{"id":10929,"date":"2026-10-03T22:38:08","date_gmt":"2026-10-04T01:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-10-03T22:38:08","modified_gmt":"2026-10-04T01:38:08","slug":"capitulo-10","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-10\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 10"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003\u2013 Quanto tempo mais conseguimos enrolar? \u2013 Murmurei, bocejando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uns trinta minutos, talvez.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quarenta?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se voc\u00ea quiser Adit batendo na porta feito um carcereiro, talvez.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Trinta e cinco.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quinze. Depois disso, voc\u00ea encara seu destino e eu, o seu pai.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 obcecado por ele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O cara dirige igual piloto de F\u00f3rmula 1, %Anya%. Em estrada de terra. Claro que sou obcecado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ant?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Hm?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Por que tem uma pessoa dormindo na cama com a gente?<br \/>\n\u2003\u2003Acordei com a sensa\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m tinha usado minha cabe\u00e7a como tambor durante a noite inteira. A ressaca estava instalada antes mesmo de eu abrir os olhos, meu corpo inteiro do\u00eda como se eu tivesse dormido sobre uma camada de pedras e eu j\u00e1 tinha bebido quase um litro de \u00e1gua antes mesmo de conseguir abrir os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% estava encaixado atr\u00e1s de mim, um bra\u00e7o envolvendo minha cintura e eu sentia a respira\u00e7\u00e3o quente dele contra a minha nuca. Est\u00e1vamos espremidos em uma ponta da cama king-size enquanto mais da metade do colch\u00e3o estava ocupado por uma silhueta desfalecida, de bru\u00e7os, com um bra\u00e7o pendurado para fora e a respira\u00e7\u00e3o pesada.<br \/>\n\u2003\u2003Ethan.<br \/>\n\u2003\u2003A porra do Ethan estava dormindo na minha cama.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele&#8230; ele veio com a gente? \u2013 Franzi o cenho.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% apoiou o queixo no meu ombro. O calor do corpo dele encostando no meu fez minha cabe\u00e7a latejar um pouco mais. Talvez fosse s\u00f3 a ressaca. Talvez fosse o sono. Ou talvez fosse&#8230; outra coisa. Mas eu estava cansada demais para tentar descobrir qual das op\u00e7\u00f5es era a certa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu deixei ele ficar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Por que voc\u00ea deixou isso acontecer, %Anthony%?<br \/>\n\u2003\u2003Fechei os olhos, tentando reconstruir a noite na minha cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A garota com quem ele estava sumiu com o Anwar, e ele quis \u201cresolver as coisas\u201d. Estava b\u00eabado, puto e prestes a apanhar dos seus primos. Meu quarto estava ocupado por uma mesa de p\u00f4quer clandestina, enquanto voc\u00ea tinha me informado, com bastante convic\u00e7\u00e3o, que ia dormir com a Nina.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c9, eu tinha dito aquilo. O problema era que Nina havia desaparecido com Andreas em algum momento da noite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu tinha esquecido disso. \u2013 Admiti.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o estava exatamente no auge da minha sobriedade. Ent\u00e3o, considerando todas as circunst\u00e2ncias, acho que fiz o melhor que pude: impedir que seis dos seus primos transformassem o cara em saco de pancadas e deixar ele dormir no corredor. \u2013 Ele fez uma pausa e co\u00e7ou a nuca. \u2013 Al\u00e9m disso, a \u00faltima coisa que eu queria era ser promovido a corno da temporada diante da sua fam\u00edlia inteira. J\u00e1 n\u00e3o basta Andreas ser conhecido aqui por&#8230;ter feito um combo com a minha namorada e a minha irm\u00e3?<br \/>\n\u2003\u2003Dei risada, co\u00e7ando meus olhos, sentindo o resto da maquiagem se acumulando nos meus dedos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o deixa eu ver se entendi. Voc\u00ea estava preocupado em n\u00e3o ser feito de idiota pela minha fam\u00edlia&#8230;.e a solu\u00e7\u00e3o que encontrou foi colocar um homem b\u00eabado no meu quarto?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o foi colocar um homem b\u00eabado para dormir no ch\u00e3o e vir dormir com a minha namorada. \u2013 Ele apertou um pouco mais os bra\u00e7os ao redor da minha cintura.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o por que ele est\u00e1 na cama?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Porque voc\u00ea teve pena dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu? Eu n\u00e3o faria isso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%, voc\u00ea quase chorou quando viu ele dormindo no ch\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Revirei os olhos e voltei a encarar Ethan. Ele continuava im\u00f3vel, completamente inconsciente do fato de estar dormindo na mesma cama que eu e %Anthony%.<br \/>\n\u2003\u2003Havia um motivo para eu s\u00f3 beber daquele jeito uma vez por ano. E, como acontecia depois de cada uma dessas ocasi\u00f5es, eu renovava solenemente a promessa de nunca mais repetir a dose.<br \/>\n\u2003\u2003Fechei os olhos e tentei catar os peda\u00e7os da noite anterior e organizar dentro da minha cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003M\u00fasica alta. A gargalhada da Nina. Meus primos me incentivando a fazer escolhas question\u00e1veis. Um copo com alguma coisa vermelha, doce o suficiente para enganar qualquer pessoa minimamente inteligente. Depois disso&#8230; %Anthony%. A lembran\u00e7a do beijo voltou inteira, sem pedir licen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003O que aconteceu depois? Eu tinha falado alguma besteira? Tinha feito alguma besteira? Ou&#8230; At\u00e9 onde n\u00f3s t\u00ednhamos ido?<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo me deixou inquieta. N\u00e3o porque eu necessariamente me arrependesse do que pudesse ter acontecido. Era justamente o contr\u00e1rio. Se alguma coisa tinha acontecido entre mim e %Anthony%, eu queria lembrar. Queria saber o que tinha dito, como tinha come\u00e7ado e entender como t\u00ednhamos terminado na cama juntos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ant? \u2013 Murmurei. Senti que ele deu um pequeno susto, como se tivesse dormido de novo. \u2013 A gente&#8230;?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sabe.<br \/>\n\u2003\u2003Ele ficou em sil\u00eancio por um instante que durou uma eternidade. Senti ele suspirar contra o meu cabelo e suspirei junto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. A gente n\u00e3o fez nada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tem certeza?<br \/>\n\u2003\u2003A verdade \u00e9 que minha preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era exatamente a possibilidade de ter acontecido alguma coisa entre n\u00f3s. Era a possibilidade de ter acontecido e eu n\u00e3o me lembrar. Se aquele momento finalmente tivesse chegado \u2013 de novo \u2013, eu queria estar inteira. Queria lembrar, n\u00e3o reconstruir na manh\u00e3 seguinte por migalhas de conversa, pela vers\u00e3o dele dos fatos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom&#8230; A gente n\u00e3o fez nada. \u2013 %Anthony% repetiu, mais baixo ainda, quase num sussurro contra a minha nuca. \u2013 Mas quase. Voc\u00ea quis. Eu quis. E a\u00ed voc\u00ea dormiu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. \u2013 Duvidei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o existe a possibilidade de voc\u00ea estar inventando isso s\u00f3 para me humilhar? \u2013 Virei o rosto o suficiente para encar\u00e1-lo, com os olhos semicerrados.<br \/>\n\u2003\u2003Ele sorriu daquele jeito convencido que dava vontade de empurr\u00e1-lo da cama.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foi o fora mais educado que j\u00e1 levei na vida. \u2013 A risada dele veio baixa, quente contra a minha nuca. \u2013 Voc\u00ea apagou. No meio. E eu fiquei aqui, olhando para o teto, me perguntando se eu beijava t\u00e3o mal assim ou se voc\u00ea s\u00f3 estava muito cansada.<br \/>\n\u2003\u2003Fechei os olhos, envergonhada. Era t\u00e3o absurdo que quase era c\u00f4mico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu dormi no meio de um beijo, tem um homem b\u00eabado ocupando a minha cama e existe uma chance muito real de meu pai bater nessa porta nos pr\u00f3ximos quinze minutos. \u2013 Levei as duas m\u00e3os ao rosto. Se existisse um pr\u00eamio internacional para situa\u00e7\u00f5es constrangedoras, eu acabara de garantir uma indica\u00e7\u00e3o fort\u00edssima. \u2013 No meio de um beijo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea parou, disse &#8220;estou com sono&#8221;, e apagou. Foi t\u00e3o repentino que eu achei que tivesse te dado um mata-le\u00e3o sem querer.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio, tentando organizar aquilo com qualquer n\u00edvel m\u00ednimo de dignidade. Era uma cena t\u00e3o absurda que eu nem sabia por onde come\u00e7ar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 por isso que eu n\u00e3o bebo&#8230; \u2013 Murmurei.<br \/>\n\u2003\u2003Demoramos um tempo para sair da cama. N\u00e3o porque eu quisesse ficar \u2013 eu queria fugir \u2013 mas porque meu corpo ainda estava processando a noite anterior em c\u00e2mera lenta e cada movimento exigia uma negocia\u00e7\u00e3o com a ressaca.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% se levantou primeiro. Com um gemido pregui\u00e7oso que parecia sair diretamente dos ossos dele, esticou os bra\u00e7os para cima, os m\u00fasculos das costas se alongando. Foi quando ele come\u00e7ou a procurar a camisa pelo ch\u00e3o que eu reparei que ele estava sem ela. O tecido azul-marinho estava amassado perto da janela, a cinco passos da cama, como se tivesse sido arremessado com algum prop\u00f3sito.<br \/>\n\u2003\u2003Maldita ressaca. Maldito u\u00edsque. Maldita noite que eu n\u00e3o lembrava e que, aparentemente, tinha sido muito mais movimentada do que eu pensava.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se inclinou, pegou a camisa pelo ombro, sacudiu uma vez \u2013 como se isso fosse desamassar alguma coisa \u2013 e enfiou a cabe\u00e7a na gola.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Temos o passeio de barco com sua fam\u00edlia. \u2013 Disse, a voz abafada pelo tecido um segundo antes de a cabe\u00e7a dele aparecer. \u2013 E, por favor, v\u00ea se esse cidad\u00e3o acorda antes que algu\u00e9m do hotel ache que voc\u00ea montou um har\u00e9m acidental.<br \/>\n\u2003\u2003O &#8220;cidad\u00e3o&#8221; em quest\u00e3o roncou em resposta, virado de bru\u00e7os na minha cama, o rosto enterrado no travesseiro como se estivesse se afogando em linho branco.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Har\u00e9m acidental. \u2013 Repeti, com a voz seca. \u2013 \u00c9 exatamente o que eu sempre sonhei para minha reputa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% riu, baixo, e passou a m\u00e3o pelos cabelos tentando dom\u00e1-los. Olhei para Ethan, que continuava estirado na cama.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ethan? \u2013 Chamei, baixinho. \u2013 Ethan. \u2013 Nem um movimento dele. Merda, j\u00e1 est\u00e1vamos atrasados. Meu pai ia me matar. Minha m\u00e3e ia dizer que n\u00e3o tinha problema nenhum, sorrir daquele jeito educado e depois passar o resto do dia me lembrando, sem dizer uma palavra, de que eu era uma decep\u00e7\u00e3o log\u00edstica. \u2013 ETHAN!<br \/>\n\u2003\u2003Ethan acordou como se tivesse levado um choque, sentando de uma vez, ofegante, o olhar correndo pelo quarto numa velocidade desesperada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que porra&#8230; \u2013 Passou a m\u00e3o no rosto, ainda tentando fazer o c\u00e9rebro acompanhar a realidade. Ele olhou para mim e depois para %Anthony% e voltou para mim. \u2013 Ah, n\u00e3o&#8230; \u2013 Meu est\u00f4mago despencou quando vi a fei\u00e7\u00e3o dele. \u2013 A gente&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ethan! \u2013 Cortei, a voz aguda de p\u00e2nico, t\u00e3o alta que at\u00e9 %Anthony% levantou uma sobrancelha. \u2013 N\u00e3o. N\u00e3o foi nada disso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A gente&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o! \u2013 Ele ficou alguns segundos me encarando, claramente tentando montar a sequ\u00eancia dos acontecimentos. Pela express\u00e3o dele, fazia muito mais sentido acreditar que t\u00ednhamos dormido juntos do que aceitar qualquer outra explica\u00e7\u00e3o. E, bom, considerando que a um ano atras aquilo tinha mesmo acontecido&#8230; \u2013 Faz um enorme favor para todos n\u00f3s e vai embora antes que meu pai resolva entrar aqui e antes que eu me afunde de vergonha na frente do meu namorado&#8230; eu agrade\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 T\u00e1. T\u00e1 bom. \u2013 Ethan assentiu v\u00e1rias vezes, ainda desnorteado. Ele levantou da cama quase trope\u00e7ando nos pr\u00f3prios p\u00e9s e com os olhos ainda sem foco.<br \/>\n\u2003\u2003Quando passou por %Anthony%, diminuiu o passo. Lan\u00e7ou um olhar cauteloso para ele como quem esperava, a qualquer segundo, levar um soco perfeitamente justific\u00e1vel por ter acordado sem camisa na cama da namorada de outro cara. %Anthony% n\u00e3o fez absolutamente nada, s\u00f3 abriu um pouco mais o caminho. Ethan murmurou um &#8220;foi mal&#8221; quase inaud\u00edvel e desapareceu pelo corredor. Esperei a porta fechar e olhei para %Anthony%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu vou guardar esse momento. \u2013 Ele disse, apoiando o ombro no batente, os bra\u00e7os cruzados. \u2013 &#8220;Meu namorado.&#8221;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foi ret\u00f3rica. \u2013 Respondi, tentando ignorar o calor que subia pelas minhas bochechas e se espalhava pelo pesco\u00e7o. \u2013 Estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 estou dizendo&#8230; \u2013 Ele inclinou a cabe\u00e7a, fingindo considerar a possibilidade. \u2013 &#8220;Meu namorado&#8221; \u00e9 um termo bem espec\u00edfico para uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea podia ter dito &#8220;o homem que eu contratei para me acompanhar em eventos sociais\u201d ou \u201cmeu sugar baby\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%. \u2013 Choraminguei, quase implorando para que ele tivesse piedade.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu baixo. Aquele tipo de risada que parecia aquecer o espa\u00e7o entre n\u00f3s e, por algum motivo irritante, ficava ecoando na minha cabe\u00e7a muito depois de ele parar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vamos l\u00e1, %Bhasin%. Tem um barco esperando por n\u00f3s. E seu pai j\u00e1 deve estar ensaiando o discurso sobre pontualidade e responsabilidade. \u2013 Ele abriu a porta e fez um gesto para que eu sa\u00edsse. \u2013 Ent\u00e3o finge que voc\u00ea n\u00e3o passou a \u00faltima hora tendo um colapso existencial com dois homens na sua cama.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center&quot;\"><b>\u2013 \u053a \u2013<\/b><\/p>\n<p>\u2003\u2003A \u00fanica vantagem do passeio matinal era que s\u00f3 compareciam os que n\u00e3o estavam mortos de ressaca. Meus tios, alguns primos mais velhos e os amigos dos meus pais. Gente que, aparentemente, acordava cedo por puro prazer de ver o sol nascer ou que tinha descoberto como beber sem passar o dia seguinte desejando a pr\u00f3pria morte.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00f3s quatro \u2013 eu, %Anthony%, Nina e Andreas \u2013 n\u00e3o faz\u00edamos parte dessa categoria. Est\u00e1vamos no auge da ressaca, com olheiras profundas e a dignidade deixada em algum lugar da festa da noite anterior. Para ser sincera, ainda me sentia meio b\u00eabada. O mundo balan\u00e7ava num ritmo diferente do mar e meu est\u00f4mago parecia ter decidido acompanhar os dois.<br \/>\n\u2003\u2003Arrumei os \u00f3culos escuros no rosto (minha prote\u00e7\u00e3o contra a luz, contra os olhares, contra as perguntas, contra tudo que exigisse que eu parecesse uma pessoa funcional) enquanto fugia do olhar de minha m\u00e3e. Ela me olhou por um segundo, depois desviou o olhar. Suficiente para eu saber que ela j\u00e1 tinha notado cada detalhe em mim.<br \/>\n\u2003\u2003Cumprimentei algumas pessoas com sorrisos autom\u00e1ticos. Nina e Andreas j\u00e1 tinham se refugiado do outro lado do barco, encostados na borda, fingindo interesse profundo em algo no horizonte. Convenientemente ocupados demais para cumprimentos sociais. Covardes. Traidores. %Anthony%, ao meu lado, n\u00e3o se refugiou. A m\u00e3o dele ro\u00e7ou a minha suavemente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 T\u00e1 bem? \u2013 Ele perguntou, baixo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Perfeita. \u2013 Menti.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003A voz da minha m\u00e3e cortou o ar como uma tesoura.<br \/>\n\u2003\u2003Ela vinha na minha dire\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel, como sempre. O s\u00e1ri branco de linho parecia ter sido escolhido s\u00f3 para deixar ainda mais evidente que, enquanto eu parecia ter dormido dentro de um carro, ela parecia ter acabado de sair de um editorial de revista.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Maa.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, achei que ela fosse me abra\u00e7ar. Em vez disso, ela estendeu a m\u00e3o e ajeitou uma mecha do meu cabelo que tinha escapado atr\u00e1s da minha orelha. O gesto que me arrepiava sempre.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Seu cabelo est\u00e1 horr\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003Fechei os olhos por um segundo. Contei at\u00e9 tr\u00eas. Respirei fundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom dia para voc\u00ea tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Ela ignorou. Como se eu n\u00e3o tivesse falado.<br \/>\n\u2003\u2003Virou-se para %Anthony% e, como se tivesse acabado de trocar de personalidade, abriu um sorriso. N\u00e3o era um sorriso falso, exatamente \u2013 era um sorriso de ocasi\u00e3o, daqueles que ela guardava para encontros sociais, para pessoas que mereciam ser tratadas com educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, querido. \u2013 Ergueu a m\u00e3o num cumprimento breve.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom dia, Anjali. \u2013 %Anthony% sorriu e assentiu.<br \/>\n\u2003\u2003O sorriso educado desapareceu assim que ela voltou a aten\u00e7\u00e3o para mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea dormiu? \u2013 Perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea comeu?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Alguma coisa que n\u00e3o fosse \u00e1lcool? \u2013 Debochou. %Anthony% tossiu ao meu lado, segurando um riso. \u2013 E voc\u00ea&#8230; \u2013 O olhar dela subiu e desceu por ele. \u2013 Voc\u00ea parece mais cansado do que ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tive uma noite longa. \u2013 A resposta dele foi t\u00e3o calma que eu senti uma pontada de inveja.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% n\u00e3o tinha sido criado pelas cr\u00edticas de Anjali %Bhasin%. N\u00e3o tinha passado a vida aprendendo a medir cada gesto, cada palavra, cada escolha antes de faz\u00ea-los. Para ele, minha m\u00e3e era s\u00f3 uma mulher elegante com perguntas inconvenientes. Para mim, ela era o juiz que nunca dormia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Imagino. \u2013 Anjali voltou a aten\u00e7\u00e3o para mim como se %Anthony% tivesse deixado de existir no exato segundo em que terminou de falar. \u2013 Ouvimos alguns gritos durante a madrugada. E, quando fui pedir para diminu\u00edrem a m\u00fasica, tive a impress\u00e3o de ver um casal se agarrando na areia.<br \/>\n\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o deu uma pequena cambalhota.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Um casal?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uma mo\u00e7a particularmente parecida com voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% tossiu. Dessa vez, nem tentou disfar\u00e7ar. Tamb\u00e9m senti o calor subir pelo pesco\u00e7o. N\u00e3o foi o sol, foi a lembran\u00e7a da sensa\u00e7\u00e3o de ter passado boa parte da noite me agarrando a %Anthony% como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003Peguei um copo de \u00e1gua da bandeja de um gar\u00e7om que passava \u2013 o homem apareceu no momento exato, como se tivesse sido treinado para intervir em emerg\u00eancias familiares \u2013 e tomei um gole longo antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Est\u00e1 dizendo que todas n\u00f3s, indianas, somos parecidas, M\u00e3e? \u2013 Perguntei, fingindo a maior indigna\u00e7\u00e3o que consegui reunir. \u2013 Isso foi extremamente racista da sua parte.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%. \u2013 Ela disse meu nome com aquele tom que significava <em>\u2018n\u00e3o tente\u2019<\/em>. Aquele tom que eu ouvia desde crian\u00e7a, sempre que eu tentava desviar de uma conversa com humor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Posso ter sido eu. Posso n\u00e3o ter sido. O universo nunca vai saber. \u2013 Dei de ombros, um gesto que eu esperava que parecesse casual.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Conveniente. \u2013 Ela suspirou, cruzando os bra\u00e7os. \u2013 Quero voc\u00eas dois longe da \u00e1gua se estiverem b\u00eabados demais para se equilibrar. E ningu\u00e9m vomitando no conv\u00e9s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sou uma dama, Maa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vai sentar \u2013 Ela disse. \u2013 O sol est\u00e1 forte. \u2013 Ela ajeitou os pr\u00f3prios \u00f3culos e come\u00e7ou a se afastar. \u2013 E come alguma coisa leve antes do almo\u00e7o. Voc\u00ea est\u00e1 com a pele amarelada.<br \/>\n\u2003\u2003Ela me olhou por mais um segundo. Depois, o rosto dela suavizou e deu um tapinha no meu ombro e depois arrumou a al\u00e7a do meu vestido. Anjali cuidava corrigindo alguma coisa no caminho, como se o amor precisasse sempre vir acompanhado de uma nota de rodap\u00e9 com recomenda\u00e7\u00f5es de melhoria.<br \/>\n\u2003\u2003Eu nunca duvidei do amor da minha m\u00e3e. S\u00f3 passei boa parte da vida tentando entender por que, nas m\u00e3os dela, o amor sempre vinha com uma lista de coisas que eu ainda precisava consertar.<br \/>\n\u2003\u2003Uma hora depois, o brunch tinha terminado e agora o barco come\u00e7ava a desacelerar junto com o resto da fam\u00edlia. Alguns tinham voltado para os quartos. Outros estavam espalhados pelo conv\u00e9s, aproveitando o sol que finalmente aparecera depois da chuva da madrugada.<br \/>\n\u2003\u2003Depois de alguns minutos ouvindo vozes, risadas e m\u00fasica demais para uma cabe\u00e7a em estado de ressaca, resolvi fugir e fui at\u00e9 a proa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E a\u00ed, gata. \u2013 Olhei para tr\u00e1s, sobressaltada.<br \/>\n\u2003\u2003Nina estava largada em uma espregui\u00e7adeira a poucos metros dali, t\u00e3o destru\u00edda quanto eu. Os \u00f3culos escuros cobriam metade do rosto, uma garrafa de \u00e1gua estava presa entre as duas m\u00e3os e a express\u00e3o dela era a de algu\u00e9m que tinha sobrevivido a uma cat\u00e1strofe natural.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Gatona! \u2013 Fui at\u00e9 ela e me joguei na espregui\u00e7adeira ao lado. \u2013 Voc\u00ea est\u00e1 viva.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 exatamente em posi\u00e7\u00e3o de me julgar. \u2013 Ergueu a garrafa e apontou para mim com ela. \u2013 Eu vi voc\u00ea andando. Seus \u00f3rg\u00e3os pareciam estar tentando pedir demiss\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Soltei uma risada que imediatamente se transformou em uma careta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Fazer o qu\u00ea? Foi mais uma edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Anyapalloza. \u2013 Apertei os olhos atr\u00e1s dos \u00f3culos. Nina riu baixinho, um som rouco que rapidamente se transformou em um gemido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o me faz rir. Vai doer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 bem?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Defini\u00e7\u00e3o de &#8220;bem&#8221; t\u00e1 meio el\u00e1stica hoje. \u2013 Ela suspirou. \u2013 Voc\u00ea lembra do que aconteceu ontem?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Qual parte?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Da cena com o Andreas. \u2013 Meu sorriso desapareceu e isso foi resposta o suficiente para ela. \u2013 A gente brigou depois. Ele ficou estranho depois que viu o Ethan. Acho que ele ainda n\u00e3o superou tudo isso, %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003Suspirei e esfreguei o rosto com as duas m\u00e3os. Por um momento, eu quis voltar para o quarto, me enfiar debaixo das cobertas e fingir que o mundo n\u00e3o existia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina, ontem n\u00e3o foi sobre mim. Voc\u00ea sabe disso. Ele viu o Ethan, juntou um mais um e&#8230; pronto. Foi ego ferido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea contou para ele que era o Ethan? Na \u00e9poca?<br \/>\n\u2003\u2003O lance com o Ethan tinha sido um completo acidente de percurso. Eu e Andreas t\u00ednhamos acabado de terminar e eu estava magoada, assustada com a ideia de que aquele t\u00e9rmino pudesse significar uma esp\u00e9cie de senten\u00e7a de solteirice eterna. Meus pais tamb\u00e9m n\u00e3o ajudavam. Continuavam insistindo em manter a proximidade com a fam\u00edlia do Andreas, como se nosso t\u00e9rmino fosse apenas um detalhe inconveniente.<br \/>\n\u2003\u2003Ent\u00e3o eu estava triste, b\u00eabada, carente e cansada de me sentir presa.<br \/>\n\u2003\u2003E o Ethan estava ali.<br \/>\n\u2003\u2003O que aconteceu entre n\u00f3s foi impulsivo, confuso e uma decis\u00e3o bastante est\u00fapida. N\u00e3o significou nada. Pelo menos, n\u00e3o no sentido que o Andreas provavelmente tinha imaginado. N\u00e3o foi amor. N\u00e3o foi desejo. N\u00e3o foi sequer vingan\u00e7a. Foi apenas&#8230; desespero.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Eu s\u00f3 disse que tinha ficado com um colega do trabalho. \u2013 A minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. \u2013 Mas o Andreas sempre implicou com o Ethan, antes mesmo da gente terminar. Deve ter ligado os pontos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea acha que ele ficou com ci\u00fame?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Acho que ficou com o orgulho machucado. \u00c9 diferente.<br \/>\n\u2003\u2003Nina permaneceu em sil\u00eancio por alguns segundos, parecia estar processando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acha que ele ainda te ama?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. \u2013 Respondi sem hesita\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Andreas n\u00e3o me amava mais e eu n\u00e3o amava ele (sinceramente, acho que nunca amei). O que sobrava entre n\u00f3s n\u00e3o era amor, era apenas uma hist\u00f3ria mal resolvida que aparecia nos momentos mais inconvenientes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c0s vezes eu n\u00e3o sei o que fazer. Quando estamos s\u00f3 n\u00f3s dois, \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil. Ele \u00e9 meu namorado. Eu sou a namorada dele. Parece ridiculamente simples. \u2013 Ela deu um sorriso triste. \u2013 A\u00ed acontece uma coisa como a de ontem&#8230; E meu c\u00e9rebro resolve estragar tudo. E eu sei que \u00e9 rid\u00edculo. \u2013 Ela soltou uma risada fraca. \u2013 Acho que a gente devia falar mais sobre isso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sobre o qu\u00ea, exatamente?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sobre como \u00e9 namorar o ex da sua melhor amiga.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 um grupo de apoio bem espec\u00edfico. \u2013 Dei risada, acolhendo o bra\u00e7o dela que se enrolou no meu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Provavelmente somos as \u00fanicas duas pessoas qualificadas para participar. \u2013 Concordou, rindo tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Ficamos em sil\u00eancio mais um pouco, n\u00e3o precis\u00e1vamos de mais palavras naquele momento, s\u00f3 da certeza de que, n\u00e3o importa o que acontecesse \u2013 Andreas, %Anthony%, fam\u00edlias, passados \u2013 a gente ainda tinha uma \u00e0 outra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o estou dizendo essas coisas para voc\u00ea se sentir culpada, ok? \u2013 Assegurou, brincando com os an\u00e9is em meus dedos. \u2013 S\u00f3&#8230; \u00e9 uma coisa que \u00e0s vezes passa pela minha cabe\u00e7a. \u2013 Nina levantou a cabe\u00e7a do meu ombro por um instante, os olhos fixos em mim. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o sentiu nada quando soube que a gente tinha come\u00e7ado a ficar?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu senti al\u00edvio. \u2013 Respondi e ela riu. \u2013 Al\u00edvio por ele estar com algu\u00e9m que eu sabia que conhecia ele de verdade. E al\u00edvio por voc\u00ea estar com algu\u00e9m que&#8230; bom, que n\u00e3o era um idiota completo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele \u00e9 meio idiota \u00e0s vezes. \u2013 Ela deu de ombros.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Todos s\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu gosto dele. \u2013 Nina respirou fundo e voltou a apoiar a cabe\u00e7a no meu ombro. O vento bagun\u00e7ou o cabelo dela e eu senti o cheiro do xampu que ela usava desde o col\u00e9gio, sorri. \u2013 S\u00f3 que&#8230; \u2013 Nina fez uma careta e escondeu o rosto no meu ombro. \u2013 Ele \u00e9 seu ex.<br \/>\n\u2003\u2003A risada escapou de mim antes que eu pudesse segurar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea ainda est\u00e1 choramingando por causa disso? Pensei que j\u00e1 \u00e9ramos bem resolvidas quanto a isso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o estou choramingando.<br \/>\n\u2003\u2003Ri outra vez e apertei o bra\u00e7o ao redor dela. Fiquei alguns segundos em sil\u00eancio, olhando o mar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea nunca se arrependeu? \u2013 Perguntei, ela me olhou confusa. \u2013 De namorar o Andreas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Todos os dias, quando lembro que ele \u00e9 seu ex. \u2013 Ela riu. \u2013 Que tipo de amiga eu sou? Isso j\u00e1 seria suficiente para deixar qualquer pessoa minimamente funcional desconfort\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00f3s nunca fomos exatamente o exemplo de funcionalidade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, s\u00e9rio. \u2013 Ela sorriu, dessa vez sem brincadeira. \u2013 Porque, por mais que a gente fa\u00e7a piada sobre isso, eu sei que poderia ter sido muito diferente. Essa foi a parte mais estranha de todas. Eu estava me apaixonando por algu\u00e9m que voc\u00ea tinha amado&#8230; e voc\u00ea estava genuinamente feliz por mim. Nunca reclamou, nem me fez escolher.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o por que ainda carrega essa culpa?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Porque eu amo voc\u00eas dois. \u2013 Aquilo me desarmou. N\u00e3o tinha como responder a isso com uma piada. N\u00e3o tinha como desviar. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 minha melhor amiga. Ele \u00e9 o cara que eu amo. \u00c0s vezes parece que eu estou sempre devendo alguma coisa para algu\u00e9m. S\u00f3 quero que voc\u00ea saiba que, se algum dia alguma coisa ficar estranha entre n\u00f3s por causa disso, voc\u00ea pode me falar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu estou falando s\u00e9rio. N\u00e3o quero que voc\u00ea fique tentando me poupar porque acha que precisa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o fa\u00e7o isso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sempre faz isso! \u2013 Ela rolou os olhos, rindo levemente. \u2013 Eu sei que a minha depress\u00e3o foi assustadora para voc\u00ea, mas eu n\u00e3o sou t\u00e3o fr\u00e1gil assim. Voc\u00ea n\u00e3o precisa ficar escolhendo as palavras certas o tempo todo comigo. \u2013 Ela continuou. \u2013 Nem esconder coisas porque acha que eu n\u00e3o vou saber lidar.<br \/>\n\u2003\u2003Baixei os olhos para minhas m\u00e3os. Era exatamente isso que eu e %Anthony% est\u00e1vamos fazendo com ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu s\u00f3 tento n\u00e3o piorar as coisas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sei, %Anya%. Mas \u00e0s vezes, tentando n\u00e3o piorar as coisas, voc\u00ea acaba decidindo por mim o que eu consigo suportar. \u2013 N\u00e3o respondi, porque, dessa vez, ela tinha acertado. Fiquei alguns segundos em sil\u00eancio, olhando o mar. \u2013 Voc\u00ea gostava dele? De verdade?<br \/>\n\u2003\u2003Ri outra vez e apertei o bra\u00e7o ao redor dela. Eu sabia que ela n\u00e3o ia deixar aquele assunto morrer t\u00e3o facilmente. Nina tinha esse talento irritante de perceber quando eu estava tentando encerrar uma conversa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c0s vezes penso que n\u00e3o, sabe? Olho para tr\u00e1s e n\u00e3o sei se era amor ou se era s\u00f3&#8230; h\u00e1bito. Ele era o que minha m\u00e3e queria que eu namorasse. Eu era o que a fam\u00edlia dele esperava. Mas no fundo, acho que nunca tivemos uma conversa de verdade. Nunca nos perguntamos se a gente queria aquilo. A gente s\u00f3 fazia porque era esperado. \u2013 Balancei a cabe\u00e7a de novo. \u2013 Voc\u00ea sabe, como nossas fam\u00edlias torciam muito para essa transa\u00e7\u00e3o comercial acontecer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A grande transa\u00e7\u00e3o comercial dos %Bhasin% e dos Buppha. \u2013 Nina soltou uma risada baixa. Apertou a garrafa entre as m\u00e3os e ficou alguns segundos encarando a \u00e1gua. \u2013 E voc\u00ea acha que&#8230; ele gosta de mim?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina&#8230; voc\u00ea quer que eu te conven\u00e7a de alguma coisa? Porque eu n\u00e3o vou fazer isso.<br \/>\n\u2003\u2003Ela desviou o olhar por um instante. Depois voltou a me encarar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 uma pessoa muito s\u00e1bia de ressaca. \u2013 Ela disse, por fim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 o efeito colateral da desidrata\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ela riu e eu ri junto. O barco balan\u00e7ou suavemente sob n\u00f3s. O vento trouxe o cheiro salgado do mar, e, por alguns segundos, foi f\u00e1cil fingir que aquela conversa tinha resolvido alguma coisa. Eu quase esqueci que tinha um segredo deitado entre n\u00f3s como uma pedra no fundo do mar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Hm?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se eu terminar com ele, voc\u00ea vai ficar do meu lado?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina, eu fico do seu lado em qualquer circunst\u00e2ncia. Mesmo que voc\u00ea decida ficar com ele. Mesmo que voc\u00ea decida mudar de nome e ir viver no interior da Tail\u00e2ndia. Eu vou estar aqui.<br \/>\n\u2003\u2003Ela riu de novo e eu senti o corpo dela relaxar contra o meu, como se aquelas palavras tivessem dissolvido alguma tens\u00e3o nela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 a melhor amiga que algu\u00e9m poderia ter. \u2013 Ela apertou meu bra\u00e7o. \u2013 E, s\u00f3 para deixar registrado&#8230; eu gosto de voc\u00ea e do Andreas juntos. Como pessoas que conseguiram sobreviver ao t\u00e9rmino sem destruir a amizade. Mas gosto ainda mais de voc\u00ea e do %Anthony%. \u2013 Ela fez uma pausa, me olhando. \u2013 N\u00e3o estou dizendo que me mata de felicidade voc\u00ea ter se envolvido com meu irm\u00e3ozinho. \u2013 Ela riu, ainda sem perceber meu desconforto. \u2013 S\u00f3 estou dizendo que ontem, pela primeira vez, eu olhei para voc\u00eas dois e pensei: <em>\u201cah\u201d<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>\u201cAh\u201d<\/em>?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quando eu vi voc\u00eas dois na festa&#8230; rindo de alguma coisa que s\u00f3 voc\u00eas entendiam&#8230; eu pensei&#8230; \u2013 Ela sorriu de canto. \u2013 \u00c9 assim que parece quando duas pessoas se escolhem.<br \/>\n\u2003\u2003<em>Escolhem.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A palavra bateu em mim com uma for\u00e7a desproporcional. Porque Nina enxergava uma escolha, eu enxergava um contrato.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina, eu&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o precisa dizer nada. Eu s\u00f3 queria que voc\u00ea soubesse que eu vejo. E que fico feliz por voc\u00eas dois. \u2013 Assenti, incapaz de responder.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, imaginei como seria se eu contasse para Nina. A vontade veio t\u00e3o forte que chegou a doer. Eu podia contar sobre o acordo, podia dizer que tudo havia condi\u00e7\u00f5es, prazo, um fim previsto desde o primeiro dia. Podia dizer que %Anthony% nunca aceitou ser meu namorado, aceitou um trabalho. Que a hist\u00f3ria que Nina enxergava com tanta facilidade tinha nascido de uma mentira.<br \/>\n\u2003\u2003Mas a verdade n\u00e3o era s\u00f3 minha. O acordo envolvia %Anthony% muito antes de envolver a mim. O motivo que o levou a aceitar aquele dinheiro era dele e, por mais que aquela mentira estivesse pesando na minha consci\u00eancia, eu n\u00e3o tinha o direito de arrancar o segredo das m\u00e3os dele para aliviar as minhas.<br \/>\n\u2003\u2003Eu conhecia apenas uma parte da hist\u00f3ria. Sabia que existia um motivo e que %Anthony% carregava um peso grande o suficiente para aceitar um dinheiro que claramente o incomodava, mas sendo completamente consciente de que eu n\u00e3o conhecia toda a verdade. E justamente por isso, n\u00e3o tinha o direito de cont\u00e1-la.<br \/>\n\u2003\u2003E eu sabia que, se eu dissesse aquilo em voz alta, a Nina nunca mais olharia para n\u00f3s da mesma forma. Ela ia ver %Anthony% como algu\u00e9m que aceitou dinheiro. Ia me ver como algu\u00e9m que comprou companhia. E pensar nisso me deixava ansiosa, s\u00f3 de pensar em ter Nina me vendo de outra forma sen\u00e3o como sua melhor amiga.<br \/>\n\u2003\u2003Nina apertou meu bra\u00e7o mais uma vez e apoiou a cabe\u00e7a no meu ombro. Fechei os olhos, suspirando.<br \/>\n\u2003\u2003No horizonte, a \u00e1gua brilhava sob o sol. Linda e silenciosa, escondendo sabe-se l\u00e1 quantas coisas sob a superf\u00edcie.<br \/>\n\u2003\u2003Eu conhecia bem aquela sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2252],"class_list":["post-10929","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}