{"id":10622,"date":"2026-07-20T15:21:02","date_gmt":"2026-07-20T18:21:02","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-07-20T15:21:02","modified_gmt":"2026-07-20T18:21:02","slug":"capitulo-09","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-09\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 09"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003A chuva fina batia contra as janelas de vidro da casa isolada, arrastando trilhas l\u00e2nguidas pelas paredes como se o c\u00e9u estivesse cansado demais para chorar de verdade. A arquitetura moderna da casa de Tony Stark sempre fora vista como s\u00edmbolo de genialidade e sucesso, mas por dentro, aquele lar era um mausol\u00e9u de lembran\u00e7as cuidadosamente empilhadas em prateleiras invis\u00edveis. Ali, ele vivia em paz \u2014 ou algo que fingia ser paz. Paz interrompida por noites insones, cafe\u00edna demais e a chegada inoportuna de Nick Fury em plena manh\u00e3 nublada.<br \/>\n\u2003\u2003Tony estava na cozinha, ainda de pijama, a barba feita e os olhos fundos de quem s\u00f3 tinha dormido por obriga\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. A caneca de caf\u00e9 tremia levemente nos dedos, n\u00e3o por nervosismo, mas pelo ac\u00famulo de exaust\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Fury entrou sem bater, como sempre fazia, e n\u00e3o precisou de mais que tr\u00eas passos at\u00e9 que Tony percebesse que aquilo n\u00e3o era uma visita banal.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Se veio me lembrar do dossi\u00ea de novo, j\u00e1 te adianto que tenho uma fila enorme de \u201cproblemas maiores\u201d \u2014 murmurou Tony, sem levantar o olhar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea parece pior do que no enterro do Obadiah. \u2014 comentou Fury, quase com deboche, ao ver a express\u00e3o do amigo. \u2014 N\u00e3o vim falar de tratado. Vim falar de tr\u00eas fotos.<br \/>\n\u2003\u2003Tony soltou um riso seco.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Que bom saber que voc\u00ea ainda sabe fazer piada. De que fotos estamos falando? \u2014 Tony indagou, levemente curioso.<br \/>\n\u2003\u2003Fury largou o envelope sobre o balc\u00e3o de m\u00e1rmore entre os dois. Tony pegou-o, abriu com os dedos manchados de graxa e caf\u00e9, e retirou o conte\u00fado. Tr\u00eas fotos.<br \/>\n\u2003\u2003A primeira, uma beb\u00ea enrolada em manta escura, olhos muito abertos, azuis como a m\u00e3e. A segunda, Elena \u2014 com aquele olhar altivo e elegante que fazia cada ambiente girar em torno dela. A terceira\u2026 era ele mesmo, mais novo. Antes da dor. Antes do luto.<br \/>\n\u2003\u2003Tony ficou parado por um tempo que pareceu mais longo que todos os anos de sil\u00eancio que haviam se acumulado desde aquele dia. O envelope ficou pendurado entre seus dedos, mas ele s\u00f3 tinha olhos para as imagens.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Onde voc\u00ea achou isso? \u2014 a voz saiu baixa, como um sussurro preso no meio da garganta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Natasha. \u2014 Fury respondeu. \u2014 Ela foi investigar o rastro de assassinatos e achou um esconderijo. Ou melhor: foi levada a ele. Era uma armadilha.<br \/>\n\u2003\u2003Tony ergueu os olhos com uma urg\u00eancia que n\u00e3o se via nele h\u00e1 anos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 bem?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 viva. Machucada, mas viva. Antes da mulher ir embora, jogou isso em cima dela, essas fotos. Como se fosse&#8230; uma provoca\u00e7\u00e3o. Um recado. S\u00f3 que ela n\u00e3o entendeu; mas eu entendi, Tony.<br \/>\n\u2003\u2003Tony ficou quieto por um tempo. Os olhos presos na imagem da mulher. Elena. O nome era um sussurro esquecido nos cantos mais escuros da mem\u00f3ria. A \u00faltima mulher que ele amou antes de afundar em armaduras, armas e \u00e1lcool. E a beb\u00ea&#8230; era imposs\u00edvel ignorar os olhos. T\u00e3o azuis quanto os da m\u00e3e.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o faz sentido. \u2014 disse ele, num tom baixo. \u2014 Isso foi enterrado. Enterrado fundo. Voc\u00ea mesmo ajudou.<br \/>\n\u2003\u2003Fury assentiu, ainda calado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Fui eu quem fez o arranjo. Voc\u00ea me pediu e eu obedeci. O mundo n\u00e3o soube que voc\u00ea teve uma filha. Nem quando a Elena morreu. Nem quando a crian\u00e7a desapareceu. Oficialmente, nunca existiram.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o por que agora? Por que agora isso est\u00e1 vindo \u00e0 tona? \u2014 Tony esfregou o rosto, a mente a mil.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Porque algu\u00e9m sabe, Stark. E essa pessoa est\u00e1 brincando com voc\u00ea. Mexendo nas suas feridas. E tem mais.<br \/>\n\u2003\u2003Ele tirou outra folha dobrada do bolso do casaco. Era uma folha amarelada, com caligrafia torta e irregular. Tony reconheceu o estilo de letra de Natasha \u2014 rabiscado, impaciente. Estava transcrita uma parte de um poema infantil antigo, que ela havia encontrado colado na parede do esconderijo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u201cOito por um desejo, Nove por um beijo, Dez por uma surpresa que voc\u00ea deve ter cuidado para n\u00e3o perder, Onze por sa\u00fade, Doze por riqueza, Treze \u2014 cuidado, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo.\u201d \u2014 Fury recitou devagar. \u2014 Contando corvos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 dizendo que&#8230; isso tem a ver com os assassinatos? \u2014 Tony ergueu os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Os assassinatos come\u00e7aram com frequ\u00eancia irregular. Mas agora, com o poema em m\u00e3os, temos um padr\u00e3o de ataque. Um por verso. Oito&#8230; nove&#8230; dez&#8230; j\u00e1 temos treze v\u00edtimas. Natasha s\u00f3 tinha identificado quatro, mas agora cruzamos as localiza\u00e7\u00f5es com os nomes. A maioria com la\u00e7os antigos \u2014 ou com Hydra, ou com algum projeto obscuro que n\u00e3o chegou a ser p\u00fablico. Os arquivos n\u00e3o s\u00e3o claros, mas o n\u00famero de mortos subiu exponencialmente. E a cada morte, o pr\u00f3ximo verso parece se encaixar.<br \/>\n\u2003\u2003Tony recostou-se na cadeira como se tudo aquilo fosse peso demais pra suportar de p\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso aqui\u2026 \u2014 Ele pegou as fotos de novo. \u2014 Isso aqui \u00e9 pessoal. Algu\u00e9m est\u00e1 mexendo na parte da minha vida que nem eu consegui encarar. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 sobre vingan\u00e7a pol\u00edtica, nem terrorismo. \u00c9 sobre mim. \u00c9 sobre a Elena. E sobre\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o disse \u201cminha filha\u201d. N\u00e3o conseguiu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Seja l\u00e1 quem for essa pessoa, ela sabe tudo. E quer que voc\u00ea saiba que ela sabe. \u2014 Fury respirou fundo.<br \/>\n\u2003\u2003Tony ficou em sil\u00eancio por longos segundos. Quando voltou a falar, sua voz estava mais contida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E se isso for chantagem? E se algu\u00e9m descobriu o que aconteceu e quer me chantagear? Me fazer pagar?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 uma possibilidade. Mas a pergunta continua sendo: por que agora? \u2014 Fury n\u00e3o descartou a hip\u00f3tese.<br \/>\n\u2003\u2003Tony se levantou, finalmente. Pegou a folha do poema, olhou de novo para as fotos e depois foi at\u00e9 uma das janelas. A chuva ainda ca\u00eda, como se o tempo estivesse num looping melanc\u00f3lico. Ele apoiou a testa no vidro e fechou os olhos por um momento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o consigo deixar isso para tr\u00e1s, Nick. Nunca consegui. E agora est\u00e1 voltando&#8230; do jeito mais cruel poss\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A gente vai descobrir. \u2014 disse Fury, s\u00e9rio. \u2014 Mas voc\u00ea precisa se preparar, Tony, porque se esse jogo est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando. A \u00faltima pe\u00e7a pode ser algo que voc\u00ea n\u00e3o quer encarar.<br \/>\n\u2003\u2003Tony n\u00e3o respondeu. S\u00f3 ficou ali, im\u00f3vel, com a folha do poema em uma m\u00e3o e a foto da beb\u00ea na outra.<\/p>\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\n<p>\u2003\u2003O escrit\u00f3rio estava mergulhado em uma penumbra constante, como se o tempo l\u00e1 dentro tivesse desacelerado. Tony sentava-se sozinho, o rosto parcialmente iluminado pela luz azulada da tela do monitor \u00e0 sua frente. O resto do c\u00f4modo era tomado por sil\u00eancio, exceto pelo leve zumbido dos sistemas rodando ao fundo \u2014 um tipo de companhia fria, mas familiar.<br \/>\n\u2003\u2003Havia dias que ele n\u00e3o dormia direito.<br \/>\n\u2003\u2003O nome da filha, aquele nome que ele n\u00e3o dizia em voz alta h\u00e1 anos, tinha voltado a assombrar os pensamentos como um sussurro que n\u00e3o se dissipava. A conversa recente com Nick Fury n\u00e3o deixava d\u00favidas: algo estranho estava acontecendo. Algu\u00e9m estava escavando segredos que ele jurou manter enterrados.<br \/>\n\u2003\u2003Com um suspiro pesado, ele se inclinou sobre a mesa e ativou o painel lateral, revelando um compartimento de seguran\u00e7a embutido no tampo. Escaneou a digital, inseriu uma senha de acesso e, quando o cofre se abriu com um clique mec\u00e2nico abafado, puxou uma pequena pasta preta marcada com o s\u00edmbolo antigo da S.H.I.E.L.D.<br \/>\n\u2003\u2003Ela era fina, elegante e absolutamente dolorosa.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>%Mavis% Rose Stark<\/strong>.<br \/>\nNascida em <strong>31 de outubro de 1991<\/strong>.<br \/>\nDesaparecida desde <strong>22 de dezembro do mesmo ano<\/strong>.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Na ficha havia uma foto da beb\u00ea \u2014 olhos claros, vivos, arregalados para a c\u00e2mera. Parecia estar rindo, ou balbuciando algo com os l\u00e1bios rosados. Era uma das poucas imagens que ele ainda tinha. E mesmo assim, a encarava como se estivesse vendo um fantasma que nunca quis deixar ir embora. Uma vida que escapou pelas frestas do tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Virou a p\u00e1gina.<br \/>\n\u2003\u2003A imagem seguinte mostrava <strong>Elena Hope Stark<\/strong> \u2014 sua ex-mulher. Elegante, graciosa, com os mesmos olhos azuis da filha. Tony engoliu seco. N\u00e3o se permitia pensar nela com frequ\u00eancia. O luto era uma coisa estranha quando voc\u00ea o enterrava sob uma avalanche de trabalho e a\u00e7o. Ele nunca lidou direito com a morte de Elena. N\u00e3o que ela culpasse Tony pelo que havia acontecido no dia 22 de dezembro, mas ele sentia que havia falhado. Meses depois do sequestro de %Mavis%, Elena ainda se recusava a aceitar o que tinha acontecido e, naquela fat\u00eddica noite, ela se foi de uma forma horr\u00edvel. Tony estava com seus advogados quando recebeu a liga\u00e7\u00e3o do hospital tarde da noite \u2014 e por mais que ele tivesse corrido para o hospital, n\u00e3o havia nada que pudessem fazer. Elena tinha apenas 21 anos quando perdeu a vida no acidente de carro. S\u00f3 sobraram as roupas, as fotos e a dor.<br \/>\n\u2003\u2003E assim, veio o vazio.<br \/>\n\u2003\u2003As p\u00e1ginas seguintes eram registros da S.H.I.E.L.D., redigidos por Fury com o cuidado de quem sabia que aquele caso nunca deveria ver a luz do dia. <em>\u201cAtendendo ao pedido pessoal de Anthony Edward Stark, todas as men\u00e7\u00f5es ao desaparecimento e nascimento da crian\u00e7a foram removidas de registros hospitalares, cart\u00f3rios, bancos de dados e sistemas federais. Investiga\u00e7\u00e3o interrompida por solicita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio pai.\u201d<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Tony fechou os olhos por um instante.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se lembrava da noite em que pediu aquilo a Fury. Estava destru\u00eddo e sem rumo. Ainda sangrando da perda dos pais, e com Elena desmoronando em frente a ele dia ap\u00f3s dia. Quando %Mavis% sumiu, foi como se o \u00faltimo fio de esperan\u00e7a tivesse se partido. A ideia de que algu\u00e9m poderia sequestrar sua filha de dois meses e desaparecer sem deixar rastro&#8230; aquilo quase o quebrou. E ent\u00e3o, quando Elena morreu \u2014 e tudo o que restava era uma l\u00e1pide sem corpo \u2014 ele n\u00e3o aguentou. Mandou Fury encerrar tudo. Enterrar as evid\u00eancias. Selar o caso.<br \/>\n\u2003\u2003Mas agora, tudo voltava \u00e0 tona. N\u00e3o por vontade dele \u2014 e sim pelas m\u00e3os de um assassino misterioso, impiedoso, que parecia saber mais do que qualquer um.<br \/>\n\u2003\u2003Ele pegou a folha de papel que a Natasha encontrara no esconderijo: o poema infantil, rabiscado com uma caligrafia feminina e ligeiramente torta:<\/p>\n<p align=\"center\"><strong><em>Contando Corvos<\/em><\/strong><br \/>\n<em>Um para tristeza,<br \/>\nDois para alegria,<br \/>\nTr\u00eas para um funeral,<br \/>\nQuatro para nascimento.<br \/>\nCinco para prata,<br \/>\nSeis para ouro,<br \/>\nSete para um segredo que nunca ser\u00e1 contado.<br \/>\nOito por um desejo,<br \/>\nNove por um beijo,<br \/>\nDez por uma surpresa que voc\u00ea deve ter cuidado para n\u00e3o perder,<br \/>\nOnze por sa\u00fade,<br \/>\nDoze por riqueza,<br \/>\nTreze \u2014 cuidado, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo.<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003Tony passou os dedos pela folha. As mortes recentes&#8230; estavam seguindo esse padr\u00e3o. Era como um jogo de gato e rato. Um ritual. E agora, tr\u00eas fotografias haviam sido deixadas junto ao corpo de Natasha \u2014 a mesma foto da beb\u00ea, uma de Elena e uma dele.<br \/>\n\u2003\u2003Como se algu\u00e9m estivesse zombando, ou pedindo para ser notado.<br \/>\n\u2003\u2003Tony afastou-se da mesa e esfregou o rosto. Ele n\u00e3o era o mesmo homem de 1991. J\u00e1 tinha enfrentado alien\u00edgenas, rob\u00f4s assassinos, portais dimensionais. Mas aquilo ali, esse tipo de dor, era diferente. Tinha ra\u00edzes profundas demais. Porque n\u00e3o se tratava apenas de uma amea\u00e7a ao mundo \u2014 era para ele. Era para doer.<br \/>\n\u2003\u2003E ele tinha a impress\u00e3o de que algu\u00e9m estava arrancando cada camada que ele construiu para manter essa dor trancada a sete chaves. Ele voltou os olhos para a foto de %Mavis%. Dois meses de vida. Raptada e nunca encontrada.<br \/>\n\u2003\u2003At\u00e9 agora.<br \/>\n\u2003\u2003Ou, pelo menos&#8230; at\u00e9 algu\u00e9m decidir usar a imagem dela para acender um inc\u00eandio. Tony apertou a mand\u00edbula, determinado a ir at\u00e9 o fim. Se era isso que aquela pessoa queria \u2014 provocar, expor, arrastar o nome da filha de volta \u00e0 tona \u2014 ent\u00e3o ela conseguiria, mas da pior maneira poss\u00edvel. Porque ele ia descobrir quem estava por tr\u00e1s disso. E quando descobrisse&#8230; n\u00e3o haveria poema suficiente no mundo para impedir o estrago.<br \/>\n\u2003\u2003Ele fechou a pasta com for\u00e7a, guardou de novo no cofre e selou o compartimento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 pessoal agora. \u2014 murmurou.<br \/>\n\u2003\u2003Tony estava inquieto.<br \/>\n\u2003\u2003Era tarde. A casa estava mergulhada em um sil\u00eancio que n\u00e3o era exatamente reconfortante, mas trazia seguran\u00e7a. O tipo de sil\u00eancio que Tony havia aprendido a tolerar com o tempo \u2014 desde que aprendera a viver sozinho, desde que se tornara pai e, pouco depois, deixara de ser. Sentado em frente \u00e0 escrivaninha do andar inferior, ele se via cercado por uma tempestade de pap\u00e9is, relat\u00f3rios, imagens, documentos e memorandos com carimbos confidenciais que s\u00f3 ele e Fury podiam acessar. No centro de tudo, havia uma folha que n\u00e3o pertencia \u00e0 burocracia governamental nem aos arquivos secretos da S.H.I.E.L.D.; um simples peda\u00e7o de papel com versos infantis, datilografados com uma m\u00e1quina antiga e manchados de algo que ele preferiu n\u00e3o identificar. O poema. O maldito poema.<br \/>\n\u2003\u2003Seus dedos, manchados de grafite, passavam pelas linhas amareladas como se pudessem arrancar alguma verdade escondida nas entrelinhas. Ele conhecia aquelas palavras de cor agora. Cada n\u00famero. Cada senten\u00e7a. Cada rima sinistra.<br \/>\n\u2003\u2003Era como se algu\u00e9m estivesse usando versos de crian\u00e7a para construir uma obra de terror. Um plano que se desenhava em sangue e ossos. Cada assassinato dos \u00faltimos meses \u2014 e agora ele tinha a no\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o que aquilo havia tomado \u2014 seguia um padr\u00e3o. Um ritmo e um prop\u00f3sito. N\u00e3o eram mortes aleat\u00f3rias, nem obra de um lun\u00e1tico qualquer. Havia inten\u00e7\u00e3o. E havia m\u00e9todo, mesmo que a execu\u00e7\u00e3o fosse monstruosa.<br \/>\n\u2003\u2003Tony se levantou da cadeira e come\u00e7ou a andar de um lado para o outro da sala, ainda com o poema nas m\u00e3os, sem tirar os olhos da folha, como se ela fosse saltar em chamas a qualquer momento. A verdade \u00e9 que ele j\u00e1 havia entendido \u2014 embora se recusasse a aceitar. A contagem tinha terminado ali, embora os assassinatos n\u00e3o. E os n\u00fameros n\u00e3o mentiam. Treze j\u00e1 estavam mortos, mas talvez a ordem ou a relev\u00e2ncia estivesse incorreta. Ou talvez alguns n\u00e3o pertencessem \u00e0 lista.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se virou para o painel hologr\u00e1fico ao lado da mesa e come\u00e7ou a projetar os dados. As imagens das v\u00edtimas surgiram em janelas flutuantes: rostos congelados no tempo, olhos apagados pela viol\u00eancia, contextos diferentes, locais distintos. Mas todos alinhados por algo mais sombrio. Algo que ultrapassava fronteiras e deixava um rastro que nenhuma tecnologia parecia ser capaz de rastrear. Um racioc\u00ednio que ainda n\u00e3o tinha sentido&#8230; exceto pelo poema.<br \/>\n\u2003\u2003Tony puxou um dos arquivos especiais. N\u00e3o era digital, era f\u00edsico. Trancado h\u00e1 anos em um cofre escondido atr\u00e1s de uma estante com tecnologia de camuflagem de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. Os arquivos do relat\u00f3rio final do acidente que o tornou \u00f3rf\u00e3o aos 21. Ou, como ele mesmo nomeara, o in\u00edcio do fim. Era o dossi\u00ea da trag\u00e9dia de 1991. O carro, a estrada. O sangue e os pais. E o desaparecimento que ele jurara manter em segredo at\u00e9 o fim dos seus dias.<br \/>\n\u2003\u2003O nome dela estava ali. %Mavis% Rose Stark. Duas fotos em preto e branco. Uma, um beb\u00ea enrolado em um cobertor com abelhas bordadas. A outra, um atestado de nascimento que havia deixado de ser registrado oficialmente. E por fim, a \u00faltima pe\u00e7a daquele quebra-cabe\u00e7a infernal: a certid\u00e3o de \u00f3bito presumido. Datada apenas seis dias depois do assassinato dos seus av\u00f3s. O caso fora encerrado como desaparecimento. Tony movera mundos e fundos para que ningu\u00e9m al\u00e9m de Fury soubesse. Nem mesmo Pepper, nem mesmo os Vingadores.<br \/>\n\u2003\u2003E agora, algu\u00e9m sabia.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se recostou na bancada, olhos cerrados, a respira\u00e7\u00e3o saindo com dificuldade. Estava cansado. Exausto de perseguir fantasmas \u2014 mesmo que nunca admitisse que acreditava neles. O mais cruel de tudo era a sensa\u00e7\u00e3o constante de que tudo isso ainda n\u00e3o terminaria t\u00e3o cedo. Que, de alguma forma, tudo aquilo apontava para ele.<br \/>\n\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que seus olhos retornaram ao poema. Os versos finais.<\/p>\n<p align=\"center\"><em>Dez por uma surpresa que voc\u00ea deve ter cuidado para n\u00e3o perder,<br \/>\nOnze por sa\u00fade,<br \/>\nDoze por riqueza,<br \/>\nTreze \u2014 cuidado, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo.<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003Treze j\u00e1 se foram. Teoricamente, a contagem j\u00e1 tinha finalizado, mas&#8230; ele tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que esse algu\u00e9m queria fazer dele a exce\u00e7\u00e3o. E a\u00ed estava o verso que parecia queimar na sua mente: <em>&#8220;Doze por riqueza.&#8221;<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Um arrepio se espalhou por sua coluna. Tony ergueu os olhos para a parede hologr\u00e1fica, onde sua pr\u00f3pria imagem aparecia entre os dados dos arquivos da Natasha. A Nat havia dito que as \u00faltimas tr\u00eas fotos foram jogadas sobre ela \u2014 uma mulher elegante, uma crian\u00e7a de olhos muito azuis&#8230; e ele. No centro de tudo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ah, \u00f3timo \u2014 murmurou, quase sem som. \u2014 Faltava ser sobre mim de novo.<br \/>\n\u2003\u2003Mas n\u00e3o era ego, era intui\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m queria que ele notasse. Algu\u00e9m estava conduzindo isso como um maestro leva uma sinfonia ao seu cl\u00edmax e o ato final estava reservado para ele.<br \/>\n\u2003\u2003A contagem n\u00e3o era s\u00f3 uma trilha de corpos, era uma hist\u00f3ria. Uma mensagem. E ele, gostando ou n\u00e3o, era o cap\u00edtulo final. Tony deixou o papel sobre a bancada, virou-se devagar e ficou ali, encarando o reflexo do pr\u00f3prio rosto nas janelas do escrit\u00f3rio. Se era verdade&#8230; se ele era a exce\u00e7\u00e3o do n\u00famero doze&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Ent\u00e3o precisava se preparar, mesmo que ainda n\u00e3o soubesse do que. O pior \u00e9 que a inquietude n\u00e3o dava tr\u00e9gua. Tony n\u00e3o dormia havia dois dias.<br \/>\n\u2003\u2003A casa estava silenciosa, exceto pelos passos apressados dele ecoando nos corredores, pelas luzes acesas em hor\u00e1rios indecentes e pelo tilintar constante de caneca contra bancada enquanto doses de caf\u00e9 evaporavam diante de sua distra\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. No escrit\u00f3rio, a proje\u00e7\u00e3o flutuava no ar: o mural digital das v\u00edtimas estava quase completo. <em>Quase<\/em>. A contagem havia parado temporariamente quando Anya morreu e ele sabia que era proposital, como uma bomba-rel\u00f3gio invis\u00edvel, mas o que realmente atormentava Tony era a perfei\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o. Era isso que o mantinha acordado. N\u00e3o era medo; era o inc\u00f4modo de saber que ele era parte daquilo. E ele sabia disso, mesmo que n\u00e3o tivesse coragem ainda de dizer em voz alta.<br \/>\n\u2003\u2003O poema \u2014 a maldita contagem de corvos \u2014 aparecia projetado no canto esquerdo da tela. Do um ao treze, cada verso parecia zombar da sua in\u00e9rcia. \u201cDoze, por riqueza\u201d, ele leu de novo, os olhos cansados fixos nas letras tortas que algu\u00e9m escrevera \u00e0 m\u00e3o em uma parede vermelha com algo que a per\u00edcia ainda n\u00e3o tinha conseguido identificar. Mas Tony sabia que era sangue. N\u00e3o havia tinta com aquele brilho denso e opaco. E o mais inquietante era que aquilo n\u00e3o era feito com pressa. A escrita era limpa, ordenada. Quase art\u00edstica.<br \/>\n\u2003\u2003Ele ampliou a imagem da \u00faltima cena do crime. Era brutal. Desnecessariamente brutal, como se o \u00f3dio precisasse se tornar est\u00e9tico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 arte pra quem n\u00e3o tem mais nada a perder \u2014 murmurou, apoiando as m\u00e3os na bancada, os ombros curvando sob o peso do pr\u00f3prio racioc\u00ednio.<br \/>\n\u2003\u2003O rosto apareceu refletido na superf\u00edcie da tela de novo \u2014 olhos fundos, a testa franzida como se o tempo tivesse decidido deixar marcas permanentes ali. E foi nesse instante que Happy entrou:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Tony&#8230;? Cara, t\u00e1 tudo bem?<br \/>\n\u2003\u2003Tony sequer virou o rosto. Piscou, uma, duas vezes, como se estivesse voltando de um transe. E respondeu:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Defina \u201cbem\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003Happy soltou um suspiro curto. Observou as luzes tremeluzindo, os arquivos abertos no tel\u00e3o, o rastro de copos de caf\u00e9 deixados sobre qualquer superf\u00edcie dispon\u00edvel. A casa parecia um bunker com toque de laborat\u00f3rio improvisado. Nada do que lembrava o lar elegante e cl\u00e1ssico que Tony Stark sempre manteve. O caos era s\u00f3 um sintoma.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o sai desse escrit\u00f3rio desde ter\u00e7a. Sabe que hoje \u00e9 s\u00e1bado, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu pedi um calend\u00e1rio funcional pra Sexta-Feira, mas parece que ela acha desnecess\u00e1rio me lembrar que o tempo continua passando \u2014 respondeu Tony com a voz seca, ir\u00f4nica, mas sem o costumeiro brilho de provoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Happy se aproximou devagar, como quem tenta n\u00e3o assustar um animal ferido. Lan\u00e7ou um olhar ao mural de v\u00edtimas e ao poema em destaque.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso tem a ver com aquele lance da Natasha? \u2014 perguntou. \u2014 Ouvi a conversa do Fury sem querer.<br \/>\n\u2003\u2003Tony ficou em sil\u00eancio. A m\u00e3o esquerda tamborilava contra o balc\u00e3o. Os olhos n\u00e3o piscavam. E ent\u00e3o ele falou, em um tom baixo, quase num sussurro:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Fury me deixou tr\u00eas fotos, Happy. A Nat quem as encontrou. %Mavis%, a Elena&#8230; e eu. Por que eu? Por que agora?<br \/>\n\u2003\u2003Happy demorou a responder. N\u00e3o sabia o que dizer. S\u00f3 via o amigo e chefe afundando outra vez naquela espiral de obsess\u00e3o e perda, algo que j\u00e1 tinha presenciado antes. Depois de Nova York, depois de Ultron. Depois da Elena. Al\u00e9m de Fury, Happy era o \u00fanico que sabia sobre a esposa e a filha.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Olha&#8230; voc\u00ea j\u00e1 considerou que pode ser algu\u00e9m querendo s\u00f3 mexer contigo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Claro que considerei, mas \u00e9 mais do que isso. \u2014 Tony virou-se finalmente, os olhos t\u00e3o exaustos que pareciam secos. \u2014 A contagem ainda n\u00e3o acabou. S\u00e3o treze corvos. Treze mortes para cada verso, mesmo que em ordem diferente. Eu sou o n\u00famero doze&#8230; ou uma exce\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Happy gelou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Que porra \u00e9 essa, Tony?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que faz sentido. Quem fez isso me conhece, sabe tudo. Cada ponto fraco, cada perda, cada buraco que eu deixei sem preencher. Algu\u00e9m est\u00e1 me punindo, Happy.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 surtando, cara. S\u00e9rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Talvez eu esteja. Mas me diz: e se eu n\u00e3o tiver?<br \/>\n\u2003\u2003A pergunta ficou suspensa no ar. Happy queria dizer algo, queria argumentar, queria dar uma bronca \u2014 qualquer coisa que tirasse aquele olhar do rosto de Tony, mas n\u00e3o tinha como. Porque, no fundo, mesmo sem entender, ele sabia que algo estava errado. Muito errado. E tudo indicava que essa hist\u00f3ria ainda ia ficar pior antes de melhorar.<br \/>\n\u2003\u2003Tony voltou-se para o mural e aumentou a imagem de uma das v\u00edtimas. Os olhos arregalados, o maxilar quebrado, o sangue formando uma po\u00e7a que espelhava o pr\u00f3prio horror do rosto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Quando o Fury me trouxe isso, eu ignorei e achei que n\u00e3o tinha import\u00e2ncia&#8230;, mas a\u00ed ele me trouxe as fotos e eu soube na hora. Quem fez isso queria a minha aten\u00e7\u00e3o&#8230; e queria me mandar um recado.<br \/>\n\u2003\u2003Happy engoliu em seco.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea acha que est\u00e1 nessa lista&#8230;?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o acho. Eu sei.<br \/>\n\u2003\u2003A voz saiu sem tremor, firme, como se j\u00e1 tivesse aceitado. Tony apertou um bot\u00e3o e projetou o pen\u00faltimo verso do poema em destaque. \u201cDoze, para riqueza\u201d. O \u00faltimo aviso. O ponto final da contagem. Mas Tony n\u00e3o estava preocupado com a amea\u00e7a evidente. O que o corro\u00eda era o motivo. E se havia uma resposta, ela estava enterrada junto com segredos que ele jurou nunca mais desenterrar.<br \/>\n\u2003\u2003Mas agora&#8230; ele n\u00e3o tinha escolha.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu vou descobrir quem est\u00e1 fazendo isso \u2014 disse, encarando o mural. \u2014 Nem que eu tenha que ir at\u00e9 o inferno para descobrir quem sabe sobre a Elena e a %Mavis%.<br \/>\n\u2003\u2003Happy soltou um resmungo preocupado, mas n\u00e3o disse mais nada. Apenas observou enquanto o amigo voltava a afundar nos arquivos, como um detetive \u00e0 beira do abismo \u2014 ou, talvez, um pai que finalmente come\u00e7ava a juntar as pe\u00e7as de um luto que fingiu n\u00e3o viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 %Mavis% Rose Stark. Nascida em 31 de outubro de 1991. Desaparecida desde 22 de dezembro do mesmo ano. Contando Corvos Um para tristeza, Dois para alegria, Tr\u00eas para um funeral, Quatro para nascimento. Cinco para prata, Seis para ouro, Sete para um segredo que nunca ser\u00e1 contado. Oito por um desejo, Nove por um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2504],"class_list":["post-10622","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}