{"id":10604,"date":"2026-07-15T11:50:39","date_gmt":"2026-07-15T14:50:39","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-07-15T12:06:00","modified_gmt":"2026-07-15T15:06:00","slug":"capitulo-5","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/clausuladeliberdade\/capitulo-5\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 5"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Acordei antes dela naquela<\/span> manh\u00e3. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, e por alguns minutos fiquei apenas observando %Helena% dormir. A respira\u00e7\u00e3o era lenta, tranquila, um dos bra\u00e7os descansava sobre o travesseiro do jeito de sempre, e o rosto transmitia uma serenidade incompat\u00edvel com a conversa que t\u00ednhamos tido dias antes.<br>\u2003\u2003Eu j\u00e1 conhecia aquela imagem de cor.<br>\u2003\u2003O problema era que minha cabe\u00e7a n\u00e3o colaborava mais.<br>\u2003\u2003Sem que eu quisesse, lembran\u00e7as da noite anterior voltavam em flashes desconexos. O hotel. A palavra &#8220;neutro&#8221;. O banho antes de voltar para casa. A resposta simples dela quando contei como tinha sido: <em>foi muito bom.<\/em><br>\u2003\u2003N\u00e3o eram cenas completas. Eram detalhes isolados que minha imagina\u00e7\u00e3o insistia em juntar at\u00e9 formar uma hist\u00f3ria inteira. Eu virei o rosto para o teto e fechei os olhos por alguns segundos.<br>\u2003\u2003Eu tinha pedido liberdade.<br>\u2003\u2003S\u00f3 n\u00e3o imaginei que ela viria acompanhada da necessidade de imaginar coisas que eu nunca quis imaginar.<br>\u2003\u2003E esse era o problema.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era o que %Helena% tinha feito.<br>\u2003\u2003Era o que eu fazia com aquilo depois.<br>\u2003\u2003Alguns minutos mais tarde, ela se mexeu na cama e abriu os olhos devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 acordou?<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2014 Que horas s\u00e3o? \u2014 Ela sorriu daquele jeito calmo que sempre tinha ao acordar.<br>\u2003\u2003\u2014 Seis e vinte.<br>\u2003\u2003\u2014 Droga.<br>\u2003\u2003Ela levantou e entrou no banheiro, enquanto eu permaneci sentado na cama. Ouvi o chuveiro ligar e fiquei encarando a porta fechada por tempo demais. Quando ela saiu, percebi imediatamente que alguma coisa me chamou a aten\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Vestia um blazer bem ajustado, o cabelo estava preso com mais cuidado do que de costume e o perfume parecia mais evidente. Ou talvez eu estivesse procurando sinais onde antes jamais teria procurado.<br>\u2003\u2003Fomos para a cozinha e, dessa vez, fui eu quem preparou o caf\u00e9. %Helena% se acomodou na bancada, abriu a agenda no celular e come\u00e7ou a revisar os compromissos do dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho Constitucional agora de manh\u00e3. \u00c0 tarde vou para o f\u00f3rum. A Dulce pediu que eu revise algumas pe\u00e7as antes da audi\u00eancia de quinta.<br>\u2003\u2003\u2014 Hm.<br>\u2003\u2003\u2014 O que foi? \u2014 Ela levantou os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Nada.<br>\u2003\u2003Ela continuou me observando por mais alguns segundos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 me olhando estranho desde que eu sa\u00ed do banheiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 mais arrumada. \u2014 Desviei a aten\u00e7\u00e3o para a cafeteira.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sempre me arrumo. \u2014 Ela franziu a testa.<br>\u2003\u2003\u2014 Hoje parece diferente.<br>\u2003\u2003\u2014 Diferente como? \u2014 %Helena% se levantou e caminhou at\u00e9 mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Mais produzida. \u2014 Dei de ombros.<br>\u2003\u2003\u2014 Ou voc\u00ea s\u00f3 est\u00e1 reparando mais. \u2014 Ela apoiou as m\u00e3os na bancada e sorriu de canto.<br>\u2003\u2003Aquilo me fez parar por um instante, porque fazia sentido.<br>\u2003\u2003\u2014 Impress\u00e3o sua \u2014 completou. \u2014 Eu estou exatamente igual. \u2014 Pegou a x\u00edcara da minha m\u00e3o, experimentou o caf\u00e9 e fez uma careta discreta. \u2014 Voc\u00ea colocou a\u00e7\u00facar demais.<br>\u2003\u2003Quase sorri, era um coment\u00e1rio comum, uma manh\u00e3 comum. Mas eu j\u00e1 n\u00e3o conseguia viver aquelas pequenas normalidades da mesma forma.<br>\u2003\u2003Enquanto ela falava sobre a audi\u00eancia e organizava mentalmente a agenda do dia, meus olhos acompanhavam o movimento da boca dela. E, sem qualquer inten\u00e7\u00e3o, minha cabe\u00e7a constru\u00eda uma compara\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o queria fazer.<br>\u2003\u2003Foi nesse momento que entendi uma coisa, eu tinha pedido liberdade, mas n\u00e3o tinha pedido para dividir espa\u00e7o com a minha pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o. Ela terminou o caf\u00e9, pegou a bolsa e caminhou at\u00e9 a porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Te vejo mais tarde.<br>\u2003\u2003Aproximou-se para me beijar.<br>\u2003\u2003O beijo continuava familiar. Quente. Carregado da intimidade constru\u00edda ao longo dos anos, mas, pela primeira vez, havia alguma coisa entre n\u00f3s que n\u00e3o existia antes. N\u00e3o era falta de amor, era excesso de consci\u00eancia. E eu come\u00e7ava a entender que imaginar podia ser muito mais doloroso do que simplesmente saber.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A aula de cl\u00ednica m\u00e9dica parecia mais arrastada do que o normal. No tel\u00e3o, o professor projetava um caso de um paciente de cinquenta e oito anos, com dor tor\u00e1cica at\u00edpica e hist\u00f3rico de hipertens\u00e3o, enquanto pedia que a turma levantasse hip\u00f3teses diagn\u00f3sticas. Eu anotava, respondia quando era chamado e acompanhava a discuss\u00e3o como fazia todos os dias, mas minha aten\u00e7\u00e3o escapava com frequ\u00eancia.<br>\u2003\u2003Minha cabe\u00e7a n\u00e3o estava naquela sala. Estava no s\u00e1bado que se aproximava.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;Vou sair de novo.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003A frase voltava sem que eu precisasse lembr\u00e1-la.<br>\u2003\u2003Quando o intervalo come\u00e7ou, fui direto para o corredor. Encostei na bancada de m\u00e1rmore e tirei o celular do bolso sem qualquer motivo real, apenas para ocupar as m\u00e3os. N\u00e3o havia mensagens novas. Ainda assim, fiquei olhando para a tela at\u00e9 perceber Isadora se aproximando com um copo de caf\u00e9.<br>\u2003\u2003Ela se apoiou ao meu lado e mexeu a bebida com uma concentra\u00e7\u00e3o exagerada, como se encontrar o ponto ideal do a\u00e7\u00facar fosse uma ci\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Se esse professor repetir &#8220;evid\u00eancia cient\u00edfica&#8221; mais uma vez, eu desisto da Medicina.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea fala isso toda semana. \u2014 Soltei um meio riso.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque toda semana ele repete isso umas cinquenta vezes.<br>\u2003\u2003Ficamos alguns segundos em sil\u00eancio, observando o movimento no corredor, at\u00e9 que ela voltou a falar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea respondeu errado aquela pergunta agora h\u00e1 pouco.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o respondi errado. \u2014 Olhei para ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Respondeu, sim. Confundiu os marcadores inflamat\u00f3rios.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi distra\u00e7\u00e3o. \u2014 Dei de ombros.<br>\u2003\u2003Ela me encarou por um instante antes de balan\u00e7ar a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea nunca \u00e9 distra\u00eddo.<br>\u2003\u2003N\u00e3o respondi.<br>\u2003\u2003Isadora tomou mais um gole do caf\u00e9 e continuou me observando, como se estivesse esperando que eu completasse o racioc\u00ednio sozinho.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea anda estranho esses dias. Muito mais quieto.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o ando. \u2014 Soltei uma risada sem humor.<br>\u2003\u2003Ela virou completamente o corpo na minha dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Anda, sim.<br>\u2003\u2003Sustentei o olhar dela por alguns segundos, mas acabei desviando primeiro. Passei a m\u00e3o na nuca e suspirei.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o achei que fosse ser assim. \u2014 Ela franziu levemente a testa.<br>\u2003\u2003\u2014 Assim como?<br>\u2003\u2003Demorei alguns segundos para responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Na primeira sa\u00edda dela&#8230; ela foi at\u00e9 o fim.<br>\u2003\u2003Isadora demorou um instante para entender.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi at\u00e9 o fim como?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela transou com o cara. \u2014 Engoli em seco.<br>\u2003\u2003Ao nosso redor, o corredor continuava exatamente igual. Gente passando de um lado para o outro, risadas, grupos comentando a prova, algu\u00e9m reclamando do est\u00e1gio. Era estranho como o mundo conseguia continuar funcionando quando a sua cabe\u00e7a parecia completamente ocupada.<br>\u2003\u2003\u2014 E isso mexeu com voc\u00ea \u2014 disse ela, mais afirmando do que perguntando.<br>\u2003\u2003Demorei antes de responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que fosse me sentir mais livre.<br>\u2003\u2003\u2014 E se sentiu? \u2014 Ela inclinou discretamente a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Pensei por alguns segundos.<br>\u2003\u2003\u2014 No come\u00e7o, sim. Eu me senti&#8230; no controle.<br>\u2003\u2003\u2014 E agora?<br>\u2003\u2003Respirei fundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Agora parece que eu abri uma porta que n\u00e3o sei mais fechar.<br>\u2003\u2003Ela permaneceu em sil\u00eancio por um momento, me analisando com a mesma aten\u00e7\u00e3o com que observava um paciente durante as aulas pr\u00e1ticas.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea ficou com duas garotas antes de ela sair com algu\u00e9m, n\u00e3o ficou?<br>\u2003\u2003\u2014 Fiquei.<br>\u2003\u2003\u2014 E foi at\u00e9 o fim com alguma delas?<br>\u2003\u2003Hesitei.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ela assentiu devagar, como se estivesse organizando as pe\u00e7as antes de chegar ao diagn\u00f3stico.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o o que est\u00e1 te incomodando n\u00e3o \u00e9 o sexo. \u2014 Continuei em sil\u00eancio. Ela respirou fundo antes de concluir: \u2014 \u00c9 o fato de ela ter atravessado essa linha antes de voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Aquilo acertou em cheio, porque fazia sentido.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o queria imaginar ela vivendo isso tamb\u00e9m \u2014 admiti, mais baixo.<br>\u2003\u2003Isadora soltou uma risada curta, mas havia mais compreens\u00e3o do que deboche.<br>\u2003\u2003\u2014 %Montenegro%&#8230; voc\u00ea queria liberdade at\u00e9 o momento em que ela passou a ser dela tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Baixei os olhos, ela tinha acertado de novo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o queria viver outras coisas? \u2014 perguntou.<br>\u2003\u2003\u2014 Queria.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o vive. \u2014 Balancei a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso.<br>\u2003\u2003Ela esperou.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 o qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Fiquei alguns segundos olhando para o ch\u00e3o antes de encontrar uma resposta.<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que eu queria saber que, no fim, ela ia escolher voltar.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi curto. Isadora cruzou os bra\u00e7os e soltou o ar devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea nunca quis liberdade. \u2014 Levantei os olhos para ela. \u2014 Voc\u00ea queria valida\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003A frase me desmontou.<br>\u2003\u2003Porque, naquele instante, eu percebi que ela tinha raz\u00e3o. Nunca tinha sido sobre experimentar o mundo. Era sobre confirmar que, depois de experimentar qualquer coisa, %Helena% ainda me escolheria.<br>\u2003\u2003S\u00f3 que agora ela estava vivendo essa liberdade de verdade.<br>\u2003\u2003E, pela primeira vez desde que tudo come\u00e7ou, eu n\u00e3o tinha mais certeza de que estava preparado para descobrir qual seria a escolha dela.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003%Helena% estava sentada \u00e0 mesa da sala, revisando alguma coisa da faculdade quando cheguei perto da porta. Os pap\u00e9is estavam espalhados \u00e0 frente dela, e a concentra\u00e7\u00e3o era tanta que ela demorou alguns segundos para perceber minha presen\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou sair hoje.<br>\u2003\u2003\u2014 Com a Natalie? \u2014 Ela levantou os olhos s\u00f3 ent\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9. Ambiente mais tranquilo dessa vez.<br>\u2003\u2003Esperava alguma rea\u00e7\u00e3o, qualquer sinal de desconforto. N\u00e3o veio. Ela apenas fechou a pasta devagar e respondeu:<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem por mim. Depois me conta.<br>\u2003\u2003A frase j\u00e1 tinha se tornado parte da nossa rotina, mas, naquela noite, carregava um peso diferente.<br>\u2003\u2003\u2014 Quer detalhes? \u2014 perguntei.<br>\u2003\u2003Ela sustentou meu olhar por um instante.<br>\u2003\u2003\u2014 Quero a verdade.<br>\u2003\u2003Aquilo me atravessou mais do que deveria, peguei as chaves e sa\u00ed.<br>\u2003\u2003O lugar era um bar pequeno, de ilumina\u00e7\u00e3o baixa e m\u00fasica num volume que permitia conversar sem precisar gritar. Era muito diferente das festas universit\u00e1rias onde tudo tinha come\u00e7ado. N\u00e3o havia gente espremida, copos vermelhos espalhados ou a sensa\u00e7\u00e3o de caos constante.<br>\u2003\u2003Parecia um encontro.<br>\u2003\u2003Natalie j\u00e1 me esperava em uma mesa perto da janela. Vestia um vestido simples, o cabelo ca\u00eda solto sobre os ombros, e sorriu assim que me viu.<br>\u2003\u2003\u2014 Repetindo a dose?<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que sim. \u2014 Sorri de volta.<br>\u2003\u2003A conversa fluiu com facilidade. Falamos sobre o internato que se aproximava, os plant\u00f5es que ainda estavam por vir, as viagens que ela sonhava fazer quando finalmente tivesse f\u00e9rias de verdade. Em algum momento, enquanto ria de alguma hist\u00f3ria, ela deixou a m\u00e3o descansar sobre a minha perna.<br>\u2003\u2003Eu percebi o gesto.<br>\u2003\u2003E quis perceb\u00ea-lo.<br>\u2003\u2003Quando ela se aproximou para me beijar, correspondi sem hesitar. Dessa vez, por\u00e9m, eu sabia que n\u00e3o queria parar ali. Havia uma parte de mim determinada a atravessar aquela linha, como se fazer isso fosse confirmar que eu realmente sabia viver a liberdade que tinha pedido.<br>\u2003\u2003E n\u00f3s transamos, tudo aconteceu com naturalidade, n\u00e3o houve constrangimento, nem d\u00favidas aparentes, mas, em algum ponto, minha cabe\u00e7a deixou de acompanhar o momento.<br>\u2003\u2003%Helena% apareceu sem ser chamada, a risada dela no sof\u00e1, o cheiro do caf\u00e9 pela manh\u00e3, o quarto, a rotina. Forcei minha aten\u00e7\u00e3o de volta.<br>\u2003\u2003<em>Concentra.<\/em><br>\u2003\u2003Mas a compara\u00e7\u00e3o surgia sozinha. N\u00e3o porque uma experi\u00eancia fosse melhor do que a outra. Eram apenas diferentes. E o diferente n\u00e3o provocou a euforia que eu imaginava, mas n\u00e3o era falta de desejo, era excesso de consci\u00eancia.<br>\u2003\u2003Mesmo estando ali, eu me observava o tempo inteiro, como se analisasse minhas pr\u00f3prias rea\u00e7\u00f5es, esperando sentir alguma confirma\u00e7\u00e3o que nunca chegava.<br>\u2003\u2003Quando tudo terminou, n\u00e3o senti culpa, mas tamb\u00e9m n\u00e3o senti arrependimento. O que veio foi uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento, eu tinha atravessado a linha que durante semanas parecia t\u00e3o importante e, ainda assim, nenhuma transforma\u00e7\u00e3o aconteceu dentro de mim. N\u00e3o houve liberta\u00e7\u00e3o, nem a sensa\u00e7\u00e3o de ter encontrado alguma resposta definitiva.<br>\u2003\u2003Apenas sil\u00eancio. Um vazio discreto, dif\u00edcil de explicar, eu tinha provado que conseguia, s\u00f3 que provar n\u00e3o trouxe o que eu imaginava. E, pela primeira vez, comecei a desconfiar de que talvez o problema nunca tivesse sido a falta de experi\u00eancia.<br>\u2003\u2003Talvez fosse o medo de perder a \u00fanica pessoa que realmente importava.<br>\u2003\u2003Natalie se vestiu primeiro, com a mesma leveza que tinha conduzido a noite inteira. Ajustou o cabelo diante do espelho e sorriu para mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi bom. \u2014 Assenti.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi.<br>\u2003\u2003E teria sido injusto mentir, porque foi bom e diferente, mas era uma diferen\u00e7a que terminava ali. N\u00f3s nos despedimos na porta do bar com um beijo breve, sem promessas nem cobran\u00e7as.<br>\u2003\u2003\u2014 Me chama qualquer dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Chamo.<br>\u2003\u2003Entrei no carro e fiquei alguns segundos com as m\u00e3os apoiadas no volante antes de ligar o motor.<br>\u2003\u2003Durante o caminho de volta, percebi que estava comparando as duas experi\u00eancias sem ter planejado fazer isso. N\u00e3o era uma quest\u00e3o de quem beijava melhor ou de quem despertava mais desejo.<br>\u2003\u2003Era outra coisa.<br>\u2003\u2003Com %Helena%, tudo acontecia naturalmente. Eu conhecia o jeito dela, o tempo dela, as rea\u00e7\u00f5es dela. Nunca precisava pensar no que fazer ou no que dizer. Depois de tantos anos, a gente simplesmente funcionava.<br>\u2003\u2003Com Natalie foi diferente. Foi bom, foi leve, mas exigiu uma aten\u00e7\u00e3o que eu nunca precisei ter com %Helena%. Em v\u00e1rios momentos eu me peguei pensando no que estava fazendo, como se estivesse avaliando a situa\u00e7\u00e3o enquanto ela acontecia.<br>\u2003\u2003Parei em um sinal vermelho e respirei fundo.<br>\u2003\u2003Passei a semana inteira imaginando %Helena% com outro homem. Agora, pela primeira vez, pensei em como era estar com ela.<br>\u2003\u2003Percebi que nunca encontraria em outra pessoa a mesma intimidade que constru\u00edmos ao longo dos anos. N\u00e3o era algo que surgia em uma noite ou depois de alguns encontros. Era resultado do tempo, da conviv\u00eancia e da confian\u00e7a que existia entre n\u00f3s.<br>\u2003\u2003Foi nesse momento que algumas coisas come\u00e7aram a fazer sentido.<br>\u2003\u2003Eu dizia que queria viver outras experi\u00eancias, mas, no fundo, o que eu queria era descobrir se %Helena% continuaria me escolhendo depois de viver as dela.<br>\u2003\u2003Talvez o meu medo nunca tivesse sido perder experi\u00eancias.<br>\u2003\u2003Talvez fosse perd\u00ea-la.<br>\u2003\u2003Quando estacionei em frente ao pr\u00e9dio, permaneci alguns segundos dentro do carro antes de desligar o motor. Ainda estava tentando organizar os pr\u00f3prios pensamentos.<br>\u2003\u2003Subi at\u00e9 o apartamento mais devagar do que o normal.<br>\u2003\u2003Quando abri a porta, encontrei %Helena% no sof\u00e1, rindo de alguma coisa no celular. Ela parecia tranquila.<br>\u2003\u2003Fiquei observando a cena por alguns segundos. N\u00e3o perguntei com quem ela conversava. Eu sabia que a pergunta n\u00e3o mudaria nada, mas tamb\u00e9m sabia que, se fizesse, o motivo n\u00e3o seria simples curiosidade.<br>\u2003\u2003Fechei a porta e ela levantou os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Nossa&#8230; quando voc\u00ea chegou?<br>\u2003\u2003\u2014 Agora.<br>\u2003\u2003%Helena% deixou o celular de lado, levantou e caminhou at\u00e9 mim. Sem dizer nada, aproximou o rosto do meu pesco\u00e7o e respirou discretamente.<br>\u2003\u2003N\u00f3s dois entendemos o gesto.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 com perfume de ningu\u00e9m \u2014 comentou, em tom neutro.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 Ela permaneceu em sil\u00eancio por alguns segundos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea&#8230;? \u2014 Assenti antes mesmo que ela terminasse.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. Eu transei com a Natalie.<br>\u2003\u2003%Helena% recebeu a informa\u00e7\u00e3o sem alterar a express\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 E como foi? \u2014 Pensei antes de responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi bom. \u2014 Ela esperou que eu continuasse. \u2014 Foi diferente.<br>\u2003\u2003\u2014 Diferente como?<br>\u2003\u2003Passei a m\u00e3o na nuca antes de responder.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o tinha hist\u00f3ria entre a gente. Era s\u00f3 aquele momento. \u2014 Ela continuou me olhando.<br>\u2003\u2003\u2014 E isso fez diferen\u00e7a? \u2014 Assenti.<br>\u2003\u2003\u2014 Fez. \u2014 Fiquei alguns segundos em sil\u00eancio antes de completar: \u2014 Foi uma experi\u00eancia boa, mas n\u00e3o foi igual.<br>\u2003\u2003\u2014 Igual a qu\u00ea? \u2014 Olhei diretamente para ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Igual a estar com algu\u00e9m que eu amo.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu.<br>\u2003\u2003Continuei, porque sentia que precisava explicar melhor.<br>\u2003\u2003\u2014 Com voc\u00ea tudo acontece naturalmente. Eu n\u00e3o fico pensando no que fazer nem tentando entender se estou sentindo a coisa certa. Eu simplesmente estou com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003%Helena% permaneceu em sil\u00eancio. Ela n\u00e3o sorriu, n\u00e3o chorou, n\u00e3o fez perguntas. Apenas me ouviu at\u00e9 o fim. Passei a m\u00e3o pelos cabelos e respirei fundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu preciso dormir.<br>\u2003\u2003Eu realmente precisava. Minha cabe\u00e7a estava cansada demais para continuar aquela conversa. Fui para o quarto com a sensa\u00e7\u00e3o de que tinha passado tempo demais procurando uma resposta para a pergunta errada.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2b50\u2b50\u2b50 \u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2563],"class_list":["post-10604","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-clausuladeliberdade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10604"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}