{"id":10789,"date":"2026-08-18T09:41:11","date_gmt":"2026-08-18T12:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-08-18T09:44:52","modified_gmt":"2026-08-18T12:44:52","slug":"capitulo-4","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/goldenhour\/capitulo-4\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 4"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O grande dia finalmente<\/span> havia chegado, e a luz fraca da manh\u00e3 mal come\u00e7ava a desenhar as silhuetas dos m\u00f3veis no quarto de %Amanda% quando os olhos dela se abriram, muito antes do despertador tocar. A verdade era que ela mal havia dormido; a mente tinha passado as \u00faltimas horas reprisando \u00e2ngulos, velocidades de obturador e enquadramentos poss\u00edveis. O frio no est\u00f4mago estava ali, inevit\u00e1vel, fazendo seus dedos tremem de leve enquanto ela esticava o bra\u00e7o para alcan\u00e7ar o celular na cabeceira da cama.<br>\u2003\u2003Mas, antes mesmo que a onda de nervosismo matinal pudesse tomar conta, a tela se iluminou com uma nova mensagem. %Amanda% ajeitou os \u00f3culos no rosto e abriu a notifica\u00e7\u00e3o, sentindo o cora\u00e7\u00e3o dar um salto:<\/p>\r\n<div style=\"width: 60%; margin: auto;\">\r\n<strong>JK:<\/strong> <em>Bom dia, %Mandy%! Sei que deve estar acordando agora e com o est\u00f4mago revirado, mas vim lembrar que o Bam j\u00e1 est\u00e1 usando a foto dele como tela de bloqueio no meu celular (e eu tamb\u00e9m!) \ud83d\udc36\u2728. Se voc\u00ea conseguiu congelar o movimento daquele dobermann maluco e o salto do Jimin em uma sala de estar, o gin\u00e1sio da faculdade vai ser moleza para voc\u00ea. Confia no seu reflexo e na sua c\u00e2mera. Estamos todos torcendo por voc\u00ea aqui. Vai l\u00e1 e busca essa vaga para o show! Fighting!<\/em>\r\n<\/div>\r\n<p>\u2003\u2003%Amanda% soltou uma risada baixa, sentindo uma lufada de ar fresco varrer toda a tens\u00e3o que parecia acumular em seu peito. Ver o apoio dele logo nas primeiras horas do dia era o empurr\u00e3o que faltava. Ela pulou da cama com uma energia renovada, tomou um banho r\u00e1pido e revisou cada item de sua maleta: corpo da c\u00e2mera, lentes limpas, baterias extras totalmente carregadas e cart\u00f5es de mem\u00f3ria vazios. Estava tudo impec\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Quando colocou os p\u00e9s no campus da universidade, o ambiente parecia completamente transformado. O sil\u00eancio habitual dos corredores acad\u00eamicos tinha dado lugar a um caldeir\u00e3o de barulho, m\u00fasica alta e cores. Faixas coloridas com os bras\u00f5es dos cursos decoravam as paredes, atletas de moletom corriam de um lado para o outro fazendo aquecimento e a torcida j\u00e1 come\u00e7ava a lotar as arquibancadas do imenso gin\u00e1sio central, com gritos de guerra ecoando pelo teto alto.<br>\u2003\u2003%Amanda% prendeu o cabelo, pendurou a al\u00e7a da c\u00e2mera no pesco\u00e7o e come\u00e7ou a circular pelas laterais da quadra de esportes, estudando a dire\u00e7\u00e3o da luz que vinha das enormes janelas superiores. Ela precisava mapear o terreno antes do in\u00edcio dos jogos. Foi justamente enquanto ajustava o balan\u00e7o de brancos da lente que ela sentiu um par de olhos cravados em suas costas.<br>\u2003\u2003Ao se virar lentamente, %Amanda% deu de cara com Nayeon. A garota estava impec\u00e1vel, vestindo uma jaqueta estilosa da faculdade e segurando uma c\u00e2mera com uma lente teleobjetiva de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, daquelas car\u00edssimas que pareciam um pequeno telesc\u00f3pio. Ela olhou para o equipamento mais modesto de %Amanda% e soltou um sorriso ladino, caminhando a passos lentos at\u00e9 ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Olha s\u00f3, a fot\u00f3grafa de est\u00fadio resolveu aparecer para o trabalho de campo \u2014 Nayeon comentou, a voz pingando um deboche velado, enquanto ajeitava a al\u00e7a de seu pr\u00f3prio equipamento no ombro. \u2014 Conseguiu uma nota boa com aquelas fotos paradas na penumbra, mas fotografia de esportes \u00e9 outra liga, %Amanda%. \u00c9 preciso velocidade, instinto e, claro&#8230; equipamento de verdade para n\u00e3o passar vergonha. Boa sorte tentando acompanhar o ritmo dos jogadores com essa lente a\u00ed.<br>\u2003\u2003%Amanda% olhou para a teleobjetiva de Nayeon e depois sustentou o olhar da garota. H\u00e1 alguns dias, aquela provoca\u00e7\u00e3o teria feito seu est\u00f4mago se contrair em inseguran\u00e7a, mas hoje n\u00e3o. Hoje ela tinha o peso de um treino ca\u00f3tico, os conselhos t\u00e9cnicos de Hoseok e a certeza de que sabia exatamente o que significava &#8220;congelar a emo\u00e7\u00e3o&#8221;.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigada pelo conselho, Nayeon \u2014 %Amanda% respondeu, mantendo a voz perfeitamente calma e um sorriso leve nos l\u00e1bios. \u2014 Mas o professor deixou bem claro que o pr\u00eamio vai para a foto que capturar a alma do movimento, n\u00e3o para quem tem a maior lente da quadra. Que ven\u00e7a o melhor clique.<br>\u2003\u2003Sem esperar uma resposta, %Amanda% deu as costas com eleg\u00e2ncia e caminhou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s arquibancadas principais. Ela observou o tumulto na quadra por mais alguns minutos. A maioria dos fot\u00f3grafos da sua sala, incluindo Nayeon, j\u00e1 estava se acotovelando nas linhas de fundo para garantir o melhor \u00e2ngulo das enterradas do time masculino de basquete. Todos queriam a foto comercial perfeita, o clique \u00f3bvio que sairia na capa do jornal do campus.<br>\u2003\u2003No entanto, ao olhar para aquela cena de fot\u00f3grafos empurrando uns aos outros por um espa\u00e7o milim\u00e9trico, %Amanda% sentiu que algo faltava. As fotos ali seriam todas tecnicamente id\u00eanticas, destitu\u00eddas de uma narrativa verdadeira. Ela deu um passo para tr\u00e1s, afastando-se do barulho dos megafones, e deixou que sua mente de f\u00e3 de cultura pop fizesse uma conex\u00e3o inesperada. Ela lembrou-se imediatamente de seus animes de esportes favoritos, especialmente de <em>Haikyuu!!<\/em>.<br>\u2003\u2003Em <em>Haikyuu!!<\/em>, o que sempre a arrepiava n\u00e3o eram apenas os saques potentes ou os ataques r\u00e1pidos dos times favoritos ao campeonato nacional. O que mexia profundamente com o seu cora\u00e7\u00e3o eram os jogos das equipes consideradas &#8220;pequenas&#8221;, desvalorizadas pela grande m\u00eddia. %Amanda% lembrou-se vividamente do time da Wakunan, cuja torcida nas arquibancadas do torneio intercolegial era composta quase inteiramente pela fam\u00edlia barulhenta, suada e genuinamente orgulhosa do pr\u00f3prio capit\u00e3o. Lembrou-se da pr\u00f3pria Karasuno em seus momentos iniciais, quando apenas um punhado de pessoas fi\u00e9is \u2014 como a Saeco com seu bumbo \u2014 gritava das arquibancadas com uma paix\u00e3o que engolia o gin\u00e1sio inteiro. Aquilo era catarse. Aquilo era o verdadeiro significado de &#8220;congelar a emo\u00e7\u00e3o&#8221;: o amor puro, o drama de nicho, a torcida fiel que compensava a falta de n\u00famero com uma alma gigante.<br>\u2003\u2003Com esse estalo est\u00e9tico na mente, %Amanda% tomou sua decis\u00e3o estrat\u00e9gica. Ela n\u00e3o ia brigar por espa\u00e7o no basquete masculino ou no futebol. Ela deu as costas ao barulho do gin\u00e1sio principal e come\u00e7ou a caminhar em dire\u00e7\u00e3o aos blocos secund\u00e1rios de espet\u00e1culo do campus, decidida a encontrar a sua pr\u00f3pria &#8220;Karasuno&#8221;.<br>\u2003\u2003Sua intui\u00e7\u00e3o a levou at\u00e9 uma quadra menor e mais afastada, escondida atr\u00e1s do centro de artes da universidade. O som ali era diferente. N\u00e3o havia o estrondo de cornetas eletr\u00f4nicas ou patrocinadores, mas o eco seco, r\u00e1pido e violento de uma bola pesada sendo disputada em alta velocidade, acompanhado por gritos de comando puramente t\u00e1ticos. Era o torneio universit\u00e1rio de futsal feminino.<br>\u2003\u2003Ao entrar no pequeno gin\u00e1sio de concreto, %Amanda% soube na hora que estava no lugar certo. A atmosfera ali dentro era quase palp\u00e1vel, quente e claustrof\u00f3bica. Na quadra, as jogadoras corriam com uma garra feroz e crua, o suor brilhando intensamente sob os refletores simples de luz amarelada, disputando cada cent\u00edmetro de espa\u00e7o com carrinhos, trombadas e giros r\u00e1pidos de calcanhar.<br>\u2003\u2003Mais do que tudo, o que realmente chamou a aten\u00e7\u00e3o de %Amanda% foi a arquibancada. Havia poucas fileiras de assentos de metal, e eles n\u00e3o estavam cheios. Mas as poucas dezenas de pessoas ali faziam o ch\u00e3o tremer. Era uma torcida viva, sem filtros. %Amanda% viu um grupo de amigas de curso segurando cartazes feitos \u00e0 m\u00e3o com canetinha colorida e glitter que j\u00e1 estava descascando, um casal de idosos que parecia ser av\u00f3s de uma das jogadoras segurando garrafas de \u00e1gua com as m\u00e3os tr\u00eamulas de ansiedade, e alguns estudantes que batiam os p\u00e9s ritmadamente no metal da estrutura. Eles sofriam a cada passe errado, levavam as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a em desespero e explodiam a cada roubada de bola.<br>\u2003\u2003%Amanda% sorriu por tr\u00e1s de seus \u00f3culos. Era ali. O drama humano estava montado.<br>\u2003\u2003Ela se ajoelhou rente \u00e0 linha lateral, bem perto de onde a torcida mais fervorosa estava concentrada, desafiando a poeira do ch\u00e3o. %Amanda% tirou a tampa da lente, respirou fundo e come\u00e7ou a configurar seu equipamento. Sua mente viajou por um milissegundo at\u00e9 o dia anterior na casa do Jungkook. Ela relembrou a corrida imprevis\u00edvel e veloz do Bam, as mudan\u00e7as bruscas de dire\u00e7\u00e3o do JK no meio do tapete e a forma como Jimin usava o pr\u00f3prio corpo e a gravidade para criar drama no ar. O treinamento intenso e ca\u00f3tico deles havia calibrado os seus reflexos para o imprevis\u00edvel. E o futsal feminino era o imprevis\u00edvel em estado puro.<br>\u2003\u2003O jogo avan\u00e7ava num ritmo fren\u00e9tico. %Amanda% colou o olho no visor e come\u00e7ou a disparar os primeiros cliques, testando a velocidade do obturador em 1\/1000 de segundo para congelar as gotas de suor que saltavam das atletas nas divididas de bola. A cada subida do time da casa, a arquibancada se inclinava para a frente, quase caindo sobre a linha lateral. %Amanda% dividia sua aten\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica: um olho no visor rastreando a atacante, o outro aberto capturando a express\u00e3o de ang\u00fastia do av\u00f4 na primeira fileira.<br>\u2003\u2003A partida desenrolou-se como uma batalha de desgaste. Faltando dois minutos para o fim, o time advers\u00e1rio marcou um gol de empate ap\u00f3s um contra-ataque veloz. O gin\u00e1sio silenciou por um segundo, um sil\u00eancio pesado e dolorido, pontuado apenas pelo choro contido de uma das meninas no banco de reservas. %Amanda% registrou aquele momento \u2014 a dor da queda \u2014, lembrando-se de como <em>Haikyuu!!<\/em> ensina que a derrota faz parte da jornada. Mas as jogadoras em quadra n\u00e3o se entregaram. Elas bateram palma, gritaram umas com as outras e reiniciaram o jogo com uma f\u00faria renovada.<br>\u2003\u2003Faltavam apenas dez segundos para o apito final. O placar eletr\u00f4nico pequenino na parede piscava em vermelho, mostrando o empate persistente de 3&#215;3. A atmosfera no gin\u00e1sio secund\u00e1rio estava t\u00e3o carregada que o ar parecia el\u00e9trico, dif\u00edcil de respirar. %Amanda% n\u00e3o ousava piscar. Suas m\u00e3os seguravam o corpo da c\u00e2mera com uma firmeza absoluta, os m\u00fasculos dos bra\u00e7os tensos pelo esfor\u00e7o cont\u00ednuo.<br>\u2003\u2003A ala direita do time da faculdade, uma garota de baixa estatura com o n\u00famero 7 nas costas, avan\u00e7ou em alta velocidade pela lateral, costurando a defesa advers\u00e1ria com um drible seco. A torcida fiel nas arquibancadas prendeu a respira\u00e7\u00e3o em um sil\u00eancio agonizante. Dava para ouvir o som dos t\u00eanis cantando alto no ch\u00e3o de taco. Ela armou o chute. A zagueira rival veio de carrinho violento, bloqueando parcialmente a trajet\u00f3ria da bola, que subiu de forma bizarra, pegando um efeito imprevis\u00edvel no ar.<br>\u2003\u2003O tempo pareceu desacelerar para %Amanda%. Todo o treino da v\u00e9spera convergiu para aquele milissegundo exato. Seu c\u00e9rebro antecipou a trajet\u00f3ria da bola antes mesmo de ela atingir o \u00e1pice. Ela deslocou o eixo da c\u00e2mera mil\u00edmetros para o lado, enquadrando a goleira advers\u00e1ria que saltava desesperada, esticando o corpo inteiro em uma linha diagonal dram\u00e1tica que lembrava os saltos de Jimin, enquanto a bola viajava direto para o \u00e2ngulo reto da trave interna.<br>\u2003\u2003A bola bateu no metal com um estrondo seco e ricocheteou para dentro, estufando a rede no exato instante em que o cron\u00f4metro zerou. O caos emocional explodiu.<br>\u2003\u2003E %Amanda% clicou.<br>\u2003\u2003<em>Clique.<\/em> <br>\u2003\u2003O som do obturador foi completamente engolido pelo som mais ensurdecedor, cru e visceral que %Amanda% j\u00e1 tinha ouvido na vida. O apito final ecoou junto com uma descarga de sentimentos que preencheu cada mil\u00edmetro do gin\u00e1sio. Foi uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia de al\u00edvio e \u00eaxtase.<br>\u2003\u2003Na quadra, a camisa 7 desabou de joelhos no ch\u00e3o, com os bra\u00e7os erguidos para o teto, abrindo um sorriso gigante que misturava exaust\u00e3o extrema e pura gl\u00f3ria. Ao fundo, as meninas do banco de reservas invadiram a quadra como um raio, gritando a plenos pulm\u00f5es com l\u00e1grimas leg\u00edtimas de al\u00edvio escorrendo pelos rostos suados, abra\u00e7ando-se em um bolo humano de camisas sujas de poeira.<br>\u2003\u2003Mas a verdadeira obra-prima da foto de %Amanda% estava no segundo plano, perfeitamente calculado atrav\u00e9s da abertura do diafragma. Na arquibancada, aquela pequena torcida de nicho tinha vindo abaixo. O casal de idosos estava abra\u00e7ado, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, com as rugas dos rostos acentuadas pela emo\u00e7\u00e3o; os estudantes batiam nos corrim\u00e3os de metal chorando copiosamente, e as amigas com os cartazes de canetinha pulavam em l\u00e1grimas, com as bocas abertas em gritos de vit\u00f3ria genu\u00ednos. Era a c\u00f3pia perfeita da energia de quando a Karasuno finalmente derrubou a Shiratorizawa: o choro da liberta\u00e7\u00e3o, os gritos do esfor\u00e7o recompensado e os sorrisos da mais pura felicidade coletiva. A catarse perfeita.<br>\u2003\u2003%Amanda% afastou a c\u00e2mera do rosto devagar, sentindo o peito subir e descer rapidamente enquanto tenta recuperar o pr\u00f3prio f\u00f4lego. Suas m\u00e3os estavam tr\u00eamulas pela descarga massiva de adrenalina. Ela apertou o bot\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o para visualizar a \u00faltima imagem capturada no cart\u00e3o de mem\u00f3ria.<br>\u2003\u2003O visor digital se acendeu no meio da penumbra do gin\u00e1sio. %Amanda% prendeu o f\u00f4lego.<br>\u2003\u2003A foto estava absurdamente n\u00edtida, uma joia t\u00e9cnica e art\u00edstica. O enquadramento havia congelado tudo em camadas perfeitas: o suor voando em gotas brilhantes da jogadora sorrindo de joelhos no ch\u00e3o em primeiro plano, a bola ainda deformada tocando o fundo da rede l\u00e1 atr\u00e1s, e o desespero transformado em l\u00e1grimas, gritos e abra\u00e7os congelados de cada membro daquela torcida fiel na arquibancada. Cada express\u00e3o de choro, cada boca aberta em grito e cada sorriso estava ali, pulsante. N\u00e3o era apenas uma imagem est\u00e1tica de esporte; era uma cr\u00f4nica visual viva sobre o amor, a dor e a entrega.<br>\u2003\u2003Enquanto ela ainda admirava a tela, com um sorriso imenso e orgulhoso come\u00e7ando a desenhar-se em seus l\u00e1bios, %Amanda% ouviu passos apressados vindo em sua dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ao desviar o olhar do visor, ela viu uma das jogadoras reservas do time da faculdade. A garota usava o colete do banco por cima do uniforme e ainda tinha os olhos vermelhos e marejados pelo choro do susto da vit\u00f3ria. Ela vinha limpando o rosto com as costas das m\u00e3os, mas trazia uma express\u00e3o misturada de curiosidade e timidez.<br>\u2003\u2003\u2014 Com licen\u00e7a&#8230; \u2014 a jogadora disse, parando a um metro de %Amanda% e apontando para a c\u00e2mera. \u2014 Desculpa te incomodar agora. \u00c9 que eu vi voc\u00ea aqui na linha lateral o jogo inteiro. Vi o jeito que voc\u00ea estava se movimentando e focando na nossa torcida. Voc\u00ea&#8230; voc\u00ea conseguiu tirar aquela \u00faltima foto? Do clique do gol?<br>\u2003\u2003\u2014 Consegui sim \u2014 %Amanda% respondeu, com a voz mansa e acolhedora, virando o corpo de lado para dar espa\u00e7o. \u2014 Ficou bem n\u00edtida. Quer dar uma olhada?<br>\u2003\u2003A garota se aproximou devagar, inclinando-se sobre o ombro de %Amanda% para olhar a pequena tela digital de LCD. No segundo em que a imagem apareceu, a jogadora congelou. Seus olhos se arregalaram e ela levou as duas m\u00e3os \u00e0 boca, soltando uma lufada de ar aud\u00edvel. Novas l\u00e1grimas, dessa vez de puro choque e emo\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a brotar nos cantos de seus olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu Deus&#8230; \u2014 a atleta sussurrou, com a voz embargada, apontando com o dedo tr\u00eamulo para o fundo da foto. \u2014 Olha os meus av\u00f3s ali atr\u00e1s&#8230; Olha o rosto da minha melhor amiga gritando na arquibancada. Isso est\u00e1&#8230; isso est\u00e1 sensacional. Est\u00e1 muito sentimental, de verdade.<br>\u2003\u2003A garota deu um passo para tr\u00e1s, olhando diretamente para %Amanda% com uma gratid\u00e3o profunda e tocante no olhar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do quanto isso significa para a gente \u2014 a jogadora continuou, com a voz falhando um pouco pelo choro entalado. \u2014 O futsal feminino nunca recebe aten\u00e7\u00e3o aqui no campus. Ningu\u00e9m liga para os nossos jogos, os jornais da faculdade nunca mandam fot\u00f3grafos para c\u00e1 e os outros estudantes nem sabem que a gente treina duro todos os dias. Ver voc\u00ea aqui, dedicando o seu tempo e o seu talento para enxergar o nosso esfor\u00e7o e registrar a nossa torcida com tanto carinho&#8230; fez a gente se sentir importante de verdade. Muito, muito obrigada por dar essa aten\u00e7\u00e3o para n\u00f3s hoje. Essa foto tem a nossa alma.<br>\u2003\u2003%Amanda% sentiu um arrepio percorrer sua espinha e um n\u00f3 morno se formar em sua garganta. Aquelas palavras sinceras atingiram o seu cora\u00e7\u00e3o com uma for\u00e7a avassaladora.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu que agrade\u00e7o a voc\u00eas pela entrega em quadra \u2014 %Amanda% respondeu, sentindo os pr\u00f3prios olhos marejarem levemente por tr\u00e1s das lentes dos \u00f3culos. \u2014 O jogo de voc\u00eas foi pura poesia. Eu s\u00f3 tentei fazer justi\u00e7a \u00e0 beleza desse momento.<br>\u2003\u2003A jogadora sorriu, agradeceu mais uma vez com uma rever\u00eancia respeitosa e correu de volta para o centro da quadra para se juntar ao resto do time, que j\u00e1 come\u00e7ava a erguer o trof\u00e9u simb\u00f3lico do torneio sob os gritos apaixonados da arquibancada.<br>\u2003\u2003A excita\u00e7\u00e3o do gin\u00e1sio aos poucos deu lugar ao sil\u00eancio da noite, mas a mente de %Amanda% continuava operando na mesma voltagem daquela partida. Quando ela finalmente entrou em sua casa, o sil\u00eancio do lugar foi o contraste perfeito para o turbilh\u00e3o que ainda ditava o ritmo de seus pensamentos. O cansa\u00e7o f\u00edsico era pesado, mas a eletricidade em suas veias n\u00e3o a deixava parar. Ela largou as chaves na bancada da entrada e marchou direto para sua mesa de trabalho, sem tempo a perder.<br>\u2003\u2003Ela puxou a cadeira, sentou-se na penumbra do quarto iluminado apenas pela lumin\u00e1ria de mesa e tirou o cart\u00e3o de mem\u00f3ria da c\u00e2mera com as pontas dos dedos ainda levemente tr\u00eamulas. O clique seco do cart\u00e3o entrando no leitor do computador pareceu o in\u00edcio de um segundo tempo.<br>\u2003\u2003O software de edi\u00e7\u00e3o abriu, e a barra de carregamento come\u00e7ou a importar os arquivos brutos, os pesados arquivos RAW. Centenas de miniaturas foram surgindo na tela. Havia fotos tremidas, testes de luz, momentos congelados de jogadas no meio da quadra&#8230; mas os olhos de %Amanda% ignoraram tudo e foram direto para os \u00faltimos registros da pasta.<br>\u2003\u2003Quando ela clicou duas vezes na foto do gol definitivo, a imagem expandiu-se em alta resolu\u00e7\u00e3o na tela do monitor de 24 polegadas. Naquele exato segundo, o quarto escuro pareceu desaparecer.<br>\u2003\u2003%Amanda% prendeu o f\u00f4lego. Ao olhar para os detalhes maximizados na tela digital, uma onda violenta de calor atingiu o seu peito, exatamente o mesmo choque t\u00e9rmico, a mesma descarga massiva de adrenalina que ela sentira no milissegundo em que seu dedo afundou o bot\u00e3o do obturador na lateral da quadra. O cora\u00e7\u00e3o, que tinha acabado de desacelerar, voltou a martelar forte contra as costelas.<br>\u2003\u2003Ela segurou o mouse com firmeza e come\u00e7ou os ajustes. \u00c0 medida que arrastava os seletores de realce e sombra, ela sentia que estava reescrevendo a hist\u00f3ria daquele jogo na poeira. Ela puxou os n\u00edveis de contraste, e o suor que saltava da pele da camisa 7 ganhou um brilho v\u00edvido, quase tridimensional, fazendo %Amanda% reviver o som do t\u00eanis cantando no ch\u00e3o de taco. Ela ajustou a nitidez no fundo da imagem, e as express\u00f5es rasgadas de choro e \u00eaxtase daquela torcida marginalizada saltaram da tela com uma clareza assustadora.<br>\u2003\u2003Cada clique no teclado para ajustar o balan\u00e7o de brancos parecia ecoar o som seco da bola batendo na trave interna e estufando a rede. %Amanda% aproximou o zoom no canto superior direito: o av\u00f4 da jogadora estava ali, com as m\u00e3os unidas perto do rosto, os olhos espremidos em uma ora\u00e7\u00e3o que tinha acabado de ser atendida. A dramaticidade daquela cena, as linhas diagonais que cruzavam a quadra, a composi\u00e7\u00e3o humana perfeita&#8230; tudo ali transbordava a mesm\u00edssima verdade e o sentimento cru do momento do clique. N\u00e3o era apenas editar; era reviver a catarse. Era sentir, na calada da noite, a alma de trinta pessoas explodindo de felicidade dentro do seu pr\u00f3prio peito.<br>\u2003\u2003Uma l\u00e1grima solit\u00e1ria de pura realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica escorreu por tr\u00e1s de seus \u00f3culos geom\u00e9tricos. Ela limpou o rosto rapidamente com o ombro, soltando um suspiro longo e tr\u00eamulo, sentindo uma paz indescrit\u00edvel tomar conta. O arquivo final estava exportado. Estava pronto.<br>\u2003\u2003%Amanda% recostou-se na cadeira, olhando para o monitor com um sorriso imenso e orgulhosamente exausto. Nayeon podia ter a lente mais cara do campus, mas %Amanda% sabia, olhando para aquela imagem finalizada na tela, que nenhuma tecnologia no mundo conseguiria replicar o que ela tinha capturado: a vida em seu estado mais puro e comovente. O trabalho estava feito, e ela tinha em m\u00e3os muito mais do que um projeto de faculdade. Ela tinha uma obra-prima.<br>\u2003\u2003Ela bocejou, sentindo o peso das \u00faltimas horas finalmente cobrar o pre\u00e7o nos seus ombros. Antes de desligar o computador e se arrastar para a cama, %Amanda% olhou para o celular na mesa. A tela bloqueada piscava com o papel de parede padr\u00e3o, mas ela lembrou na hora da mensagem que tinha recebido logo cedo. Eles tinham passado a v\u00e9spera inteira correndo atr\u00e1s do Bam pela sala s\u00f3 para calibrar os reflexos dela, e os meninos estavam genuinamente investidos naquele resultado.<br>\u2003\u2003Com os dedos meio lentos pelo sono, ela abriu o aplicativo de mensagens e digitou para o Jungkook:<\/p>\r\n<div style=\"width: 70%; margin: auto;\">\r\n<strong>%Amanda%:<\/strong> <em>JK, acabei de exportar a foto final. Voc\u00ea e o Jimin estavam certos sobre o treinamento din\u00e2mico na sala kkkkk. Funcionou perfeitamente! N\u00e3o consegui fotografar nenhuma enterrada de basquete, mas encontrei a minha pr\u00f3pria &#8220;Karasuno&#8221; em uma quadra de futsal feminino escondida no campus. A foto ficou linda, com o choro, os gritos e os sorrisos de todo mundo na arquibancada. Tem tanta alma ali que acho que o Hobi aprovaria o drama. Obrigada por me fazer acreditar nos meus reflexos logo cedo. Vou dormir agora porque estou um caco, mas amanh\u00e3 mando o arquivo para voc\u00eas verem! Boa noite pros tr\u00eas (e um petisco pro Bam) \ud83d\udc36\ud83d\udc9c.<\/em>\r\n<\/div>\r\n\u2003\u2003Ela bloqueou a tela, soltando um suspiro leve. Saber que tinha pessoas t\u00e3o incr\u00edveis torcendo por ela deixava qualquer cansa\u00e7o mais leve. %Amanda% finalmente apagou a lumin\u00e1ria, deitou-se na cama e, em poucos minutos, adormeceu profundamente, sem qualquer frio no est\u00f4mago \u2014 apenas com a certeza de que tinha dado o seu melhor.\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da autora: <\/strong>Ol\u00e1, gente!! O que acharam desse cap\u00edtulo, quis focar um pouco no amor da nossa protagonista pela fotografia e por animes hahaha Espero que gostem assim como eu amei escrever esse cap\u00edtulo. Deixem o coment\u00e1rio de voc\u00ea, que em breve teremos muito mais. Beijoos<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Clique. \u2003\u2003Nota da autora: Ol\u00e1, gente!! O que acharam desse cap\u00edtulo, quis focar um pouco no amor da nossa protagonista pela fotografia e por animes hahaha Espero que gostem assim como eu amei escrever esse cap\u00edtulo. 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