{"id":10692,"date":"2017-07-23T17:01:00","date_gmt":"2017-07-23T20:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-07-27T17:03:17","modified_gmt":"2026-07-27T20:03:17","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/apaixaoeumlugarondesoexisteopresente\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&emsp;&emsp;<span class=\"versalete\">Ele me olhava.<\/span><\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;Mesmo que minha covardia e timidez me impedissem de retribuir seu ato, eu conseguia sentir seus olhos sob meu corpo.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Ardendo em minha pele.<br \/>\n&emsp;&emsp;Queimando minhas bochechas.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;Um arrepio percorreu meu corpo. Puxei as mangas de meu casaco, tentando me esconder de seus olhos.<br \/>\n&emsp;&emsp;Uma v\u00e3 tentativa, por\u00e9m.<br \/>\n&emsp;&emsp;Roupas n\u00e3o faziam diferen\u00e7a. Diante de suas pupilas dilatadas, eu estava inteiramente nua. Mesmo que o pr\u00f3prio Cristo descesse dos c\u00e9us e virasse seu rosto, seus olhos sairiam de \u00f3rbita e viriam ao meu encontro, fitando-me de maneira atroz, admirando-me como uma obra de arte.<br \/>\n&emsp;&emsp;Como a pr\u00f3pria <em>V\u00eanus<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 %Lidia%?<br \/>\n&emsp;&emsp;Encontrei a express\u00e3o preocupada da professora de filosofia ao erguer meu rosto. Percebi, ent\u00e3o, que tremia. Culpei o frio daquele inverno que nevava como nunca, por\u00e9m, sabia que meu arrepio tr\u00eamulo n\u00e3o vinha do branco imaculado que varria o clima<br \/>\n&emsp;&emsp;Minha perdi\u00e7\u00e3o era aquele <em>maldito e ardente castanho.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 bem? \u2014 O tom da mulher era receoso. Coloquei uma mecha de cabelo em minha orelha e sacudi a cabe\u00e7a. N\u00e3o queria falar. N\u00e3o queria que a minha voz vacilante fosse a decis\u00e3o daquela batalha.<br \/>\n&emsp;&emsp;Travamos uma guerra fria h\u00e1 semanas.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>E ele estava ganhando.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Como eu ia dizendo, eu quero um relato em voz alta do que \u00e9 o amor para voc\u00eas \u2014 minhas m\u00e3os massageavam a minha nuca quando ouvia professora explicar com entusiasmo. \u2014  Eu vou pegar alguns livros na biblioteca para\u2026<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 <em>Professora.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;Respirei fundo ao ouvir sua voz ecoar pela sala. Seu timbre grave chegava com precis\u00e3o aos meus t\u00edmpanos, como se a palavra fosse dita unicamente para mim, como se n\u00e3o houvesse outro algu\u00e9m naquela sala de aula. E mesmo que n\u00e3o tivesse carinho em seus l\u00e1bios ao interromper a professora, um resqu\u00edcio de ternura tocou meus ouvidos.<br \/>\n&emsp;&emsp;Outro profundo suspirar saiu de meus l\u00e1bios.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Porque n\u00e3o formamos duplas?<br \/>\n&emsp;&emsp;Meus olhos saltaram subitamente e sem qualquer pensamento pr\u00e9vio ou vergonha, encarei-o pela primeira vez. Meu corpo, por\u00e9m, n\u00e3o possua mais o dom\u00ednio de seus olhos. Ele observava a professora com atrevimento.<br \/>\n&emsp;&emsp;Nenhuma outra resposta chegou aos meus ouvidos. Minha mente encontrou abrigo em uma confus\u00e3o que tomava conta de mim sempre que meus olhos colidiam com os deles. Aquela frase havia sido uma jogada, um ataque que daria in\u00edcio a nossa pr\u00f3xima batalha. Ele n\u00e3o se importava com duplas, e n\u00e3o teria qualquer dificuldade em falar sobre amor, paix\u00e3o ou desejo.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele s\u00f3 queria me ter sobre o seu olhar por mais alguns minutos, tendo certeza que o seu carneirinho n\u00e3o fugiria de suas garras.<br \/>\n&emsp;&emsp;Por segundos, o oxig\u00eanio pareceu rarefeito.<br \/>\n&emsp;&emsp;Os passos decididos evidenciaram seu plano.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Ele queria vir at\u00e9 mim.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele queria estar ao meu lado.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele me queria.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;O ar voltou aos meus pulm\u00f5es com um longo respirar. Arrumei meus \u00f3culos e virei-me, procurando qualquer pessoa que pudesse ser minha dupla e me livrar do seu intr\u00e9pido olhar.<br \/>\n&emsp;&emsp;Uma a\u00e7\u00e3o totalmente <em>in\u00fatil<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;Seus dedos seguraram meu pulso e meu rosto chocou-se com o dele. Minhas bochechas brilhavam em vermelho e meu corpo enrijeceu-se. A respira\u00e7\u00e3o faltou-me e meu cora\u00e7\u00e3o trope\u00e7ou em meu peito.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele sentou ao meu lado e eu n\u00e3o era mais dona de mim<br \/>\n&emsp;&emsp;Minha boca pertencia ao seu olhar.<br \/>\n&emsp;&emsp;Minhas bochechas pertenciam a minha vergonha.<br \/>\n&emsp;&emsp;Meus olhos pertenciam ao <em>seu corpo<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele percebeu meu nervosismo e a pausa involunt\u00e1ria em minha respira\u00e7\u00e3o e soltou um sorriso. Um sorriso de l\u00e1bios vermelhos e dentes perfeitamente alinhados, capaz de curar doen\u00e7as e acabar com guerras.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele estava me <em>torturando<\/em>, testando o meu limite.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>E eu estava prestes a ceder aos seus l\u00e1bios.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Posso fazer o trabalho contigo? \u2014 Perguntou, mesmo que eu n\u00e3o possu\u00edsse o direito de escolha. Levantei os \u00f3culos e suspirei, tentando por ordem a bagun\u00e7a em minha mente e cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Porque quer fazer o trabalho comigo? \u2014 Saltou de meus l\u00e1bios a primeira frase que meu c\u00e9rebro conseguiu formular. Aquela curiosidade me corro\u00eda. Todos os olhares, sussurros e encontros casualmente planejados naquela escola me despertaram aquela d\u00favida. Ele era o tipo de garoto que possuiria qualquer pessoa que quisesse com um estalar de dedos.<br \/>\n&emsp;&emsp;Por\u00e9m, ele havia me escolhido como seu <em>objeto de tortura<\/em>. Seus olhos me escolheram como V\u00eanus, sua pele arrepiada me escolheu, seus l\u00e1bios entreabertos e a respira\u00e7\u00e3o ruidosa formulada para que somente eu ouvisse haviam me escolhido.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Porque %Daniel% me queria?<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Porque voc\u00ea tem a melhor nota em filosofia \u2014 %Daniel% respondeu com a tranquilidade de uma crian\u00e7a. No entanto, sua voz havia afogado a minha mente, inundando cada beco, cada viela de meu c\u00e9rebro e atormentado cada \u00e1tomo e instante dos meus sonhos durante noites inteiras.<br \/>\n&emsp;&emsp;Eu havia estudado <em>cada passo e cada nota<\/em> de seu corpo.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>%Daniel% era o meu livro favorito.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 mentindo \u2014 cruzei os bra\u00e7os e suas \u00edris castanhas tomaram um ar de surpresa. Sua rea\u00e7\u00e3o era compreens\u00edvel. Meu ataque havia sido a defesa durante seus olhares e investidas. Atacar com atrevimento n\u00e3o era de meu feitio. Eu arrisquei meu jogo, joguei as pe\u00e7as na mesa, e tal atitude n\u00e3o havia sido despercebida pelo meu advers\u00e1rio.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Porque eu estou curioso \u2014 desviei meus olhos ao sentir que ele falava a pura verdade. Por\u00e9m, seus dedos longos e quentes como o sol que varre a neve de um inverno tenebroso tocaram meu queixo. Precisei abrir meus l\u00e1bios para respirar, antes que sufocasse com a sua proximidade. &#8211; Eu quero saber porque meu corpo exala adrenalina quando eu estou perto de voc\u00ea.<br \/>\n&emsp;&emsp;Engoli em seco, querendo fugir.<br \/>\n&emsp;&emsp;Por\u00e9m, voltar n\u00e3o era uma escolha.<br \/>\n&emsp;&emsp;Minha pr\u00f3xima jogada deveria ser precisa e <em>arrebatadora<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o \u00e9 adrenalina.<br \/>\n&emsp;&emsp;%Daniel% respirou fundo. Seus olhos brilharam e ele simplesmente esperou que eu conclu\u00edsse.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Voc\u00ea sabe que eu sinto o mesmo. E n\u00e3o acho que adrenalina seja o nome adequado.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 E qual seria o melhor termo?<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 <em>Fogo.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;Meu corpo tensionou-se por completo. Senti cada mil\u00edmetro de minha pele arder com aquela palavra.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 \u00c9 um inc\u00eandio, que queima seu sangue, ecoa em suas veias e toma o corpo inteiro em segundos, destruindo qualquer barreira de&#8230; \u2014 mordi os l\u00e1bios, tendo a consci\u00eancia que suas \u00edris me encaravam, me admiravam, me devoraram sem qualquer pudor. \u2014 <em>Sanidade<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 %Daniel% e %Lidia%?<br \/>\n&emsp;&emsp;A voz de Germana pareceu despertar-me. Despenquei do c\u00e9u em um \u00fanico segundo, sentindo meus ossos e membranas serem rompidos ao colidir com o ch\u00e3o, mas nenhuma dor fora pior do que ter o olhar de %Daniel% arrancado do meu de forma t\u00e3o brusca.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Quero que me ajudem na biblioteca. %Daniel% \u00e9 forte e %Lidia% sabe quais livros pegar \u2014 mesmo sem qualquer pedido de explica\u00e7\u00e3o, a professora detalhou sua escolha. Sem for\u00e7as para encarar o garoto a minha frente, levantei-me com o olhar baixo, deixando o burburinho daquela sala.<br \/>\n&emsp;&emsp;A cada passo, em dire\u00e7\u00e3o a biblioteca, meu corpo do\u00eda. Sentia como se eu houvesse sido atropelada por um carro desgovernado em alta velocidade.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>E eu havia.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;O desejo de %Daniel% <em>me atropelou<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;Quando me encontrei sozinha na biblioteca, um arrastado e pesado suspirar deixou minha garganta. Sentia minhas cordas vocais doerem, sufocadas por palavras n\u00e3o ditas e vontades n\u00e3o confessadas. Eu sempre mantive o controle. Sempre fui centrada, correta e exemplar.<br \/>\n&emsp;&emsp;Por\u00e9m, o controle n\u00e3o era mais uma de minhas qualidades desde que os olhos de %Daniel% haviam me encontrado. Transferido de um outro col\u00e9gio, ele chegou conquistando cora\u00e7\u00f5es e olhares indiscretos das garotas de minha classe. %Daniel% n\u00e3o era apenas bonito, ele era sedutor. Eram os seus olhos que conquistavam, suas \u00edris faiscantes e intensas, seu olhar faminto.<br \/>\n&emsp;&emsp;Aquele olhar era a minha <em>desgra\u00e7a<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Precisa voltar para sala \u2014 sua voz me atingiu de surpresa. N\u00e3o ousei me virar. Com as m\u00e3os na prateleira, ouvi o barulho da chave e seus passos no ch\u00e3o de madeira. Continuei lendo os t\u00edtulos nas lombadas dos livros, tentando me agarrar a qualquer coisa que roubasse minha aten\u00e7\u00e3o de seu corpo e me impedisse de fazer aquilo pelo qual meu cora\u00e7\u00e3o suplicava.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Toca-lo foi como perceber que eu tudo que eu mais queria estava na minha frente \u2014 fechei meus olhos ao ouvir minha boca soltar a primeira coisa da qual me lembrei. A m\u00fasica me ajuda a recuperar a calma, e ali, <em>completamente sozinha e trancada<\/em> em uma sala com %Daniel%, minha ansiedade parecia me <em>sufocar<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Tentar esquece-la foi como se eu estivesse completamente sozinho.<br \/>\n&emsp;&emsp;Um t\u00edpico cheiro forte de madeira invadiu minha mente. Abri meus olhos e tive a ligeira sensa\u00e7\u00e3o de que desmaiaria se minhas costas n\u00e3o estivessem encurraladas por uma parede.<br \/>\n&emsp;&emsp;Um passo a frente e o peito de %Daniel% tocou-me. A <em>excita\u00e7\u00e3o<\/em> preencheu meu corpo e eu j\u00e1 n\u00e3o conseguia manter meus l\u00e1bios fechados. Sua m\u00e3o tocou minha bochecha, tirando outra mecha de cabelo. Sem qualquer pudor ou vergonha, levei meus dedos aos seus l\u00e1bios, os quais eu tanto <em>admirava<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;Sua outra m\u00e3o tocou minha cintura e eu fechei meus olhos. Como se quisesse fundir nossos corpos em um, %Daniel% se aproximou mais alguns cent\u00edmetros. O suficiente para que meu cora\u00e7\u00e3o esquecesse como palpitar.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Mas am\u00e1-lo\u2026<br \/>\n&emsp;&emsp;As palavras fugiram de minha l\u00edngua quando %Daniel% tirou meus \u00f3culos, despindo-me de qualquer armadura, deixando-me vulner\u00e1vel aos seus olhos. Eu me senti nua quando seus olhos encontraram os meus. N\u00e3o havia mais dor. Meu corpo relaxou-se, mesmo que encurralado. Minha m\u00e3o desceu, dedilhando seu peito. Meus l\u00e1bios estavam a mil\u00edmetros de tocar os seus.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Am\u00e1-lo foi vermelho\u2026<br \/>\n&emsp;&emsp;Eu n\u00e3o possu\u00eda mais <em>d\u00favidas<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Vermelho como o fogo que queima o sangue\u2026<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Meu corpo pertencia aos seus bra\u00e7os.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;\u2014 Que quebra as barreiras da sanidade.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>E ele me beijou.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;Sem covardia, vergonha ou pudor, <em>ele me beijou.<\/em><br \/>\n&emsp;&emsp;Sem resqu\u00edcios de sanidade, e com olhos famintos, inundados pelo desejo, <em>ele me beijou<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;O fogo <em>ardeu<\/em> em minhas veias, me <em>queimando<\/em> de paix\u00e3o.<br \/>\n&emsp;&emsp;Eu me entreguei \u00e0 minha <em>perdi\u00e7\u00e3o<\/em>, ao meu <em>del\u00edrio<\/em>.<br \/>\n&emsp;&emsp;Claro como a \u00e1gua, o sentimento que corro\u00eda minha mente teve um nome.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Amor<\/em>.<\/p>\n<h2><center>FIM<\/center><\/h2>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;Ele me olhava. &emsp;&emsp;Mesmo que minha covardia e timidez me impedissem de retribuir seu ato, eu conseguia sentir seus olhos sob meu corpo. &emsp;&emsp;Ardendo em minha pele. &emsp;&emsp;Queimando minhas bochechas. &emsp;&emsp;Um arrepio percorreu meu corpo. 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