{"id":10991,"date":"2026-11-04T13:17:48","date_gmt":"2026-11-04T16:17:48","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-11-04T13:17:48","modified_gmt":"2026-11-04T16:17:48","slug":"capitulo-13","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-13\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 13"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Vov\u00f3 %Bhasin% era uma mulher espiritualizada, cheia de cren\u00e7as e supersti\u00e7\u00f5es. S\u00f3 comemorava anivers\u00e1rios em n\u00fameros redondos: cinquenta, sessenta, setenta. E, nesses casos, exigia a presen\u00e7a de todos os netos.<br \/>\n\u2003\u2003Dos filhos, curiosamente, ela n\u00e3o parecia fazer tanta quest\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Vov\u00f3 nunca nos obrigou a usar roupas tradicionais. Na verdade, os eventos dela eram praticamente os \u00fanicos em que pod\u00edamos deixar os s\u00e1ris no arm\u00e1rio sem culpa nenhuma. Por outro lado, Nani tinha horror a qualquer coisa que parecesse minimamente fora de controle. Se dependesse dela, provavelmente nos colocaria sentados em c\u00edrculo no ch\u00e3o, meditando at\u00e9 que todos encontr\u00e1ssemos a paz interior.<br \/>\n\u2003\u2003Estava tudo indo bem, ver meus primos sempre era divertido, mas tudo saiu do lugar no instante em que fui colocada no mesmo time que Kiara no Carrom, um jogo indiano de tabuleiro que, em teoria, exigia estrat\u00e9gia, precis\u00e3o e um m\u00ednimo de civilidade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea tocou na minha pe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Onde, Kiara? Como? \u2013 Falei, j\u00e1 aumentando meu tom de voz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Agora. Antes. Voc\u00ea empurrou o striker e a minha pe\u00e7a se mexeu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A sua pe\u00e7a se mexeu porque o tabuleiro \u00e9 velho, n\u00e3o porque eu encostei nela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00eas duas podem parar? \u2013 Maya reclamou, entediada, com o queixo apoiado na m\u00e3o. \u2013 Ningu\u00e9m nem conseguiu jogar ainda.<br \/>\n\u2003\u2003E foi assim que, antes mesmo de terminarmos a rodada, fomos oficialmente expulsas da mesa de Carrom.<br \/>\n\u2003\u2003Vov\u00f3 apontou o queixo na dire\u00e7\u00e3o da cozinha \u2013 n\u00e3o levantou a voz, as mulheres %Bhasin% nunca levantavam a voz \u2013 e disse que, j\u00e1 que t\u00ednhamos tanta energia para discutir, tamb\u00e9m ter\u00edamos para servir.<br \/>\n\u2003\u2003Era o castigo favorito de Nani. Sempre que algum dos netos passava dos limites, ela fazia quest\u00e3o de nos lembrar que, apesar de todo o dinheiro da fam\u00edlia, ainda \u00e9ramos perfeitamente capazes de fazer o nosso pr\u00f3prio servi\u00e7o. E, honestamente, \u00e9ramos. S\u00f3 n\u00e3o \u00e9ramos particularmente boas nisso.<br \/>\n\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu e Kiara \u00e9ramos mandadas para a cozinha com certa frequ\u00eancia. Como brig\u00e1vamos mais do que qualquer outro par de primos, Nani tinha descoberto que nos colocar para trabalhar juntas era uma maneira bastante eficiente de nos manter ocupadas e, de quebra, evitar que continu\u00e1ssemos infernizando o resto da fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003No come\u00e7o, \u00e9ramos um desastre. Derrub\u00e1vamos bandejas, troc\u00e1vamos os pratos, esquec\u00edamos os talheres e discut\u00edamos at\u00e9 sobre quem tinha feito o qu\u00ea. Os funcion\u00e1rios assistiam de longe e at\u00e9 se divertiam. Depois de alguns castigos \u2013 e de algumas broncas memor\u00e1veis \u2013, acabamos ficando boas em servir.<br \/>\n\u2003\u2003Olhei para ela de soslaio.<br \/>\n\u2003\u2003Postura impec\u00e1vel. Cabelo perfeitamente alinhado. Vestido sem uma \u00fanica dobra fora do lugar. At\u00e9 organizando ta\u00e7as de sobremesa, Kiara parecia estar posando. Havia alguma coisa irritantemente elegante nela. O olhar afiado e aquele nariz americano de que ela tanto se orgulhava completavam o conjunto.<br \/>\n\u2003\u2003Se quisesse, seria uma socialite indiana de dar gosto de assistir. Tinha o rosto, o sobrenome, o dinheiro e a postura impec\u00e1vel para isso. S\u00f3 lhe faltava uma coisa: vontade.<br \/>\n\u2003\u2003Kiara tinha passado boa parte da vida fazendo quest\u00e3o de deixar claro que n\u00e3o queria ser exatamente aquilo que esperavam dela. O que, considerando o quanto ela se parecia com tudo o que dizia desprezar, tornava a coisa ainda mais engra\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que veio fazer aqui? \u2013 Perguntei, passando o pano pela borda de uma ta\u00e7a. \u2013 Lembrou que \u00e9 uma %Bhasin%?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Minha m\u00e3e me obrigou a vir. E Nani tamb\u00e9m. \u2013 Kiara deu de ombros, sem perder a postura. \u2013 N\u00e3o sei fingir que est\u00e1 tudo \u00f3timo enquanto o dinheiro sujo cai das paredes, como voc\u00eas fazem aqui.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Puta merda. \u2013 Rolei os olhos, quase indignada com a capacidade que Kiara tinha de transformar qualquer conversa banal em uma oportunidade para ser insuport\u00e1vel. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o consegue passar cinco minutos sem pegar uma conversa normal e transformar em manifesto pol\u00edtico?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu s\u00f3 respondi \u00e0 sua pergunta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o respondeu. Aproveitou a oportunidade para atacar.<br \/>\n\u2003\u2003Kiara finalmente levantou os olhos para mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se eu quisesse atacar, come\u00e7aria pelo fato de voc\u00ea estar namorando o meu namorado.<br \/>\n\u2003\u2003Continuei olhando para a ta\u00e7a entre meus dedos. Eu sabia que, em algum momento, aquele assunto apareceria.<br \/>\n\u2003\u2003Kiara podia passar a tarde inteira fingindo que n\u00e3o se importava, mas n\u00e3o perderia a oportunidade de jogar %Anthony% na minha cara assim que encontrasse uma brecha. E eu n\u00e3o podia fazer nada a respeito, precisava continuar fingindo que eu n\u00e3o me sentia rid\u00edcula toda vez que lembrava que, antes de mim, ele tinha sido dela de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Essa parte me incomodava profundamente.<br \/>\n\u2003\u2003Ela tinha tido ele. De verdade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que? \u2013 Ela se inclinou um pouco sobre a mesa, aproximando-se o suficiente para baixar a voz. Havia uma divers\u00e3o estranha no brilho dos olhos dela. Kiara tinha percebido o esfor\u00e7o que fiz para n\u00e3o demonstrar o quanto eu estava desconfort\u00e1vel. \u2013 Voc\u00ea realmente achou que ningu\u00e9m ia me contar?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o devo explica\u00e7\u00f5es a voc\u00ea, Kiara.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Claro que n\u00e3o. \u2013 Pegou outra ta\u00e7a e come\u00e7ou a passar o pano pela borda, como se o assunto n\u00e3o tivesse import\u00e2ncia. \u2013 Voc\u00ea nunca deve nada a ningu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 L\u00e1 vem. \u2013 Resmunguei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sempre quis ser como eu, %Ananya%. Sempre! \u2013 Murmurou, baixo, mas exasperada, como se estivesse esperando havia anos por uma oportunidade de dizer aquilo. \u2013 Desde sempre. Desde pequena, voc\u00ea sempre&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, Kiara, pelo amor de Deus.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sempre assim, %Ananya%. \u2013 Ela pousou outra ta\u00e7a na bandeja. \u2013 Como quando voc\u00ea vestiu meu vestido rosa sem pedir e rasgou a costura.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso foi no meu anivers\u00e1rio de doze anos. \u2013 Rebati , incr\u00e9dula. \u2013 Supera!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Engra\u00e7ado voc\u00ea falar em superar. \u2013 Ela pegou outra ta\u00e7a. \u2013 Como voc\u00ea superou o meu brinco de p\u00e9rolas?<br \/>\n\u2003\u2003Muito antes de decidir que era contra todos os herdeiros do mundo, contra tudo o que a fam\u00edlia representava e, aparentemente, contra qualquer coisa que tivesse o sobrenome %Bhasin%, Kiara j\u00e1 travava batalhas por brincos de p\u00e9rola.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eram meus! \u2013 Bati o p\u00e9 no ch\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foram heran\u00e7a da vov\u00f3 Lakshmi! \u2013 Kiara rebateu. \u2013 Assim como o apartamento em Bandra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O apartamento n\u00e3o era seu. \u2013 Cruzei os bra\u00e7os, irritada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tamb\u00e9m n\u00e3o era seu!<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo, ficamos apenas nos encarando atrav\u00e9s da mesa coberta de ta\u00e7as. Duas mulheres adultas discutindo por coisas que tinham acontecido mais de uma d\u00e9cada antes.<br \/>\n\u2003\u2003Kiara foi a primeira a quebrar o sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sempre faz isso. \u2013 Apontou o dedo para mim. \u2013 Transforma tudo em competi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o estou competindo com voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Est\u00e1 sim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Est\u00e1!<br \/>\n\u2003\u2003Kiara ainda estava rebatendo quando ouvimos vozes do outro lado da porta. N\u00e3o dava para entender tudo. S\u00f3 frases cortadas pelo barulho da festa, pelo tilintar dos copos, por algu\u00e9m rindo mais longe.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>&#8230;e agora est\u00e1 tentando a fus\u00e3o de novo.<\/em> \u2013 Disse uma das vozes, mais baixa, acompanhada por uma risada curta.<br \/>\n\u2003\u2003Minha m\u00e3o parou sobre a ta\u00e7a. Kiara tamb\u00e9m ficou im\u00f3vel.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Davi precisava de algu\u00e9m pr\u00f3ximo da gente. E agora ele conseguiu.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Quem?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Houve uma pausa e ent\u00e3o a resposta veio com esc\u00e1rnio:<br \/><strong><br \/>\n<\/strong>\u2003\u2003\u2013 O cara que namorou as duas. Ou voc\u00ea acha que foi puro acaso?<br \/>\n\u2003\u2003Olhei para Kiara, ela j\u00e1 estava olhando para mim. E, pela primeira vez, nenhuma das duas parecia interessada em ganhar a discuss\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Outra voz respondeu, mais abafada, como se estivesse de costas:<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>\u2026algumas alian\u00e7as nesse lado da fam\u00edlia s\u00e3o mais\u2026 convenientes do que parecem.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003E veio o sil\u00eancio de novo, como se os dois tivessem deixado a antessala.<br \/>\n\u2003\u2003Eu reconheci as vozes antes mesmo de conseguir organizar as palavras. Sameer e Rohan. Os dois trabalhavam na empresa havia anos. Sameer cuidava da parte administrativa; Rohan trabalhava diretamente com meu pai e, \u00e0s vezes, com meu tio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Viu? \u00c9 por isso que eu fico longe daqui. \u2013 Kiara jogou o guardanapo sobre a mesa, como se aquilo encerrasse a discuss\u00e3o. \u2013 Tudo para voc\u00eas \u00e9 conspira\u00e7\u00e3o. Todos voc\u00eas corporativistas s\u00e3o assim. \u2013 Kiara soltou uma risada curta, provocativa. Revirou os olhos e pegou outra ta\u00e7a. \u2013 Passam o dia falando de contratos, fus\u00f5es, aquisi\u00e7\u00f5es e Deus sabe mais o qu\u00ea. Depois tomam duas ta\u00e7as de vinho e come\u00e7am a enxergar conspira\u00e7\u00e3o em qualquer conversa de corredor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Rohan \u00e9 um lun\u00e1tico, voc\u00ea sabe. \u2013 Dei de ombros, embora um comich\u00e3o insistente tivesse come\u00e7ado a se espalhar pela minha pele, subindo pelo pesco\u00e7o como se tivesse vida pr\u00f3pria.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E irrespons\u00e1vel. \u2013 Ela apontou para mim com o dedo molhado de vinho. \u2013 Falando de %Anthony% como se ele tivesse alguma coisa a ver com a empresa.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% era advogado de outra empresa. N\u00e3o fazia parte de nada da %Bhasin%. Ser funcion\u00e1rio do Martinez, que era amigo da fam\u00edlia, era apenas uma coincid\u00eancia. N\u00e3o tinha qualquer motivo para estar envolvido numa conversa sobre fus\u00e3o, muito menos em qualquer plano relacionado \u00e0 minha fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003Era s\u00f3 uma coincid\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9. \u2013 Murmurei. \u2013 Maluquice.<br \/>\n\u2003\u2003Ela ficou alguns segundos em sil\u00eancio, os dedos brincando distraidamente com o pano que tinha acabado de usar. Ent\u00e3o soltou uma risadinha nervosa e disse: \u2013 Isso est\u00e1 come\u00e7ando a soar como se seu namorado fosse algum g\u00eanio do mal.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu namorado que j\u00e1 foi seu namorado. \u2013 Pontuei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Exatamente. \u2013 Kiara sorriu e eu tamb\u00e9m, ent\u00e3o nossos olhos se encontraram e alguma coisa mudou.<br \/>\n\u2003\u2003Nenhuma de n\u00f3s riu dessa vez. Porque o sorriso de Kiara morreu devagar, como se ela tivesse acabado de ouvir de novo, na pr\u00f3pria voz, o que tinha dito.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o parecia t\u00e3o absurdo assim.<br \/>\n\u2003\u2003Ficamos em sil\u00eancio por alguns segundos. Kiara foi a primeira a falar, ainda olhando para a porta: \u2013 Ele nem trabalha para a empresa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o precisa trabalhar. \u2013 Respondi sem pensar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003Levei um instante para formular a resposta. Nos meus anos na %Bhasin%, eu tinha visto coisas que jamais teria imaginado e ouvido falar de outras tantas. Hist\u00f3rias de consultores que apareciam para uma reuni\u00e3o e sa\u00edam com tr\u00eas contratos na bagagem. De advogados que nunca pisavam no escrit\u00f3rio, mas cujo nome constava em todos os memorandos internos. De gente que n\u00e3o tinha cargo nenhum e, ainda assim, parecia saber de tudo antes de todo mundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o sei. \u2013 Falei, por fim. \u2013 Estou s\u00f3 dizendo. Mas j\u00e1 vi gente sem crach\u00e1 nenhum circular por lugares onde eu, que tenho o sobrenome na parede, nunca entrei.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% n\u00e3o precisava trabalhar para a %Bhasin%. Precisava apenas estar perto de mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Espera a\u00ed, gatinha. \u2013 Kiara apontou o dedo para mim, e a unha perfeita parecia uma arma pequena. \u2013 Eu passei anos num relacionamento com ele. O %Anthony% n\u00e3o \u00e9 esse tipo de cara. \u2013 Kiara me observou por mais alguns segundos. \u2013 Eu passei anos com ele, %Ananya%. Voc\u00ea sabe disso.<br \/>\n\u2003\u2003Eu sabia o que ela queria dizer. Kiara conhecia %Anthony% de um jeito que eu n\u00e3o conhecia. Tinha convivido com ele antes de mim, antes da mentira, antes de eu sequer considerar que ele pudesse fazer parte da minha vida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o estou dizendo que ele fez alguma coisa. \u2013 Passei o pano pela borda de outra ta\u00e7a, concentrando-me no movimento repetitivo.<br \/>\n\u2003\u2003Foi quando me lembrei da conversa que tivera com %Anthony% semanas antes.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% j\u00e1 tinha me contado sobre Davi.<br \/>\n\u2003\u2003Tinha ido at\u00e9 o meu escrit\u00f3rio para me avisar que ele queria informa\u00e7\u00f5es da minha fam\u00edlia. Contratos. Cl\u00e1usulas confidenciais. Documentos.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o sei por que comentei o que comentei, mas, naquele momento, as coisas come\u00e7aram simplesmente a sair pela minha cabe\u00e7a e pela minha boca, sem pedir licen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony% me contou que uma vez o Davi tentou usar ele para conseguir informa\u00e7\u00f5es da nossa empresa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quando?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Algumas semanas atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea n\u00e3o achou isso estranho? \u2013 Kiara perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003A pergunta me atingiu de um jeito diferente. At\u00e9 poucos minutos antes, eu nem tinha pensado em questionar. Eu tinha guardado aquele dia no escrit\u00f3rio como prova de que %Anthony% era honesto. Como prova de que ele tinha escolhido me proteger. De repente, a mesma lembran\u00e7a servia para as duas coisas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele me contou porque queria que eu tomasse cuidado&#8230;?<br \/>\n\u2003\u2003Kiara n\u00e3o respondeu de imediato. Apenas sustentou meu olhar e havia alguma coisa nos olhos dela que eu n\u00e3o via desde que \u00e9ramos crian\u00e7as. Uma esp\u00e9cie de solidariedade silenciosa, quase desconfort\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ou porque queria que voc\u00ea confiasse nele&#8230;? \u2013 Ficamos nos encarando por alguns segundos e, pela primeira vez, n\u00e3o havia provoca\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s. \u2013 Tem gente demais orbitando essa fam\u00edlia sem que ningu\u00e9m pare para perguntar por qu\u00ea. \u2013 Ela falou quase distraidamente.<br \/>\n\u2003\u2003Esperei que ela continuasse, mas, em vez disso, virou-se de repente e se afastou de mim com passos r\u00e1pidos, o corpo inteiro retesado, como se precisasse fugir daquela conversa antes que alguma de n\u00f3s dissesse alguma coisa que n\u00e3o pudesse mais ser desdita.<br \/>\n\u2003\u2003Passei o pano pela borda da ta\u00e7a uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003Depois outra vez. E depois n\u00e3o havia mais nada para limpar, mas mesmo assim, continuei.<br \/>\n\u2003\u2003Olhei para a porta.<br \/>\n\u2003\u2003<em>O cara que namorou as duas.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A frase voltou \u00e0 minha cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o fazia sentido.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% n\u00e3o trabalhava para a empresa. N\u00e3o tinha qualquer cargo, qualquer participa\u00e7\u00e3o, qualquer motivo \u00f3bvio para estar envolvido nos assuntos dos %Bhasin%. E, ainda assim, o nome dele tinha aparecido no meio de uma conversa sobre Davi, uma fus\u00e3o e algu\u00e9m que precisava estar pr\u00f3ximo da minha fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o sabia o que pensar.<br \/>\n\u2003\u2003Olhei para o corredor, onde as vozes ainda soavam como murm\u00farios distantes. Um peso s\u00fabito tomou conta dos meus m\u00fasculos, como se meu corpo tivesse entendido alguma coisa antes de mim e agora estivesse tentando me obrigar a parar. Como se dissesse: para, antes que voc\u00ea descubra o resto.<br \/>\n\u2003\u2003A coincid\u00eancia me incomodou de um jeito que eu n\u00e3o conseguia explicar. Porque, isoladamente, cada coisa ainda podia ter uma explica\u00e7\u00e3o perfeitamente razo\u00e1vel. Davi poderia ter procurado %Anthony% por acaso. %Anthony% poderia ter recusado. Poderia ter me contado justamente porque n\u00e3o queria fazer parte daquilo.<br \/>\n\u2003\u2003Se tudo aquilo fosse apenas coincid\u00eancia, era uma coincid\u00eancia muito bem ensaiada.<br \/>\n\u2003\u2003Como? Desde quando? Antes da ilha? Aquele encontro que eu ainda chamava de acaso tinha sido mesmo um acaso?<br \/>\n\u2003\u2003<em>E o sexo? <\/em>Fechei os olhos por um segundo. <em>Ele planejou aquilo tamb\u00e9m?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Meu est\u00f4mago se revirou. Porque, de repente, cada lembran\u00e7a parecia ter uma segunda vers\u00e3o escondida dentro dela. O jeito como ele tinha aparecido na minha vida, t\u00e3o f\u00e1cil, t\u00e3o certo, t\u00e3o&#8230; conveniente.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 me dizendo que ele quer que voc\u00ea entregue informa\u00e7\u00f5es? Usando voc\u00ea como isca? Ele te amea\u00e7ou? \u00c9 por isso que est\u00e1 aqui?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Ele quer coisas espec\u00edficas&#8230; C\u00f3pias de contratos. Cl\u00e1usulas confidenciais. Acha que, com a documenta\u00e7\u00e3o certa, pode derrubar o Adit&#8230; ou compr\u00e1-lo.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Isso \u00e9 crime, %Anthony%.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Eu sei. Mas o Davi n\u00e3o liga para legalidade. Ele s\u00f3 quer resultado.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Por que voc\u00ea est\u00e1 me contando isso?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Porque eu preciso que voc\u00ea esteja atenta. Que se proteja. E que entenda que&#8230; se algu\u00e9m aparecer querendo esse tipo de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vai ser coincid\u00eancia.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 E o que voc\u00ea vai fazer?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Ainda estou tentando descobrir.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Abri os olhos. O sal\u00e3o voltou de uma vez: as vozes, os copos, a m\u00fasica baixa, o pano ainda preso entre meus dedos e uma vertigem muito, muito forte.<br \/>\n\u2003\u2003<strong><em>Ainda estou tentando descobrir.<\/em><\/strong><br \/>\n\u2003\u2003Naquele dia, eu tinha entendido que %Anthony% estava tentando decidir o que fazer. Agora, pela primeira vez, me perguntei se tinha entendido errado.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% tinha aceitado o plano naquele dia? Ou j\u00e1 fazia parte dele muito antes? Desde Kiara?<br \/>\n\u2003\u2003A lembran\u00e7a do nosso primeiro encontro veio inteira. Depois, a ilha. Os beijos. A porra do sof\u00e1. Cada mem\u00f3ria que eu tinha guardado como prova de que aquilo era real agora parecia ter adquirido uma segunda vers\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Como se eu tivesse passado meses acreditando que estava vivendo uma hist\u00f3ria&#8230; quando, talvez, tivesse apenas entrado no meio de uma estrat\u00e9gia que come\u00e7ou muito antes de mim.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u2013 \u053a \u2013<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003Virei minha sexta ta\u00e7a de rum da Nani. Ou quinta. Aparentemente, al\u00e9m de s\u00f3 beber no dia do meu anivers\u00e1rio, agora eu tamb\u00e9m bebia no anivers\u00e1rio da minha av\u00f3.<br \/>\n\u2003\u2003Uma evolu\u00e7\u00e3o question\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Tentei de tudo para fazer o n\u00f3 na minha garganta afrouxar, mas ele continuava ali, apertado e persistente, desde o momento em que ouvimos aquela conversa. E, como eu n\u00e3o fazia a menor ideia do que fazer com todas aquelas perguntas \u2013 muito menos com o nome de %Anthony% martelando dentro da minha cabe\u00e7a \u2013, precisava de alguma coisa que me ajudasse a calar tudo aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003A bebida mais pr\u00f3xima era o rum.<br \/>\n\u2003\u2003Foi mais ou menos na hora da oitava ta\u00e7a que Kiara apareceu. Ela n\u00e3o perguntou se eu estava bem, muito menos ofereceu qualquer consolo. Apenas ficou ali, de bra\u00e7os cruzados, esperando pelo momento em que eu finalmente cairia ou vomitaria.<br \/>\n\u2003\u2003Kiara soltou um suspiro pelo nariz. Seus olhos \u2013 t\u00e3o parecidos com os da vov\u00f3 \u2013 percorreram meu rosto por alguns segundos. N\u00e3o havia pena ali, nem carinho. Mas havia alguma coisa: uma preocupa\u00e7\u00e3o que ela provavelmente morreria antes de admitir.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai passar mal. \u2013 Disse, seca. Fiz uma careta e procurei a ta\u00e7a de novo, embora ela estivesse exatamente onde eu tinha deixado.<br \/>\n\u2003\u2003Estendi a m\u00e3o para a ta\u00e7a, mas antes que pudesse beber outra vez, Kiara segurou meu bra\u00e7o e disse: \u2013 Vem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. \u2013 Neguei com a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%&#8230; \u2013 Ela me encarou e depois fechou os olhos por um segundo, como se estivesse pedindo paci\u00eancia a todos os deuses dispon\u00edveis: \u2013 Vou levar voc\u00ea para casa.<br \/>\n\u2003\u2003Aproveitando que eu estava perto da porta, Kiara segurou meu bra\u00e7o e come\u00e7ou a me conduzir pelos degraus da varanda em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada, ignorando solenemente todas as minhas recusas.<br \/>\n\u2003\u2003O \u00e1lcool era, de fato, um efeito colateral desgra\u00e7ado.<br \/>\n\u2003\u2003Na minha cabe\u00e7a, eu sabia que ela estava certa. Precisava sair dali, parar de beber e, de prefer\u00eancia, desaparecer antes que algu\u00e9m da fam\u00edlia me encontrasse naquele estado. N\u00e3o podia fazer uma cena na casa da Vov\u00f3, n\u00e3o ali, n\u00e3o naquela noite, n\u00e3o com o s\u00e1ri da tia Meera passando pelo corredor e o primo Vikram sempre a um passo de aparecer com o celular na m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ainda assim, meu corpo parecia ter desenvolvido uma opini\u00e3o pr\u00f3pria sobre o assunto. Eu dizia que n\u00e3o enquanto tentava me desvencilhar de Kiara, como se repetir a palavra fosse suficiente para transformar uma decis\u00e3o est\u00fapida em um princ\u00edpio inegoci\u00e1vel. Meu c\u00e9rebro, em algum lugar atr\u00e1s da n\u00e9voa et\u00edlica, repetia a mesma frase em loop \u2013 voc\u00ea precisa parar, voc\u00ea precisa parar \u2013, mas era como ouvir algu\u00e9m gritar do outro lado de uma porta fechada.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o sei dizer por que ela insistiu tanto. Talvez estivesse preocupada com o que eu poderia fazer se me deixasse sozinha. Talvez soubesse, melhor do que eu, que a noite ainda tinha muito espa\u00e7o para piorar. Seja qual fosse o motivo, ela conseguiu me levar at\u00e9 o carro.<br \/>\n\u2003\u2003O problema foi que chegar at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o significava que eu tivesse concordado em entrar.<br \/>\n\u2003\u2003Quando Kiara abriu a porta do passageiro e fez um gesto para que eu me sentasse, recusei-me a obedecer. Ela tentou argumentar. Eu respondi que n\u00e3o precisava. N\u00e3o sei bem como a conversa descambou para os brincos de p\u00e9rolas. Em algum momento, Kiara estava dizendo alguma coisa sobre a heran\u00e7a da v\u00f3 Lakshmi, e eu, b\u00eabada como estava, resolvi que aquela era a hora perfeita para defender minha honra. Discutimos. Levantamos a voz. Eu disse coisas que provavelmente n\u00e3o faziam sentido nenhum e que, com certeza, n\u00e3o tinham nada a ver com o carro.<br \/>\n\u2003\u2003E, em algum momento, aproveitando uma distra\u00e7\u00e3o dela \u2013 acho que ela olhou para o celular, ou para a rua, ou para qualquer coisa que n\u00e3o fosse eu \u2013, afastei-me do carro e voltei para a cal\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003Kiara soltou o ar com for\u00e7a e fechou os olhos por um instante. Depois, fechou a porta do carro com um baque contido e entrou, sem olhar para tr\u00e1s. Pela primeira vez na noite, ela parecia ter desistido de mim.<br \/>\n\u2003\u2003Foi uma p\u00e9ssima ideia ela ter me deixado sozinha. Andei r\u00e1pido demais. N\u00e3o me lembro de ter olhado para tr\u00e1s ou para os lados, tampouco percebi que tinha me afastado da cal\u00e7ada e avan\u00e7ado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua. Ent\u00e3o uma luz forte invadiu meu campo de vis\u00e3o. Tive tempo apenas de virar o rosto antes de sentir o impacto.<br \/>\n\u2003\u2003Um carro me atingiu de rasp\u00e3o, mas foi o bastante para me desequilibrar completamente. Meus p\u00e9s perderam o contato com o ch\u00e3o e meu corpo foi lan\u00e7ado para o lado. Bati o cotovelo primeiro, depois o quadril. Por alguns segundos, n\u00e3o consegui fazer nada al\u00e9m de ficar deitada, olhando para o c\u00e9u escuro e tentando entender por que as estrelas pareciam girar.<br \/>\n\u2003\u2003Ouvi o motor ser desligado alguns metros adiante, seguido pelo baque de uma porta. Passos apressados se aproximaram pelo asfalto. Por um instante, imaginei que algu\u00e9m fosse se ajoelhar ao meu lado, perguntar se eu conseguia respirar ou se tinha batido a cabe\u00e7a. Talvez at\u00e9 oferecer ajuda antes de decidir se eu merecia receb\u00ea-la.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 louca, porra?!<br \/>\n\u2003\u2003Pisquei, tentando focar o rosto do homem parado \u00e0 minha frente. Devia ter pouco mais de vinte anos. Usava um moletom com capuz, tinha o cabelo raspado e estava vermelho de raiva, com os punhos cerrados ao lado do corpo. Ele n\u00e3o perguntou se eu estava bem, nem sequer olhou para o meu cotovelo. S\u00f3 continuou gritando alguma coisa sobre o carro, sobre o seguro, sobre mulheres b\u00eabadas que n\u00e3o sabem atravessar uma rua.<br \/>\n\u2003\u2003Tentei me apoiar nas m\u00e3os para levantar, mas o movimento fez a dor no bra\u00e7o aumentar. Soltei um ru\u00eddo involunt\u00e1rio e voltei a me sentar, desajeitada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu&#8230; \u2013 Minha voz saiu baixa, arrastada. Precisei engolir em seco e tentar de novo. \u2013 Voc\u00ea me atropelou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, n\u00e3o fode! Voc\u00ea se jogou na frente do meu carro, sua idiota! \u2013 Ele abriu os bra\u00e7os, indignado.<br \/>\n\u2003\u2003Antes que eu conseguisse responder, Kiara surgiu ao meu lado, ofegante.<br \/>\n\u2003\u2003Ajoelhou-se no asfalto sem se importar com o vestido e segurou meu rosto entre as m\u00e3os, obrigando-me a olhar para ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Ananya%. Olha para mim. Voc\u00ea est\u00e1 bem?<br \/>\n\u2003\u2003Tentei responder, mas minha cabe\u00e7a ainda parecia estar alguns segundos atrasada em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Acho que&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Ela passou os olhos pelo meu rosto, depois pelo meu corpo, procurando algum sinal mais grave. Quando chegou ao meu bra\u00e7o, franziu a testa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o se mexe. \u2013 Ela soltou meu rosto com cuidado, certificou-se de que eu continuava consciente e s\u00f3 ent\u00e3o se levantou para encarar o motorista. A preocupa\u00e7\u00e3o desapareceu de sua express\u00e3o, substitu\u00edda por uma raiva t\u00e3o fria que parecia pertencer a outra pessoa. \u2013 Voc\u00ea bateu nela!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ela se jogou na frente do carro!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 mentira! \u2013 Kiara apontou para o sed\u00e3, o dedo firme no ar. \u2013 Eu estava vendo. Voc\u00ea veio r\u00e1pido demais para uma rua t\u00e3o estreita. E ainda parou em cima da cal\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003Soltou um palavr\u00e3o. Ergueu o telefone, a c\u00e2mera apontada para n\u00f3s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vou filmar voc\u00eas duas. Vou mostrar para todo mundo o tipo de gente que&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Filma. \u2013 Kiara inclinou a cabe\u00e7a de leve, como se estivesse posando para uma fotografia. \u2013 Come\u00e7a pelo meu rosto. Depois filma o seu carro parado em cima da cal\u00e7ada, com a mulher que voc\u00ea atropelou sentada no ch\u00e3o. \u2013 Kiara nem piscou. \u2013 Vai ficar \u00f3timo.<br \/>\n\u2003\u2003Era um erro subestim\u00e1-la. Eu sabia disso desde a inf\u00e2ncia. Algumas das minhas lembran\u00e7as mais constrangedoras envolviam descobrir, tarde demais, que minha prima era capaz de causar estragos consider\u00e1veis sem precisar alcan\u00e7ar uma prateleira alta.<br \/>\n\u2003\u2003O homem baixou o telefone devagar, olhando de mim para ela como se estivesse tentando decidir se valia a pena continuar discutindo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quer saber? \u2013 Resmungou. \u2013 Eu n\u00e3o vou ficar aqui ouvindo isso.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se virou em dire\u00e7\u00e3o ao carro e Kiara deu um passo para o lado, ficando entre ele e a porta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Onde voc\u00ea pensa que vai? Voc\u00ea acabou de atropelar algu\u00e9m!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ela est\u00e1 andando, n\u00e3o est\u00e1?<br \/>\n\u2003\u2003Foi nesse ponto que a gritaria come\u00e7ou de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Ele falava por cima dela, Kiara respondia sem recuar, e eu continuava sentada no asfalto, tentando acompanhar a discuss\u00e3o. A \u00fanica coisa que conseguia concluir era que nenhum dos dois parecia disposto a encerrar o assunto.<br \/>\n\u2003\u2003Em algum momento, entre o cotovelo sangrando e a sensa\u00e7\u00e3o desconcertante de que o ch\u00e3o ainda se movia sob mim, o motorista pareceu perder a paci\u00eancia. Virou-se bruscamente na dire\u00e7\u00e3o de Kiara e a empurrou pelos ombros, tentando voltar para seu carro.<br \/>\n\u2003\u2003Foi um gesto r\u00e1pido, talvez nem t\u00e3o forte assim, por\u00e9m, alguma coisa dentro de mim se rompeu.<br \/>\n\u2003\u2003Eu sempre me considerei uma mulher calma e controlada. Mantinha essa fachada com uma compet\u00eancia quase profissional. Trabalhar em um ambiente predominantemente masculino tinha me ensinado a n\u00e3o demonstrar quando algu\u00e9m me ofendia ou me tirava do s\u00e9rio.<br \/>\n\u2003\u2003%Bhasin% era sin\u00f4nimo de autocontrole. Mas, aparentemente, meu autocontrole tinha um limite. E o limite era um desconhecido mal-educado empurrando minha prima depois de me atropelar.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o pensei nas consequ\u00eancias. N\u00e3o pensei na pol\u00edcia, na minha fam\u00edlia, na Vov\u00f3 ou na possibilidade de que algu\u00e9m estivesse assistindo \u00e0quela cena da janela de casa. Pensei apenas que queria que ele parasse de gritar e, aparentemente, meu c\u00e9rebro b\u00eabado concluiu que a melhor maneira de conseguir isso era tirar um dos meus saltos e jogar nele.<br \/>\n\u2003\u2003O salto atravessou o ar numa trajet\u00f3ria que, em outras circunst\u00e2ncias, eu teria descrito como surpreendentemente boa. O problema foi que n\u00e3o acertou nele, e sim na janela lateral do carro, com um estalo seco.<br \/>\n\u2003\u2003O vidro se estilha\u00e7ou.<br \/>\n\u2003\u2003Bom. Aquilo tinha sido, sem d\u00favida, uma p\u00e9ssima decis\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Os minutos seguintes viraram um borr\u00e3o. Gritos. Passos apressados. O motorista berrando alguma coisa sobre danos materiais. Kiara berrando algo sobre responsabilidade civil. Eu tentando entender por que o ch\u00e3o parecia inclinado e por que meu p\u00e9 esquerdo estava t\u00e3o frio.<br \/>\n\u2003\u2003Depois, vieram as luzes vermelhas e azuis, piscando contra as fachadas das casas e deixando tudo ainda mais surreal.<br \/>\n\u2003\u2003Eu me lembro de portas de carros batendo, vozes se sobrepondo e policiais tentando entender o que havia acontecido. Kiara tentou explicar que eu estava b\u00eabada, sim, mas que ele tinha me atingido primeiro. Que eu estava ferida e desorientada. Que ele havia se recusado a chamar uma ambul\u00e2ncia, come\u00e7ado a nos filmar e tentado ir embora. Que ela s\u00f3 havia tentado impedi-lo de sair.<br \/>\n\u2003\u2003E que, quanto ao retrovisor, havia circunst\u00e2ncias atenuantes.<br \/>\n\u2003\u2003O motorista contou uma vers\u00e3o consideravelmente diferente. Segundo ele, eu havia atravessado a rua b\u00eabada, me jogado na frente do carro e, depois, destru\u00eddo a janela lateral com um salto alto. A parte em que ele havia me atingido foi convenientemente reduzida a um detalhe. O empurr\u00e3o em Kiara tamb\u00e9m pareceu desaparecer da hist\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003No fim, os policiais ouviram os dois lados, registraram os depoimentos e chegaram \u00e0 conclus\u00e3o aparentemente mais simples da noite: nenhuma das nossas explica\u00e7\u00f5es mudava o fato de haver um carro danificado, uma confus\u00e3o no meio da rua e duas mulheres que, por raz\u00f5es diferentes, n\u00e3o estavam exatamente em condi\u00e7\u00f5es de facilitar o trabalho de ningu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Foi assim que acabamos na delegacia.<br \/>\n\u2003\u2003Eu, algemada. N\u00e3o porque tivesse oferecido resist\u00eancia \u2013 mal conseguia me manter em p\u00e9 sem ajuda \u2013, mas porque, ao que tudo indicava, atirar um salto contra a janela de um carro era uma p\u00e9ssima maneira de demonstrar indigna\u00e7\u00e3o. Quem poderia imaginar?<br \/>\n\u2003\u2003E Kiara&#8230; Kiara estava resistindo \u00e0 pris\u00e3o com uma energia que eu n\u00e3o sabia que ela possu\u00eda.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o estou resistindo! \u2013 Protestou, enquanto dois policiais tentavam convenc\u00ea-la a entrar na viatura. \u2013 Estou perguntando por que ela est\u00e1 algemada e aquele imbecil est\u00e1 andando por a\u00ed como se tivesse acabado de estacionar o carro no shopping!<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente entramos na viatura, Kiara sentou-se ao meu lado e sustentou meu olhar por alguns segundos.<br \/>\n\u2003\u2003Havia tanta coisa que poder\u00edamos dizer uma \u00e0 outra \u2013 a come\u00e7ar por uma lista bastante extensa de decis\u00f5es est\u00fapidas tomadas naquela noite \u2013, mas nenhuma de n\u00f3s parecia disposta a ser a primeira a admitir o absurdo da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Tentei manter a express\u00e3o s\u00e9ria. De verdade. Mas, apesar da dor de cabe\u00e7a, do cotovelo ardendo e da perspectiva de explicar aquela noite aos meus pais, senti uma vontade absurda de rir. E, pela maneira como Kiara desviou o rosto e mordeu o l\u00e1bio tr\u00eamulo, acho que ela tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2252],"class_list":["post-10991","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10991"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}