{"id":10829,"date":"2026-08-31T11:26:30","date_gmt":"2026-08-31T14:26:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-08-31T11:40:53","modified_gmt":"2026-08-31T14:40:53","slug":"capitulo-5","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/docetrapaca\/capitulo-5\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">A impaci\u00eancia de Annanda<\/span> era admir\u00e1vel.<br>\u2003\u2003N\u00e3o suportava a ideia de comparecer a um ambiente de atmosfera deplor\u00e1vel. N\u00e3o combinava consigo. Temia ser reconhecida, embora a possibilidade fosse inexistente.<br>\u2003\u2003Na tentativa de esconder a identidade, optou por t\u00eanis branco, cal\u00e7a jeans justa, camisa social, len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a e \u00f3culos pretos os quais n\u00e3o tiraria nem por instantes durante a estadia ali. Mesmo a maquiagem era nude e nem se recordava qual foi a \u00faltima vez quando usou tons t\u00e3o claros.<br>\u2003\u2003O \u00fanico al\u00edvio era a r\u00e1pida cicatriza\u00e7\u00e3o das feridas no decorrer de tr\u00eas dias cujo desaparecimento n\u00e3o deixariam marcas.<br>\u2003\u2003Apenas aceitou ir porque a sua presen\u00e7a era crucial para o andamento da sua vida a partir dali \u2014 e tamb\u00e9m para finalizar a hist\u00f3ria com Rodrigo, mesmo que a dign\u00edssima m\u00e3e, assim como gostava de cham\u00e1-la com deboche, sofresse as consequ\u00eancias de descobrir acerca do assassinato do filho.<br>\u2003\u2003\u2014 Quanto tempo demoraremos aqui? \u2014 Ansiosa, tamborilava o p\u00e9 no ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003O escrit\u00f3rio onde Armando os receberia era acolhedor, ao contr\u00e1rio do estado de esp\u00edrito dos amantes.<br>\u2003\u2003\u00c0s oito da manh\u00e3 a cl\u00ednica psiqui\u00e1trica transmitia tranquilidade, equil\u00edbrio e beleza.<br>\u2003\u2003O amplo lugar comportava v\u00e1rios quartos para as pessoas com quadros graves de doen\u00e7as mentais das mais diversas. Havia atividades para os pacientes ao longo do dia, tomavam as medica\u00e7\u00f5es no hor\u00e1rio estipulado, n\u00e3o ficavam sozinhos e o tratamento dos profissionais era cordial. Muitos se recuperavam ao longo da estadia, podendo retornar para as respectivas casas e rotinas. Monitorizado, as c\u00e2meras discretas n\u00e3o desprezavam nenhum \u00e2ngulo ou canto.<br>\u2003\u2003O contato com a natureza vinha atrav\u00e9s do belo jardim. Havia \u00e1rvores, a grama verde coloria o cen\u00e1rio junto \u00e0s flores de diversos tons bem cuidadas e mesas ou cadeiras foram distribu\u00eddas ao longo do ambiente onde os visitantes iam ver o familiar ou amigo em quest\u00e3o \u2014 tudo seguindo as regras espec\u00edficas as quais garantiriam o bem-estar e a seguran\u00e7a de todos.<br>\u2003\u2003N\u00e3o havia melhor lugar para manter Doralice.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o muito. \u2014 Encostado na parede de p\u00e9 ao lado dela apanhou o celular e verificou que faltava pouco para o amigo chegar. \u2014 Armando est\u00e1 dentro do hor\u00e1rio estipulado. Talvez&#8230;<br>\u2003\u2003A porta foi aberta interrompendo a fala, o m\u00e9dico de tra\u00e7os s\u00e9rios entrando com o jaleco. Os fios grisalhos denunciavam os anos atuando na \u00e1rea, a gorda conta banc\u00e1ria como o car\u00e1ter era duvidoso e as azuis \u00edris perspicazes sabiam detectar rapidamente quando conseguiria angariar dinheiro extra com a interna\u00e7\u00e3o indevida de algu\u00e9m \u2014 e quando atendeu a liga\u00e7\u00e3o de Lucas soube que viajaria para o Egito dentro de poucos meses.<br>\u2003\u2003\u2014 Lucas, meu caro. \u2014 Apertou a m\u00e3o do homem em sorriso amistoso. \u2014 Quanto tempo!<br>\u2003\u2003\u2014 Bastante. Tem o qu\u00ea? Cinco anos?<br>\u2003\u2003O sorriso do m\u00e9dico foi largo o suficiente para mostrar todos os dentes, a\u00e7\u00e3o capaz de arrepiar Annanda, se surpreendendo pela asquerosa apar\u00eancia masculina.<br>\u2003\u2003Para quem j\u00e1 conhecia os escusos neg\u00f3cios do doutor, a inocente frase funcionava como um an\u00fancio caso desejasse a criminosa interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria \u2014 criminosa porque Armando escreveria um diagn\u00f3stico mentiroso respaldando a interna\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo saud\u00e1vel por tempo indeterminado, o classificando muitas vezes como agressivo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, Lucas. \u2014 Fitou a mulher com interesse. \u2014 N\u00e3o vai me apresentar a sua amiga?<br>\u2003\u2003\u2014 Esta \u00e9 Annanda, filha da sua nova paciente.<br>\u2003\u2003Ela engoliu em seco por v\u00ea-lo depositar um vil beijo galanteador nas costas das m\u00e3os.<br>\u2003\u2003\u2014 Quais ser\u00e3o os tr\u00e2mites? \u2014 Apressou-se em recolher a destra, a limpando discretamente no jeans.<br>\u2003\u2003\u2014 Por favor, sentem primeiro.<br>\u2003\u2003Se acomodou na cadeira atr\u00e1s da mesa, a dupla em sua frente.<br>\u2003\u2003\u2014 Em que posso ajud\u00e1-los?<br>\u2003\u2003\u2014 Para Annanda e eu n\u00e3o termos problemas legais, \u00e9 imprescind\u00edvel que Doralice seja dada como louca.<br>\u2003\u2003Acenou em aprova\u00e7\u00e3o de como foi direto ao ponto.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 f\u00e1cil. Apresenta algum sintoma como&#8230; N\u00e3o sei, ins\u00f4nia, falta de apetite&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Sim \u2014 confirmou a mulher cruzando os bra\u00e7os. \u2014 Meu irm\u00e3o morreu recentemente, ent\u00e3o o luto pra ela foi bem dif\u00edcil. Desde ent\u00e3o n\u00e3o dorme direito, n\u00e3o come, se tranca no quarto&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Algu\u00e9m teve contato com ela?<br>\u2003\u2003\u2014 Desde o vel\u00f3rio, s\u00f3 n\u00f3s dois \u2014 Lucas explicou.<br>\u2003\u2003\u2014 Como foi a morte do filho? Importante ressaltar a import\u00e2ncia de eu saber a vers\u00e3o contada socialmente por voc\u00eas para todos n\u00f3s termos bons resultados, \u00e9 claro.<br>\u2003\u2003\u2014 Acidente de avi\u00e3o \u2014 falaram em un\u00edssono.<br>\u2003\u2003\u2014 Certo. Bom, pelo relato \u00e9 f\u00e1cil encaix\u00e1-la num quadro cl\u00ednico de psicose, quando a pessoa se desconecta da realidade. No caso da sua m\u00e3e, devido \u00e0 morte s\u00fabita do filho.<br>\u2003\u2003\u2014 E quanto vai nos custar? \u2014 questionou Annanda.<br>\u2003\u2003\u2014 Trinta mil por m\u00eas.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00d3timo.<br>\u2003\u2003Por Lucas se estabilizar como influencer, dinheiro n\u00e3o era mais uma preocupa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Quem diria que a divulga\u00e7\u00e3o di\u00e1ria dos jogos de azar nas plataformas digitais poderia enriquec\u00ea-lo tanto? Viva \u00e0s bets.<br>\u2003\u2003\u2014 Irei preparar o documento. Precisarei da assinatura de Annanda e dos documentos da paciente a fim de resolvermos logo os tr\u00e2mites legais o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 A quero hoje mesmo aqui \u2014 a filha se apressou a dizer. \u2014 Exijo o mais absoluto sigilo sobre essa hist\u00f3ria. O Lucas \u00e9 muito conhecido e n\u00e3o demoro para mim tamb\u00e9m o ser. N\u00e3o aceito da interna\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e vazar.<br>\u2003\u2003\u2014 Nada poderia me alegrar mais, querida.<br>\u2003\u2003Os femininos vincos nasais se formaram em asco pela maneira como a palavra soou para referir-se a ela.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Se esfor\u00e7ou para acordar, o tentador v\u00e9u da sonol\u00eancia agrad\u00e1vel demais para resistir sem luta \u00e1rdua.<br>\u2003\u2003De in\u00edcio buscou mexer os dedos em movimentos d\u00e9beis. A cabe\u00e7a pesava. Sentia-se torpe, com dificuldade at\u00e9 para erguer as p\u00e1lpebras \u2014 e agradeceu por estar deitado numa maca ao realizar a a\u00e7\u00e3o. A tonteira o tomou, a t\u00eanue luz do Sol entrando atrav\u00e9s da janela a metros de dist\u00e2ncia. E o pior. Alguns pontos pelo corpo do\u00edam mais do que era capaz de suportar, em especial na \u00e1rea da traqueia devido ao tubo.<br>\u2003\u2003Apenas n\u00e3o gritou de dor devido \u00e0 exaust\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Ol\u00e1. \u2014 A enfermeira trocava a medica\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por mant\u00ea-lo em coma at\u00e9 os ferimentos cicatrizarem o suficiente para suport\u00e1-los. \u2014 Sou Clara. N\u00e3o exer\u00e7a esfor\u00e7o em v\u00e3o. Pisque uma vez para sim e duas para n\u00e3o. Entendeu?<br>\u2003\u2003Piscou lentamente uma vez.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00d3timo. Sente dor?<br>\u2003\u2003Piscou uma vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Muita?<br>\u2003\u2003Nem precisaria piscar. A l\u00e1grima desceu pela deformada face repleta de hematomas e cortes em resposta para a pergunta.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o se preocupe. Quando acordar novamente, se sentir\u00e1 melhor.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s aplicar a morfina, demorou dez terr\u00edveis segundos at\u00e9 adormecer de novo.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Dessa vez, ao despertar, n\u00e3o estava entubado.<br>\u2003\u2003A dor presente n\u00e3o era excruciante, apenas suport\u00e1vel. Pela experi\u00eancia anterior ao acordar, por via das d\u00favidas, decidiu n\u00e3o se mover. Percorreu com o olhar o ambiente, compreendendo como estava num hospital. O aparelho respons\u00e1vel por monitorar os seus sinais sistematicamente produzia tom mon\u00f3tono. Demorou v\u00e1rios minutos para se acostumar \u00e0 luminosidade do fim de tarde, os globos desconfort\u00e1veis ap\u00f3s demasiado tempo inconsciente.<br>\u2003\u2003Os outros enfermos repousavam nas respectivas macas dispostas ao longo da sala de recupera\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003A mesma enfermeira entrou no quarto quase meia hora depois.<br>\u2003\u2003\u2014 Ol\u00e1! \u2014 A mulher sorriu com gentileza. \u2014 Me alegra ter acordado. Passou bastante tempo inconsciente.<br>\u2003\u2003Pelo sorriso era evidente como as palavras carregavam franqueza.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi. \u2014 A voz saiu rouca e baixa, quase inaud\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 Como se sente? \u2014 Parou em frente \u00e0 maca, atenta \u00e0s rea\u00e7\u00f5es. \u2014 Algum desconforto?<br>\u2003\u2003\u2014 Pouca dor. Eu&#8230; Posso perguntar uma coisa?<br>\u2003\u2003\u2014 Desde que n\u00e3o o perturbe, sim. \u00c9 necess\u00e1rio poupar for\u00e7as pra recupera\u00e7\u00e3o ser completa.<br>\u2003\u2003\u2014 Sabe o que aconteceu comigo?<br>\u2003\u2003A sombra de alerta perpassou o semblante simp\u00e1tico da jovem mulher.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o se lembra? \u2014 Franziu o cenho, certa de que a resposta poderia tranquiliz\u00e1-la ou n\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o&#8230; Eu&#8230; N\u00e3o me lembro de nada&#8230; Nem de quem sou.<br>\u2003\u2003A r\u00e9plica a apavorou.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A informa\u00e7\u00e3o de desenvolver amn\u00e9sia dissociativa era desestimulante e at\u00e9 frustrante ap\u00f3s acordar hospitalizado sem documentos de identifica\u00e7\u00e3o como o RG. Se restabelecer dos ossos quebrados e dos tiros n\u00e3o era f\u00e1cil, sem mencionar o gesso na perna a qual deveria permanecer im\u00f3vel, a faixa imobilizando as costelas fraturadas e as diversas feridas cicatrizando no rosto \u2014 al\u00e9m de, \u00e9 claro, passar por opera\u00e7\u00e3o por uma bala perfurar o pulm\u00e3o, respons\u00e1vel pela necessidade do coma induzido cuja dura\u00e7\u00e3o foi prolongada por semanas pela gravidade da les\u00e3o.<br>\u2003\u2003A experi\u00eancia em si era extenuante. Sem nenhuma reminisc\u00eancia ou m\u00edsera pista acerca de sua identidade tornava tudo pior.<br>\u2003\u2003N\u00e3o carregar lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia ou do que o levou ao hospital era desgastante.<br>\u2003\u2003Parecia casca oca, vazia, a qual precisava ser preenchida para descobrir quem era.<br>\u2003\u2003\u2014 Geralmente a amn\u00e9sia dissociativa \u00e9 desencadeada por eventos traum\u00e1ticos ou estressantes. No seu caso \u00e9 geral por n\u00e3o se recordar de nada. Pode recuperar a sua mem\u00f3ria com o aux\u00edlio do tratamento psicol\u00f3gico. Todavia, n\u00e3o podemos mensurar em quanto tempo ir\u00e1 acess\u00e1-la.<br>\u2003\u2003Passou por intensa bateria de exames, testes neuropsicol\u00f3gicos e exames de imagem a fim de chegar ao diagn\u00f3stico final.<br>\u2003\u2003A recupera\u00e7\u00e3o foi vagarosa e at\u00e9 tediosa. Qualquer m\u00ednimo movimento ou esfor\u00e7o poderia lhe gerar dor e detestava manter-se parado naquela maca. At\u00e9 a alimenta\u00e7\u00e3o era vagarosa, o cuidado excessivo objetivando n\u00e3o causar pontadas de dor intensa. O problema em si nem foi passar o dia inteiro deitado. O pior de sua condi\u00e7\u00e3o era lidar com o fato de ningu\u00e9m se importar consigo. Logo, n\u00e3o havia visitas.<br>\u2003\u2003Era a pior parte do dia. Foi imposs\u00edvel a solid\u00e3o n\u00e3o o assolar no avan\u00e7ar dos dias quando contemplava os outros pacientes receberem visitantes, fossem familiares, amigos ou pares rom\u00e2nticos. No fundo, torcia para algu\u00e9m aparecer o procurando. N\u00e3o havia sorrisos, brincadeiras, abra\u00e7os, gestos afetuosos ou at\u00e9 travessuras como lhe entregar escondido alimentos impr\u00f3prios como doces ou refei\u00e7\u00f5es assim como viu acontecendo ao longo da estadia.<br>\u2003\u2003A fa\u00edsca de esperan\u00e7a diminu\u00eda a medida em que o duro contexto o confrontava. Ningu\u00e9m fazia a men\u00e7\u00e3o de procur\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003Por vezes tentava dormir para fugir da deprimente realidade cujo abandono lhe deixava sabor amargo no paladar. Cansou de prender o choro por n\u00e3o haver ningu\u00e9m por ele \u2014 e por mais que se empenhasse, n\u00e3o lhe surgia nenhum nome de quem, talvez, pudesse sentir sua falta.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Trinta dias mais tarde, Jo\u00e3o estava ansioso do lado de fora da sala faltando vinte minutos pro hor\u00e1rio da visita\u00e7\u00e3o come\u00e7ar.<br>\u2003\u2003A consci\u00eancia o impedia de n\u00e3o comparecer na instala\u00e7\u00e3o com o objetivo de verificar diariamente a evolu\u00e7\u00e3o do desconhecido. Embora n\u00e3o entrasse no espa\u00e7o, recolhia as informa\u00e7\u00f5es com Clara. Mesmo sem se fazer presente, acompanhava a melhora e pedia aos c\u00e9us para a sua recupera\u00e7\u00e3o total nas silenciosas ora\u00e7\u00f5es. Mesmo enquanto o outro estava em coma, Clara, a enfermeira com quem tinha amizade h\u00e1 anos, lhe permitia entrar sob sua supervis\u00e3o.<br>\u2003\u2003Infelizmente, desde quando o rapaz despertou, insistia em permanecer no corredor ao inv\u00e9s de se apresentar \u2014 e n\u00e3o imaginava como era indispens\u00e1vel nas condi\u00e7\u00f5es emocionais do rapaz sentir que era importante para algu\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que n\u00e3o vai falar com o garoto? \u2014 Clara indagou, se acomodando sentada na cadeira ao lado do amigo.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o d\u00e1. Eu nem o conhe\u00e7o \u2014 retrucou em cabe\u00e7a baixa, os cotovelos apoiados nos joelhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea foi quem o resgatou e o trouxe pra c\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2014 Mesmo assim. Qual diferen\u00e7a faria ir at\u00e9 l\u00e1? N\u00e3o me conhece e nem carrega recorda\u00e7\u00f5es do passado.<br>\u2003\u2003A irrita\u00e7\u00e3o na voz era porque se considerava um criminoso por <em>concordar <\/em>assassin\u00e1-lo quando aceitou o acordo com o agiota.<br>\u2003\u2003Clara respirou fundo, refletindo se seria adequado como figura profissional externalizar suas percep\u00e7\u00f5es acerca do paciente.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tenho pena dele. \u2014 Decidiu optar pela verdade. \u2014 \u00c9 deprimente ver todos receberem visitas ao longo dos dias menos ele. O garoto se entristece cada vez mais. Por vezes prolongo conversas com ele pra tentar anim\u00e1-lo. N\u00e3o gosto de v\u00ea-lo sempre sozinho. Por que n\u00e3o entra? Se apresenta. Se aproxima. Afinal, nem eu fa\u00e7o ideia pra onde ir\u00e1 depois da alta e est\u00e1 em total vulnerabilidade em todos os sentidos da palavra. Por comparecer todos os dias nesse hor\u00e1rio demonstra como se preocupa. Deixe-o saber disso.<br>\u2003\u2003Por v\u00ea-lo fechar os olhos contundente, soube que concordara com a recomenda\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Em d\u00favida se conseguiria passar pelo processo da visita\u00e7\u00e3o sem chorar, viu um homem de cal\u00e7a jeans pu\u00edda e camisa azul entrar acompanhado da enfermeira quem costumava conversar consigo quando ia levar as refei\u00e7\u00f5es para os pacientes ou averigu\u00e1-los.<br>\u2003\u2003\u2014 Querido, hoje tem uma visita muito importante pra voc\u00ea. \u2014 Cordial, sinalizou para o amigo se aproximar. \u2014 Este \u00e9 Jo\u00e3o \u2014 prosseguiu quando o homem parou ao seu lado. \u2014 Foi ele quem o encontrou e te salvou. Acho que voc\u00eas t\u00eam muito a tratar.<br>\u2003\u2003O remorso de Jo\u00e3o diminuiu um pouco devido a ador\u00e1vel combina\u00e7\u00e3o do t\u00edmido sorriso do rapaz com as \u00edris castanhas brilhando.<br>\u2003\u2003N\u00e3o demorou para o la\u00e7o de amizade se formar entre a dupla at\u00e9 o rapaz se recuperar por completo.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O humor de Igor estava tenebroso no final do expediente.<br>\u2003\u2003Passava por problemas os quais o deixavam rabugento, a casa estava prestes a ser classificada como abandonada pela maior parte do tempo ficar no bar, tinha a tend\u00eancia de vez ou outra se embebedar para esquecer o inferno que se transformara a vida da \u00fanica neta e at\u00e9 os amigos sabiam que n\u00e3o era adepto a visitas caseiras e que era comum socorr\u00ea-lo em determinada data de setembro \u2014 inclusive porque o temperamento se tornava melanc\u00f3lico.<br>\u2003\u2003Logo, pela mil\u00e9sima vez se perguntava por que consentiu com a loucura de abrigar o pobre rapaz desmemoriado ap\u00f3s cinco meses de recupera\u00e7\u00e3o no hospital.<br>\u2003\u2003Limpava a bancada do bar quando Jo\u00e3o chegou com o dito cujo.<br>\u2003\u2003Sisudo, os viu entrar pela vis\u00e3o perif\u00e9rica.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 estou avisando pra depois n\u00e3o dizer que a cigana te enganou. \u2014 Jogou o pano \u00famido no ombro. \u2014 Eu n\u00e3o&#8230;<br>\u2003\u2003Congelou por instantes ao se deparar com o desconhecido em sua frente. Os tra\u00e7os andr\u00f3genos eram familiares. Em consequ\u00eancia, uma s\u00e9rie de lembran\u00e7as repletas de sorrisos infantis, inoc\u00eancia e m\u00fasica surgiram na mente \u2014 e o cora\u00e7\u00e3o apertou pela \u00e9poca quando era capaz de proporcionar j\u00fabilo para a neta.<br>\u2003\u2003\u2014 Quem \u00e9 voc\u00ea? \u2014 Franziu o cenho retornando para a realidade.<br>\u2003\u2003O profundo olhar do homem cuja faixa et\u00e1ria era suficiente para ser seu pai o assombrou. N\u00e3o esperava boa recep\u00e7\u00e3o em virtude dos avisos de Jo\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se preparara para o desconforto o invadir ao ser supervisionado pelos globos escuros.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o lembro \u2014 se desculpou encolhendo os ombros, as costelas ainda ligeiramente doloridas com o movimento.<br>\u2003\u2003Atento \u00e0 careta de dor, Jo\u00e3o retirou o rem\u00e9dio do bolso, colocando um comprimido na palma.<br>\u2003\u2003\u2014 O garoto n\u00e3o se lembra de nada. Comentei contigo. \u2014 Estendeu-o para o mais novo, quem logo o apanhou.<br>\u2003\u2003O dono do bar se apressou a apanhar o primeiro copo limpo ao alcance, ench\u00ea-lo de \u00e1gua fresca na geladeira e entreg\u00e1-lo para tomar o rem\u00e9dio o qual reduziria a dor.<br>\u2003\u2003\u2014 Hum&#8230; \u2014 Achou mais prudente guardar a impress\u00e3o da familiaridade para si. \u2014 Como podemos cham\u00e1-lo, ent\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 Decidi por Heitor \u2014 avisou depositando o copo na bancada.<br>\u2003\u2003N\u00e3o foi a sua primeira op\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u00c0 princ\u00edpio apreciava o nome Gabriel. A percep\u00e7\u00e3o pela maneira como as letras sa\u00edam de sua boca formando a fon\u00e9tica do nome lhe era agrad\u00e1vel.<br>\u2003\u2003N\u00e3o imaginava que a sensa\u00e7\u00e3o era manifesta\u00e7\u00e3o inconsciente do seu passado.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 uma maneira interessante de se come\u00e7ar. \u2014 O sorriso de Igor foi discreto, o lampejo de aprova\u00e7\u00e3o surgindo nas \u00edris. \u2014 Transmite for\u00e7a. Esse momento \u00e9 importante pra voc\u00ea se fortalecer.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigado.<br>\u2003\u2003Compreendendo como a primeira intera\u00e7\u00e3o entre eles foi bem mais positiva do que esperava, o outro deu in\u00edcio a parte mais importante do di\u00e1logo.<br>\u2003\u2003\u2014 Preparei o terreno pra voc\u00ea morar com o Igor \u2014 avisou Jo\u00e3o se colocando ao lado do amigo. \u2014 Agora, ou\u00e7a a proposta.<br>\u2003\u2003\u2014 Garoto, aqui n\u00e3o tem luxo. Caso n\u00e3o tenha percebido, dinheiro n\u00e3o \u00e9 o meu forte. Moro do outro lado da rua, passo a maior parte do tempo no bar e minha vida se resume a esses dois lugares. O Jo\u00e3o comentou sobre a sua condi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou mentir, me tocou. Ent\u00e3o, o que posso lhe oferecer \u00e9 o seguinte. Eu posso hosped\u00e1-lo pelo tempo que for necess\u00e1rio. Entretanto, n\u00e3o pense que isso vir\u00e1 de gra\u00e7a. Enquanto estiver debaixo do meu teto, n\u00e3o passar\u00e1 as tardes co\u00e7ando a porra do saco, n\u00e3o. O quero trabalhando no local de sua prefer\u00eancia quando n\u00e3o precisar mais tomar rem\u00e9dios para aliviarem a dor. N\u00e3o enchendo a porra do meu saco, n\u00e3o me trazendo problemas e nem me infernizando, est\u00e1 \u00f3timo. Aceita ou n\u00e3o?<br>\u2003\u2003De imediato Heitor compreendeu parte da personalidade de Igor. Apesar de ainda n\u00e3o haver mem\u00f3rias, era convicto de algumas caracter\u00edsticas de sua \u00edndole \u2014 dentre elas o alto respeito pelo pr\u00f3ximo, a bondade ineg\u00e1vel, a vontade de criar la\u00e7os, a curiosidade natural acerca do ser humano e de se superar.<br>\u2003\u2003E principalmente. Por uma m\u00e3o lhe ser estendida, n\u00e3o permitiria jamais o socorro ser ignorado. Aproveitaria a oportunidade de retribuir o favor \u2014 e tanto Igor quanto a neta seriam eternamente gratos pela gentileza.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2781],"class_list":["post-10829","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-docetrapaca"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10829","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10829"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10829"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10829"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}