{"id":10428,"date":"2026-06-13T17:00:00","date_gmt":"2026-06-13T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-12T12:32:31","modified_gmt":"2026-06-12T15:32:31","slug":"capitulo-4","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/emtodasasmares\/capitulo-4\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 4"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Daniel passou a m\u00e3o<\/span> pelo rosto devagar, exausto, como algu\u00e9m que tinha acabado de perder for\u00e7as tentando esconder alguma coisa. O mar continuava agitado atr\u00e1s deles. Clara observava Daniel com aten\u00e7\u00e3o agora, e tudo come\u00e7ou a se encaixar: as olheiras dele, o cansa\u00e7o constante, a melancolia permanente. O jeito como ele falava sobre tempo como se tivesse pouco. Ela sentou novamente na pedra diante dele, mais perto dessa vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Me conta a verdade.<br>\u2003\u2003Daniel ficou em sil\u00eancio por alguns segundos. Longos demais. Quando finalmente levantou os olhos para ela, Clara sentiu alguma coisa apertar violentamente dentro do peito.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu cora\u00e7\u00e3o nasceu doente \u2014 ele disse baixo.<br>\u2003\u2003Clara sentiu o ar desaparecer dos pulm\u00f5es. Daniel sustentou o olhar dela enquanto continuava:<br>\u2003\u2003\u2014 Descobriram quando eu era crian\u00e7a. Passei muito tempo em hospital. Cirurgias, rem\u00e9dios, acompanhamento\u2026 essas coisas.<br>\u2003\u2003Ele falava com uma calma absurda. Como algu\u00e9m acostumado demais com a pr\u00f3pria dor. Aquilo destruiu Clara mais do que qualquer dramatiza\u00e7\u00e3o teria destru\u00eddo.<br>\u2003\u2003\u2014 E agora? \u2014 ela perguntou quase num sussurro.<br>\u2003\u2003Daniel desviou os olhos para o mar.<br>\u2003\u2003\u2014 Agora\u2026 piorou um pouco.<br>\u2003\u2003<em>\u201cUm pouco.\u201d<\/em> Ela odiou imediatamente aquela maneira de minimizar algo t\u00e3o s\u00e9rio.<br>\u2003\u2003\u2014 O que significa \u201cpiorou um pouco\u201d?<br>\u2003\u2003Daniel soltou uma risada baixa e cansada.<br>\u2003\u2003\u2014 Significa que meu corpo resolveu parar de colaborar comigo.<br>\u2003\u2003\u2014 Daniel.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu t\u00f4 tentando ser honesto sem estragar tudo.<br>\u2003\u2003Aquilo atingiu Clara em cheio, porque ela percebeu: ele estava tentando proteger aquele momento em que se encontraram ou reencontraram. Mesmo agora, mesmo doendo. Clara passou a m\u00e3o fria pelo rosto.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabia desde o come\u00e7o que ia me contar isso?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o quando pretendia?<br>\u2003\u2003Daniel demorou antes de responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez nunca.<br>\u2003\u2003Ela franziu a testa imediatamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Por qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Daniel finalmente olhou para ela de novo e havia tanta vulnerabilidade naquele olhar que Clara sentiu vontade de abra\u00e7\u00e1-lo antes mesmo dele responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque eu passei anos sonhando com voc\u00ea\u2026 e quando finalmente te encontrei, n\u00e3o queria que me olhasse como algu\u00e9m prestes a desaparecer.<br>\u2003\u2003O peito dela apertou t\u00e3o forte que chegou a doer. Daniel abaixou os olhos para as pr\u00f3prias m\u00e3os.<br>\u2003\u2003\u2014 Passei muito tempo da minha vida esperando alguma coisa acontecer. Como se meu corpo tivesse me colocado numa contagem regressiva invis\u00edvel. E ent\u00e3o voc\u00ea apareceu naquela praia\u2026<br>\u2003\u2003Ele soltou uma pequena risada sem humor.<br>\u2003\u2003\u2014 Pela primeira vez em anos eu quis desesperadamente ficar.<br>\u2003\u2003Clara sentiu os olhos arderem, mas n\u00e3o de tristeza apenas. Havia alguma coisa muito pior crescendo dentro dela. A sensa\u00e7\u00e3o absurda de que Daniel j\u00e1 era importante demais, mesmo t\u00e3o recente. Mesmo imposs\u00edvel. Ela aproximou-se mais devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Olha pra mim.<br>\u2003\u2003Daniel ergueu os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o t\u00f4 indo embora.<br>\u2003\u2003A express\u00e3o dele vacilou pela primeira vez, como se aquela frase tivesse atravessado alguma defesa importante. O vento bagun\u00e7ou os cabelos dos dois enquanto permaneciam ali, perto demais agora. Daniel observava Clara de um jeito silencioso, quase incr\u00e9dulo.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso devia assustar voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Clara soltou uma risada nervosa.<br>\u2003\u2003\u2014 Assusta.<br>\u2003\u2003Ele pareceu surpreso com a sinceridade.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas n\u00e3o do jeito que voc\u00ea pensa.<br>\u2003\u2003Daniel franziu levemente a testa. E Clara respirou fundo antes de continuar:<br>\u2003\u2003\u2014 O que me assusta \u00e9 sentir tudo isso t\u00e3o r\u00e1pido.<br>\u2003\u2003Ela percebeu o olhar dele mudar devagar, mais atento e vulner\u00e1vel. Ent\u00e3o continuou, mesmo nervosa:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te conhe\u00e7o h\u00e1 dois dias e parece que meu corpo inteiro reconhece voc\u00ea h\u00e1 anos. Como se eu tivesse passado muito tempo procurando alguma coisa sem saber exatamente o qu\u00ea\u2026 e agora simplesmente encontrei.<br>\u2003\u2003Daniel ficou im\u00f3vel. Clara sentiu o cora\u00e7\u00e3o bater forte demais enquanto falava:<br>\u2003\u2003\u2014 E o pior \u00e9 que nada disso parece errado.<br>\u2003\u2003As ondas quebraram contra as pedras violentamente, mas o mundo inteiro parecia distante. Daniel levantou a m\u00e3o devagar at\u00e9 o rosto dela, pela terceira vez. Os dedos tocaram sua pele com uma delicadeza quase dolorosa de um jeito que fazia parecer que Clara era algo raro ou fr\u00e1gil. Ela fechou os olhos por um segundo involuntariamente e quando abriu, Daniel estava ainda mais perto, com os olhos presos nela. Sem fugir daquela vez, sem recuar.<br>\u2003\u2003\u2014 Clara\u2026<br>\u2003\u2003A voz dele saiu baixa e rouca, honesta demais.<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que eu amaria voc\u00ea em qualquer vida.<br>\u2003\u2003Aquilo destruiu o resto das defesas dela, Clara segurou a jaqueta dele entre os dedos antes mesmo de perceber o movimento e Daniel finalmente a&nbsp; beijou. Dessa vez de verdade. Lento no come\u00e7o, cuidadoso, como algu\u00e9m que esperou tempo demais por aquele instante. Os l\u00e1bios dele eram quentes apesar do frio ao redor, e Clara sentiu o corpo inteiro estremecer quando Daniel aprofundou o beijo delicadamente, como se tivesse medo de assust\u00e1-la ainda mais, mesmo agora. Contudo, n\u00e3o havia medo nela. S\u00f3 aquela sensa\u00e7\u00e3o absurda de pertencimento, de algu\u00e9m que havia voltado para algum lugar antigo.<br>\u2003\u2003Quando se afastaram, os dois continuaram pr\u00f3ximos. Respirando o mesmo ar. Daniel encostou a testa na dela e soltou uma risada baixa, ainda sem abrir os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso foi muito melhor que nos sonhos.<br>\u2003\u2003Clara acabou rindo tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 completamente maluco.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea gostou.<br>\u2003\u2003Ela sorriu pela primeira vez sem tentar esconder.<br>\u2003\u2003\u2014 Muito.<br>\u2003\u2003Naquela noite Clara demorou horas para dormir depois de voltar para casa, mesmo depois do banho quente e mesmo tentando fingir normalidade durante o&nbsp; jantar. Daniel continuava inteiro dentro dela. A maneira como beijava, como a olhava, como falava sobre o tempo como algu\u00e9m tentando segur\u00e1-lo nas m\u00e3os. E principalmente: a dor escondida nele.<br>\u2003\u2003Clara ficou sentada no ch\u00e3o do quarto observando a fotografia que havia tirado dele no primeiro dia. Parecia imposs\u00edvel que tudo tivesse come\u00e7ado ali, naquela imagem tremida. Naquele garoto caminhando sozinho perto do mar. Ela levou os dedos at\u00e9 o retrato lentamente e sentiu medo. Porque estava come\u00e7ando a entender que amar Daniel provavelmente significava sofrer. Mas ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, Clara n\u00e3o queria fugir.<br>\u2003\u2003Clara e Daniel n\u00e3o eram nada racionais com seus sentimentos. Depois daqueles dias na praia, os dois se aproximaram mais, sa\u00edram mais vezes, beijavam-se sempre e inclusive, apresentaram-se para as fam\u00edlias um do outro. Passado um tempo curto demais para que seus pais ou qualquer pessoa acreditasse na vers\u00e3o deles, \u2014 passavam a mentir dizendo que eram amigos de longa data e s\u00f3 agora se envolveram, porque quem acreditaria em \u201camor \u00e0 primeira vista e atemporal\u201d, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2014 Clara e Daniel se envolveram como se namorassem h\u00e1 uma vida inteira.<br>\u2003\u2003Certo dia, ela foi para a casa dele. Daniel abriu o port\u00e3o antes mesmo dela bater como se estivesse esperando desde cedo. Usava uma camisa escura de mangas compridas e segurava uma caneca de caf\u00e9 nas m\u00e3os. O cabelo bagun\u00e7ado fazia parecer que tinha acabado de acordar. E ainda assim Clara achou ele absurdamente bonito.<br>\u2003\u2003Daniel sorriu no instante em que a viu. Daquele jeito pequeno, quase desacreditado porque estava amando e sendo amado pela mulher dos seus sonhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea voltou mesmo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea fala isso como se eu fosse desaparecer.<br>\u2003\u2003Ele apoiou o corpo no port\u00e3o observando ela por alguns segundos.<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que ainda t\u00f4 tentando acreditar que voc\u00ea existe fora dos sonhos.<br>\u2003\u2003O cora\u00e7\u00e3o dela falhou uma batida, Daniel deu passagem para ela entrar. A casa parecia diferente, mais \u00edntima e mais viva. O cheiro de caf\u00e9 rec\u00e9m-passado misturava-se ao de livros antigos e maresia entrando pelas janelas abertas. Clara caminhou devagar observando os detalhes que n\u00e3o tinha conseguido perceber antes. Discos empilhados perto da estante, fotografias antigas espalhadas pelas paredes, pilhas de livros gastos, plantas esquecidas perto da varanda. E dezenas de fitas cassete organizadas cuidadosamente dentro de caixas de madeira. Ela aproximou-se delas.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso tudo \u00e9 seu?<br>\u2003\u2003Daniel apareceu ao lado dela segurando duas canecas.<br>\u2003\u2003\u2014 Metade minha. Metade do meu pai.<br>\u2003\u2003Clara pegou uma das fitas. Havia frases escritas \u00e0 m\u00e3o nas etiquetas. <em>\u201cPara ouvir em dias de chuva.\u201d \u201cPra quando o mundo parecer longe.\u201d \u201cAgosto de 1998.\u201d \u201cN\u00e3o esquecer.\u201d<\/em> Aquilo apertou algo dentro dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Seu pai gravava m\u00fasicas?<br>\u2003\u2003Daniel sorriu de leve.<br>\u2003\u2003\u2014 Gravava mem\u00f3rias.<br>\u2003\u2003A resposta veio t\u00e3o simples que Clara levantou os olhos imediatamente para ele. Daniel colocou as canecas sobre a mesa antes de pegar uma das fitas cuidadosamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele tinha mania de registrar tudo. Vozes, m\u00fasicas, conversas aleat\u00f3rias\u2026 dizia que a gente esquece r\u00e1pido demais das coisas importantes.<br>\u2003\u2003Ele colocou a fita num aparelho antigo perto da estante. O chiado suave preencheu a sala. Depois uma voz masculina surgiu na grava\u00e7\u00e3o.<em> \u201cSe voc\u00ea estiver ouvindo isso, provavelmente teve um dia ruim.\u201d<\/em> Clara olhou imediatamente para Daniel. O rosto dele tinha mudado completamente. Havia saudade em cada detalhe da express\u00e3o. A grava\u00e7\u00e3o continuou:<em> \u201cEnt\u00e3o leva o r\u00e1dio pra praia. O mar sempre devolve as coisas pro lugar.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Daniel abaixou os olhos sorrindo pequeno.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele falava isso o tempo todo.<br>\u2003\u2003Clara observou o modo como Daniel segurava a fita, com cuidado demais. Como algu\u00e9m segurando um peda\u00e7o vivo de algu\u00e9m que perdeu, e ent\u00e3o entendeu que Daniel n\u00e3o colecionava objetos antigos. Colecionava perman\u00eancias.<br>\u2003\u2003Mais tarde, os dois acabaram sentados no ch\u00e3o da sala ouvindo m\u00fasicas velhas enquanto dividiam caf\u00e9 requentado e biscoitos quase murchos que Daniel encontrou no arm\u00e1rio. Conversaram sobre coisas pequenas dessa vez. Inf\u00e2ncia, filmes ruins, professores insuport\u00e1veis, o primeiro show que cada um foi, e pela primeira vez Clara viu Daniel rir sem tristeza escondida atr\u00e1s. Um riso leve, bonito e jovem tal qual o tipo de riso que ele havia devolvido a ela.<br>\u2003\u2003Aquilo destruiu ela silenciosamente porque agora conseguia enxergar n\u00e3o apenas o garoto melanc\u00f3lico da praia, mas tudo que Daniel ainda poderia ter sido. No fim da tarde, Clara observava ele rebobinar distraidamente uma fita cassete usando uma caneta enquanto cantarolava baixinho uma m\u00fasica antiga. O sol atravessava parcialmente a janela da sala iluminando o rosto dele. E naquele instante veio a certeza devastadora e inevit\u00e1vel: ela estava se apaixonando por algu\u00e9m que parecia ter atravessado vidas para encontr\u00e1-la.<br>\u2003\u2003E pela primeira vez desde que conheceu Daniel, Clara teve medo de que o amor deles tivesse come\u00e7ado exatamente quando o tempo estava acabando.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2699],"class_list":["post-10428","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-emtodasasmares"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10428"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}