{"id":10422,"date":"2026-06-13T17:00:00","date_gmt":"2026-06-13T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-12T11:59:56","modified_gmt":"2026-06-12T14:59:56","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/emtodasasmares\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O inverno sempre fazia<\/span> Clara desaparecer. N\u00e3o literalmente. Ela ainda respondia mensagens atrasadas, aparecia nos almo\u00e7os de domingo e fingia prestar aten\u00e7\u00e3o quando a m\u00e3e falava sobre concursos p\u00fablicos e estabilidade. Mas, por dentro, alguma coisa nela sumia quando junho chegava. Como se o frio abrisse espa\u00e7o para um vazio antigo que ela nunca conseguiu explicar.<br>\u2003\u2003Naquele ano, o desaparecimento veio pior, talvez porque estivesse cansada demais da pr\u00f3pria vida. Cansada da faculdade trancada, do namoro terminado sem drama suficiente para justificar a dor. Das amigas seguindo em frente enquanto ela permanecia parada, observando os dias passarem pela janela do quarto como algu\u00e9m assistindo \u00e0 vida de outra pessoa.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o fez o que sempre fazia quando o mundo parecia insuport\u00e1vel: pegou sua c\u00e2mera anal\u00f3gica, colocou um casaco grosso por cima do moletom e foi para a praia. Saquarema estava quase deserta naquela manh\u00e3. O c\u00e9u tinha um tom branco acinzentado, pesado, como se a cidade inteira estivesse presa dentro de uma fotografia antiga. O vento vinha forte do mar, cortando a pele e bagun\u00e7ando tudo pelo caminho. Clara gostava disso. Gostava de praias vazias porque ningu\u00e9m esperava felicidade de algu\u00e9m sozinho no inverno.<br>\u2003\u2003Ela caminhou devagar pela areia \u00famida, deixando os t\u00eanis <em>allstar <\/em>afundarem levemente a cada passo. O mar estava agitado naquele dia. As ondas quebravam violentas contra as pedras, espumando como raiva acumulada. Perfeito. Ergueu a c\u00e2mera e fotografou o horizonte.<br>\u2003\u2003Click.<br>\u2003\u2003Depois as pedras.<br>\u2003\u2003Click.<br>\u2003\u2003Depois o mar.<br>\u2003\u2003Click.<br>\u2003\u2003Gostava de fotografar coisas que pareciam sobreviver mesmo destru\u00eddas, j\u00e1 que no fundo, havia em Clara um sentimento natural e melanc\u00f3lico, como de algu\u00e9m que entendesse aquilo.<br>\u2003\u2003Continuou andando at\u00e9 encontrar um ponto mais afastado da praia, perto das pedras escuras onde quase ningu\u00e9m costumava ficar. Sentou-se ali, abra\u00e7ando os joelhos por alguns segundos enquanto observava a \u00e1gua avan\u00e7ar e recuar infinitamente. O vento gelado fazia seus olhos arderem, ou talvez fosse s\u00f3 cansa\u00e7o. Clara estava prestes a levantar quando ouviu m\u00fasica. Baixinha primeiro, distante, quase engolida pelo som do mar. Ela franziu a testa. Era uma melodia antiga, saindo de um r\u00e1dio port\u00e1til cheio de chiados.<br>\u2003\u2003N\u00e3o reconheceu a m\u00fasica de imediato, mas havia alguma coisa estranhamente familiar nela, ent\u00e3o Clara come\u00e7ou a procurar a origem do som e virou o rosto na exata dire\u00e7\u00e3o <strong>dele<\/strong>. Um garoto caminhava sozinho pela areia molhada, segurando uma caixinha de som no formato de um r\u00e1dio antigo, como se tivesse sa\u00eddo de outro tempo. Usava uma jaqueta jeans escura, t\u00eanis gastos e os cabelos castanhos bagun\u00e7ados pelo vento. Ele n\u00e3o parecia sentir frio, apesar da jaqueta e tamb\u00e9m n\u00e3o parecia pertencer \u00e0quele lugar.<br>\u2003\u2003Havia algo melanc\u00f3lico nele, n\u00e3o tristeza exatamente. Era mais\u2026 dist\u00e2ncia. Como algu\u00e9m que estava presente s\u00f3 pela metade, e Clara reconhecia-se naquilo. Ela o observou enquanto ele caminhava sem pressa, olhando o mar como se procurasse alguma coisa perdida entre as ondas. Ent\u00e3o, quase sem perceber, levou a c\u00e2mera at\u00e9 o rosto dele.<br>\u2003\u2003Click.<br>\u2003\u2003O garoto virou imediatamente. Os olhos dele encontraram os dela, e o ar sumiu dos pulm\u00f5es de Clara. Foi r\u00e1pido, dois segundos, talvez menos, mas alguma coisa atravessou seu peito de maneira t\u00e3o brusca que ela precisou abaixar a c\u00e2mera. <em>\u201cReconhecimento\u201d<\/em>, aquela foi a primeira palavra que apareceu em sua mente, n\u00e3o atra\u00e7\u00e3o, nem curiosidade. Reconhecimento. Como encontrar uma m\u00fasica que voc\u00ea n\u00e3o ouve h\u00e1 anos, mas ainda sabe cantar inteira e te deixa uma vibe incr\u00edvel de prazer e calma.<br>\u2003\u2003O garoto come\u00e7ou a andar na dire\u00e7\u00e3o dela, assim que percebeu a foto registrada pela garota, mas sobretudo, quando ela abaixou a c\u00e2mera revelando seu rosto e o encarando. Clara sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar. <em>\u201c\u00d3timo! Agora ele acha que sou uma psicopata!\u201d,<\/em> pensou. Quando ele parou diante dela, o vento pareceu ainda mais frio.<br>\u2003\u2003De perto, era mais bonito do que ela imaginava. Tinha olhos escuros cansados demais para algu\u00e9m t\u00e3o jovem e uma express\u00e3o tranquila que dava vontade de continuar olhando.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tirou uma foto minha? \u2014 ele perguntou.<br>\u2003\u2003A voz era baixa. Rouca na medida certa. Clara abaixou totalmente a c\u00e2mera rapidamente, quase como se a escondesse.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi sem querer.<br>\u2003\u2003Ele arqueou uma sobrancelha.<br>\u2003\u2003\u2014 Sem querer voc\u00ea apontou a c\u00e2mera exatamente pra mim?<br>\u2003\u2003Ela segurou o riso.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez eu esteja fotografando o mar.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu tenho cara de oceano?<br>\u2003\u2003Pela primeira vez em semanas, Clara sorriu de verdade. Um sorriso pequeno, instintivo, quase involunt\u00e1rio. O garoto percebeu e sorriu tamb\u00e9m. Aquilo piorou tudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Posso ver? \u2014 ele perguntou, apontando para a c\u00e2mera.<br>\u2003\u2003Ela hesitou antes de entregar. O garoto aproximou-se um pouco mais, para observar a fotografia revelada parcialmente no visor, subindo em algumas das pedras que ela estava sentando-se ao lado dela. Clara sentiu o cheiro de chuva e cigarro na roupa dele. E achou o odor estranhamente familiar, estranhamente confort\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 Ficou boa \u2014 ele disse.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea nem conseguiu ver direito\u2026 Espera. \u2014 Ela falou tentando dar um <em>\u201czoom\u201d<\/em> na imagem.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas voc\u00ea conseguiu ver direitinho.<br>\u2003\u2003Ela franziu a testa.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Me ver, de um jeito muito \u00fanico.<br>\u2003\u2003Clara sustentou o olhar dele por alguns segundos longos demais. O vento bagun\u00e7ava os cabelos dos dois enquanto o r\u00e1dio da caixinha continuava tocando baixinho ao lado deles.<br>\u2003\u2003\u2014 A fotografia ficou \u00f3tima. Qual seu nome? \u2014 ele perguntou.<br>\u2003\u2003\u2014 Clara.<br>\u2003\u2003Ele assentiu lentamente, como se estivesse confirmando algo que j\u00e1 sabia.<br>\u2003\u2003\u2014 Combina com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 E o seu?<br>\u2003\u2003\u2014 Daniel.<br>\u2003\u2003O nome caiu estranho dentro dela como uma mem\u00f3ria.<br>\u2003\u2003Daniel ajeitou-se ao lado dela, apoiando os bra\u00e7os nos joelhos enquanto observava o mar, o que fez os seus corpos se aproximarem mais. E, estranhamente, Clara n\u00e3o se incomodou. Normalmente odiava pessoas invasivas, mas o sil\u00eancio dele n\u00e3o era desconfort\u00e1vel, era calmo.<br>\u2003\u2003Os dois ficaram alguns segundos olhando as ondas quebrarem.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vem sempre aqui? \u2014 Daniel perguntou.<br>\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 quando quero sumir.<br>\u2003\u2003Ele soltou uma risada baixa pelo nariz.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea vem bastante?<br>\u2003\u2003Clara olhou para ele de lado.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea?<br>\u2003\u2003Daniel demorou um pouco antes de responder.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu venho quando quero me lembrar de quem eu realmente sou.<br>\u2003\u2003Aquilo ficou entre eles. Eram pouqu\u00edssimas as palavras trocadas entre eles desde que iniciaram o di\u00e1logo, mas apesar de poucas, tudo o que diziam soava pesado, bonito. E era at\u00e9, de certa maneira, dif\u00edcil de entender a sensa\u00e7\u00e3o de familiaridade entre eles.<br>\u2003\u2003O r\u00e1dio chiou novamente por causa do vento, j\u00e1 que a caixinha de som de Daniel, era mesmo antiga e n\u00e3o parecida como uma tecnologia antiga, tinha at\u00e9 uma antena. Daniel bateu de leve na lateral do aparelho at\u00e9 a m\u00fasica voltar.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 muito velho \u2014 Clara comentou. \u2014 Eu achei que fosse uma dessas JBL que imitam um r\u00e1dio vintage.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei, mas eu prefiro as coisas mais aut\u00eanticas e n\u00e3o as que se parecem aut\u00eanticas.<br>\u2003\u2003Ele deu de ombros.<br>\u2003\u2003\u2014 Tamb\u00e9m gosto de coisas que sobrevivem ao tempo.<br>\u2003\u2003Ele sentiu um arrepio, porque era exatamente o tipo de coisa que ele pensaria. O mar parecia mais agitado agora. As ondas avan\u00e7avam cada vez mais perto das pedras. Daniel observava o horizonte como algu\u00e9m esperando alguma coisa acontecer.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9\u2026 Estranho \u2014 ele murmurou.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Os olhos dele encontraram os dela novamente. E ali estava aquela sensa\u00e7\u00e3o outra vez, como d\u00e9j\u00e0 vu. Como saudade. Como se aquele momento estivesse se repetindo.<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho a impress\u00e3o de que j\u00e1 conhe\u00e7o voc\u00ea \u2014 ele disse.<br>\u2003\u2003Clara deveria ter achado aquilo rid\u00edculo, um tipo de frase pronta, uma cantada ruim, algo clich\u00ea, mas n\u00e3o conseguiu porque sentia exatamente o mesmo.<br>\u2003\u2003Ela apertou os dedos em volta da c\u00e2mera.<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que nunca te esqueceria se j\u00e1 tivesse conhecido. \u2014 Ela arriscou.<br>\u2003\u2003Daniel sustentou o olhar dela por tempo demais. Ent\u00e3o sorriu de leve, triste s\u00f3 que de um jeito bonito.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 estranho que eu simplesmente parei aqui do seu lado assim que olhei nos seus olhos e\u2026 \u00c9 confort\u00e1vel mesmo que a gente s\u00f3 esteja em sil\u00eancio a maior parte do tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 E \u00e9 estranho que eu n\u00e3o tenha ficado desconfort\u00e1vel. Geralmente eu acho invasivo quem se aproxima assim \u201cdo nada\u201d. \u2014 Ela sorriu.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 invasivo para mim quem tira foto do meu rosto \u201cdo nada\u201d \u2014 Daniel brincou arrancando um riso sincero dela. \u2014 Voc\u00ea disse que n\u00e3o se esqueceria se a gente tivesse se conhecido, mas talvez voc\u00ea tenha esquecido mesmo assim. Sei l\u00e1\u2026 \u00c9 muito certo para mim que a gente j\u00e1 se conhece de algum lugar.<br>\u2003\u2003O vento aumentou naquele instante. O r\u00e1dio chiou de nova, e mais uma vez, as ondas quebraram violentas contra as pedras um pouco distante de onde eles estavam, as mesmas que Clara fotografou primeiro assim que pisou na praia. Uma gaivota atravessou o c\u00e9u cinza acima deles no mesmo instante que Daniel disse aquilo, como se concordasse com ele, e Clara sentiu, sem entender por qu\u00ea, que sua vida acabava de mudar. Ela s\u00f3 ainda n\u00e3o sabia quanto.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2699],"class_list":["post-10422","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-emtodasasmares"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}