{"id":10432,"date":"2026-06-13T17:00:00","date_gmt":"2026-06-13T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-12T13:03:01","modified_gmt":"2026-06-12T16:03:01","slug":"ato-unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/hounddog\/ato-unico\/","title":{"rendered":"ATO \u00daNICO"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"right\"><em>\u201cSe sou chefe dos pecadores, tamb\u00e9m sou chefe dos sofredores\u201d<\/em><br>\u2014 <strong>STEVENSON<\/strong>, R. L.<em> O estranho caso de Doutor Jekyll e Senhor Hyde.<\/em><\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>%RIONA%.<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>FIZ UMA CARETA QUANDO MEU NARIZ ARDEU, OUTRA VEZ.<\/strong> Era o cheiro de mirra misturado com jasmim que incomoda. Espalhava-se pelo ar, pungente, <em>quase<\/em> sufocante em uma fuma\u00e7a esbranqui\u00e7ada que se projetava para fora do <em>tur\u00edbulo<\/em>, um pouco mais a frente, o <em>coroinha<\/em> franzino agitou-o como um p\u00eandulo, de um lado para o outro, espalhando mais e mais o aroma insuport\u00e1vel por toda a nave da <em>Catedral<\/em>. Tecnicamente, havia sido um pedido de Laiose Fagan, a futura esposa de Casey, com o prop\u00f3sito de purificar e oferecer um come\u00e7o <em>limpo<\/em> para o matrim\u00f4nio dos dois. Uma cat\u00f3lica ferrenha, \u00e9 claro, mas todos da fam\u00edlia Fagan eram; n\u00e3o que seguissem os des\u00edgnios de <em>Deus<\/em> corretamente \u2014 o pai era um prom\u00edscuo de merda, roubou uma quantia consider\u00e1vel do capital de giro de um banco mediano em Swansea, para cobrir com o que havia feito conseguiu convencer um Lorde moribundo a vender-lhe o t\u00edtulo a pre\u00e7o de banana, com o novo t\u00edtulo, lavou o dinheiro investindo em um pub question\u00e1vel, at\u00e9 que a quantia inteira estivesse novamente no mercado sem vest\u00edgios aparente; a m\u00e3e era uma viciada em calmantes tarja preta, com propens\u00e3o ao misticismo, um problema alco\u00f3lico severo, e um personal trainer com um pau grosso o suficiente para a convencer de que sua melhor escolha era continuar com o marido pelo \u201cbem\u201d de sua filha, enquanto dava uma na lavanderia do casar\u00e3o todas as quintas-feiras a tarde. N\u00e3o <em>importava<\/em> que eles n\u00e3o fossem exatamente quem diziam ser, naquele jogo tudo o que importava era apenas se eles <em>pareciam<\/em> ser. E Laiose Fagan, com seu hist\u00f3rico de notas perfeitas, puritanidade religiosa, e juventude era exatamente o cordeiro <em>perfeito<\/em> para o sacrif\u00edcio. Os pais dela n\u00e3o tinham <em>ideia<\/em> do que haviam acabado de impor sobre os ombros da filha, no <em>destino<\/em> que provavelmente a aguardava \u2014 os cora\u00e7\u00f5es que iriam se partir, o desespero que se tornaria sua companhia, o abate <em>literal<\/em> de si mesma \u2014, igualmente, n\u00e3o posso dizer que eles se importam tanto assim com a garota para oferecer pesar pela situa\u00e7\u00e3o que a colocaram.<br>\u2003\u2003Se eles se importassem, n\u00e3o teriam aceitado a proposta do pai de Casey assim t\u00e3o r\u00e1pido. Cormac Byrne era apenas um empreendedor <em>afiado<\/em>, um CEO de um aglomerado de estabelecimentos que dominavam a vida noturna e especialmente a competitividade com a <em>outra<\/em> cerveja preta, mas n\u00e3o era uma boa pessoa. Veja bem, <em>ningu\u00e9m<\/em> poderia ser uma <em>Guinness<\/em>, mas isso n\u00e3o significava que <em>n\u00e3o houvesse<\/em> espa\u00e7o para competi\u00e7\u00e3o; Cormac havia constru\u00eddo um imp\u00e9rio perfeito para ocultar seu <em>real<\/em> trono, <em>mas este<\/em> era um detalhe para um outro momento. No momento, t\u00ednhamos precedentes mais <em>s\u00e9rios<\/em> do que analisar a fundo a competitividade de empresas de fachadas e nomes laranja para manter o dinheiro circulando sem ter a aten\u00e7\u00e3o do principado brit\u00e2nico no nosso rabo. N\u00e3o, nossa prioridade era ter <em>certeza<\/em> de que <em>Casey<\/em> n\u00e3o iria fugir do altar. Respirei fundo mais uma vez, como se isso fosse capaz de ajudar-me em algo, e arrependi-me no segundo que uma nova lufada de incenso atingiu meu rosto. Dou um passo para tr\u00e1s, levando minha m\u00e3o esquerda em dire\u00e7\u00e3o a meu rosto, tentando ocult\u00e1-lo e evitar chamar aten\u00e7\u00e3o quando espirrei o mais baixinho que consigo.<br>\u2003\u2003\u00c9 claro que, n\u00e3o importava o <em>quanto<\/em> eu tentasse ser silenciosa, Anne Elizabeth Byrne, a <em>esposa<\/em> de Cormac, <em>sempre<\/em> perceberia minha presen\u00e7a ali. A ruiva endireitou os ombros, elegante e afiada como navalha, lan\u00e7ando-me um olhar severo, repreensivo, fez-me abaixar a cabe\u00e7a por respeito, uma comunica\u00e7\u00e3o silenciosa que compreendia a advert\u00eancia e a lembrava de que eu, <em>igualmente<\/em>, sabia qual era meu lugar. Anne Elizabeth Byrne jamais iria gostar de mim, em sua perspectiva, era o potencial produto de um <em>affair<\/em> que acabou muito mal, mal o suficiente para ter feito com que o p\u00e9treo e fr\u00edgido Cormac trouxesse a filha de sua <em>amante<\/em> para dentro de casa e lhe reservasse toda sua aten\u00e7\u00e3o para compensar a perda da m\u00e3e. A verdade \u00e9 que Anne Elizabeth provavelmente <em>ainda<\/em> n\u00e3o tinha consci\u00eancia de que n\u00e3o eu era filha de Cormac, nem liga\u00e7\u00e3o alguma com uma amante. Cormac Byrne <em>sempre<\/em> havia valorizado <em>apenas<\/em> uma coisa em toda sua vida, e isso era <em>lealdade<\/em>. Cega, pura, bruta, <em>inquestion\u00e1vel<\/em>; fora o que prometera para mim sobre os corpos de meus pais quando era pequena, o que eu teria se o seguisse.<br>\u2003\u2003Veja bem, Cormac me colocou abaixo de sua asa por culpa, isso era <em>inquestion\u00e1vel<\/em>, mas duvido muito que tenha sido por algo como uma paix\u00e3o secreta ou alguma bondade enviesada. Uma d\u00edvida <em>sempre<\/em> deve ser <em>paga<\/em>, era apenas o que era.<br>\u2003\u2003Tamb\u00e9m n\u00e3o me incomodava a ideia de que Anne Elizabeth Byrne visse-me como um bichinho de estima\u00e7\u00e3o de seu filho; n\u00e3o estava longe da verdade. N\u00f3s dois s\u00f3 t\u00ednhamos fun\u00e7\u00f5es <em>diferentes<\/em> naquele lugar. Supunha que Cormac tenha me acolhido por causa disso tamb\u00e9m; o herdeiro dele <em>precisava<\/em> de um escudo. Era boa o suficiente para o trabalho. Mordi o interior de minhas bochechas outra vez, controlando minha respira\u00e7\u00e3o para n\u00e3o respirar <em>mais<\/em> daquele maldito incenso do que precisava respirar, voltando a endireitar-me, em minha posi\u00e7\u00e3o ao lado de minha fam\u00edlia. Esforcei-me com demasiada concentra\u00e7\u00e3o para <em>n\u00e3o<\/em> expressar o quanto queria rir de toda a situa\u00e7\u00e3o; o olhar fulminante e ressentido que recebi de Casey, em seu terno impec\u00e1vel italiano de grife, e rosa branca, delicada, presa \u00e0 lapela do casaco pesado com um dos broches de corvos da fam\u00edlia Byrne, permeados por rubis, n\u00e3o ajudava em nada.<br>\u2003\u2003Ouvi meu pai soltar um pequeno pigarro baixo, em advert\u00eancia, e antes que pudesse inventar uma desculpa para deixar minha posi\u00e7\u00e3o, senti-o tomar minha m\u00e3o esquerda em seu bra\u00e7o, enroscando-a ao seu lado, como fizera com a esposa. Umedeci meus l\u00e1bios, trincando minha mand\u00edbula, permitindo-me focar em Laiose Fagan, e mais ningu\u00e9m. <em>Quase<\/em> senti pena da garota; ela era nova, esperan\u00e7osa demais, <em>achava<\/em> que estava se casando por amor \u2014 ou que pelo menos estava apaixonada por Casey. \u00c9 claro que provavelmente se apaixonou pela fachada que Casey apresentou para ela \u2014 a que ele era <em>treinado<\/em> para fazer; o comerciante, o negociador charmoso e divertido, \u00e0s vezes, meio espertalh\u00e3o que fechava os neg\u00f3cios do pai. Ela <em>ainda<\/em> n\u00e3o tinha ideia que <em>Casey<\/em> quebrava todos seus brinquedos <em>apenas<\/em> pelo <em>prazer<\/em> de v\u00ea-los despeda\u00e7ados antes de remont\u00e1-los como desejava. Para ela, Casey, muito provavelmente, seria um marido incr\u00edvel, e que ele iria lhe dar uma fam\u00edlia perfeita com tudo incluso, dois filhos ador\u00e1veis, um menino e uma menina, talvez tivessem mais um num futuro distante para suprir o vazio que a falta de um beb\u00ea faria, uma casa confort\u00e1vel no sub\u00farbio de Dublin, e quem sabe, uma casa no lago com pedalinhos em Cork. Uma casa de campo, e natais ador\u00e1veis quentinhos que seriam expostos em cart\u00f5es enviados para toda a fam\u00edlia. Algo tradicional, est\u00e1vel e <em>seguro<\/em>. Ela <em>ainda<\/em> n\u00e3o tinha <em>ideia<\/em> de que Casey <em>detestava<\/em> a ideia de ter filhos \u2014 tanto que fizera uma vasectomia alguns anos atr\u00e1s <em>apenas<\/em> para ter certeza de que n\u00e3o iria engravidar nenhuma de suas prostitutas preferidas por acidente. Casey <em>odiava<\/em> o campo, e se fosse escolher um lugar para viver, o desgra\u00e7ado faria quest\u00e3o de comprar uma cobertura duplex bem no centro de Dublin a caminho dos pubs. Casey cabia <em>tanto<\/em> naquele papel quanto <em>eu<\/em> o fazia, a diferen\u00e7a \u00e9 que, <em>Anne Elizabeth<\/em> amava <em>ele<\/em>, e queria certificar-se de que seu futuro estava assegurado.<br>\u2003\u2003Acho que \u00e9 por isso que ele estava t\u00e3o puto. Casey <em>me<\/em> culpava por n\u00e3o ter tomado seu lugar naquela barganha rid\u00edcula; na cabe\u00e7a dele era para <em>eu<\/em> estar fantasiada de noiva naquele altar, n\u00e3o ele, e n\u00e3o com Laiose Fagan. Com o Senhor Fagan, o idiota que havia vendido a pr\u00f3pria filha para o dem\u00f4nio e estava sorrindo agora, ao lado da esposa anestesiada como se este momento fosse permeado por felicidade e positividade, e n\u00e3o um abatedouro. Acho que estraguei minhas chances com meu futuro marido depois de quebrar o bra\u00e7o dele. Bem, n\u00e3o posso dizer que me importo muito com isso, e mesmo que Casey ressentisse-me, Cormac havia rido por uns bons trinta minutos quando lhe contei o que havia acontecido, n\u00e3o era como se <em>eu<\/em> estivesse em problemas no momento. Desde que eu me lembrasse da minha posi\u00e7\u00e3o naquela fam\u00edlia, n\u00e3o precisava <em>preocupar-me<\/em> com mais nada. Casey encarava-me de novo, e meu rosto se contorceu, dessa vez precisei abaixar a cabe\u00e7a, pressionando os cantos internos de meus olhos, fechando-os como se estivesse com uma dor de cabe\u00e7a irritante, e n\u00e3o lutando por minha vida para n\u00e3o come\u00e7ar a rir. Exalei baixo, entre os dentes, sentindo meu pai apertar minha m\u00e3o com advert\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu recomendo <em>mesmo<\/em> que n\u00e3o comece a rir, se o fizer os convidados ir\u00e3o perceber e a fam\u00edlia Fagan ir\u00e1 tomar isso como um <em>desrespeito<\/em>. \u2014 A voz de meu pai soou baixa, quase uma reprimenda sussurrada, mas por tr\u00e1s de seu tom caracter\u00edstico, frio e comedido, podia <em>ouvir<\/em> um certo humor colorindo suas palavras. Que filho da puta, ele estava tentando controlar o pr\u00f3prio riso <em>tanto<\/em> quanto <em>eu<\/em> estava. Lancei um olhar de soslaio, e vi os cantos dos l\u00e1bios de Cormac se retorcerem um pouco. \u2014 Olhe para frente, <em>amendoim<\/em>, n\u00e3o para <em>mim<\/em>.<br>\u2003\u2003Mordi o interior de minhas bochechas com um pouco mais de for\u00e7a, mas obedeci sua ordem sem contestar. Concentrei-me em um ponto invis\u00edvel de uma das colunas da nave da catedral, questionando-me silenciosamente qual seria de fato a cor que a parede possu\u00eda, j\u00e1 que o sol poente e as sombras a abstra\u00edam. Ouvi-o soltar um riso baixo, grave que pareceu reverberar do centro de seu peito para fora de seus l\u00e1bios finos de maneira imponente. Sufoquei um riso com muito custo, acertando a lateral de suas costelas, com for\u00e7a o suficiente apenas para ser percebida, mas n\u00e3o machuc\u00e1-lo acidentalmente, e isso apenas o fez rir um pouco mais, usando-se de um amontoado de tosses secas para disfar\u00e7ar o riso. Do outro lado, no altar, Casey parecia <em>col\u00e9rico.<\/em> \u2014 oh, isso iria gerar problemas mais tarde. Mas ent\u00e3o, <em>quem<\/em> em s\u00e3 consci\u00eancia gostaria de colocar-se <em>contra<\/em> Cormac Byrne? Nem mesmo nossos inimigos o fariam, qui\u00e7\u00e1 seu filho.<br>\u2003\u2003Cormac Byrne <em>sempre<\/em> havia sido assim desde que me lembro de t\u00ea-lo visto pela primeira vez, encoberto pelas sombras e pelo sangue dos meus pais, Cormac era imponente, um predador do topo da cadeia alimentar <em>mesmo<\/em> entre os de sua esp\u00e9cie. Fazia facilmente voc\u00ea se sentir pequeno e insignificante, como porventura pigmeus diante de um <em>gigante<\/em>, mesmo que, de certa forma, sua apar\u00eancia fosse meramente med\u00edocre, semelhante a in\u00fameros outros CEOs. \u00c9 claro, ele n\u00e3o era exatamente um <em>CEO<\/em>, usava apenas a fachada para isso, mas o cabelo grisalho nas laterais, ainda impec\u00e1vel no topo de sua cabe\u00e7a, cortados cuidadosamente e precisamente em um penteado <em>slideback<\/em>, as rugas que formavam-se ao redor de seus olhos azuis afiados, como um lago congelado, a barba feita cuidadosamente para n\u00e3o deixar tra\u00e7o algum de presen\u00e7a em sua face, as roupas caras passadas a perfei\u00e7\u00e3o, sem nem mesmo <em>uma \u00fanica<\/em> dobra que pudesse revelar algum deslize ou pensamento adjacente para al\u00e9m de sua vida simples como empreendedor, chefe de uma fam\u00edlia de classe alta, competidor direto com marcas de bebida geracionais. Mas \u00e9 claro que n\u00e3o dava para ocultar a nota sombria que parecia acompanhar seu olhar g\u00e9lido onde quer que repousasse. \u00c9 claro que n\u00e3o poderia escapar do monstro que existia debaixo de sua pele, e, embora eu j\u00e1 o tivesse visto em pessoa no passado, conseguia senti-lo presente como uma sombra projetando-se sobre meus ombros. Sobre os ombros de todos ali.<br>\u2003\u2003Acho que, considerando nossa hist\u00f3ria, era de se esperar que eu nutrisse certo ressentimento. Havia sido <em>ele<\/em> a destruir tudo o que conhecia, a roubar-me meus pais; mas ent\u00e3o era ele que estava encarando-me com aquele olhar c\u00famplice que sabia que irritava Anne Elizabeth pelo fantasma que <em>ela<\/em> havia criado, e era <em>ele<\/em> quem havia me ensinado a sobreviver naquele mundo, a controlar minhas emo\u00e7\u00f5es e estar <em>sempre<\/em> alerta. N\u00e3o os fantasmas que <em>eu<\/em> havia varrido para debaixo do tapete. Havia uma linha desfocada entre n\u00f3s dois que nunca soube exatamente categorizar, e agora, percebo que n\u00e3o tinha a m\u00ednima vontade de examinar a fundo; n\u00e3o queria destruir isso \u00e0 toa. N\u00e3o queria perder o \u00fanico <em>porto seguro<\/em> que ainda tinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 rid\u00edculo \u2014 sussurrei por fim, ap\u00f3s ouvir o padre pedir para que Casey e Laiose recitassem suas palavras. Voltei meu olhar por um momento, para as costas de Laiose, observando como a renda contrastava contra sua pele p\u00e1lida e delicada, tentando controlar o impulso de autocr\u00edtica; as minhas possu\u00edam cicatrizes, incidentes e encontros mal calculados com inimigos que haviam me ensinado bem o suficiente para <em>nunca<\/em> confiar que minhas costas estavam seguras, a dela parecia porcelana chinesa. Se tocasse, provavelmente perceberia que eram macias. Senti inveja. \u2014 Quer mesmo ter Rufus e Cordelia Fagan na mesma mesa que voc\u00ea durante o <em>Natal?<\/em> J\u00e1 n\u00e3o basta o drama com Casey e Finn?<br>\u2003\u2003Observei o bom humor de meu pai oscilar brevemente com a men\u00e7\u00e3o de seu segundo filho, uma express\u00e3o pesarosa surgindo por seu semblante, antes de voltar a mesma frieza e controle que estava acostumada a ver em sua face. <em>Nunca deixe que suas emo\u00e7\u00f5es durem por muito tempo, voc\u00ea sobrevive com racionalidade, n\u00e3o desespero<\/em>, palavras dele. Apertei meus l\u00e1bios, tentando n\u00e3o fazer uma careta, estava em p\u00e9 ao que pareceram <em>horas<\/em>, e embora tivesse sido autorizada a usar o que sentia confort\u00e1vel, a gravata ao redor do meu pesco\u00e7o \u2014 para o horror de Anne Elizabeth Byrne \u2014 estava come\u00e7ando a incomodar, restritiva demais, e a capela n\u00e3o era l\u00e1 t\u00e3o gelada, mesmo que o ar condicionado estivesse ligado, com a quantidade exorbitante de 300 pessoas ali tornava-se quase insuportavelmente <em>quente<\/em> para que apreciasse. Nunca fui uma pessoa <em>calorosa<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 O que a faz pensar que Finn vir\u00e1 esse ano? Depois de nossa \u00faltima conversa, ele deixou <em>bem claro<\/em> o que acha de nossa fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, Casey e Laiose estar\u00e3o em lua de mel, em alguma ilha polin\u00e9sia, acho que conseguimos sobreviver a esta ceia tranquilamente \u2014 Cormac pontuou, racional, e dessa vez n\u00e3o consegui conter um sorriso em meu rosto. Desviei-o para o lado, tentando n\u00e3o chamar aten\u00e7\u00e3o alguma. A \u00faltima coisa que precisava era <em>Casey<\/em> paranoico outra vez, com os cochichos rid\u00edculos entre mim e meu pai. Cormac, para piorar a situa\u00e7\u00e3o, pareceu estranhamente satisfeito por ter me pegado com as m\u00e3os no crime, como sempre fizera desde que era pequena. Aquele olhar de \u201cte conhe\u00e7o\u201d que ele nunca me negou. \u2014 E n\u00e3o finja que voc\u00ea n\u00e3o <em>gostaria<\/em> de ver um pouco mais de drama na mesa, porque <em>sabe<\/em> que a conhe\u00e7o. Tenho certeza de que n\u00e3o est\u00e1 aqui agora <em>apenas<\/em> para apoiar seu irm\u00e3o. \u2014 <em>Seu irm\u00e3o<\/em>, meu pai falava com uma naturalidade que era capaz de fazer qualquer um ali <em>realmente<\/em> acreditar que sa\u00ed da boceta de Anne Elizabeth, e n\u00e3o que fui uma de suas v\u00edtimas, carregada para a masmorra de bom grado a fim de aplacar alguma culpa religiosa que ele havia desenvolvido por <em>cinco<\/em> minutos.<br>\u2003\u2003Dei de ombros, discretamente, erguendo meu queixo, dignamente. O padre pediu pelas alian\u00e7as e por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, tive <em>quase<\/em> certeza de que Casey iria fugir. Ele prendeu a respira\u00e7\u00e3o, deu um passo para tr\u00e1s, para o degrau abaixo da linha do altar, a mand\u00edbula t\u00e3o tensa que poderia facilmente cortar m\u00e1rmore, os olhos, avermelhados, fixaram-se no rosto do pai, e ent\u00e3o no meu, e ent\u00e3o em Laiose. A jovem n\u00e3o pareceu perceber a hesita\u00e7\u00e3o, ou se a fez, atribuiu ao nervosismo gerado pela grandiosidade do evento. Havia fot\u00f3grafos do lado de fora da catedral, empres\u00e1rios e parceiros dos neg\u00f3cios de Cormac Byrne <em>ainda<\/em> estavam ali para prestigi\u00e1-lo, assim como tentar encontrar brechas o suficiente para explorar fraquezas vantajosas para si. N\u00e3o me entenda mal, aquilo ali era um ninho de v\u00edboras, voc\u00ea s\u00f3 precisava convencer-se de que era a <em>mais venenosa<\/em>. Mas Casey estava calculando a corrida; reconhecia aquele olhar porque o tinha visto frequentemente desde o <em>momento<\/em> que Casey ficou noivo da jovem. N\u00e3o ia conseguir fugir, todavia, nosso pai havia sido claro, Casey se casava hoje, e se algu\u00e9m, qualquer um de n\u00f3s, ousasse atrapalhar, havia uma fazenda ao extremo norte do pa\u00eds com porcos o suficiente para fazer o trabalho em menos de duas horas. Tinha a impress\u00e3o de que Connor <em>quase<\/em> se cagou com a amea\u00e7a, Jaime e Angus mesmo silenciosos, pareceram engolir em seco. Acabei rindo de sua ideia, n\u00e3o por desrespeito, mas pelo tiro que aquilo tudo era no pr\u00f3prio p\u00e9. Casey n\u00e3o havia nascido para responsabilidades, muito menos para ser um marido; n\u00e3o havia virgem milagrosa no mundo inteiro que fosse mudar isso. Finn teria tido sorte melhor \u2014 se <em>Laiose<\/em> n\u00e3o o tivesse <em>trocado<\/em>. Agora, nossos seguran\u00e7as mais leais encontravam-se espalhados pelos bancos, discretos, mas presentes, prontos para nocautear Casey se fosse necess\u00e1rio. Com a quantidade de pessoas ali, todavia, comecei a questionar-me se n\u00e3o era algo poss\u00edvel. Se Casey tentasse correr, ele ia conseguir escapar.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o pensa em algo assim para voc\u00ea? \u2014 Meu pai escolheu <em>aquele<\/em> momento para me fazer aquela pergunta, e quase me engasguei com minha saliva. Precisei respirar fundo para n\u00e3o rir, e lhe lancei um olhar enviesado; questionava-me realmente se ele havia a feito por curiosidade ou se foi porque, a pr\u00f3xima na linha do abate era <em>eu<\/em>. Estreitei meus olhos, desconfiada. Em todos meus 25 anos, Cormac sempre ficara <em>feliz<\/em> de que n\u00e3o tinha planos para casar; <em>lealdade \u00e9 para com sua fam\u00edlia primeiro<\/em>, sempre dizia, mas agora? Simplesmente do nada? Chame-me do que quiser, paranoica, pessimista, descrente, mas era f\u00e1cil perceber uma armadilha quando voc\u00ea se deparava com algo assim. Ergui uma sobrancelha, esperando-o elaborar. Meu pai pareceu desaprovador, mas seu olhar era gentil, paternal demais para assumir que n\u00e3o havia inten\u00e7\u00e3o nenhuma por tr\u00e1s. \u2014 N\u00e3o me olhe assim, <em>amendoim<\/em>, estou orgulhoso por quem voc\u00ea \u00e9, nunca escondi isso de ningu\u00e9m, mas n\u00e3o sente falta <em>disso?<\/em> \u2014 Indicou com a cabe\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o de Casey e Laiose, e precisei trincar os dentes para n\u00e3o rir com incredulidade. Questionava-me se n\u00f3s dois est\u00e1vamos vendo a <em>mesma<\/em> cena, mas de alguma forma, desconfiava que n\u00e3o. \u2014 Uma <em>fam\u00edlia<\/em>, %Rio%, para <em>voc\u00ea <\/em>construir como bem quiser, talvez ter algumas crian\u00e7as, sua vida n\u00e3o <em>precisa<\/em> ser s\u00f3\u2026 <em>isso<\/em>. Pode me dizer se algum homem, ou mesmo mulher, a encantou, n\u00e3o ficarei em seu caminho, desde que seja bom para voc\u00ea e respeite nossa fam\u00edlia, na verdade, fa\u00e7o gosto. Apenas diga que arranjarei tudo, n\u00e3o precisar\u00e1 se preocupar com nada.<br>\u2003\u2003Encarei-o com uma surpresa c\u00f4mica, e vi os cantos dos l\u00e1bios dele se contra\u00edrem. N\u00e3o porque continham um riso, mas porque estava come\u00e7ando a ficar <em>envergonhado<\/em>. N\u00e3o era maluca de ferir o ego de Cormac, todavia, ent\u00e3o soltei um riso nasalado, depreciativo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu? \u2014 Ofereci a ele um sorriso torto, negando com a cabe\u00e7a. \u2014 Pare\u00e7o uma esposa para voc\u00ea? \u2014 sussurrei fazendo uma careta. Senti meu sorriso alargar com o suspiro pesado de Cormac. Apesar do meu tom leve, podia ver um brilho entristecido surgir ali, quase <em>desapontamento<\/em>; isso me incomodava mais do que qualquer outra coisa poderia ter feito, significava que ele <em>estava mesmo<\/em> falando s\u00e9rio. \u2014 Pai, por favor, a gente sabe que n\u00e3o sou boa em sustentar um personagem por muito tempo, al\u00e9m do mais, quem seria o maluco? \u2014 Fiz piada e quase dei risada comigo mesma; podia imaginar-me dando tapinhas, orgulhosa, em meu ombro com meu ombro, eu havia perdido muito tempo criando uma <em>fama<\/em> para meu nome, para n\u00e3o ser vista sequer como <em>potencial<\/em> noiva. Mordidas, pontap\u00e9s e amarguras inclusas. Homens possu\u00edam um ego fr\u00e1gil, qualquer coisa poderia afet\u00e1-los, por compet\u00eancia, fiz quest\u00e3o de os lembrar <em>por que<\/em> deveriam <em>me temer<\/em> e n\u00e3o <em>desejar<\/em>. N\u00e3o foi muito dif\u00edcil.<br>\u2003\u2003\u2014 Existem alguns, <em>bem-dispostos<\/em>, na verdade, n\u00e3o pensa em nenhum nome? \u2014 Cormac disse, e soltei um bufar, achando gra\u00e7a de suas palavras. Lancei um olhar descrente na dire\u00e7\u00e3o do mais velho, tentando <em>compreender<\/em> suas inten\u00e7\u00f5es. Era alguma alian\u00e7a que ele queria formar? Ou um outro estratagema para proteger <em>sua<\/em> fam\u00edlia? \u2014 N\u00e3o precisa sequer ser algu\u00e9m inserido na elite, querida, Jaime parece gostar muito de voc\u00ea, pelo o que soube at\u00e9 mesmo Casey j\u00e1 notou sua\u2026 <em>aprecia\u00e7\u00e3o<\/em> pelo rapaz, e ele \u00e9 um bom homem, leal a nossa fam\u00edlia, e parece fazer sucesso com as jovens \u2014 meu pai desdenhou da \u00faltima parte e tentei n\u00e3o fazer uma careta, porque aquela situa\u00e7\u00e3o era rid\u00edcula; aqui estava, a minha frente, um dos homens mais perigosos de toda Irlanda, e talvez Reino Unido inteiro, brincando de ser <em>casamenteiro<\/em>. Se eu <em>sequer<\/em> fosse assim t\u00e3o inocente\u2026 voltei meu olhar na dire\u00e7\u00e3o onde Jaime, um de nossos homens, encontrava-se, perto da segunda fileira \u00e0 esquerda, cabelos ruivos cacheados ordenados, olhos profundos, um nariz aquilino <em>muito bom<\/em>, e uma cicatriz que cortava metade de seu belo rosto. N\u00e3o posso dizer que fodas escondidas dentro de um carro ou no jardim de Anne Elizabeth tenham conseguido me <em>convencer<\/em> que <em>ele<\/em> seria um bom marido para mim.<br>\u2003\u2003Os olhos de Cormac estavam fixos em meu rosto quando voltei a encar\u00e1-la.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Tudo bem<\/em> \u2014 disse por fim, revirando meus olhos de maneira exagerada. Voltei-me na dire\u00e7\u00e3o de meu pai, com um sorrisinho que provavelmente o <em>alerta<\/em> que n\u00e3o estava levando nem um pouco aquela situa\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio. O que posso fazer? Era uma apreciadora <em>nata<\/em> da beleza que a liberdade humana me oferecia. <em>Gostava<\/em> de ter <em>op\u00e7\u00f5es<\/em>, n\u00e3o <em>certezas<\/em>. \u2014 Me arrume um <em>c\u00e3o de guarda<\/em>. \u2014 Alarguei meu sorriso ao ver a express\u00e3o de Cormac endurecer, desaprovador. Mordi o interior de minhas bochechas, segurando o riso, quando finalmente aquele espet\u00e1culo inteiro acabou; agora vinha uma das partes <em>cr\u00edticas<\/em> daquela situa\u00e7\u00e3o: <em>convencer Casey<\/em> a entrar no avi\u00e3o que o levaria para sua <em>lua de mel<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 E \u00e9 por <em>isso<\/em> que a senhorita est\u00e1 de castigo, mocinha. \u2014 Cormac apontou em minha dire\u00e7\u00e3o, mas minha petul\u00e2ncia compreendia bem o suficiente que, embora ele fosse um homem de <em>poucas<\/em> palavras, n\u00e3o era <em>assim<\/em> que ele me punia. Ao menos, <em>n\u00e3o mais<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Permiss\u00e3o para descansar, senhor \u2014 fiz piada e Cormac apertou os cantos dos l\u00e1bios em resposta. Tentei n\u00e3o suspirar, \u00e0s vezes meu senso de humor enviesado n\u00e3o acompanhava o dele. Uma falha <em>minha<\/em>, certamente. Senti-o apertar um pouco mais o toque em meu bra\u00e7o, como se n\u00e3o desejasse que deixasse seu lado; n\u00e3o era por algum sentimentalismo barato, Cormac n\u00e3o era <em>esse<\/em> tipo de pessoa, era sobre <em>passar<\/em> uma <em>mensagem<\/em>. <em>Unidade<\/em>. <em>Lealdade<\/em>. Mas n\u00e3o fazia parte daquela fam\u00edlia, e seria um erro enganar-me a acreditar que de fato havia um espa\u00e7o ali, n\u00e3o que Anne Elizabeth n\u00e3o fizesse trabalho o suficiente para refrescar minha mem\u00f3ria. Puxei meu bra\u00e7o com um pouco mais de for\u00e7a, apenas para impedi-lo de manter-me ali, e ent\u00e3o oferecei-lhe um olhar c\u00famplice. \u2014 Al\u00e9m disso, acho melhor voc\u00ea focar em um problema de cada vez, velhote, voc\u00ea j\u00e1 tem que cuidar de Casey, e sinceramente, boa sorte ao tentar convenc\u00ea-lo entrar naquele avi\u00e3o. \u2014 Dei uma piscadela para meu pai, ouvindo-o bufar e murmurar alguma coisa como \u201cpetulante\u201d em minha dire\u00e7\u00e3o, antes de afagar meu ombro esquerdo, sendo guiado para seguir a prociss\u00e3o de Laiose e Casey para fora da igreja.<br>\u2003\u2003Acenei na dire\u00e7\u00e3o de Casey com um sorriso doce, petulante, e vi quando seus olhos acenderam com uma f\u00faria mal contida \u2014 \u00e9, ele estava <em>prestes<\/em> a explodir, que <em>bom<\/em> que era Cormac lidando com ele, e n\u00e3o eu. N\u00e3o teria tanta <em>paci\u00eancia<\/em> quando nosso pai o tinha. Finalmente livre daquela encena\u00e7\u00e3o toda, levei minha m\u00e3o direita em dire\u00e7\u00e3o a gravata, afrouxando-a o suficiente para que repousasse contra meu peito, descartando com um movimento de meus ombros o casaco pesado, escuro. Foi uma sorte que Anne Elizabeth tivesse aceitado minha escolha de vestimenta, algo sutil e elegante que pudesse se camuflar contra as paredes adornadas de pinturas neocl\u00e1ssicas da catedral. Ou talvez, ela n\u00e3o se importasse, desde que fosse apenas um fantasma, acredito que eu tamb\u00e9m n\u00e3o me importava, mas a camisa de alfaiataria branca era irritante o suficiente para parecer me sufocar. Fiz uma careta indicando na dire\u00e7\u00e3o de Connor e Jaime, para que me seguissem. Embora aquilo fosse um casamento formal, diante executivos e empreendedores que participavam na borda de comando e lucros da empresa de Cormac, <em>havia sempre<\/em> algum filho da puta est\u00fapido o suficiente para arriscar. Havia <em>sempre<\/em> algu\u00e9m disposto a fazer um sacrif\u00edcio \u201cnobre\u201d para atrapalhar nosso dom\u00ednio.<br>\u2003\u2003<em>Impedi-los<\/em> era a <em>minha<\/em> fun\u00e7\u00e3o naquela fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003\u2014 Seu pai espera que voc\u00ea participe pelo menos da festa \u2014 ouvi Jaime dizer, seu sotaque sulista <em>quase<\/em> me fez sorrir, mais carism\u00e1tico do que o tom comedido e frio que estava acostumada; n\u00e3o fui <em>feita<\/em> para sustentar conversas fiadas.<br>\u2003\u2003\u2014 E ter que consolar Laiose pela grande decep\u00e7\u00e3o que ela est\u00e1 <em>prestes<\/em> a descobrir que a aguarda? N\u00e3o, obrigada \u2014 disse com um sorriso torto, empurrando a porta dupla de madeira enquanto os convidados, padrinhos e madrinhas do casamento se reuniam em algum ponto bonito da igreja, para serem fotografados e parabenizar o mais novo casal. Senti meu celular vibrar em meu bolso esquerdo e precisei tate\u00e1-lo um pouco para encontr\u00e1-lo. Apertei meus l\u00e1bios, digitando a senha para desbloque\u00e1-lo. \u2014 Al\u00e9m disso, voc\u00ea <em>sabe<\/em> que preciso encontrar Finn <em>antes<\/em> do <em>Natal<\/em>. Alguma not\u00edcia sobre?<br>\u2003\u2003Jaime soltou um exalo cansado, seguindo-me pela direita, Connor caminhava um pouco mais atr\u00e1s, pela esquerda. Eram uma contradi\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel, um \u00e9 alto e com m\u00fasculos magros, que precisava de ternos feito sob medida para que lhe coubesse no corpo, o outro, bem, tinha a mesma altura que eu possu\u00eda e n\u00e3o era l\u00e1 muito meu f\u00e3 \u2014 n\u00e3o posso dizer que me importava com o que <em>Connor<\/em> pensava de mim; era bom saber que suas filhas pequenas <em>ainda<\/em> precisavam de bolsas para estudar. Deslizei para o lado as notifica\u00e7\u00f5es que surgiam pelo aparelho e observei tr\u00eas chamadas perdidas de Brianna. Descartri as liga\u00e7\u00f5es de minha melhor amiga \u2014 se \u00e9 que posso cham\u00e1-la de tal coisa sendo quem era, vivendo da forma que vivia \u2014, abrindo a conversa com Finn. Cinco mensagens foram enviadas entre a noite de ontem e uma hora atr\u00e1s: a primeira, uma pergunta, a segunda, um lembrete, a terceira, uma tentativa de apaziguamento, a quarta um aviso, a \u00faltima um <em>ultimato<\/em>. Fui ignorada nas cinco tentativas. Tensionei minha mand\u00edbula, contendo o impulso de xing\u00e1-lo, de n\u00f3s tr\u00eas, <em>ele<\/em> precisava ser o mais cabe\u00e7a dura, certo? Girei meu pesco\u00e7o, tentando aliviar a tens\u00e3o crescente em meu corpo, estreitando meus olhos quando vi uma <em>outra<\/em> mensagem surgir por minha tela. <em>N\u00famero desconhecido<\/em>.<br>\u2003\u2003Mas sabia <em>exatamente<\/em> quem <em>era<\/em>. <em>Porra.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Nada at\u00e9 agora \u2014 Jaime resmungou, mas com um tom compreensivo. N\u00e3o posso dizer se gostava de ouvi-lo oferecer simpatia para mim, ou se isso incomodava-me o suficiente para considerar acert\u00e1-lo com meu celular apenas para que tenha motivo para ficar em sil\u00eancio. Mantive-me calada, apenas assentindo. \u2014 Talvez devesse dar um tempo para ele, %Rio%. N\u00e3o deve ser f\u00e1cil ver o irm\u00e3o tomar tudo o que lhe pertencia.<br>\u2003\u2003Soltei um riso seco, mais afiado do que amig\u00e1vel, lan\u00e7ando um olhar desdenhoso na dire\u00e7\u00e3o de Jaime.<br>\u2003\u2003\u2014 Ningu\u00e9m apontou a porra de uma arma na cabe\u00e7a de Laiose para obrig\u00e1-la a casar-se com Casey, <em>Jaime<\/em>. O pai dela \u00e9 um merda e a vendeu, <em>sim<\/em>, mas ela <em>ainda<\/em> tinha autonomia para <em>negar<\/em> \u2014 disse um pouco mais afiada do que deveria. Verdade seja dita, estava pouco me fodendo para o que quer que ele estivesse pensando ou nos dramas que Finn estava assim <em>t\u00e3o desesperado<\/em> para <em>come\u00e7ar<\/em>, n\u00e3o quando tinha a porra da mensagem em minhas m\u00e3os. Desta vez <em>ele<\/em> foi sucinto pelo menos, <em>\u00faltimo andar, \u00e0 esquerda<\/em>. Trinquei meus dentes com for\u00e7a, bloqueando a tela antes que um dos dois homens que me seguiam pudessem v\u00ea-la, antes de devolver meu celular para o bolso da minha cal\u00e7a. Enfiei minhas m\u00e3os ali, inclinando minha cabe\u00e7a para tr\u00e1s, como se estivesse aproveitando a brisa amena do per\u00edodo invernal a se aproximar. Duas semanas para o Natal, as temperaturas amenas j\u00e1 come\u00e7avam a tingir o horizonte com a alvura insuport\u00e1vel da neve. Meus olhos, todavia, percorreram os pr\u00e9dios. \u00daltimo andar, \u00e0 <em>esquerda<\/em>; virei para a direita e foi neste momento que um flash vermelho se encontrou com meu olho esquerdo. <em>A mira<\/em> de uma arma, voltei-me na dire\u00e7\u00e3o de onde o pontilhado vermelho partia, ciente que o centro da mira, neste momento, devia ser o meu peito. Queria gritar, xingar e explodir com o primeiro idiota que aparecesse em meu caminho, ao em vez disso, mantive minha express\u00e3o cuidadosamente vazia, firme e distante. <em>Porra<\/em>\u2026 \u2014 Se Laiose escolheu <em>Casey<\/em> assim t\u00e3o f\u00e1cil, Finn <em>nunca<\/em> a teve para come\u00e7o de conversa. H\u00e1 oito bilh\u00f5es de pessoas no mundo, uma boa parte \u00e9 <em>mulher<\/em>, \u00e9 s\u00f3 parar de chorar e <em>encontrar a pr\u00f3xima<\/em>.<br>\u2003\u2003Jaime pareceu estranhamente ofendido com minhas palavras, talvez tenha sido mais insens\u00edvel do que esperava; ou talvez estivesse apenas quebrando-lhe a ideia de que tinha de mim. De qualquer forma, j\u00e1 era tarde demais para importar-me em como era percebida por um dos homens de meu pai, minha aten\u00e7\u00e3o estava fixa no \u00faltimo andar de um pr\u00e9dio abandonado ao fim da rua. Quase dei risada, o desprezo amargava minha l\u00edngua, e a tens\u00e3o que acumulava-se em meus ombros, pareceu se espalhar pelo resto do corpo. <em>\u00c9 claro<\/em>, que o desgra\u00e7ado escolheria o \u00fanico lugar mais <em>\u00f3bvio<\/em> para ficar.<br>\u2003\u2003\u2014 Algumas pessoas consideram simpatia um tra\u00e7o de gra\u00e7a, %OHara%. \u2014 O coment\u00e1rio de Jaime <em>quase<\/em> chamou minha aten\u00e7\u00e3o, e voltei meu rosto na dire\u00e7\u00e3o dele, sustentando seu olhar em sil\u00eancio. Estreitei meus olhos, observando seu rosto, agora defensivo. Ah, puta merda, aquilo <em>n\u00e3o era<\/em> s\u00f3 sobre Finn, era? Tentei n\u00e3o revirar os olhos, mas os cantos de meus l\u00e1bios se repuxaram para baixo, em uma <em>quase<\/em> careta. Merda, \u00e9 por <em>isso<\/em> que n\u00e3o achava uma <em>boa<\/em> ideia encontros casuais, <em>homens nunca<\/em> conseguiam deixar <em>apenas<\/em> no casual. Eles <em>sempre<\/em> precisavam complicar tudo, n\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 E que bem isso j\u00e1 fez a algu\u00e9m? \u2014 Ofereci um sorriso falsamente doce, meus olhos fixos no semblante dele, sem piscar, questionando-me se este era o momento que precisava lembr\u00e1-lo de nossas posi\u00e7\u00f5es e do trabalho que precisava ser feito, ou se ele iria ao menos ser um bom garoto e se comportar. Para meu al\u00edvio, Jaime apertou os l\u00e1bios em uma fina linha r\u00edgida, desviando seu olhar do meu rosto. Tomei meu casaco de suas m\u00e3os, contando com <em>Casey<\/em> para divergir a aten\u00e7\u00e3o, ao divergir meu caminho. Ao em vez de entrar no sedan preto que nos aguardava, segui pela viela de pedra, que levava em dire\u00e7\u00e3o a rua do outro lado da igreja, onde o pr\u00e9dio pela metade, <em>ainda<\/em> em constru\u00e7\u00e3o encontrava-se.<br>\u2003\u2003Como sempre, <em>Casey<\/em> n\u00e3o me decepcionou. Ele <em>era<\/em> um bom garoto, afinal.<br>\u2003\u2003<em>E por falar em um bom garoto\u2026<\/em><\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\u2022\u2022\u2022<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003N\u00e3o fazia ideia de quem ele era. N\u00e3o havia registros de seu nome em lugar nenhum, e a \u00fanica informa\u00e7\u00e3o que encontrei sobre <em>quem<\/em> de fato poderia vir a ser, era que, ele fazia parte do <em>SAS<\/em>; que seu apelido era <em>Ghost<\/em>. Tensionei minha mand\u00edbula com for\u00e7a, esmurrando o bot\u00e3o do elevador de carga, sentindo o pequeno tranco que o objeto d\u00e1, fazendo-me cambalear um pouco para o lado, antes de al\u00e7ar a arma que mantenho presa, oculta por minhas roupas, na parte de tr\u00e1s de minhas costas. Era <em>por isso<\/em> que preferia usar cal\u00e7as a vestidos \u2014 havia muito mais chance de <em>ocultar<\/em> uma arma por tr\u00e1s de um amontoado de tecidos do que em um vestido colado que delineava as formas de meu corpo. N\u00e3o precisava de requinte, precisava de <em>praticidade<\/em>; algo <em>efetivo<\/em>. Destravei a pistola autom\u00e1tica, o ru\u00eddo, <em>clic clac<\/em>, ecoou por meus ouvidos, mas ignorei; o peso frio do objeto se aqueceu sob meu toque, mesmo encoberto pelas luvas. Detestava usar <em>armas de fogo<\/em>, faziam barulho demais, atra\u00edam <em>muito<\/em> a aten\u00e7\u00e3o, mas eram mais precisas e <em>limpas<\/em> do que usar uma <em>faca<\/em>. N\u00e3o podia arriscar ter uma mancha marcando o tecido branco de minha blusa, n\u00e3o no casamento do meu irm\u00e3o. N\u00e3o quando meu pai havia deixado claro que n\u00e3o queria <em>brigas<\/em> ali \u2014 j\u00e1 bastava que Casey estivesse travando sozinho.<br>\u2003\u2003Retirei a muni\u00e7\u00e3o, girando-a em meus dedos apenas para verificar a quantidade de balas, calculando mentalmente minhas pr\u00f3ximas a\u00e7\u00f5es antes de enfiar minha m\u00e3o em meu bolso por um instante. Quanto tive certeza que meu plano estava alinhado, retornei a muni\u00e7\u00e3o para a base da pistola, encaixando-a com um clique met\u00e1lico antes de empurr\u00e1-la para cima, e destravar a arma. Tomei o cuidado de raspar a numera\u00e7\u00e3o de todas as balas que uso, fazia parte do trabalho ter a certeza de que, se localizada, as provas n\u00e3o fossem voltadas para mim <em>diretamente<\/em>, mas isso n\u00e3o significava que n\u00e3o existiam <em>c\u00e2meras<\/em> pelo pr\u00e9dio. Merda, exalei entre dentes questionando-me o qu\u00e3o fundo naquela armadilha encontrava-me, e o quanto desta <em>eu mesma<\/em> havia criado. Girei meu pesco\u00e7o, sentindo-o estalar, tenso. Exalei por entre meus l\u00e1bios, o gosto met\u00e1lico que pairava pelo ar era acompanhado pelo aroma pungente de cimento, areia e poeira. Secava minha garganta, incomodava meus olhos. O elevador parou com um tranco e um aviso est\u00fapido de chegada com um <em>ping<\/em> que provavelmente ecoou por todo andar. <em>Porra\u2026<\/em><br>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o disparou. N\u00e3o havia calculado que o elevador de carga teria um <em>aviso<\/em> de parada. Apertei com mais for\u00e7a a arma, o peso familiar contra as luvas em minhas m\u00e3os, o metal morno por meu toque, fincou-se contra a palma de minha m\u00e3o, o suficiente para me fazer lembrar que <em>estava<\/em> no controle, s\u00f3 precisava <em>usar<\/em> meu c\u00e9rebro. Trinquei meus dentes, observando a tranca destravar, a grade de ferro enferrujada e com respingos de cimento seco \u00e0 minha frente continuava no lugar. Era manual, ia precisar empurr\u00e1-la para abri-la, mas se o fizesse, ia estar exposta. <em>Ele vai<\/em> atirar em mim. Precisava criar uma distra\u00e7\u00e3o. <em>Porra<\/em>, calculei mal para um caralho. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, a tens\u00e3o apenas <em>pairou<\/em> pelo ar ao meu redor, meus m\u00fasculos latejavam com a press\u00e3o de minha tens\u00e3o, meus ombros do\u00edam, e minha mente corria, desenfreada, pelas possibilidades; eu sairia daqui e levaris um tiro na cabe\u00e7a, n\u00e3o ia ter nem tempo de <em>registrar<\/em> o que aconteceu, eu <em>ficava<\/em> aqui, e ia ser alvejada em cinco minutos. Eu sa\u00eda, e ia estar <em>exposta<\/em> por pelo menos cinco minutos at\u00e9 conseguir usar o <em>primeiro<\/em> pilar de sustenta\u00e7\u00e3o que encontrasse, ele conseguiria me matar em menos de um minuto. <em>Maldito fantasma<\/em>\u2026 o chiado escapou entre meus dentes. Se apertasse para descer, ent\u00e3o ia ser uma covarde, e n\u00e3o ia <em>saber<\/em> o que <em>diabos<\/em> esse desgra\u00e7ado podia querer comigo <em>agora<\/em>. Trinquei com for\u00e7a meus dentes, a press\u00e3o tornando-se dolorosa em minhas t\u00eamporas enquanto calculava meus pr\u00f3ximos passos. Voltar atr\u00e1s <em>n\u00e3o era<\/em> uma op\u00e7\u00e3o; iria at\u00e9 o <em>fim<\/em>, n\u00e3o importava <em>o que<\/em> acontecesse.<br>\u2003\u2003Retirei a porra do meu casaco de novo com um plano em mente. N\u00e3o era bom, sequer cobria <em>metade<\/em> das possibilidades que provavelmente acabavam comigo com a porra de um buraco na cabe\u00e7a, mas era melhor do que <em>nada<\/em>. Melhor do que sair daqui sem a <em>informa\u00e7\u00e3o<\/em> que estava atr\u00e1s. Meu tempo estava acabando, precisava ser <em>r\u00e1pido<\/em>. Apoiei meu p\u00e9 esquerdo contra a grade de ferro do elevador, empurrando-a com a lateral de meu p\u00e9 esquerdo, ouvindo um ru\u00eddo agudo, irritante em resto do metal em atrito, mas empurrei-o o suficiente para que apenas meu p\u00e9 tivesse criado uma brecha. Apoiei ent\u00e3o a sola de meu sapato contra a estrutura de metal, posicionando-me para chutar a prote\u00e7\u00e3o de metal do elevador com toda a for\u00e7a que tinha em minha perna. Aproximei-me mais da porta respirando fundo o suficiente para manter o ar preso em meus pulm\u00f5es. N\u00e3o ousei fazer mais barulho algum. Concentrei-me em <em>ouvir<\/em>, mas o filho da puta <em>era<\/em> perigoso porque era <em>silencioso<\/em>. Como a porra de um<em> Fantasma<\/em> \u2014 t\u00e3o silencioso quanto, n\u00e3o menos preciso. Exalei por entre meus dentes, abrindo meus l\u00e1bios o suficiente para que o ru\u00eddo fosse inaud\u00edvel. Tentei acalmar minha pulsa\u00e7\u00e3o, manter meus batimentos controlados, precisava que minhas m\u00e3os estivessem firmes. Um ru\u00eddo ecoou um pouco mais a dist\u00e2ncia, \u00e0 esquerda, em um \u00e2ngulo de quarenta <em>graus<\/em>. Tr\u00eas, dois\u2026<br>\u2003\u2003Chutei com for\u00e7a a grade de ferro, que chocou-se contra a parede contr\u00e1ria com um estrondo alto, um amontoado de poeira se ergue, <em>quase<\/em> fazendo-me tossir; minha garganta se contraiu, meu nariz ardeu, minha boca estava seca. Arremessei meu casaco no ar, na dire\u00e7\u00e3o que assumia que ele estava, ao mesmo tempo que lancei-me em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o. Rolei pelo meu ombro direito, o mais r\u00e1pido que conseguia quando ouvi tr\u00eas disparos. Dois acertaram meu casco, um atingiu-me de rasp\u00e3o. <em>Merda<\/em>. Disparei o mais r\u00e1pido que consegui em dire\u00e7\u00e3o ao primeiro pilar de sustenta\u00e7\u00e3o que encontrei; era largo o suficiente para providenciar cobertura imediata, mas n\u00e3o o suficiente para mant\u00ea-lo <em>longe<\/em>. Lancei-me contra o ch\u00e3o, deslizando com a falta de atrito com a poeira de cimento e areia que se espalhou pelo m\u00e1rmore rec\u00e9m colocado, antes de escorar minhas costas contra o pilar. Era grosso o suficiente para cobrir tr\u00eas de mim, mas igualmente era uma armadilha perigosa \u2014 estava protegida, mas n\u00e3o tinha vis\u00e3o alguma de nenhum dos lados. Se projetasse meu rosto para a esquerda, ele iria me acertar, se o fizesse a direita, igualmente iria me acertar. Fiz uma careta, praguejando em ga\u00e9lico. Lancei um olhar em dire\u00e7\u00e3o ao meu bra\u00e7o acertado, o sangue tingia o tecido branco com o que parecia ser um corte mais fundo do que poderia justificar; quando Cormac percebesse o ferimento, <em>dificilmente<\/em> iria poderia alegar que esbarrei em algum lugar, ou que um de seus seguran\u00e7as me acertaram sem querer. Eles tinham ordens expressas de n\u00e3o me tocar a menos que <em>ele<\/em> mandasse \u2014 e fazia <em>anos<\/em> desde a \u00faltima vez que ele ordenou que um deles me <em>segurasse<\/em>. Desgra\u00e7ado de merda. Lancei um olhar ao redor, as c\u00e2meras estavam cobertas, ao menos <em>isso<\/em> estava ao meu favor. Bom. Agora s\u00f3 precisava encontrar uma forma de livrar-me do maldito. Recostei minha cabe\u00e7a contra o concreto poroso atr\u00e1s de mim, frustrada, ouvindo-o se deslocar. Botas pesadas esmagando pequenos fragmentos de m\u00e1rmore descartados em algum ponto atr\u00e1s de mim, pr\u00f3ximo do elevador. <em>Quase<\/em> abri um sorriso; que idiota de <em>merda<\/em>\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Atirar em mulher sozinha? Isso n\u00e3o parece muito com a postura de um <em>cavalheiro<\/em>, n\u00e3o acha? \u2014 gritei, mais pela frustra\u00e7\u00e3o crescente que se projeta em meu peito do que qualquer outra coisa. Fiz uma careta, com raiva, escorando minhas costas contra o concreto poroso e coberto por uma fina camada de areia que acabou manchando minha blusa branca. Porra, <em>estava<\/em> ficando cada vez <em>mais<\/em> dif\u00edcil encontrar uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para meu pai. Afinal, a \u00faltima coisa que ele iria acreditar era que fui <em>\u201csequestrada\u201d<\/em> por algum inimigo, conhecendo meu <em>hist\u00f3rico<\/em>. Havia um <em>motivo<\/em> para que fosse <em>eu<\/em> o escudo, e n\u00e3o <em>Casey<\/em>. Havia um motivo para que eles viessem atr\u00e1s de <em>Casey<\/em> e n\u00e3o de <em>mim<\/em>. Fiz uma careta, frustrada.<br>\u2003\u2003\u2014 Sempre trato <em>damas<\/em> com respeito \u2014 ele retorquiu, o sotaque pesado brit\u00e2nico dando nos nervos. T\u00e3o polido, t\u00e3o miseravelmente elegante, que quase cedi ao impulso de <em>vomitar<\/em>. Se havia algo que odiava <em>mais<\/em> do que dramas desnecess\u00e1rios em fam\u00edlia, eram <em>justamente os brit\u00e2nicos<\/em>. E n\u00e3o era <em>apenas<\/em> porque era irlandesa. \u2014 Mas ainda n\u00e3o achei nenhuma <em>aqui<\/em>, <abbr data-title=\"Luv, \u00e9 uma forma brit\u00e2nica  de chamar algu\u00e9m de \u201cLove\u201d, ou seja \u201camor\u201d; normalmente usam muito como forma  de sarcasmo ou com um parceiro (se isso se aplica aqui, deixo para voc\u00ea).\"><em>luv<\/em><\/abbr>\u00b9.<br>\u2003\u2003<em>Filho da puta<\/em>. Soltei uma risada nasalada, sem conseguir me conter. Tudo bem, tudo bem, aquela foi boa, tenho que admitir. N\u00e3o vou me importar de arrastar a porra de sua cabe\u00e7a para casa e us\u00e1-la como trof\u00e9u mais tarde. Arranquei com meus dentes uma de minhas luvas, e projetei-a para fora de minha cobertura. Meu cora\u00e7\u00e3o martelava contra meu peito, intenso o suficiente para fazer com que meu foco estivesse fixo <em>nele<\/em>. O disparo acertou a minha luva, derrubando-a no ch\u00e3o com um buraco grotesco no tecido. <em>Te peguei<\/em>. Lancei-me para o lado contr\u00e1rio, mirando na figura alta, com o rosto coberto por uma balaclava, encoberto por sombras que projetava-se contra um pilar de concreto do outro lado do espa\u00e7o consideravelmente grande. Peguei-o desprevenido, desta vez, ao disparar em sua perna direita, de apoio, e ent\u00e3o seu antebra\u00e7o esquerdo que empunha a arma. Os olhos castanhos claros, cor de avel\u00e3 dele, arregalaram-se por tr\u00e1s da balaclava que ocultava sua face. N\u00e3o lhe dei tempo para se recuperar, girei a arma em minha m\u00e3o, abandonando seu prop\u00f3sito imediato, e usando-a como um peso para acert\u00e1-lo. Chutei com for\u00e7a a lateral de seu joelho esquerdo, ouvindo-o grunhir com a dor do impacto, ao mesmo tempo que tentava acert\u00e1-lo com toda a for\u00e7a que tinha em meu corpo e bra\u00e7o. Precisava faz\u00ea-lo soltar a merda da <em>sniper<\/em>. Se ele conseguisse espa\u00e7o suficiente, ent\u00e3o acabou para mim. Merda! Eu e minha curiosidade\u2026<br>\u2003\u2003Acertei com viol\u00eancia a lateral direita de seu rosto com o cano da arma, lan\u00e7ando-me para tr\u00e1s quando ele girou a sniper em suas m\u00e3os tentando acertar-me com a coronha da arma pesada. <em>Quase<\/em> acertou minha costela, aproveitei a abertura em sua postura para chutar a perna direita ferida dele, ouvindo-o sufocar um grito de dor e raiva, enquanto seu corpo projetava-se para frente. Sua perna direita cedeu sob seu peso, e ele caiu parcialmente de joelhos \u00e0 minha frente, acertei com for\u00e7a seu pulso, obrigando-o a soltar, antes de chut\u00e1-la para longe. Ele pareceu desistir de recuperar a arma, e avan\u00e7ou em minha dire\u00e7\u00e3o. Derrubou-me com facilidade, o impacto roubou o ar de meus pulm\u00f5es e fez com que estrelas explodissem por minhas p\u00e1lpebras. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos tudo o que consegui registrar foi dor. Espalhava-se como ondas el\u00e9tricas por minha corrente sangu\u00ednea, amortecia o restante e fazia-me ref\u00e9m de minha pr\u00f3pria pulsa\u00e7\u00e3o. O martelar intenso abafava todo o resto, a dor cegou por tempo o suficiente para que o instinto tomasse controle da racionalidade \u2014 meu segundo erro. Agarrei por instinto parte de sua balaclava, rasgando-a com a for\u00e7a que coloquei ao tentar tir\u00e1-lo de cima de mim, minhas unhas fincaram-se abaixo da carne que o tecido protegia, lhe rasgando com viol\u00eancia o suficiente para que ao menos <em>duas<\/em> unhas minhas se quebrassem. Mal registrei a dor, usando o momentum de distra\u00e7\u00e3o dele para acert\u00e1-lo com for\u00e7a na costela e empurr\u00e1-lo para longe de mim. Ele desabou ao meu lado, parecendo levemente desorientado, mas n\u00e3o demorou a recuperar-se.<br>\u2003\u2003Um grito furioso e permeado por dor escapou de minha garganta quando senti agarrar com for\u00e7a meu rabo de cavalo, puxando minha cabe\u00e7a para tr\u00e1s, impedindo-me de arrastar-me para onde <em>sua<\/em> arma encontrava-se. Ele me arremessou de volta ao ch\u00e3o. Obriguei-me a usar o impacto para rolar por meu pr\u00f3prio corpo at\u00e9 conseguir me colocar de p\u00e9 outra vez. Empunhei outra vez minha arma, mantendo a mira fixa no centro da cabe\u00e7a dele. Um exalo frustrado escapou de seus l\u00e1bios, parcialmente revelados do amontado de tecido que havia rasgado. Sua balaclava agora revelava a lateral da mand\u00edbula quadrada, bem-marcada, a barba por fazer tinha <em>claros<\/em> ind\u00edcios do sangue que havia arrancado com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os, os cantos dos l\u00e1bios revelavam as cicatrizes que provavelmente emolduravam seu rosto. Se havia uma consist\u00eancia sobre ele, era que <em>nunca<\/em> arrancava aquela porcaria de balaclava. Manteve sua identidade secreta e dificultava o rastreamento, j\u00e1 que n\u00e3o t\u00ednhamos um rosto, s\u00f3 a men\u00e7\u00e3o de um apelido rid\u00edculo, e um padr\u00e3o de comportamento \u2014 poderia ser qualquer um \u2014, mas pela primeira vez, em muito tempo, desde que o nome dele <em>surgiu<\/em> em meu caminho, questionei-me se a motiva\u00e7\u00e3o por usar aquela merda de tecido, era <em>outra<\/em>. Talvez n\u00e3o fosse <em>apenas<\/em> para ocultar sua identidade; talvez fosse <em>mais<\/em> pessoal.<br>\u2003\u2003<em>Ghost<\/em> se deixou sentar em seus calcanhares, ainda de joelho, ofegante e com as roupas desalinhadas como as <em>minhas<\/em>. A diferen\u00e7a era que suas roupas eram projetadas para combate, as minhas, faziam <em>parte<\/em> do c\u00f3digo de vestimenta de um evento p\u00fablico, e agora <em>eu<\/em> teria muito o que explicar para meu pai. Que merda! Ele ergueu as duas m\u00e3os para cima, em um aviso de rendi\u00e7\u00e3o, os olhos castanhos claros, como avel\u00e3s cintilavam com um brilho perigoso, n\u00e3o era capaz de dizer exatamente por que me incomodava, mas era a certeza de que, naquele jogo de poder, vantagem era <em>ilus\u00e3o<\/em>. Ele poderia estar ajoelhado \u00e0 minha frente, mas tinha a sensa\u00e7\u00e3o gritante de que n\u00e3o era <em>eu<\/em> no controle <em>daquela<\/em> situa\u00e7\u00e3o. Dei um passo na dire\u00e7\u00e3o dele, e ent\u00e3o outro, at\u00e9 parar a sua frente.<br>\u2003\u2003\u2014 Cinco palavras, ou atiro em voc\u00ea \u2014 cuspi as palavras, junto com a mistura de sangue e poeira que acumulava-se em minha boca. Fiz uma careta, tinha mais arranhados do que supus que teria, mas ent\u00e3o, foi <em>ele<\/em> quem come\u00e7ou.<br>\u2003\u2003Ele pendeu a cabe\u00e7a para tr\u00e1s, o canto de seu l\u00e1bio cheio de cicatrizes se curvou para cima, desdenhoso, afiado como navalha. Isso <em>apenas<\/em> serviu para me irritar ainda mais. Apertei com for\u00e7a a arma, considerando apenas dispar\u00e1-la de uma vez. Seria melhor do que ouvi-lo, afinal, um problema a menos para Cormac preocupar-se; mas era a merda da minha curiosidade que o deixava vivo. Porque <em>Ghost<\/em> podia ser muitas coisas, mas suas informa\u00e7\u00f5es <em>nunca<\/em> eram <em>in\u00fateis<\/em>. Ao menos n\u00e3o a m\u00e9dio prazo. Tensionei minha mand\u00edbula com for\u00e7a, tentando controlar minha pr\u00f3pria frustra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai se foder\u2026 \u2014 ele come\u00e7ou a dizer, mas o sil\u00eancio com um disparo que passou <em>muito<\/em> perto de sua cabe\u00e7a. Vi-o se calar, a mand\u00edbula tensa o suficiente para fazer um pequeno m\u00fasculo projetar-se por sua pele ensanguentada, antes de apoiar a arma abaixo de seu queixo. Pressionei o cano da arma ali, empurrando sua cabe\u00e7a para tr\u00e1s, a fim de encarar-me.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Duas<\/em> palavras \u2014 avisei com veneno.<br>\u2003\u2003Algo atravessou seu olhar. Quente, intenso e <em>furioso<\/em>. Se fosse capaz, teria me matado apenas com aquele maldito olhar, e n\u00e3o pude conter um sorriso com a ideia \u2014 deixe-o tentar. <em>Gostava<\/em> da sensa\u00e7\u00e3o, mais do que a do poder de t\u00ea-lo a minha merc\u00ea como bem desejava.<br>\u2003\u2003\u2014 Retribui\u00e7\u00e3o. \u2014 Estreitei meus olhos tensionando a mand\u00edbula. Tudo bem, ele foi esperto, usou apenas <em>uma<\/em> para dizer o que queria. N\u00e3o movi um m\u00fasculo, presa no acumulativo de tens\u00e3o que permeava por meu corpo, mas ao menos, abaixei a arma vagarosamente. Se Ghost estava satisfeito ou n\u00e3o, n\u00e3o era capaz de dizer, seus olhos por tr\u00e1s da balaclava n\u00e3o revelavam muito, mas podia <em>sentir<\/em> que havia algo em sua postura que informava-me que ele <em>finalmente<\/em> havia conseguido a m\u00e3o ganhadora naquele maldito jogo. Merda\u2026<br>\u2003\u2003Vi-o levantar-se deliberadamente, o movimento calculado n\u00e3o era proveniente do medo, mas de uma pequena explora\u00e7\u00e3o de minhas vulnerabilidades; ele n\u00e3o estava levantando-se apenas para impor-se sobre mim como a sombra de uma montanha, ele estava <em>ganhando tempo<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 muita aud\u00e1cia da sua parte achar que eu\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Observei voc\u00ea por muito tempo. T\u00ednhamos um acordo porque existia um entendimento em comum. \u2014 Ele n\u00e3o precisava dizer o nome, estava impl\u00edcito na maneira com que <em>ambos<\/em> sentimos o gosto amargo permear nossas bocas. <em>McTavish<\/em>. Aquele idiota\u2026 \u2014 O jogo mudou. Agora voc\u00ea paga a <em>sua<\/em> parte.<br>\u2003\u2003N\u00e3o contive um grunhido baixo, ir\u00f4nico, queria <em>tanto<\/em> ferrar sua t\u00eampora com a coronha da arma que podia sentir os m\u00fasculos de meu corpo tremerem.<br>\u2003\u2003\u2014 E quem \u00e9 o alvo desta vez?<br>\u2003\u2003\u2014 Price. \u2014 \u00c9 s\u00f3 o que disse.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe sou chefe dos pecadores, tamb\u00e9m sou chefe dos sofredores\u201d\u2014 STEVENSON, R. L. 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