{"id":10872,"date":"2026-09-15T12:21:24","date_gmt":"2026-09-15T15:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-09-15T12:34:27","modified_gmt":"2026-09-15T15:34:27","slug":"capitulo-9","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/docetrapaca\/capitulo-9\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 9"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<em><span class=\"versalete\">Na semana seguinte do<\/span> anivers\u00e1rio de cinco anos, Rodrigo era socorrido na beira da estrada por transeuntes em meio ao caos. A solidez da estrada de asfalto potencializava a falta dos amorosos bra\u00e7os paternos os quais nunca mais experimentaria como era a calorosa recep\u00e7\u00e3o.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Com o passar do tempo, perderia o registro sensorial, a imagem gravada na mem\u00f3ria se tornaria mais borrada e se contentaria em ouvir hist\u00f3rias das pessoas de seu conv\u00edvio e ver fotos na tentativa de manter a fisionomia perspicaz viva.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O incidente foi mortal para o motorista.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O carro dirigido por Ernesto no in\u00edcio da noite derrapou no asfalto. Desviou no \u00faltimo instante da moto que entrou na frente do ve\u00edculo, ignorando a sinaliza\u00e7\u00e3o do cruzamento.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Retornava de uma visita \u00e0 casa da m\u00e3e com os filhos. Por realizar tarefas dom\u00e9sticas antes de ir passar a tarde na companhia da fam\u00edlia enquanto a esposa passeava com as amigas no Shopping, se sentia cansado.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Farto da discuss\u00e3o entre os filhos, se virou por m\u00edseros instantes cruciais. Exausto, reuniu as for\u00e7as e bradou s\u00e9rio solucionando dois problemas.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O sil\u00eancio preencheu o ambiente como m\u00fasica para os ouvidos.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Rodrigo logo tratou em colocar o cinto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Rodrigo teimava em n\u00e3o colocar o cinto de seguran\u00e7a, alegando como a textura \u00e1spera irritava a pele infantil.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Com a finalidade se fazer entender, Ernesto se virou zangado, exigindo a obedi\u00eancia do filho e tamb\u00e9m encerrar a discuss\u00e3o. O menino obedeceu sem pestanejar.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Infelizmente, muito se pode acontecer em um segundo. No caso deles, a distra\u00e7\u00e3o custou a vida de Ernesto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O acidente foi terr\u00edvel, o ve\u00edculo destro\u00e7ado por colidir no caminh\u00e3o.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Ao contr\u00e1rio do genitor, as crian\u00e7as sobreviveram por puro milagre do destino \u2014 e os irm\u00e3os no banco traseiro sabiam que havia algo de errado quando o pai n\u00e3o se mexeu nem perante os clamores aflitos enquanto continuavam presos ao ve\u00edculo pelo cinto ter travado durante a aterrorizante colis\u00e3o.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Demorou vinte minutos para a ambul\u00e2ncia chegar.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>No enterro, todos trajavam negro.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Era a primeira ida das crian\u00e7as ao cemit\u00e9rio.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Os semblantes chorosos sinalizavam como compreendiam que Ernesto jamais voltaria pra casa e teriam somente as recorda\u00e7\u00f5es para lhes acalentar na tentativa de o mart\u00edrio oriundo do luto diminuir.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Sentados em cadeiras ao lado da m\u00e3e, observavam como as pessoas iam at\u00e9 o caix\u00e3o. Ajeitado com zelo, flores o cobriam, escondendo as in\u00fameras lacera\u00e7\u00f5es e as deformidades do acidente. Os respons\u00e1veis por prepar\u00e1-lo pro vel\u00f3rio fizeram jus \u00e0s habilidades aprimoradas ao longo dos anos para deix\u00e1-lo apresent\u00e1vel, ent\u00e3o o caix\u00e3o permaneceu aberto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Annanda estava devastada. Aos oito anos, era extremamente pr\u00f3xima ao pai. Era o ser humano quem mais amava no mundo e com quem mais se harmonizava. Sempre o aguardava chegar do trabalho para conversarem. Se recusava a dormir antes disso, mesmo que cambaleasse sonolenta pela casa em genu\u00edna persist\u00eancia para manter-se acordada.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Lecionava nas turmas de EJA no per\u00edodo noturno. Em consequ\u00eancia, o hor\u00e1rio de chegada em casa era quase \u00e0s dez da noite. Mesmo cansado, se esfor\u00e7ava em dar aten\u00e7\u00e3o a menina, quem o recebia sorridente \u2014 independente do hor\u00e1rio.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Logo, era de se esperar como a pequena se recusava a aceitar a precoce morte de Ernesto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Quieta, fingia que o irm\u00e3o n\u00e3o estava ali. Nem sequer o olhava.<\/em><br>\u2003\u2003<em>As pessoas imaginavam que o comportamento era manifesta\u00e7\u00e3o de sua dor, n\u00e3o que o culpabilizava pelo acontecimento catastr\u00f3fico.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Em sua concep\u00e7\u00e3o infantil, precisava existir alguma raz\u00e3o para a desgra\u00e7a daquela magnitude acontecer. Buscava respostas, puxava da mem\u00f3ria in\u00fameras possibilidades as quais ligariam ao evento traum\u00e1tico demais para lidar. N\u00e3o demorou para culpabilizar o irm\u00e3o ca\u00e7ula.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Se n\u00e3o fosse por ele, estariam almo\u00e7ando juntos em casa como deveria ser.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Aos s\u00e1bados, Doralice costumava preparar comidas ainda mais saborosas, como lasanha e sobremesa cuja \u00faltima fatia era disputada entre eles. E tinham sorte quando sobrava a guloseima no dia seguinte.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Embora o garoto tentasse dirigir-lhe a palavra, sabia ser escorregadia. Se desvencilhava das pessoas, alegando vontade de ir no banheiro ou sede.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Negava at\u00e9 de se aproximar.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Ap\u00f3s o enterro, aguardavam a m\u00e3e se despedir de alguns parentes ao longe.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Ao lado do carro da tia quem lhes daria carona, se virou de autom\u00e1tico por detectar um movimento pela vis\u00e3o perif\u00e9rica.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Tome. \u2014 Em gesto de solidariedade, Rodrigo lhe estendeu uma flor branca que seria destinava para o pai. Por querer diminuir o sofrimento alheio, a separou para a menina. \u2014 O papai me dizia que&#8230;<\/em><br>\u2003\u2003<em>Como aquele assassino mirim ousava citar o pai depois do estrago que fez?<\/em><br>\u2003\u2003<em>Irada, lhe disse entre dentes com os olhos marejados:<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Olha o que seu fa\u00e7o com a sua flor idiota.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Em meneio brusco, a apanhou pelo caule e atirou longe.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Nunca mais me ofere\u00e7a nada. \u2014 Se permitindo levar pelos impulsos raivosos, lhe esbofeteou no rosto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o se dando por satisfeita por considerar a agress\u00e3o simples demais pra dimens\u00e3o irrevers\u00edvel dos atos perversos, o empurrou em seguida.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Abalado, caiu no ch\u00e3o do cemit\u00e9rio, as costas emitindo o som do baque surdo ao colidir com o paralelep\u00edpedo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Era pra voc\u00ea estar sendo enterrado essa tarde, n\u00e3o o papai. \u2014 As l\u00e1grimas desciam torrenciais na face feminina, os cabelos soltos voando ao vento. \u2014 Foi voc\u00ea quem o matou. Voc\u00ea! A culpa \u00e9 sua! Ele nunca mais vai voltar pra casa e o culpado \u00e9 voc\u00ea!<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>Com as acusa\u00e7\u00f5es de Annanda, n\u00e3o demorou para Rodrigo se sentir merecedor de agress\u00f5es e viol\u00eancias. Como se n\u00e3o bastasse, desenvolveu a cren\u00e7a de ser o respons\u00e1vel pela morte de Ernesto. Embora a informa\u00e7\u00e3o continuasse escondida no fundo da mente, os danos foram nefastos.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o se defendia quando era maltratado ou destratado por ela ou por qualquer outra pessoa, inclusive os alunos das escolas onde estudou. Aceitava grosserias ou bullying sem revidar, se mantendo em posi\u00e7\u00e3o de subjuga\u00e7\u00e3o perante as crueldades que lhe ocorriam como puni\u00e7\u00e3o autoimposta por ser um assassino do pr\u00f3prio pai.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o demonstrava interesse no irm\u00e3o. Quando a m\u00e3e engravidou, pensou que correria o risco de perder a aten\u00e7\u00e3o dos pais. Como maneira de se fazer presente junto aos genitores, estava ao redor durante as trocas de fralda, banhos ou qualquer outra necessidade do rec\u00e9m-nascido. A inoc\u00eancia do pequeno foi insuficiente para conquist\u00e1-la, embora demonstrasse verdadeira adora\u00e7\u00e3o por ela.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Ignorando a diferen\u00e7a de tr\u00eas anos de idade, n\u00e3o perdia a oportunidade de espanc\u00e1-lo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Antes de dormir, era comum invadir o quarto de Rodrigo, enrol\u00e1-lo ainda adormecido nos len\u00e7\u00f3is e desferir v\u00e1rios golpes nele por cima do edredom. Dessa forma, as marcas n\u00e3o apareceriam e n\u00e3o era identificada pela escurid\u00e3o ocultar a identidade.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O dano f\u00edsico se estenderia para o \u00e2mbito psicol\u00f3gico, j\u00e1 que passaria a temer o escuro. Naturalmente introspectivo para com os acontecimentos de sua vida, n\u00e3o contava nada para Doralice.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Annanda pararia de invadir o quarto apenas quando o outro atingisse os sete anos de idade.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Na escola, afastada das vistas da m\u00e3e ou de figuras de autoridade, n\u00e3o hesitava em simular empurr\u00f5es, viol\u00eancias ou at\u00e9 posicionar o p\u00e9 na frente dele pro menino cair e se ralar.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Em virtude das a\u00e7\u00f5es, Rodrigo vivia com os joelhos ralados.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Como n\u00e3o \u00e9 incomum crian\u00e7as se machucarem e o filho n\u00e3o comentava nada acerca da persegui\u00e7\u00e3o, Doralice n\u00e3o se preocupava com as les\u00f5es.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>Al\u00e9m disso, durante o ensino fundamental e m\u00e9dio foi v\u00edtima de bullying por ser visivelmente gay em escola que prezava pela tradicionalidade.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Recebia apelidos, era hostilizado e agradecia todos os dias por participar do grupinho composto por cinco meninas o acolher. A amizade o ajudava a deixar as idas para a institui\u00e7\u00e3o educacional mais suport\u00e1vel, dissipando um pouco a atmosfera densa das viol\u00eancias recorrentes.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Ningu\u00e9m impedia as humilha\u00e7\u00f5es. Por vezes professores participavam e a grande parte dos alunos era a favor das maldades, visto que riam e incentivavam as situa\u00e7\u00f5es degradantes. A parcela composta por meia d\u00fazia apenas ignorava ou observava tudo com pena do tratamento desumano.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Em contrapartida, amigas o protegiam como podiam. Mudavam a rota quando se deparavam com os agressores, se mantinham perto e n\u00e3o o deixavam sozinho. Elas tamb\u00e9m sofriam ataques de propor\u00e7\u00f5es bem menos intensas, embora o alvo principal fosse ele.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Um evento em especial o faria desenvolver asco de si.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Aos onze anos, seria impedido por sete garotos de sair do banheiro \u2014 e depois desse dia, mesmo na faculdade, n\u00e3o iria mais ao banheiro desacompanhado ou enquanto as aulas ocorressem.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O imobilizariam, um lhe tamparia a boca por tr\u00e1s e os outros tirariam a roupa, alegando entre risos e piadas que queriam provas da masculinidade.<\/em><br>\u2003\u2003<em>O apalpavam, zombando do seu corpo magro, rindo do tamanho dos genitais e verificando se endureceria ou n\u00e3o na presen\u00e7a deles.<\/em><br>\u2003\u2003<em>As l\u00e1grimas apenas os incentivaram a buscar, inclusive, qualquer ind\u00edcio de \u00f3rg\u00e3os ou caracter\u00edsticas femininas nele.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Jamais contaria o acontecimento para ningu\u00e9m por n\u00e3o ter sangue frio para confrontar a m\u00e3e e lidar com o fato de a escola saber do epis\u00f3dio caso aquilo vazasse. Afinal, at\u00e9 o diretor tinha conhecimento acerca do bullying. N\u00e3o impedia de acontecer e nem tomava provid\u00eancias porque n\u00e3o se importava.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Era s\u00f3 inimizade entre alunos.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Nada demais \u2014 mesmo se o aluno em quest\u00e3o tivesse idea\u00e7\u00f5es suicidas, assim como era o caso de Rodrigo.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O rapaz despertou no romper da aurora.<br>\u2003\u2003Ao contr\u00e1rio da ilumina\u00e7\u00e3o solar caracter\u00edstica do ver\u00e3o que coloria o c\u00e9u, o belo laranja afastando os tons de lil\u00e1s, o seu estado de esp\u00edrito n\u00e3o refletia a esperan\u00e7a eminente do amanhecer. Pelo contr\u00e1rio.<br>\u2003\u2003A tortura \u00edntima era indescrit\u00edvel.<br>\u2003\u2003Lidava com uma vasta carga de emo\u00e7\u00f5es t\u00e3o densas que recorreu ao vaso sanit\u00e1rio onde passaria as pr\u00f3ximas duas horas vomitando em terr\u00edveis n\u00e1useas, a crise de enxaqueca piorando a \u00e2nsia.<br>\u2003\u2003Suado, ofegante, tr\u00eamulo e p\u00e1lido, lidava com a bagagem emocional revertida em sintomas f\u00edsicos por se recordar de quem era, o que lhe aconteceu e pelo v\u00e9u do esquecimento cair. Dessa maneira, foi capaz de acessar durante a madrugada os momentos mais traum\u00e1ticos ocorridos ao longo da vida enquanto estava adormecido, inclusive aqueles cujo inconsciente buscava proteg\u00ea-lo desde a inf\u00e2ncia, como a culpa injusta pela morte do pai e os ataques de bullying mais violentos dos alunos e dos professores.<br>\u2003\u2003Enfim, Rodrigo se lembrava da trajet\u00f3ria e de quem realmente era.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Doralice aprendeu a viver na cl\u00ednica onde foi mantida presa de modo a ter menos danos \u2014 ou seja, de modo a n\u00e3o ser drogada.<br>\u2003\u2003N\u00e3o questionava. N\u00e3o confrontava. N\u00e3o levantava questionamentos in\u00fateis. N\u00e3o tentava fugir.<br>\u2003\u2003Quando cometia atos considerados como inadequados para os profissionais de sa\u00fade respons\u00e1veis pelo bem-estar dos pacientes internados, era dopada atrav\u00e9s de comprimidos que a obrigavam a tomar. N\u00e3o adiantava ir contra os funcion\u00e1rios. Caso se recusasse a ingeri-los, a comida vinha com as medica\u00e7\u00f5es escondidas e s\u00f3 detectava ao apresentar os caracter\u00edsticos sintomas de letargia e sonol\u00eancia excessivas.<br>\u2003\u2003Nessas ocasi\u00f5es, passava dias grogue sem controle corporal. Por diversas vezes tomou banho de leito pela incapacidade de se manter consciente, levando dias para despertar e se reestabelecer. Assim, perdeu no\u00e7\u00e3o de quanto tempo em que estava l\u00e1.<br>\u2003\u2003Para evitar de ficar naquele estado deplor\u00e1vel, come\u00e7ou a acatar as ordens e seguir com os hor\u00e1rios estabelecidos para o bom funcionamento da institui\u00e7\u00e3o financiada pelo governo.<br>\u2003\u2003Simultaneamente, descobriu os bastidores dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<br>\u2003\u2003O problema n\u00e3o era o sistema. As \u00e1reas como Assist\u00eancia Social <em>n\u00e3o<\/em> eram ineficazes. Os problemas giravam em torno das <em>pessoas<\/em> atuantes \u2014 ou melhor, os profissionais eram a personifica\u00e7\u00e3o das palavras descaso, incompet\u00eancia e incapacidade, visto que n\u00e3o trabalhavam devidamente apenas porque n\u00e3o queriam.<br>\u2003\u2003N\u00e3o eram todos.<br>\u2003\u2003Os bons se sobrecarregavam pra fazer as coisas acontecerem sem prejudicar a popula\u00e7\u00e3o que precisasse das orienta\u00e7\u00f5es e dos encaminhamentos, al\u00e9m de realizarem seus pr\u00f3prios servi\u00e7os e de outras pessoas tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003A outra parte de quantidade consider\u00e1vel desprezava as figuras em vulnerabilidade social que precisavam dos servi\u00e7os p\u00fablicos e recorriam a eles visando a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e manuten\u00e7\u00e3o da dignidade. Tratava o p\u00fablico com indiferen\u00e7a, at\u00e9 mesmo ignorando demanda de cuidados m\u00e9dicos e roubando medica\u00e7\u00f5es as quais seriam vendidas por fora sem prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Automaticamente os prejudicava \u2014 e quem se importaria de amputar uma perna que apodreceu pelo abandono profissional de um morador de rua que sequer tinha o n\u00famero de fam\u00edlia para procurar e estava sem os documentos de identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, mesmo?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tamb\u00e9m foi trancafiada aqui?<br>\u2003\u2003Sentada no banco, ergueu a cabe\u00e7a para a jovem de vinte e cinco anos cuja apar\u00eancia desleixada a envelhecia sem a beleza lhe abandonar por completo.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o se importa que eu me sente, n\u00e9?<br>\u2003\u2003N\u00e3o esperou a resposta e se acomodou ao lado da senhora.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 muito calada. Est\u00e1 h\u00e1 quanto tempo aqui? \u2014 questionou a jovem. \u2014 Sou novata.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 que eu seja calada. Voc\u00ea n\u00e3o me deu tempo pra responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpe.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom, respondendo \u00e0 sua pergunta&#8230; Perdi a no\u00e7\u00e3o de tempo, filha \u2014 replicou em voz triste. \u2014 Por que veio pra c\u00e1?<br>\u2003\u2003\u2014 Meu pai \u00e9 prefeito. N\u00e3o gostou de quando ameacei vazar v\u00eddeos dele comigo na Internet quando eu era crian\u00e7a caso tentasse me tocar de novo. Isso foi h\u00e1 algumas semanas e olha onde vim parar.<br>\u2003\u2003A amargura evidenciava a que se referia.<br>\u2003\u2003\u2014 Dinheiro compra tudo, n\u00e9? \u2014 A garota deu de ombros. \u2014 E voc\u00ea? Veio se tratar de verdade ou foi trancafiada como leprosa?<br>\u2003\u2003\u2014 Trancafiada. Meu filho&#8230; \u2014 Engoliu em seco, as l\u00e1grimas se formando em virtude do luto \u2014 J\u00e1 ouviu falar de Alya?<br>\u2003\u2003\u2014 Claro. Fiquei em prantos quando ela morreu.<br>\u2003\u2003\u2014 Era a drag do meu filho. Descobri que n\u00e3o foi um acidente assim como noticiaram. O mataram. Foi horr\u00edvel quando os ouvi conversando sobre como assassinaram meu Rodrigo. Se n\u00e3o fosse pelo maldito namorado que nunca gostei e uma outra pessoa, meu menino estaria vivo.<br>\u2003\u2003A jovem desconfiou da hist\u00f3ria. Entretanto, como ela era prova viva de como pessoas poderosas rapidamente silenciavam quem amea\u00e7ava prejudicar a bela imagem constru\u00edda ao longo dos anos \u2014 por mais hip\u00f3crita que fosse \u2014 decidiu n\u00e3o contestar a idosa. Lhe daria o benef\u00edcio da d\u00favida acerca do relato sem ignor\u00e1-lo ou julg\u00e1-lo por completo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ai, querida, me desculpe \u2014 compadecida, limpou as l\u00e1grimas de Doralice. \u2014 N\u00e3o queria te abalar assim.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o se preocupe. A dor da perda de um filho \u00e9 inestim\u00e1vel pra uma m\u00e3e. Me resta aprender a conviver com ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Se serve de consolo, Alya era maravilhosa. Talentos\u00edssima. N\u00e3o conheci a pessoa por debaixo daquela montagem, mas sem d\u00favida era igualmente boa.<br>\u2003\u2003\u2014 Era, sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Sou Ana, a prop\u00f3sito.<br>\u2003\u2003\u2014 Ol\u00e1. Doralice.<br>\u2003\u2003\u2014 Prefere ser chamada como? Dona, Dora, Lice, Doralice&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Como preferir.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem. Dora, pode me fazer um favor?<br>\u2003\u2003\u2014 Qual?<br>\u2003\u2003\u2014 Todas as outras pessoas que arrisquei aproxima\u00e7\u00e3o realmente eram inst\u00e1veis mentalmente. Voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica com quem consegui manter uma conversa sem sofrer ataques. Estou h\u00e1 quase sete dias aqui e o cen\u00e1rio \u00e9 bem solit\u00e1rio, na minha concep\u00e7\u00e3o. Posso te fazer companhia?<br>\u2003\u2003\u2014 Claro!<br>\u2003\u2003\u2014 \u00d3timo. Hum&#8230; Me avisa quando o diretor estiver por aqui?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. Por qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o gosto dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Algum motivo pra isso?<br>\u2003\u2003\u2014 A forma como ele me olha \u00e9 muito parecida com a do meu pai. Prefiro morrer a ser estuprada de novo.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Por trinta dias consecutivos Rodrigo n\u00e3o se alimentou como deveria.<br>\u2003\u2003Demorou para os sintomas do choque de seu passado surgir inesperadamente desaparecerem. Ao longo desse tempo, n\u00e3o sentia fome. Era incapaz de se alimentar. Por vezes passava vinte e quatro horas somente com uma fruta no est\u00f4mago para n\u00e3o preocupar Igor e nem Jo\u00e3o dizendo que lanchou na rua ou se obrigava a comer algumas colheradas de almo\u00e7o por insist\u00eancia de ambos.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te levei ao hospital \u00e0s sete e meia da manh\u00e3. Tomou soro e at\u00e9 hoje n\u00e3o sabemos que inferno aconteceu contigo. O m\u00ednimo que voc\u00ea deveria fazer \u00e9 comer, garoto! \u2014 bradava Igor, colocando generosa por\u00e7\u00e3o de alimentos para o rapaz comer ao final do expediente.<br>\u2003\u2003Abalado, n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de exercer o trabalho naquele per\u00edodo.<br>\u2003\u2003Supervisionava os gar\u00e7ons e criava conte\u00fado para a p\u00e1gina do estabelecimento. Interagir com os clientes como gostava estava fora de cogita\u00e7\u00e3o pelo deplor\u00e1vel estado emocional.<br>\u2003\u2003No in\u00edcio da madrugada, quando o trio finalizava a arruma\u00e7\u00e3o, Rodrigo n\u00e3o desligou o karaok\u00ea.<br>\u2003\u2003De \u00faltima hora, apanhou o microfone, selecionou a m\u00fasica e aguardou os acordes iniciais para come\u00e7ar a cantar m\u00fasica de seu antigo repert\u00f3rio, Good Enough.<br>\u2003\u2003Buscava externalizar a ang\u00fastia, um meio de tirar o peso carregado no cora\u00e7\u00e3o desde quando as mem\u00f3rias ressurgiram e o desestabilizaram.<br>\u2003\u2003Por muito tempo n\u00e3o se sentiu bom o suficiente. Nem como filho, nem como irm\u00e3o, nem como artista, nem como namorado, nem como ser humano. Por mais que se esfor\u00e7asse, colecionava decep\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003Decepcionava a fam\u00edlia e os amigos por n\u00e3o estar presente nos momentos mais importantes, como comemora\u00e7\u00f5es ou anivers\u00e1rios.<br>\u2003\u2003Decepcionou Doralice porque a m\u00e3e n\u00e3o compreendia como ele temia ir para a escola na inf\u00e2ncia e nem como desenvolveu depress\u00e3o aos treze anos de idade.<br>\u2003\u2003Decepcionou a irm\u00e3 porque ela o culpava pela morte do pai.<br>\u2003\u2003Decepcionou seus amigos porque ignorava os alertas sobre Lucas e passava longos per\u00edodos sem conversar com eles.<br>\u2003\u2003Decepcionou no trabalho porque seus f\u00e3s lhe homenageavam achando que estava morto quando, na verdade, era fraco demais para lidar com as sombras do seu passado carregado de traumas.<br>\u2003\u2003Entretanto, n\u00e3o era o pior.<br>\u2003\u2003O pior era assimilar como a vida de todos correu bem ap\u00f3s a fracassada tentativa de assassinato.<br>\u2003\u2003Annanda ascendia na carreira como cantora sem nenhum m\u00e9rito ou talento \u2014 e quase foi aos prantos quando viu a not\u00edcia da morte de Doralice na p\u00e1gina dela.<br>\u2003\u2003Lucas se estabelecera como influencer, sempre levando Annanda aos eventos mais concorridos consigo e ganhando fortunas por fazer propagandas de jogos de azar.<br>\u2003\u2003Cometeu o erro de entrar nas redes sociais dos amigos.<br>\u2003\u2003Para a sua tristeza, n\u00e3o parecia fazer falta para ningu\u00e9m \u2014 e a sensa\u00e7\u00e3o lhe gerava mal-estar de t\u00e3o pujante.<br>\u2003\u2003Nem mesmo Gabriel, que acompanhava sempre as atualiza\u00e7\u00f5es de Alya e Rodrigo nas redes sociais e interagia com as publica\u00e7\u00f5es, demonstrava o m\u00ednimo abatimento.<br>\u2003\u2003Era como se a exist\u00eancia de Rodrigo de nada valesse, fosse insignificante.<br>\u2003\u2003N\u00e3o poderia estar mais errado.<br>\u2003\u2003Se sentia&#8230; In\u00fatil, vulner\u00e1vel, abandonado, sem valor e imprest\u00e1vel. Assim, transmitiu nas notas da m\u00fasica a qual cantava de olhos fechados todo o supl\u00edcio suportado.<br>\u2003\u2003Cada poro transpirava a amargura, o mart\u00edrio da trai\u00e7\u00e3o e o entendimento do quanto deixou de viver ao lado de quem realmente amava por ser verdadeiro joguete nas m\u00e3os dos agentes, simples produto que acatava \u00e0s ordens sem tempo de tratar da sa\u00fade ou de receber tratamento humano. Quantos anivers\u00e1rios perdeu, quantas risadas poderia ter dado, quantas viv\u00eancias boas poderia ter criado caso n\u00e3o fossem os in\u00fameros compromissos?<br>\u2003\u2003Ao se afastar de quem amava, n\u00e3o entendia a profundidade de como renunciava igualmente a si. Deveria ter aproveitado mais, ter se feito mais presente, ter&#8230; <em>Vivido<\/em>.<br>\u2003\u2003Jamais recuperaria os anos desperdi\u00e7ados os quais, \u00e0s vezes, passava mais tempo montada em virtude de ir aos compromissos, cercada de c\u00e2meras, microfones e holofotes \u2014 logo, longe do mundo real.<br>\u2003\u2003S\u00f3 quando terminou de cantar notou como chorava, as grossas l\u00e1grimas molhando o rosto.<br>\u2003\u2003Como Jo\u00e3o havia ido embora pouco antes de Rodrigo cantar, se deparou somente com Jo\u00e3o sentado na cadeira logo em frente ao pequeno palco.<br>\u2003\u2003\u2014 Bravo! \u2014 Se levantou em sorriso orgulhoso, algo similar a admira\u00e7\u00e3o perpassando o olhar. \u2014 Pensei que nunca mais ouviria essa voz novamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpe. \u2014 Secou a face com o pulso, a voz entrecortada. \u2014 N\u00e3o queria atrapalhar.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o atrapalhou. Pelo contr\u00e1rio. \u2014 Parou rente ao palco, lhe despertando curiosidade pela leveza incomum nos tra\u00e7os. \u2014 Te ouvir cantar \u00e9 \u00f3timo. Me recorda dos momentos mais alegres da minha vida. \u00c9 a primeira vez que canta essa m\u00fasica. Algum motivo em particular pela escolha?<br>\u2003\u2003\u2014 Nenhuma. Apenas gosto da letra.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio se instaurou, a atmosfera mudando no passar dos segundos enquanto se fitavam.<br>\u2003\u2003Por fim, quem decidiu quebrar o sil\u00eancio desconfort\u00e1vel foi o dono do lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 Se lembrou de Alya, n\u00e3o foi? Vem. Vamos pra casa. Temos muito a conversar. Inclusive, quero que me conte o seu verdadeiro nome. N\u00e3o posso te chamar de Heitor agora que se lembra da sua vida.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2781],"class_list":["post-10872","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-docetrapaca"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10872"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}