{"id":10430,"date":"2026-06-13T17:00:00","date_gmt":"2026-06-13T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-12T12:38:51","modified_gmt":"2026-06-12T15:38:51","slug":"capitulo-5","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/emtodasasmares\/capitulo-5\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O inverno parecia mais<\/span> cruel desde que Clara percebeu que o tempo deles podia acabar. N\u00e3o de um jeito exagerado ou dram\u00e1tico. Era pior que isso. Era silencioso. Estava nos rem\u00e9dios esquecidos ao lado da cama de Daniel, nas pausas discretas entre algumas respira\u00e7\u00f5es, no cansa\u00e7o que \u00e0s vezes surgia de repente no meio de uma risada. No modo como ele apertava o peito discretamente achando que ela n\u00e3o percebia. Mas Clara percebia tudo. E mesmo assim, os dias ao lado dele se tornaram os mais bonitos da vida dela. Talvez porque Daniel vivesse cada momento como algu\u00e9m tentando transformar pequenas coisas em eternidade.<br>\u2003\u2003Os dois passaram a ocupar os mesmos espa\u00e7os naturalmente. Como se sempre tivesse sido assim. Daniel aparecia na casa dela trazendo caf\u00e9 e fitas cassete velhas que insistia em faz\u00ea-la ouvir. Clara o obrigava a assistir filmes ruins s\u00f3 para reclamar do roteiro enquanto ele ria dela o tempo inteiro. Caminhavam por Saquarema como um casal antigo demais para parecer recente. E \u00e0s vezes, no meio de momentos completamente comuns, Clara sentia vontade de chorar porque tudo parecia precioso demais.<br>\u2003\u2003Numa tarde chuvosa de agosto, Daniel apareceu na casa dela segurando uma caixa de madeira pequena.<br>\u2003\u2003\u2014 Preciso te mostrar uma coisa.<br>\u2003\u2003Clara abriu espa\u00e7o para ele entrar enquanto a chuva escorria pelos ombros da jaqueta dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 com cara de quem vai me contar que matou algu\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez seja menos grave.<br>\u2003\u2003Ela riu, fechando a porta. Daniel colocou a caixa sobre a cama dela com cuidado, dentro havia dezenas de fitas cassete, muito mais antigas que as outras. As m\u00e3os dele passaram lentamente sobre elas antes de pegar uma espec\u00edfica. Na etiqueta estava escrito: \u201cClara.\u201d Ela franziu a testa imediatamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Daniel\u2026 isso \u00e9 imposs\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei.<br>\u2003\u2003Ele entregou a fita para ela.<br>\u2003\u2003Os dedos dos dois se tocaram rapidamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Gravei isso antes de te conhecer.<br>\u2003\u2003Clara sentiu um arrepio atravessar o corpo inteiro.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Daniel sentou devagar na ponta da cama. Parecia nervoso pela primeira vez em muito tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu comecei a gravar fitas quando os sonhos ficaram mais frequentes.<br>\u2003\u2003Ela permaneceu em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sabia quem voc\u00ea era\u2026 mas sabia seu nome.<br>\u2003\u2003O quarto pareceu pequeno demais de repente. A chuva batia contra a janela enquanto Clara encarava aquela fita como se segurasse alguma coisa imposs\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 Daniel\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei como parece.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o entende. Isso n\u00e3o parece loucura. Isso parece\u2026 pior.<br>\u2003\u2003Ele soltou uma risada baixa.<br>\u2003\u2003\u2014 Pior?<br>\u2003\u2003Os olhos dela se encheram devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Parece destino.<br>\u2003\u2003Daniel ficou quieto porque no fundo sentia exatamente o mesmo. Clara colocou a fita no aparelho antigo que ele havia levado junto da caixa. O chiado veio primeiro. Depois a voz dele surgiu. Mais nova, mais insegura, mais triste.<br>\u2003\u2003<em>\u201cEu n\u00e3o sei se voc\u00ea existe de verdade.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Clara sentiu o cora\u00e7\u00e3o apertar imediatamente. A grava\u00e7\u00e3o continuou:<br>\u2003\u2003<em>\u201cMas eu sonhei com voc\u00ea de novo hoje. Na praia. Como sempre.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Daniel observava o rosto dela em sil\u00eancio enquanto a fita rodava.<br>\u2003\u2003<em>\u201c\u00c0s vezes acho que enlouqueci. Porque nos sonhos eu amo voc\u00ea h\u00e1 tanto tempo que chega a doer quando acordo.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Clara levou a m\u00e3o at\u00e9 a boca sem perceber. A voz dele falhou um pouco antes de continuar:<br>\u2003\u2003<em>\u201cSe voc\u00ea existir mesmo\u2026 espero que me encontre antes que seja tarde.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003A fita terminou num chiado baixo.<br>\u2003\u2003O quarto mergulhou num sil\u00eancio diferente depois disso, embora, n\u00e3o pesado. Apenas, \u00edntimo. Clara virou lentamente o rosto para Daniel e percebeu que ele parecia assustado. Como se tivesse acabado de entregar a parte mais vulner\u00e1vel de si. Ela atravessou o pequeno espa\u00e7o entre os dois sem pensar, segurou o rosto dele entre as m\u00e3os e o beijou. N\u00e3o delicadamente daquela vez, mas como algu\u00e9m tentando convencer o universo a n\u00e3o tirar aquilo dela. Daniel correspondeu imediatamente, envolvendo a cintura dela enquanto a puxava para perto. Havia urg\u00eancia nos toques, medo, amor e alguma coisa parecida com despedida.<br>\u2003\u2003Quando se afastaram, Daniel encostou a testa na dela tentando recuperar o ar.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu queria ter te encontrado antes.<br>\u2003\u2003A frase destruiu Clara de um jeito silencioso porque ela queria tamb\u00e9m. Queria ter conhecido Daniel antes da doen\u00e7a piorar, antes do medo, antes da urg\u00eancia. Queria uma vida inteira, n\u00e3o migalhas de tempo, mas talvez algumas pessoas nascessem destinadas a se amar intensamente, n\u00e3o longamente.<br>\u2003\u2003Os meses passaram r\u00e1pido demais e o ver\u00e3o come\u00e7ou a surgir devagar em Saquarema. Clara percebeu antes de Daniel que ele estava piorando: as m\u00e3os mais frias, o cansa\u00e7o cada vez mais constante, as dores escondidas, a respira\u00e7\u00e3o curta depois de coisas simples, todos sintomas conhecidos j\u00e1, por\u00e9m, potencializados nos \u00faltimos meses. E Daniel continuava vivendo como se tentasse alcan\u00e7ar a pr\u00f3pria vida antes que ela acabasse. Levava Clara para ver o mar \u00e0 noite, comprava flores aleat\u00f3rias em bancas de rua, gravava fitas novas para ela. Tirava fotografias dela distra\u00edda porque dizia que queria lembrar <em>\u201cdo jeito exato que ela existia\u201d<\/em>, apesar de ser ela quem ficaria com as mem\u00f3rias se ele partisse daquela doen\u00e7a. E Clara amava tudo que ele a proporcionava, at\u00e9 os medos, a tristeza. Porque amar Daniel era como amar alguma coisa rara demais para durar.<br>\u2003\u2003Numa madrugada quente de dezembro, Clara acordou sozinha na cama dele. A luz do banheiro estava acesa. Ela levantou imediatamente, encontrou Daniel sentado no ch\u00e3o frio, tentando respirar em sil\u00eancio para n\u00e3o acord\u00e1-la. O rosto estava molhado, suor, l\u00e1grimas, talvez os dois. Clara ajoelhou na frente dele sem pensar.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu amor\u2026<br>\u2003\u2003Daniel fechou os olhos quando ouviu aquilo. <strong><em>\u201cMeu amor\u201d<\/em><\/strong>. Como se ainda n\u00e3o acreditasse que algu\u00e9m o chamava assim. Ela segurou o rosto dele delicadamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea precisava ter me acordado.<br>\u2003\u2003Ele tentou sorrir.<br>\u2003\u2003\u2014 Queria deixar voc\u00ea dormir mais um pouco.<br>\u2003\u2003Clara sentiu o peito partir, at\u00e9 sofrendo ele ainda tentava proteg\u00ea-la. Naquela noite, Daniel acabou sendo internado e os dias seguintes passaram em fragmentos dolorosos. Hospitais. Luzes brancas. M\u00e9dicos evitando respostas diretas. Clara segurando a m\u00e3o dele durante horas, mas o pior n\u00e3o era o medo. Era a sensa\u00e7\u00e3o cruel de reconhecimento como se uma parte dela soubesse desde o come\u00e7o que aquilo terminaria assim.<br>\u2003\u2003Num fim de tarde silencioso, Daniel chamou Clara para perto da cama. Ele parecia cansado demais agora, mas os olhos ainda eram os mesmos: os olhos do garoto da praia vazia.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem uma coisa pra voc\u00ea em casa \u2014 ele disse baixinho.<br>\u2003\u2003Clara apertou mais forte a m\u00e3o dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea mesmo pode me entregar quando sair daqui.<br>\u2003\u2003Daniel sorriu pequeno, triste.<br>\u2003\u2003\u2014 Clara\u2026<br>\u2003\u2003Ela j\u00e1 estava chorando antes mesmo dele continuar.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o faz isso.<br>\u2003\u2003Ele levou os dedos lentamente at\u00e9 o rosto dela, enxugando uma l\u00e1grima.<br>\u2003\u2003\u2014 Em toda vida\u2026 eu procuraria voc\u00ea de novo.<br>\u2003\u2003O cora\u00e7\u00e3o dela se despeda\u00e7ou.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o fica nessa.<br>\u2003\u2003Daniel fechou os olhos por alguns segundos, como algu\u00e9m tentando permanecer. Tentando lutar. Tentando voltar. Mas o corpo j\u00e1 parecia distante demais. Quando ele abriu os olhos outra vez, havia paz neles. E amor. Muito amor.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te encontrei, afinal.<br>\u2003\u2003Foi a \u00faltima coisa que Daniel disse.<br>\u2003\u2003Depois do enterro, Clara passou dias sem conseguir entrar no mar. Sem conseguir ouvir m\u00fasica, sem conseguir respirar direito dentro da pr\u00f3pria vida. A cidade inteira parecia vazia de novo, como antes de o encontrar. Como se Daniel tivesse levado partes do mundo junto dele. Foi numa manh\u00e3 cinza de janeiro que ela finalmente criou coragem para voltar \u00e0 casa dele. A m\u00e3e dele a recebeu em sil\u00eancio, abra\u00e7ou Clara forte demais. Eram duas mulheres que entendiam perfeitamente aquele tipo de dor, e depois do abra\u00e7o, a sogra apontou para a sala.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele deixou isso pra voc\u00ea.<br>\u2003\u2003A caixa de madeira estava sobre a mesa. Dentro dela havia fotografias dos dois, fitas cassete, bilhetes e uma \u00faltima grava\u00e7\u00e3o. Clara colocou a fita para tocar com as m\u00e3os tremendo. O chiado veio primeiro, depois a voz de Daniel. Repetitivo e reconhecido\u2026 Como tudo o que girava em torno deles. No entanto, diferente da primeira grava\u00e7\u00e3o que ela havia escutado dele, nessa, a voz de Daniel era mais baixa, mais cansada.<br>\u2003\u2003<em>\u201cOi, amor.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Clara come\u00e7ou a chorar imediatamente.<br>\u2003\u2003<em>\u201cSe voc\u00ea t\u00e1 ouvindo isso\u2026 ent\u00e3o eu fui embora antes de conseguir dizer tudo.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Ela fechou os olhos. A voz dele continuou:<br>\u2003\u2003<em>\u201cMas acho que voc\u00ea sempre soube.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Clara apertou a fita contra o peito.<br>\u2003\u2003<em>\u201cVoc\u00ea foi a coisa mais bonita que j\u00e1 aconteceu comigo.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003As l\u00e1grimas ca\u00edam silenciosas agora.<br>\u2003\u2003<em>\u201cE eu preciso que voc\u00ea me prometa uma coisa.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Ela respirou fundo.<br>\u2003\u2003<em>\u201cVolta pra praia \u00e0s vezes.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Clara sorriu chorando. Claro que ele pediria isso.<br>\u2003\u2003<em>\u201cPorque em algum lugar do universo\u2026 eu ainda vou estar caminhando perto do mar procurando voc\u00ea.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003O chiado aumentou por alguns segundos. Depois a \u00faltima frase veio:<br>\u2003\u2003<em>\u201cE em toda vida, Clara\u2026 eu escolheria voc\u00ea, em todas as mar\u00e9s\u2026\u201d<\/em><br>\u2003\u2003A fita terminou.<br>\u2003\u2003Meses depois, Clara voltou \u00e0 praia numa manh\u00e3 de inverno. O c\u00e9u estava cinza outra vez, o vento gelado, o mar inquieto. Exatamente como no dia em que conheceu Daniel. Ela caminhou lentamente pela areia segurando a c\u00e2mera anal\u00f3gica entre os dedos. Ent\u00e3o parou perto das pedras. As mesmas pedras. E sorriu ao perceber algo escrito nelas que antes n\u00e3o estava ali.<br>\u2003\u2003<em>\u201cSe eu n\u00e3o tiver dito, ali\u00e1s, saiba que eu te reencontrei em todas as vidas.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Clara passou os dedos devagar sobre as palavras. Depois levantou os olhos para o mar e pela primeira vez desde que Daniel partiu\u2026 Ela n\u00e3o sentiu aus\u00eancia. Sentiu encontro. Ela iria encontr\u00e1-lo de novo, tinha certeza disso, e orava para que ainda nesta vida, todas as noites, ela pudesse ao menos, sonhar com ele.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>Fim.<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2699],"class_list":["post-10430","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-emtodasasmares"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10430"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}