n\u00e3o sou. Na minha loucura h\u00e1 uma raz\u00e3o, em que me persegue diariamente. Para me entender, terei que dizer primeiro em como eu fui de enfermeiro para paciente. Pois s\u00f3 quem ler essa carta entender\u00e1 o que me levou, na verdade, o que levou e levar\u00e1 a todos.<br>\n&emsp;&emsp;O dia come\u00e7ou igual a todos os outros. Na minha rotina cheguei no hospital e troquei de roupa. Como sempre, S\u00e3o Jorge estava cheio de doentes, na espera de atendimentos ou em quartos isolados. Como era um hospital com o foco na elite, tinha um paciente em cada quarto. Mas entre todos os pacientes, nesse dia, foi um senhor de aproximadamente setenta anos que mudou a minha vida. Um senhor chamado Thoth, com problemas card\u00edacos causados pela velhice. Ele estava h\u00e1 um tempo no quarto. Como de costume, fez amizade com os m\u00e9dicos e com os enfermeiros. Por volta do meio-dia ele me chamou. <br>\n&emsp;&emsp;Andava nos corredores do hospital quando passei pelo quarto dele. N\u00e3o dei muita aten\u00e7\u00e3o no in\u00edcio, pois passei com o olhar confiante para frente. Mas ao sair de frente da porta, escutei um grito de socorro. Voltei correndo com o olhar preocupado. E ao entrar na sala, vi um homem se contorcendo, n\u00e3o soube identificar se era de dor ou era uma epilepsia. Pois em seu confronto interno ele estava entre o real e a ilus\u00e3o. O homem tremia e gritava em sil\u00eancio, pois seu corpo n\u00e3o conseguia segurar um f\u00f4lego. Sua boca se dilatava e se reprimia em busca do f\u00f4lego que n\u00e3o vinha. Os len\u00e7\u00f3is que estavam no ch\u00e3o e o corpo na exaust\u00e3o, diziam o mal no cora\u00e7\u00e3o, em que eu n\u00e3o pude decifrar na hora. Era como se o corpo n\u00e3o quisesse se mover, mas algo o for\u00e7ava, o puxando para todos os lados. \u201cO que seria isso?\u201d, eu me perguntei. Mas sem a resposta, chamei um m\u00e9dico e aumentei a morfina. Ent\u00e3o o corpo descansou. <br>\n&emsp;&emsp;Quando os m\u00e9dicos chegaram, n\u00e3o souberam responder a minha pergunta. V\u00e1rias m\u00e9dicos e nenhum deles podia dar uma resposta sobre o que aconteceu. Mas naquela hora minha alma sabia que algo de errado acontecera. Os m\u00e9dicos passaram todo tipo de exame: de sangue, raios-x e etc. Eles n\u00e3o acharam nada, pois o corpo do paciente estava perfeitamente normal. Por\u00e9m eu n\u00e3o aceitei, sabia que algo estava errado com ele, afinal ele estava internado em um hospital. Na minha miss\u00e3o pessoal de achar a doen\u00e7a dele, busquei meus colegas de trabalho. Mas nenhum deles soube me responder. Busquei em arquivos o motivo da interna\u00e7\u00e3o e l\u00e1 achei uma ficha, na qual dizia que o senhor Thoth tinha entrado no hospital por causa de problemas no cora\u00e7\u00e3o e nada mais. <br>\n&emsp;&emsp;A minha curiosidade n\u00e3o parou com aquelas palavras. No decorrer de uma semana criei coragem para falar com ele. Esperei at\u00e9 o final do meu turno para falar com o homem. Com delicadeza abri a porta e perguntei se podia entrar. Com um enorme sorriso e olhos radiantes no rosto, o bom velhinho me mandou sentar ao lado de seu leito. Eu, como sempre, entrei um pouco desajeitado, fechando a porta devagar e quase caindo em cima dela, pelo menos meu novo amigo riu. Ao sentar do lado dele, extremamente envergonhado, perguntei o que tinha acontecido com ele. No momento em que as palavras terminaram de sair de minha boca, o sorriso do homem se desfez. E os olhos radiantes que antes me olhavam se tornaram frios e cautelosos. Na pr\u00f3pria express\u00e3o dele eu vi o terror. <br>\n&emsp;&emsp;Com medo do que ele iria falar e com vergonha de ter perguntado algo que podia ser t\u00e3o pessoal, me levantei e fui em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta. Sem jeito, quase ca\u00ed da cadeira ao levantar. E em um movimento r\u00e1pido j\u00e1 estava na porta. Ao girar a gelada ma\u00e7aneta, o homem soltou uma palavra, que saiu como se fosse o ranger de pesadas correntes, mas ela saiu com al\u00edvio do homem. Ao ouvir a palavra me tremi como se um esp\u00edrito passasse por mim. Por um momento fiquei imobilizado, mas consegui for\u00e7as e sa\u00ed do quarto sem dizer mais nada. A palavra que ele disse me marcou e eu levarei pelo resto da minha vida. Uma pequena palavra de grande peso sobre os fracos cora\u00e7\u00f5es. Como o meu. <br>\n&emsp;&emsp;E por semanas meu cora\u00e7\u00e3o andou agarrado \u00e0 palavra. Sem a minha raz\u00e3o querer, meus sentimentos encontraram a palavra nas minhas mem\u00f3rias. Minhas lembran\u00e7as de momentos vergonhosos vieram junto com l\u00e1grimas amargas do meu ego. E em todo momento e em toda hora eu vi a marca dela. No hospital, os m\u00e9dicos com pesadas correntes ignoradas passavam por mim. Nos pacientes, seus familiares traziam mais peso que os coitados carregavam. Foi ela que me fez parar de comer, parar de beber e etc. Pois nem mesmo no prazer de um programa eu me livrava da pris\u00e3o dessa palavra. Eu passei a ver ela em todos os lugares, nos gritos, nos gestos e nas atitudes. Para esclarecer, eu j\u00e1 tinha escutado ela, mas nunca naquela tonalidade. Pois naquela hora ela foi dita para alma e n\u00e3o para os ouvidos, algo que eu s\u00f3 fui descobrir depois. <br>\n&emsp;&emsp;Passadas semanas com o peso, para o quarto eu voltei. E com a mesma determina\u00e7\u00e3o de antes perguntei ao bom senhor o porqu\u00ea dele ter me dito aquela palavra. E ele me contou uma hist\u00f3ria: de que, quando jovem, essa palavra o apossou depois da morte de sua esposa, sem o esquecimento dela, a palavra se transformou na doen\u00e7a de seu cora\u00e7\u00e3o. Assustado e desesperado, com l\u00e1grimas nos olhos, o perguntei: por que me disseste essa palavra? O senhor fechou os olhos e me disse com um pequeno sorriso: A curiosidade \u00e9 uma puta. <br>\n&emsp;&emsp; \tE ela uma puta trai\u00e7oeira. Mas no fim da fala do velho, ele me disse que poderia me ajudar, pois os anos que se passaram com ela serviu de aprendizado. Ao saber de uma poss\u00edvel cura para a minha doen\u00e7a, meu cora\u00e7\u00e3o se alegrou. E voltei a sentir esperan\u00e7a. E na troca de lugares, todos os dias depois do meu turno, passeai a visitar o senhor Thoth, pois eu me tornei seu paciente. <br>\n&emsp;&emsp;Em cada dia o senhor Thoth me contou sobre a sua hist\u00f3ria de vida. Soube que o velho conheceu a morte como ningu\u00e9m, pois era pol\u00edcia e dentro da corpora\u00e7\u00e3o teve que matar para n\u00e3o morrer, mas nem todas foram feitas por ele. Conheceu a morte pela doen\u00e7a de sua esposa e m\u00e3e, e conheceu a morte de filho n\u00e3o nascido. E em todos as hist\u00f3rias prestei aten\u00e7\u00e3o. Mas quando se aproximava do fim de sua vida, ele me contou o real motivo da palavra, e foi mais me fascinou, pois eu sabia que ela estava comigo. Ele disse as seguintes palavras: <br>\n&emsp;&emsp;\u201cH\u00e1 muitos anos, um homem descobriu o segredo da imortalidade. Nela conheceu o mundo, mulheres e todos os prazeres. Mas, como todo presente, a imortalidade tinha seu pre\u00e7o. Um que n\u00e3o \u00e9 exclusivo dela, pois \u00e9 o pre\u00e7o da vida. Quanto mais se vive, mais se paga. A pergunta que se tem que fazer \u00e9: se a vida vale esse pre\u00e7o\u201d. <br>\n&emsp;&emsp;E foi nessas palavras que descobri o que havia de errado comigo e ele. E entrei em um di\u00e1logo: ser\u00e1 que ela vale o pre\u00e7o? Uns dizem que sim, mas \u00e0s vezes acho que n\u00e3o. E por fim, ao criar coragem, perguntei para ele o que acontece com quem acha que vida n\u00e3o vale o pre\u00e7o. O senhor Thoth, com al\u00edvio, me respondeu: que se eu n\u00e3o aceitasse pagar, teria que me deixar levar. Logo, eu n\u00e3o entendi, por\u00e9m aprendi com as palavras dele, aprendi mais ainda com a palavra inicial. <br>\n&emsp;&emsp;Daquele dia em diante passei a visitar o senhor Thoth todos os dias. E em todos os dias fiz quest\u00e3o de alegr\u00e1-lo com um chocolate ou alguma del\u00edcia que podia comprar perto do hospital. N\u00e3o demorou muito para que o meu paciente se tornasse o meu amigo e meu mentor, pois foi ele a me ensinar a suportar o peso de cada dia e a fazer o peso n\u00e3o crescer. Era bobagem, pois ele me ensinou coisas que meus pais me disseram quando pequeno, como: pedir desculpa, dar licen\u00e7a para as pessoas, ceder o acento e etc. O senhor me ensinou a fazer tudo isso que meus pais n\u00e3o me ensinaram. E eu adotei esses h\u00e1bitos na minha vida. <br>\n&emsp;&emsp;Com o passar das semanas me senti mais leve, mas o senhor Thoth se sentiu pior. Seu fraco cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava mais aguentando a sua velhice. Ent\u00e3o ele me disse que estava perto de seu fim, logo ele iria se entregar, algo que sempre falava. Mas eu nunca soube a que ele iria se entregar. Ent\u00e3o eu dei um celular para ele me ligar a qualquer hora. O senhor Thoth agradeceu com um sorriso. <br>\n&emsp;&emsp;Passado mais algumas semanas, ele me ligou no meio da noite. Foi ent\u00e3o que eu me perdi, pois eu os vi, eu vi a palavra. E no meio da noite corri para o hospital ajudar meu amigo. Por\u00e9m quando cheguei ao hospital, um ar gelado se abateu sobre mim, impedindo que eu continuasse, mas eu fui insistindo at\u00e9 entrar. Corri para o quarto dele e abri a porta com a for\u00e7a que os m\u00e9dicos abriam quando iriam salvar vidas, foi ent\u00e3o que perdi minha sanidade. <br>\n&emsp;&emsp;Ao abrir, o grito de dor do senhor Thoth tomou conta de meu corpo. Ao olhar para o quarto, o ambiente tinha desaparecido, tinha sido tomado por um deserto. Sim, n\u00e3o era uma alucina\u00e7\u00e3o, pois todos os objetos do quarto estavam l\u00e1 como a cama, a cortina, os aparelhos do hospital. Mas as paredes sumiram junto com o ch\u00e3o e o teto. No lugar do ch\u00e3o, tinha areia, no lugar das paredes, tinha dunas e no lugar do teto, nuvens de tempestade. O ambiente estava gelado como a morte, pois um frio vento passava sobre minha pele, cobrindo-a com areia. <br>\n&emsp;&emsp;Sem saber o que fazer, me taquei no ch\u00e3o e l\u00e1 a areia tomou meus olhos. Com dificuldade, a tirei de cima enquanto ouvia os gritos do velho. Ainda ca\u00eddo no ch\u00e3o, olhei de volta para porta e nada existia no lugar do que era uma porta. Era como se tudo no mundo sumisse. E ent\u00e3o o ar n\u00e3o foi dominado com os gritos do meu amigo, pois minha voz lutou contra a dele sobre o dom\u00ednio do som. Meus gritos foram levados ao vento, que quando passou sobre minha pele, depositando areia, fez o som da minha voz sumir. E n\u00e3o me restou nada al\u00e9m de correr para o meu amigo. <br>\n&emsp;&emsp;Me levantei contra o vento, me impus contra ele. Mas a vis\u00e3o dobrou meus joelhos. Ajoelhado no ch\u00e3o, eu o olhei. Olhei para o que o velho falou que se entregaria. Um ser, a palavra, com quatro patas em que davam para o esqueleto de uma m\u00e3o repousava sobre meu amigo. O ser n\u00e3o tinha carne, apenas a pele ligava seu ossos, sobre ela se via a mistura de um humano com uma cobra. E de cada v\u00e9rtebra vinha la\u00e7os de escurid\u00e3o do c\u00e9u chuvoso. Em sua cabe\u00e7a nada aparecia al\u00e9m de chifres insanos e seis olhos vermelhos flutuantes. A criatura puxava do velho o que acredito ser seu esp\u00edrito. Pois o corpo do senhor Thoth n\u00e3o se movia, mas o espectro de um homem lutava contra as oito m\u00e3os da criatura. <br>\n&emsp;&emsp;No meu corpo, al\u00e9m do desespero, corri para agarrar meu amigo, mas n\u00e3o pude, pois n\u00e3o vi. N\u00e3o na hora o que me segurou, mas depois de algumas tentativas, vi. Em cima do meu corpo, outra criatura igual me puxava. Debaixo do que seria seu peito tinha uma luz sedutora que me obrigava a ir na dire\u00e7\u00e3o dela. Mas tive for\u00e7as e antes de tocar na luz empurrei a criatura e ca\u00ed. <br>\n&emsp;&emsp;De repente, acordei na cama de um hospital. Gritei para algu\u00e9m. No fim do meu grito surgiu um enfermeiro, colega meu, que me disse que tive um ataque card\u00edaco. Perguntei sobre o senhor Thoth, e meu colega me disse que faleceu. Infelizmente a doen\u00e7a de meu amigo passou para mim. Quando contei para os m\u00e9dicos, eles me disseram que foi um sonho. Mas eu sei que n\u00e3o, pois ningu\u00e9m seria capaz de sonhar com algo como aquilo. <br>\n&emsp;&emsp;No fim, nada me restou, aqui na cama de hospital, al\u00e9m de pagar pelo pre\u00e7o. O pre\u00e7o dos pecados da alma, pois magoei alguns. O peso da correntes da vergonha, pois eu n\u00e3o falei o que deveria em determinado momento. O que agora matava meu cora\u00e7\u00e3o, pois em minha alma eu sei que fui bom para as pessoas que amava. O peso dessa palavra que eu carrego no decorrer de meu dia. O peso da palavra: culpa.<\/p>\n\n<h2><center>FIM<\/center><\/h2>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;Eu sou enfermeiro e conhe\u00e7o a parte mais grotesca de um hospital. Mas o que eu vi n\u00e3o se compara a nada visto antes. Meu m\u00e9dico n\u00e3o acredita em mim, ele me v\u00ea como um alucinado qualquer, mas n\u00e3o sou. Na minha loucura h\u00e1 uma raz\u00e3o, em que me persegue diariamente. 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