{"id":1819,"date":"2017-01-11T18:03:00","date_gmt":"2017-01-11T21:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/?post_type=capitular&#038;p=1819"},"modified":"2025-04-23T18:04:47","modified_gmt":"2025-04-23T21:04:47","slug":"capitulo-unico-21","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/o-sorriso-de-uma-desconhecida\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p>&emsp;&emsp;Em relato, em pap\u00e9is, em palavras busco minha sanidade. N\u00e3o sei se ela ainda existe, espero que sim. Direi como eu a perdi. Eu realmente a perdi? N\u00e3o sei. Posso dizer que a perdi s\u00f3 porque aceitei o irreal? Na verdade, o que \u00e9 o real? Noto agora que todos temos nosso mundo real, mas ser\u00e1 que o de todo mundo \u00e9 igual?  Eu pensava que sim. Mas foi uma garota, uma linda garota que me ensinou que n\u00e3o. Hoje eu a busco nos meus pesadelos, busco nos trilhos, nas ruas e, principalmente, nas janelas, pois eu sei que quando eu a vir ser\u00e1 meu fim. <br \/> \n&emsp;&emsp;Tudo come\u00e7ou na volta pra casa. Sempre cansado, um pouco depois da hora do rush eu volto de metro, voltava. Como muitos, diariamente eu me sentava em um banco. Muitos estavam em minha volta, sempre est\u00e3o, cada um com sua pr\u00f3pria historia. Mas nesse dia parecia haver menos pessoas. Como de costume, sentei em um banco e peguei meu celular. Na tela as imagens iam se passando e o mundo em minha volta ia se apagando. <br \/>\n&emsp;&emsp;Eu tinha o costume de sempre guarda o celular duas esta\u00e7\u00f5es antes da minha. Ent\u00e3o nesse dia eu fiz. Na primeira esta\u00e7\u00e3o eu via as pessoas descendo e poucas subindo. Gostava de ver a roupa delas e imaginar as hist\u00f3rias que passavam por mim. Cada um com suas felicidades e tristezas, um mundo em cada mente. <br \/>\n&emsp;&emsp;Foi antes da ultima esta\u00e7\u00e3o, foi entre as esta\u00e7\u00f5es que aconteceu. Algo que mudaria meu mundo, um sorriso. Entre as terras do t\u00fanel, entre as pedras e o vidro ele veio. Uma mulher, um reflexo, uma perdi\u00e7\u00e3o, uma bela perdi\u00e7\u00e3o. De longos cabelos pretos e casaco verde, olhos negros na face branca me olharam e sorriram para mim. N\u00e3o s\u00f3 para mim o seu sorriso foi para o fundo de minha alma. Em que nunca mais seria a mesma. <br \/>  \n&emsp;&emsp;Eu procurei por ela outros dias, mas ela n\u00e3o apareceu mais. Fiquei em busca dela. Eu sei que foi s\u00f3 um sorriso. Mas eu tinha que saber quem era a garota. Uma mais linda que j\u00e1 vi. E foram duas semanas, duas semanas que eu a procurei. Linda e misteriosa, o que ela era. Fui em busca na internet e n\u00e3o achei. Logo tentei aplicativos de encontros, grupos em redes sociais e at\u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o de sair perguntando por ela, tudo em v\u00e3o. <br \/>\n&emsp;&emsp;Foi uma semana depois, quando j\u00e1 estava pronto para desistir de minha busca que eu a vi novamente. Por\u00e9m, dessa vez, eu vi em uma esta\u00e7\u00e3o. Sim, ela estava em uma esta\u00e7\u00e3o, uma em que meu trem n\u00e3o anunciou a parada. Mas meu vag\u00e3o abriu as portas e pensei em chama-la. Mas n\u00e3o tive coragem, ent\u00e3o apenas fiquei a observando. Ela estava com mesmo casaco verde, por\u00e9m n\u00e3o tinha o mesmo olhar. Em sua bela face p\u00e1lida ela olhava de um lado para o outro, parecia estar perdida. Eu tive o impulso de ir ajuda-la, mas as portas se fecharam. E antes do vag\u00e3o come\u00e7ar a andar ela me olhou. Nossos olhos se cruzaram, sem gra\u00e7a respondi com um sorriso e ela me retornou com o mesmo. <br \/>\n&emsp;&emsp;Passamos uma semana nos olhando, sempre com um sorriso no final. Eu, por mais estranho que pare\u00e7a, me senti pr\u00f3ximo dela, com uma certa intimidade. Como dizem os olhos s\u00e3o as janelas da alma, logo todo os dias eu via a alma dela e ela a minha, era isso que eu pensava. Com essa semana os sorrisos sem gra\u00e7a do in\u00edcio se transformou em largos sorrisos acolhedores, mas o dela, que sempre foi radiante, se tornou mais radiante ainda. Os sorrisos dela se tornaram a alegria dos meus dias. <br \/>\n&emsp;&emsp;Mas com o tempo, notei que nem tudo era sol. Depois de uma semana eu a esperei com o sorriso j\u00e1 aberto na janela, mas infelizmente eu a vi chorando no mesmo lugar, na mesma esta\u00e7\u00e3o. A mulher que antes me trouxe alegria, nessa hora me trouxe o remorso. Em meu peito senti meu cora\u00e7\u00e3o se despeda\u00e7ando. Eu senti a necessidade de ajuda-la, mas n\u00e3o tive coragem de sair do meu vag\u00e3o. Logo a sua imagem se despediu no meu movimento. Ela ficou para tr\u00e1s junto com minha alegria naquele dia. <br \/>\n&emsp;&emsp;No dia seguinte esperei de volta o sorriso, rezei para que ela estivesse bem, mas foi tudo em v\u00e3o. Na janela eu a vi chorando no mesmo lugar de sempre, na mesma posi\u00e7\u00e3o. Aquelas l\u00e1grimas de partir o cora\u00e7\u00e3o me deram for\u00e7as. Com coragem sai do vag\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o dela. O meu maior erro. <br \/>\n&emsp;&emsp;Ao sair do vag\u00e3o foi ent\u00e3o que eu notei. Notei que nunca algu\u00e9m entrava ou saia daquela esta\u00e7\u00e3o. E a mesma estava totalmente vazia. Ao olhar para os lados notei que s\u00f3 tinha eu e minha \u201camiga\u201d. Por algum motivo o vazio me trouxe um calafrio, mas n\u00e3o era apenas isso, pois o ar tamb\u00e9m era diferente na esta\u00e7\u00e3o. O ar era pesado como se carregasse consigo toda culpa de uma vida. Na esta\u00e7\u00e3o a luz tamb\u00e9m era diferente, pois ela era negra como o c\u00e9u noturno. Algumas l\u00e2mpadas estavam queimadas, mas n\u00e3o era s\u00f3 isso. N\u00e3o sei explicar, tudo era horr\u00edvel naquele lugar. Me arrependi no momento em que vi meu trem partindo. <br \/>\n&emsp;&emsp;Sem trem, sem pessoas, sem luz ou alegria, na esta\u00e7\u00e3o s\u00f3 estava eu e a mulher, em que chorava. Ela estava parada do mesmo jeito que vi antes, parecia n\u00e3o se importa com minha presen\u00e7a. Eu me lembro que tive receio de chegar perto, mas eu n\u00e3o podia fazer mais nada. Logo eu me aproximei, com medo, por\u00e9m com esperan\u00e7a, a que morreu nesse dia. <br \/>\n&emsp;&emsp;Sem dizer nada botei minhas m\u00e3os sobre o ombro dela. A mulher largou as m\u00e3os do rosto e olhou para mim. Me lembro bem daquele olhar, foi como um sorriso de desespero. Seu rosto estava branco como sempre, mas algo estava diferente. Ela n\u00e3o estava chorando, seus olhos n\u00e3o estavam vermelhos ou molhados, na verdade estavam secos, sem vida. Quando notei meu impulso foi de me afastar, o que na hora me arrependi. De longe eu perguntei para ela se ela bem. Com seu olhar assustador ela me perguntou; \u201cpor que voc\u00ea fez isso comigo?\u201d <br \/>\n&emsp;&emsp;\u201cPor que voc\u00ea fez isso comigo?\u201d Essas palavras me atingiram como um raio. Eu n\u00e3o entendi na hora, eu nunca tinha feito nada com ela. Eu a questionei de volta, perguntando o que eu a fiz. Foi ent\u00e3o que ela em seu silencio sorriu. Seu sorriso chegou ao m\u00e1ximo de seus l\u00e1bios, mas n\u00e3o parou. A sua boca foi criando espa\u00e7os sobre sua bochecha at\u00e9 suas orelhas. A carne foi se desprendendo lentamente, com o sangue caindo da parte superior e os vasos sangu\u00edneos tentando segurar o rasgo feito, por\u00e9m eles n\u00e3o resistam e expirava o sangue nos ombros dela. Eu fui me afastando conforme seus l\u00e1bios se abriam mais. Foi a coisa mais grotesca que j\u00e1 vi. Mas n\u00e3o parou a\u00ed, com um movimento de enxugar as l\u00e1grimas, ela arrancou a pela debaixo de seus olhos. E como a velha pela de uma cobra, a dela foi saindo dando lugar a uma carne preta queimada. Da cor do manto da morte, a carne n\u00e3o tinha forma e era totalmente desfigurada. A mulher continuou ate arrancar toda a pela da parte superior de seu rosto. <br \/>\n&emsp;&emsp;Eu, assustado, me afastei. No ch\u00e3o, pele e cabelos mortos serviam de tapete para a figura grotesca na minha frente. Procurei em v\u00e3o uma sa\u00edda, mas a esta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha escada e nem lugar para sair. S\u00f3 existia eu e ela. Com a coragem de que medo me deu, perguntei a o que ela queria. Mas em sua resposta ela me questionou novamente por que eu fiz aquilo com ela. Gritei para a mulher, ou ser, n\u00e3o sei, que nunca fiz nada com ela. Mas ela n\u00e3o aceitou minha resposta e veio mancando at\u00e9 mim. <br \/>\n&emsp;&emsp;Com o aproximar dela eu cai no ch\u00e3o e continuei a engatinhar para tr\u00e1s. A mulher continuou vindo at\u00e9 mim. Em cada dif\u00edcil passo que ela dava, a mesma me questionava a mesma coisa. Foi em poucos metros que a minha salva\u00e7\u00e3o veio. Um trem apareceu r\u00e1pido como uma bala e abriu suas portas. Sem esperar corri para dentro para fugir daquela criatura. <br \/>\n&emsp;&emsp;Num piscar de olhos me vi dentro do trem em movimento. Na minha volta as mesmas pessoas que abandonei para entrar na esta\u00e7\u00e3o. Era como se eu nunca tivesse os abandonado. Mas lembro de ser real, pois eu estava deitado no ch\u00e3o perto da porta. Na janela apenas a terra passava correndo, como se a mulher tivesse sumido. Eu olhei em volta a procura do meu pesadelo, mas nada tinha. <br \/>\n&emsp;&emsp;Ent\u00e3o fiquei duas semanas sem ir de metr\u00f4. Voltei de \u00f4nibus para casa, que era mais demorado. Nessas duas semanas eu a via em todo lugar, mas logo depois eu voltava a mim e notava que era apenas meu medo. Eu a procurei para fugir dela. Sempre assustado, andava nas ruas e no trabalho. Passei noites e dias em alerta para caso ela vir. Felizmente foram em v\u00e3o. Mas foi na terceira semana que a vi novamente. <br \/>\n&emsp;&emsp;Andava na rua, em frente do meu trabalho, quando ouvi um chamado. Ao virar para tr\u00e1s a mulher com um sorriso no rosto e o bra\u00e7o esticado me chamou. Ela gritou meu nome com minha carteira na m\u00e3o. Ao cruzar meu olhar ela sorriu e correu levemente at\u00e9 mim, me chamando de senhor. Nesse momento meu cora\u00e7\u00e3o tomou meu corpo. Num impulso corri na dire\u00e7\u00e3o oposta dela, mas ela veio atr\u00e1s de mim. Empurre pessoas e taquei algumas no ch\u00e3o, tudo para fugir da mulher. Ela continuou atr\u00e1s de mim, n\u00e3o importou o quanto eu corria. Foi ent\u00e3o que eu me taquei entre os carros de uma rua movimentada. <br \/>\n&emsp;&emsp;Sem olhar para tr\u00e1s entrei no meios do carros. Mas fui impedido de continuar, pois um carro parou na minha frente. Antes deu desviar ela a mulher segurou meu ombro e me virou. Com um sorriso no rosto ela me deu minha carteira. Por\u00e9m na hora eu estava assustado e simplesmente a empurrei contra um carro. <br \/>\n&emsp;&emsp;O barulho da freada tomo o meu corpo. Um carro passou e prendeu o bra\u00e7o da mulher. Ele a carregou por trinta metros antes dela se desprender. Eu corri at\u00e9 o local, em que era o fim de um caminho de sangue. Chegando l\u00e1 eu vi o monstro de novo. O arrastar no asfalto queimou a pele dela. O ferro deformado do carro rasgou o belo rosto dela, formando um ir\u00f4nico \u201csorriso\u201d de dor. E no ultimo suspiro ela fixou seus olhos em mim. Por um segundo ela sorriu.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;Em relato, em pap\u00e9is, em palavras busco minha sanidade. N\u00e3o sei se ela ainda existe, espero que sim. Direi como eu a perdi. Eu realmente a perdi? N\u00e3o sei. Posso dizer que a perdi s\u00f3 porque aceitei o irreal? Na verdade, o que \u00e9 o real? 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