{"id":10408,"date":"2026-06-09T16:21:14","date_gmt":"2026-06-09T19:21:14","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-09T16:30:14","modified_gmt":"2026-06-09T19:30:14","slug":"capitulo-08","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-08\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 08"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O cheiro era o<\/span> primeiro ind\u00edcio: n\u00e3o de sangue, nem de p\u00f3lvora \u2014 mas de mofo, madeira podre e metal oxidado, como uma casa de inf\u00e2ncia abandonada h\u00e1 d\u00e9cadas. Natasha empurrou a porta entreaberta com cautela, os olhos percorrendo cada canto daquele por\u00e3o enterrado sob um celeiro velho, afastado de qualquer radar digital. Nenhum sinal de vida, mas tudo ali <em>gritava<\/em> presen\u00e7a.<br>\u2003\u2003Ela sabia que n\u00e3o era sorte estar ali. Aquilo fora deixado de prop\u00f3sito. Uma clara provoca\u00e7\u00e3o e um teste para ver o que iria acontecer em seguida.<br>\u2003\u2003As paredes estavam cobertas por mapas, recortes de jornal, fotos em preto e branco e outras coloridas, em qualidade prec\u00e1ria. Algumas com rostos riscados com tinta vermelha. Outras&#8230; com olhos furados. Havia datas, c\u00f3digos, marcas de vigil\u00e2ncia. O mural simbolizava o ciclo completo de viol\u00eancia que se desencadeou nos \u00faltimos meses.<br>\u2003\u2003E bem no centro do caos visual, afixado com um alfinete enferrujado, estava o que parecia um peda\u00e7o de papel arrancado de um livro antigo e dobrado com cuidado, com rever\u00eancia e respeito. Natasha aproximou-se devagar. Seus dedos hesitaram por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo antes de desdobrar o papel. A caligrafia era n\u00edtida, elegante, firme \u2014 com tinta preta, tra\u00e7ada por uma m\u00e3o sem pressa. No topo, escrito \u00e0 m\u00e3o, lia-se:<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong><em>Contando Corvos<\/em><\/strong><br><em>Um para tristeza,<br>Dois para alegria,<br>Tr\u00eas para um funeral,<br>Quatro para nascimento.<br>Cinco para prata,<br>Seis para ouro,<br>Sete para um segredo que nunca ser\u00e1 contado.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O sangue dela esfriou. Natasha conhecia aquela rima infantil, de acordo com uma antiga supersti\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de Pegas vistas indica se a pessoa ter\u00e1 boa ou m\u00e1 sorte. Naquele momento, todas as sete \u201cpegas\u201d n\u00e3o tiveram boa sorte. Ela deu dois passos para tr\u00e1s, encarando o mural como um todo e viu: havia sete fotos sem rostos. Sete buracos. Sete pe\u00e7as faltando. Sete corvos. Sete mortos. Sete inten\u00e7\u00f5es. Ela sussurrou o poema outra vez, quase em rever\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Um para tristeza&#8230;<br>\u2003\u2003Um dos primeiros assassinatos: a diretora de seguran\u00e7a da filial europeia da Hydra. Uma morte dolorosa e p\u00fablica. Um aviso.<br>\u2003\u2003\u2014 Dois para alegria&#8230;<br>\u2003\u2003A segunda v\u00edtima: um cientista. Um daqueles que achava gra\u00e7a em estudar dor. Morreu com um sorriso costurado na boca.<br>\u2003\u2003\u2014 Tr\u00eas para um funeral&#8230;<br>\u2003\u2003O embaixador. Enterrado vivo em uma cripta usada pela antiga S.H.I.E.L.D. na Pol\u00f4nia. Ironia grotesca.<br>\u2003\u2003\u2014 Quatro para nascimento&#8230;<br>\u2003\u2003Ela gelou novamente. N\u00e3o havia ainda um quarto assassinato com esse perfil. Ou havia&#8230; e ela n\u00e3o havia notado a conex\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Cinco para prata, seis para ouro&#8230;<br>\u2003\u2003Dois alvos ligados ao tr\u00e1fico de vibranium e tecnologias roubadas. Ela j\u00e1 tinha os nomes. Eles tamb\u00e9m j\u00e1 estavam mortos.<br>\u2003\u2003\u2014 Sete para um segredo que nunca ser\u00e1 contado&#8230;<br>\u2003\u2003Ao lado, havia uma foto de um beb\u00ea cuja data de nascimento era 31 de outubro de 1991. Natasha n\u00e3o entendeu a conex\u00e3o com os casos, mas sabia que aquilo n\u00e3o havia deixado ali por descuido. Era proposital e significava algo, mesmo que naquele momento n\u00e3o pudesse compreender.<br>\u2003\u2003A luz da lanterna tremia quando Natasha deslizou a m\u00e3o pela parede de madeira atr\u00e1s da estante. Um som oco respondeu ao toque. N\u00e3o foi um estalo alto, nem uma pista \u00f3bvia \u2014 apenas uma varia\u00e7\u00e3o sutil no som, quase impercept\u00edvel, mas suficiente para acender o alerta nos instintos agu\u00e7ados dela. Ela empurrou e a madeira rangeu. Um painel cedeu, revelando uma abertura estreita, que levava a um c\u00f4modo menor, sem janelas, sufocado pelo cheiro de poeira antiga, tinta velha e papel queimado.<br>\u2003\u2003O que encontrou ali fez seu est\u00f4mago se revirar.<br>\u2003\u2003Era outro mural. Maior. Tinha o restante dos assassinados, mas n\u00e3o era como o anterior, que transbordava de raiva, desorganiza\u00e7\u00e3o e f\u00faria desenfreada. Este era diferente. Este era&#8230; limpo. Como se tivesse sido montado com uma calma impressionante e assustadora. As paredes estavam cobertas por folhas pregadas com alfinetes pretos \u2014 cada uma com trechos escritos \u00e0 m\u00e3o, recortes de jornais, fotografias e, acima de tudo, n\u00fameros. Cada n\u00famero alinhado com um verso.<br>\u2003\u2003No topo, um novo trecho do mesmo poema. A segunda parte.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>Oito por um desejo,<br>Nove por um beijo,<br>Dez por uma surpresa que voc\u00ea deve ter cuidado para n\u00e3o perder,<br>Onze por sa\u00fade,<br>Doze por riqueza,<br>Treze \u2014 cuidado, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Natasha prendeu a respira\u00e7\u00e3o. O padr\u00e3o que antes parecia arbitr\u00e1rio agora se tornava claro. O primeiro mural foram os primeiros. Este era a conclus\u00e3o do trabalho. Ela deu um passo mais perto.<br>\u2003\u2003Havia seis fotos riscadas. Nomes codificados com s\u00edmbolos que ela reconhecia da \u00e9poca da Sala Vermelha. Pessoas que j\u00e1 estavam mortas \u2014 cada uma encaixando-se com perfei\u00e7\u00e3o aos versos anteriores. Os sorrisos costurados, os enterros macabros, os recados deixados com sangue ou veneno. Uma linha narrativa constru\u00edda como se fosse uma piada doentia.<br>\u2003\u2003Mas os \u00faltimos cinco versos\u2026 ainda estavam em aberto.<br>\u2003\u2003No verso &#8220;Oito por um desejo&#8221;, havia a imagem borrada de um homem com express\u00e3o cansada. Um antigo cientista da Hydra que desaparecera misteriosamente meses antes. Ao lado do recorte de jornal sobre sua morte, havia um bilhete preso com alfinete dourado: <em>\u201cVoc\u00ea sonhou com liberdade. Eu concedi.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003O &#8220;Nove por um beijo&#8221; mostrava uma mulher mais jovem, loira, ex-agente de sedu\u00e7\u00e3o da Hydra. Encontrada morta em um quarto de hotel na B\u00e9lgica, com uma rosa preta na boca e batom nos dentes. Natasha sentiu um arrepio.<br>\u2003\u2003&#8221;Dez por uma surpresa que voc\u00ea deve ter cuidado para n\u00e3o perder&#8221; estava marcado com um s\u00edmbolo que ela conhecia bem \u2014 o antigo selo de acesso \u00e0 torre principal da Hydra na Baviera. Algu\u00e9m ali fora morto de forma que a imprensa chamou de \u201cacidente industrial\u201d. Mas pelo que via agora, n\u00e3o havia nada de acidental. Apenas um lembrete: ningu\u00e9m est\u00e1 seguro, nem os que se escondem sob camadas de burocracia.<br>\u2003\u2003O verso &#8220;Onze por sa\u00fade&#8221; tinha a foto de uma mulher elegante, tamb\u00e9m datada de 1991 e que n\u00e3o fazia parte das v\u00edtimas. Natasha associou \u00e0 foto do beb\u00ea, porque seu instinto dizia que estavam conectados. &#8220;Doze por riqueza&#8221; tinha a foto de Tony, o que lhe desconsertou completamente. <em>Por que Tony?<\/em> Ele era o \u00faltimo alvo daquele poema, isso era n\u00edtido.<br>\u2003\u2003A letra declarava a senten\u00e7a dos nomes e fotos riscadas, como t\u00famulos sem l\u00e1pides. Mas os nomes codificados ali sugeriam conex\u00f5es: um m\u00e9dico da antiga divis\u00e3o de experimentos gen\u00e9ticos, e um banqueiro su\u00ed\u00e7o que lavava dinheiro para a Hydra desde os anos 90. Natasha anotou os s\u00edmbolos mentalmente. Iria cruzar aquilo com os arquivos do Fury depois.<br>\u2003\u2003Mas ent\u00e3o chegou no \u00faltimo.<br>\u2003\u2003&#8221;Treze \u2014 cuidado, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo.\u201d<br>\u2003\u2003A folha correspondente estava rasgada ao meio, como se a pr\u00f3pria autora daquilo tivesse se arrependido de pregar o rosto final. Mas o nome escrito ali, com tinta preta quase desbotada, era claro.<br>\u2003\u2003<strong>Anya.<\/strong><br>\u2003\u2003Natasha recuou um passo.<br>\u2003\u2003Anya. A \u00faltima instrutora viva da Sala Vermelha antes do programa ser dissolvido. A mulher que treinou dezenas de meninas, que decidia quem vivia e quem era descartada. A mesma que Natasha j\u00e1 pensara, mais de uma vez, em ca\u00e7ar com as pr\u00f3prias m\u00e3os&#8230; mas nunca o fez.<br>\u2003\u2003E agora, Anya estava morta e foi por veneno no ch\u00e1. Diferente das outras mortes, era a \u00fanica que morrera em paz. Por um momento, Natasha n\u00e3o conseguiu entender. Por que poupar <em>ela<\/em> da viol\u00eancia? Por que dar a ela o privil\u00e9gio de uma morte sem dor?<br>\u2003\u2003Mas ent\u00e3o viu o bilhete no canto inferior da parede. Um recado deixado para algu\u00e9m como ela. Para quem procurava sentido no caos. Escrito \u00e0 m\u00e3o, em letras pequenas e delicadas, mas nunca deixando o sarcasmo de lado, como se cada tra\u00e7o tivesse sido entalhado com deboche:<br>\u2003\u2003<em>&#8220;A pior puni\u00e7\u00e3o \u00e9 deixar algu\u00e9m morrer implorando por um perd\u00e3o que nunca ir\u00e1 receber.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Natasha sentiu o gosto met\u00e1lico na boca. Engoliu em seco. O que quer que estivesse guiando essa assassina&#8230; n\u00e3o era <em>apenas<\/em> vingan\u00e7a. Era justi\u00e7a distorcida, fria \u2014 e ainda assim profundamente pessoal. A obra de algu\u00e9m que conhecia os nomes, os rostos, os detalhes mais \u00edntimos de cada uma das v\u00edtimas. Algu\u00e9m que <em>viveu<\/em> sob as botas da Hydra. Que aprendeu a matar com as m\u00e3os e a escrever com os corpos.<br>\u2003\u2003O estalo do osso deslocando sob impacto foi abafado, mas o suficiente para que Natasha soubesse que havia algo errado com seu ombro. O corpo dela bateu contra o ch\u00e3o com for\u00e7a, a respira\u00e7\u00e3o entrecortada enquanto tentava processar o que havia acabado de acontecer. A mulher mascarada n\u00e3o hesitou \u2014 pisou firme no ch\u00e3o de concreto rachado, aproximando-se com um andar calmo, deliberado, como quem j\u00e1 sabia que a luta tinha terminado muito antes de come\u00e7ar.<br>\u2003\u2003\u2014 Gostou do mural? \u2014 disse a voz protegida por uma m\u00e1scara que era estranhamente parecida com a do Soldado Invernal.<br>\u2003\u2003Natasha tentou levantar-se, o sangue latejando nas t\u00eamporas, os m\u00fasculos doloridos reagindo a cada comando com atraso. Uma das m\u00e3os ainda procurava apoio quando um chute r\u00e1pido derrubou a perna de sustenta\u00e7\u00e3o, jogando-a de volta ao ch\u00e3o. A l\u00e2mina, agora na m\u00e3o da invasora, reluzia sob a fraca ilumina\u00e7\u00e3o do esconderijo, os restos do mural ardendo num canto com chamas que estalavam entre peda\u00e7os de papel carbonizado.<br>\u2003\u2003A mulher se abaixou devagar, ficando frente a frente com Natasha. O rosto continuava oculto pela m\u00e1scara met\u00e1lica, sem emblemas, sem qualquer tra\u00e7o de humanidade \u2014 mas os olhos por tr\u00e1s da viseira eram vivos. E frios. Intensos demais para serem esquecidos.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, Natasha. Voc\u00ea n\u00e3o muda. Sempre direta.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai me matar? \u2014 cuspiu Natasha, o tom rouco, mais indignado do que com medo. \u2014 \u00c9 isso? Concluir o espet\u00e1culo?<br>\u2003\u2003\u2014 Engra\u00e7ado voc\u00ea dizer isso. Vinda de algu\u00e9m com tanto sangue nas m\u00e3os quanto eu. \u2014 A resposta foi sussurrada, carregada de um sarcasmo \u00e1cido, mas quase imperceptivelmente raivoso.<br>\u2003\u2003A figura observou por um momento. Inclinou levemente a cabe\u00e7a para o lado, como quem contempla uma pintura incompleta. Depois, falou \u2014 e a voz abafada soou baixa, controlada, mas com uma camada fina de veneno que quase se dissolvia no tom calmo.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas eu devia, n\u00e3o acha? Voc\u00ea est\u00e1 no meu caminho. Mexendo no que n\u00e3o deve e pensando que ainda pode salvar o mundo com frases de efeito e uma arma na m\u00e3o. T\u00e3o pat\u00e9tico \u2014 continuou claramente zombando da agente.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que Tony? \u2014 ela arriscou. \u2014 Ele n\u00e3o tem nada a ver com-<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, Natasha&#8230; \u2014 interrompeu a voz, dessa vez mais fria, mais densa. \u2014 Tem tudo a ver com ele. E eu sei que voc\u00ea quer saber mais do que pode entender&#8230; e chega a ser c\u00f4mico. Mas, vamos l\u00e1, n\u00e3o vou ser injusta.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o a figura se moveu, como quem estivesse dando <em>autoriza\u00e7\u00e3o <\/em>para que Natasha pudesse se levantar. Era um convite debochado para a briga. Ela se ergueu devagar, limpando a poeira do casaco escuro e soltando a faca, que caiu com um tinido sutil ao lado da perna de Natasha.<br>\u2003\u2003Quando enfim se recomp\u00f4s, nada precisou ser dito. Os dois corpos se chocaram, um emaranhado de for\u00e7a e velocidade, cada movimento calculado para quebrar o outro. Natasha tentou usar seu treinamento, mas a garota estava l\u00e1, feroz e determinada, com uma for\u00e7a que parecia vir cheia de raiva, um combust\u00edvel sombrio que fazia cada golpe ecoar na sala vazia.<br>\u2003\u2003O primeiro soco veio como um trov\u00e3o, acertando o lado do rosto de Natasha, fazendo-a recuar um passo. Mas ela n\u00e3o cedeu, os olhos endurecidos em desafio. Contra-atacou com uma sequ\u00eancia r\u00e1pida de socos, tentando desarmar a advers\u00e1ria, for\u00e7ar uma brecha. A garota desviava com uma gra\u00e7a letal, cada movimento carregado de agilidade claramente predat\u00f3ria, e ent\u00e3o, num instante, agarrou o pulso de Natasha com uma for\u00e7a que esmagadora.<br>\u2003\u2003Os dedos da jovem assassina se fecharam ao redor da arma da agente, puxando-a com um giro r\u00e1pido que deixou Natasha desequilibrada. A arma caiu no ch\u00e3o com um baque surdo, longe demais para Natasha alcan\u00e7ar de imediato. A jovem n\u00e3o deu espa\u00e7o para que ela pudesse agir; avan\u00e7ou como uma tempestade, desferindo uma sequ\u00eancia de golpes que buscavam quebrar n\u00e3o s\u00f3 o corpo, mas a resist\u00eancia da mulher \u00e0 sua frente.<br>\u2003\u2003Natasha tentou bloquear, mas a for\u00e7a da advers\u00e1ria era implac\u00e1vel, e o som dos ossos rangendo sob os impactos parecia reverberar pelas paredes do esconderijo. A respira\u00e7\u00e3o delas se misturava em meio ao caos da luta \u2014 r\u00e1pida, curta, carregada de adrenalina. Natasha sentiu uma dor aguda no ombro quando a assassina a atingiu com um cotovelo, desequilibrando-a ainda mais. Ela caiu contra a parede, as costas raspando a superf\u00edcie \u00e1spera, mas n\u00e3o cedeu. N\u00e3o podia se dar ao luxo.<br>\u2003\u2003Com um movimento r\u00e1pido, Natasha se livrou da press\u00e3o, girando para tentar um golpe de contra-ataque, mas a garota antecipou o movimento, puxando-a para perto, com um bra\u00e7o em volta do pesco\u00e7o dela, firme e controlado. A proximidade era sufocante \u2014 n\u00e3o havia espa\u00e7o para fuga, s\u00f3 a presen\u00e7a fria e implac\u00e1vel da inimiga.<br>\u2003\u2003Mas Natasha n\u00e3o se entregou. Com um impulso desesperado, ela golpeou a garota na costela, provocando um gemido abafado, suficiente para ganhar espa\u00e7o para se soltar. Ca\u00edram separadas, ofegantes, olhos fixos, corpos tensos como cordas prestes a se romper.<br>\u2003\u2003O ar parecia pesado, carregado com a intensidade de tudo que n\u00e3o fora dito \u2014 rancor, \u00f3dio, vingan\u00e7a. E mesmo no meio daquele confronto brutal, havia uma estranha rever\u00eancia m\u00fatua, como se ambas soubessem que nenhuma sairia vitoriosa sem pagar um pre\u00e7o alto demais.<br>\u2003\u2003A figura deu um passo \u00e0 frente, uma risada cruel saindo de seus l\u00e1bios atr\u00e1s da sua m\u00e1scara, enquanto Natasha, j\u00e1 recuperando a postura, preparava-se para a pr\u00f3xima investida.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez voc\u00ea precise de uma pausa? \u2014 debochou novamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai sonhando \u2014 Natasha respondeu antes de avan\u00e7ar novamente.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1, legal. Foi voc\u00ea quem pediu.<br>\u2003\u2003O impacto seguinte esmagou Natasha contra a parede com uma for\u00e7a violenta, tirando o ar de seus pulm\u00f5es em um golpe que parecia rasgar a sua carne. Cada movimento da mulher que a atacava era carregado de uma f\u00faria que n\u00e3o se importava em se conter, uma determina\u00e7\u00e3o brutal que n\u00e3o demonstrava hesita\u00e7\u00e3o ou compaix\u00e3o. O som dos passos rangendo sob os golpes r\u00e1pidos e violentos preenchia o ambiente, enquanto Natasha tentava desesperadamente encontrar um ponto de apoio, uma brecha para se defender.<br>\u2003\u2003Contudo, a advers\u00e1ria n\u00e3o dava tr\u00e9gua. Com m\u00e3os firmes, ela segurava os bra\u00e7os de Natasha, torcendo-os em \u00e2ngulos dolorosos, fazendo a agente ranger os dentes para suportar a dor que se espalhava por seus m\u00fasculos. N\u00e3o havia piedade naquele ataque; era como se cada golpe fosse determinar uma senten\u00e7a, um julgamento pessoal que Natasha n\u00e3o tinha direito de contestar.<br>\u2003\u2003A cada investida, Natasha sentia a resist\u00eancia enfraquecer, as defesas se desmontando como pe\u00e7as de um quebra-cabe\u00e7a. Ela tentou um chute para afastar a inimiga, mas foi bloqueada e puxada novamente para perto, o rosto da atacante a poucos cent\u00edmetros do seu. Os olhos, frios e impiedosos, n\u00e3o revelavam nada al\u00e9m da sede de destrui\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003O corpo de Natasha tremia, cansado, mas a mente corria em busca de qualquer estrat\u00e9gia, qualquer artif\u00edcio para virar o jogo. Por\u00e9m, naquela presen\u00e7a severa, n\u00e3o havia brechas \u2014 s\u00f3 a inevit\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo consumida por uma for\u00e7a que parecia quase sobrenatural.<br>\u2003\u2003A luta se arrastava, brutal e crua, e ainda assim, por tr\u00e1s da m\u00e1scara de viol\u00eancia, havia um mist\u00e9rio profundo que Natasha n\u00e3o conseguia decifrar. Quem era aquela mulher que parecia conhecer cada passo, cada fraqueza, como se tivesse ensaiado suas t\u00e1ticas e estilo de combate por toda a vida? E, principalmente, como ela conseguia estar sempre um passo \u00e0 frente, controlando cada movimento com uma frieza assustadora?<br>\u2003\u2003Enquanto a briga continuava, Natasha sentia que estava perdendo muito mais do que a batalha \u2014 estava prestes a perder o controle sobre tudo que conhecia. E, naquela figura que a dominava, algo ainda mais perigoso se escondia, aguardando o momento certo para revelar seu verdadeiro rosto.<br>\u2003\u2003Com um \u00faltimo golpe brutal, a mulher derrubou Natasha no ch\u00e3o frio e duro, o impacto fazendo o ar escapar em um suspiro doloroso. Natasha ficou ali, respirando com dificuldade, seu corpo latejando em cada cent\u00edmetro. A figura sobre ela se inclinou, soltando novamente aquela risada com uma mistura de desprezo e satisfa\u00e7\u00e3o cruel.<br>\u2003\u2003\u2014 Achou mesmo que poderia me encontrar e sair daqui inteira? \u2014 A voz era baixa, quase um sussurro venenoso, carregado de um tom de sarcasmo e deboche \u2014 Isso aqui termina agora. Pra voc\u00ea e pra tudo que tentou descobrir.<br>\u2003\u2003Antes que Natasha pudesse reagir, a mulher se afastou, firme e inflex\u00edvel. Com movimentos tranquilos e calmos, come\u00e7ou a apagar cada fragmento da investiga\u00e7\u00e3o, cada documento, cada fotografia \u2014 um fogo devorador que consumia provas e dados com a mesma frieza impiedosa. O mural na parede, que mostrava rostos, conex\u00f5es e no centro a imagem de Tony Stark, foi reduzido a cinzas, meros estilha\u00e7os.<br>\u2003\u2003Deu alguns passos para tr\u00e1s, com a mesma tranquilidade de quem j\u00e1 havia vencido. Natasha tentou se erguer novamente, o rosto j\u00e1 manchado de poeira, suor e sangue, mas o corpo n\u00e3o cooperava. As chamas atr\u00e1s da atacante faziam com que a figura ganhasse contornos quase irreais, o calor tornando o ar ao redor inst\u00e1vel. Enquanto as chamas engoliam tudo, a figura se virou para Natasha, sua sombra alongada pelas labaredas, admirando o trabalho final.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai fugir? \u2014 rosnou Natasha, erguendo a voz. \u2014 \u00c9 isso que voc\u00ea \u00e9? Uma covarde?<br>\u2003\u2003A mulher parou na porta aberta, ainda de costas, uma m\u00e3o no batente como se estivesse decidindo se voltava para terminar o trabalho. Ent\u00e3o virou o rosto s\u00f3 o suficiente para que sua voz chegasse, abafada, firme, cortante:<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea devia me agradecer por ainda estar respirando.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o completou, mais baixo, como um aviso nada sutil. Era um tom calmo, mas, ao mesmo tempo, perigoso, antes de jogar tr\u00eas fotos sobre a agente.<br>\u2003\u2003\u2014 Nunca mais tente me seguir. \u2014 A amea\u00e7a ficou no ar, cortante como uma l\u00e2mina. \u2014 Estou te deixando viva, agrade\u00e7a por isso, Romanoff.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O cheiro de fuma\u00e7a ainda pairava no ar quando os far\u00f3is do jipe preto cortaram a penumbra do beco estreito. A porta lateral se abriu com um baque seco, e passos apressados ecoaram pelas po\u00e7as d\u2019\u00e1gua formadas pela chuva recente. Nick surgiu entre as sombras do galp\u00e3o abandonado, com o sobretudo escuro encharcado at\u00e9 a bainha e o olhar fixo na figura encolhida perto da parede parcialmente carbonizada.<br>\u2003\u2003Natasha n\u00e3o se moveu de imediato. Estava sentada no ch\u00e3o, o ombro direito im\u00f3vel, os cabelos grudados na pele suada, os olhos fixos no espa\u00e7o vazio onde antes havia um mural. O ch\u00e3o ao seu redor era um caos de cinzas, fragmentos de papel, madeira queimada e a\u00e7o retorcido. Tudo o que poderia ter sido \u00fatil havia sido destru\u00eddo bem na sua frente e n\u00e3o restava nada al\u00e9m das cinzas.<br>\u2003\u2003\u2014 Vejo que seu passeio n\u00e3o terminou muito bem \u2014 disse Fury, parando diante dela, a voz arrastada com aquele tom entre o sarcasmo e a preocupa\u00e7\u00e3o. \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 bem?<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu de imediato. Levou alguns segundos para erguer os olhos at\u00e9 ele, como se estivesse voltando de um lugar mental distante demais. A boca se moveu, mas a primeira tentativa de falar morreu em um sopro cansado. S\u00f3 ent\u00e3o ela inspirou fundo, ignorando a dor no corpo, e falou:<br>\u2003\u2003\u2014 Ela me deixou viver.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Ela<\/em>? \u2014 Fury arqueou uma sobrancelha. \u2014 Voc\u00ea viu quem \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o completamente. M\u00e1scara, postura de combate refinada\u2026 muito al\u00e9m do que a gente v\u00ea em assassinos comuns. Eu tentei contra-atacar, mas ela\u2026 \u2014 Natasha engoliu em seco, como se a admiss\u00e3o lhe custasse mais do que os hematomas. \u2014 Me derrubou com facilidade. E sabia exatamente onde mirar.<br>\u2003\u2003Fury se agachou ao lado dela, os olhos atentos n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s palavras, mas \u00e0 forma como Natasha as dizia. Aquilo n\u00e3o era frustra\u00e7\u00e3o profissional \u2014 era algo mais \u00edntimo, mais raro. A Vi\u00fava Negra n\u00e3o era facilmente superada. E perdoava menos ainda quando era.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela destruiu tudo \u2014 Natasha murmurou, os olhos voltando ao mural agora apenas em fragmentos enegrecidos. \u2014 O esconderijo foi montado pra ser encontrado porque ela me queria aqui. Um rastro falso&#8230; mas tamb\u00e9m uma mensagem. E ela fez quest\u00e3o de levar as respostas embora.<br>\u2003\u2003Fury manteve-se em sil\u00eancio por alguns segundos, analisando o local ao redor com um olhar atento. As pegadas paravam antes da sa\u00edda, e n\u00e3o havia digitais \u00fateis. Tudo limpo. Deliberado.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas ela deixou algo. \u2014 Natasha enfiou a m\u00e3o boa dentro da jaqueta e retirou um pequeno envelope plastificado. Entregou ao diretor sem tirar os olhos dele. \u2014 Praticamente jogou em cima de mim antes de sair&#8230; talvez tenha deixado de prop\u00f3sito.<br>\u2003\u2003Fury pegou o conte\u00fado com cuidado. Dentro, havia tr\u00eas fotografias. Uma delas mostrava uma beb\u00ea rec\u00e9m-nascida, enrolada num cobertor claro, com olhos absurdamente azuis e express\u00e3o tranquila \u2014 no verso, uma data escrita \u00e0 m\u00e3o com letra cursiva firme: <strong>31\/10\/1991<\/strong>.<br>\u2003\u2003A segunda foto mostrava uma mulher elegantemente vestida, com um sorriso que n\u00e3o alcan\u00e7ava totalmente os olhos, os mesmos olhos da crian\u00e7a. Ela tinha cabelo escuro, maquiagem leve, e estava sentada \u00e0 mesa de um restaurante chique. A mesma data escrita no verso.<br>\u2003\u2003A terceira imagem era mais antiga: Tony Stark, num evento qualquer, talvez um coquetel corporativo, ainda com aquele ar de arrog\u00e2ncia levemente encantadora. Essa, curiosamente, n\u00e3o tinha data. Apenas um pequeno detalhe em comum com as outras: o fundo da fotografia parecia ter sido recortado e depois colado de novo.<br>\u2003\u2003Fury girou as fotos nos dedos, o cenho franzido. Era justamente aquilo que Tony queria esconder.<br>\u2003\u2003\u2014 Nunca vi antes \u2014 Natasha continuou. \u2014 Mas ela se parece com algu\u00e9m. N\u00e3o sei dizer com quem. Tem algo nos tra\u00e7os&#8230; algo familiar.<br>\u2003\u2003\u2014 Preciso ver o Stark.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contando CorvosUm para tristeza,Dois para alegria,Tr\u00eas para um funeral,Quatro para nascimento.Cinco para prata,Seis para ouro,Sete para um segredo que nunca ser\u00e1 contado. Oito por um desejo,Nove por um beijo,Dez por uma surpresa que voc\u00ea deve ter cuidado para n\u00e3o perder,Onze por sa\u00fade,Doze por riqueza,Treze \u2014 cuidado, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo. \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2504],"class_list":["post-10408","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}