{"id":10624,"date":"2026-07-23T18:45:14","date_gmt":"2026-07-23T21:45:14","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-07-23T18:48:38","modified_gmt":"2026-07-23T21:48:38","slug":"capitulo-9","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-9\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 9"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003<strong>%Ananya%<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003J\u00e1 era madrugada, mas ningu\u00e9m ali parecia muito preocupado com isso. Eu, por outro lado, entrei em estado de alerta assim que percebi que o Montrachet do Ravi j\u00e1 n\u00e3o estava surtindo o mesmo efeito de antes. Na verdade, n\u00e3o estava surtindo efeito nenhum. O vinho tinha cumprido sua miss\u00e3o algumas horas atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Avisei a %Anthony% que eu estava cansada e a tr\u00eas piscadas de desmaiar na mesa, mas ele recusou a ideia de me deixar ir sozinha como se fosse uma ofensa \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o oficial de me acompanhar por a\u00ed. A tal \u201ccaminhada at\u00e9 a recep\u00e7\u00e3o\u201d acabou se transformando na nossa quinta volta completa pela orla. E, pelo visto, ainda sem qualquer previs\u00e3o de chegada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea pode me explicar novamente o quanto isso vai ser relevante na sua vida? Saber quantas mulheres eu j\u00e1 namorei? \u2013 Perguntou, rindo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony% %Campelli%&#8230; \u00e9 a primeira vez que te vejo solteiro em anos. \u00c9 natural que eu esteja curiosa. \u2013 Dei de ombros. \u2013 Ent\u00e3o? Voc\u00ea tem um n\u00famero? Ou j\u00e1 se perdeu no caminho?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00e9rio mesmo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pesquisa informal. Prometo n\u00e3o usar contra voc\u00ea&#8230; ainda. Foram quantas mais ou menos? \u2013 Pulei em sua frente, come\u00e7ando a caminhar de costas na areia \u00famida, meus olhos fixos nos dele, desafiadores.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%. \u2013 Repeti, imitando seu tom grave. \u2013 Duas?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sete? \u2013 Sugeri, estreitando os olhos, tentando ler alguma pista em seu rosto fechado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Cinco. \u2013 Afirmei, a voz triunfante. \u2013 \u00c9 cinco, n\u00e3o \u00e9? Voc\u00ea ficou em sil\u00eancio! \u2013 Apertei os olhos e apontei um dedo acusador para seu peito, como uma detetive amadora que acabara de desvendar o crime perfeito. \u2013 Voc\u00ea namorou com <em>cinco <\/em>mulheres!<br \/>\n\u2003\u2003 Ele soltou uma risada baixa, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a como se eu fosse previs\u00edvel demais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tenta de novo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tr\u00eas.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio se instalou, mas, dessa vez, n\u00e3o havia fuga no olhar dele. Ele soltou um suspiro leve, quase um riso, passando a m\u00e3o pela nuca.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tr\u00eas. \u2013 Confirmou, por fim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ha! Eu sabia! \u2013 Dei um pequeno pulo, como se tivesse acabado de marcar um ponto num jogo invis\u00edvel. \u2013 Ent\u00e3o, tr\u00eas mulheres marcaram passagem pela sua vida amorosa. Isso \u00e9&#8230; surpreendentemente normal para um %Anthony% %Campelli%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Normal? E o que voc\u00ea esperava? Um har\u00e9m? Uma lista intermin\u00e1vel com nomes e datas?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sei l\u00e1. \u2013 Dei de ombros, caminhando em volta dele, avaliando como se fosse um caso em aberto. \u2013 Um hist\u00f3rico ca\u00f3tico\u2026 Considerando que voc\u00ea namorou minha prima querida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00d3! \u2013 Ele apontou o dedo na minha dire\u00e7\u00e3o, rindo. \u2013 N\u00e3o come\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o come\u00e7a o qu\u00ea? \u00c9 um fato. Voc\u00ea namorou a Kiara. E, at\u00e9 hoje, eu n\u00e3o sei se aquilo foi exatamente um conto de fadas.<br \/>\n\u2003\u2003O riso dele diminuiu, virando outra coisa. Ele passou a m\u00e3o pelo rosto, como se j\u00e1 esperasse por aquilo\u2026 como se soubesse que, em algum momento, a conversa ia chegar ali.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A Kiara e eu\u2026 \u2013 Come\u00e7ou, mas a pausa veio antes do resto. \u2013 Foram circunst\u00e2ncias. N\u00e3o era para ser.<br \/>\n\u2003\u2003Inclinei levemente a cabe\u00e7a, analisando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Circunst\u00e2ncias? Essa \u00e9 uma forma bem elegante de descrever um relacionamento.<br \/>\n\u2003\u2003Ele soltou um suspiro curto pelo nariz, quase um riso sem humor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nem todo mundo entra na sua vida porque tem que ficar. \u2013 Os olhos dele vacilaram por um segundo \u2013 r\u00e1pido, quase impercept\u00edvel \u2013 antes de voltarem pros meus. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 terr\u00edvel, sabia? Me fazer relembrar um passado que eu j\u00e1 enterrei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tr\u00eas. \u2013 Repeti e sorri de lado, devagar, ajeitando o cabelo que o vento bagun\u00e7ara. \u2013 Ou voc\u00ea escolhe muito bem\u2026 ou se envolve muito mais do que deixa transparecer.<br \/>\n\u2003\u2003Ele ficou em sil\u00eancio por um instante, os olhos fixos em mim, como se estivesse lendo nas entrelinhas de cada palavra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea? \u2013 Perguntou, a voz mais baixa agora. \u2013 Quantos marcaram passagem pela sua vida?<br \/>\n\u2003\u2003O sorriso congelou no meu rosto por um segundo. Eu n\u00e3o esperava que ele devolvesse a pergunta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Essa \u00e9 uma pesquisa informal ou uma investiga\u00e7\u00e3o aprofundada? \u2013 Desviei o olhar, pisando na areia com mais for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Troca de informa\u00e7\u00f5es. \u2013 Ele inclinou a cabe\u00e7a, um sorriso ladino se formando nos l\u00e1bios, recuperando o tom provocador que tanto conhecia. \u2013 Voc\u00ea come\u00e7ou. Agora termine.<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo, considerei desviar de novo. Fazer uma piada. Mudar de assunto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E se eu disser que o meu n\u00famero n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o\u2026 organizado quanto o seu?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que diabos isso significa, %Ananya%?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Significa que eu sou uma menina, %Anthony%. \u2013 Soltei um riso baixo, sem gra\u00e7a, passando a m\u00e3o pelos cabelos. \u2013 A gente nunca sabe exatamente qual \u00e9 o nosso status de relacionamento. Uma vez passei duas semanas em Los Angeles com um cara. S\u00f3 duas semanas. Depois ele foi embora para outra cidade. Mas eu o amei mais do que amei o Luca, meu segundo namorado, com quem passei apenas seis meses, mas foi t\u00e3o ruim que me traumatizou o suficiente para aceitar o Andreas como namorado. E teve o Benny, que passei sete meses, mas eu n\u00e3o acho que conta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como assim n\u00e3o conta?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Porque a gente n\u00e3o se via. Ele morava em Bangladesh, conheci numa viagem. A gente trocava mensagem, liga\u00e7\u00e3o, v\u00eddeo chamada. Mas nunca foi real, sabe?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Aconteceu comigo uma vez. Ela era espanhola, n\u00e3o falava uma palavra de ingl\u00eas e eu n\u00e3o falava uma palavra de espanhol.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E como voc\u00eas se comunicavam?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Com os olhos. \u2013 Ele respondeu, inclinando o rosto com um ar teatral que me fez revirar os olhos na mesma hora. \u2013 E com as m\u00e3os. \u2013 Completou, rindo, enquanto fazia um gesto sugestivo e descaradamente obsceno.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ai, que nojo! \u2013 Soltei, entre risos, dando tapas na m\u00e3o dele como se estivesse espantando um inseto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O qu\u00ea? Estou sendo honesto. Comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal \u00e9 uma forma de arte. Foram sete dias de intensa&#8230; troca cultural.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Acabei de lembrar que voc\u00ea \u00e9 um homem hetero. \u2013 Fiz careta, fazendo-o rir, deliciosamente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o deixa eu ver se entendi\u2026 \u2013 Come\u00e7ou devagar, como se estivesse organizando pe\u00e7as demais de um quebra-cabe\u00e7a. \u2013 Teve o cara de Los Angeles, duas semanas e aparentemente o amor da sua vida. O Luca, meses suficientes para te traumatizar. O Andreas, claramente um erro estrat\u00e9gico p\u00f3s-caos\u2026 \u2013 Fez uma pausa breve, contando nos dedos \u2013 e o de Bangladesh, que a gente finge que n\u00e3o conta porque era virtual.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso. \u2013 Confirmei, simples, como se n\u00e3o fosse nada demais. \u2013 Fora os casos de uma noite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como voc\u00ea conseguiu enfiar tanta hist\u00f3ria em t\u00e3o pouco tempo? \u2013 Perguntou, olhando para mim de novo, meio impressionado, meio divertido. \u2013 \u00c9\u2026 honestamente, impressionante.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uma garota como eu n\u00e3o fica solteira por muito tempo. \u2013 Dei de ombros, rindo, lembrando que aquela era exatamente o tipo de coisa que a Nina costumava dizer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 claro que n\u00e3o. \u2013 Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, segurando um sorriso que quase escapava. \u2013 \u00c9 vago. \u2013 Ele corrigiu, inclinando a cabe\u00e7a. \u2013 Pode significar muita coisa. Que voc\u00ea \u00e9 bonita demais para ficar sozinha. Que voc\u00ea \u00e9 carente. Que voc\u00ea escolhe mal. Que voc\u00ea tem medo de ficar s\u00f3. \u2013 uma pausa. \u2013 Ou que voc\u00ea simplesmente n\u00e3o se permite parar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o&#8230; advogado. \u2013 Revirei os olhos, mas n\u00e3o consegui conter o sorriso que teimava em escapar. \u2013 \u00c9 apenas uma frase engra\u00e7adinha de uma m\u00fasica.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uma m\u00fasica?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim. \u2013 Dei de ombros, como se fosse \u00f3bvio. \u2013 Fergie.<br \/>\n\u2003\u2003Ele piscou uma vez. Depois outra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Fergie. A cantora de &#8220;My Humps&#8221;?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A mesma. \u2013 confirmei, rindo da express\u00e3o dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea est\u00e1 citando Fergie como justificativa filos\u00f3fica para sua vida amorosa?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 justificativa. \u2013 Corrigi, apontando um dedo na dire\u00e7\u00e3o dele. \u2013 \u00c9 refer\u00eancia cultural. H\u00e1 uma diferen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Claro. \u2013 Ele inclinou a cabe\u00e7a, o sorriso se alargando. \u2013 Porque Fergie \u00e9 conhecida por sua profundidade filos\u00f3fica.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Fergie \u00e9 conhecida por ser uma lenda. \u2013 Retruquei, fingindo indigna\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ergui o olhar quando um chuvisco fino e inesperado come\u00e7ou. As estrelas tinham desaparecido, engolidas por nuvens cinzentas. Corremos juntos at\u00e9 a entrada do hotel, mas parei ao notar que %Anthony% n\u00e3o me acompanhou. Ficou parado no meio do p\u00e1tio, com o rosto voltado para cima, deixando as gotas ca\u00edrem no rosto. Franzi o cenho, sem entender.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ei, quanto de narguil\u00e9 voc\u00ea fumou? \u2013 Ri, observando-o ali, plantado no meio da cal\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A chuva daqui \u00e9 quente. \u2013 Disse, com as palmas das m\u00e3os viradas para cima, como se estivesse testando a temperatura.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quente?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9, tipo&#8230; morna. Parece at\u00e9 que vem direto do aquecedor. \u2013 Ele inclinou o rosto para tr\u00e1s e fechou os olhos, deixando a \u00e1gua escorrer pelo rosto num gesto t\u00e3o pac\u00edfico que parecia um comercial de shampoo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tem certeza de que n\u00e3o tem algu\u00e9m mijando em voc\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 se Deus tiver guardado um rancorzinho e n\u00e3o goste muito de mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o acho que isso seja poss\u00edvel. \u2013 Murmurei, mais para mim do que para ele.<br \/>\n\u2003\u2003Ele abriu um olho ao ouvir aquilo, como se n\u00e3o tivesse certeza de ter escutado direito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como \u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nada. S\u00f3 acho improv\u00e1vel mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003%Anthony% ficou me olhando por um segundo a mais do que o necess\u00e1rio, a chuva ainda escorrendo pelo rosto dele, os cabelos come\u00e7ando a grudar na testa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Improv\u00e1vel por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Porque voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso foi um elogio? \u2013 Ele arqueou levemente a sobrancelha, como se estivesse avaliando a resposta por \u00e2ngulos demais para algo t\u00e3o simples. Dei de ombros, desviando o olhar. \u2013 Voc\u00ea devia experimentar&#8230; A chuva.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ahn&#8230; meu cabelo&#8230; \u2013 Toquei nas pontas com certo desespero contido.<br \/>\n\u2003\u2003Ainda estava com o penteado que minha m\u00e3e tinha feito, com laqu\u00ea o suficiente para sobreviver a um furac\u00e3o. E eu j\u00e1 sabia, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que molhar o cabelo assim resultaria numa dor de cabe\u00e7a infernal.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ok. \u2013 Ele recolheu a m\u00e3o com naturalidade.<br \/>\n\u2003\u2003Franzi a testa, incomodada com a rapidez da desist\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ok? \u00c9 isso? Voc\u00ea n\u00e3o vai nem tentar de novo? \u2013 A pergunta escapou antes que eu pudesse frear a l\u00edngua.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea quer que eu tente de novo?<br \/>\n\u2003\u2003Eu sorri. N\u00e3o consegui evitar. A aud\u00e1cia dele me arrancava sorrisos at\u00e9 quando eu n\u00e3o queria ceder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sempre, %Anthony%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o me fa\u00e7a a honra&#8230; \u2013 Ele fez uma pequena rever\u00eancia com a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Hesitei por um segundo, meus dedos ainda presos ao cabelo como se aquilo fosse uma desculpa v\u00e1lida. Mas ele n\u00e3o esperou resposta. Segurou minha m\u00e3o com a leveza de quem confia no pr\u00f3ximo passo e puxou. Logo, eu estava fora da prote\u00e7\u00e3o da marquise e sob uma chuva surpreendentemente&#8230; morna.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu Deus. A chuva <em>realmente<\/em> \u00e9 aquecida. \u2013 Falei baixo, quase em choque.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu disse.<br \/>\n\u2003\u2003E quando uma gota escorreu pela minha t\u00eampora, ele n\u00e3o hesitou. Enxugou com o polegar, deixando o dedo pairando pr\u00f3ximo da minha mand\u00edbula.<br \/>\n\u2003\u2003Foi nesse instante que percebi. Eu estava t\u00e3o distra\u00edda pela proximidade, t\u00e3o acostumada com a presen\u00e7a dele ao meu lado naquela noite, que quase n\u00e3o notei como ele me olhava. De repente, ele sorriu. Um sorriso grande, espont\u00e2neo, que iluminou seus tra\u00e7os com uma naturalidade quase desconcertante. E ent\u00e3o, sem qualquer aviso, me encarou com uma intensidade mais firme, como se tivesse tomado uma decis\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que foi? \u2013 Perguntei, desconcertada, tentando fugir do olhar dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 bem bonita, %Ananya% %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003Simples, direto e imposs\u00edvel de ignorar. Soltei um riso curto, sem gra\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 que&#8230; eu invisto em cremes car\u00edssimos. \u2013 Brinquei, mas a voz saiu tr\u00eamula, entregando minha timidez e ele sorriu novamente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Deve ser isso. \u2013 N\u00f3s dois sab\u00edamos que n\u00e3o era. \u2013 Feliz anivers\u00e1rio, %Ananya%.<br \/>\n\u2003\u2003Um sorriso pequeno, mas genu\u00edno, tomou conta do meu rosto, e sem pensar muito, murmurei: \u2013 Obrigada, e obrigada por ter topado essa loucura comigo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O prazer foi todo meu, literalmente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o imaginava que seria assim, n\u00e3o \u00e9? \u2013 Perguntei, caminhando para a recep\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao elevador.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nem por um segundo. Eu n\u00e3o teria pensado tanto na proposta se soubesse que ia acabar numa ilha paradis\u00edaca, fingindo ser namorado de uma mulher bonita\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Dessa vez, n\u00e3o contive o sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que foi?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nada\u2026 s\u00f3 achei curioso. \u2013 Inclinei a cabe\u00e7a, deixando a provoca\u00e7\u00e3o vir com calma. \u2013 Os anos passam, %Anthony%, mas certas coisas n\u00e3o mudam, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tipo o qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea. Ainda tem uma quedinha por mim.<br \/>\n\u2003\u2003Ele freou na hora. Foi sutil, mas eu vi. O microssegundo de surpresa atravessando o rosto dele antes de qualquer controle voltar.<br \/>\n\u2003\u2003Acho que a primeira vez que desconfiei foi aos dezessete. Era ver\u00e3o e \u00faltimo ano da escola, eu passava as tardes \u2013 e, muitas vezes, as noites \u2013 praticamente inteiras na casa da Nina. A casa tinha um sil\u00eancio diferente naquela \u00e9poca. A doen\u00e7a da tia Anamelia n\u00e3o dominava o ambiente, mas estava ali o tempo todo, ocupando espa\u00e7o nos detalhes.<br \/>\n\u2003\u2003Foi nesse cen\u00e1rio que %Anthony% come\u00e7ou a aparecer. Sempre quando eu estava l\u00e1, recostada no sof\u00e1 com um livro aberto no colo que eu mal lia, porque ler, na verdade, era s\u00f3 uma desculpa para existir naquele espa\u00e7o sem precisar justificar minha presen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u201cEsqueci meu celular\u201d, dizia e eu apontava para a mesa sem erguer o olhar.<br \/>\n\u2003\u2003\u201cVoc\u00ea viu a Nina?\u201d, e eu dizia que n\u00e3o, que talvez estivesse no quarto, e ele dizia &#8220;ah, t\u00e1&#8221;, mas n\u00e3o sa\u00eda.<br \/>\n\u2003\u2003Era um flerte adolescente sem mal\u00edcia, desses que a gente acha que nunca vai significar alguma coisa. No fundo, eu achava at\u00e9 gra\u00e7a. O irm\u00e3o mais novo da Nina \u2013 t\u00e3o educado, t\u00e3o direitinho \u2013 com uma quedinha por mim? Era fofo.<br \/>\n\u2003\u2003At\u00e9 que o ver\u00e3o acabou, como todos os ver\u00f5es acabam. A vida seguiu. Eu entrei na faculdade, troquei a rotina pregui\u00e7osa da casa da Nina por corredores lotados e hor\u00e1rios apertados.<br \/>\n\u2003\u2003E quando dei por mim, o garoto que hesitava na porta tinha desaparecido e no lugar dele, havia algu\u00e9m mais alto (ou talvez fosse s\u00f3 a forma como ele agora preenchia o espa\u00e7o), mais quieto (n\u00e3o mais o sil\u00eancio t\u00edmido de quem n\u00e3o sabe o que dizer, mas o sil\u00eancio contido de quem sabe exatamente o que dizer e escolhe n\u00e3o dizer).<br \/>\n\u2003\u2003Ele tinha deixado de ser um menino e tinha deixado de ser transparente. Ele ainda entrava, mas agora me ignorava. N\u00e3o de forma grosseira \u2013 %Anthony% nunca foi grosseiro com ningu\u00e9m \u2013, era educado, cordial, quase <em>excessivamente<\/em> polido. Dava bom dia, perguntava como eu estava, escutava com aten\u00e7\u00e3o se eu dizia alguma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003A aten\u00e7\u00e3o que antes parecia escapar dele \u2013 involunt\u00e1ria, quase desajeitada \u2013 agora era medida. Controlada. E distribu\u00edda com uma generosidade tranquila para todos ao redor. Para a Nina. Para a m\u00e3e. Para qualquer amigo que aparecesse. Para todo mundo.<br \/>\n\u2003\u2003Menos para mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 De onde voc\u00ea tirou isso? \u2013 Ele riu levemente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uma mulher sempre sabe, Ant. \u2013 Dei de ombros, rindo tamb\u00e9m, tentando manter o tom leve, como se estiv\u00e9ssemos falando de algo banal. Como se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tivesse disparado no exato momento em que abri a boca.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sabe o que, exatamente? \u2013 Ele inclinou a cabe\u00e7a, como quem se diverte com a pr\u00f3pria pergunta. \u2013 Que eu tive uma quedinha por voc\u00ea h\u00e1 dez anos\u2026 ou que eu ainda tenho? \u2013 Eu n\u00e3o esperava que ele confirmasse. N\u00e3o esperava que fosse t\u00e3o direto. N\u00e3o esperava que ele jogasse de volta na minha cara com tanta tranquilidade. \u2013 Voc\u00ea nunca trocou mais de tr\u00eas palavras comigo, %Ananya%. E, al\u00e9m disso, eu era o irm\u00e3o mais novo da sua melhor amiga. N\u00e3o fazia sentido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E agora faz?<br \/>\n\u2003\u2003A pergunta escapou antes que eu pudesse segur\u00e1-la.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. Eu tinha chegado at\u00e9 ali sem que %Anthony% percebesse o estrago que ele vinha fazendo com uma mulher de trinta anos com o racioc\u00ednio emocional de uma adolescente mal resolvida. N\u00e3o era agora que eu ia estragar tudo.<br \/>\n\u2003\u2003Os olhos encontraram os meus com uma calma calculada, como se ele tivesse esperado por aquilo. E naquele breve instante, eu achei que ele fosse dizer alguma coisa. Eu vi o movimento quase impercept\u00edvel dos l\u00e1bios e como a respira\u00e7\u00e3o dele mudou (eu percebi, porque eu sempre percebi, mesmo quando ele achava que eu n\u00e3o estava olhando).<br \/>\n\u2003\u2003Mas ele n\u00e3o disse nada. Apenas soltou o ar, como se estivesse abrindo m\u00e3o de alguma coisa. Tive a n\u00edtida impress\u00e3o de que, se eu desse um passo em falso, ele n\u00e3o recuaria.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500 \u25c7 \u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003<strong>%Anthony%<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003Acordei naquela manh\u00e3 com a cabe\u00e7a latejando e uma leve ressaca me abra\u00e7ava com for\u00e7a suficiente para me lembrar que u\u00edsque, vinho e cerveja definitivamente n\u00e3o eram exatamente meus amigos.<br \/>\n\u2003\u2003Peguei o celular largado no criado-mudo e encontrei uma mensagem da %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003Ela avisava que faria um brunch \u2013 porque, claro, existiria um brunch \u2013 com a m\u00e3e e algumas tias, e que eu estava mais do que convidado a me juntar ao ch\u00e1 das matriarcas\u2026 ou, se preferisse, poderia ir pilotar karts com o pai dela e um grupo de amigos.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, considerei seriamente enfiar o rabo entre as pernas e me refugiar na companhia das tias elegantes, cercado de porcelana fina e conversas educadas.<br \/>\n\u2003\u2003Mas a\u00ed lembrei que nunca tinha pisado numa pista de kart.<br \/>\n\u2003\u2003E, convenhamos, para algu\u00e9m que colecionou carrinhos Hot Wheels at\u00e9 os quinze anos, deixar aquela oportunidade passar seria quase uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003Depois \u2013 depois de me arrumar, depois de trocar de camiseta tr\u00eas vezes e decidir que a terceira era a melhor s\u00f3 porque eu j\u00e1 estava atrasado \u2013 desci at\u00e9 o restaurante do hotel. A \u00e1rea externa estava quase vazia, salvo por uma mesa ocupada nos fundos, debaixo de um guarda-sol listrado.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% estava sentada com um copo de suco entre as m\u00e3os, distra\u00edda, sugando o l\u00edquido pelo canudinho. Os \u00f3culos escuros eram grandes demais para o rosto dela \u2013 quase c\u00f4micos \u2013 mas, de algum jeito, nela funcionavam. Ao lado, Nina ria de algo que Andreas tinha acabado de dizer.<br \/>\n\u2003\u2003A din\u00e2mica entre os tr\u00eas era\u2026 estranha. Cordial demais.<br \/>\n\u2003\u2003Como se n\u00e3o houvesse motivo nenhum para aquilo ser desconfort\u00e1vel, sendo que, porra, como havia.<br \/>\n\u2003\u2003O jeito como eles conseguiam sentar \u00e0 mesma mesa, trocar coment\u00e1rios casuais, dividir risadas\u2026 como se aquela hist\u00f3ria n\u00e3o existisse mais. Como se todo mundo ali tivesse decidido, em sil\u00eancio, fingir que n\u00e3o lembrava.<br \/>\n\u2003\u2003Eu lembrava. Na verdade, aquilo nunca me desceu muito bem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom dia. \u2013 Murmurei, for\u00e7ando um sorriso enquanto me aproximava. \u2013 Algu\u00e9m aqui pode me convencer de que pilotar um kart depois de uma noite regada a vinho, u\u00edsque e cerveja \u00e9 uma decis\u00e3o sensata?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Depende. \u2013 Nina respondeu, sem nem levantar os olhos da torrada. \u2013 Voc\u00ea quer causar uma boa impress\u00e3o ou s\u00f3 sobreviver ao passeio?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Honestamente? S\u00f3 quero sair inteiro. \u2013 Curvei-me para beijar a bochecha de %Anya% e afaguei os cabelos de Nina com carinho.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Dormiu bem? \u2013 Perguntei, pegando um dos card\u00e1pios sobre a mesa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como uma pedra. \u2013 Nina respondeu por todos, ainda concentrada na pr\u00f3pria torrada. Andreas soltou um riso curto pelo nariz, sem acrescentar nada.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% pegou a garrafa t\u00e9rmica sobre a mesa, serviu uma x\u00edcara de caf\u00e9 e a estendeu na minha dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Achamos que voc\u00ea ia preferir os carrinhos mesmo. \u2013 Disse, entregando a x\u00edcara.<br \/>\n\u2003\u2003A mesa ficava pr\u00f3xima ao parapeito de pedra que separava a \u00e1rea externa do restaurante da vista para o mar, largo o suficiente para servir de apoio, com a imensid\u00e3o azul se abrindo logo atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Dei alguns passos at\u00e9 l\u00e1 e encostei-me, sentindo o calor do sol bater de lado, e, quando ela se aproximou o suficiente, estendi o bra\u00e7o e a puxei pela cintura.<br \/>\n\u2003\u2003Eu era um \u00f3timo namorado falso.<br \/>\n\u2003\u2003Especialmente quando minha namorada falsa era absurdamente cheirosa. Havia algo naquele perfume \u2013 suave, quase delicado, mas com um fundo quente que ficava \u2013 que tornava o papel ridiculamente f\u00e1cil de sustentar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acha que vai demorar muito no aut\u00f3dromo? \u2013 Perguntei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pelo que ouvi, vai ser o dia todo. Meu pai parece estar levando a s\u00e9rio essa hist\u00f3ria de &#8220;piloto de fim de semana&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele leva mesmo. S\u00f3 cuidado para n\u00e3o rir demais das manobras dele. Ele gosta de fingir que n\u00e3o se importa, mas se ofende f\u00e1cil. N\u00e3o sei se o %Anthony% est\u00e1 pronto para isso. \u2013 Andreas disse, com aquele sorriso de quem queria ser s\u00f3 espirituoso, mas o tom de voz entregava algo mais.<br \/>\n\u2003\u2003Olhei diretamente para ele, sem pressa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Agrade\u00e7o a preocupa\u00e7\u00e3o, camarada. Mas j\u00e1 me acostumei a pilotar m\u00e1quinas de grande porte. \u2013 Apontei discretamente para %Anya% e, no segundo seguinte, dei um tapa estalado na n\u00e1dega esquerda dela. Ela virou o rosto na minha dire\u00e7\u00e3o, surpresa e riu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu Deus\u2026 \u2013 %Anya% cobriu o rosto com as m\u00e3os, ainda rindo, enquanto o rubor subia pelas bochechas de um jeito que eu achei ridiculamente encantador.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eca! Ei! Eu estou comendo! Limites, pelo amor de Deus! \u2013 Reclamou Nina, fazendo uma careta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Relacionamento saud\u00e1vel, Nina. \u2013 Dei de ombros, completamente \u00e0 vontade enquanto %Anya% me dava um empurr\u00e3o leve no peito, como quem queria me repreender.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 n\u00e3o faz o que eu fiz da \u00faltima vez. Me achei na F\u00f3rmula 1, entrei numa curva como se fosse o Hamilton e quase arranquei um banner de propaganda com o carro. \u2013 Andreas contou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu avisei que n\u00e3o era uma boa ideia. \u2013 Comentou %Anya%, levando canudinho \u00e0 boca. \u2013 E, para ser justa, vou avisar voc\u00ea tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o quer dizer que devo recuar?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, s\u00f3&#8230; se divirta. Meu pai respeita quem se diverte mais do que quem tenta competir com ele. \u2013 Ela ergueu levemente as sobrancelhas em dire\u00e7\u00e3o a Andreas.. seu ex.<br \/>\n\u2003\u2003Estranho demais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Obrigado pela dica, Sra. %Bhasin% \u2013 Fiz uma rever\u00eancia exagerada com a cabe\u00e7a. \u2013 Desejem-me sorte.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai precisar. \u2013 Eu e %Anya% trocamos um olhar r\u00e1pido diante do murm\u00fario em tom amargo vindo de Andreas. Ela apenas revirou os olhos, sem paci\u00eancia, como quem j\u00e1 estava acostumada com aquele teatrinho passivo-agressivo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Estarei na praia quando voc\u00ea voltar. \u2013 Avisou. \u2013 N\u00e3o demore.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim, senhora. \u2013 Me curvei teatralmente na dire\u00e7\u00e3o dela e, antes que o bom senso me detivesse, me inclinei e roubei um selinho r\u00e1pido dos seus l\u00e1bios.<br \/>\n\u2003\u2003Foi um movimento simples, quase autom\u00e1tico. Queria poder dizer que planejei, que calculei o momento certo para deixar Andreas desconfort\u00e1vel ou para arrancar um sorriso de %Anya%. Mas, na real, foi puro reflexo. Ela riu pelo nariz e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, sem conseguir esconder o sorriso no canto da boca.<br \/>\n\u2003\u2003Descobri, meio tarde demais, que o lugar aonde ir\u00edamos n\u00e3o ficava na ilha. Resultado: precisei fazer a travessia de barco para terra firme, lutando contra a leve ressaca.<br \/>\n\u2003\u2003Cheguei \u00e0 entrada do kart\u00f3dromo me sentindo anestesiado, me esfor\u00e7ando para parecer s\u00f3brio e funcional. Perto da pista, um grupo j\u00e1 estava reunido: todos com \u00f3culos escuros dignos de comerciais de perfume importado e aquele tipo de confian\u00e7a que n\u00e3o se compra, s\u00f3 se herda.<br \/>\n\u2003\u2003Era o tipo de gente que cresceu frequentando clubes exclusivos, discutindo apostas de corrida de jet ski como se fossem quest\u00f5es diplom\u00e1ticas. Ajustei a postura, respirei fundo e pensei: <em>\u00c9 isso. Estou oficialmente infiltrado no habitat natural deles.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Reconheci o pai de %Anya% imediatamente. Adit estava rindo alto, com um copo na m\u00e3o e contando alguma hist\u00f3ria que fez dois dos caras ao lado darem tapas nos joelhos como se estivessem ouvindo a piada do ano.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%! \u2013 Chamou, batendo no pr\u00f3prio ombro, como se dissesse \u201cvem c\u00e1, senta aqui no banco dos adultos\u201d. \u2013 Achei que voc\u00ea ia preferir o ch\u00e1 da tarde com as mulheres.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Confesso que quase fui seduzido pela ideia. \u2013 Tentei manter o tom descontra\u00eddo. \u2013 Mas minha crian\u00e7a interior, viciada em carrinhos de brinquedo, falou mais alto.<br \/>\n\u2003\u2003Todos riram. Um deles, um sujeito com barba cerrada e cara de quem j\u00e1 tinha dirigido mais carros de luxo do que eu tinha visto na vida, estendeu a m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ravi. Primo de %Anya%. Bem-vindo ao lado selvagem da fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Valeu. Mas, s\u00f3 para constar, eu nunca andei de kart. \u2013 Confessei, dando um leve riso constrangido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Melhor ainda. \u2013 Respondeu um dos outros caras. \u2013 Vai ser divertido te ver girar na curva 3.<br \/>\n\u2003\u2003O pai de %Anya% colocou um bra\u00e7o em volta dos meus ombros, como quem j\u00e1 tinha me adotado ou estava prestes a me jogar na pista como um cordeiro entre le\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Aqui \u00e9 cada um por si, %Anthony%. S\u00f3 n\u00e3o se esquece de frear.<br \/>\n\u2003\u2003Dei uma risada nervosa e naquele momento percebi: ou eu conquistava o respeito deles com habilidade no volante ou viraria a piada do almo\u00e7o de domingo da fam\u00edlia %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o \u00e9 voc\u00ea o acompanhante misterioso da %Anya%. \u2013 Comentou enquanto colocava as luvas. \u2013 Corajoso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ou inconsequente. \u2013 Completei, meio rindo, meio sem saber se era uma provoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A linha \u00e9 t\u00eanue para os Bhasins, amigo. \u2013 Respondeu Ramesh, ajustando o capacete como quem se preparava para um duelo no Velho Oeste.<br \/>\n\u2003\u2003Quando os motores roncaram, um sorriso involunt\u00e1rio brotou no meu rosto. A crian\u00e7a que colecionava Hot Wheels ali dentro estava em \u00eaxtase. \u00c9, aquilo ali, eu tamb\u00e9m sabia pilotar.<br \/>\n\u2003\u2003No local, pude reconhecer uma por\u00e7\u00e3o daquelas pessoas, algumas do jantar da noite passada. A maioria parecia ter algum elo, direto ou distante, com o universo do automobilismo. Empres\u00e1rios ligados \u00e0s pe\u00e7as e acess\u00f3rios da %Bhasin% AutoParts, investidores e, principalmente, parentes ricos. Todos estavam sendo devidamente paparicados pelas equipes com comida impec\u00e1vel, sombra fresca e uma vista espetacular da pista.<br \/>\n\u2003\u2003O tempo no kart acabou sendo mais divertido do que eu esperava. N\u00e3o me sa\u00ed t\u00e3o mal, considerando a leve ressaca e a falta de pr\u00e1tica. Optei por uma pilotagem cautelosa, o que provavelmente me salvou de repetir o vexame do Andreas. Dei risada com alguns dos outros pilotos, at\u00e9 ganhei um tapinha nas costas do Ramesh e um coment\u00e1rio do Ravi dizendo que eu \u201cjogava seguro como quem joga xadrez\u201d. N\u00e3o levei como ofensa.<br \/>\n\u2003\u2003Naquele final de semana, seguran\u00e7a era exatamente o que eu buscava.<br \/>\n\u2003\u2003Depois da corrida, enquanto os outros ainda discutiam manobras e batidas quase \u00e9picas, encontrei o Sr. %Bhasin% afastado do grupo, olhando o horizonte de sol j\u00e1 alto. Me aproximei com um sorriso e perguntei se podia pedir um u\u00edsque. Ele n\u00e3o s\u00f3 aprovou como fez quest\u00e3o de me acompanhar. Pegamos dois copos e nos sentamos em um dos sof\u00e1s baixos no canto do aut\u00f3dromo, com vista para a pista agora silenciosa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom trabalho l\u00e1 na pista. N\u00e3o parecia sua primeira vez. \u2013 Disse, girando o gelo no copo antes de dar um gole.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu diria que foi quase uma vit\u00f3ria, se o crit\u00e9rio for \u201cn\u00e3o capotar\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E para onde voc\u00ea vai agora? \u2013 Ele perguntou, o sol j\u00e1 come\u00e7ando a desaparecer atr\u00e1s das colinas distantes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya% me pediu para encontr\u00e1-la no deck principal, na praia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, sim. Eu e minha esposa vamos aguardar por voc\u00eas amanh\u00e3 para o passeio de barco. \u2013 Ele sorriu. \u2013 S\u00e9rio, cuide dela. %Anya% tende a perder a cabe\u00e7a nos anivers\u00e1rios dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pode deixar, Sr. %Bhasin%. Estarei atento.<br \/>\n\u2003\u2003E eu ficaria mesmo. At\u00e9 porque %Anya% s\u00f3 bebia uma vez por ano e eu n\u00e3o perderia a chance de ver a princesa %Bhasin% extrapolando limites.<br \/>\n\u2003\u2003Depois ficou um breve sil\u00eancio confort\u00e1vel entre n\u00f3s e ent\u00e3o, talvez guiado pelo u\u00edsque ou pelo sol que aquecia devagar as laterais do nosso rosto, ele falou:<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quando conheci a Anjali&#8230; eu n\u00e3o tinha um centavo. A gente namorou escondido por quase um ano. O pai dela n\u00e3o queria nem ouvir meu nome. E, sendo justo\u2026 talvez ele tivesse raz\u00e3o. Mas Anjali era teimosa e eu\u2026 bom, eu estava completamente apaixonado. Trabalhei como um louco. Peguei dinheiro emprestado, abri meu neg\u00f3cio sem saber metade do que estava fazendo e errei mais vezes do que acertei no come\u00e7o. Mas ela ficou.<br \/>\n\u2003\u2003O olhar dele se perdeu, distante, como se enxergasse um peda\u00e7o do passado projetado no asfalto da pista iluminada, continuou:<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Talvez seja por isso que hoje eu n\u00e3o sou do tipo de pai que faz muitos interrogat\u00f3rios, que imp\u00f5e regra ou fica testando quem chega perto da minha filha. \u2013 Adit retomou, a voz agora mais baixa, mais firme. \u2013 Eu sei como \u00e9 estar do outro lado. E sei reconhecer quando algu\u00e9m est\u00e1 falando s\u00e9rio\u2026 E quando n\u00e3o est\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Imagino que deva ter sido dif\u00edcil. \u2013 Falei, tentando manter a voz est\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foi. Mas dificuldade n\u00e3o \u00e9 exatamente um bom motivo para desistir de algu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Assenti, como se concordasse com naturalidade, como se aquela frase n\u00e3o tivesse acabado de encontrar um lugar muito espec\u00edfico dentro de mim.<br \/>\n\u2003\u2003Porque eu n\u00e3o estava ali por algu\u00e9m, estava ali por dinheiro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%\u2026 eu tamb\u00e9m n\u00e3o tinha carro quando conheci a Anjali. \u2013 Continuou, com um meio sorriso. E ent\u00e3o fez sentido. A rea\u00e7\u00e3o dele e da m\u00e3e dela naquele primeiro dia, quando %Anya% comentou que eu n\u00e3o tinha carro. N\u00e3o era estranhamento, era reconhecimento. \u2013 Eu era um azar\u00e3o&#8230; com uma herdeira %Bhasin%. Assim como voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Soltei um riso curto, autom\u00e1tico, mas, por dentro, eu estava morrendo de vergonha.<br \/>\n\u2003\u2003Se ele soubesse que o azar\u00e3o ali n\u00e3o era s\u00f3 o rapaz sem carro, mas tamb\u00e9m era o cara que trocava mensagens com o chefe no banheiro do resort. O cara que tinha aceitado um trabalho sujo porque as contas tinham apertado um tempo atr\u00e1s e fez umas merdas.<br \/>\n\u2003\u2003Adit ainda sorria, alheio, achando que estava tendo um momento de conex\u00e3o com o namorado da filha. O homem tinha acabado de me dar o maior aval que um pai pode dar \u2013 que era confiar a filha a outro homem \u2013 e eu era uma farsa. Ele olhava para mim e via algu\u00e9m que veio de baixo e estava tentando construir algo honesto ao lado da filha.<br \/>\n\u2003\u2003E eu\u2026 Novamente, me senti um babaca.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s isso, a volta para ilha foi mais tranquila do que eu esperava. A gente at\u00e9 cogitou ficar mais um tempo nas pistas, mas entre a quantidade nada modesta de cerveja que j\u00e1 tinha passado pela mesa e o risco bem real de irritar %Anya%, Adit resolveu ser a voz da raz\u00e3o e sugeriu que volt\u00e1ssemos antes que o c\u00e9u escurecesse mais.<br \/>\n\u2003\u2003Seguindo as orienta\u00e7\u00f5es do mapa desenhado por ela, passei por um breve matagal, e depois de alguns minutos, cheguei finalmente ao deck principal. O local parecia um peda\u00e7o isolado de para\u00edso, uma faixa de areia n\u00e3o muito grande, com o mar banhando suavemente a costa e o acesso era por uma passarela de madeira que se estendia at\u00e9 a praia. Ao redor, gigantescas \u00e1rvores de ra\u00edzes profundas e algumas constru\u00e7\u00f5es rochosas emergiam.<br \/>\n\u2003\u2003O barulho alto s\u00f3 me alcan\u00e7ou de verdade quando pisei no deck de madeira. As batidas animadas vibravam, a garoa fina, misturada ao calor da festa, n\u00e3o parecia incomodar ningu\u00e9m, pelo contr\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Cumprimentei alguns primos %Bhasin% pelo caminho, mas as palavras entravam por um ouvido e sa\u00edam pelo outro, porque meu olhar, traidor e insistente, procurava apenas uma pessoa entre aquela mar\u00e9 de rostos desconhecidos e familiares.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%!!<br \/>\n\u2003\u2003A voz dela cortou o barulho como se tivesse prioridade e eu ri na mesma hora.<br \/>\n\u2003\u2003<em>%Ananya% b\u00eabada. Perfeito.<\/em> Nem precisei pensar duas vezes antes de come\u00e7ar a procurar a origem daquele chamado dram\u00e1tico, j\u00e1 antecipando o caos.<br \/>\n\u2003\u2003E ent\u00e3o eu a vi, vindo direto na minha dire\u00e7\u00e3o, meio correndo, meio trope\u00e7ando, os bra\u00e7os esticados como se estivesse prestes a me atropelar sem nenhum tipo de remorso. Ela vinha como um meteoro, %Anya% b\u00eabada era exatamente isso: uma for\u00e7a da natureza. Sem filtros, sem inibi\u00e7\u00f5es, sem aquele verniz social que ela usava com tanta habilidade em dias normais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea! \u2013 %Anya% apontou para mim, o dedo meio tr\u00eamulo. \u2013 Eu gosto de voc\u00ea! \u2013 Eu ri, pois n\u00e3o tinha como n\u00e3o rir.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% b\u00eabada era um espet\u00e1culo \u2013 ca\u00f3tica, linda, imposs\u00edvel de ignorar.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se jogou contra mim sem aviso, num abra\u00e7o torto e confiante demais para algu\u00e9m que claramente n\u00e3o estava em pleno equil\u00edbrio. Eu a segurei, firmando as m\u00e3os na cintura dela. Ela se afastou o suficiente para me olhar, os olhos levemente nebulosos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 bonito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 b\u00eabada \u2013 Respondi, rindo, segurando o rosto dela com uma m\u00e3o enquanto, com a outra, afastava os fios grudados na pele \u00famida pelo chuvisco.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 As duas coisas podem ser verdade. \u2013 Ela riu alto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea precisa de \u00e1gua. Ou de algu\u00e9m respons\u00e1vel para te supervisionar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim. E esse algu\u00e9m chegou. \u2013 Murmurou, encostando de novo no meu pesco\u00e7o. Soltei um riso baixo, respirando fundo. %Anya% b\u00eabada tinha deixado de ser divertida fazia alguns segundos. Agora era perigosamente desafiadora. \u2013 Eu decidi uma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que? \u2013 Inclinei a cabe\u00e7a, estudando-a.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% piscou devagar, como se estivesse organizando os pensamentos numa fileirinha antes de solt\u00e1-los. A l\u00edngua passou pelos l\u00e1bios num gesto inconsciente e eu tive que fazer um esfor\u00e7o consciente para n\u00e3o olhar para a boca dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que voc\u00ea \u00e9 bonito. \u2013 Contou nos dedos. \u2013 Cheiroso. E que eu vou te beijar agora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai o qu\u00ea?!<br \/>\n\u2003\u2003E antes que eu pudesse processar a vis\u00e3o ou sentir qualquer vergonha pelos olhares dos primos dela ao redor, %Anya%, com a impulsividade deliciosa que era toda do \u00e1lcool, segurou meu rosto com as duas m\u00e3os e me beijou.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei paralisado por um segundo, surpreso com a intensidade e a falta de hesita\u00e7\u00e3o dela. N\u00e3o foi um selinho distra\u00eddo ou um gesto de b\u00eabada alegre que poderia ser esquecido na manh\u00e3 seguinte. Ela me beijou de verdade. Os l\u00e1bios dela estavam com gosto doce de alguma bebida mista e as m\u00e3os segurando meu rosto com uma firmeza que n\u00e3o admitia d\u00favida.<br \/>\n\u2003\u2003O mundo \u00e0 nossa volta explodiu em risadas, gritos de incentivo, aquele \u201cooooh!\u201d coletivo que s\u00f3 uma fam\u00edlia barulhenta sabe fazer. Mas eu n\u00e3o ouvi nada porque aquela era s\u00f3 a minha segunda vez beijando %Ananya% %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003Eu senti o sorriso dela contra os meus l\u00e1bios, como se o beijo fosse uma piada interna que s\u00f3 n\u00f3s dois entend\u00edamos e eu acabei sorrindo tamb\u00e9m. As m\u00e3os dela continuavam firmes no meu rosto, os polegares desenhando c\u00edrculos distra\u00eddos nas minhas bochechas.<br \/>\n\u2003\u2003Sem desfazer o beijo, come\u00e7amos a nos mover desajeitadamente para o lado, trope\u00e7ando um no outro, rindo contra as bocas entreabertas, at\u00e9 que minhas costas encontraram o suporte de um poste. Aproveitei a oportunidade para pux\u00e1-la ainda mais para perto, encaixando-a entre minhas pernas de forma instintiva. Com a respira\u00e7\u00e3o descompassada, afastei meu rosto apenas o suficiente para provoca-la.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sentiu minha falta? \u2013 Murmurei contra a boca dela.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% riu, sem responder, o sorriso se abrindo devagar enquanto os l\u00e1bios dela ainda ro\u00e7avam nos meus. Ela se afastou o suficiente para que eu pudesse v\u00ea-la por inteiro.<br \/>\n\u2003\u2003Estava deslumbrante. Os olhos brilhando mais do que o normal, a pele corada pelo \u00e1lcool e pela garoa, o cabelo \u00famido grudando nas t\u00eamporas de um jeito ca\u00f3tico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 meu anivers\u00e1rio! \u2013 Ela exclamou, como se a constata\u00e7\u00e3o fosse a melhor not\u00edcia do mundo, dando pulinhos desengon\u00e7ados e sinceros, que faziam o vestido rodopiar e as pulseiras tilintarem. N\u00e3o pude deixar de sorrir ao v\u00ea-la t\u00e3o empolgada com a pr\u00f3pria festa, como uma crian\u00e7a que acabara de ganhar o presente que mais queria. \u2013 Pensei que voc\u00ea fosse se atrasar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o sou de perder um bom espet\u00e1culo. \u2013 Respondi, com meu tom mais brincalh\u00e3o, tentando disfar\u00e7ar a intensidade do que estava sentindo naquele momento. Estalei mais um beijo t\u00edmido em seus l\u00e1bios \u2013 uma car\u00edcia r\u00e1pida, quase um teste \u2013 e senti o sorriso dela contra os meus antes mesmo de terminar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea devia me beijar mais vezes\u2026 \u2013 Ela sussurrou, com um sorriso travesso e deu uma risada solta que escapou enquanto ela se afastava com um passo dan\u00e7ante, rodopiando no meio da chuva como se a noite fosse dela. E era.<br \/>\n\u2003\u2003A festa, a m\u00fasica, a garoa fina\u2026 o mundo inteiro parecia pertencer a ela naquele momento.<br \/>\n\u2003\u2003E, naquela noite, ser\u00e1 que eu tamb\u00e9m pertencia?<\/p>\n<p align=\"center\">\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n<p>\u2003\u2003Tinha uma coisa sobre os ricos que ningu\u00e9m me avisou: as bebidas deles s\u00e3o trai\u00e7oeiras de um jeito bem mal-educado.<br \/>\n\u2003\u2003No meu mundo, \u00e1lcool vinha com aviso pr\u00e9vio. Cerveja amarga, vodca que arranhava a garganta, gin barato que deixava bem claro que voc\u00ea ia se arrepender depois. Tudo muito honesto.<br \/>\n\u2003\u2003O u\u00edsque dos %Bhasin%, por outro lado, era quase simp\u00e1tico. Descia f\u00e1cil demais, basicamente, parecia inofensivo. Por\u00e9m, quando voc\u00ea percebe, j\u00e1 passou do ponto e nem teve o aviso sonoro. O mundo s\u00f3\u2026 amolece. Foi exatamente o que aconteceu comigo.<br \/>\n\u2003\u2003Eu j\u00e1 estava no quarto \u2013 quinto? \u2013 copo quando notei que as luzes da festa tinham ganhado um brilho extra, que a m\u00fasica parecia melhor do que realmente era e que, de alguma forma, eu tinha sido adotado por cinco indianos profundamente comprometidos com uma partida de beerpong.<br \/>\n\u2003\u2003Comprometidos no n\u00edvel \u201cisso aqui vale honra, legado e talvez um tratado internacional\u201d. E, honestamente? Eu estava levando t\u00e3o a s\u00e9rio quanto eles.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o sei quando me tornei parte daquela confraria. N\u00e3o sei quem decidiu que eu era digno. Mas ali estava eu \u2013 suando sob a garoa, com um copo de u\u00edsque na m\u00e3o esquerda e uma bolinha de pingue-pongue na direita \u2013 pronto para defender a honra do time que nem sabia que eu tinha.<br \/>\n\u2003\u2003O u\u00edsque dos %Bhasin% era convincente para caralho.<br \/>\n\u2003\u2003Apesar de estar imerso na minha pr\u00f3pria n\u00e9voa \u2013 u\u00edsque caro descendo f\u00e1cil demais e a fuma\u00e7a doce dos narguil\u00e9s indianos deixando tudo ligeiramente fora de foco \u2013 eu vi %Anya% e, ao lado dela, Maya. A prima lend\u00e1ria. A mesma que, segundo hist\u00f3rias contadas em tom de riso nervoso, j\u00e1 tinha entrado em coma alco\u00f3lico em um anivers\u00e1rio anterior.<br \/>\n\u2003\u2003E ali estavam as duas. Juntas. Com uma fileira de copos em sua frente, pequenos, transparentes e mortalmente inocentes.<br \/>\n\u2003\u2003Maya ria de algo que %Anya% tinha dito, os olhos dela brilhando com aquele brilho perigoso de quem j\u00e1 estava no ponto onde o &#8220;divertido&#8221; e o &#8220;hospital&#8221; se encontram. E %Anya% pegou um dos copos, ergueu num brinde \u00e0 prima, e virou de uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>N\u00e3o. Hum, hum. N\u00e3o<\/em>. \u2013 Murmurei para mim mesmo, j\u00e1 me levantando.<br \/>\n\u2003\u2003Abandonei a mesa sob protestos dram\u00e1ticos de um p\u00fablico que, h\u00e1 cinco minutos, n\u00e3o sabia nem meu nome, e atravessei a festa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso aqui tem algum tipo de pr\u00eamio no final ou \u00e9 s\u00f3\u2026 destrui\u00e7\u00e3o recreativa mesmo? \u2013 Perguntei, parando ao lado delas e antes que ela tivesse tempo de reagir, peguei o copo da m\u00e3o dela, levei \u00e0 boca e virei o conte\u00fado de uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% ficou me encarando, ofendida por meio segundo\u2026 E depois arregalou os olhos: \u2013 Voc\u00ea <em>bebeu<\/em> o meu shot?!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sacrif\u00edcio nobre. \u2013 Dei de ombros, sentindo o calor do \u00e1lcool se espalhar pelo peito. \u2013 Algu\u00e9m tinha que fazer. Voc\u00ea ia agradecer amanh\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003Atr\u00e1s dela, Maya simplesmente\u2026 desistiu. Uma gargalhada alta, despreocupada, e ent\u00e3o ela se jogou na areia como quem finalmente aceita seu destino. Olhou para o c\u00e9u por um segundo, murmurou algo que poderia muito bem ter sido uma filosofia profunda e fechou os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ela\u2026 \u2013 %Anya% come\u00e7ou, apontando vagamente. \u2013 Ela n\u00e3o pode dormir a\u00ed.<br \/>\n\u2003\u2003Olhei para Maya, perfeitamente instalada, como se tivesse sido arquitetada para aquele exato peda\u00e7o de areia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tecnicamente, pode. \u2013 Falei. \u2013 Recomendo? N\u00e3o muito. N\u00e3o se preocupe, vou pedir para o Dodi levar ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 culpa sua. Ladr\u00e3o! \u2013 %Anya% rebateu, apontando para mim. \u2013 De shots. De momentos. De&#8230; \u2013 Ela parou no meio da frase, como se tivesse esquecido onde estava indo. \u2013 \u2026coisas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Coisas? \u2013 Repeti, segurando o riso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Coisas importantes. \u2013 Ela assentiu com for\u00e7a, quase perdendo o equil\u00edbrio. \u2013 Que voc\u00ea n\u00e3o tem direito de roubar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o roubei nada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Roubou, sim! \u2013 Ela deu um passo \u00e0 frente, o dedo ainda em riste. \u2013 Meu shot. Minha divers\u00e3o. Minha&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Ela travou de novo. Os olhos se estreitaram, como se estivesse vasculhando o fundo da mem\u00f3ria em busca de uma palavra que tinha escapado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sua&#8230;? \u2013 Incentivei, a voz cheia de riso contido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Minha dignidade! \u2013 Ela finalmente declarou, triunfante, como se tivesse encontrado um tesouro perdido. \u2013 Voc\u00ea roubou minha dignidade, %Anthony%!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sua dignidade estava num copo de shot?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim! \u2013 Ela cruzou os bra\u00e7os num gesto que deveria ser de indigna\u00e7\u00e3o, mas que saiu mais parecido com um abra\u00e7o nela mesma para n\u00e3o cair. \u2013 E eu a quero de volta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E como \u00e9 que eu devolvo sua dignidade? Voc\u00ea quer que eu&#8230; desbeba?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. \u2013 Ela deu um passo \u00e0 frente, o dedo que antes apontava agora estava encostado no meu peito, bem no centro. \u2013 Voc\u00ea me deve um beijo, %Anthony%. Porque voc\u00ea roubou meu momento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%, eu acabei de te beijar h\u00e1 meia hora. \u2013 Soltei uma gargalhada, meio em protesto, meio rendido, enquanto minhas m\u00e3os j\u00e1 encontravam o caminho de volta para cintura dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso foi antes. Agora \u00e9 outra situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea me deve outro. \u00c9 a lei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que lei?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A minha lei. E ela \u00e9 definitiva. \u2013 Deu de ombros.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Impressionante. \u2013 Murmurei, deixando o olhar percorrer o rosto dela. Um pouco fora de foco \u2013 culpa do u\u00edsque, da fuma\u00e7a, da noite inteira \u2013, mas ainda perigosamente claro onde importava. \u2013 Um sistema jur\u00eddico completo em, o qu\u00ea, trinta segundos?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sou extremamente eficiente. \u2013 Ela disse, com um ar quase convencido. Seus bra\u00e7os subiram devagar, se acomodando ao redor do meu pesco\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E se eu resolver ignorar essa\u2026 decis\u00e3o judicial?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A\u00ed voc\u00ea vai estar oficialmente em d\u00edvida comigo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 J\u00e1 n\u00e3o estou? \u2013 Eu ri, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, e me inclinei com calma.<br \/>\n\u2003\u2003Sustentei o olhar dela por um instante, procurando qualquer sinal de recuo. N\u00e3o encontrei. Em vez disso, havia aquela mesma firmeza tranquila que eu quase sempre encontrava nela. A beijei e ela correspondeu sem hesitar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Era \u00f3bvio, \u2013 A voz de Nina atravessou o momento com uma pigarro. \u2013 que, se a %Anya% sumiu e o %Anthony% tamb\u00e9m, eles iam estar se pegando em algum canto. A gente se afastou num susto m\u00ednimo quando Nina apareceu entre as sombras das pedras. \u2013 E, como boa amiga que sou&#8230; A gente trouxe shots!<br \/>\n\u2003\u2003Na m\u00e3o dela, uma bandeja de pl\u00e1stico carregava pelo menos seis copinhos coloridos, todos parecendo uma p\u00e9ssima ideia.<br \/>\n\u2003\u2003Andreas vinha logo atr\u00e1s, com os passos arrastados de quem j\u00e1 tinha desistido de tentar impedir qualquer coisa naquela noite. Ele levantou uma m\u00e3o em um aceno pregui\u00e7oso, o sorriso no rosto misturando resigna\u00e7\u00e3o e carinho.<br \/>\n\u2003\u2003Foi s\u00f3 ver a bandeja que os olhos de %Anya% acenderam e ela j\u00e1 estava se jogando na dire\u00e7\u00e3o dos copos quando eu passei o bra\u00e7o pela cintura dela e puxei de volta, no reflexo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina, interven\u00e7\u00e3o. \u2013 Falei, segurando %Anya% perto o suficiente para impedir qualquer tentativa heroica. \u2013 Ela j\u00e1 passou do ponto. Mais um shot e ela vira decora\u00e7\u00e3o de praia, igual \u00e0 Maya.<br \/>\n\u2003\u2003Nina olhou por cima do ombro, na dire\u00e7\u00e3o da prima estirada alguns metros atr\u00e1s, perfeitamente integrada ao ecossistema local. Depois voltou para mim, muito tranquila.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00d3timo. A praia \u00e9 de gra\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Antes que eu organizasse um argumento minimamente convincente \u2013 porque talvez eu s\u00f3 n\u00e3o estivesse em plena posse das minhas capacidades tamb\u00e9m \u2013 senti os dedos de %Anya% se encaixando nos meus de novo, ela girou no lugar, o vestido abriu com o movimento, a risada dela veio solta e b\u00eabada. Por dois segundos\u2026 a gravidade resolveu se manifestar. Ela perdeu o equil\u00edbrio no meio do giro e eu precisei pux\u00e1-la de volta r\u00e1pido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 quero que voc\u00ea termine a noite sem uma concuss\u00e3o, \u2013 Ri, mantendo as m\u00e3os firmes nos ombros dela para impedir que ela cambaleasse. \u2013 ou que voc\u00ea vire lenda familiar pelos motivos errados.<br \/>\n\u2003\u2003Apontei com o queixo na dire\u00e7\u00e3o de Maya, que j\u00e1 estava sendo carregada por Dod para longe como um trof\u00e9u de guerra. Ele usava um bra\u00e7o para segurar ela e o outro para filmar, provavelmente arquivando material para chantagem futura entre primos. Cl\u00e1ssico.<br \/>\n\u2003\u2003Ela abriu a boca para responder, mas pareceu esquecer o argumento no meio do caminho. Acontecia bastante naquela noite. Era, na verdade, um dos meus momentos favoritos. Havia algo ador\u00e1vel naquela batalha dela contra a pr\u00f3pria n\u00e9voa alco\u00f3lica, tentando resgatar um racioc\u00ednio que j\u00e1 tinha ido embora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 muito chato. \u2013 Ela finalmente declarou, como se tivesse chegado \u00e0 conclus\u00e3o mais profunda do mundo me fazendo rir.<br \/>\n\u2003\u2003Levei a m\u00e3o at\u00e9 a mand\u00edbula dela e afastei todo o seu cabelo para tr\u00e1s e obrigando-a a me encarar. Ela piscou uma, duas vezes, e o olhar dela prendeu no meu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vamos beber \u00e1gua?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o.<br \/><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Seu pai me fez prometer que eu n\u00e3o deixaria voc\u00ea morrer hoje, %Ananya%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea vai obedecer? \u2013 Ela inclinou um pouco a cabe\u00e7a, me olhando com aquele sorriso que parecia desafiar qualquer tentativa de bom senso.<br \/>\n\u2003\u2003Era quase engra\u00e7ado como ela ainda tentava parecer no controle, como se estivesse conduzindo aquela situa\u00e7\u00e3o perfeitamente, quando claramente j\u00e1 estava alguns drinks al\u00e9m do limite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Estou tentando. \u2013 Respondi.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tentando o qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Fazer a coisa certa. \u2013 Por um segundo, ela pareceu n\u00e3o entender e eu n\u00e3o explicaria. Porque explicar significaria admitir que, enquanto para ela aquela era s\u00f3 mais uma noite de festa, m\u00fasica alta e u\u00edsque em excesso&#8230; para mim n\u00e3o era t\u00e3o simples. \u2013 \u00c1gua. Agora.<br \/>\n\u2003\u2003Antes que pudesse argumentar, Nina fez um som alto de desaprova\u00e7\u00e3o veio do nosso lado e reclamou: \u2013 Eu me recuso a continuar aqui enquanto isso vira\u2026 isso. \u2013 Ela apontou entre n\u00f3s dois com uma express\u00e3o de puro julgamento. \u2013 Voc\u00eas s\u00e3o insuport\u00e1veis.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea que veio at\u00e9 a gente! \u2013 Rebati, sem sequer olhar para ela. %Anya% riu baixo contra mim, o som abafado pelo meu ombro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, por favor\u2026\u2013 E, como se estivesse apresentando uma proposta irrecus\u00e1vel, Nina ergueu a bandeja de shots outra vez. \u2013 \u00daltima rodada. Eu prometo. Pela honra da fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que honra? \u2013 Retruquei no autom\u00e1tico. \u2013 A gente n\u00e3o tem nenhuma.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ei!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O qu\u00ea? \u00c9 verdade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso foi ofensivo. \u2013 Ela cruzou os bra\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foi factual.<br \/>\n\u2003\u2003Nina apertou os olhos, tentando encontrar uma brecha no meu argumento, e eu j\u00e1 estava preparando a pr\u00f3xima r\u00e9plica quando algu\u00e9m gritou do outro lado: \u2013 %Ananya% %Bhasin%!<br \/>\n\u2003\u2003Ethan veio na nossa dire\u00e7\u00e3o com passos r\u00e1pidos, j\u00e1 puxando a toalha do ombro e, sem parar, ele lan\u00e7ou o tecido na dire\u00e7\u00e3o de %Anya%. Ela tentou pegar no ar, mas o corpo atrasou meio segundo e ela pendeu pro lado, tra\u00edda pelo pr\u00f3prio equil\u00edbrio. Apertei a m\u00e3o na cintura dela e puxei de volta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que eu fiz agora, Ethan? \u00c9 meu anivers\u00e1rio. A agenda de reclama\u00e7\u00f5es s\u00f3 abre na segunda.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ethan! \u2013 Nina entrou no meio como uma parede humana, os bra\u00e7os abertos num gesto teatral que separava os dois. \u2013 Voc\u00ea veio para festa ou para trabalhar? A gente combinou: hoje voc\u00ea desliga o modo chefe.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Estou desligado! \u2013 Ele respondeu, sorrindo mas os olhos foram direto para mim. N\u00e3o eram hostis. N\u00e3o exatamente. Por\u00e9m havia ali uma avalia\u00e7\u00e3o silenciosa, de quem est\u00e1 medindo o terreno, calculando dist\u00e2ncias, decidindo se o visitante \u00e9 amigo ou amea\u00e7a. \u2013 Eu sou Ethan. E voc\u00ea deve ser o famoso namorado que a %Anya%, na sua habitual falta de considera\u00e7\u00e3o com os meus sentimentos, esqueceu de me apresentar.<br \/>\n\u2003\u2003Quase ri. N\u00e3o pela piada em si, mas pela execu\u00e7\u00e3o. Um coment\u00e1rio com mais de uma camada, entregue como se fosse apenas mais uma. T\u00edpico de ambientes corporativos. A gente aprendia a fazer isso: jogar uma isca com sorriso, ver se o outro mordia.<br \/>\n\u2003\u2003Eu apertei a m\u00e3o de volta, mantendo o contato por um segundo a mais do que o necess\u00e1rio. O suficiente para que ele soubesse que eu n\u00e3o era um alvo f\u00e1cil. Afinal, eu tamb\u00e9m era um cara do corporativo. Conhecia o jogo.<br \/>\n\u2003\u2003Mantive o sorriso, mas n\u00e3o soltei primeiro. Pequenos detalhes importam, especialmente quando algu\u00e9m est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o neles.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%. \u2013 Falei, por fim, encerrando a formalidade.<br \/>\n\u2003\u2003Desviei o olhar de Ethan por um momento e, sem querer, encontrei o de Andreas. Ele estava ali, parado a poucos passos, os bra\u00e7os cruzados numa postura que tentava parecer casual mas n\u00e3o enganava ningu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 o tal codiretor. \u2013 Andreas disse, leve como quem tenta disfar\u00e7ar o peso de uma pergunta que realmente quer fazer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sou eu mesmo. \u2013 Ethan estendeu a m\u00e3o com simpatia. \u2013 E voc\u00ea\u2026<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u2026o ex-namorado da %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003A frase caiu no meio do grupo como uma pedra num lago congelado.<br \/>\n\u2003\u2003Ele poderia ter dito amigo da %Anya%. Poderia ter dito namorado da Nina, j\u00e1 que aquela era a informa\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia para algu\u00e9m de fora. Mas n\u00e3o, ele escolheu <em>ex<\/em>. E eu tive a impress\u00e3o de que Ethan percebeu isso no mesmo instante pois seu olhar, antes apenas divertido, ficou mais atento.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% virou na mesma hora, como se tivesse sentido a mudan\u00e7a no ar antes mesmo de entender o motivo. Os olhos dela passaram por Andreas e ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que deveria.<br \/>\n\u2003\u2003Devia ter alguma coisa ali, alguma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o parecia completamente encerrada, um fio solto que algu\u00e9m tinha puxado sem querer.<br \/>\n\u2003\u2003Andreas foi o primeiro a quebrar o contato. Deu um passo para tr\u00e1s, murmurou alguma coisa que ningu\u00e9m conseguiu entender \u2013 uma desculpa qualquer, uma frase pela metade \u2013 e seguiu em dire\u00e7\u00e3o ao deck.<br \/>\n\u2003\u2003Nina soltou o ar pelo nariz, cruzando os bra\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Impressionante. Dois minutos de intera\u00e7\u00e3o e j\u00e1 temos clim\u00e3o. Parab\u00e9ns, Ethan. \u2013 Nina comentou, soltando uma risada sem muita convic\u00e7\u00e3o. Ela olhou na dire\u00e7\u00e3o onde Andreas tinha ido, depois para n\u00f3s, depois para o ch\u00e3o. Pareceu pesar as op\u00e7\u00f5es por um segundo e simplesmente desistiu de tentar explicar. \u2013 Eu vou l\u00e1 ver o que foi\u2026 Sei l\u00e1. Tudo isso.<br \/>\n\u2003\u2003Ethan acompanhou a sa\u00edda dela com o olhar, pensativo por meio segundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 U\u00e9? \u2013 Disse ent\u00e3o, voltando para n\u00f3s. \u2013 O que foi que eu fiz? Eu estava esperando uma rea\u00e7\u00e3o ciumenta do atual\u2026 \u2013 Completou, lan\u00e7ando um olhar r\u00e1pido para mim \u2013 \u2026n\u00e3o do ex. \u2013 Ele falou divertido.<br \/>\n\u2003\u2003Desviei o olhar de Ethan para %Anya%. Ela ainda estava parada no mesmo lugar como se estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Por alguns segundos, ela apenas ficou em sil\u00eancio. Ent\u00e3o soltou um suspiro e virou o rosto para Ethan: \u2013 Ethan, em dez segundos a gente vai come\u00e7ar a se agarrar. Tem certeza de que quer estar aqui para isso?<br \/>\n\u2003\u2003Ethan n\u00e3o a deixou terminar a frase. Ergueu a garrafa num meio brinde, como quem encerra uma conversa perfeitamente normal, e j\u00e1 estava se afastando antes que algu\u00e9m pudesse dizer qualquer coisa.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei olhando Ethan se afastar por alguns segundos e voltei minha aten\u00e7\u00e3o para %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o\u2026 \u2013 Murmurei, inclinando um pouco a cabe\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o dela. \u2013 a gente vai se agarrar?<br \/>\n\u2003\u2003Ela me encarou por um instante, depois revirou os olhos, soltando uma risada curta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Eu s\u00f3 n\u00e3o aguento a cara dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Justo. \u2013 Dei de ombros. \u2013 Mas j\u00e1 que a gente n\u00e3o vai se agarrar \u2026 vamos vai falar sobre a cena do seu amigo Andreas agora? Ou amanh\u00e3?<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu de imediato, apenas soltou um suspiro longo. Mesmo b\u00eabada, rindo \u00e0 toa, trope\u00e7ando nas pr\u00f3prias decis\u00f5es, %Anya% n\u00e3o era distra\u00edda. O \u00e1lcool podia deixar os passos dela menos precisos, mas n\u00e3o apagava a capacidade que ela tinha de perceber tudo ao redor.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sabia exatamente do que eu estava falando. Sabia que eu tinha visto o olhar que Andreas sustentou nela, a forma como ele escolheu a palavra <em>ex <\/em>com uma precis\u00e3o que n\u00e3o era inocente. Sabia que aquele sil\u00eancio entre eles tinha dito mais do que qualquer conversa poderia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Amanh\u00e3. \u2013 Disse finalmente, como se soubesse que aquela conversa existiria de um jeito ou de outro. \u2013 Hoje a gente pode s\u00f3\u2026 \u2013 Ela fez um gesto vago com a m\u00e3o, os olhos j\u00e1 percorrendo a festa como se buscasse algo para desviar a aten\u00e7\u00e3o. \u2013 \u2026beber mais shots de gelatina?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Um shot de gelatina e nenhuma outra apari\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica de ex-namorados ou codiretores possessivos pelo resto da noite. \u2013 Estendi a m\u00e3o livre na dire\u00e7\u00e3o dela, como quem oferece um acordo. \u2013 Fechado?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Dois shots de gelatina. \u2013 Prop\u00f4s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%\u2026<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 meu anivers\u00e1rio! \u2013 Retrucou na hora e eu soltei um riso baixo, passando a m\u00e3o pelo rosto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 mais dois.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% segurou o primeiro copo como se estivesse encarando um inimigo pessoal. Fez uma careta exagerada, torceu o nariz com uma dramaticidade que merecia um pr\u00eamio, fechou os olhos por alguns segundos \u2013 como quem se prepara para um mergulho \u2013 e ainda teve a aud\u00e1cia de reclamar entre um gole e outro, como se aquele pequeno shot de gelatina fosse uma prova de resist\u00eancia. E o segundo demorou ainda mais.<br \/>\n\u2003\u2003Diferente dela, que parecia mais interessada em transformar cada gole em um espet\u00e1culo do que realmente beber, eu fui direto. Peguei o copo, inclinei a cabe\u00e7a e virei de uma vez. Antes que ela tivesse tempo de fazer algum coment\u00e1rio, peguei o segundo e repeti o movimento. O pequeno tilintar do copo vazio contra a madeira soou quase como um ponto final.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% ficou me encarando em sil\u00eancio por alguns segundos. Ent\u00e3o soltou um assobio baixo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uau. \u2013 Ela apontou para os copos vazios na minha frente. \u2013 Voc\u00ea bebe como se tivesse algum motivo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu tenho v\u00e1rios. \u2013 Dei de ombros, tentando parecer casual, como se n\u00e3o tivesse acabado de virar dois shots em sequ\u00eancia e como se o mundo n\u00e3o estivesse levemente inclinado alguns graus para a esquerda. \u2013 Voc\u00ea, por exemplo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sou um motivo? \u2013 Ela perguntou, apontando para mim com uma express\u00e3o divertida, como se tivesse acabado de encontrar uma brecha no meu argumento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tenho uma lista de motivos chamada \u201c%Anya%\u201d. \u2013 Fiz uma pausa proposital, s\u00f3 para ver a rea\u00e7\u00e3o dela. \u2013 \u00c9 uma lista longa. Tem subitens.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Subitens! \u2013 Ela gargalhou, segurando minha camisa para se equilibrar. \u2013 Que tipo de subitens?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Para come\u00e7ar\u2026 voc\u00ea me prendeu em uma ilha com uns cinquenta indianos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 minha fam\u00edlia! \u2013 Ela rebateu, mas j\u00e1 estava rindo antes mesmo de terminar a frase.<br \/>\n\u2003\u2003E era imposs\u00edvel n\u00e3o rir junto.<br \/>\n\u2003\u2003Aproveitei que ela estava distra\u00edda e passei o bra\u00e7o pela cintura dela, puxando-a um pouco mais para perto. Oficialmente, era para impedir que ela perdesse o equil\u00edbrio. Extraoficialmente\u2026 eu s\u00f3 queria.<br \/>\n\u2003\u2003A m\u00fasica ficou para tr\u00e1s aos poucos, transformando-se em um som distante misturado \u00e0s vozes e \u00e0s risadas. No lugar das batidas, vieram as ondas. A garoa continuava caindo fina e insistente, deixando a areia escura sob nossos p\u00e9s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E todos queriam jogar beerpong comigo. \u2013 Continuei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 culpa sua. \u2013 Ela riu, tentando se afastar um pouco. Num movimento completamente impulsivo \u2013 e provavelmente influenciado pelos shots \u2013 ela prendeu as pernas ao redor da minha cintura, como se aquilo fosse a maneira mais f\u00e1cil de resolver a quest\u00e3o do equil\u00edbrio. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 bom no jogo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu nunca tinha jogado beerpong antes de hoje.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea ganhou aquele monte de partidas sem nunca ter jogado?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o sei como aconteceu. \u2013 Dei de ombros. \u2013 Seus primos gritando em hindi me deixaram confiante.<br \/>\n\u2003\u2003A \u00e1gua j\u00e1 come\u00e7ava a alcan\u00e7ar meus p\u00e9s quando continuei andando em dire\u00e7\u00e3o ao mar. %Anya% estava no meu colo, os bra\u00e7os presos ao redor do meu pesco\u00e7o e as pernas envolvendo minha cintura.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai me molhar! \u2013 Ela gritou, entre risadas e protestos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 molhada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 diferente!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A chuva est\u00e1 caindo em voc\u00ea desde que a gente chegou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Molhada de chuva \u00e9 diferente de molhada de \u00e1gua do mar!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 a mesma \u00e1gua.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o! \u2013 Ela insistiu, batendo de leve no meu bra\u00e7o com a m\u00e3o livre, embora continuasse perfeitamente confort\u00e1vel ali. \u2013 \u00c1gua do mar tem sal. Tem cheiro de alga. \u00c1gua de chuva \u00e9\u2026 \u00e9 limpa. Ela come\u00e7a no c\u00e9u.<br \/>\n\u2003\u2003Comecei a voltar para a areia, ainda carregando %Anya% como se ela fosse incapaz de aceitar que tinha pernas pr\u00f3prias. Mas antes que ela terminasse a explica\u00e7\u00e3o sobre a superioridade da \u00e1gua da chuva, meu p\u00e9 afundou.<br \/>\n\u2003\u2003Entre carregar %Anya%, os shots que j\u00e1 tinham come\u00e7ado a negociar com meu senso de dire\u00e7\u00e3o e a areia fofa que parecia ter virado lama de prop\u00f3sito, minhas op\u00e7\u00f5es ficaram bastante limitadas.<br \/>\n\u2003\u2003Afundei na areia, e %Anya%, ainda completamente agarrada a mim, veio junto no movimento. Ficamos parados naquela posi\u00e7\u00e3o rid\u00edcula at\u00e9 que o universo decidiu dar sua contribui\u00e7\u00e3o. Uma onda veio um pouco mais forte do que as anteriores e atingiu nossas costas antes que qualquer um de n\u00f3s tivesse tempo de reagir. A \u00e1gua gelada nos envolveu de uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003Ela abriu a boca, provavelmente pronta para reclamar, mas o que saiu foi uma mistura desajeitada de protesto, engasgo e risada, o que me fez gargalhar com vontade.<br \/>\n\u2003\u2003Ainda rindo, eu a ajustei melhor contra mim, porque bom senso, convenhamos, j\u00e1 tinha dado o fora naquela noite fazia umas boas horas. Ela continuava ali, completamente molhada, encaixada em mim, com um joelho de cada lado da minha cintura. Levei a m\u00e3o at\u00e9 o rosto dela, afastando com cuidado a mistura de \u00e1gua salgada e areia grudada na bochecha. O sorriso dela continuava l\u00e1, mas tinha algo diferente agora, um brilho mais lento, mais curioso.<br \/>\n\u2003\u2003Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse lendo uma placa em outra l\u00edngua, at\u00e9 que finalmente disse: \u2013 Voc\u00ea ri.<br \/>\n\u2003\u2003Pisquei, tentando acompanhar o racioc\u00ednio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% desviou o olhar, os dedos distra\u00eddos brincando com a gola da minha camisa molhada, enrolando e desenrolando o tecido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu vejo voc\u00ea rindo com todo mundo\u2026 \u2013 Ela come\u00e7ou, meio hesitante. \u2013 Com a Nina, com seus amigos, at\u00e9 com gente que voc\u00ea acabou de conhecer. Mas comigo n\u00e3o. \u2013 Ela franziu levemente a testa, como se estivesse tentando organizar o que sentia enquanto falava. \u2013 Comigo voc\u00ea fica\u2026 mais quieto \u00e0s vezes. Ou ent\u00e3o fala alguma coisa e logo depois parece que se arrepende. Como se estivesse medindo cada palavra. E eu n\u00e3o sei se \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o se sente t\u00e3o \u00e0 vontade\u2026Ou se \u00e9 uma linha que voc\u00ea n\u00e3o quer cruzar comigo.<br \/>\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o respondi de imediato. N\u00e3o porque me faltassem palavras. Pelo contr\u00e1rio, minha cabe\u00e7a estava cheia delas, todas prontas, organizadas\u2026 e in\u00fateis. Porque, no fim, todas esbarravam no mesmo ponto: ela tinha acertado. Em cheio.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% me observava sem pressa. E o estranho \u00e9 que n\u00e3o havia decep\u00e7\u00e3o ou irrita\u00e7\u00e3o no rosto dela. S\u00f3 aquela calma\u2026 quase definitiva. S\u00f3 parecia ter chegado a uma conclus\u00e3o que, de alguma forma, a minha aus\u00eancia de resposta j\u00e1 tinha confirmado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o precisa responder&#8230; \u2013 Murmurou, quebrando o sil\u00eancio com uma suavidade que desmontava qualquer defesa. \u2013 Eu s\u00f3\u2026 queria que voc\u00ea soubesse que eu percebo.<br \/>\n\u2003\u2003Eu queria dizer que n\u00e3o era t\u00e3o simples. Queria explicar que existiam coisas que ela n\u00e3o sabia mas, naquele instante, me ocorreu que talvez tamb\u00e9m existissem coisas que <em>eu<\/em> n\u00e3o sabia. Porque, no fim das contas, por que diabos eu me prendia tanto quando o assunto era ela? Por que diabos eu me prendia tanto perto dela? Por que o riso ficava mais curto, as palavras mais medidas, o corpo mais tenso?<br \/>\n\u2003\u2003A resposta veio meio torta, meio inconveniente: talvez, l\u00e1 no fundo, eu soubesse que, se me soltasse demais\u2026 n\u00e3o ia conseguir voltar a ser s\u00f3 meu. E isso era ao mesmo tempo a coisa mais assustadora e mais tentadora do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei ali, olhando para ela, com todas as respostas emboladas na garganta, pesadas demais para sair do jeito certo. Ent\u00e3o desviei o assunto covardemente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fala demais quando bebe. \u2013 Passei o bra\u00e7o ao redor dela e a puxei um pouco mais para perto, sentindo os joelhos dela afundarem de cada lado do meu quadril.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% sorriu. Um sorriso de vit\u00f3ria de quem sabia que tinha furado minha defesa, a paci\u00eancia de quem n\u00e3o precisava ouvir a resposta naquela noite e um afeto silencioso que dizia <em>tudo bem, eu espero<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se inclinou na minha dire\u00e7\u00e3o, fechou os olhos e deixou o resto comigo.<br \/>\n\u2003\u2003Eu congelei. Meu corpo travou, mas meu olhar n\u00e3o. Ele percorreu cada cent\u00edmetro do rosto molhado dela, devagar, como se eu estivesse guardando aquela imagem num lugar seguro: a \u00e1gua escorrendo pela testa, os fios de cabelo colados nas t\u00eamporas, o l\u00e1bio inferior levemente entreaberto. A respira\u00e7\u00e3o tranquila demais para algu\u00e9m que claramente estava esperando.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% abriu <em>apenas um <\/em>dos olhos. Aquele olho me encarou com uma mistura t\u00e3o precisa de impaci\u00eancia e divers\u00e3o que soltei uma risada nervosa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o vai me beijar?<br \/>\n\u2003\u2003Eu ri, n\u00e3o porque fosse engra\u00e7ado \u2013 embora fosse \u2013, mas porque era t\u00e3o %Anya% que chegava a ser previs\u00edvel. A impaci\u00eancia disfar\u00e7ada de provoca\u00e7\u00e3o, a certeza de que eu ia ceder.<br \/>\n\u2003\u2003Antes que pudesse analisar, pesar, ou encontrar uma desculpa esfarrapada, a beijei. Dessa vez, n\u00e3o havia plateia. N\u00e3o havia primos %Bhasin% gritando ao fundo, nem risadas de canto, nem aquele burburinho constante que tinha marcado a noite.<br \/>\n\u2003\u2003E foi diferente daquele primeiro beijo, l\u00e1 no come\u00e7o da noite, quando tudo era mais agitado, mais urgente, meio &#8220;vamos ver onde isso d\u00e1&#8221;. Agora, apesar de ainda estar b\u00eabada \u2013 e, sim, eu tamb\u00e9m j\u00e1 tinha passado do ponto fazia um tempo \u2013, n\u00e3o era mais a pressa que guiava.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% soltou um som baixinho contra minha boca, quase um suspiro. Senti os dedos dela se enroscarem no meu cabelo, me puxando um pouco mais para perto, encurtando qualquer espa\u00e7o que ainda teimasse em existir entre a gente.<br \/>\n\u2003\u2003Nos afastamos devagar at\u00e9 nossas testas se encostaram. Por alguns segundos, ficamos ali, deixando o som das ondas e da chuva, agora mais fraca, preencher o sil\u00eancio entre a gente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Estou com frio. \u2013 Ela murmurou e mexeu o nariz contra o meu, num gesto t\u00e3o bobo e t\u00e3o \u00edntimo que me arrancou um sorriso leve.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu tamb\u00e9m \u2013 Murmurei, inclinando-me o suficiente para ro\u00e7ar um beijo leve no l\u00e1bio inferior dela. \u2013 Mas n\u00e3o quero ir embora. \u2013 Minha voz saiu quase inaud\u00edvel, engolida pelo som constante do mar.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, pensei que ela n\u00e3o tivesse escutado. Mas %Anya% sempre captava at\u00e9 o que eu n\u00e3o dizia direito, principalmente aquilo que eu tentava esconder nas entrelinhas.<br \/>\n\u2003\u2003Ela me observou em sil\u00eancio por alguns segundos e, dessa vez, eu n\u00e3o desviei o olhar.<br \/>\n\u2003\u2003Deixei que ela me visse.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&emsp;&emsp;N\/A: gente do c\u00e9u\u2026 desde TSHA eu n\u00e3o escrevo uma long fic e eu tinha esquecido o quanto \u00e9 dif\u00edcil \ud83d\ude2d<br \/>\n&emsp;&emsp;eu realmente achei que dessa vez, por j\u00e1 ter EC toda pronta, seria mais f\u00e1cil\u2026 mas eu simplesmente mudo TUDO quando come\u00e7o a editar o cap\u00edtulo, ent\u00e3o acaba demorando muito mais do que eu imaginava<br \/>\n&emsp;&emsp;isso aqui \u00e9 basicamente uma desculpa pelo atraso \ud83d\udc4d<br \/>\n&emsp;&emsp;porque est\u00e3o vindo umas partes a\u00ed que eu j\u00e1 sei que v\u00e3o me travar completamente<br \/>\n&emsp;&emsp;enfim\u2026 paci\u00eancia comigo &lt;3<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003%Ananya% \u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500 \u25c7 \u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500 \u2003\u2003%Anthony% \u2013 \u053a \u2013 &emsp;&emsp;N\/A: gente do c\u00e9u\u2026 desde TSHA eu n\u00e3o escrevo uma long fic e eu tinha esquecido o quanto \u00e9 dif\u00edcil \ud83d\ude2d &emsp;&emsp;eu realmente achei que dessa vez, por j\u00e1 ter EC toda pronta, seria mais f\u00e1cil\u2026 mas eu simplesmente mudo TUDO quando come\u00e7o a editar o cap\u00edtulo, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2252],"class_list":["post-10624","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}