{"id":10854,"date":"2026-09-08T10:43:04","date_gmt":"2026-09-08T13:43:04","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-09-08T10:52:34","modified_gmt":"2026-09-08T13:52:34","slug":"capitulo-7","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/docetrapaca\/capitulo-7\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 7"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O trio desfrutava das<\/span> positivas mudan\u00e7as no bar.<br>\u2003\u2003Ganhou novo nome, novo estilo e nova identidade visual.<br>\u2003\u2003Agora, era alegre espa\u00e7o familiar onde pessoas comemoravam o anivers\u00e1rio, crian\u00e7as se divertiam na \u00e1rea destinada a elas e v\u00e1rios turistas iam lanchar.<br>\u2003\u2003Para organizarem melhor o trabalho, contrataram novos cozinheiros os quais eram comandados por Jo\u00e3o. As vagas de gar\u00e7ons tamb\u00e9m foram preenchidas \u2014 e \u00e9 claro como Heitor era o destinado para receber os aniversariantes que comemoravam os anivers\u00e1rios l\u00e1, assim como criava conte\u00fado nas plataformas digitais cujos n\u00fameros de seguidores apresentava crescimento satisfat\u00f3rio, assim como os coment\u00e1rios repletos de elogios pela boa experi\u00eancia. Transitavam pelo ambiente no uniforme com as cores do estabelecimento, prontos e \u00e1geis em servirem as pessoas e trazerem os pedidos saborosos. Igor ficava no caixa, onde rapidamente efetuava os pagamentos e manuseava o dinheiro, as transfer\u00eancias Pix e as m\u00e1quinas de cart\u00e3o.<br>\u2003\u2003As paredes, antes cinzas e sem vida, hoje eram cobertas pelas cores azul claro e lil\u00e1s. O rod\u00edzio bem servido era bastante diverso, contendo desde massas como macarr\u00e3o \u00e0 bolonhesa at\u00e9 petiscos como lingui\u00e7a acebolada servidos em t\u00e1buas generosas. Havia espa\u00e7o para transitar cuja ocupa\u00e7\u00e3o por pequena aglomera\u00e7\u00e3o era comum devido ao karaok\u00ea onde at\u00e9 os gar\u00e7ons iam cantar ou dan\u00e7ar, objetivando animar os fregueses, que iam desde a popula\u00e7\u00e3o local at\u00e9 os mais diferentes turistas \u2014 e era comum os atendentes estudarem ingl\u00eas e espanhol nas horas vagas para compreenderem melhor os estrangeiros.<br>\u2003\u2003O karaok\u00ea foi verdadeiro sucesso, se tornando a marca registrada do local.<br>\u2003\u2003Movido pela esperan\u00e7a de preparar o terreno o qual estaria a seu favor pra concretizar os prop\u00f3sitos futuros, o dono do estabelecimento aceitou a sugest\u00e3o do rapaz sobre a instala\u00e7\u00e3o para o karaok\u00ea \u2014 e o dia quando foi testado jamais seria esquecido por Igor.<br>\u2003\u2003Durante a tarde, auxiliava na pintura quando ouviu a voz melodiosa, se recordando de quem a neta era f\u00e3.<br>\u2003\u2003Perplexo, se virou devagar, o instrumento de trabalho pingando no jornal embaixo de si e a roupa manchada com a tinta.<br>\u2003\u2003De queixo ca\u00eddo, os olhos vidraram no rapaz sentado no pequeno palco constru\u00eddo em fun\u00e7\u00e3o de quem usasse o karaok\u00ea. De costas, cantava melodiosa m\u00fasica de famosa cantora americana em ingl\u00eas perfeito, a potente extens\u00e3o vocal encorpava a voz se moldando a cada nota da melodia.<br>\u2003\u2003O pincel caiu na m\u00e3o, finalmente decifrando a real identidade de Heitor.<br>\u2003\u2003Apenas n\u00e3o revelou porque sabia que ele ainda n\u00e3o estava pronto para entrar em contato com suas sombras, ent\u00e3o, contar quem era e mostrar fotos poderia causar malef\u00edcios pela delicada condi\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Todavia, n\u00e3o significava que n\u00e3o poderia <em>direcion\u00e1-lo<\/em>.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Naquele per\u00edodo, os sintomas de Heitor se agravaram.<br>\u2003\u2003N\u00e3o dormia direito. O problema nem era necessariamente esse, mas o incompreens\u00edvel motivo de <em>temer<\/em> dormir.<br>\u2003\u2003Os sonhos eram repletos de atmosferas cinzas que se transformavam em pesadelos misteriosos onde havia a constante figura feminina. Por vezes a via sofrendo agress\u00f5es do homem a quem n\u00e3o conseguia identificar o rosto por manter-se sempre oculto pelas sombras enquanto o clar\u00e3o de luz focava na figura feminina. Devido a transl\u00facida barreira protetora, era imposs\u00edvel se aproximar ou defend\u00ea-la das in\u00fameras viol\u00eancias sofridas. Batia na barreira a fim de quebr\u00e1-la e gritava na tentativa de interferir \u2014 e a tristeza de n\u00e3o conseguir ultrapassar aquela camada energ\u00e9tica era tamanha que l\u00e1grimas desciam pelo rosto consternado. Nas raras vezes onde o agressor se movia para a luz e a luminosidade revelava um pouco da face masculina, Heitor despertava suando e tr\u00eamulo, os curtos cabelos castanhos os quais n\u00e3o permitiam mais crescer por bizarro inc\u00f4modo indescrit\u00edvel, presos na testa \u00famida.<br>\u2003\u2003Por vezes, se perdia em pensamentos, se recordando dos pesadelos peculiares. Era estranho o fato de sentir tamanha tristeza por ela se sequer a reconhecia. Nunca a viu pela regi\u00e3o e nenhuma mem\u00f3ria surgia.<br>\u2003\u2003O que Heitor ainda n\u00e3o sabia era que as emo\u00e7\u00f5es e os sonhos conturbados eram manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente, buscando meios para escapar, carregados de dor, sofrimento e ang\u00fastia. Era primordial entrar em contato com o passado para o quadro m\u00e9dico evoluir de maneira positiva. Todavia, como se recusava em confrontar os traum\u00e1ticos acontecimentos pret\u00e9ritos, inclusive voltando a aten\u00e7\u00e3o para a obra como forma de fuga, elas eclodiam como sintomas, emo\u00e7\u00f5es e enfermidades, assim como veio a acontecer.<br>\u2003\u2003Al\u00e9m disso, apresentava sintomas de depress\u00e3o e ansiedade, sendo indispens\u00e1vel a interven\u00e7\u00e3o de psiquiatra para se estabilizar.<br>\u2003\u2003Se recusava em recorrer ao tratamento psicol\u00f3gico, usando como justificativa a necessidade de economizar e que o dinheiro gasto poderia ser investido na reforma do bar.<br>\u2003\u2003Igor e Jo\u00e3o n\u00e3o concordaram, mas tamb\u00e9m n\u00e3o o obrigariam a fazer nada, apesar de demonstrarem o descontentamento.<br>\u2003\u2003Certa noite, \u00e0 procura do rapaz, Igor encontrou algo no quarto cuja porta estava escancarada.<br>\u2003\u2003\u2014 Garoto. Cad\u00ea voc\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 No banheiro. \u2014 S\u00f3 ent\u00e3o detectou o som do chuveiro. \u2014 N\u00e3o demoro pra sair.<br>\u2003\u2003Sobre a cama, o grande caderno aberto chamou a aten\u00e7\u00e3o do senhor.<br>\u2003\u2003Se aproximando, pegou o objeto e se deparou com uma s\u00e9rie de nomeados versos os quais n\u00e3o identificou se eram poesias ou m\u00fasicas. Passou as p\u00e1ginas se surpreendendo com a profundidade das letras sobre amor, arrependimento do passado e temor, tanto do presente quanto do futuro.<br>\u2003\u2003Compenetrado, nem notou a presen\u00e7a de Heitor no c\u00f4modo.<br>\u2003\u2003\u2014 S\u00e3o m\u00fasicas.<br>\u2003\u2003Sobressaltado, Igor o fitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpa, eu n\u00e3o&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o se preocupe. \u2014 Em gentil sorriso com discreta irritabilidade de quem teve o segredo descoberto, se dirigiu ao senhor apanhando o caderno e o fechando em movimento delicado. \u2014 N\u00e3o est\u00e1 invadindo a minha privacidade.<br>\u2003\u2003\u2014 Quando come\u00e7ou a escrever isso?<br>\u2003\u2003O mais velho observou o jovem colocar o caderno debaixo do travesseiro, compreendendo o velado pedido silencioso de manter essa parte de sua individualidade em sigilo.<br>\u2003\u2003\u2014 H\u00e1 uns meses. \u2014 O dar de ombros foi despretensioso enquanto se sentava no colch\u00e3o de pernas cruzadas em folgadas vestes de dormir. \u2014 Tentei ignora-las, mas as letras n\u00e3o paravam de se repetir e vir na minha cabe\u00e7a. N\u00e3o tive outra op\u00e7\u00e3o al\u00e9m escrev\u00ea-las.<br>\u2003\u2003\u2014 Ignor\u00e1-las n\u00e3o adiantou. \u2014 O senhor avaliou Heitor por instantes mordiscando o interior da bochecha. \u2014 E o que sente depois de escrever?<br>\u2003\u2003\u2014 Bem melhor. Quero dizer, n\u00e3o faz l\u00e1 tanta diferen\u00e7a, mas me sinto mais leve. Tira um pouco do peso. Sei l\u00e1. \u00c9 dif\u00edcil de explicar.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 percebeu como as m\u00fasicas falam sobre assuntos bem densos? Desde amores complicados at\u00e9 arrependimentos e medo do presente.<br>\u2003\u2003O confronto com a realidade formou um n\u00f3 na garganta do rapaz, o obrigando a engolir em seco.<br>\u2003\u2003\u2014 Escuta, andei pesquisando sobre a amn\u00e9sia \u2014 o mais velho prosseguiu. \u2014 Suspeito que n\u00e3o aceite o tratamento psicol\u00f3gico com medo do que poderia se deparar quando as suas mem\u00f3rias fossem desbloqueadas. O quadro depressivo e a ansiedade tamb\u00e9m t\u00eam a ver com a sua condi\u00e7\u00e3o. Quer a dica de um velho que n\u00e3o tem muitos estudos e se orgulha de ter se formado na escola da vida?<br>\u2003\u2003A fisionomia de Heitor beirou \u00e0 infantilidade ao assentir.<br>\u2003\u2003\u2014 Se concentre nessas letras. Talvez sejam a chave pra descobrir sobre o seu passado.<br>\u2003\u2003\u2014 E se eu me arrepender?<br>\u2003\u2003\u2014 E se houver pessoas l\u00e1 fora que te amam e que talvez estejam sofrendo com o seu desaparecimento? N\u00e3o seria justo com elas manter-se distante sem se esfor\u00e7ar para se recordar, seria?<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003No final daquele ano, encontrava-se exausto.<br>\u2003\u2003Demandava muita energia do organismo lutar contra os sintomas persistentes. N\u00e3o faltava ao trabalho, mas recorreu a beber grandes quantidades de cafe\u00edna com regularidade para se manter ativo.<br>\u2003\u2003N\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o do seu quadro. Em contrapartida, escreveu v\u00e1rias letras de m\u00fasicas diferentes. Eram momentos nos quais lhe despertava saudade inenarr\u00e1vel, diminuindo o peso carregado no peito. Se deixava levar nas letras, incont\u00e1veis vezes derramando generosas l\u00e1grimas no processo criativo sem sequer se atinar em como o conte\u00fado lhe revelava os segredos do passado cujo contato ainda n\u00e3o se sentia preparado para enfrentar.<br>\u2003\u2003Os sonhos tamb\u00e9m n\u00e3o davam tr\u00e9gua.<br>\u2003\u2003Agora n\u00e3o havia somente a figura da v\u00edtima. V\u00e1rios rostos e vozes surgiam aos poucos, cada um lhe despertando diferentes rea\u00e7\u00f5es. Via cenas pela perspectiva de algu\u00e9m que ainda n\u00e3o era capaz de identificar, como se fosse ele em contextos diversos como em eventos, shows, festas e na companhia de familiares. Em consequ\u00eancia, vasto campo de emo\u00e7\u00f5es e sentimentos dif\u00edceis de se lidar pela densidade deles brotavam, o obrigando a conviver diariamente com os resqu\u00edcios das mem\u00f3rias cujo surgimento vinha atrav\u00e9s de imagens desconexas enquanto dormia, e conte\u00fado emocional quando desperto.<br>\u2003\u2003Portanto, era de se esperar como n\u00e3o tinha disposi\u00e7\u00e3o para estar em aglomera\u00e7\u00f5es como naquela noite festiva.<br>\u2003\u2003Ao inv\u00e9s de participar da virada de ano, decidiu se recolher no quarto, agradecendo pela faxina realizada. N\u00e3o havia \u00e2nimo nem para comer.<br>\u2003\u2003As perspectivas eram simples. Chegar, tomar o quente banho relaxante e se aconchegar debaixo das cobertas com o ar-condicionado ligado at\u00e9 adormecer.<br>\u2003\u2003N\u00e3o cumpriu o plano.<br>\u2003\u2003De banho tomado, se sentou na cama e ligou o celular, apenas verificando o andamento do trabalho e conferindo se precisava retornar. De l\u00e1 acompanharia o movimento do estabelecimento lotado de onde trabalhava. Em meio \u00e0 multid\u00e3o, n\u00e3o esperava um rosto bonito lhe chamar a aten\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Nem percebeu por quanto tempo acompanhou o homem transitar pelo estabelecimento. Ao contr\u00e1rio dos fregueses, n\u00e3o parecia t\u00e3o animado quanto os demais, e isso despertou a curiosidade de Heitor acerca do motivo para o destoante comportamento. Acompanhado por mulher de longa saia branca que cantava alegre no karaok\u00ea, a intera\u00e7\u00e3o era da mesma dirigida para amigos e familiares \u2014 e novamente n\u00e3o compreendeu como a impress\u00e3o lhe acalmou.<br>\u2003\u2003O cenho franzia a cada copo de \u00e1lcool tomado \u2014 n\u00e3o por ser contra ingerir bebidas alco\u00f3licas, mas porque algo lhe dizia que aquela n\u00e3o era a conduta habitual do homem. N\u00e3o combinava com a aura emanada nele.<br>\u2003\u2003Apesar do ambiente alegre e cheio de expectativas para a virada do ano, al\u00e9m de algo lhe chamar a aten\u00e7\u00e3o, havia certo ar de introspec\u00e7\u00e3o ao redor que n\u00e3o combinava com o visitante. O semblante n\u00e3o exalava felicidade genu\u00edna e os sorrisos n\u00e3o alcan\u00e7avam os olhos de linda colora\u00e7\u00e3o azul em contraste aos cabelos negros. Trajava roupas brancas \u2014 cal\u00e7a justa, t\u00eanis e camisa de bot\u00f5es sem mangas \u2014 e, acomodado na mesa, o olhar vagava no espa\u00e7o em semblante indiferente<br>\u2003\u2003De vez em quando a mulher ia conversar com o homem na tentativa de anim\u00e1-lo ou pux\u00e1-lo para dan\u00e7ar.<br>\u2003\u2003Em certo momento, Heitor se perguntou se fosse ele a pedir por aquilo, o desconhecido o dispensaria assim como recusou a mulher.<br>\u2003\u2003Quando o viu sair e se encaminhar para a praia com as m\u00e3os nos bolsos, foi imposs\u00edvel n\u00e3o trocar de roupa, cal\u00e7ar os chinelos e ir atr\u00e1s dele.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Gabriel escondeu como p\u00f4de o sofrimento.<br>\u2003\u2003A viagem com a prima foi excelente.<br>\u2003\u2003Passaria as \u00faltimas horas precedentes do final de ano reunido com amigos e familiares em famosa lanchonete que se tornou o point da regi\u00e3o entre os turistas.<br>\u2003\u2003N\u00e3o esperava que o karaok\u00ea fosse afet\u00e1-lo como aconteceu.<br>\u2003\u2003Foi imposs\u00edvel n\u00e3o se recordar de quando conheceu Rodrigo cantando num lugar similar. O rapaz comemorava o anivers\u00e1rio cercado por pessoas que o amavam sem bajula\u00e7\u00f5es ou a fama advinda da carreira art\u00edstica. Longe da cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, exalava bondade e j\u00fabilo.<br>\u2003\u2003Nunca esqueceria de como o sorriso iluminava a face jovial do aniversariante.<br>\u2003\u2003Se conheceram naquela noite, anos antes de Lucas surgir.<br>\u2003\u2003Agora, levemente b\u00eabado, Gabriel caminhava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia mais vazia na esperan\u00e7a da dor do luto n\u00e3o o consumir. A passos tr\u00f4pegos, desviava das pessoas que iam para outras praias onde a vis\u00e3o da queima de fogos era inigual\u00e1vel.<br>\u2003\u2003N\u00e3o imaginava que algu\u00e9m o seguiria.<br>\u2003\u2003Por fim, desabou na areia branca, esperan\u00e7oso da mudan\u00e7a de ambiente trazer mem\u00f3rias menos deprimentes.<br>\u2003\u2003\u2014 Licen\u00e7a. N\u00e3o quero interromper. Caso a humilde opini\u00e3o de quem mora na regi\u00e3o seja v\u00e1lida, esse n\u00e3o \u00e9 o local mais prop\u00edcio pra assistir \u00e0 queima de fogos. Ainda d\u00e1 tempo de ir pra outro lugar melhor.<br>\u2003\u2003O tremor nada teve a ver com as palavras. Estava ligado ao timbre da voz o qual n\u00e3o escutava h\u00e1 anos. Macio. Firme. Aveludado.<br>\u2003\u2003Tal timbre espec\u00edfico transitava entre o tom rouco e a delicadeza. O ouviu sair em harmonia da boca de uma \u00fanica pessoa.<br>\u2003\u2003Se virando de olhos arregalados, Gabriel se deparou com a imagem de Rodrigo parado, hesitante, a menos de um metro de si \u2014 o homem por quem se apaixonara.<br>\u2003\u2003Assombrado, levantou-se e caminhou devagar, sem quebrar o contato visual. Parou faltando cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia com as p\u00e1lpebras arregaladas e o queixo ca\u00eddo. Em olhar vidrado, avaliava cada cent\u00edmetro da face andr\u00f3gena, demorando nas doces \u00edris castanhas e nos desenhados l\u00e1bios carnudos em tonalidade rosa natural.<br>\u2003\u2003Quando recuperasse a mem\u00f3ria e estivesse morando em outro lugar em prepara\u00e7\u00e3o para retornar aos palcos sem o conhecimento p\u00fablico de como estava vivo e do seu real paradeiro, o rapaz compreenderia que aquele sil\u00eancio era o mesmo destinado a dois amantes os quais n\u00e3o eram corajosos o suficiente para expressar os sentimentos devido \u00e0 exist\u00eancia da s\u00e9rie de obst\u00e1culos e intemp\u00e9ries que os impedia de se tornarem harmonioso casal.<br>\u2003\u2003Em misto de ador\u00e1vel incerteza e timidez, o morador mordeu o l\u00e1bio inferior por instantes, abrindo r\u00e1pido sorriso e disse:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o queria atrapalhar. Est\u00e1 tudo bem?<br>\u2003\u2003\u2014 Agora que voc\u00ea chegou, sim. \u2014 Gabriel, sem cerim\u00f4nia, o puxou pela m\u00e3o e o abra\u00e7ou em intensa saudade.<br>\u2003\u2003Heitor se preparou para sentir repulsa pela a\u00e7\u00e3o. Para sua perplexidade, n\u00e3o foi o sentimento predominante. Nem sequer lhe despertou inc\u00f4modo. Ao contr\u00e1rio.<br>\u2003\u2003No decorrer da estadia ali, o rapaz desenvolveu certo asco de toques f\u00edsicos vindos de pessoas com quem n\u00e3o compartilhava v\u00ednculo afetivo. Com exce\u00e7\u00e3o de Igor e Jo\u00e3o, esquivava de experi\u00eancias cinest\u00e9sicas e ignorava os flertes recebidos de turistas em busca de divers\u00e3o ou romance casual.<br>\u2003\u2003Ali, nos bronzeados bra\u00e7os definidos por frequentar academia nas horas vagas, n\u00e3o houve nada al\u00e9m de&#8230; Aconchego. Calidez. Conforto.<br>\u2003\u2003<em>Ternura<\/em>.<br>\u2003\u2003Cada sensa\u00e7\u00e3o o invadiu como b\u00e1lsamo, trazendo \u00e0 tona confort\u00e1vel calor at\u00e9 ent\u00e3o esquecido. Em gemido baixo, deitou a testa no ombro, adorando o registro sensorial pele com pele. Retribuindo o gentil gesto, Gabriel relaxou no enlace carinhoso torcendo para o tempo parar e poder desfrutar ao m\u00e1ximo do delicado momento.<br>\u2003\u2003\u2014 Senti tanta saudade de voc\u00ea, amor \u2014 a voz grave murmurou contra o pesco\u00e7o, deixando singelo beijo. \u2014 Eu n\u00e3o queria que tivesse ido embora da minha vida da maneira como foi, sem eu nem mesmo dizer que&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Deve estar me confundindo. Eu n\u00e3o me lembro de voc\u00ea.<br>\u2003\u2003S\u00f3 ent\u00e3o Gabriel notou o desaparecimento das mechas longas, as palavras demorando para serem processadas pelo c\u00e9rebro embriagado.<br>\u2003\u2003Agora, os fartos fios eram curtos em corte desleixado.<br>\u2003\u2003Rodrigo jamais aceitaria cortar os cabelos daquele tamanho. Eles eram sua marca registrada \u2014 e Gabriel adorava enterrar as falanges neles, principalmente quando o amante estava sobre si.<br>\u2003\u2003Heitor se surpreendeu de como a falta do abra\u00e7o o abalou quando o outro cambaleou para tr\u00e1s. O desconhecido, cuja curta barba rente desenhava o maxilar, deslizou as m\u00e3os pelo tronco alheio at\u00e9 prend\u00ea-lo a si ao segurar os pr\u00f3prios dedos, conectando os quadris em \u00edntima posi\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003A fisionomia se contorceu em confus\u00e3o por apreciar a atitude fofa em sua concep\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpe. \u2014 A melancolia nos olhos azuis lhe apertou o peito. \u2014 O confundi. Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o parecido com&#8230; \u2014 deixou a frase morrer sem finaliz\u00e1-la.<br>\u2003\u2003Em consequ\u00eancia da falta de coragem, encostou a testa na de Heitor, se calando por longos segundos, ambos abalados com o encontro.<br>\u2003\u2003Gra\u00e7as \u00e0 proximidade, constatou a embriaguez por causa do h\u00e1lito, a voz discretamente grogue e os movimentos incertos.<br>\u2003\u2003\u2014 Com? \u2014 Heitor pressionou o visitante.<br>\u2003\u2003A pele se arrepiou \u2014 e o vento frio nada teve a ver com a rea\u00e7\u00e3o corporal.<br>\u2003\u2003\u2014 Com uma pessoa que partiu sem nem me dar a chance de me despedir e&#8230; N\u00e3o pude lhe contar algo importante. \u2014 Ro\u00e7ou devagar o nariz na bochecha lisa. \u2014 Voc\u00ea acalmou o meu cora\u00e7\u00e3o como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o me acontece. N\u00e3o serei injusto contigo e nem vou mais desperdi\u00e7ar o seu tempo. Vai. Me deixe aqui. Deve ter algu\u00e9m por a\u00ed querendo ver a queima de fogos contigo. E ele ser\u00e1 um filho da puta sortudo por passar a data como a de hoje na companhia de quem ama.<br>\u2003\u2003Lhe dando as costas, Gabriel voltou para o lugar onde se acomodara antes da chegada do outro.<br>\u2003\u2003Heitor poderia acatar ao pedido. Todavia, algo no visitante o atra\u00eda. N\u00e3o querendo ir embora, o observou por segundos contestando se a atitude de ir embora seria a mais prudente.<br>\u2003\u2003Contemplando o c\u00e9u, o desconhecido parecia solit\u00e1rio, talvez at\u00e9 melanc\u00f3lico, em especial na noite que deveria ser festiva para todos. N\u00e3o era correto deix\u00e1-lo sozinho ali.<br>\u2003\u2003Se n\u00e3o demonstrasse resist\u00eancia na decis\u00e3o de permanecer ali&#8230;<br>\u2003\u2003A passos lentos, se acomodou ao lado dele. Em r\u00e1pido olhar de esguelha, notou os olhos marejados embora as l\u00e1grimas n\u00e3o rolassem.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea foi o filho da puta sortudo da vez, porque prefiro ficar aqui contigo. Me deu um bom motivo pra n\u00e3o passar a virada de ano dormindo.<br>\u2003\u2003A primeira frase obrigou Gabriel a fitar o outro. Reconhecendo a mesma escolha de palavras, engoliu em seco.<br>\u2003\u2003\u2014 Qual? \u2014 soou tr\u00eamulo.<br>\u2003\u2003\u2014 A sua companhia.<br>\u2003\u2003Lutou para conter as l\u00e1grimas, se recusando delas transbordarem ap\u00f3s chorar por tantas noites em tormento pela morte de Rodrigo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um fantasma?<br>\u2003\u2003A frase arrancou aud\u00edvel gargalhada de Heitor.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u2014 respondeu ainda rindo. \u2014 Por que a pergunta?<br>\u2003\u2003\u2014 Porque eu j\u00e1 ouvi algo bem parecido saindo pelos l\u00e1bios de outra pessoa.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o vou me incomodar se os l\u00e1bios forem como os meus.<br>\u2003\u2003Incr\u00e9dulo pela r\u00e9plica, Heitor sentiu o rosto esquentar, sinalizando como enrubescia.<br>\u2003\u2003\u2014 Flerta comigo e \u00e9 <em>voc\u00ea<\/em> quem fica sem jeito?<br>\u2003\u2003Acabrunhado, desviou o olhar por notar como as pupilas alheias dilataram e o tom de voz era afetuoso em interesse sutil.<br>\u2003\u2003Era evidente como apreciou a ousadia.<br>\u2003\u2003Com os cantos da boca repuxando em discreto sorriso, Gabriel circulou os ombros cobertos pela cinza camisa de mangas e o puxou pra si, o incentivando a deitar a cabe\u00e7a em si.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea estava muito longe de mim \u2014 sussurrou ro\u00e7ando os l\u00e1bios nos fios castanhos. \u2014 O queria mais perto.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu torcia pra isso desde quando me abra\u00e7ou h\u00e1 uns minutos.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai assistir \u00e0 queima de fogos ao meu lado?<br>\u2003\u2003\u2014 Vou.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o sai de perto de mim. A sua companhia era tudo o que eu precisava nessa noite.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o se preocupe. Ficarei aqui.<br>\u2003\u2003Dialogavam em voz baixa, envoltos em peculiar atmosfera de afabilidade que se intensificava com o avan\u00e7ar dos minutos. Apesar do sil\u00eancio, os sentimentos de Gabriel eram palp\u00e1veis pela forma como distribu\u00eda carinhos em Heitor. Acariciava a bochecha com as costas do indicador, deslizava as pontas dos dedos pela perna, ro\u00e7ava o queixo nos cabelos lisos&#8230;<br>\u2003\u2003Eram toques carregados de ternura, sem ser necess\u00e1rio se expressar atrav\u00e9s de palavras. Recorria \u00e0s a\u00e7\u00f5es para se comunicar \u2014 e ambos n\u00e3o assimilariam como eram relevantes para o estado emocional de Heitor.<br>\u2003\u2003Por estarem t\u00e3o envolvidos na pr\u00f3pria uni\u00e3o, s\u00f3 perceberam que a queima de fogos come\u00e7ou quando o c\u00e9u iluminou em lindas cores vibrantes.<br>\u2003\u2003Agora, com o rapaz sentado em sua frente enquanto Gabriel mantinha as pernas abertas pro outro se acomodar no espa\u00e7o, admiravam a dan\u00e7a de luzes no c\u00e9u azul sem nuvens.<br>\u2003\u2003Gabriel aquecia o corpo alheio, as vagarosas batidas card\u00edacas sendo captadas nas costas de Heitor quase em sincronia com as suas.<br>\u2003\u2003Ao contr\u00e1rio de Heitor, desviou o olhar para o rapaz, cujo sorriso desenhava os tra\u00e7os e a derme refletia as cores dos fogos.<br>\u2003\u2003Incapaz de se conter, descansou a digital na lateral da face, produzindo t\u00eanue press\u00e3o para mir\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 falta uma coisa pra essa noite ser perfeita \u2014 murmurou, as p\u00e1lpebras baixas escurecendo os globos azuis.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Um beijo.<br>\u2003\u2003Heitor prendeu a respira\u00e7\u00e3o por n\u00e3o prever o pedido. Em simult\u00e2neo, desceu o olhar para os l\u00e1bios alheios, a vontade rec\u00edproca brotando em si.<br>\u2003\u2003Como se para tomar coragem, o gar\u00e7om puxou o ar e o soltou pelo nariz antes de quebrar a \u00ednfima dist\u00e2ncia e beij\u00e1-lo em c\u00e1lida plenitude, absortos na bolha particular.<br>\u2003\u2003Perderam a no\u00e7\u00e3o do tempo. Apenas desfrutavam das impress\u00f5es cujas car\u00edcias atingiam as emo\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas, um preenchendo faltas e buracos do \u00e2mago alheio por motivos divergentes \u2014 Heitor por entrar em contato com algu\u00e9m familiar para si depois de anos ap\u00f3s o atentado com a sua vida, e Gabriel por beijar como sempre desejava o homem que julgava estar morto.<br>\u2003\u2003Se separaram a contragosto pelo celular de Gabriel n\u00e3o parar de tocar em m\u00fasica alta.<br>\u2003\u2003Sensibilizado por <em>reconhecer<\/em> o sabor do beijo e a textura dos l\u00e1bios, murmurou na orelha dele o segurando pela nuca, o h\u00e1lito colidindo com o pesco\u00e7o onde por vezes se deliciou no passado:<br>\u2003\u2003\u2014 Se for quem desconfio e eu n\u00e3o estiver louco, por favor, volte. Volte&#8230; Pra mim.<br>\u2003\u2003As palavras atingiram o \u00edntimo de Heitor, a reminisc\u00eancia aflorando na mem\u00f3ria de surpresa.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Por isso eu sempre volto pra voc\u00ea. Me fode t\u00e3o bem.<\/em><br>\u2003\u2003Engoliu em seco, o pujante conte\u00fado emocional colidindo entre a s\u00faplica do turista e o impacto da lembran\u00e7a a qual teve acesso pela voz ser a mesma daquele homem fazendo emergir uma s\u00e9rie de emo\u00e7\u00f5es desconexas \u2014 hesita\u00e7\u00e3o, tristeza, receito, desejo.<br>\u2003\u2003O n\u00f3 na garganta surgiu, a brisa auxiliando a dissipar as l\u00e1grimas formadas as quais n\u00e3o seriam derramadas.<br>\u2003\u2003\u2014 Fala, Aline \u2014 Gabriel atendeu ao celular.<br>\u2003\u2003Como inconsciente mecanismo de defesa, Heitor se alarmou com a pron\u00fancia do nome.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, estou na praia logo em frente \u2014 prosseguiu sem perceber como o rapaz se assustava mais com o passar dos segundos. \u2014 Atravessa a rua. Vou acenar pra voc\u00ea me encontrar. \u2014 Desligou o aparelho e o colocou no bolso da cal\u00e7a. \u2014 \u00c9 minha prima. O que acha de&#8230;<br>\u2003\u2003O segurando pelas laterais da face, Heitor deu o \u00faltimo selinho demorado antes de avisar em voz estrangulada.<br>\u2003\u2003\u2014 Preciso ir.<br>\u2003\u2003Sem se despedir, levantou-se, segurou os chinelos e correu pela vasta areia fria at\u00e9 sentir o ch\u00e3o \u00famido, justamente na parte mais escura da praia no hor\u00e1rio noturno, onde o turista n\u00e3o poderia encontr\u00e1-lo e nem o avistar.<br>\u2003\u2003Ao longe, observou procurar por si lhe gritando at\u00e9 a mulher de cabelos soltos esvoa\u00e7antes pular nas costas do desconhecido e lev\u00e1-lo dali sob protestos.<br>\u2003\u2003Arfante, fechou as p\u00e1lpebras contundentes e pendeu a cabe\u00e7a para tr\u00e1s, encarando a brilhante Lua Cheia.<br>\u2003\u2003\u2014 Por favor, me permita esbarrar com ele novamente. Eu adoraria reencontr\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003Demoraria, mas o pedido se realizaria em circunst\u00e2ncias diferentes e em outra cidade.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2781],"class_list":["post-10854","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-docetrapaca"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10854"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}