{"id":10678,"date":"2016-12-20T14:44:00","date_gmt":"2016-12-20T17:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-07-27T14:45:35","modified_gmt":"2026-07-27T17:45:35","slug":"capitulo-unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/aultimacartadeamor\/capitulo-unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00danico"},"content":{"rendered":"\n<p>&emsp;&emsp;<span class=\"versalete\">Eu podia ver as<\/span> l\u00e1grimas incessantes que ca\u00edam dos olhos dos ali presentes, deixando um rastro molhado por seus respectivos rostos, manchando maquiagens bem elaboras para cobrir as olheiras e criando caminhos de \u00e1gua pelos outros mais limpos.<br \/>\n&emsp;&emsp;Pastor John estava a frente de toda aquela cerim\u00f4nia, segurando uma b\u00edblia aberta em algum livro, pronto para ler mais um cap\u00edtulo repleto de vers\u00edculos que n\u00e3o me fariam ter f\u00e9 naquele exato momento, afinal estava abalada para ter um pensamento mais racional ou para crer que um milagre poderia acontecer. As palavras de conforto n\u00e3o mudaria o que tinha visto naquela manh\u00e3.<br \/>\n&emsp;&emsp;- A morte realmente nos surpreende. Nos pega despercebidos. &#8211; John come\u00e7ou a falar com calma e uma paci\u00eancia excepcional. Minha aten\u00e7\u00e3o permaneceu no caix\u00e3o fechado a minha frente, sem piscar enquanto me lembrava de alguns momentos ao lado de %Charlie%. &#8211; A morte n\u00e3o costuma agendar a sua chegada. Quando ela vem. N\u00e3o pede licen\u00e7a. E, nem espera se despedir dos entes queridos. &#8211; Continuou ele, deixando a b\u00edblia fechada e rente ao corpo. &#8211; N\u00e3o espera ter que enviar e-mail para algu\u00e9m, nem mesmo telefonar para algu\u00e9m e dizer \u201cadeus\u201d. Ela chega. Sem explica\u00e7\u00e3o. &#8211; Aquilo era uma verdade. Uma das poucas verdades que a humanidade sabia e preferia ignorar para n\u00e3o sofrer com antecipa\u00e7\u00e3o a morte de algu\u00e9m. &#8211; Uma hora voc\u00ea est\u00e1 com a pessoa, brincando, conversando e segundos, minutos ou horas depois voc\u00ea est\u00e1 se lamentando em cima do caix\u00e3o. Flores, algod\u00f5es dentro do nariz e o corpo pressionado em um peda\u00e7o de madeira, pra meses depois aquilo tudo virar p\u00f3. Apenas p\u00f3 enterrado no p\u00f3. &#8211; Ent\u00e3o, ele finalmente conseguiu atrair minha aten\u00e7\u00e3o e qual foi minha surpresa ao ver que ele me olhava? A mensagem era pra mim? S\u00e9rio? &#8211; Engra\u00e7ado\u2026 Algumas pessoas nunca v\u00e3o deixar de fazer falta. Os anos passam, voc\u00ea nem sente mais como no come\u00e7o, mas de alguma forma a falta daquela pessoa nunca passa. E seria uma pena se passasse, n\u00e3o restariam lembran\u00e7as, nem risos e nem choros. &#8211; Disse ele antes de soltar um suspiro pesado, repeti seu gesto. &#8211; Lembre-se das pessoas queridas. Talvez, amanh\u00e3. N\u00e3o. Nunca mais haver\u00e1 oportunidade de faz\u00ea-lo. Talvez, parta voc\u00ea. Talvez, eu. Ou, talvez, quem devesse ser lembrado. &#8211; Apenas pude desviar o olhar, mantendo-me firme e longe das lembran\u00e7as. &#8211; Um dia voc\u00ea est\u00e1 chorando por uma pessoa que, talvez, nem sabe teu nome inteiro, e no outro a vida lhe apresenta um real motivo para chorar. Uma pessoa para realmente sentir falta. Uma pessoa que realmente se importou, que chorou e se doou. &#8211; Continuou. &#8211; Uma pessoa, mesmo distante consegue te fazer sorrir. Uma pessoa que nem a morte \u00e9 capaz de separar. \u00c9 t\u00e3o clich\u00ea, mas \u00e9 assim: ela sempre fica no seu cora\u00e7\u00e3o; e depois ela vira aquela estrela que mais brilha no c\u00e9u. \u00c9\u2026 como disse, a morte nos surpreende. Mas eu sei, Deus tem um plano pra tudo e n\u00e3o existe morte para aqueles que est\u00e3o no Senhor, s\u00f3 um longo sono\u2026 Ent\u00e3o, bons sonhos %Charlie%! &#8211; Finalizou ele, abrindo a b\u00edblia e lendo uma das passagens, logo orando e ent\u00e3o dando o espa\u00e7o para que a m\u00e3e jogasse a primeira flor quando o caix\u00e3o baixasse.<br \/>\n&emsp;&emsp;Tudo parecia estar em c\u00e2mera lenta. Minhas mem\u00f3rias estavam em conflito com a realidade. As lembran\u00e7as come\u00e7avam a me deixar desnorteada e o tempo parecia prosseguir lentamente.<br \/>\n&emsp;&emsp;- Descanse em paz, %Charlie%. &#8211; Disse o Pastor John por fim, finalizando aquela cerim\u00f4nia f\u00fanebre.<br \/>\n&emsp;&emsp;E, ent\u00e3o, o tempo parou. Vi com lentid\u00e3o quando o caix\u00e3o foi erguido e encaminhado para o buraco profundo na terra, e aquele foi meu estopim.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Ele<\/em> n\u00e3o voltaria, nunca mais.<br \/>\n&emsp;&emsp;As l\u00e1grimas que tanto segurei, escaparam por meus olhos e deslizaram por meu rosto, criando uma trilha lenta e fina de \u00e1gua salgada que come\u00e7ara lenta e ganhara velocidade assim que passava pelas ma\u00e7\u00e3s de meu rosto, terminando em meu queixo antes de se desprender e ir ao ch\u00e3o. Outras l\u00e1grimas repetiram o gesto e o autocontrole se foi.<br \/>\n&emsp;&emsp;O desespero apossou-se de mim. A sensa\u00e7\u00e3o de estar s\u00f3 e vazia alcan\u00e7aram-me com viol\u00eancia.<br \/>\n&emsp;&emsp;<em>Ele<\/em> havia quebrado sua promessa. <em>Ele<\/em> me deixou, sozinha.<br \/>\n&emsp;&emsp;As l\u00e1grimas deslizavam descontroladamente por meu rosto, n\u00e3o existia mais nada pelo qual valia lutar, n\u00e3o mais.<br \/>\n&emsp;&emsp;O mundo parecia ter perdido a cor. O ch\u00e3o sob meus p\u00e9s desapareceram quando o caix\u00e3o com o corpo <em>dele<\/em> come\u00e7ou a baixar-se. Meu cora\u00e7\u00e3o tinha encolheu-se e partiu-se em mil peda\u00e7os gelados.<br \/>\n&emsp;&emsp;O tempo foi passando lentamente e em meio \u00e0s l\u00e1grimas pude ver quando os funcion\u00e1rios iniciaram o trabalho de tapar a cova aberta, tornando toda aquela despedida for\u00e7ada em algo muito mais do que dolorosa. Aquilo era tortura.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ouvi um \u00faltimo &#8220;sinto muito&#8221; e desesperei-me quando fiquei sozinha pela primeira vez desde que havia recebido a noticia de que o tinha perdido. Eu estava em peda\u00e7os e n\u00e3o existia ningu\u00e9m que pudesse me ajudar a juntar os cacos restantes.<\/p>\n<p><center>{&#8230;}<\/center><\/p>\n<p>&emsp;&emsp;Pastor John havia me dito que doeria, mas que o tempo faria quest\u00e3o de amenizar a situa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o era o que estava acontecendo.<br \/>\n&emsp;&emsp;A dor continuava ali, intensa e lasciva, dolorosa e agonizante, torturando-me com afinco e prazer. Uma tortura longa e dolorosa com dura\u00e7\u00e3o de vinte e quatro horas, sem interrup\u00e7\u00e3o. Do\u00eda, feria, sangrava. Cada vez mais.<br \/>\n&emsp;&emsp;Se a situa\u00e7\u00e3o fosse vista pelo lado de fora, pela vis\u00e3o de terceiros, parecia que sou masoquista e que gosto da sensa\u00e7\u00e3o\u2026 A verdade \u00e9 que estou acostumando-me com a dor, deixando-a fazer parte de quem sou, do modo como vivo, de como penso.<br \/>\n&emsp;&emsp;H\u00e1 alguns dias comecei a frequentar um psic\u00f3logo, Owen. Um sujeito muito paciente com uma barba loura hipnotizante e olhos azuis penetrantes que tentava a todo custo fazer-me falar o que sentia, pensava e queria, mas se demorou quase dois anos para que %Charlie% conseguisse me ter por inteiro, por que com ele seria diferente?<br \/>\n&emsp;&emsp;Ah, %Charlie%\u2026 Owen queria saber sobre toda a minha raiva, f\u00faria e \u00f3dio. Sobre minha solid\u00e3o, dor e depress\u00e3o. Sobre o al\u00e9m do fundo do po\u00e7o a qual encontrava-me ap\u00f3s aquele dia fat\u00eddico.<br \/>\n&emsp;&emsp;Tudo indicava que a situa\u00e7\u00e3o iria piorar e a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia apenas crescia e me esmagava, afundando-me gradativamente.<br \/>\n&emsp;&emsp;Suspirei pesadamente na frente de Owen e ele notou o qu\u00e3o entediada estava, fiz quest\u00e3o de deixar aquele sentimento n\u00edtido e n\u00e3o passasse despercebido, lembrar-me <em>dele<\/em> era reconfortante nos primeiros minutos e trai\u00e7oeiro nos seguintes.<br \/>\n&emsp;&emsp;- Escreva. &#8211; Disse o m\u00e9dico, conseguindo trazer minha mente de volta a realidade. O olhei confusa e esperei que ele explicasse novamente do que diabos estava falando, como sempre acontecia. Era um vicio a qual n\u00e3o estava disposta a mudar agora. &#8211; Escrever ajuda. &#8211; Come\u00e7ou ele, soltando um suspiro cansado. Ele achava que estava cansado? Eu estava pronta para desistir de tudo, de lutar, de viver. &#8211; Se voc\u00ea n\u00e3o confia em ningu\u00e9m para contar seus segredos mais sombrios ou sobre como se sente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte de %Charlie%, ent\u00e3o escreva sobre essas coisas. &#8211; Continuou sua linha de racioc\u00ednio, tendo toda minha aten\u00e7\u00e3o voltada para si. O primeiro avan\u00e7o depois de tantas sess\u00f5es fracassadas. &#8211; Escrever ajuda a desabafar, acredite. &#8211; Garantiu.<br \/>\n&emsp;&emsp;- Se eu escrever&#8230; &#8211; Comecei a falar e o vi se surpreender com meu recente interesse em uma das suas ideias. &#8211; A dor ir\u00e1 desaparecer at\u00e9 sumir por completo? &#8211; Terminei minha pergunta, olhando no fundo de seus olhos e vendo a resposta ali, mas n\u00e3o quis aceitar o que vi.<br \/>\n&emsp;&emsp;- Sim, ela ir\u00e1 sumir. &#8211; Respondeu ele. E eu acreditei nele. Precisei acreditar.<br \/>\n<p><center>{&#8230;}<\/center><\/p>\n<p>&emsp;&emsp;Olhei o papel a minha frente antes de desviar minha aten\u00e7\u00e3o para a paisagem do outro lado da janela e ver algumas crian\u00e7as brincando de pega-pega na rua. O c\u00e9u estava nublado e parecia que choveria a qualquer instante, mas aquilo n\u00e3o as impedia de viver. Se eu tivesse o mesmo entusiasmo que elas&#8230; Talvez houvesse uma chance, mesmo que m\u00ednima.<br \/>\n&emsp;&emsp;Peguei a caneta e respirei fundo, pensando em como deveria come\u00e7ar e o que poderia escrever.<\/p>\n<p>&emsp;&emsp;<em>&#8220;Querido %Charlie%,<br \/>\n&emsp;&emsp;Voc\u00ea se foi h\u00e1 pouco mais de duzentos e oitenta e cinco dias e sabe&#8230; Ainda n\u00e3o consegui superar sua perda. O mundo parece mais triste, mais cinza, sem vida.<br \/>\n&emsp;&emsp;Longos dias.<br \/>\n&emsp;&emsp;Todo esse tempo e eu ainda n\u00e3o lidei muito bem com sua aus\u00eancia. Nossos amigos levaram-me a um terapeuta, Owen. Voc\u00ea teria gostado dele ap\u00f3s ter tido uma crise de ci\u00fames, claro.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ele tenta toda sess\u00e3o aproximar-se de mim. Ele tenta descobrir como estou, mas voc\u00ea sabe como sou. Ele ir\u00e1 fracassar todas as vezes e desistir\u00e1 em algum momento, pois \u00e9 nisso que sou boa. Sou boa em fazer as pessoas desistirem, sempre foi assim e ainda n\u00e3o mudou.<br \/>\n&emsp;&emsp;Nossos amigos querem que eu te esque\u00e7a, por\u00e9m n\u00e3o posso te esquecer. Voc\u00ea \u00e9 tudo em que penso. Seu rosto, seu cabelo e os fios rebeldes que voc\u00ea tanto odeia, seus olhos repletos de bondade, seu jeito, seu sorriso&#8230; Amo tanto o seu sorriso e \u00e9 por isso que \u00e9 imposs\u00edvel te esquecer.<br \/>\n&emsp;&emsp;Eu n\u00e3o quero esquecer.<br \/>\n&emsp;&emsp;Owen me entregou esse caderno j\u00e1 faz um tempo e s\u00f3 tive coragem de escrever algo hoje&#8230; Sei que estou sendo covarde, mas n\u00e3o tenho outra op\u00e7\u00e3o no momento sem ser recuar. Tenho medo para lutar.<br \/>\n&emsp;&emsp;Todos est\u00e3o preocupados comigo, at\u00e9 Owen. Deveria entregar este caderno com algo escrito para Owen toda semana, contudo ele v\u00ea apenas o vazio.<br \/>\n&emsp;&emsp;\u00c9 como me sinto agora, vazia.<br \/>\n&emsp;&emsp;Nossos amigos e meu terapeuta querem ter certeza de que estou lidando bem com sua perda. Sendo sincera, n\u00e3o estou lidando bem com isso e estou bastante consciente de que ele ir\u00e1 ler isso. A verdade precisar vir mais cedo ou mais tarde, certo?<br \/>\n&emsp;&emsp;Quando ele me sugeriu que escrevesse o que estou sentindo, n\u00e3o houve especifica\u00e7\u00f5es sobre o que escrever ou para quem escrever, ent\u00e3o te escolhi para ser meu correspondente mesmo que isso fosse imposs\u00edvel e irracional.<br \/>\n&emsp;&emsp;%Charlie%&#8230; Preciso te dizer como est\u00e1 sendo desde que estou sem voc\u00ea, como me sinto todos os dias, partindo do principio. O dia em que voc\u00ea deixou este mundo.<\/p>\n<p>&emsp;&emsp;<strong>Primeiro dia:<\/strong> <br \/>\n&emsp;&emsp;Acordei animada naquela sexta-feira com a expectativa de encontr\u00e1-lo enrolado nos cobertores ao meu lado. Contudo, quando virei-me, a cama estava vazia e voc\u00ea longe de ser visto.<br \/>\n&emsp;&emsp;No come\u00e7o, pensei que estivesse cozinhando algo para n\u00f3s ou tomando um banho, mas a falta de barulho pelos c\u00f4modos daquele apartamento, deixou-me desconfiada. Eu deveria ter percebido que havia algo de errado, deveria ter percebido a tempo e parado voc\u00ea&#8230;<br \/>\n&emsp;&emsp;Assim que sa\u00ed da cama, o sil\u00eancio rodeou-me e vi que tinha algo de errado. Ent\u00e3o, fui em busca de sua presen\u00e7a pelo apartamento. Meus joelhos enfraqueciam-se a cada passo que dava.<br \/>\n&emsp;&emsp;Lembro-me de ter ca\u00eddo de joelhos no momento em que encontrei voc\u00ea. Eu chorei. <br \/>\n&emsp;&emsp;Meus olhos ardiam quando as l\u00e1grimas, dolorosas e incr\u00e9dulas, ca\u00edam. Nunca serei capaz de apagar aquela imagem. A imagem de seu corpo, frio e im\u00f3vel, deitado no ch\u00e3o da cozinha com um vidro de antidepressivos ao seu lado. Isso me assombra, todos os dias e noites.<br \/>\n&emsp;&emsp;Fiz a \u00fanica coisa que deveria fazer, chamei a ambul\u00e2ncia.<br \/>\n&emsp;&emsp;Eles entraram no apartamento rapidamente e, em poucos minutos, o levaram para longe de mim. Foi Noah quem, praticamente, colocou-me dentro da ambul\u00e2ncia enquanto chorava silenciosamente ao lado de seu corpo g\u00e9lido.<br \/>\n&emsp;&emsp;N\u00e3o queria acreditar.<br \/>\n&emsp;&emsp;N\u00e3o podia ser real.<\/p>\n<p>&emsp;&emsp;<strong>Segundo dia:<\/strong> <br \/>\n&emsp;&emsp;Toda a sua fam\u00edlia estava l\u00e1. Todos estavam.<br \/>\n&emsp;&emsp;Abracei sua m\u00e3e em uma tentativa de conforto quando eu mesma n\u00e3o tinha em meio a suas l\u00e1grimas salgadas. Precisei conter minhas l\u00e1grimas durante todo o tempo.<br \/>\n&emsp;&emsp;Nossos amigos cuidaram das suas duas irm\u00e3s mais novas, Jessie e Gaylle, que gritavam e debatiam-se, recusando-se a acreditar que seu irm\u00e3o protetor e babaca tinha partido. L\u00e1grimas ca\u00edam por todos os rostos.<br \/>\n&emsp;&emsp;Cada um ali viu do lado de fora como voc\u00ea foi removido do seu leito e levado em uma maca com um fino len\u00e7ol branco cobrindo-o. N\u00e3o consegui ver seu rosto pela \u00faltima vez e, naquele momento, recusei-me a acreditar que voc\u00ea se foi.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ainda me recuso.<\/p>\n<p>&emsp;&emsp;<strong>Terceiro dia:<\/strong> <br \/>\n&emsp;&emsp;Silencioso.<br \/>\n&emsp;&emsp;Essa \u00e9 a \u00fanica palavra que posso usar para descrever aquele dia. N\u00e3o houve palavras para falar. S\u00f3 existia l\u00e1grima atr\u00e1s de l\u00e1grima.<br \/>\n&emsp;&emsp;O dia foi desperdi\u00e7ado com os respectivos pensamentos deplor\u00e1veis de cada um.<br \/>\n<p>&emsp;&emsp;<strong>Quarto dia:<\/strong> <br \/>\n&emsp;&emsp;Acabei achando uma carta sua nesse dia e a vis\u00e3o familiar de sua letra, fez-me chorar e tomar uma atitude ego\u00edsta. N\u00e3o podia compartilha-la com ningu\u00e9m.<br \/>\n&emsp;&emsp;Sua m\u00e3e visitou-me naquele dia. Era uma Ter\u00e7a-feira\u2026 <br \/>\n&emsp;&emsp;Assim que vi seu rosto, mostrei-lhe a carta e ela chorou, %Char%&#8230; Ela chorou muito. Senti-me culpado por tudo isso e o peso dos meus ombros continua crescendo.<\/p>\n<p>&emsp;&emsp;<strong>Quinto e Sexto dia:<\/strong> <br \/>\n&emsp;&emsp;Come\u00e7amos a organizar seu funeral naquele dia&#8230; N\u00e3o sei se era cedo ou tarde demais, mas ningu\u00e9m queria o fazer, ningu\u00e9m queria aceitar o fato de que voc\u00ea realmente havia ido, de que tinha desistido.<br \/>\n&emsp;&emsp;No sexto dia, mostrei sua carta aos nossos amigos. Bom&#8230; N\u00e3o mostrei exatamente. Foi Karol quem encontrou a carta em cima do balc\u00e3o depois de um descuido de minha parte.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ela entrou na sala com l\u00e1grimas escorrendo pelo rosto e ent\u00e3o ela gritou comigo. Ela gritou comigo por n\u00e3o ter contato a eles. Ela gritou comigo por ser ego\u00edsta. Ela me culpou sobre tudo\u2026 E talvez estivesse certa.<br \/>\n&emsp;&emsp;Louis e Annie tentaram acalm\u00e1-la, mas n\u00e3o a culpo por estar com raiva. Tamb\u00e9m estava com raiva de mim.<\/p>\n<p>&emsp;&emsp;<strong>S\u00e9timo dia:<\/strong><br \/>\n&emsp;&emsp;Uma semana sem voc\u00ea em minha vida e parece uma eternidade. Sete longos dias em que tudo mudou drasticamente para pior.<br \/>\n&emsp;&emsp;Passei o dia inteiro assistindo os nossos v\u00eddeos antigos, fingindo que voc\u00ea estava ali comigo, rindo junto. Eu sei&#8230; Parece loucura. Era o \u00fanico jeito de ter voc\u00ea de volta, mesmo que por algumas horas.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&emsp;&emsp;Sequei as l\u00e1grimas que ca\u00edam teimosamente e pingavam diretamente na folha que usava para escrever. N\u00e3o deveria ter te culpado por ter esquecido um jantar bobo de comemora\u00e7\u00e3o de mais um ano de amizade e de namoro.<br \/>\n&emsp;&emsp;Ah, %Charlie%&#8230; Por que voc\u00ea havia desistido? Por que n\u00e3o me deu a chance de tentar te salvar? Eu poderia ter tentado e talvez voc\u00ea estivesse aqui.<br \/>\n&emsp;&emsp;Poder\u00edamos ter o mundo, mas n\u00e3o\u2026 Voc\u00ea me deixou.<\/p>\n\n<h2>FIM<\/h2>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;Eu podia ver as l\u00e1grimas incessantes que ca\u00edam dos olhos dos ali presentes, deixando um rastro molhado por seus respectivos rostos, manchando maquiagens bem elaboras para cobrir as olheiras e criando caminhos de \u00e1gua pelos outros mais limpos. &emsp;&emsp;Pastor John estava a frente de toda aquela cerim\u00f4nia, segurando uma b\u00edblia aberta em algum livro, pronto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":62,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2766],"class_list":["post-10678","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-aultimacartadeamor"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/62"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}